Rufadores e Tocadores (1): Manias, medíocres e depressões
Sei agora, mas mais vale tarde do que nunca, que nasci demasiado tarde e demasiado medíocre. Mas mesmo assim tive sorte em nascer medíocre, valha-me ao menos isso, pois desta forma não me vejo na triste situação de ter de alcançar a autêntica mediocridade a desoras.
Ou seja, há homens que nascem medíocres, outros apenas alcançam esse estado lá mais para a meia-idade. No entanto, há felizardos a quem a mediocridade lhe cai em cima como uma benesse. São aqueles que o povo diz que já nasceram com, vossa licença, o rabo virado para a lua.
Reconheço que até na mediocridade unicamente consigo quedar-me sempre, ou quase sempre, aquém dos mais sortudos. Mas não desisto. Quem me conhece sabe muito bem que não sou homem para desistir. Desistir que desistam os outros. Eu resisto, insisto e persisto.
Até na mediocridade, que absorvo como uma esponja, a quantidade da que adquiro é sempre, ou quase sempre, inferior à deles. Os outros. Eles.
Daí o meu ar inexpressivo que tanto impressiona quem me conhece, ou pensa conhecer-me.
Atualmente ando a tentar ser como os demais medíocres. Por isso me esforço em cumprir o humilde dever de incrementar as tarefas sociais com o mínimo aparato, não vá alguém ofender-se por lhe passar à frente.
Desenvolvo todos os esforços para não me antagonizar com quem quer que seja, pois assim é que deve ser, explicam os mais avisados. Sorrio até com mais prontidão às pessoas com quem me cruzo. E não ultrapasso ninguém, não me meto com quem quer que seja e até evito assobiar.
Agora não falo, murmuro. Tornei-me subserviente, por isso apenas me sinto confortável quando estou acompanhado por muita gente. Aprendi, ainda, que não devemos olhar de frente para os outros. Apenas de lado e com um sorriso tímido na boca. Devemos falar por meias palavras, dizer meias verdades, camuflar estratégias, ser dúbio nos compromissos e deixar tudo, como bem diz o nosso povo, em águas de bacalhau.
Cada vez que olho para cima, vejo gente a embolsar dinheiro, e nunca o que pretendo, que é observar o céu, os anjos e os santos. Vejo-os a arrecadar lucros sugados a todos nós que teimamos em intentar impulsos honestos e não ficar indiferentes a todas as tragédias humanas. Daí o experimentar desenvolver esforços para não pensar naquilo que vejo. E, sobretudo, fazer mais um esforço para que não me confundam os valores.
Por exemplo, politicamente sou um humanista que sabe distinguir a direita da esquerda, por isso é que estou desconfortavelmente situado entre as duas, defendendo os meus amigos esquerdistas dos seus inimigos direititas e defendendo os meus amigos direitistas dos seus inimigos esquerdistas.
Por isso sou solenemente detestado por ambos os grupos, daí ninguém me defender por que me supõem um pateta e, para mal dos meus pecados, não um pateta alegre, mas sim um genuíno pateta triste.
Mas deixem que me confesse: eu sou mesmo um pateta. Lamento desiludir alguns de vocês, mas a verdade é para ser dita. A verdade acima de tudo: eu sou mesmo um pateta e, ainda por cima, triste.
Sou a modos como os ilustríssimos medíocres identificados acima que não são racistas mas detestam pretos, ciganos e chinocas. Muitos deles até sabem tudo sobre literatura, cultura e música, exceto apreciá-la.
Ao contrário de muita gente, boa gente, respeitável gente, eu tento dissimular a minha mente, pois a minha avó avisou-me que as pessoas com mentes desenvolvidas manifestam a criticável tendência para se tornarem espertas.
E os espertos são mal vistos, quando não mesmo perseguidos. Convenhamos que pessoas espertas são um perigo social. Toda a gente medíocre diz apreciá-los mas, honra lhes seja feita, detestam-nos com todas as suas forças. Está visto, nem os verdadeiros, os autênticos, os genuínos medíocres são perfeitos. Mas que são precavidos, lá isso são.
Um meu amigo bem me avisou: tu és imaturo. Por isso não consegues adaptar-te à sociedade. És para aí um ressentido. Um revoltado.
Deixem que me explique melhor: eu sofro de ansiedade de ajustamento social. Por isso luto contra a minha tendência de não conseguir simpatizar com o fanatismo, a prepotência, o cabotinismo e a hipocrisia.
Subconscientemente desprezo algumas pessoas. Ou melhor, deixem-me ser sincero, que é outro dos meus grandes defeitos, eu desprezo algumas pessoas conscientemente. Sim, conscientemente.
Por isso, muitas vezes insurjo-me (ó pecado dos pecados!) contra a ideia de ser roubado, ludibriado, imbecilizado, menorizado, explorado, humilhado ou iludido.
A infelicidade deprime-me, como também me deprime a ignorância, a perseguição, a violência, a falsidade, os bairros de lata, a ambição, o crime, a corrupção. Sim, eu sei, afinal sou mesmo um maníaco-depressivo.
Se não como explicar os sustos que apanho com as pessoas que falam alto? Como explicar o meu sentimento de desamparo com os homens e as mulheres de ação, palradores, destemidos e agressivos? Num mundo que só celebra o êxito, como é que eu me consigo resignar com o meu insucesso? Por isso vivo permanentemente angustiado, apesar de nunca me faltar a esperança. A esperança em ter esperança. Ao menos isso.
João Madureira


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