Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

Ilustres Flavienses - Dom Afonso, I Duque de Bragança, 8º Conde de Barcelos

 

 

 


 

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Acho que já o disse aqui que ao longo da minha vida estudantil nunca fui grande amante de história, mas aos poucos e com a idade, lá me fui interessando pela nossa história, principalmente por aquela que directa ou indirectamente estava e está ligada a Chaves.

Ainda me lembro de em 1970 ser “convocado oficialmente”, tal como todos os estudantes de Chaves, para assistir à inauguração da Estátua do Duque, que ainda hoje se encontra em frente ao edifício da Câmara Municipal. Na altura a inauguração foi feita com pompa e circunstância pelo Sr. Presidente da República, dai a razão da “convocatória oficial”.  Tal como o Presidente da República, também eu vi então a estátua pela primeira vez, sem saber ainda de quem se tratava. Reparei depois que se Tratava do I Duque de Bragança, 8º Conde de Barcelos.

Confesso que não entendi muito bem e também ninguém me explicou porquê é que na praça principal de Chaves erguiam uma estátua de um Duque de Bragança, que também era Conde de Barcelos e não tinha nenhum título de Chaves.

Na altura não entendi, mas hoje trago-o a este blog como um Ilustre Flaviense, mesmo sendo Duque de Bragança, Conde de Barcelos e tendo ele nascido em Veiros no Alentejo, porque de facto assim é, podemos mesmo considerá-lo um dos mais ilustres flavienses de sempre e, até tem sido por isso mesmo, que à praça onde está a sua estátua, este blog passou há meses atrás a chamar-lhe Praça do I Duque de Bragança, em vez do nome que por lá consta.

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Nos meus tempos de estudante de história aprendi que um facto histórico tem sempre mais que uma versão. Ao longo dos últimos anos tenho andado à procura das versões ao respeito do nosso Duque, que com a Internet, aumentaram. De entre todas as versões que encontrei, mesmo por entre alguns fóruns em que se discute o seu nome e que só baralham, além de muitas estupidezes à mistura, encontrei duas que fazem jus ao Dom Afonso, I Duque de Bragança. Uma de autoria de Firmino Aires e que a seguir vos deixo na integra, que está publicada no Livro Toponímia Flaviense, 1980. E outra de autoria de Francisco Vítor Magalhães, publicada no Jornal Trissemanal Regionalista Ecos de Basto, para o qual deixarei link no final deste post.
 
Retrata assim Firmino Aires a vida de Dom Afonso:


Era D. João filho natural de D. Pedro I e Teresa Lourenço. Cedo deu entrada no Mosteiro de Aviz, onde viveu durante alguns anos.  Nas frequentes visitas às terras da Ordem de Avis, em Veiros (Estremoz) apaixonou-se por uma bela rapariga, chamada Inês Pires, da qual teve dois filhos ilegítimos: D. Afonso que viria a ser o 8.º Conde de Barcelos e fundador da Casa de Bragança, e D. Brites que viria a casar em Inglaterra.

Aos onze anos (1382) D. Afonso foi mandado para o Castelo de Leiria, onde viveu em situação anónima. Viria mais tarde evidenciar-se nas batalhas de Trancoso, Aljubarrota e Valverde.

Em 1398, por ocasião do Cerco de Tuy, foi armado cavaleiro por seu pai.

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Certo dia, D. João I, seu pai, volta-se para D. Nuno Álvares Pereira, propondo que a sua filha D.Brites, casasse com seu filho D. Duarte, então, com oito anos apenas. Contrapõe D. Nuno que a sua filha era mais razoável casar com o seu filho mais velho, D. Afonso, então com 29 anos, com a condição de que este fosse perfilhado. Consentiu El Rey, tendo assinado a carta de perfilhação em 20-10-1401, constando:  e legitimamos o dito D. Affonço meu filho o mais compridamente que nos podemos fazer ... (1)

Por seu lado D. Nuno doou a sua filha todas as terras a Norte do rio Douro. O casamento efectuou-se em Lisboa em 8-11-1401, tendo assistido El-Rei e o condestável, rezando assim:

... E houve umas vodas mu homrradas, a que vierom todollos Senhores e pessoas notaveis do Regno, em que houve justas e torneios e muito prazer de matinadas e outros juogos ... (2)

Terminados os festejos do casamento, o jovem casal escolheu para a sua residência a velha vila de Chaves. Assim residiu o Duque todo o tempo que pôde na Vila de Chaves, onde teve pomposa Casa, nela edificou hum Palácio ... (1)

Quando se sediou em Chaves, começou a pedir e a obter vários benefícios, como sejam: criação de um couto de homizíados (3), a formação da Colegiada (4) e o estabelecimento de uma feira anual (3 e 5).

Em Chaves lhe nasceram os seus três filhos: D. Isabel, D.Afonso e D. Fernando. A escolha da sua morada em Chaves, foi ter muitos bens ao Norte e não possuir então casa acastelada, como convinha aos nobres. Ali os Condes sentiram-se bem naquela fortaleza que havia sido construída pelo seu antepassado D. Afonso III, Rei de Leão, em 888, e reedificada mais tarde por D. Dinis, 3º avô do Conde.

Após o falecimento de D. Brites, sua mulher, em 1412, D. Afonso retirou-se para Barcelos, depois de já ter começado a construção dos seus Paços.

Passaram-se vários anos após a morte da Condessa de Barcelos, D. Beatriz Pereira, sem que D. Afonso tivesse interesse em se casar novamente.

Seu pai acabou por convencê-lo, vindo a casar-se com a jovem asturiana, D. Constança de Noronha, moça com 16 anos, casamento que se efectuaria em 23-7-1420, em Sintra.
Apesar de o Conde já ter 51 anos, tudo correu da melhor forma. Casada durante 41 anos, ela foi a companheira dilecta do Conde de Barcelos, seguindo-o em todos os triunfos e vicissitudes. Foi considerada a mãe dos pobres. Faleceu em Guimarães em 26-1-1480, com cheiro de santidade.

A construção dos Paços, em Chaves, deveria ter começado por 1410, quando ainda era viva D. Brites, devendo ter sido concluída em 1446. Os Paços deveriam ser construídos a Norte e a Nascente da Torre de Menagem, e o seu Albergue, onde está o Hospital da Misericórdia.

D. Afonso tinha um espírito esclarecido pelas muitas viagens que fazia, relações contraídas e muitos bons livros que lia.
Foy inclinado às boas letras, ocupando-se na lição dos livros ainda na maior idade. Fez estimação dos Eruditos, e grande apreço nas memórias e cousas antigas. Teve livraria que adornou de várias antiguidades, e muitas trouxe quando andou fora do Reyno, formando assim huma casa de cousas raras que, hoje chamão Museo. (1)


Entre outras acções, é de lembrar por exemplo que D. João I, receando uma invasão castelhana em 1419, já depois do tratado de paz com Castela, encarregou seu filho, o Conde D. Afonso, de ir para Bragança, a fim de impedir os invasores e defender o Reino. (6)

Todavia, é preciso acrescentar, só alguns anos mais tarde e alguns dias após a Batalha de Alfarrobeira, é que o Rei D. Afonso V fez passar uma carta concedendo ao seu tio D. Afonso, Duque de Bragança, as vilas de Bragança e Outeiro, com seus castelos.

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Nestas condições, ficava fundada, desde 1442, a Casa de Bragança, cujo primeiro representante era D. Afonso, filho legitimado do Rei D. João I, 8.º Conde de Barcelos e, a partir deste momento, 1.º Duque de Bragança. (5)

S. Teria sido por esta época, após 1442, que D. Afonso quis educar e disciplinar o povo, fundando a Confraria da Nobre Cavalaria de Santiago, em Bragança e Confraria da Nobre Cavalaria de S. João Baptista, em Chaves,
à qual fez eftatutos, que por tempo fe perdêrão; e eftando a dita Confraria algum tanto atenuada, fe tornou a renovar no anno de 1625 ... e fe fizerão novos eftatutos pelo que fe fabia dos antigos. (4)


Viveu D. Afonso as suas últimas décadas na vila de Chaves. Sua vida teve seu termo, em dia desconhecido do mês de Dezembro de 1461. Certamente que todas as igrejas do velho burgo, doridamente, tocaram a finados pelo desaparecimento daquele flaviense adoptivo e protector da Vila. Viveo noventa e hum annos, foi fepultado em fepultura raza na Capella maior da Igreja Matriz da dita Villa, e dalli foi transladado para o noffo Convento da Veiga, fendo ainda de Clauftraes, e colocado em nobre maufoleo na Capella maior da Igreja á parte do Evangelho; e quando viemos para o fítio, onde hoje eftamos, trouxemos os feus offos com o mefmo maufoleo para o Convento novo (de N.ª S.ª do Rosário ou S. Francisco) (4)

Porém, os restos mortais de D. Afonso não ficaram por aqui. Passados que foram quase cinco séculos, no dia 26-9-1942, com um modesto acompanhamento eclesiástico, saiu de Chaves a veneranda relíquia histórica, sem outra homenagem que não fosse uma simples formatura em alas, realizada por soldados do Regimento de Cavalaria n.º 6, às ordens do Capitão Manuel da Assunção Figueiredo, e uma marcha de continência, em que os clarins sentidamente evocaram a memória dos cavaleiros da Idade Média. Desde então repousa o velho túmulo no Panteão dos Primeiros Duques de Bragança, na Igreja de Santo Agostinho, em Vila Viçosa (5).

