12 anos
Terça-feira, 20 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. NATAL EM MONFORTE.

 

Nevava lá fora, em Sant’Aninha de Monforte. Para quem olhasse do alto da torre da igreja, as pessoas a caminho da Missa do Galo, entre as quais, todas as do clã dos Bernardes, pareciam manchas negras a se moverem sobre a neve. Chegara o dia em que se comemora o aniversário mais festejado, na maior parte do mundo: o nascimento do Menino Deus. Papá dissera que lá em baixo, em Chaves, seria esse um dos mais tristes dezembros, pois até o Pai Natal estava com medo de descer pela chaminé e se deparar com a Pneumónica. Alguns riram e Papá ralhou, dizendo que não tivera a menor intenção de fazer graça, ainda mais a se valer, como remoque, dos tão dolorosos factos que estavam a vivenciar.

 

Já que o grande presépio franciscano da família havia ficado na quinta do Raio X, Florinda e as filhas improvisaram, ao pé do pinheirinho, um arranjo de figuras meio toscas, de papier-maché, uma arte feita com cola e jornais molhados, que Mamã aprendera com as freiras do Colégio Santo António, em Belém do Pará. No conjunto de tão singela arquitetura, compensava-se a falta do original com o lago representado por um caco de espelho entre pedrinhas, o poço de madeirinhas feito por Afonso, com um dedal a servir de balde, e o jardim com musgos verdes e flores de papel encarnado. Nos pequenos caminhos, feitos de serragem tingida com água e papel acastanhado, punham-se alguns pequenos biscuits que, desbeiçados, ou com algumas partes a reajustar, haviam sido encontrados por cá e acolá, nos quinteiros de Sant’Aninha e arredores.

 

À ceia da consoada, Papá e Mamã ergueram-se, junto com os mais, inclusive os caseiros, os filhos destes e as criadas (sentados também à mesa, como era costume, em tais ocasiões) e se uniram em oração por todos os que ali se achavam. Rezaram também por sua Aurélia, pelos demais parentes e amigos que estavam enfermos em Chaves (com certo alguém incluído, de modo silente, nas preces de Aurora) e pelos que, como a querida tia Hortênsia, não foram nem de leve atingidos pelos dardos da cruel Pneumónica (e suplicavam que, por certo, jamais viessem a sê-lo). Amém! Por fim, todos pediram misericórdia e descanso eterno aos mortos. Concluiu Florinda, em voz alta – E Deus nos livre das más horas e do mau tempo!

 

Solene, o patriarca partiu o pão com as mãos e deu uma generosa côdea a cada um dos comensais que, entre goles de jeropiga (ou leve sangria, para os não adultos), entremeavam as migalhas às iscas de bacalhau e aos ovos com vagens de ervilhas. Depois, foi a vez do mesmo bacalhau vir à mesa assado na brasa, com montanhas de batatas, repolhos, grelos, couves-galegas, muito azeite e o que de mais e melhor houvesse na dispensa. A seguir, vieram as sobremesas. Arroz doce, sonhos, aletria, filhoses de abóbora e fatias paridas. Ainda iriam todos, mais tarde, atirar-se às avelãs, nozes e amêndoas, bem como às castanhas e pinhões. Os dois últimos eram acondicionados em assadores que pendiam das cremalheiras, a se abrasarem ao lume vivo, onde ardiam toros de carvalho.

 

Ao final da consoada, era a hora de pedir as bênçãos, como rezava a tradição. Aurita, como fosse a mais velha, chegou até ao pai e falou, com uma solenidade que não era comum nos outros dias – Deite-me sua bênção, meu pai! – Deus te abençoe, minha filha! – e, para a boa Florinda – Deite-me sua bênção, minha mãe! – Deus te abençoe, filha querida! – seguindo-se um por um dos filhos, a fazer o mesmo, em ordem decrescente de idade, até à mais nova, a pequena Arminda.

 

Antes de deixarem a mesa, fizeram-se de novo as orações, dando graças a Deus por mais esse Natal.

 

fim-de-post

 

 

 

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:45
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Segunda-feira, 19 de Junho de 2017

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

360 - Pérolas e diamantes: A escrita e o anzol

 

Gonzalo Torrente Ballester escreveu, tentando responder a uma pergunta incómoda, que a génese da obra de arte aproxima-se mais do exemplo do trabalho e da persistência do que na biologia do nascimento humano. A liberdade, o acaso e a vontade conscientes são os fatores reais e decisivos. “Não creio que exista nenhuma obra de arte que não pudesse ter sido de outra maneira e obviamente melhor do que é.”

 

Afinal porque se escreve? Depois de vários projetos mais ou menos falhados, ou de alguns com sucesso, a resposta até poderá ser: para nada.

 

Para vos animar, quero desde já dizer que este “nada” não é uma resposta radical e negativa. Esses tempos já lá vão.

 

À boa maneira de uma ave canora, podia dizer que o intelectual vive enquanto pensa e escreve. Sim, é esse o seu modo de ser e de estar no mundo. “E só nisto já encontra justificação”, como afirmou o escritor galego.

 

Afinal estamos neste mundo “sem termos sido ouvidos nem achados, e, sobretudo, sem que o tenhamos pedido; mas o pior é que os outros também o esquecem e se põem a fazer exigências e a pedir justificações, até do mero existir”.

 

A justificação impõe-se por si própria. E o fado que cada um carrega para percorrer o seu caminho de pensar e escrever apenas a ele diz respeito. Os fins sublimes são mera ficção, parvoíces, tontarias. “Escrevemos porque sim, ou porque gostamos, ou porque não sabemos fazer outra coisa.”

 

Muitos procuram uma finalidade no ato da escrita. Uns proclamam razões e inconveniências. Outros choram baba e ranho em cima daquilo que escrevem. Outros, ainda, arremessam a pedra e escondem a mão. Há feitios para tudo. Muitas vezes escrever resulta num ato gratuito e num esforço inglório. É meio falhanço. E depois?

 

Como justificação relato-vos a história que contaram a Torrente Ballester de um rouxinol que um belo dia descobriu que ninguém lhe ouvia o doce canto e que, desiludido, decidiu ser carpinteiro, como o seu vizinho de árvore. Nesse ofício, obviamente, nem sequer atingiu a mediania.

 

Não é necessário perguntarmo-nos por que escrevemos, pois essa questão encaminha-nos invariavelmente para a falácia das grandes transcendências. Cada um deve fazer aquilo que tem de fazer e não lhe dar muita importância. Devemos revelar mesmo uma certa indiferença perante o ato verificável de que a voz do rouxinol não tem o público que merece. E quando chegar a hora de nos calarmos e emudecermos, aceitá-la de bom grado e em paz. Devemos fazer como aquele toureiro que após cada lide, fosse ela boa, mediana ou má, dizia invariavelmente: “Aí têm.”

 

Além disso, cada leitor de um romance lê, apesar do mesmo texto, um romance diferente, dependendo sempre da sua maneira de ver o mundo, da sua experiência de vida e não da palavra textual.

 

Gonzalo Torrente Ballester avisou-nos: “A palavra dispara setas, e muitas delas perdem-se longe do alvo.”

 

A fórmula é geral. Mesmo o Dom Quixote, que é o primeiro romance ocidental, é a história de um jogo que se escreve jogando.

 

O romancista define-se não por aquilo que é, mas sim por aquilo que escreve.

 

Devemos sempre desconfiar tanto dos mitificadores como dos desmitificadores.

 

O necessário é cada um percorrer o seu caminho pois ele leva-nos, pelo menos, ao seu próprio fim.

 

Eu ainda sou dos que acreditam que, por muito errado que um caminho possa ter sido, alguma coisa acabamos sempre por descobrir. Ninguém o percorre em vão.

 

Afinal são os poetas que tradicionalmente se dirigiam ao povo, com as histórias clássicas consideradas épicas como são o caso da Ilíada, da Canção de Rolando, Mio Cid ou mesmo Os Lusíadas, com palavras ao serviço da sua glorificação, que nos tentaram “fazer engolir sem protesto o anzol do poder”. 

 

Roland Barthes dizia que a escrita “é o lugar do político no sentido lato, ou seja, a escrita é aquilo mediante a qual ele se exprime, mesmo se o escritor não é disso consciente, o que ele é socialmente, a sua cultura, origem, a sua classe social, a sociedade que o rodeia”.

 

Antes de terminar, quero citar Laurent Binet, autor do romance A Sétima Função da Linguagem, que sabe da dificuldade de aproximar o leitor dessa função: “Quando escrevo uma cena ou uma frase, gosto que não haja apenas uma função, só psicológica ou só poética. Essa cena também serve para dar um passo em frente e jogar com os símbolos.”

 

Claro que a linguagem é um código. Mas nunca se esqueçam que toda a descodificação é uma nova codificação.

 

No campo da ficção, Roland Barthes defendeu que a linguagem é a arma mais poderosa do mundo e há quem mate para dominar o seu segredo.

