Quarta-feira, 29 de Junho de 2011

Palavras colhidas do vento... por Mário Esteves

 

Quando me afasto do trabalho para escrever estas crónicas, escritos ou que lhe queiram chamar, pela tardinha, não chega a um dia antes da sua publicação, assaltam-me toda a espécie de personagens, pessoas que na realidade conheci ou conheço; deixo para trás lugares como se os visse através dos vidros de um automóvel, respiro a resina dos pinheiros, o odor dos eucaliptos que me suavizava as longas viagens para Coimbra e me aplacavam os enjoos, sinto a areia ou alguma pequena pedra no interior do calçado e que me trilha os dedos dos pés, enquanto rumo, pelos caminhos da outrora Veiga úbere - agora em parte, terra maninha -, do Açude ou do outro lado do rio, Vale de Lagares, onde ao lavrar as leiras, diziam topar restos de tégulas romanas e se ocultar um caldeiro cheio de ouro, acompanhado de outros dois, que destapados, um deles libertaria um nunca acabar de flagelos, doenças, guerras e o outro cheio de excrementos para os coscuvilheiros, intriguistas …

 


É assim que nascem as crónicas, tão espontâneas como o vento que as traz.


Ora sereno, mal se apercebe, ora revoltado, abalando antenas de televisão e ramos de árvores, fazendo cair algumas folhas, mas não derribando árvores ou voar telhados.


O autor tem muitos defeitos e um deles, o maior - “gaba-te cesto que vais prá vindima”  -,  é ter bom coração! 


Seguindo nas suas asas, o vento, esta manhã, trouxe-me um pregão que escutei na rua Direita: “Ólhaaa a sardinha frescaaa…”!


Não era a Tia Ana, que deve estar reformada.


Era uma mulher de meia-idade, mas o aspecto gasto e desmazelado, aparentava mais, baixa de estatura, cabelos curtos e esfiapados, trazia uma rodilha entrançada no alto da cabeça. Não usava canastra, fora substituída por uma grade de plástico, nem trazia balança. A sardinha era vendida a unidade e em vez de papel de jornal, as sardinhas eram acomodados num higiénico saco de plástico.

 

 


Há tempo que não ouvia este ou outros pregões, quase tanto … como deixaram de se ver nas ruas de Chaves, as leiteiras, as lavadeiras ou as vendedoras de carqueja, que “se bem se lembram”, antes de desaparecerem de vez, deixavam os burros nos quais transportavam os cântaros, as trouxas de roupa ou os molhos de carqueja, presos a alguma árvore - proibidos que estavam de circular nas ruas da cidade -, para os lados das hortas, antes do Mercado Velho ou entre o Jardim do Tabolado e a Ponte Romana, o que para alguns era uma tentação para lhes pregar uma partida, soltando os animais.


Bem, reconheço o exagero, e numa tentativa esforçada de remediar o despropósito imaginativo e temporal, direi que há tanto como desapareceu a venda de carvão e carqueja que existia na rua do Tabolado, numa das últimas casas, de uma fileira de iguais frontarias, antes de começar o jardim.


Ainda recordo um edifício, já no jardim, no qual existia uma taberna no rés-do-chão e onde assisti enlevado e depois receoso, a um cantar ao desafio, sob o mando de um acordeão, num entardecer da feira dos Santos, e no qual os contendentes puseram tamanho empenho, que por pouco não acaba em sangue.


Do outro lado da rua, a seguir à Pensão Termas, que ficava na esquina com a rua do Sol, existiam umas casas baixas de rés-do-chão, numa das quais habitava um fotógrafo ambulante cujo apodo é hoje ilustre denominação de uma associação de fotógrafia e gravura da cidade, e noutra havia uma oficina de ferreiro.

 

 


E por falar em vendedoras de carqueja, que me perdoem a leviandade, mas não resisto trazer a esta crónica, um pouco diferente das outras - há dias… -, uma história que não sendo do meu tempo, é como todas as outras,  fidedigna, assim me asseguraram, e espero que o amigo e colega Herculano Pombo, desta vez não venha a confirmar a sua veracidade, pois nem ele, nem eu, estivemos presentes.


