Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Discursos Sobre a Cidade - Como os dois...como os dois, por Gil Santos

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Texto de Gil Santos

 

 

COMO OS DOIS...COMO OS DOIS

 

Há muito muitos anos, no tempo em que os animais ainda falavam… morava ali para os lados da Rua do Sal, nas traseiras da Câmara Municipal, o casal dos Carriços. Vivia numa casa arrendada, com apenas dois compartimentos, de exíguas dimensões, onde mal cabia a enxerga em que repousava, à noite, da labuta, dura, do quotidiano. O Carriço e a Carriça, miudinhos como o pássaro da alcunha, lutavam arduamente para sobreviver. Partilhavam cama e mesa há mais de uma vintena de anos. Não alcançaram descendência – deles – por mor de um trágico acidente sofrido pelo Carriço aos vinte anos. Trabalhava ele de aprendiz, com mestre Constantino do Barde, uma espécie de empreiteiro, nascido da genuína arte de chapar massa. Cresceu Constantino, para este ofício de empreiteiro de obras, à força do empenho que emprestava ao trabalho que fazia. Os patrões gostavam muito do seu desempenho e as seiras de barro amassado que lhe passaram pelo lombo, a que chamava bardes, fizeram-no duro e cumpridor, merecedor até da nomeada de que afinal se orgulhava. Lançou-se à vida independente através de pequenos biscates que fazia por conta própria. Como foi obtendo sucesso e ganhando uns pintos, passou a açambarcar, com alguma ganância, qualquer trabalho que lhe aparecesse. Na altura, a madeira, a pedra e o barro eram os principais materiais usados na construção civil. Os telhados cobriam-se com o colmo da palha centeia, malhada a maço nas eiras de pedra. As paredes exteriores das casas eram construídas, normalmente, em perpianho aparelhado e lavrado apenas para os de mais posses. As paredes interiores dos edifícios eram levantadas em tabiques de ripas de madeira de pinho, engrossadas com barro amassado pelas patas de juntas de bois a que se juntava palha moída.

 

Um certo dia - antes não tivesse nascido - mestre Constantino restaurava, de empreitada, uma casa senhorial na rua do Correio Velho. Era um palacete entalado entre as outras casas, com uma frente relativamente estreita e decorada com uma varanda de madeira de balaústres trabalhados ao gosto da maioria das varandas que ainda hoje fazem típico – lindo – o centro medieval da cidade. Uma casa antiga, que a máquina demolidora do tempo e a crescente crise da nobreza foi carcomendo e que exigia restauro urgente sob pena de ruir. A frontaria, com dois andares em granito trabalhado ao jeito arte nova, era robusta e pesada. No primeiro piso três janelas de guilhotina e no segundo a dita varanda de madeira, constituíam-se numa arquitectura quase vulgar e muito semelhante à maioria das casas daquela rua estrita. Não fora um visconde falido ter lá habitado e nada ou quase nada a faria distinguir das suas parceiras.

 

A uma das janelas do primeiro andar, era necessário retirar a madeira que a emoldurava pelo lado de fora e pelo de dentro. Para o efeito, Constantino pediu ao Carriço para encostar à frontaria do prédio uma escada de madeira de 20 lanços a fim executar o trabalho. Carriço fez como o mestre mandou e subiu. Emplouricado na escada ou escarrapachado na soleira, com um pé-de-cabra botou abaixo o que restava da madeira velha. Ficou a faltar-lhe tão só o aro interior que teimava em não cair. Confiando em que o sobrado, apesar de podre, ainda o sustentaria, saltou para dentro da casa. O soalho não aguentou o embate do peso – pluma – do Carriço e cedeu. O infeliz despenhou-se, em queda livre, até ao rés-do-chão dando com os odres no hall de entrada. Com a queda podia ele bem!... Porém, o azar foi tanto que, no movimento uniformemente acelerado, quando passava por uma das traves de carvalho que suportava os caibros onde assentava o sobrado, foi apanhado nos guisos por prego de meia galeota, que ali estava pregado e que servira para pendurar uvas, que o capou!...

 

Infeliz sorte a do Carriço!...

 

Gravemente ferido, recorreu aos serviços da Maria Paparrotas, uma curandeira da Ladeira do Forno, para evitar que lhe secasse de vez o abono de família. Contudo, apesar das estrigas e das rezas, foi a médica incapaz de lhe recuperar a capacidade procriadora e ficou matchorro para o resto da vida!

– Do mal o menos, inté podia ser pior – comentava a Hilda para justificar o namoro com o Carriço.

 

O defeito, a que ela chamava feitio, não deixou, apesar de tudo, de os privar de juntar fazenda. A Hilda era uma moçoila rabisqueira e miudinha, filha de uma cabaneira de Santo Amaro. Muito preguiçosa, era dada a curtos rasgos de inteligência prática. Fazia o caldo, cozia uns – ralos – remendos na roupa coçada do Carriço e pouco mais. O seu passatempo preferido era dar ao taramelo com as vizinhas sobre a vida alheia. Nessa arte da coscuvilhice era da mais refinada estirpe. Andava de Jou para Jales à cata de novidades e quase nada lhe passava despercebido. Conhecia os mais ínfimos pormenores da vida, mesmo íntima, de cada uma das vizinhas e genericamente a de todos os outros da vila. Então, nome que por qualquer motivo não lhe chaldrasse, estava condenado à lama!

 

Apesar da pobreza, franciscana, em que viviam eram felizes. O parco rendimento diário da jeira do Carriço mal chegava para pagar os cinco mil réis da renda que, religiosamente, o avarento Queirós exigia pelo casebre onde moravam. Mas que importava isso se, apesar de tudo, o pão nunca faltasse?! E de facto fome fome, a bem dezer, nunca passaram, mas peguilho era raro avezarem. Ao domingo, apenas quando o rei fazia anos, lá rojavam uns cibos de toucinho que alguma vizinha oferecia à Carriça para pagar o favor de espalhar um qualquer boato e que ela escondia religiosamente na abada para que ninguém visse. Fora isso estavam praticamente condenados a caldo sem unto, bem entendido e a côdeas secas de pão centeio.

 

O Carriço não jogava nem bebia. Para um homem daquele tempo eram predicados raros que enchiam de orgulho e vaidade a sua dama. Por toda a vila se ouvia falar destas virtudes. Contudo, pelos cantos, infelizmente, falava-se de outra coisa!... É que a Hilda, sua esposa, para além do vício de mulher de soalheiro, também tinha a fraqueza de pousar noutros poleiros procurando, evidentemente, o que o Carriço não lhe podia dar. E destas aventuras profanas e desavergonhadas a que correspondiam veadescos enfeites para o infeliz, falava-se à boca pequena pela vila. Somente ele não sabia de nada, como aliás faz parte destas coisas.

 

Ora um dia o caldo entornou-se!...

 

A Carriça embeiçou-se pelo Godofredo, um manhoso marialva da Rua do Sol, que passava a pente fino toda as fêmeas que dessem o flanco. Conquistava-as, levava-as para o pinhal do Feitor e acertava-lhes o passo! À Hilda calhou-lhe esta sorte pelo S. Martinho. Porém, desta vez a infelicidade foi tanta que daquela vez emprenhou. Bem tentou um desarranjo com um ramo de salsa mas não resultou!...

 

Ora, quando começou a notar-se o barrigo o falatório cresceu de tom e passou à boca cheia. Uns afirmavam, a pé junto, que o Carriço teria recuperado, por milagre da Santa Maria Maior, das consequências do maldito prego, outros que o rebento haveria de ser de um outro marmanjo qualquer…

 

Evidentemente que o Carriço, quando se apercebeu que a barriga da mulher inchava e tendo a firme certeza que não era de um fartote de leitão, acreditou, deverias, que se teria operado um divino milagre da Virge Santíssima!