 

A vida não é um romance. Os romances é que podem fazer parte da vida. Da minha fazem, com toda a certeza. E da vossa também, por muito que nos custe a todos acreditar. 

 

PS – Texto lido na apresentação do romance “O Homem Sem Memória”, de João Madureira, no dia 16/6/2017, em Chaves.

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Domingo, 18 de Junho de 2017

O Barroso aqui tão perto - Cambezes do Rio

1600-cambeses do rio (69)

montalegre (549)

 

Como de costume aos domingos vamos até terras do Barroso, hoje toca a vez a Cambeses do Rio, às vezes também grafado com Z (Cambezes)  

 

1600-cambeses-art (8)

 

Agora que avezamos da “Toponimia de Barroso” , vamos ao que nela consta sobre Cambeses:

 

“CAMBESES – Desde 2013 – União das freguesias de Cambezes, Donões e Mourilhe.

De facto este topónimo é nome pátrio. Trata-se de gente que veio de Camba ( Os Cambeses) ou que deram esse nome aos outeiros curvos onde moram (Cambas). Dá-se o mesmo fenómeno com Peireses, Barreses, Caldeses, Cambados, etc.  no que respeita a nomes de gente migrante.”

 

1600-cambeses do rio (186)

 

E continua a “Toponimia de Barroso”:

O étimo é Cambe, pré-romano, e topográfico, significando elevações arredondadas, com reentrâncias e saliências curvas:

Cambe + enses > eses.  É, portanto, errónea a grafia com Z.

Têm a mesma origem: Camba, Cambia, Câmboa, Cambado, Cambados e Cambeiro.”

 

1600-cambeses do rio (182)

 

A troca do S pelo Z nos topónimos é muito comum, e a mim deixa-me sempre na dúvida qual será a forma correta de grafar o topónimo. Por mim costumo ir pela tradição ou pela forma mais antiga de grafar o topónimo, que no caso, pelo menos no que vi em escritos mais antigos, Cambezes é grafado com Z. Mas não deixa de ser curioso que na passagem que atrás transcrevemos da “Toponimia de Barroso” se inicie assim: “CAMBESES – Desde 2013 - União das freguesias de Cambezes …” Aliás, na página oficial do Município de Montalegre, Cambezes é grafado com Z. Certo que isto são picuinhices nossas, mas mexe connosco termos de suportar o peso da decisão para não errarmos, e depois, acabamos por ser contagiados e às tantas, acabamos também por grafar o topónimo de ambas as formas, mas para que conste, eu sou mais pelo Cambezes, com Z.

 

1600-cambeses do rio (127)

 

Ainda na “Toponimia de Barroso”, num aparte, vem a “Toponímia alegre” onde se lê:

Eu fui ao monte à carqueja,

Trouxe um molho pequenino;

Os rapazes de Cambeses

Estão marcados no focinho.

 

Vede bem o que fazeis

Se passardes em Cambeses;

As moças são camaradas,

As velhas são fraca rês.

 

1600-cambeses do rio (136)

 

Esta da “Toponímia Alegre” leva-me até  à “Etnografia Transmontana - I” de António Lourenço Fontes, ao capítulo das  “Alcunhas ou Nomeadas” e “Nomeadas das terras e das gentes” onde  começa por dizer:

“ O nosso povo sabe caracterizar muito bem os seus vizinhos. Um defeito comum, um erro conhecido, um hábito generalizado, um facto histórico ou lendário é capaz de ser motivo suficiente para apodar todos os do mesmo povo, com o mesmo nome. (…) O povo sabe muito bem a razões de tais nomeadas, pois foi ele, com veia de poeta, que baptizou assim os seus vizinhos. Muitas aldeias já esqueceram a sua alcunha e se aqui se registam, não é para espezinhar alguém, mas apenas para dar um subsídio para a história de Barroso, suas terras e gentes”

 

1600-cambeses do rio (63)

 

E continua:

“ Algumas aldeias têm mais que um nome, ou alcunha. Conforme o gosto de quem os nomeia e a tradição de cada um. Os de uma terra são capazes de chamar aos de Solveira escorna cruzes e outros já lhes chamam tarouqueiros. Os da Vila da Ponte gostam de se chamar fidalguinhos, mas os vizinhos já lhe chamam Chavelheiros. (…) Muitos mais nomes se poderiam recolher do povo, fiel depositário desta velhas tradições. Servem estas de amostra. Estas nomeadas, ou lengalenga como outros lhe chamam, usam-se quando se quer  espezinhar uma pessoa. Então aplica-se-lhe o nome que lhe compete. Raramente se leva a mal.”

 

1600-cambeses do rio (123)

 

Claro que nisto das nomeadas e alcunhas das terras e gentes, Cambezes também não fica de fora, nomeadas que vão desde os “Duques de Cambezes” aos “Mandicantes  de Cambezes” ou “Doninhas de Tourém/Gameleiros em Donões/Tarouqueiros de Sabuzedo,/Colhereiros de Mourilhe,/ Há bos studantes em Frades, /Saltasebes de Paredes,/Tocafóis de Cambezes. /Os da Vila são cães de fila./Lacaios de Padroso/ Em Viade há boas moças,/ É Cambezes o ramo delas,/ As de Frades são umas putas/ Quem há-de casar com elas.” . E para terminar também se diz “Cambezes, terra dos homens portugueses”.

 

1600-cambeses do rio (118)

 

Continuando  na “Etnografia Transmontana ” de António Lourenço Fontes, mas agora do Vol. II,  temos a transcrição de algumas actas da Junta de Cambezes, como a do dia 30-9-1923, onde se diz:

“Atendendo à grande extensão de terrenos baldios, para pastagens de gado caprino, sem prejuízo para os vegetais, a serem terrenos descampados e sem alboredo, atendendo a que os moradores desta freguesia tem grande necessidade de criar o referido gado, a fim de curtir os estrumes indispensáveis para a cultura das suas terras, sem os quais os seus frutos seriam nulos, atendendo mais a que alguns moradores já tem cortes nas terras, mais distantes para esse fim, propunha à Exma. Câmara do Concelho que cada lavrador ou morador pudesse ter pelo menos trinta cabeças do referido gado caprino, à imitação d’outras freguesias…”

 

1600-cambeses do rio (73)

 

A acta de Cambezes de 4-1-1932 é bem curiosa, para que o povo saiba onde se põem os pontos nos is, diz assim:

“ Foi dito que hera neçairo para bem da povoação, que cada homem dera dois dias, cada comissão, de 18 anos até 60 anos, o que faltar será punido com 20$00, de multa por dia. Cada junta de gado dar dois dias. Multa de 50$00, ao faltante. Guardar os usos velhos da freguesia: aquele que não quecer o forno, quando le pertence, terá a multa de 50$00. É preciso guardar respeito à autoridade, aquele que faltar terá a multa de 15$00 por cada vez.”

Curioso que, a julgar pelo valor das multas, “quecer” o forno do povo era mais importante do que respeitar as autoridades.

 

1600-cambeses do rio (62)

 

E o forno do povo era mesmo importante, aliás a “questão” do forno era referido noutras actas, como na Acta de Cambezes de 3 de Fevereiro de 1935, onde consta:

“ Segundo os antigos usos e costumes todo o vizinho da freguesia que se utilizar normalmente dos fornos do povo, terá de o aquecer na segunda feira da semana em que tal lhe pertencer, sob pena de multa de 30$00 por cada vez, que não cumprir.

  • único — Pode porém qualquer vizinho trocar livremente com outro, a sua vez, ou satisfazer ao encargo, colocando à porta do forno até às 4 horas da tarde de segunda feira, um carro de lenha que será utilizado pelo primeiro dos vizinhos que se apresentar a cozer a fornada.”

 

1600-cambeses do rio (52)

 

Ainda o forno e as antigas actas de Cambezes. A de 2-1-1968 dizia:

“(…) Todo o que tiver uma junta de vacas é obrigado a aquecer o forno, o mais tardar até quarta feira, ou será multado em 100$00.”

 

1600-cambeses do rio (56)

 

Ainda da “Etnografia Transmontana – II” , António Lourenço Fontes tem um capítulo próprio dedicado às artes e profissões, nas quais constam os Serrinhas ou Serranchins, os carpinteiros, os soqueiros, os torneiros , os peneireiros, os penteeiros, os carvoeiros, etc. Fiquemo-nos nos carvoeiros, pois também aqui há uma referência aos de Cambezes. Profissões e artes que eram atividades secundárias, pois a principal era a de lavrador onde os afazeres do campo estavam sempre primeiro. Profissões e artes que também contribuíam para o orçamento familiar e nesta arte do carvão, embora até pudesse ser rentável, não era de tarefa fácil, Ainda antes de irmos aos de Cambezes, recordo quando visitei Stº André, uma senhora já idosa quando soube que eu era de Chaves, me dizer — “Antigamente, quando era mais nova, fazíamos o carvão ali no Larourco, depois era carregado nos burros e íamos a Chaves vendê-lo “

 

1600-cambeses do rio (53)

 

Mas voltemos aos carvoeiros de Cambezes e ao que se diz na “Etnografia Transmontana – II”:

(…) cada saca, na coroa, leva uma carqueja ou fantos para não cair o carvão ou borralho. Carregam o burro com 2, 3 ou 4 sacas e os enxadões em cima e levam à vila cedo para vender. Custa cada saca de carvão, 40 ou 50$00, e do borralho é a 20, ou a 30$00. O carvão é para fogões e ferreiros; o borralho é para as braseiras. A terra de mais carvoeiros era Outeiro e Pitões, hoje é Cambezes. Os fogões a gás e a eletricidade têm acabado muito com o carvão e borralho. Também vendem carquejas para acender o lume e as braseiras. O melhor borralho é o que se faz da lenha do forno e vende-se mais caro.”

 

1600-cambeses do rio (45)

 

E temos vindo até aqui a transcrever passagens da “Etnografia Transmontana “ Volume I e II de António Lourenço Fontes. Penso que a maioria já sabe, e quem não souber fica a saber, que este António Lourenço Fontes, é o Padre Fontes, que por sinal nasceu em Cambezes do Rio em 22 de Fevereiro de 1940. Padre Fontes um ilustre Barrosão ou muito mais que isso, pois já pode ser considerado uma referência ou marca do Barroso.

 

1600-cambeses do rio (43)

 

Ao longo dos tempos, este blog já lhe dedicou algumas linhas. Num dos posts ia dizendo:

“(…) todos os colares têm uma pérola principal, a maior, mais vistosa, a que ocupa o centro do colar e, também para mim, essa pérola principal está, ou vive, em Vilar de Perdizes e dá pelo nome de Padre Lourenço Fontes. Tanto assim é que me atrevo a dizer, sem qualquer pudor, que o Barroso tem duas épocas, a APF e a DPF em que a primeira é Antes do Padre Fontes e a segunda, Depois do Padre Fontes. Padre, Etnólogo, antropólogo, historiador, guia turístico, é de tudo um pouco, mas sobretudo é um grande Animador Sociocultural que abanou o Barroso e o despertou para constar no mapa de Portugal com letras grandes. No fundo e na realidade, despindo-o de todos esses rótulos, o seu segredo está em ser um Homem simples, do povo, que o ama e tem orgulho nele, que ama o berço e o enaltece partilhando com todos, a sua história, os usos e costumes, saberes e sabores de um povo, mas também as crenças e mezinhas que curavam todos os males de uma terra que sempre foi agreste e difícil de viver, terra fria onde o frio além de congelar, doía.”

 

1600-p-fontes-mouri (48).jpg

1600-cambeses do rio (31)

 

E continuava:

“Curiosamente vamos associando o Padre Lourenço Fontes como um Barrosão de Vilar de Perdizes quando na realidade ele é natural de Cambezes do Rio. Melhor, penso eu, será dizer que ele é filho e natural do Barroso. Para a história, além de uma basta obra publicada ficará o Padre que afrontou a Igreja com os “Congressos de Medicina Popular” e o Padre das “Noites das Bruxas” que desde 2002 acontecem em Montalegre em todas as sextas-feiras 13 e o Ecomuseu de Barroso que o Município de Montalegre atribuiu o nome de Espaço Padre Fontes, como um espaço de memória do Barroso. Para quem o conhece, é um Homem simples, divertido, amigo e sempre pronto para enaltecer e dar a conhecer o Barroso.”

 

1600-cambeses do rio (40)

 

No livro “Montalegre” sobre Cambezes, encontrámos o seguinte:

“É uma das poucas povoações expostas ao cortante frio do setentrião, além de que, segundo a carta do Instituto Geográfico e Cadastral, de 1/50.000, é cortada a meio pela curva de nível dos 1000 metros de altitude, situação a que poucos lugares se alcandoram. O termo de freguesia é dividido a meio pelo Cávado.

Encabeça, portanto, as freguesias ditas “do Rio”. Pode dizer-se que esta freguesia barrosã mantém um altíssimo nível de rusticidade e tipicismo bem próprios para filmes medievais a que até o seu orago se adapta com enorme propriedade.

Com efeito, este mártir da Capadócia tem culto antiquíssimo na Península Ibérica. O ser advogado das mães que aleitam os filhos deve-se talvez ao facto de a mãe dele (Santa Rufina) o ter parido quando ela e o marido estavam na prisão, durante a perseguição do feroz e tresloucado imperador Aureliano, nos fins do terceiro quarteirão do século II.”

 

1600-cambeses do rio (34)

 

Cambezes do Rio, pelo “apelido” do topónimo já ficamos a saber que é uma das povoações da proximidade do Rio Cávado, localizada após Montalegre (para quem vai de Chaves) e um pouco antes da Barragem de Sezelhe. Como já atrás se referiu encontra-se na cota dos 1000 metros de altitude. Para sermos mais precisos na sua localização, ficam as coordenadas do largo do tanque, junto à Igreja:

41º 48’ 13.29” N

7º 50’ 19.06” O

Mas como sempre, fica o nosso mapa com a localização.

 

mapa-cambeses.jpg

 

Para os que gostam de caminhadas, Cambezes do Rio faz parte do trilho do Ourigo que parte de Montalegre passa por Torgueda, Castanheira da Chã, Cambezes para regressar a Montalegre.  Sem qualquer  dúvida que é um trilho que se recomenda a quem gosta de caminhar.

 

1600-cambeses do rio (29)

 

Havia mais umas coisas para dizer sobre Cambezes mas não sei onde param os apontamentos que tirei aquando em 9 de dezembro de 2016 fui à aldeia. Recordo estar um lindo dia de sol mas frio, aliás o frio está presente em algumas fotos com os idosos a aproveitar os rais de sol mas sem dispensar a capa de burel. As palavras que lamento não encontrar tinham referências a duas das pessoas que aparecem em imagem, recordo apenas que a senhora com capa de burel já era centenária.

 

1600-cambeses do rio (191)

 

Quanto à aldeia, vai-se desenvolvendo ao longo da rua principal. Notoriamente despovoada e com a sua população envelhecida, mas não deixa de ser interessante, merece uma visita e umas conversas com os seus habitantes, com paisagens verdejantes ao seu redor  e com agradáveis vistas para o vale do Cávado onde se avistam algumas das aldeias mais próximas.

 

1600-cambeses do rio (10)

 

 

Bibliografia

 

BAPTISTA, José Dias, (2014), Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso

BAPTISTA, José Dias, (2006), Montalegre. Edição do Município de Montalegre.

FONTES, António Lourenço,  (1974), Etnografia Transmontana – I Crenças e Tradições de Barroso. Edição de Autor.

FONTES, António Lourenço,  (1977), Etnografia Transmontana – I I O Comunitarismo de Barroso. Edição de Autor.

 

Links para anteriores abordagens ao Barroso:

 

A

A Água - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-a-agua-1371257

Algures no Barroso: http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-1533459

Amial - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ameal-1484516

Amiar - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-amiar-1395724

Arcos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-arcos-1543113

B

Bagulhão - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-bagulhao-1469670

Bustelo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-bustelo-1505379

C

Castanheira da Chã - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-castanheira-1526991

Cepeda - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cepeda-1406958

Cervos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cervos-1473196

Contim - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-contim-1546192

Cortiço - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-1490249

Corva - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-corva-1499531

D

Donões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-donoes-1446125

F

Fervidelas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-fervidelas-1429294

Fiães do Rio - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-fiaes-do-1432619

Fírvidas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-firvidas-1466833

Frades do Rio - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-frades-do-1440288

G

Gralhas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhas-1374100

Gralhós - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhos-1531210

L

Ladrugães - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ladrugaes-1520004

Lapela   - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-lapela-1435209

M

Meixedo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixedo-1377262

Meixide - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixide-1496229

N

Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-negroes-1511302

O

O colorido selvagem da primavera http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-o-colorido-1390557

Olhando para e desde o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-olhando-1426886

Ormeche - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ormeche-1540443

P

Padornelos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padornelos-1381152

Padroso - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padroso-1384428

Paio Afonso - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-paio-afonso-1451464

Parafita: http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-parafita-1443308

Paredes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-paredes-1448799

Pedrário - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pedrario-1398344

Pomar da Rainha - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pomar-da-1415405

Ponteira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ponteira-1481696

R

Roteiro para um dia de visita – 1ª paragem - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1104214

Roteiro para um dia de visita – 2ª paragem - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1104590

Roteiro para um dia de visita – 3ª paragem - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1105061

Roteiro para um dia de visita – 4ª paragem - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1105355

Roteiro para um dia de visita – 5ª paragem, ou não! - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1105510

S

São Ane - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sao-ane-1461677

São Pedro - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sao-pedro-1411974

Sendim -  http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sendim-1387765

Sezelhe - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sezelhe-1514548

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

T

Tabuadela - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-tabuadela-1424376

Telhado - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-telhado-1403979

Travassos da Chã - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-travassos-1418417

U

Um olhar sobre o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/2016/06/19/

V

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Arcos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1508489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

Vilaça - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilaca-1493232

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

X

Xertelo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-xertelo-1458784

Z

Zebral - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-zebral-1503453

´
publicado por Fer.Ribeiro às 23:30
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|  O que é?
Sábado, 17 de Junho de 2017

Bustelo - Chaves - Portugal

1600-bustelo (223)

 

Na nossa ronda pelas aldeias de Chaves, hoje toca a vez a Bustelo, uma das aldeias da periferia de Chaves, encostada à montanha para deixar livre um pequeno mas fértil vale.

