Cinco histórias curtas ou mesmo muito curtas
Primeira - Higiene oral
Insisti com o Manuel para que fosse nadar para a piscina. Ele assim fez. Mas a meio do exercício sentiu-se cansado e resolveu ir ler um livro para o jardim. Depois foi comprar comida. Comeu e bebeu. Nem muito nem pouco. À noite foi correr. Correu 10 quilómetros e sentiu-se bem. Antes de se ir deitar lavou os dentes. Manuel tem uns dentes brancos e bem definidos. Quando sorri encanta as pessoas. Só lhe custa adormecer.
Segunda - Malmequeres
Fiquei contente por ver o Miguel a desfolhar um malmequer. Mal-me-quer, bem-me-quer, murmurava ele debicando pétala a pétala a flor pendurada há pouco na lapela do casaco, enquanto os olhos lhe brilhavam como duas estrelas numa noite muito escura. Penso que está apaixonado pela sua colega da turma B. Ela chama-se Maria João, que é um bonito nome, bem diferente das Vanessas, das Soraias, ou Sabrinas, ou outros que por aí aparecem e nos vão transfigurando em varões solitários com dificuldade em pronunciar nomes esquisitos e infecundos. Pelo meio das pétalas, o Miguel lê poemas de amor e ouve música romântica. Depois sorri novamente e vai à procura de um novo malmequer para desfolhar. Anda azougado o Miguel. Por vezes até entoa música dos velhos Beatles. Anda tonto o rapaz, com aquele brilhozinho nos olhos e os malmequeres no bolso do casaco. Até se penteia à moda antiga, com risca ao lado e brilhantina no cabelo castanho. Anda risonho e azougado o marialva. Fico contente por ele. Fico satisfeito como ele.
Terceira - Mudar de passeio
O José não gosta nada de mudar de passeio. Diz que tem medo de atravessar a rua. Que lhe desestabiliza o sistema nervoso e lhe mexe com a libido. Ele tem a libido um pouco estragada. Coisas da juventude. O José foi à guerra e quem vai à guerra dá e leva. E ele levou mais do que deu. Por vezes fica com os olhos turvos e começa a chorar. Nesses dias não sai de casa. Nem do quarto. Nem da cama. Desenha fios de metal e aranhas muito coloridas. Pode passar assim dias e dias alimentando-se apenas de iogurtes naturais e fruta cristalizada. Também lê revistas científicas, mas lê os artigos do fim para o princípio. Depois traduz alguns para o árabe e no fim rasga-os. Sabe tocar piano, andar de bicicleta e assobiar com os dedos. Toca piano só a partir das cinco da manhã e apenas até ao amanhecer. Nunca o faz fora deste intervalo de tempo. Tira muitas fotografias às suas mãos e depois amplia-as muitíssimo para observar os poros e os pelos da epiderme. Nos dias de chuva mia muito. Nos dias de sol muge como os bois do barroso. Na sua quinta da aldeia tem uma zebra manca que comprou a um circo. Escova-a todas as semanas e passeia-a pela aldeia. Também toca muito bem cítara. Mas os amigos não gostam deste tipo de música. Coisa que o irrita muitíssimo e o faz estalar os dedos. Costuma sair nas noites de geada e passear um galo de briga cego que comprou a um mexicano de férias em Espanha. Costuma dar-lhe pipocas picantes e levá-lo ao Miradouro de S. Lourenço para lhe mostrar a cidade de C. Nesses dias o galo canta que se farta e ele acompanha-o à guitarra. O José é muito habilidoso com as mãos. Aprendeu a fazer croché e confeciona lindos carapuços para árabes e judeus. Escreve-me cartas enormes com letras desenhadas a rigor e isto vivendo nós apenas a cem metros um do outro. E envia-mas sempre em correio azul. São cartas que falam do seu amor pelos passeios, pelos candeeiros, pelos bancos de granito, pela poesia chinesa antiga, pelas flores da urze e da carqueja, pelo musgo dos muros e pelos reflexos do céu nas águas do T. Ontem compôs uma música muito bonita para o seu galo cego.
Hoje tocou-a para mim. Eu até chorei. Depois fomos os dois, sempre pelo mesmo passeio, até ao rio, descalçámo-nos e molhámos os pés nas suas águas tranquilas.
Então ele tirou um grilo do bolso e pediu-lhe que cantasse uma ária de Mozart. O grilo não se fez rogado e deslumbrou todos os presentes. O mundo é, por vezes, um lugar estranho, mas encantador.
Quarta - Má disposição
Hoje encontrei o Luís, um rapaz da minha idade que já não via há muitos anos.
Está praticamente igual. Parece que o tempo não passou por ele. Claro que está um pouco mais gordo, mais enrugado e mais calvo, mas, fora isso, parece praticamente igual ao que foi. O Luís era muito castiço. Tinha muita piada. Sabia tocar um pente com um papel imitando uma trompete, cantava como o Joe Cocker, imitava a bateria dos Deep Purple com a boca, travava os seus carrinhos de brincar no tempo certo e com um chiar muito caraterístico. Fora isso, queria ir para polícia. Só que emigrou para Espanha. E… já não me apetece escrever mais nada sobre o Luís, nem sobre nada. Estou irritado, apetece-me espatifar o computador e quebrar um disco de fado. Estou muito irritado e mal disposto. Até me doem os dentes. Também me apetece dizer asneiras. Apetece-me dar um pontapé num gato. Ou num cão. Estou muito arreliado. Até me doem os joelhos e os pés. E este tempo ainda me põe mais assanhado. Chove e brilha o sol. Onde já se viu tal estupidez. O barulho dos carros enfurece-me. Tenho uma borbulha no nariz. Estou numa pilha de nervos. Tenho de ir cortar as unhas.
Quinta - Será o tempo infinito?
Já lá vai o dia. Hoje passeei pela cidade na companhia de um velho amigo.
Descemos e subimos ruas, parámos para admirar edifícios antigos e rememorámos velhos tempos que nos estão impressos na memória como se fossem marcados a ferro em brasa. Só por si, passear com um amigo é um prazer. Faz-nos sentir um pouco mais novos, mais solidários, lembra-nos um passado feliz e vivido intensamente.
Não importa que parte dessas memórias seja produto da nossa imaginação.
O que interessa são as reminiscências doces dos momentos que agora nos parecem felizes e perfeitos. Dizem que a memória é seletiva e é bom que assim seja. O meu amigo também é seletivo. Sabe selecionar bem os vinhos que bebe, sabe selecionar os melões mais doces e maduros, sabe selecionar os pratos mais apetitosos quando vai a um restaurante, sabe selecionar a melhor música e os melhores livros. Sabe selecionar, ainda, os seus amigos. Quando era jovem, este meu amigo era muito rebelde e as garotas derretiam-se por ele. A mim pouco ligavam. Fui sempre um rapaz apagado, sorumbático, pouco falador e insuficientemente imaginativo. Hoje já falo um pouco mais, mas permaneço um homem apagado. O meu amigo continua alegre e sorridente, atrativo para as mulheres e bom garfo. Quando vem a C. gosta de passear pelas ruas antigas na companhia dos amigos. Ainda se lembra dos tintins que líamos a meias nos bancos do jardim do Tabolado. Também se recorda dos poemas do Fernando Pessoa que líamos e decorávamos para recitar às raparigas namoradeiras. Nós apreciávamos muito o poeta, as garotas é que não lhe achavam lá grande piada. Mas também para que serve uma rapariga que aprecia Fernando Pessoa na juventude? Cada coisa a seu tempo. É que a idade esclarece muita coisa e confere alguma circunspeção. Mas também arruína muita realidade, apaga muita beleza, esclarece muitos equívocos e destrói intensas ilusões. Fora isso tem a propriedade de tornar tudo finito.
João Madureira


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