Domingo, 7 de Março de 2010

Chaves - Não há sabores e saberes sem valores

 

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Pelos caminhos e apostas que se vão fazendo por aqui (concelho de Chaves) não sei como será o futuro desta terra. Ao longo das últimas dezenas de anos, Chaves foi perdendo a sua importância estratégica, não só geograficamente bem localizada como uma cidade de fronteira onde comercial e militarmente marcava pontos, mas também como o centro, também comercial, de serviços, de saúde e de ensino de uma região que englobava quase todos os concelhos vizinhos, principalmente o de Boticas, Valpaços, Montalegre, Vila Pouca, Vinhais e Ribeira de Pena.

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Más apostas do passado, a abolição das fronteiras, o despertar e aproveitamento de oportunidades dos concelhos vizinhos, o acordar de Vila Real ao valer-se de ser capital do distrito e o desprezo de Lisboa pelo interior aliado ao centralismo dos últimos anos, sem esquecer o factor importante da emigração que iniciou o despovoamento do meio rural, fazem com que Chaves, cada vez mais, vá perdendo a sua importância como cidade e como “líder” de uma região. Como flaviense, custa escrever estas palavras e descer à realidade, mas convém não andarmos iludidos.

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Embora a verdade custe, tem que se enfrentar, e se por uma lado Chaves tem perdido a sua importância devido a machadas que nos são dirigidas do exterior e das capitais do poder, também nós não temos sabido reagir às agressões externas, por sujeição, apatia e conformismo do povo mas também pela classe e qualidade política que temos tido nos detentores do poder e oposições dos poderes locais, que entre devaneios, lutas por alcançar e garantir o poder, incompetências e pouca visão, se têm limitado e gerir e copiar sem saber inovar, reivindicar e afirmar-se como o centro sustentável de uma pequena região. Aliás o problema de Chaves sempre esteve na sustentabilidade das suas políticas, ao apostar em projectos sem sustentabilidade e sempre dependentes de investimentos do exterior ou do estado, não sabendo impor-se e desprezando mesmo aquilo que é nosso e temos de bom.

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Não sou iluminado nem político, nem especialista em nada. Sou apenas um cidadão comum que teve a felicidade e infelicidade de ter nascido em Chaves, a felicidade e infelicidade de gostar de Chaves, a felicidade e infelicidade de aqui ter constituído família e a felicidade e infelicidade de manter-me na terra que me viu nascer. Não sou pecador por isso, por ser resistente e não ter ousado partir. Fiquei e assumo que fiquei, por isso não é demais querer mais para Chaves e sofrer ao ver como Chaves se perde sem políticas sustentáveis de futuro, quando por cá, temos tudo para nos podermos afirmar com o que temos de bom, que desprezamos e que muitos gostariam de ter e não têm.

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Há quem diga que nos falta o mar… pois falta e desiludam-se que tão cedo também não o vamos ter. Mas temos montanhas e vales, rios e riachos, florestas e terras de cultivo, muita natureza, usos e costumes, hospitalidade, couves, batatas e grelos, artistas,poetas e músicos, história milenária, o dom da água quente e, sobretudo, uma boa mesa que se pode acompanhar com bons vinhos também nossos (assim os façam e saibam fazer) e um dom natural para o despertar, mas também para convívio com a noite, sem esquecer o clima, diversificado e para todos os gostos…

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História, cultura, natureza, arte, vales e montanhas, clima, usos e tradições, gastronomia, hospitalidade e a genuinidade de um povo nos seus usos e costumes por aproveitar, em suma, os sabores, valores que são valeres para nos podermos afirmar, com coisas simples, genuínas, sem sonhos, devaneios e imitações. Afinal basta assumi-nos como somos e com o que temos para podermos ser alguém, basta aproveitar os nossos recursos, a nossa gente, sem pavões, políticos e politiquices que apenas anseiam o poder e não conseguem olhar para além do seu umbigo com a única preocupação (e se não é,  parece) de garantir egoistamente o seu bem estar e o futuro e da sua tribo restrita apenas a alguns seguidores. Chaves é de Chaves e de todos os flavienses, não é apenas de meia dúzia de políticos e pavões que ditam e fazem de Chaves o que querem e que por incompetência e/ou interesses, se estão a marimbar e a desprezar um futuro sustentável para a cidade e o concelho de Chaves.

Hoje em imagem, deixo-vos instrumentos de um povo que também se vão perdendo sem haver qualquer interesse manifesto em preservá-los cá para testemunharem a história e estória de um povo que fez deles o seu sustento durante décadas e que com eles conseguiram o dinheiro para educar (alguns) filhos ingratos … até parece que por aí, há, quem tenha vergonha do berço…

 

E termino com uma imagem onde está uma vestimenta que muitas vezes deveria ser usada em vez de uma gravata.

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Moral do post: De nada valem os sabores e saberes de uma terra se não houver valores!

 

Adenda à moral do post: … e verdade!

 

Desculpas: Para Mairos e Dorna, a quem roubei as imagens das coisas de um passado e valores que preservam.

 

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 04:16
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2 comentários:
De CSousa a 7 de Março de 2010 às 16:49
Fiquei contente por encontra este blog sobre a cidade de chaves que encontrei por mero acaso. Parabéns pelas fotos e pelos textos. Concordo consigo, a riqueza de um povo está na sua história, cultura, hospitalidade e genuinidade! Espero que não se estrague!


De riolivre a 7 de Março de 2010 às 22:25
A albarda assenta que nem uma luva à esmagadora maioria dos que, avessos à democracia participativa, teimam em usar a putativa legitimação que o voto dos eleitores lhes confere para, do alto do poder adquirido (leia-se comprado), fazerem aquilo que muito bem lhes apetece.
É tempo de os flavienses reflectirem maduramente e, definitiva e decididamente afastarem esses azougueiros que insistem em fazer crer que sem eles o concelho não sobreviverá. E a melhor forma de o fazer é acreditar que não faltam grandes homens e mulheres flavienses que, sem estarem aprisionados à partidarite que tanto mal nos tem feito e teima continuar a fazer, podem e devem ser apoiados para que possamos ter à frente dos destinos do concelho e da nossa cidade, finalmente, gente competente, séria, nobre, prenhe da imprescindível lhaneza transmontana, enfim, gente que persiga os valores que defendes no teu texto ( e no teu dia-a-dia, bem o sei), pois, só dessa forma poderemos, então, ombrear com os que nos ultrapassaram, não tanto por mérito próprio mas, e isso é que de facto dói, por demérito dos flavienses, por força exactamente desse conformismo (ou amorfismo?) que tão bem sublinhas.
Obrigado Fernando pela bela lição que nos deixas com este texto e com as fotas que o ilustram. Crê que não estás só nesta luta, mesmo que qontinuem a chamar-nos ingénuos ou líricos.


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