 

1600-bustelo (177)

 

O que tínhamos a dizer sobre a aldeia já o fomos dizendo em posts anteriores dedicados a Bustelo, aldeia e freguesia. Para não nos repetirmos ficam aqui os links para alguns desses posts:

 

1600-bustelo 130-art (8)

 

http://chaves.blogs.sapo.pt/285549.html

http://chaves.blogs.sapo.pt/765714.html

http://chaves.blogs.sapo.pt/365205.html

 

1600-bustelo (168)

 

Hoje ficam mais quatro olhares sobre a aldeia entre os quais uma vista geral tomada desde terras de Outeiro Seco.

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 19:06
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

Ilumina-me, poesia de António Roque

a-roque-1.jpg

 

Hoje em vez da Pedra de Toque de António Roque, vamos falar um pouco do poeta António José Roque da Costa e do seu livro de poesia “Ilumina-me”, apresentado no passado dia 9, na Biblioteca Municipal de Chaves.

 

roque-biblio.jpg

 

Mas antes regressemos um pouco no tempo, mais precisamente (isto se a memória não me atraiçoa) ao dia 6 de janeiro de 1977, quando um pequeno grupo de estudantes do Liceu de Chaves, com duas violas, uma flauta, ferrinhos e pandeireta, resolveu cumprir a tradição do cantar dos reis aos vizinhos, iniciando precisamente na casa de António Roque.  Como mandava tradição, escolheu-se uma música e letra do reportório tradicional dos cantares dos reis, deu-se os vivas aos senhores da casa e no final a porta abriu-se com o convite para entrar e cantar umas canções da época, ainda canções de abril, de Zeca Afonso, Adriano, Fausto , Sérgio Godinho, Manuel Freire, Janita e Vitorino Salomé…, à mistura com poemas de Manuel Alegre, entre outros.  Aquilo que se programou ser uma noite de cantar dos reis pelos vizinhos, acabou por ser uma noite na casa de um vizinho a cantar canções de Abril com muita poesia à mistura. António Roque já tinha nome na praça com advogado, mas nessa noite ficámos a conhecer o António Roque amante de poesia e das canções de Abril, mas também o António Roque declamador de poesia e de poetas. Uma noite inesquecível, daquelas que não se repetem e que revelava já o António Roque poeta.

 

a-roque-3

 

Este livro de poemas já há muito que se esperava e é até ele que agora vamos, iniciando pela biografia, apresentada pelo autor na primeira pessoa:

 

“Nasci em Chaves, bem no “caroço” desta cidade milenária.

Corria o longínquo ano de 1943.

Por aqui frequentei a escola primária e o Liceu Fernão de Magalhães.

Durante dois anos fui aluno do Liceu Castelo Branco, em Vila Real, e aí concluí o sexto e o sétimo ano, alínea de Direito.

Em 1961 rumei a Coimbra, onde cursei a Faculdade de Direito da vetusta universidade.

Vivi intensamente Coimbra da saudosa década de 60, participando com empenho nos movimentos académicos e em alguns organismos da Associação, como Coro Misto e CITAC.

Na Lusa Atenas, concluí meu curso mas, entretanto, apaixonei-me pela cidade, pelo teatro, pela poesia e pela política.

Depois de uma ida “à Guerra, de onde voltei, à triste paz destes rios”, dei aulas durante poucos anos e em cerca de quarenta anos, exerci advocacia, com escritório na minha amada cidade.

Por aqui me mantenho , usufruindo o vale e as serras que me rodeiam, abraçando os amigos que me estimam e escrevendo uns pequenos textos e alguns poemas para meu gáudio pessoal e dos que, simpaticamente, me vão lendo.

Por aqui quero ficar.”

 

a-roque-2.jpg

 

 

E nós também vamos ficar por aqui, mas antes, fica ainda o poema que,  com a caricatura de autoria do Mestre Nadir Afonso,  consta na contracapa do livro.

 

A DANÇA

 

A dança é o sorriso do corpo!...

 

E a boca

Para onde grito calado,

É o princípio de ti.

 

 

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 04:36
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 16 de Junho de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis - sem notas - 6

 

Não tinha sido feliz com o marido. Todo o encanto tinha terminado com o casamento. Não sentia mais afectos, nenhuma ternura, ausência de alegria em comum. Afastamento progressivo, até do ponto de vista físico. Mal se tocavam, excepto nas escassas vezes que acasalavam. Os beijos tinham secado. Às vezes chegava lhe quase uma repulsa.

 

Cedo percebeu que ele mantinha relacionamentos extraconjugais. No fundo, pouco lhe importava. Até agradeceu a redução, até à extinção, dos seus acasalamentos.

 

Nunca lhe tinha batido, mas a violência psíquica era crescente. Desprezo, críticas constantes, desconsiderações de cada uma das suas qualidades.

 

Nasceu nela também o ódio, silencioso, quase clandestino. Deu por si a desejar a sua morte, vendo nela a única hipótese de ser livre.

 

Naqueles tempos, ainda para mais naquela ilha, o divórcio era, para as mulheres, uma proscrição. Naquelas mentalidades, quase se confundia a divorciada com uma espécie de prostituta, em especial nas famílias pobres e humildes. Divórcio só era aceitável para uma mulher rica, das boas famílias. A essas tudo era tolerado, pelo menos nas aparências.

 

Fui construindo uma relação mais pessoal ao longo das sucessivas consultas, a que a sua doença crónica obrigava. A diferença de idades permitia-lhe abrir-se mais comigo.

 

O marido nunca esteve presente, nem quando ela foi internada por uma tentativa grave de suicídio.

 

Um dia, ao marido, foi-lhe diagnosticado um tumor avançado do esófago. Escassas perspectivas, rápida degradação.

 

A Dona A. expunha as suas perplexidades: "Sabe doutor, não sinto pena nenhuma dele, mesmo sendo ele o pai dos meus filhos".

 

Expliquei-lhe que tal era humano e natural, que não tinha de se sentir culpada de nada. Ficou mais tranquila. Depois da morte do marido, confessou-me sentir alivio.

 

Posteriormente, ficou apreensiva pela tristeza de uma das filhas, atingida fortemente pela morte do pai. Apesar dos maus tratos deste se estenderem também aos filhos, esta tinha conseguido um pouco mais de proximidade com ele. A tristeza dela foi-se agravando, angustiando a mãe, que se sentia revoltada, porque o marido mesmo depois de morto, lhe prejudicava a vida.

 

A senhora A. sentia-se finalmente livre mas suspeitava que, na tristeza da filha, estava envolvido o "espírito do marido": " Tinha encostado".

 

Sentindo-se liberta e com coragem, foi pela primeira vez visitar a campa do marido. Encontrando-se a sós, ordenou-lhe que desencosta-se da filha, porque senão ela excomungava-o. Quando me estava a confidenciar isto, disse de uma forma original: " Oh senhor doutor, que eu nem sei como é que se excomunga um morto. Mas ... de certeza que está na Internet!"

 

Tanto quanto sei, a filha vive hoje feliz.

Manuel Cunha (Pité)

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:54
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Quarta-feira, 14 de Junho de 2017

Coisas primeiras

1600-(32281)

 

Quis partir    olhar   sentir o mar

E deram-me os olhos de uma criança

Rasos de lágrimas para navegar

 

 

 

´
tags: ,
publicado por Fer.Ribeiro às 01:23
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

Cartas a Madame de Bovery

cartas-madame

 

Minha cara Madame de Bovery (6)

 

Desculpe esta minha ausência prolongada, mas tive de vir a Londres! Precisei de perceber o que tem esta cidade, para que o Comendador nela passasse os últimos anos da sua vida. Ainda não encontrei o motivo ou a razão, mas começa a esboçar-se em tudo o que me rodeia uma desculpa ou um argumento, se quiser. A luminosidade do dia ou a ausência dela, predispõe a um desnecessário assumir de responsabilidade. Não sei como definir este sentimento ou sensação, mas é como se fossemos arbitrariamente livres!

 

Há, sem dúvida nenhuma que há, a sensação de estar em casa, mas sem o peso dos objectos, das paredes que falam, da música que conhecemos e que ouvimos em determinados momentos e que nos deixa reféns, dependentes! É como um apagar de memórias, completo, das boas e das más, como se renascêssemos, como se a nossa vida, a única que temos, nos desse uma segunda oportunidade! Como é que eu hei-de traduzir em palavras o sentimento que me vai na alma?!

 

Atravesso a rua e vejo o Comendador do outro lado, com o seu sobretudo, a sua bengala. Já alguma vez lhe ocorreu pensar porque razão a usava!? Sim, é verdade que depois daquele acidente, do qual falava sempre com ironia, mercê das circunstâncias em que ocorreu, nunca depois dele lidou bem com as consequências! Mas a história da bengala não era uma delas, ele só achava que ela lhe dava mais carisma! Pois é, brincava com o facto, mas a ideia de perfeição que tinha colada à pele e da qual ele era, não um exemplo, mas o exemplo, fechou-o sempre num disfarce de sedução, charme se quiser, com o qual falsamente sabia lidar!

 

Pois foi essa, minha cara Madame de Bovery, a segunda impressão que absorvi desta cidade: a neblina que esconde os pequenos defeitos, os do corpo e os da alma, trá-los à luz do dia, ao meio-dia! Nessa altura o Comendador recolhia-se para um breve descanso. Soube-o por uma vizinha, uma jovem diplomata por quem o Comendador se interessou e a quem ela achava alguma graça! Forma de dizer. Suscitava-lhe indignação e surpresa, a par de admiração e fascínio, a forma como ele abordava os temas no parlamento!

 

As voltas que o mundo dá! Foi-me apresentada, a jovem, num evento social e, sabe como é, portugueses no estrangeiro, parecem irmãos! Como início de conversa falou-me de um Comendador português, que em tempos tinha conhecido! Claro que eu explorei o quanto pude e pude bastante, a convicção que tinha ficado nela desse ser humano que, supunha ela, eu não fazia ideia de quem se tratava. Brilhante a descrição! Tudo quanto não sabíamos, fiquei a sabê-lo num simples jantar, sem qualquer esforço, nem o de perguntar!

 

As características dela tinham de certo, percebi-o facilmente, impressionado o Comendador. Era, veja a senhora, eloquente na forma como expunha os assuntos, vivenciava com impressionante à vontade tudo o que lhe era estranho e alheio. O Comendador gostava disso, de como se subverte a natureza humana ao poder da inteligência! Ela tinha isso. A par da juventude, uma enorme força e vontade de viver. Feliz com tudo. O que estava mal, modificava-o, ajustava-o a si e o que estava bem, elogiava-o. Era fácil de adivinhar que para ela o Comendador era o exemplo do que estava bem e que ela o admirava e lhe alimentava o ego constantemente. Sabemos o quanto ele gostava disso, de se sentir o centro, a convergência dos olhares e da admiração. Ela servia-o na medida exacta das suas necessidades!

 

Não tirei nenhuma conclusão sobre o grau de intimidade com que se relacionaram, sabe que isso não é um aspecto que eu considere ou valorize e que tenho por menor as fraquezas do corpo comparadas com as da alma, por as achar circunstanciais e improdutivas, quase sempre! Sei que muito provavelmente me engano, porque o Comendador, que eu respeitava tão superiormente, dava a isso muito valor. Nunca percebi, honestamente, em que medida exacta e quando é que isso acontecia, mas era muito clara essa parte nele. Eu é que não tinha a lucidez bastante para ver compatibilidade nisso! Sabe como sou, separo coisas inseparáveis e o Comendador juntava os presumíveis opostos em harmonia. Sim, claramente, quando lhe interessava!

 

Hoje, enquanto passeava pelas ruas, perseguia-me uma voz que me fazia entrar em alguns locais e noutros não. Depois de entrar percebia porquê, mas ao mesmo tempo não tinha explicação para o que a isso me impelia! Foi numa das conversas com a jovem diplomata que soube a razão disso. Eram locais onde ela tinha estado, exactamente, com ele! Os armazéns Liberty, acredita nisto, onde tinha comprado o fato de lã e cachemira para o último evento; a relojoaria de Regent Street onde tinha adquirido a sua última peça da colecção de relógios! Foi exactamente ali, no luxuoso hall de entrada, que encontrou o coleccionador inglês de quem sempre tinha andado à procura! Alguém que hipoteca a própria vida, se for caso disso, para completar uma colecção! Admirável! E sabe que não era esse o caso!? Era apenas o dono da loja! O Comendador enganou-se! Não podia, depois disso, regressar! Nem para si nem para mim e muito menos para ele!

 

Daquela que não a esquece,

Maria Francisca

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:01
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 13 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ARMISTÍCIO.

 

Ao frio novembro de 1918, uma nova alegria veio a todos aquecer. Embora com alguns dias de atraso, chegou a Sant’Aninha de Monforte uma auspiciosa notícia: a Guerra acabou! Os alemães reconheceram-se derrotados e assinaram o armistício no dia 11 daquele mês, pondo termo, assim, à chamada Grande Guerra.

 

Alfredo, que andava lá pela pracinha, correu a dar a notíciaaos seus. Logo Aldenora, estripando alguns xailes, improvisou fitas verdes e encarnadas. Foram todos ao centro da aldeia, com as cores da bandeira pátria, a gritarem vivas e loas ao querido Portugal. Todos os aldeães estavam a correr alegremente ao Largo da Igreja, a levar farnéis de pães, queijos e vinho, muito vinho. Acendiam-se fogueiras para assar castanhas. O rancho de danças e cantorias da aldeia já estava a se formar, com suas roupas típicas de domingo e os músicos a preparar suas gaitas, harmónios, guitarras e violas braguesas, para a gentinha dançar.

 

Festejava-se o fim da grande asneira político-económica das grandes potências da época, na qual, só na Batalha de La Lys, em abril desse mesmo ano, foi-se quase a metade dos cerca de 9.000 soldados portugueses que, em África e na França, perderam suas vidas, nas mais indignas condições. A própria Sant’Aninha enviara à morte, na África, dois de seus mais robustos rapazes.

 

A verdade da História é que vários países e milhares de vidas se envolveram, durante quatro anos, em uma lastimável carnificina, sem justificativa alguma que a validasse, realmente. Seus mais dolorosos registos eram as cartas em que os soldados contavam, aos seus entes queridos, os horrores e a tortura mental que era viver ou morrer em uma trincheira. Mais morrer do que viver, a julgar pelas estatísticas dos milhares de civis e militares que perderam a vida em vão, por uma guerra vã, como em tantas outras contendas vãs e inúteis que soem ser, afinal, todas as guerras.

 

Em suma: tudo vão.

 

A Alemanha, diante da Tríplice Entente, rendera-se afinal à França, à Inglaterra e aos Estados Unidos (a Rússia, após a Revolução Bolchevique de 1917, já havia saído de cena do trágico teatro bélico) e também, certamente, a outros aliados de menor participação, mas de grande mérito e valor. Antes do conflito, Portugal já estivera a lutar contra os alemães, em uma guerra não declarada, na defesa de suas colónias. Acabara por aderir, formalmente, a essa luta. O povo português sentia-se, agora, também um vencedor.

 

Enfim, terminara. Era tempo de festejar a paz e glorificar, tanto os valorosos mortos, quanto os heroicos sobreviventes. De ambos os tipos de bravos, havia soldados de Chaves e de várias aldeias trasmontanas, a serem glorificados no panteão dos heróis. Não fossem por seus dois eméritos rapazes, as agruras bélicas nunca teriam chegado inteiramente a Sant’Aninha de Monforte, uma aldeia esquecida por trás dos montes, mas todos agora celebravam o fim daquela insensata peleja mundial que, ingenuamente, declarava-se “uma guerra para acabar com todas as guerras”.

 

Não apenas falhou em ser a última de todas, como veio a se tornar o tubo de ensaio para outra, mais global e tão ou mais terrível e genocida, a segunda grande guerra do século XX. Esta seria fruto dos delírios de um anticristo, de estranhos bigodinhos à la Charlot (Charles Chaplin, até então, era a mais proeminente estrela de cinema, em Hollywood). Essa besta-fera germânica já estava a entronizar, na derrotada e combalida Alemanha pós “Grande Guerra”, suas garras de Leviatã. Com o seu famoso livro “Mein Kampf” (1924) e o carisma de excelente orador, iria influenciar e obter o apoio crescente da maioria de cidadãos da Alemanha, cegos, surdos e emudecidos pelo fascismo, putrefaciente mancha moral e desumana, que começava a se estender sobre uma considerável fração do mapa da Europa.

 

Seu fanatismo exacerbado iria aprofundar as bases da ideologia Nazi. Eivada de intolerância e fobias, como a eugenia, o racismo, a supremacia ariana e o antissemitismo, culminaria com a perseguição e condução em massa a campos de concentração, onde iriam consumar-se a tortura e morte de cerca de onze milhões de pessoas, no chamado Holocausto, dentre judeus (as vítimas mais numerosas), ciganos, comunistas, Testemunhas de Jeová, homossexuais e deficientes físicos e mentais. Além desses massacres, iriam fazer-se experiências científicas dolorosas e fatais com seres vivos, que tinham prisioneiros como cobaias humanas.