Uma "vendedeira" de carqueja, já entrada na idade, vinha pela rua de Santo António com o burro preso pela arreata e carregado de molhos. O burro por razões que se desconhecem e que certamente pertencem à sua natureza, deu em exibicionista e toca a mostrar o membro reprodutor – algum nome tinha que lhe dar …-, de apreciáveis proporções, também próprio dos asnos.  


A velhota não se apercebera, mas o mesmo não sucedeu com um grupo de estudantes do liceu próximo, que no passeio, começaram na galhofa, tendo um deles decidido vexar a pobre senhora.


Saiu do grupo e interpelou-a:


-“Ó vózinha, vossemecê já viu como vem o burro?”


A mulherzinha alheia ao que se passava, perguntou:


-“ Como, Senhor…”


O jovem, então, por gestos fez que a mulher se apercebesse e insistiu:


-“Já viu bem …” E olhou para os restantes, que se dobravam de tanto rir.


A idosa, imperturbável, aproximou-se mais do seu interlocutor e imperturbável, disse-lhe:


-“ Ah…! Sabe, o estafermo fica assim, quando vê pessoas como o Senhor …” 

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:22
link do post | comentar | favorito
2 comentários:
De hpombo a 29 de Junho de 2011 às 10:00
Duas notas apenas, amigo Mário:
1- É certo que, desta vez, não posso dar testemunho presencial porque não estava ao pé do dito jumento, mas recordo bem as imagens visuais das actividades económicas referidas, bem como as imagens sonoras dos pregões que as anunciavam, e também os estacionajumentos, ainda sem parquímetro, onde a asinina paciência era posta à prova por hordas incontáveis de moscas e flagelantes picardias da estudantada...
2- Quanto à tua expressão "o membro reprodutor, de apreciáveis proporções, também próprio dos asnos.", creio que, se considerada na lógica escorregadia dos silogismos, que ambos aprendemos no velho e sábio manual do Bonifácio, pode tornar-se perversamente castrante para todos os humanos que fazem das polegadas presunção de virilidade...
Um forte e amigo abraço. Herculano Pombo


De Nuno Santos a 30 de Junho de 2011 às 14:40
É sempre com um enorme prazer que leio as crónicas do Mário Esteves. Nesta crónica, ainda que não referenciadas no texto, mas ilustradas nas fotografias estão duas leiteiras de Outeiro Seco, uma actividade económica que, acrescentou à aldeia muito valor. São elas a Quinhas Bouças montada no burro, e a Maria Caneca apeada. O parque de estacionamento das suas montadas, era nas Longras, nos anexos do tanoeiro, que assim fazia o estrume para a sua horta.
Nuno Santos


Comentar post

.meu mail: ribeiro.dc@gmail.com

.Junho 2013

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9

20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


 

 

El Tiempo en Chaves
IBSN: Internet Blog Serial Number 560-22-4-1960
blog-logo Travelavenue.com.br - O Guia de Viagem- favorite blog 2010

.Facebook

Blogue Chaves Olhares

Cria o teu cartão de visita Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita peticao-utad peticao, tâmega, rio reflexos 183-podium frproart's most interesting photos on Flickriver

.subscrever feeds

.posts recentes

. Leituras de um olhar

. Intermitências

. Quem conta um ponto...

. XIX Encontro de Fotógrafo...

. Pecados e Picardias

. Lumbudus, hoje nas terra...

. Chaves e o Centro

. O Homem Sem Memória - 157

. Duas imagens do passado q...

. Montalegre

. Quem conta um ponto...

. Dia de Portugal

. Pecados e Picardias

. Loivos - Chaves - Portuga...

. Discursos Sobre a Cidade ...

.pesquisar

 
blogs SAPO

.A espreitar

online
Estou no Blog.com.pt

.Creative Commons

Creative Commons License
Este Blogue e o seu conteúdo estão licenciados sob uma Licença Creative Commons.

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites