Quarta-feira, 22 de Junho de 2011

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

O Professor Carvalho era dos lados de Bragança e próximo do fim de carreira veio parar ao Liceu Nacional de Chaves.


De porte altivo e austero, no quotidiano docente vestia invariavelmente fato, onde dificilmente se vislumbravam rugas, a contrastar com o rosto e as mãos compridas, na qual eram visíveis os sulcos do tempo. As camisas eram engomadas, de uma alvura semelhante aos cumes das altas montanhas no inverno e no final das mangas entreviam-se discretos botões de punho. Acompanhava a camisa, uma camisola de lã com mangas ou sem elas, de acordo com as estações. Usava gravatas lisas e no outono e inverno era inseparável de uma gabardina escura e um pesado guarda-chuva. Cobria a cabeça e o cabelo curto, no qual já se viam bastas cãs, com um chapéu “borsalino”.

 


Era distante no trato e de costumes rígidos.


Não surpreendia que fosse professor de língua alemã.


Dizia-se dele, nos primeiros tempos, que exigia dos alunos o uso obrigatório de gravata. Certo é, que os contínuos, numa época, apenas permitiam o acesso aos estudantes engravatados, o que colocou em moda as gravatas com elástico, dinamizou as lojas de vestuário da cidade e puxou pela imaginação dos alunos que inventaram diversas formas de substituir as ditas …


Na aula e como professor de línguas estrangeiras era diferente dos outros.


Após as primeiras aulas, as que lhes seguiam, quase todas elas decorriam sob o domínio, na maior parte do tempo, da língua que ensinasse, no que a mim se refere, a língua alemã.


Dos iniciais senhores e meninas - a turma era mista -, converteu-nos em “herren” e “frauleins”, sem naturalização ou passaporte.


Tínhamos-lhe mais que respeito e alguns de nós, autêntico pavor; um destes, já homem feito, em comparação com grande parte da turma - sendo eu, dos mais jovens -, quando chegava o momento de ler o texto diário ou comentá-lo, sumia-se literalmente sob o tampo da carteira na tentativa vã de alcançar a invisibilidade, que um sonoro “Herr…”, fazia regressar à aula e tremer dos pés à cabeça.

 


Tanto “respeito” lhe tinha, que, apesar de ser bom aluno, receava até faltar às aulas… Apenas faltei à última.


A derradeira aula do ano, a primeira do período da tarde, mais ou menos por esta data, princípios de Verão, coincidia com um jogo de andebol do Liceu contra a Escola Comercial e Industrial Dr. Júlio Martins.


Jogos de uma rivalidade extrema e nos quais, quase sempre a Escola levava a melhor, embora nas minhas contas, tal não sucedesse, pois contava uma vitória no único jogo oficial que tivera até ali… ainda que fosse por falta de comparência do adversário.


No entanto, é certo que havia a tradição de o Liceu ser melhor em voleibol e a Escola em andebol.


Ora, sendo a última aula e tendo a justificação de jogar andebol, nem pensei duas vezes…


A poucos minutos da aula, descia as escadas do antigo Mercado Municipal, com o saco de embarcadiço a tiracolo, que usava para transportar as sapatilhas e o equipamento, a caminho da Escola, quando deparo a subir o Professor Carvalho.

 

Foto de Dinis Ponteira


Por instantes, pensei em voltar atrás.


Mas, que diabo…! Era a última aula e ia jogar em representação do Liceu…!


Retomei o passo e quando passamos um pelo outro, eu fiz tudo para mostrar o saco de lona como a justificar o meu procedimento. Falar-lhe… hoje creio, que por certo ele aceitaria falar comigo e compreenderia… Mas, então…


O que se passou a seguir foi estranho.


O Professor Carvalho, perante os meus esforços em evidenciar o saco, sorriu e posso dizer que eram raras as vezes que sorria, e pareceu-me que naquele momento fugaz entre os dois, correu célere todo o ano e no final surgiu um entendimento cordial … Para ele eu fora um aluno aplicado e da minha parte, não só o compreendera, como passara a admirá-lo como um excelente professor.


Quanto ao jogo, esqueci o resultado… mas posso dizer que joguei bem.


Mais tarde vim a saber, quando frequentava a Universidade, que fora colega do Professor Paulo Quintela, e como ele, pertencera à oposição ao regime de Salazar.


Não estranhei, por que no sexto ou sétimo ano, incentivado pela professora de história, assisti a um colóquio realizado à noite, na Associação Comercial de Chaves, na Rua de Santo António, sobre o IV Plano de Fomento do governo do Professor Marcelo Caetano.


Entre a assistência encontravam-se os ilustres da cidade e recordo que um dos oradores convidados era o Rogério Reis, que costumava publicar artigos de carácter regional no jornal “O Primeiro de Janeiro”, que lia.


Não conhecia o Professor Carvalho, nem pensava poder tê-lo como professor.


Após os oradores oficiais ou convidados, seguiram-se várias intervenções.


Acabara de falar o Doutor Mário Carneiro, quando do meio da assistência, uma pessoa comentou em voz alta: “Não podiam faltar as águas miraculosas do Doutor Mário Carneiro, para remédio de todos os males…!”


De imediato, o irmão, Doutor Francisco Carneiro, replicou: “Não podia faltar a costumada ironia do Doutor Carvalho … faço votos que não necessite das águas das Termas de Chaves!”


Foi o mais importante que retenho daquele colóquio …!

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:47
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3 comentários:
De hpombo a 22 de Junho de 2011 às 09:14
Bem podia a tua participação neste blogue tertuliano chamar-se "o homem com memória....", tal é a prodigiosa capacidade de relembrares factos triviais, ou a quotidiana indumentária das poersonagens deles, com o rigor de um repórter fotográfico. Porra, agora que li a tua crónica, também eu posso asseverar a sua integral veracidade, incluídos os diálogos sarcásticos, produzidos à margem do tal Plano de Fomento que uma madrugada de Abril não deixou executar.
O Dr. Carvalho, vulgo o 'Bosch', era de facto um amigo respeitador, competente, cordial, disfarçado numa irrepreensível altivez germânica. Fumava nas aulas, de janela entreaberta se o tempo não fosse de severa invernia, mas nunca sem antes nos pedir autorização "-Erlauben sie mir ein zigarrete zu rauchen?", e convenhamos que, aos 16 anos, poder autorizar um professor a fumar, era, apesar de tudo, um exercício de respeitabilidade recíproca. Era um tempo em que, até os vícios mais exorcizados hoje, podiam ser usados como boas e exemplares práticas de uma saudável relação pedagógica. Tão boa e saudável que perdurou fresca na memória de décadas...
Boa, Mário!


De fjr - barreiro a 22 de Junho de 2011 às 16:49
Como é bom recordar. Enquanto houver Mários e Betos Serra os belos anos da nossa cidade linda serão sempre recordados.

Um abraço aos dois!!!!


De Anónimo a 23 de Junho de 2011 às 00:19
É sempre com agrado que leio escritos onde bons professores são relembrados. Parabéns, gostei.Helena Gomes.


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