Silêncio
Só o silêncio importava. Pensou tantas vezes em tornar-se eremita, isolado no topo de uma serra ou camuflado num paradeiro desértico. As vidas dos outros não lhe interessavam, as conversas muito menos. Não tinha qualquer ambição profissional e acreditava passar bem sem amor humano e carnal. O único som que não o incomodava era o silêncio da natureza. A pureza, a essência, o virginal. O resto era ruído. Não, não enchia a cabeça com reais preocupações ou pensamentos originais, pois não lhes encontrava sentido nem destino. Silêncio, só o silêncio importava.
Só o silêncio me faz falta para não enlouquecer neste mundo. Não me venham com razões existenciais, nem com olhares divinos, e muito menos com instintos de sobrevivência! De hoje em diante, não quero ouvir mais nada. Silêncio, silêncio, silêncio!
Vivia como “antigamente”, aquele tempo de grandes dificuldades e pobreza singela. Ninguém percebia porque insistia viver como um “carenciado” quando podia obter tudo da vida. Ninguém percebia como um ser inteligente podia alhear-se de tudo e de todos. Eremita, clandestino, desconhecido, desaparecido, eram esses os nomes que atirava à mania de tudo definir, classificar, encaixar, rotular. Justificar. A ele, bastava-lhe existir em estado bruto. Sem desafios.
Alguém vem. Grito alto dentro da minha cabeça e sai um ruído aterrador, angustiante. Não, não preciso de ninguém! Silêncio, por favor! Afinal não era nada. Deixo-me cair. Caio no vazio e assusto-me com o ruído do meu próprio corpo. Ouço a minha respiração, o bater do meu coração e até o som dos meus intestinos. De hoje em diante, não quero controlar mais nada. Silêncio, silêncio, silêncio!
Isolava-se das pessoas, da sociedade, da dita civilização. Mesmo que o registo médico não o confirmasse, a família acreditava numa esquizofrenia, problema mental ou “desvio comportamental”. A sua postura primata face à vida era inofensiva à sua volta, mas incomodava e deprimia, tornava inúteis várias acções e aquisições, encurtava números e ilusões, desmascarava hipocrisias e mentiras (e tantas que eram…). Se ele podia atirar-se para o nada, porque não eles?
Camuflagem - Fotografia de Sandra Pereira
Silêncio… Não ouço seres nem máquinas humanas há muito. Pensava que seria bem assim. Não é. Os ruídos do meu corpo tornaram-se ensurdecedores, insuportáveis, não sei por quanto tempo aguentarei ouvir o som dos meus intestinos... Mas que raio de silêncio é este? De hoje em diante, não quero mais ser enganado. Silêncio, silêncio, silêncio!
A família era quem mais sofria com o silêncio. Quando o procurava, ele não estava, quando o encontrava, ele não era. De tudo fizera para lhe fazer entender que as conversas que não lhe interessavam eram no fundo apenas demonstrações de estima e auto-ajuda, porque sem fins, sem explicações, sem sentidos, sem razões, estavam todos… a tentar juntar-se aos semelhantes mais próximos para ganhar fôlego para a vida. Ninguém apontava caminhos certos nem errados, a única certeza é que precisavam de algo para não ouvir o pavoroso silêncio da solidão, e cada um tentava abafá-lo à sua maneira, com futilidades ou genialidades. E ele, fazia-lhes falta.
Silêncio, por favor! Desliguem os meus órgãos vitais ou deixem-me enlouquecer! Silêncio, silêncio, silêncio!
Um dia, ele desapareceu mesmo. Sem deixar rasto, nem missiva. De novo, instalou-se a incompreensão. Ao vasculhar as gavetas, a mãe (quem mais?) encontrou um manual básico de aprendizagem da língua inglesa. A muito custo, resignou-se. Só ele poderia quebrar o silêncio.
“Acorde e não se assuste. Você participou num ensaio dos Laboratórios Orfield, Minnesota, Estados Unidos, para uma empresa de electrodomésticos. Você esteve fechado numa câmara que consegue absorver 99,99% do som. Até hoje, nenhum ser humano conseguiu ficar lá dentro mais de 45 minutos sem começar a desenvolver sintomas de falta de equilíbrio e perda de controlo. Você resistiu 50 minutos, mas está bem e pode recuperar a sua vida normal. Agora, melhor do que ninguém, você sabe: o silêncio também é loucura”.
Sandra Pereira


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