Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

Intermitências - Brumas

 

Brumas


Esta manhã as trevas desceram à cidade. A noite gelada cedeu lugar à bruma cerrada que teima em assombrar a terra. Uma bruma tão densa que parece querer condenar as gentes a um sono eterno. E face a esta ameaça, as gentes levantam-se e suspiram frente a mais um dia que será tenebroso até ao fim.


É da serra, dirão uns. É do céu de Deus Nosso Senhor, dirão outros. Ou é simplesmente da vida, malvada, sem explicação, e não se fala mais nisso. Certo é que ninguém merecia esta agressão aos ossos, esta avalanche de arrepios gelados no corpo quente enrolado em camadas de pano. Nestas manhãs, passos largos, olhares de esguelha, sorrisos tremidos, cumprimentos relâmpagos e queixumes entrecruzam-se nas ruas da cidade. Não se apoquentem, que dias mais vivos virão, reconfortam as gentes o pensamento.


- Que castigo este tempo! Porque grito de raiva? Porque tudo é insatisfação? Porque tudo é tristeza? Os que mais amo são os que conhecem o meu lado mais negro, os meus defeitos mais insuportáveis, os meus pecados mais ocultos e os meus pensamentos mais obscuros. É precisamente porque os amo que lhes mostro as minhas brumas. Não faço cerimónias, sou eu só. Quero que ouçam a minha voz interior tão bem quanto eu, mas que me perdoem por isso.


- E quem ama perdoa sempre. Mas há quem sofra mais que outros: são os que amam demais. Amam tanto, dão tanto, que esperam secreta e humildemente uma retribuição, nem que ínfima, desse amor. Uma retribuição que é sempre compreendida, mas nunca saciada porque está fora das capacidades do ser humano.


- Só quero que os que amo regressem... E tu quem és?


Chega a tarde e as trevas não abandonam a cidade. Nessas tardes, o dia parece acabar antes de ter começado. Os queixumes da manhã tornam-se suplícios de condenados. Não se apoquentem, que alguma chama mais viva virá, reconfortam as gentes o pensamento.


As trevas também não abandonam a aldeia, cada vez mais deserta de gente, animais e biodiversidade. Parece mesmo obra do demónio, que enlouquece os “pobres diabos” que restam. “Já falo sozinho... E quando vier a noite como será? Quem me valerá? O lume, o pote, a distracção ou as rezas?”. Certo é que as brumas da alma afugentam mais as gentes do que a bruma serrana. São também mais difíceis de combater.

 

Entre Chaves e Boticas - Janeiro de 2012 - Fotografia de Sandra Pereira

 

- Que castigo este tempo! Porque estou sempre só? Porque ninguém ouve a minha voz? Porque tudo existe se é para ter fim? Os que mais amo não deviam ser envoltos nas minhas brumas, mas não adianta lutar contra elas. Todos os esforços parecem insignificantes, nada é suficiente, só vejo o tamanho dos outros. Será que os outros vêem o meu?


- Quem ama nunca abandona. Ou regressa mais cedo ou mais tarde.


- Só quero que os que amo regressem... E tu quem és?



As trevas sobem agora noite dentro. A cidade desertou. Nessas noites, não tem vivalma e desce à condição da mais humilde aldeia, onde, entre a bruma cerrada, nem se chegam a ver sorrisos tremidos, só cumprimentos relâmpagos de natureza animal e o acenar da vizinha atrás da janela embaciada. Não se apoquentem, que amanhã outro dia virá, reconfortam as gentes o pensamento.


Agora as casas tornam-se ilhas paradisíacas. E numa delas está um homem e uma voz. “Já estou a ficar maluco… E quando vier o dia como será? Quem me valerá? A horta, o pote ou o bagaço?”. Por mais rápido que se corra na vida, fica-se sempre com a sensação de chegar atrasado, coisa estranha...


- Que castigo este tempo! Só sei mostrar brumas, não sei mostrar amor. Nunca ninguém me ensinou e sempre pensei nunca precisar. Quem me deixou ser desgraçado? Agora estou só, tal como sempre estive.


- E continuarás a estar. O amor é “fogo que arde sem se ver”, ou a tua alma nunca te pede poemas quando precisa de acalmar? Se procuras sempre manter-te verdadeiro, então é essa a tua retribuição.


- Só quero que os que amo regressem... E tu quem és?


As trevas entranham-se agora na madrugada. Mas na aldeia, nunca foram as trevas que mais gelaram as gentes. É o tédio, é a inconstância, é o cansaço, e o avanço dos desertos, e as alterações climáticas. “Já devo ter nascido velho… E estas malditas brumas que não deixam ver as estrelas que estão lá no céu a brilhar para fazer companhia à gente! Que castigo este tempo! E quando vier a morte como será?”.


Sandra Pereira



publicado por Fer.Ribeiro às 17:30
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