 

fim-de-post

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:43
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Segunda-feira, 12 de Junho de 2017

O Barroso aqui tão perto - Contim

1600-cotim (1)

montalegre (549)

 

Sei que o habitual é o “Barroso aqui tão perto” calhar aqui no blog aos domingos, mas nem sempre nos é possível, mas como não queremos deixar de cumprir as nossas promessas, não conseguimos ao domingo, mas segunda-feira também serve. Assim, na nossa peregrinação pelo Barroso, hoje toca a vez à aldeia de Contim ou Guntim se quisermos regressar um pouco no tempo, mas já lá vamos.

 

1600-cotim (9)

 

Iniciemos então pela origem do topónimo que segundo a “Toponimia de Barroso” - “Vem do genitivo do nome pessoal Guntinus, de origem germânica. A terra foi, portanto, uma vila, casal, abegoaria ou herdade  de um tal Guntinus: Villa Guntini – Terra de Gontim, como há poucos séculos ainda se dizia. Agora, por reforço, substituímos a branda G pela forte C e dizemos Contim. Não aparece nas inquisições.”  E sem sequer ousarmos por em dúvida a origem do topónimo o “Guntim” é reforçado ou confirmado pelo menos numa referência do Arquivo Nacional da Torre do Tombo onde se menciona o “Dicionário geográfico de Portugal, Tomo 18, G 2, H, J" 1758/1758, 142 Guntim (Contim), Montalegre 1758/1758”.

 

1600-cotim (3)

 

Depois da origem do topónimo, passemos à localização de Contim. Segundo a minha análise fica entre as terras da chã e as do rio, mais a cair para as terras rio, ou então é mais uma aldeia entre os rios Cávado e Rabagão, mas se quisermos ser ainda mais precisos, localiza-se entre as barragens dos Pisões e a de Paradela, sensivelmente a meio. Mas precisão mesmo são as das suas coordenadas geográficas, que aqui ficam, do centro da aldeia: 41º 46’ 59.47” N e 7º 53’ 33.77” O. Mas para não haver qualquer dúvida, fica também o nosso habitual mapa do concelho de Montalegre com a sinalização de Contim.

 

1600-mapa-contim.jpg

 

Quanto à altitude já sabemos que as terras do Barroso anda todas próximas dos 1000 metros de altitude. 100 ou 200 metros acima ou abaixo há sempre uma aldeia barrosã. Contim não é exceção e no local onde tomámos as coordenadas estva a 961m de altitude, mas se quisermos ser mais precisos, a construção mais alta da aldeia está na cota dos 998 metros e a mais baixa nos 945 metros.

 

1600-cotim (15)

 

Quanto à paisagem predominante vamos tendo o verde vivo nas pastagens a contrastar com um verde mais discreto da floresta que em terras de Barroso faz questão de ser autóctone na sua grande maioria, com o carvalho a ser rei e senhor. Contudo há outras espécies e até o eucalipto já marca presença no Barroso… mas tenhamos fé em que o carvalho continuará por lá, com o seu verde discreto do verão e o seu misto de castanho avermelhado/esverdeado do inverno, dependendo da localização dos carvalhais e do estarem mais ou menos tomados pelos líquenes.

 

1600-cotim-14-art (7)

 

Quanto às nossas pesquisas ficámos a saber que até 2013, Contim era sede de freguesia à qual pertenciam também as aldeias de S.Pedro de Vilaça, e sobre esta ex-freguesia, ,  encontrámos alguma informação num site do Governo (entre muita informação indisponível) (http://www.acessibilidade.gov.pt/), assinada pelo então presidente da Junta. Não sabemos a data da informação, mas lá diz o seguinte:

 

1600-cotim (4)

 

“A nossa freguesia, composta pelas localidades de Contim, São Pedro e Vilaça, fica situada na margem sul do Rio Cavado, no concelho de Montalegre, e tem vários pontos de interesse que pode consultar nesta página. A primeira referência histórica à nossa freguesia, de que temos conhecimento, data do século XII e refere-se à localidade de Vilaça. No entanto, há historiadores que apontam para a possível existência de um castro, no Facho, onde hoje está situada a localidade de São Pedro. Assim, provavelmente, esta área já teria sido habitada na era antes de Cristo. “

 

1600-cotim (11)

 

E continua:

“Hoje, devido à emigração, a nossa freguesia tem muito menos população do que no passado recente. Contudo, o nosso povo continua a viver da agricultura. Embora grande parte do trabalho seja, agora, feito com meios mecânicos, o nosso gado continua a pastar diariamente nos lameiros e os nossos terrenos continuam a ser estrumados da mesma forma que faziam os nossos antepassados. No nosso espaço há uma harmonia perfeita entre o tradicional e o moderno, entre o homem e a natureza. “

1600-cotim (22)

 

E remata:


“Assim, esperamos que este sítio sirva para dar a conhecer a todos os interessados este maravilhoso canto do planalto barrosão e que sirva, também, como mais um elo de ligação à sua terra para todos os nossos conterrâneos espalhados pelo mundo. Esperamos a vossa visita. "

1600-cotim (21)

 

E embora no referido site do Governo existissem sinalizados links para a história, fotografias e outros de interesse da freguesia, a realidade é que os links não funcionavam, mas tinha a mensagem do Presidente da Junta, que já era alguma coisa.

 

1600-cotim (2)

 

Mas sobre a referida extinta freguesia apurámos o seguinte: “Todas as três povoações que formavam a freguesia já serviram de sede: em todas se rezou missa e se ergueu baptistério capaz. Metade de São Pedro, aldeia fundada sobre um castro onde ainda continua, pertenceu à Comenda de São Tiago de Mourilhe. Porém, o mais idílico recanto de todo o planalto talvez seja a capela de Nossa Senhora da Vila de Abril que foi ermitério medieval carregadinho de religiosidade e lendas. É uma das “Sete Senhoras” festejadas a 8 de Setembro de cada ano. Vejam bem a poesia desta lenda:

 

1600-cotim (16)

 

Consta que um ermitão (os ermitães, como possíveis vestígios de algum antigo mosteiro que aí tivesse havido, habitaram no local, pelo menos até ao século XVIII), um belo dia de há séculos atrás, ao abrir a porta da capela aos peregrinos, deu pela falta da imagem da Senhora no seu altar. Convenceu então os assistentes a juntarem-se a ele em orações que se prolongaram por todo o dia. Ao cair do sol no horizonte, sobre o Alto de São Pedro do Rio, uma sombra triangular alongou-se pelo corpo do edifício… Era a Senhora que regressava muito cansadinha…

 

O ermitão franziu a sobrancelha e repreendeu-a:

 

“ – Maria, então como é..

 

que me deixas tão aflito,

preocupado e doente?

E a senhora regressou ao seu altar ante a estupefacção dos presentes. Era assim, sem cerimónias, que o último pároco da

freguesia contava a poética lenda.

E a Senhora respondeu:

 

- Ó homem de pouca fé,

que te zangas sem motivo,

… fui às portas do poente

pra salvar um marinheiro

que no mar estava perdido!”

 

E a senhora regressou ao seu altar ante a estupefacção dos presentes. Era assim, sem cerimónias, que o último pároco da freguesia contava a poética lenda.

 

1600-cotim (20)

 

Em 2013, os de Lisboa, com a desculpa da Troica e da poupança,  lembrara-se de fazer uma suposta reforma administrativa do território, mas apenas se ficaram pelas freguesias, ou seja, por aquelas que menos despesas davam, por aqueles que menos força política têm e por aqueles que mais honestos são no fazer política e que mais próximos estão da população.

 

1600-cotim (17)

 

Dessa reforma levada a eito, muitas vezes de uma forma cega e sem ter em conta a história das freguesias e a vontade dos fregueses, cometeram-se verdadeiros atentados contra as populações locais e muitas das suas tradições e viveres. Sorte dos de Lisboa já não haver braços novos e fortes nas freguesias para manejarem estadulhos… senão, pela certa, outro galo cantaria. Mas resumindo, pouparam-se uns míseros euros na união de algumas freguesias, sem qualquer significado económico, , e uniram-se aldeias, que tradicionalmente sempre estiveram separadas e que mesmo com boa vizinhança, tinham as suas particularidades que fazia da sua freguesia, a sua freguesia, com o seu orago, o seu boi do povo (no tempo em que os havia), a sua festa, etc.

