Desafortunadamente, a minha tia Estrelita, à qual me referi na última crónica faleceu, após tenaz resistência contra a doença que, como um raio a varou. Durante a primeira semana deu esperanças de vir a sobreviver, mas a morte inexorável que nunca deixou de ensombrar a cama de hospital onde jazia, acabou por vencer.
Fica a memória da sua existência à família e amigos, e permita-se-me destacar a companhia permanente até ao seu decesso, na vida dos sobrinhos, talvez mais na minha e de meus irmãos. De tal forma que, muitas vezes a minha mãe dizia, com alguma indisfarçável contrariedade:
- “ O vosso pai tem duas casas, esta e a das irmãs…”
As irmãs, eram as tias Estrelita e Maria.
Fotografia prop. de Mário Esteves - Direitos Reservados
Traseiras do Palace Hotel de Vidago
Ao centro a Tia Estrelinha, ladeada do lado esquerdo pela minha mãe
e do lado direito pela minha tia Lina (materna), ainda viva e residente em São Paulo, Brasil.
Não recordo umas férias estivais de infância e até de adolescência, que não nos acompanhasse.
Leça da Palmeira ou a Costa da Caparica, na desaparecida FNAT, são testemunhos visíveis nas amarelecidas fotografias do álbum familiar.
E não posso esquecer, que, após o falecimento de meu pai, praticamente adoptou o meu irmão mais novo, que de resto, antes peregrinava entre a casa dos pais e das tias.
Muito haveria a dizer de minha tia; sobejam nas minhas reminiscências, além da saudade e o afecto que perdurarão, o arquivo oral da genealogia familiar, histórias próximas e alheias e um exemplo de tenacidade.
Quando faleceu o meu avô paterno, sob a direcção esforçada e atenta de minha avó, foi ela e os irmãos - adolescentes, quase umas crianças -, que assumiram o negócio familiar de armador, percorrendo os caminhos poeirentos a pé ou em azémolas - já por si carregadas com as tralhas do ofício e caixas com os forros das charolas, cetim, luzideiras, flores de papel apergaminhado, de várias cores… -, postas à sua disposição pelos mordomos, até às aldeias festivas, para ornamentar os andores com uma maestria insuperável, que lhes granjeou amizades e merecida fama.
Que descanse em paz!
Fotografia prop. de Mário Esteves - Direitos Reservados
Não se pretende que estas crónicas que vou debitando e nos últimos tempos de forma errante se transformem em obituários. No entanto, creio que os leitores compreenderão a sua razão de ser.
Assim como a evocação do falecimento recente e inesperado da D. Quinhas. Pessoa afável, com quem me cruzava diariamente junto à porta de sua humilde morada, na Rua do Sal, às horas das refeições e a caminho da pensão onde me amesendo ou na frutaria da esquina da mesma rua ou próximo da Igreja Matriz.
Inevitável falar da sua bonomia, dos breves momentos de cavaqueio sobre o quotidiano, quando nos encontrávamos e do fiel companheiro Ruca, um rafeiro de pelo acastanhado e ocre, que tratava com desvelo e que não acede a deixar de permanecer em frente à porta da casa da bondosa dona.
Com alguma relação ao que escrevi na crónica na qual falava da doença de minha tia e da qual veio a falecer - custa a crer e rememorar a forma sentida e comovente como a D. Quinhas me deu os pêsames pelo passamento de minha tia e pensar que, também ela e de forma brutal, pouco tempo decorrido, perderia a vida -, vou passar de largo sobre a polémica que, entretanto a sua morte gerou, com declarações do Presidente da Câmara Municipal de Chaves, do Ministro da Saúde e que opõe os Hospitais de Chaves e o de Vila Real.
Chaves, Rua do Sal - D. Quinhas à porta de Casa (25.Fev.2012)
E como me foi dado a conhecer, que a razão desse litígio é alheia aos familiares da saudosa finada, não posso deixar de lamentar que a política se faça sobre o irremediável, embora respeite a legitimidade das entidades no apuramento de responsabilidades, a existirem, sejam elas quais forem. A isso estão obrigadas.
Mas, como diz uma minha amiga:
-“ As desculpas não se pedem, evitam-se.”
Por parecer inoportuno, atendendo ao teor desta crónica, não vou repetir o que se passa na Rua Bispo Idácio, perto da confluência desta rua com a Ladeira da Brecha, nas noites de sábado para domingo, e que motivou mais uma participação na PSP.
No entanto não poderia deixar de me congratular com o artigo de Sandra Pereira, também colaboradora deste blogue, na “Voz de Chaves”.
Os sofridos moradores agradecem.
Assim tivessem motivos para agradecer às autoridades que poderiam pôr termo a este massacre.
Mário Esteves


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