(1) – Sousa, A.C. de – Hist, Geneal
(2) – Lopes, F. – Crónica de D.João I
(3) – Chaceleria de D.João I
(4) – Santiago, Dr. Francisco de – Chr sa Santa Prov. Nª Sª da Soledade
(5) – Machado, J.T.Montalvão – Do artigo quando se criou a feira da Madalena, na Voz de Chaves de 18-7-1963
(6) – Azurara, G.E. de – Chr do Conde D.Pedro de Meneses


Já em Março deste ano eu trazia aqui ao Blog o tema do Duque, na mesma altura em que reclamava o seu nome para a praça onde tem a sua estátua e palácio, mas também pela questão do “roubo” do seu túmulo e restos mortais, onde por entre outros divagares, dizia:


“(…) No divagar e procura das janelas entretive-me com as da Praça de Camões, a tal que de Camões só tem o nome, pois tudo que por lá existe cheira a D.Afonso, I Duque de Bragança e, a verdade se diga, historicamente falando o Duque, embora não fosse flaviense de nascença, foi a cidade de Chaves que escolheu para viver grande parte da sua vida e também a cidade onde morreu e foi sepultado. Assim e sem qualquer pudor o digo que o Duque e tão flaviense ou mais que os flavienses que por cá nascem e tem mais direito à Praça que outro qualquer, seja ele Camões ou não.


Enfim, e já que quem manda nada faz pela Praça do Duque de Bragança, neste blog que é meu e sou eu quem mando, a partir de hoje fica decretado que a Praça de Camões passa a chamar-se Praça de D.Afonso – 1º Duque de Bragança.
 (…)
Mas ia dizendo que por aqui viveu a sua vida e viveu-a quase durante 60 anos, até 1461 quando morreu com 91 anos.


D.Afonso, I Duque de Bragança foi sepultado em Chaves e em Chaves se manteve sepultado durante 481 anos, ou seja desde 1461 até 1942,   ano em que nos roubaram o seu túmulo para o levar para Vila Viçosa, no Alentejo.

 

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Não admira que o Duque até vire as costas ao poder, pois pelos vistos os roubos à cidade já não são de hoje e sinceramente não compreendo como é que os flavienses dos anos 40 deixaram trasladar o túmulo e os restos mortais do nosso duque, porque o duque é nosso, pois foi esta a terra que ele escolheu para viver, para ter os seus filhos, para morrer e ser sepultado. Acho mesmo ser uma ofensa à história e à vontade do Duque, pois foi sua vontade ser sepultado em Chaves e tal como dizia o poeta “ a um morto nada se recusa”.
(…)
O engraçado da questão é que durante a Monarquia que durou até 1910 nunca houve nenhum Rei, duque, conde ou nobre que pusesse em questão a sua sepultura em Chaves e tiveram de ser os Republicanos a deixar e permitir que tal acontecesse. Não é com este desrespeito pela história que as famílias republicanas de Chaves entrarão nela, pois cá se fazem, cá se pagam, diz o povo e o povo tem sempre razão. Republicanos com o Rei na barriga e entretanto os de Vila Viçosa, republicanos também, chamaram a eles um Duque da Monarquia, e,  ainda contam anedotas dos alentejanos…


Penso que o túmulo do Duque é nosso e nunca deveria ter de cá saído, mas quem sou eu para exigir seja o que for. Só quase me resta lamentar e acrescentar este a muitos outros lamentos.

Fica o link prometido para o artigo de Francisco Vítor Magalhães, publicado no Jornal Trissemanal Regionalista Ecos de Basto, que deverão ler, pois acrescenta e dá mais um pouco a conhecer do Dom Afonso, I Duque de Bragança e a partir de hoje, que nenhum flaviense que frequenta este blog diga que não sabe o que é que aquele duque da estátua tem a ver com Chaves. Link para o artigo:  aqui

 

Créditos: Blog da Rua 9  e Ilustração de abertura do post, da Biblioteca Nacional de Portugal de autoria de Carolus Ant. Leoni Florentinus Deli (1745-1774) e M.Auberte Sculp, publicada em 1755 com as dimensões (sem letra) de 29,5x20cm.

 

À excepção da gravura, todas as fotos publicadas no post de hoje são de arquivo e já foram publicadas em anteriores posts.


Até amanhã!

.
 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 03:09
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1 comentário:
De Site de busca a 18 de Junho de 2009 às 01:26
Adorei o blog
Alem de ser interessante
Muito criativo
parabens
bjos


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