 

1600-cotim (12)

 

Quanto a Contim, é uma aldeia pequena, notoriamente  despovoada mas onde ainda há alguma vida e até a modernidade já chegou, com algum impacto e contraste, sem grande respeito pelo existente, pois a imagem da marca vale muito mais, ó se vale, e fora de tempo, aliás às nossas aldeias tudo chegou fora de tempo…

 

1600-cotim (18)

 

E para terminar . Nas nossas pesquisas encontrámos várias referências à Senhora de Vila Abril e ao seu Santuário, e atrás, neste post, até deixámos alguma informação e  a lenda sobre a mesma, mas a verdade é que, lá na freguesia, nem a vimos nem havia qualquer  indicação da sua existência, e se havia, passou-nos despercebida, mas, penso que já sei onde ela para, e se não estiver enganado, um dia destes também a deixarei por aqui.   

 

1600-cotim (8)

 

Ficam as habituais  referências para as nossas consultas e os links para os posts anteriores com aldeias ou temas do Barroso.

 

Bibliografia

 

BAPTISTA, José Dias, (2014), Toponímia de Barroso. Montalegre: Ecomuseu – Associação de Barroso

BAPTISTA, José Dias, (2006), Montalegre. Edição do Município de Montalegre.

 

Links para anteriores abordagens ao Barroso:

 

A

A Água - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-a-agua-1371257

Algures no Barroso: http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-1533459

Amial - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ameal-1484516

Amiar - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-amiar-1395724

Arcos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-arcos-1543113

B

Bagulhão - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-bagulhao-1469670

Bustelo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-bustelo-1505379

C

Castanheira da Chã - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-castanheira-1526991

Cepeda - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cepeda-1406958

Cervos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-cervos-1473196

Cortiço - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-1490249

Corva - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-corva-1499531

D

Donões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-donoes-1446125

F

Fervidelas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-fervidelas-1429294

Fiães do Rio - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-fiaes-do-1432619

Fírvidas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-firvidas-1466833

Frades do Rio - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-frades-do-1440288

G

Gralhas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhas-1374100

Gralhós - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhos-1531210

L

Ladrugães - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ladrugaes-1520004

Lapela   - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-lapela-1435209

M

Meixedo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixedo-1377262

Meixide - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixide-1496229

N

Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-negroes-1511302

O

O colorido selvagem da primavera http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-o-colorido-1390557

Olhando para e desde o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-olhando-1426886

Ormeche - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ormeche-1540443

P

Padornelos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padornelos-1381152

Padroso - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padroso-1384428

Paio Afonso - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-paio-afonso-1451464

Parafita: http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-parafita-1443308

Paredes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-paredes-1448799

Pedrário - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pedrario-1398344

Pomar da Rainha - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-pomar-da-1415405

Ponteira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-ponteira-1481696

R

Roteiro para um dia de visita – 1ª paragem - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1104214

Roteiro para um dia de visita – 2ª paragem - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1104590

Roteiro para um dia de visita – 3ª paragem - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1105061

Roteiro para um dia de visita – 4ª paragem - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1105355

Roteiro para um dia de visita – 5ª paragem, ou não! - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-roteiro-1105510

S

São Ane - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sao-ane-1461677

São Pedro - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sao-pedro-1411974

Sendim -  http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sendim-1387765

Sezelhe - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sezelhe-1514548

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

T

Tabuadela - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-tabuadela-1424376

Telhado - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-telhado-1403979

Travassos da Chã - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-travassos-1418417

U

Um olhar sobre o Larouco - http://chaves.blogs.sapo.pt/2016/06/19/

V

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Arcos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1508489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

Vilaça - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilaca-1493232

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

Vilarinho de Negrões - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilarinho-1393643

X

Xertelo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-xertelo-1458784

Z

Zebral - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-zebral-1503453

 

 

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 22:57
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

Quem conta um ponto...

avatar-1ponto

 

346 - Pérolas e diamantes: O vazamento das evidências

 

Laurent Binet escreveu um livro suficientemente divertido sobre Roland Barthes (escritor, sociólogo, crítico literário, semiólogo e filósofo francês que fez parte da escola estruturalista, influenciado pelo linguista Ferdinand de Saussure), partindo da suposição de que afinal não morreu por causa de um acidente estúpido mas antes vítima de um homicídio premeditado.

 

Ou seja, o maior crítico literário do século XX terá sido assassinado por possuir qualquer coisa de muito poderosa.  

 

A Sétima Função da Linguagem parte de uma frase inicial: “A vida não é um romance.”

 

De facto, a morte de Barthes deu-se em circunstâncias um pouco tristes. Foi atropelado quando saía de um almoço com François Mitterrand, então candidato à presidência da França.

 

Ser mestre na utilização da linguagem, todos o sabemos, é muito proveitoso. A semiótica é útil para entender o mundo e a retórica é útil para lidar com ele.

 

Para atingir o poder, a linguagem é uma arma poderosa. Binet, para construir o seu romance, parte do princípio de que a linguagem é a arma mais poderosa do mundo e há mesmo quem mate para dominar o seu segredo.

 

Roland Barthes era um descodificar do modo humano de comunicar. Possuía até uma qualidade intelectual que os medíocres apreciam imenso: conseguia falar de bifes com batatas fritas, de carros, de filmes do James Bond, fazendo uma abordagem muito lúdica da Linguística.

 

Afinal, segundo os entendidos, a Semiologia é isso mesmo: uma disciplina que aplica os métodos da crítica literária a objetos não-literários. É o estudo da vida dos signos no seio da vida social.

 

Lá pelo meio do livro aparecem estudantes de alpargatas e peúgas distribuindo panfletos onde se pode ler: À Espera de Godard, peça em um ato, a que eu gostaria de ter assistido.

 

E também existem as personagens que buscam a verdade. Os medíocres estão espalhados por todo o lado. E a verdade… A verdade… “Onde é que ela começa, onde é que ela acaba… Estamos sempre no meio de alguma coisa.”

 

A verdade só existe se for exibida. É um símbolo. E um símbolo escondido não serve para nada. Não existe.

 

Por exemplo, Jean Daniel escreveu um editorial sobre Mitterrand no Nouvel Obsevateur, em 1966, onde apresentou esta certeza: “Este homem não dá só a impressão de não acreditar em nada: perante ele, sentimo-nos culpados de acreditar em alguma coisa. Ele insinua, como quem não quer a coisa, que nada é puro, que tudo é sórdido e que nenhuma ilusão é permitida.”

 

Numa conversa entre espiões de gabarito, a dado momento uma personagem pensa que nada existe de mais desconfortável para alguém disposto a mentir do que ignorar o nível de informação do seu interlocutor.

 

Quando se mente, há que mentir, como pensa o camarada Kristoff, apenas num ponto. E num só. Em tudo o resto tem de se ser perfeitamente honesto.

 

Barthes detesta aborrecer-se, mas oferecem-lhe tantas oportunidades que não lhe resta outra solução se não aceitá-las. Sem saber bem porquê, convenhamos.

 

Os políticos aprenderam já há muito tempo que para se ter sucesso é necessário possuir um elevado grau da arte de enunciar as evidências.

 

Barthes, sempre conciliador, alegava: “Uma evidência não se demonstra, vaza-se.”

 

A arte de governar afinal não passa de nos convencer de que o governo não é responsável por nada.

 

Por isso lhe dói o balanço das contas.

 

“O momento difícil de uma vida, a dele, a vossa, a minha, de toda a vida que se pretende ambiciosa, é aquele em que se inscreve o sinal na parede a dizer-nos que começamos a imitar-nos a nós mesmos.”

 

A linguagem, quer queiramos ou não, serve para produzir uma mensagem que só adquire sentido no momento em que existe um destinatário. Apenas os loucos tagarelam no deserto.

 

Ainda não apurei se o Laurent Binet é ou não um bom romancista, o que sim sei é que a sua fasquia é muito alta, pois considera que “se houver Deus, ele será um mau romancista”.

 

João Madureira

´
publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sábado, 10 de Junho de 2017

Ocasionais - Tugaquistão

ocasionais

 

TUGAQUISTÃO

 

O maior obstáculo no caminho do autêntico saber

não é a ignorância consciente da sua fraqueza,

mas a auto-suficiência de um saber aparente.

F.Heinemann

 

 

Os democratas «tugas» gostam muito da realeza!

 

O «OK»-okay (ó, quei!) – vigora desde o dia em que a Filipa de Lencastre pôs os olhos no João de Avis.

 

Ficou-se por aqui até ao tempo do Marquês de Pombal.

 

Este resolveu demarcar a zona do melhor Vinho Fino do Mundo, e tornou-a única.

 

Os Ingleses, sempre invejosos dos Franceses e dos Espanhóis, invocaram uns laços de sangue com os Portugueses e, em vez de  se ficarem pelo “Alvarinho”, com que celebraram o enlace da Filipa com o João, mesmo depois de um tal Barão de Forrester ter andado pelos “Lanca e Yorh Shires” a dizer cobras, lagartos e lombrigas de uma célebre pingota tão portuguesa, aliás, tão Transmontana, deu o dito por não dito, após umas estadulhadas camilianas, e promoveu uma cruzada copofónica de súbditos de Sua Majestade, para a conquista do território donde os deuses recolhiam o melhor néctar do mundo!

