Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

Discursos Sobre a Cidade

 

Texto de Blog da Rua Nove

 

 

(I)

 

O inspector recordava-se muito bem da rua e do hotel.

 

Hospedara-se ali havia uma dúzia de anos, ainda agente, quando viera participar numa operação de fronteira. Dias difíceis, aqueles, em que militares, a GNR e os serviços da sua polícia tinham tido trabalhos redobrados para resolver uma situação delicada. (“Delicada? Delicada uma porra!”, pensou. “Haviam morrido homens, haviam-se desfeito famílias…”) Não tinham bastado as geadas, a lama nos caminhos e nos montes, o colaboracionismo entre famílias portuguesas e espanholas a prolongar a resistência, o Natal estragado. Não. Houvera ainda que abafar muitos pormenores, passar a versão de banditismo para os jornais e tratar do assunto com as autoridades espanholas. (“Uma porra, uma porra!”)

 

Nos degraus do hotel, observava agora a rua estreita, entretanto transformada num pequeno mundo. Um mundo de província, agitado aqui e ali por acontecimentos que não seriam notícia em lado nenhum. À sua frente, uma escadaria deixava a rua, subindo a encosta que levava aos bairros medievais. À esquerda, algumas casas pareciam amparar o pano de muralhas, abrigando oficinas de sapateiros e correeiros. Nessa extrema, de quando em quando, agitavam-se as gentes e partiam algumas camionetas para as aldeias. As carreiras do Teodoro, concorrentes das carreiras de Braga.

 

Na opinião do inspector, nem se poderia falar de concorrência… Menos de meia dúzia de viagens por dia, passando por Boticas e Montalegre, era o uso que a empresa Magalhães fazia da sua concessão, enquanto a Auto-Viação assegurava as rotas mais lucrativas, para Valpaços, Vila Pouca e Vila Real. Mas as pessoas achavam que o facto de os escritórios se situarem no outro extremo da rua, já quase no Arrabalde, testemunhavam concorrência.

 

De lábios cerrados e sorriso fungado, virou-se para a sua direita, perscrutando as camionetas de Braga e a exiguidade dos escritórios – uma porta estreita, à direita, e um caixilho de madeira, envidraçado a quatro quintos, à esquerda. A maior parte dos passageiros aguardava as partidas no passeio. No interior, na escuridão do tugúrio, acumulavam-se apenas as encomendas, como ele bem sabia.

 

Enquanto deixava que a imagem cinzenta das camionetas se diluísse por entre o fumo do cigarro e o granito, olhou para o largo. Haviam tirado dali as velhas árvores e o mercado. Agora, a praça era rematada pelo novo edifício do tribunal.

 

                                                                                  (continua)

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publicado por blogdaruanove às 01:00
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