 

Pelo Verão a Carriça pariu um rapagão de três quilos. Mas para surpresa do mundo o rapaz era preto!... O Carriço, de brutinho que era, tomou as culpas ao facto da mulher ter andado de apetites a chicolate e ele não ter tido a oportunidade de a satisfazer. Resignou-se ao facto, mas ficou com a pulga atrás da orelha.

 

Ora uma bela noite, já o pimpolho alinhava as primeiras palavras, tinham para jantar o raro manjar de três ovos cozidos. Combinaram a seguinte partilha: um ficaria para o Carricinho que precisava de crescer, os demais haveriam de ser comidos por aquele que entre os dois falasse primeiro. O Carriço, manhoso, para obrigar a que fosse a Hilda a primeira a quebrar o acordo, fez-se de morto atirando-se desamparado para o chão. A pobre mulher, pensando que ele estaria de facto cadáver, saltou a gritar como as carpideiras, mas sem que daquela garganta saísse uma palavra que fosse. A vizinha Artura, viúva de um sargento falecido na defesa da Praça de Chaves na 2ª Invasão Francesa, quando se apercebeu da gritaria, precipitou-se para a casa dos Carriços. Entrou e dando conta do sucedido, correu para a rua em alta gritaria pela desgraça a que assistia.

 

O Carriço mantinha-se firme e hirto!

 

Perante o que parecia ser uma morte efectiva, encomendou-se o funeral ao cangalheiro Medeiros da Rua Direita. Por falta de espaço em casa, o velório haveria de se fazer na igreja da Misericórdia. À noite, como era hábito, rezava-se o terço pela alma do defunto e consolava-se a viúva. O Carriço assistia, morto, a todo este espectáculo e deliciava-se na urna com as palavras dos amigos que nestas ocasiões relevam sempre o que em vida o defunto valeu! Com o cheiro nos ovos, aguentou aquela desgraçada noite dentro do caixão de pinho, dos baratos! À mulher não havia maneira de se ouvir palavra que fosse! Parecia de propósito.

 

- Rais te fonha Carriça, hádes cair!... pensava ele.

 

No dia seguinte fez-se o funeral. A urna foi levantada da igreja depois das exéquias fúnebres, evidentemente sem ofício cantado, seguindo de carreta para o cemitério da Trindade. Ao subir a ladeira que do actual Largo das Freiras dá para o Forte de S. Francisco, a Hilda sempre deu de si acreditando que, de facto, o Carriço tinha ido desta para melhor e saltou a gritar:

 

- Ai home da minha vida que me vais deixar desemparada!...

 

Quando o Carriço, na urna fechada, ouviu tais palavras, deu um couce na tampa e saltando da carreta berrava:

 

- Ai rapazes que afinal como os dois, como os dois… como os dois!...

 

Claro está que o muito povinho que acompanhava o mortório, quando se deu conta do sucedido, botou fugir o mais que pôde, pelo pavor que uma acontecimento tão inusitado causava.

 

O sacristão da Misericórdia que era manco da perna direita por ter sido atropelado em pequeno por uma carroça de mulas em fúria, a quem chamavam o “um quarto p’rás nove” enquanto fugia, manquitando rua do Olival abaixo, gritava:

 

- Fuginde catano, ai de mim e doutro. Um sou eu, quem será o outro?...

 

Claro está que o Carriço, mortinho de fome por ter feito de defunto tantas horas, precipitou-se para casa para mamar os dois ovos que há tanto tempo, ainda, esperavam por si!

 

Custou, mas valeu a pena!...

 

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publicado por fernando ribeiro às 02:40
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2 comentários:
De J. Pereira a 16 de Janeiro de 2009 às 13:18
Magnífico!...


De Gil Santos a 16 de Janeiro de 2009 às 14:28
Meu amigo:
Uma única palavra bonda para acender ainda mais a vontade de pugnar pelas coisas da nossa terra.
Muito obrigado.


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