O Professor Carvalho era dos lados de Bragança e próximo do fim de carreira veio parar ao Liceu Nacional de Chaves.
De porte altivo e austero, no quotidiano docente vestia invariavelmente fato, onde dificilmente se vislumbravam rugas, a contrastar com o rosto e as mãos compridas, na qual eram visíveis os sulcos do tempo. As camisas eram engomadas, de uma alvura semelhante aos cumes das altas montanhas no inverno e no final das mangas entreviam-se discretos botões de punho. Acompanhava a camisa, uma camisola de lã com mangas ou sem elas, de acordo com as estações. Usava gravatas lisas e no outono e inverno era inseparável de uma gabardina escura e um pesado guarda-chuva. Cobria a cabeça e o cabelo curto, no qual já se viam bastas cãs, com um chapéu “borsalino”.
Era distante no trato e de costumes rígidos.
Não surpreendia que fosse professor de língua alemã.
Dizia-se dele, nos primeiros tempos, que exigia dos alunos o uso obrigatório de gravata. Certo é, que os contínuos, numa época, apenas permitiam o acesso aos estudantes engravatados, o que colocou em moda as gravatas com elástico, dinamizou as lojas de vestuário da cidade e puxou pela imaginação dos alunos que inventaram diversas formas de substituir as ditas …
Na aula e como professor de línguas estrangeiras era diferente dos outros.
Após as primeiras aulas, as que lhes seguiam, quase todas elas decorriam sob o domínio, na maior parte do tempo, da língua que ensinasse, no que a mim se refere, a língua alemã.
Dos iniciais senhores e meninas - a turma era mista -, converteu-nos em “herren” e “frauleins”, sem naturalização ou passaporte.
Tínhamos-lhe mais que respeito e alguns de nós, autêntico pavor; um destes, já homem feito, em comparação com grande parte da turma - sendo eu, dos mais jovens -, quando chegava o momento de ler o texto diário ou comentá-lo, sumia-se literalmente sob o tampo da carteira na tentativa vã de alcançar a invisibilidade, que um sonoro “Herr…”, fazia regressar à aula e tremer dos pés à cabeça.
Tanto “respeito” lhe tinha, que, apesar de ser bom aluno, receava até faltar às aulas… Apenas faltei à última.
A derradeira aula do ano, a primeira do período da tarde, mais ou menos por esta data, princípios de Verão, coincidia com um jogo de andebol do Liceu contra a Escola Comercial e Industrial Dr. Júlio Martins.
Jogos de uma rivalidade extrema e nos quais, quase sempre a Escola levava a melhor, embora nas minhas contas, tal não sucedesse, pois contava uma vitória no único jogo oficial que tivera até ali… ainda que fosse por falta de comparência do adversário.
No entanto, é certo que havia a tradição de o Liceu ser melhor em voleibol e a Escola em andebol.
Ora, sendo a última aula e tendo a justificação de jogar andebol, nem pensei duas vezes…
A poucos minutos da aula, descia as escadas do antigo Mercado Municipal, com o saco de embarcadiço a tiracolo, que usava para transportar as sapatilhas e o equipamento, a caminho da Escola, quando deparo a subir o Professor Carvalho.
Foto de Dinis Ponteira
Por instantes, pensei em voltar atrás.
Mas, que diabo…! Era a última aula e ia jogar em representação do Liceu…!
Retomei o passo e quando passamos um pelo outro, eu fiz tudo para mostrar o saco de lona como a justificar o meu procedimento. Falar-lhe… hoje creio, que por certo ele aceitaria falar comigo e compreenderia… Mas, então…
O que se passou a seguir foi estranho.
O Professor Carvalho, perante os meus esforços em evidenciar o saco, sorriu e posso dizer que eram raras as vezes que sorria, e pareceu-me que naquele momento fugaz entre os dois, correu célere todo o ano e no final surgiu um entendimento cordial … Para ele eu fora um aluno aplicado e da minha parte, não só o compreendera, como passara a admirá-lo como um excelente professor.
Quanto ao jogo, esqueci o resultado… mas posso dizer que joguei bem.
Mais tarde vim a saber, quando frequentava a Universidade, que fora colega do Professor Paulo Quintela, e como ele, pertencera à oposição ao regime de Salazar.
Não estranhei, por que no sexto ou sétimo ano, incentivado pela professora de história, assisti a um colóquio realizado à noite, na Associação Comercial de Chaves, na Rua de Santo António, sobre o IV Plano de Fomento do governo do Professor Marcelo Caetano.
Entre a assistência encontravam-se os ilustres da cidade e recordo que um dos oradores convidados era o Rogério Reis, que costumava publicar artigos de carácter regional no jornal “O Primeiro de Janeiro”, que lia.
Não conhecia o Professor Carvalho, nem pensava poder tê-lo como professor.
Após os oradores oficiais ou convidados, seguiram-se várias intervenções.
Acabara de falar o Doutor Mário Carneiro, quando do meio da assistência, uma pessoa comentou em voz alta: “Não podiam faltar as águas miraculosas do Doutor Mário Carneiro, para remédio de todos os males…!”
De imediato, o irmão, Doutor Francisco Carneiro, replicou: “Não podia faltar a costumada ironia do Doutor Carvalho … faço votos que não necessite das águas das Termas de Chaves!”
Foi o mais importante que retenho daquele colóquio …!


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