 

A D. Antónia ‘inda quis fazer de Deu-la-Deu Martin e de “Padeira de Aljubarrota”, mas, os Croft, os Forrester, os Graham’s, os Nieport, os Taylors, os Sandeman bem treinados por “Robin Hood”, Drake, Nelson e Cromwell, “passaram a perna” aos «Tugas».

 

Até um rapazote, chegado escondido no porão de uma barcaça viking, fez fortuna tal a mostrar a pele de um urso, ali, em Miragaia, que passou a comprar pipas, rabelos, armazéns, e quintas no Douro!

 

Os «Tugas» nunca mais deixam de andar a dormir! Mesmo agora que já acabaram com o hábito da sesta!

 

Pindéricos até dar c’um pau, os «Tugas» armam-se em cultos, cosmopolitas,  poliglotas, entendidos em todas as técnicas e táctitas, e exímios armadores … de andores e de sabiciche!

 

“Oi!”, “Tá!”, «Tá tudo?!»; ”Chau!”; “Taimingue”, “Brifingue”, “âpe tu, dei-te!”, “bèque-graunde”, “uarding” (final)!;  preços «lou-coste»; «uórque-chope»; «sanes-sete», «oume-produquetes»    -    serviço de passadoria(?!)—PASSADORIA?!- PASSADOR…, PASSA….; aonde se quer chegar?!

 

E (por aqui) todas as meninas (infantis) são chamadas de «princesas»!

 

Ora viva a Tuga República de republicanos prontos, prontinhos, a prestar homenagem lambuzeira  à realeza de «lords» do “Ultimatum”!

 

Esta prontidão em imitar os tiques estrangeiros (e as palavras) revela mais um sinal de fraqueza de personalidade, de identidade, do que o brio na portugalidade: é uma verdadeira rendição incondicional, é uma verdadeira declaração (ou confissão) de perda de fé nos nossos próprios valores tradicionais.

 

É lamentável que os Portugueses estejam a considerar a sua Língua, o PORTUGUÊS, como uma Língua morta, ou moribunda!

 

Tantos a babarem-se todo em genuflectória confissão de  que a  Língua Portuguesa é vergonhosa e envergonhadamente pobre   -  não tem palavras ou expressões correspondentes às gírias, aos tiques, aos lugares-comuns das estrangeiras!

 

Com que facilidade se rendem a mesquinhos interesses de gente medíocre que, de tão teimosa e embirrenta em querer «dar na vistas», seja lá a que preço for, avilta a Língua-Mãe, convidam aos estrangeirismos balofos, «pintarolas», cujo atributo mais não é do que pantomineiro e aberrante colorido palavreado, dos jeitos e dos trejeitos fiteiros de «sapateiros a querer trepar acima da chinela»!

 

Que ridícula figura a dos «provincianos ilustrados» quando, lá por terem andado nos «Passos Perdidos» à procura de umas vaidadezinhas e de umas lambidelas no «sul» de outros pares mais «ímpares», que ridícula figura a desses «provincianos ilustrados» com um diploma-canudo «à la minuta», quando, nas campanhas eleitorais, nas «entrevistas» aos Jornais, Rádios e «Têvês» locais e Regionais, nas quadradas ou rectangulares mesas-redondas ou em debates …de banalidades falam  «à lisVoeta», gesticulam “à S. Bento”,  e põem a voz de fanfarrão parlamentar ou ministerial!

 

Nenhuma Língua existe àparte  de uma Sociedade e da sua Cultura.

 

«Cada Língua está ajustada à Cultura em que é utilizada, sendo, no entanto, possível inventar ou adaptar novas formas de falar que acompanhem quaisquer possíveis mudanças culturais».

 

Usando e abusando, “ad nauseam”, de estrangeirismos desnecessários e de adverbialices pindéricas, os «Tugas» caminham, tão estupidamente quão fatalmente, para a deformação e destruição da sua Cultura identitária!

 

Revaloriza-se o «lulês», o «dilmês» e o Inglês; e despreza-se ignominiosamente o PORTUGUÊS!

 

Até parece que nem Camões, nem Herculano, nem Camilo, nem Eça, nem Ramalho, nem Antero, nem Pessoa, nem Ferreira de Castro, nem Aquilino, nem Junqueiro, nem Pascoais,  nem Araújo Correia, nem Machado de Assis, nem Jorge Amado, nem Veríssimo, nem Manuel Bandeira, nem Florbela, nem Cecília Meireles, nem Irene Lisboa, nem Bento da Cruz, nem Torga existiram!

 

Estes e muitos outros, felizmente, são testemunho de que o PORTUGUÊS sempre soube expressar-se numa linguagem verdadeira e entendida pelos deuses!

 

Nas suas palavras, nos seus Romances, nos seus Contos. nos seus Poemas, encontra-se a força sobrenatural que justifica o orgulho de «SER PORTUGUÊS»!

M., sete de Abril de 2017

Luís Henrique Fernandes

 

 

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 22:31
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

Bolideira - Chaves - Portugal

1600-bolideira (27)

 

Bolideira, é até lá que vamos hoje, com os três olhares do costume, um para a famosa pedra de bulir, outro para um pormenor e outro para a entrada/passagem pela localidade.

 

1600-bolideira (10)

 

Bolideira que para além da pedra e um entroncamento sempre foi uma espécie de entreposto de armazéns agrícolas ou de apoio à agricultura e não a aldeia comum. Aliás, se a memória não me atraiçoa, penso que casas de habitação eram só uma ou duas.

 

1600-bolideira-art (2)

 

Mas a fama desta localidade vai mesmo para a Pedra da Bolideira que se tornou um local de interesse turístico, tudo porque uma única pessoa pode por a bulir a enorme pedra com umas dezenas de toneladas.  

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 21:03
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 9 de Junho de 2017

Uma do Tabolado

1600-(44282)

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 03:24
link do post | comentar | favorito (1)
|  O que é?

Vivências

vivenvias

 

Eu agradeço a um professor

 

 

Junho de 2012.

 

Está a ser amplamente difundido pelo Facebook, mas acabei por saber, por mero acaso, num pequeno cartaz afixado na porta de um centro de explicações. O movimento chama-se “Eu agradeço a um professor” e um dos seus objetivos é levar-nos a recordar aquele ou aqueles professores que mais nos marcaram ao longo do nosso percurso escolar. Olho para trás em busca dos rostos e dos nomes dos meus professores e a primeira constatação é que não me lembro da grande maioria deles, facto que deixa de me parecer estranho quando calculo que ao longo da minha vida terão sido bem mais de uma centena aqueles que contribuíram, uns mais outros menos, para a minha formação académica.

 

Lembro-me, no entanto, de vários, desde a escola primária ao ensino superior, e da maioria deles por boas razões. Lembro-me daquela professora de Secretariado a quem preparámos uma festa surpresa no dia do seu aniversário e a quem oferecemos uma lembrança como forma de reconhecimento por tudo aquilo que fez por nós. Lembro-me daquela professora de Contabilidade que frequentemente se atrasava e por quem nós esperávamos, já depois do “2º toque”, depois de a termos visto da janela do 3º piso a entrar, em passo apressado, no portão da escola. E lembro-me também daquele professor de Cultura e Civilização Portuguesa com quem passámos várias aulas a descortinar a verdadeira origem do vaso campaniforme, facto que, como é óbvio, em nada contribuiu para o meu futuro…

 

Não fui à página do movimento deixar qualquer testemunho ou agradecimento, pois também não saberia se seriam lidos por aqueles a quem me iria dirigir. Mas agradeço aqui a todos os meus professores: aos que souberam ser exigentes quando tal era necessário, aos que souberam ser compreensivos, aos que souberam preocupar-se, aos que souberam motivar e dar esperança, aos que souberam, pela sua postura e pelas suas atitudes, transmitir valores, para além de conteúdos… A todos devo parte do que hoje sou. Obrigado!

 

Luís dos Anjos

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:33
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

.Fotos Fer.Ribeiro - Flickr

frproart's most interesting photos on Flickriver

.meu mail: blogchavesolhares@gmail.com

.Junho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

11
15


29
30


.pesquisar

 
ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

 

 

El Tiempo en Chaves

.Facebook

Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita Instagram

.subscrever feeds

.favorito

. Abobeleira em três imagen...

. Solar da família Montalvã...

.posts recentes

. Cidade de Chaves - Um olh...

. Cartas a Madame de Bovery

. Cidade de Chaves - Arraba...

. Chaves D'Aurora

. Quem conta um ponto...

. O Barroso aqui tão perto ...

. Pecados e Picardias

. Calvão, Chaves, Portugal

. Freiras - Versão 3

. Discursos Sobre a Cidade

. Coisas do meu baú - A man...

. Flavienses por outras ter...

. Novidades...

. Cartas a Madame de Bovery

. Imagens frescas para dias...

blogs SAPO

.Blog Chaves no Facebook

.Veja aqui o:

capa-livro-p-blog blog-logo

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites