
O CABUGUEIRO
O Cabugueiro, homem para meio século, morava no Carregal. Era maroto e temido por todos. Vivia à margem da aldeia, numa casa térrea de perpianho e fazia a sua lavoura unicamente com a ajuda da mulher Luísa. Seca, como um pau de virar tripas, era levada do diabo para trabalhar. Apesar disso, as dívidas acumulavam-se e o casal não saía da cepa torta. A colheita nunca chegava para pagar a sementeira. Recusou a França muitas vezes temendo deixar a mulher de poulo! Vivia mal a família do Cabugueiro! No tempo da caça, os seis filhos andavam mais nutridos, porque coelho ou perdiz que lhe atravessasse a mira da caçadeira morria. E, honra lhe seja feita, a criação comia como os progenitores. Era um homem simples e honesto que, apesar dos maus fígados, só se metia com quem o provocasse. Ai isso quem lhas fizesse pagava-as e com língua de palmo, isso era certinho!
O Amadeu, primogénito de uma ninhada de cinco, era filho do Ti Zé Porto fulminado a meia idade por uma tuberculose galopante. Este melro era falso, áspero, vingativo, cruelmente vingativo!... Fazia-as pela calada e com cobardia ferrava o mais incauto. Aparentemente dava-se bem com toda a gente, porém, a aldeia sabia que não era de fiar! Assemelhava-se a um cão que não conhece o dono.
Uma madrugada de um dia quente de junho, o Cabugueiro tornou a água do povo, como lhe cabia naquele dia, para o seu lameiro de pasto. A torna findava ao meio dia a favor do Amadeu. Porém, ainda não eram onze e já o farsola secara o rego ao Cabugueiro virando a água para o seu batatal. Este, que sachava o milho numa leira próxima, passou-se, quando se apercebeu do sucedido! Chamou o Amadeu à pedra do cimo de uma borda alta. O arrufo não passou, naquele dia, de algumas palavras mais azedas. Entre carvalhos e outros impropérios que tais, prometeram o acerto da fatura para mais tarde.
Passados dois ou três dias o Cabugueiro reparou que o Amadeu ao alvorecer se dirigiu para leira do Corgo, acompanhado pelo cão Tirone e de uma mula coxa que comprara a uns ciganos na feira dos Santos e que era objeto de gozo por todo o Carregal. O Cabugueiro ruminou a vingança para aquele dia e entre dentes resmungou para os seus botões:
— Vai ser hoje! No regresso passas em frente à minha casa e vais pagá-las!
Seria meio-dia quando a mula, o cão e o Amadeu regressavam da jorna. Descontraído, de sachola ao ombro, assobiava uma moda de cotovia enquanto os socos abertos, ferrados, marcavam o ritmo nas pedras soltas do caminho. Perto da cabana do Cabugueiro o Tirone bem o avisou mas ele não quis saber. Esperava-o uma caçadeira aperrada. O caminho não tinha volta!
— Atão fidalgo foi com esse satcho que me roubastes a água outordia?
Enquanto o abordava, apontava-lhe o trabuco à laia de combatente da guerra dos catorze. O Amadeu, lívido por saber dos fígados do Cabugueiro, media mentalmente o tempo e os passos que o separavam do chumbo da espingarda. As suas mãos calejadas seguravam, como pinças de aço, o rabo da enxada. Os músculos, contraídos pelo medo e pela raiva, preparavam-se para arremessar o sacholo, desviando o tiro e facilitando a fuga. A coisa estava feia e para ganhar algum tempo respondeu:
— Não tinha horas Cabugueiro, mas vira para lá essa merda senão ainda te parto os cornos!
Não deu tempo para mais nada, o indicador da mão direita premia o gatilho quase no limiar do fogo. O Amadeu, adivinhando-lhe o gesto, arrimou com a sachola acertando-lhe com o olho na cabeça, um pouco acima da fonte esquerda. O Cabugueiro caiu redondinho! — Morto, pensou o Amadeu!
De socos na mão e em carpins, saltou a fugir ele e o Tirone. A mula coxa ficou a pastar calmamente numa borda do caminho.
A senhora Luísa, gritando a bandeiras despregadas, mandou o Adérito, filho mais velho, chamar o senhor Fernando, meu falecido pai, que era proprietário do único automóvel das redondezas, para levar o infeliz ao hospital de Chaves. Nessa altura eu, pequenote, tive oportunidade de lhe ver os miolos. Impressionava!
O Cabugueiro foi operado de urgência. Ficou internado uns meses. Graças a Deus e à sua rija têmpera escapou. Da ferida ficou somente uma pronunciada concavidade no caco.
O Amadeu, nessa mesma noite, desapareceu como por mistério. Havia quem dissesse, à boca pequena, que andava fugido por terras de Angola.
Passaram-se alguns anos até que o paradeiro do freguês chegou aos ouvidos do Cabugueiro. Não perdeu tempo, montou na burra e foi dar parte ao posto da guarda de Vidago, mandando prendê-lo. De facto foi apanhado e condenado pelo juiz da cidade de Trajano a cinco anos de prisão que cumpriu integralmente.
O Amadeu, um pouco mais novo que o Cabugueiro, ainda é vivo, e desde aí não consta que se voltassem a desentender!
Gil Santos
De Celeste Santos a 6 de Julho de 2012 às 14:29
Caro Gil Santos:
Parabéns por este seu texto... Muitíssimo bem escrito! Um texto autêntico, com linguagem genuína e terminologia típica da terra. *
E, surpresa matutina! Sobre um irmão de duas tias minhas... O Cabugueiro... Sobre o Carregal, a aldeia onde a minha mãe nasceu e por quem suspirou de saudades até aos (quase) últimos dias de vida. A aldeia que tão bem conheço e que tem uma das paisagens mais interessantes do alto da serra... A seguir a France, aldeia natal do meu pai, percorrem-se poucos quilómetros...faz-se a curva à esquerda e é o deslumbramento dos carvalhos! Talvez tenha sido isso que fez France casar-se tanto com o Carregal, quem sabe?! Em qualquer altura de ano a paisagem nunca nos desilude! Depois... há as zonas das giestas que tanto ajudou a desenvolver o meu imaginário infantil, imaginando os lobos a uivar, ou visualizando na mente traiçoeira as histórias que me contavam, enquanto íamos duma casa para a outra e quase tocávamos as estrelas... Sim... porque o Carregal fica mais perto do céu.
Tive que recorrer ao meu pai para ter referências mais concretas... Queria entender melhor esta narrativa. Lembrava histórias do Cabugueiro e desse Amadeu, mas não conheci os protagonistas!
Lembro também histórias do seu pai, a quem chamavam Fernandinho, como era usual na época. O "inho" não era para todos. (Hoje também não... Doutra forma, contudo!) Não o conheci tão pouco. O meu pai conheceu-o muito bem, tal como a mãe, e ainda há instantes me disse "Sei quem é esse senhor", referindo-se a si.
Li-lhe ao telefone a sua narrativa que o meu pai, com 79 anos e uma lucidez invejável, ouviu com toda a atenção. Depois disse: "Essa já a conhecia eu", ao que eu retorqui: "Se a conhecias, por que não disseste logo?" "Queria ver se havia alguma falta à verdade. Mas foi tal e qual."
E senti na voz do meu pai que, de alguma forma, a saudade boa voltou.
Obrigada por este texto!
* ("Carpins", por exemplo, é muito "Carregal".)
Um abraço!
Celeste Santos
De Gil Santos a 7 de Julho de 2012 às 18:48
Obrigado pelas palavras.
Pode encontrar muitas outras estórias passadas no meu Carregal (onde vivi até aos 12 anos) no meu livro "Ecos do Planalto - estórias" todas elas publiadas neste blogue pelo meu amigo Fernando Ribeiro. U outro livro meu sobre o meu avô do Carregal e a sua saga na I Grande Guerra, está publicado sob o título "De Chaves a Copenhaga" e mais recentemente um outro livro "Zerbadas em Chaves" que conta também um conjunto de estórias que tÊ tido algum sucesso. Tudo escrito em "transmontanez"
Eu devo conhecê-la. Presumo que seja irmã do Jorge e do Marcelino! Também eles entram numa das estórias. Deve portanto ser filha da Sra Celeste e do Sr José. Diga coisas. Se quiser contactar-me via email gilmmsntos@gmail.com
Cumprimentos
De Celeste Santos a 8 de Julho de 2012 às 08:39
Bom dia, Gil Santos!
Agradeço particularmente esta sua resposta ao meu comentário acrescentando, com a assertividade que me caracteriza, que não pude deixar de esboçar um sorriso à medida que a ia lendo! Não, não foi trocista, que (ainda) não matei a criança em mim, mas aquele quase traquina de quem imediatamente pensa: "como quando se escreve muito se fica, de repente, tão distraído, tão menos atento ao que se lê!" (À semelhança do que se passa com quem muito fala...
Leia de novo o meu comentário. Vai perceber logo onde quero chegar.
Os meus pais chamam-se Ana J. Ferreira e Artur dos Santos. Não sou, portanto, filha do meu tio Zé (irmão da minha Mãe) nem, consequentemente, da minha Tia Celeste, já falecida. Não sou a minha prima Carminda , aquela que você julga que eu sou.
Mas a sua confusão não me ofendeu de forma alguma! Estes foram e sempre serão os meus primos preferidos; o tio Zé e tia Celeste, os tios predilectos, e esta família sempre foi o meu lar de férias no Carregal, na minha meninice e adolescência.
Gostei da forma como se referiu ao "meu Carregal". Todos temos um pouco a tendência para fazer isso, não é? Mas só o conseguimos com aqueles lugares que realmente nos tocam e nos chamam, como se deles fossemos parte integrante, de tal forma que apenas esses tendencialmente aparecem nos nossos sonhos quando dormimos e o cérebro se encarrega de "fazer a limpeza"durante o 'sono rosa'.
No fundo, somos terra, somos natureza, mas nem toda a "terra" nos entende.... Ou será o inverso e nós não a sabemos ouvir? Ou então... serão, de alguma forma, as pessoas que conhecemos, as vivências que temos, as fases da nossa vida, os nossos olhos e olhares que constroem toda a ideia que concebemos em torno dum espaço, duma localidade, dum Carregal...?
(...)
Terei todo o prazer em ler as suas "estórias". Particularmente aquelas em que os meus primos são personagens!Conhecendo-os como os conheço, (ai se conheço!) já lhes adivinho o conteúdo... Depois estou "em pulgas" para lhes contar... Sim, porque sou muito de histórias e enredos é comigo. Mas não intrigas...
(Perdoe-me mas, as suas estórias, serão as "minhas" histórias. Também e porque, sempre que posso, escapo-me ao novo acordo ortográfico. Julgo que este deveria incluir o aceitar a antiga Ortografia. Quanto ao resto... p'rá frente é que é o caminho.)
Desejo-lhe um bom feriado, se é que está por Chaves. *
Bom Domingo e... Até ... ao Carregal!
Celeste Santos
*(Para mim é mais Minho Litoral sem sol em fase pré-chuva.)
De Anónimo a 8 de Julho de 2012 às 16:52
Enigmáticas as suas palavras! Vou ler de novo e tentar perceber onde quer chegar!
Não estou por Chaves mas pela cidade dos Arcebispos que me acolheu há mais de 30 anos.
Leia as estórias e perceba porque não lhes chamei histórias...
Biga oisas
Cumprimentos
Já agora o meu endereço estava errado: gilmmsantos@gmail.com
De Celeste Santos a 9 de Julho de 2012 às 07:32
Enigmáticas as minhas palavras...?! Não, de todo. Tenho a certeza que vai entender com rapidez o que tencionava e (ainda tenciono) dizer... De tão simples e evidentes, mesmo à nossa frente, não vemos as 'coisas' e chamamos-lhes 'enigmáticas'!
O Gil é engraçado! E, como bom transmontano que se preze, de boa cepa, também prontamente diz o que pensa e sente. Gosto disso! Demasiado, até, a ponto de ser, eu mesma, quase "bruta" e chocante na minha frontalidade. Isto para o comum dos mortais, tão comum e tão mortal quanto eu, porém pouco acostumado a lidar com a sinceridade. No fundo é um defeito quase nacional, nosso, culturalmente enraizado, geracionalmente transmitido... Quase diria que "está nos genes", mas não me atrevo a tanta aleivosia! Neste Minho, então, credo, cruzes, canhoto e canhotinho ! Obviamente que, ao proferir isto, tanto aqui como aos Minhotos, em especial com aqueles das zonas que melhor conheço, nomeadamente do Minho litoral, me arrisco a apanhar uma bela marretada na cabeça, à falsa fé, em qualquer virar da esquina... Que traiçoeiros são eles e dar a cara... Ui! "Não sei, não estava lá, não vi , nem ouvi!", é comum ouvir-se por estas bandas, vindo da boca de criaturas que de 'limpas' têm tanto como "pau de galinheiro"!
Faz 11 anos em Agosto próximo que aqui vivo (opção minha!) e têm sido um constante e intermitente questionar: que- vim-eu-p'ráqui-fazer " a que alguém, num dia de revolta, sabiamente respondeu: "Você veio à luta, Celeste! É isso que veio cá fazer!"
(...)
Vejo que o Gil, pelo contrário, está bem protegido por tanto arcebispo e deve carregar já consigo uma aura sagrada... Tem piada que nada disso vislumbro quando passo por Braga (afinal estamos bem perto; Afife, Viana do Castelo é-onde vivo). Mas talvez isso se deva ao meu lado "pouco crente", ao ser "mulher de pouca fé". E o que eu mais quero é mesmo pôr-me dali a milhas.
De carácter extraordinariamente cosmopolita e amante de grandes cidades como não temos (faltam-nos as infraestruturas e a mentalidade!), sou parela e contraditoriamente provinciana. E Braga é uma daquelas cidades que não é peixe nem carne. Já foi interessante, nas memórias que guardo na retina das minhas visitas enquanto menina, pequenina como o chão, ou enquanto miúda, ora para vermos o Chaves jogar, ora em visitas de estudo do "nosso" liceu / Escola Secundária Fernão de Magalhães. Agora Braga é caótica, e o trânsito... bem... Perdermos-nos é a coisa mais fácil, a sinalização péssima e, evitar um acidente, o mais difícil. Enigmáticas as minhas palavras...?! Não... de todo. Tenho a certeza que vai entender com rapidez o que tencionava e (ainda tenciono) dizer... De tão simples e evidentes, mesmo à nossa frente, não vemos as coisas e chamamos-lhes 'enigmáticas'!
O Gil é engraçado! E, como bom transmontano que se preze, de boa cepa, também diz logo o que pensa e sente. Gosto disso! Demasiado, até, a ponto de ser, eu mesma, quase "bruta" e chocante na minha frontalidade . Isto para o comum dos mortais como eu, mas pouco acostumado com a sinceridade. Neste Minho, então, Deus me livre!
Vejo que está bem protegido por tanto arcebispo e deve carregar já consigo uma aura sagrada... Tem piada que nada disso vislumbro quando passo por Braga (afinal estamos bem perto; Viana do Castelo é-onde vivo). Mas talvez isso se deva ao meu lado "pouco crente", ao ser "mulher de pouca fé", e o que eu mais quero é mesmo pôr-me dali a milhas.
De carácter extraordinariamente cosmopolita e amante de grandes cidades como não temos (faltam-nos as infraestruturas e a mentalidade!), sou parela e contraditoriamente provinciana. E Braga é uma daquelas cidades que não é peixe nem carne. Já foi interessante, nas memórias que guardo na retina das minhas visitas enquanto miúda. Agora é caótica, e o trânsito... bem... Perdemos-nos é a coisa mais fácil, a sinalização péssima e, evitar um acidente, o mais difícil.
Mas... o Gil que aí mora... corrija-me, por favor! É que, tanta beleza d(n)uma cidade foi, de repente, ou não de repente, não sei, a modos que... asfixiada... ofuscada...
Talvez seja apenas a minha atolambadice inata que me não permite ver Braga que não seja "por um canudo!" :-)
Olhar distorcido, o meu. Mente ainda mais! Não ligue. É o sol!
Um beijo a Chaves!
Um abraço.
Celeste Santos
De Anónimo a 9 de Julho de 2012 às 14:47
Olá Celeste:
Com medo que eu não percebesse repetiu o texto! Bem sei que sou um pouco "atoleimado" mas ao ponto de não perceber que Braga é uma cidade que custa a (re)conhecer como plena de predicados, ainda não.
De facto sou transmontano puro e por natureza ingénuo. Vejo nos outros o mesmo mal de que eu sou ausente.
Defeito? Virtude? Não sei.
Sou simplesmente assim. Agora e a não ser que as suas palavras sejam irónicas, continuo a perceber que quer dizer muito mais do que o que se esforça por dizer em parcas palavras.
Não sei, chamei-lhe enigma como poderia chamar-lhe outra coisa qualquer.
Não a conheço, acho que conheço os seus irmãos, amantes inveterados como eu do GDC, mas começo a gostar de si!
Sobretudo das suas divagações!
Escreve bem!
Estou até tentado a convidá-la a paraticipar ativamente na minha nova obra que mal começada está ainda.
Tal como a abóbada (celeste) a menina é quase infinita nas suas cogitações. Interessante.
Receba um abraço em jeito de tributo por se interessar pelos meus escritos!
De Celeste Santos a 9 de Julho de 2012 às 19:44
Gil:
Realmente você é giro! Perspicaz, rápido, inteligente... gosto!
Escrevo bem, sim. E sou modesta! (rir!) É o que dá ter 3 irmãos mais velhos "vidrados" em futebol. Crescemos com um trauma tal que ou nos viramos para a escrita e a leitura ou fugimos de casa!
É muito ano a virar as palavras de trás para a frente, de cima para baixo, de tirar esta aqui, pôr a outra ali, fazer festinhas naquela que foi rejeitada e ficou triste... Você sabe bem como as palavras são sensíveis!
Obrigada pelo elogio, pela tentação ao convite (quanta honra, Senhor!).
E é verdade, sim. Sou quase infinita nas minhas cogitações... É um treino que faço diariamente... O cérebro, funcionando como um músculo, não pode parar e, além disso, quero ver se o Dr. Alzheimer não me visita...
Retribuo o abraço.
Agradeço as suas "escrituras".
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