Sábado, 21 de Maio de 2016

Uma aldeia, uma imagem - Agrações

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:24
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Sábado, 14 de Maio de 2016

Chaves rural, era uma vez...

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Hoje comi favas, é tempo delas, de chegarem à mesa para serem mais uma das nossas iguarias. Uma sopinha de favas ou uma fabada, não há melhor. Ontem quando as vi em cru cresceu-me água na boca, mas hoje quando as comi, fiquei desconsolado… pois ainda me lembro das favadas que a minha avó e a minha mãe faziam quando eu ainda era miúdo, feitas com alguma arte, é certo, mas com outros acrescentos que a(o)s cozinheira(o)s de hoje já não têm, e daí, o discurso de hoje sobre o nosso mundo rural, mais que de saudade é de desilusão.

 

Este discurso de fins-de-samana sobre o nosso mundo rural tende cada vez mais a ser pessimista, a cada vez mais ser deprimente. Todos os sábados farto-me de aldrabar por aqui com imagens e estórias de um mundo que já acabou, que já não existe mais, que não será possível recuperar. Aqui e ali vão restando uns resquícios da cultura do povo transmontano, apenas isso em dois ou três resistentes já meios tolhidos pela idade,  um povo por excelência que se apoiava na sua terra, na sua singularidade e genuinidade, nos seus saberes e no comunitarismo, pois a vida difícil de viver atrás dos montes numa terra ingrata,  a isso obrigava.

 

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Na distância e ausência da coisa fácil das cidades que a troco de dinheiro se compra(vam) sabores, saúde, educação, diversão, sensações e até a própria vida, o mundo rural trabalhava os pequenos vales e montes para deles tirar o sustento da sua sobrevivência e vivia em comunhão com gente, porcos, vacas, ovelhas, cabras, burros, gatos, galinhas, cães, cavalos, patos, perus e demais animais que um dia também eles pudessem ir à mesa das refeições ou pudessem ajudar no árduo trabalho de revirar a terra para todos os anos, por volta do mesmo dia, semearem e colherem os seus frutos.

 

E assim a gente lá ia andando na sua roda viva dos afazeres diários, que eram mesmo diários sem semana à inglesa, pois a bicheza assim o exigia, e todos, os animais, pessoas adultas, crianças e idosos, tolhidos dos membros, maleitas ou até da cabeça, sem exceção, contribuíam para a mesa lá de casa e quando nas colheitas eram necessárias muitas mais mãos e corpos para o trabalho, os vizinhos apareciam sempre para dar uma ajuda. Entretanto os porcos na corte faziam estrume para as terras enquanto engordavam para no inverno irem ao banco, as vacas e bois, quando não tinham de fazer parelha para puxar os carros de trabalho, ou individualmente puxarem ao arado, eram tocadas para os lameiros, a ovelhas e cabras iam para o monte, os cães faziam de companhia, davam alarmes,  marcavam e  guardavam o seu território e os do seu dono, guardavam e protegiam o gado do ataque dos lobos,   galinhas, patos e perus além de um dia servirem de manjar, punham ovos e comiam os restos das refeições, cascas, sementes e fruta rejeitada, os gatos lordes que são, dormiam ao sol mas de olho na casa e nos baixos que mantinham livres da bicheza pequena dos roedores, cavalos e burros serviam para o transporte de mercadorias e pessoas.

 

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Tudo isto era suficiente para se viver e se mais terras houvessem, mais se cultivavam, e mais filhos se faziam para as trabalhar. Vida dura e difícil, feita de sol a sol, onde só as noites, os dias de chuva intensa ou os grandes nevões davam algum descanso, no entanto, à sua maneira, viviam felizes, e com a fé que todos tinham, rezavam e agradeciam o pão que sempre chegava à mesa e que Deus e a natureza os livrasse, a eles, às suas culturas e à bicheza lá da terra das pragas e doenças, preces que ouvidas ou não, eram sempre agradecidos ao santo de devoção ou padroeira da aldeia, acrescidos de festa rija, com missa e procissão, foguete no ar, banda no coreto, cabrito e outros pormenores à mesa.

 

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Mas o que mais surpreendia era a criatividade que este povo, cultura, rural tinha. Nos tempos menos abastados ou de escassez do que a terra dava,  inventava sabores para não ter à mesa, todos os dias, apenas, o pão que o diabo amassou. Do porco, animal sagrado sem direito a devoção, aproveitava-se tudo, sem exceção, e, pelo menos, desde o Natal até à Páscoa garantia ricas iguarias á mesa, qual delas a melhor. Cabritos, cordeiros e leitões, para os dias de festa, embora os últimos dessem sempre algum dinheiro que dava sempre algum jeito e depois havia que guardar alguns para engordar. Frangos e coelhos enquanto os havia, para o dia a dia, as galinhas poedeiras escapavam ao repasto e apenas depois de velhas davam boas canjas,  galo para dias especiais, o peru para o natal e por aí fora… Isto quando havia bicheza para ir à mesa. As invenções aconteciam quando como quase do nada faziam verdadeiras iguarias, que hoje, algumas, são imitadas com mais sustento. Os milhos, fabadas, palhadas, omeletes, tomatadas, castanhas, tortulhos, batatas à espanhola e as punhetas de bacalhau, sopas e caldos, para além daquilo restava na salgadeira ou dos fumados de porco que durante todo o ano, regados ou cozinhados com o azeite, cebola e alhos da colheita iam dando sabor a autênticas iguarias feitas de quase nada, onde até a carne gorda podia ser um petisco, sem esquecer a magia das ervas aromáticas que tinham sempre à mão.   

 

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O engraçado disto tudo é que estes pratos considerados pobres e de pobres, hoje são servidos em bons e finos restaurantes como entradas, ou mesmo como prato principal, que embora não sejam maus, estão a anos luz do sabor e mestria com que eram confecionados com os produtos genuínos que a gente genuína do mundo rural tinha e que saiam das suas hortas e cortes, ao contrário dos de hoje, de estufas, aviários e outros que tais.

 

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Engraçado também, com graça deprimente, é que esses pratos pobres, poulas, hortas, cortes e muito suor deste povo do mundo rural deram de comer e pagaram muitos estudos a doutores e engenheiros que, hoje chegados ou estando no poder (politico ou outro) depressa se esqueceram de como eram bons os milhos comidos à luz da candeia e deixam morrer o mundo rural que lhes permitiu hoje, engravatados,  estarem onde estão.    

 

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De vez em quando, lá de Lisboa e de outros locais onde os poderosos se apoleiram, dizem ser urgente agir contra o despovoamento do interior e do mundo rural. Palavras ditas sem sentir e sem sentido, pois o que lhes vai na mente são outras ambições. Àquilo a que poderíamos e deveríamos apelar, já é muito tarde para o fazer. Já se perdeu, quase toda,  a genuinidade da cultura do povo rural, Já lhes começa faltar-lhe tudo e os pouco resistentes que resistem já não têm tempo ou estão tolhidos para salvar o que resta dessa cultura. Aquilo que supostamente hoje se possa fazer pela cultura deste povo interior, é o que se poderá fazer e oferecer em qualquer parte do mundo, de forma igual, globalizada, cómoda, muito cómoda porque onde quer que formos teremos mais do mesmo, o mesmo sabor, o mesmo saber, sem a singularidade e genuinidade das terras, dos produtos, do modo de fazer e outras singularidades que fazia os seus sabores diferentes, feitos com diferentes saberes e uma cultura, não uma coisa desinteressante, globalizada,  chata  e que se repete em todas as esquinas, sempre desenxabidas e artificiais.

 

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Também por cá, na terrinha, de vez em quando, se vem com a treta de se ter de olhar para o mundo rural, para o presunto de Chaves, para a couve penca, o grelo da veiga e a batata da montanha, para o  pastel de Chaves, o melhor fumeiro e folar de Portugal e arredores, o mesmo que outras terras desse nosso Portugal dizem, mas a realidade é que quando queremos comprar um desses afamados produtos regionais,  o presunto de Chaves nem vê-lo nem cheirá-lo, as couves são da mesma estufa que fornecem Lisboa e o Algarve, as batatas vêm de Espanha, os grelos de genuínos só tem o fio azul com que fazem os molhos, folar já começa a ser igual em qualquer terrinha a que se vá. Quanto ao fumeiro, com as exigências da lei e as preocupações que se tem com o pessoal que o faz e onde se faz, com cozinhas xpto, gorro na cabeça, luvas nas mãos, qualquer dia, em vez do reco do matadouro,  já se faz sem reco e sem fumo, e quer seja aqui ou no Barroso, em Vinhais, nas Beiras ou no Alentejo, o fumeiro certificado começa a ser todo igual e bem longe das chouricinhas e alheiras que a minha avó fazia com o reco da corte, sem luvas e touca na cabeça e fumado com a boa lenha do monte, em lareiros colocados por cima dos escanos a pingar gordura sobre as cabeças de quem o fazia.

 

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Restam os famosos pastéis de Chaves que sobre eles dava para escrever meia dúzia de romances e muitos mais livros de ficção. Pena que a origem dos pastéis de Chaves não fosse um tema obrigatório para os contos que os escritores galegos e outros deste Portugal,  foram convidados há dias pelo Altino para  às custas do município passarem uns dias em Chaves. Seria um bom desafio. Seja como for o pastel está certificado e como diz o nosso amigo do Celeiro que tem lá quatro pastéis dentro duma gaiola – “Não cantam mas são uma delícia” (penso que é isto que diz, se não for é parecido). Pois quanto à sua genuinidade, a acreditar pelo que dizem as dezenas de casas que o fazem em Chaves e não só, cada uma delas diz fazer o verdadeiro pastel de Chaves, quer isto dizer que deve haver por aí muito pastel falso e que os outros que fazem nas outras casas não é o verdadeiro, é parecido, bom, mas não é verdadeiro. Pois eu vou mais longe, e tal como o resto (fumeiro, presunto, etc), todos são pastéis de Chaves e embora, repito,  sejam bons, nenhum é genuíno pela simples razão de os ingredientes não o serem. E fico-me por aqui.

 

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Quanto às imagens de hoje, é um pouco ao calhas, uma foto daqui, outra dali, mas todas de cá,  do nosso mundo rural flaviense, esta sim, genuínas, tal como os nossos resistente e o despovoamento também bem verdadeiro.

 

Resto de um bom fim de semana, hoje com muita festa cá por Chaves e em várias frentes, mas a maior, claro, é a do regresso de Chaves à I Divisão, com reco no espeto, foguete no ar e música nos palcos.  

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 18:58
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Domingo, 8 de Maio de 2016

O Barroso aqui tão perto... Padroso

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Continuando as nossas voltas pelo Barroso aqui tão perto, vamos continuar pelas aldeias da raia seca com a Galiza e das imediações da Serra do Larouco, ainda antes de entrarmos ou passarmos Montalegre para ou outro lado, ou seja, continuamos pelo Alto Barroso, hoje de visita a Padroso.

 

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Nos anos setenta do século passado ia com frequência a Montalegre, mais em tempo de férias escolares, onde de verão passava por lá uns dias em casa de familiares. Já então aproveitava, sempre que surgia a oportunidade, para ir pelas aldeias do concelho de Montalegre. Conheci algumas mas como então, hoje pena minha,  ainda não utilizava o registo da fotografia para memória futura, pouco retenho das aldeias de então, a não ser um fim de Tarde em Tourém em que assisti pela primeira vez à chegada de uma vezeira. Esse foi um momento inesquecível.

 

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Mas nesses anos, tal como disse, conheci algumas aldeias, que no geral do que ainda recordo delas, eram mais ou menos idênticas, ainda com algumas casas cobertas de colmo, muitas pessoas e animais na rua. Mas não recordo de então ter ido a Padroso, embora tivesse ido a Sendim, um pouco mais além. É o problema, sé é que é um problema, das aldeias não ficarem junto às estradas principais, onde sempre se vai deitando um olho sobre elas.

 

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Assim, no passado mês de abril, andando por aquelas bandas, resolvemos ir a Padroso pela primeira vez, embora ao me cruzar com o Rio Cávado recordar que afinal aquele troço de rio e o moinho não me eram estranhos, e não eram, mas também nos tais anos setenta em que fui por ali, não passei do Cávado nem do moinho.  

 

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Pois em abril entrámos pela primeira vez na aldeia, já passavam das cinco da tarde e a luz do dia não era lá grande coisa para a fotografia.  Aliás quando entramos pela primeira vez numa aldeia entramos sempre às escuras, mas aqui a luz é outra, pois entramos às escuras porque estamos a entrar no desconhecido, mas as luzes vão-se acendendo quando começamos a entrar nas suas ruas e a trocar dois dedos de conversa com os seus habitantes.

 

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Se a entrada em Padroso não desperta para nós muito interesse, pois é a parte nova da aldeia, o início da primeira rua mais antiga idem aspas, pois somos recebido pelo casario abandonado, algum em ruinas, e uma ou duas intervenções mais recentes que quebram a harmonia do casario tradicional, mas isto é no início da rua, pois conforme vamos avançando para o núcleo da aldeia, em torno da capela e do forno do povo, aí as coisas começam a melhorar no que ao casario típico e tradicional diz respeito, mas também à vida da aldeia, pouca, é certo, mas agradável nos curtos contactos que tivemos.

 

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Claro que os lamentos dos poucos residentes, aqui também resistentes,  é o do costume nas aldeias do interior em geral, aqui acrescido pelo facto de ser uma aldeia da raia, onde a abertura das fronteiras retirou alguma importância a estas aldeias, mas também pelo rigor dos invernos onde a neve é visita frequente. Neve que nós apreciamos tanto mas que tolhe os movimentos a quem é obrigado a conviver com ela.

 

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E como de costume vamos ver o que a página oficial do município diz sobre a aldeia, que aliás, com a última restruturação das freguesias, passou a fzer parte da União de freguesias de Montalegre e Padroso:

“Como todas as freguesias da raia seca também Padroso sofreu as agruras das agressões castelhanas e gozou com os benefícios ocasionais do contrabando. Foi uma das honras de Barroso. Mas Padroso tem outras glórias para passar à posteridade. Desde logo o ter sido lugar propício para a emigração clandestina – actos heróicos que salvaram da fome e da morte muitas famílias pobres do norte. E justo é recordar agora o Padre Domingos de Donões que foi vilipendiado e condenado ao ostracismo, perdendo o sacerdócio e o seu estatuto social, apenas por ter espírito cristão, caritativo e solidário. Quantos dos que o acusaram, foram mil vezes piores que ele! Padroso e um tal Júlio, cabo da Guarda Fiscal aí colocado, foram o sítio azado e a mão da justiça para “armar o laço” a um prepotente oficial que a agitação social, saída da “monarquia do Norte”, designara administrador do concelho de Montalegre. Este, tenente do exército, dos lados de Viseu, chamado Aurélio Cruz, trazia o povo aterrorizado, com ameaças, perseguições e multas incompreensíveis, com sovas e até com dias de prisão! Certo dia, ao ouvido do Dr. Custódio Moura, o tenente revelou intenção de oferecer à sua criada um xaile de veludo galego. Foi quanto bastou para o apanharem na esparrela. Como o cabo de Padroso lhe levantasse um auto de notícia, ao apanhá-lo em flagrante com o xaile de contrabando, o governo de então decidiu exonerá-lo, por indecente e má figura, despachando-o para setenta léguas de distância.”  

 

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E por Padroso é tudo. Em resumo, saímos de lá agradados, principalmente com o seu núcleo mais antigo que se desenvolve à volta da capela e do forno do povo.

 

Como  de costume ficam os sítios da net consultados para recolha de informação:   

http://www.cm-montalegre.pt/

 

Anteriores abordagens deste blog a aldeias ou temas do Barroso:

A Água - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-a-agua-1371257

Gralhas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhas-1374100

Meixedo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixedo-1377262

Padornelos - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-padornelos-1381152

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:34
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Sábado, 19 de Março de 2016

Ventuzelos - Chaves - Portugal

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A vista geral de Ventuzelos com olhares lançados desde a Santa Bárbara, quase por magia a objetiva fixa sempre este cenário.

 

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Lá (cá) em baixo, os pormenores das casas, das ruas, poucas, e da gente, ainda alguma.

 

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E onde há gente há vida e as nossas aldeias foram construídas para isso mesmo, para terem gente com vida dentro, por isso, é sempre com agrado que de vez em quando vou passando por lá.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 05:20
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Sábado, 12 de Março de 2016

Aveleda - Chaves - Portugal

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Desde que tenho lembranças sempre gostei mais de ouvir e observar do que ser observado e escutado. Ainda hoje assim é, mas se durante muitos anos ouvir e observar era suficiente, com o tempo dei-me conta que não é suficiente, pois o que ouvia e observava em catraio, aquilo que mais despertava os meus interesses de então, não são os mesmos de hoje, ou de há 10 ou 20 anos atrás. Assim, com o tempo fui-me dando conta que era necessário algo mais, um registo que vá além daquilo que ficou registado apenas na memória que, quando solicitada, continua a dar-nos o registo daquilo que registámos com a idade de então. Com isto quero dizer que é frequente a memória atraiçoar-nos e fazer, por exemplo, grandes, coisas que são pequenas, e esquecer grandes coisas que não altura do registo para nós não tinham qualquer importância. Daí a fotografia surgir também na minha vida como um auxiliar da memória que faz registos fiéis e duradoiros no tempo. Tudo isto surge para vos justificar a primeira foto de hoje, de há 10 anos atrás, uma imagem que há 30 e tal anos quando passei na aldeia da Aveleda pela primeira vez, se a vi, não me ficou registada na memória e que hoje, é uma de difícil acesso.

 

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Uma descoberta leva-nos sempre a outras descobertas. Se para quem passa apenas na estrada sem a visão da primeira imagem a Aveleda não se apresenta particularmente interessante, a imagem do seu acomodar entre montanhas convida-nos à descoberta da sua intimidade. E foi assim que pelas primeiras vezes fui entrando na aldeia – convidado pelo que via lá do alto.

 

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Mas muitas das vezes aquilo que se vê ao longe, não é bem aquilo que a nossa imaginação desenha. O pormenor não é lá muito amigo das distâncias e se algumas vezes ficámos desiludidos com o pormenor, outras o pormenor continua a surpreender-nos. Mas tudo isto, insisto, surpreende ou não conforme a idade que temos e os nossos interesses atuais, e a Aveleda desde que a descobri e registo na sua intimidade em fotografia, surpreende-me agradavelmente por ser uma aldeia diferente da maioria das nossas aldeias do concelho, tudo por ser uma das poucas aldeias do xisto que temos por cá. Por outro lado há a desilusão, esta generalizada a todo o concelho, a desilusão do despovoamento, do envelhecimento da população e do abandono das casas, às vezes já a desilusão da ruína. E lamento, não imaginam como lamento, de não ter registos fotográficos de há trinta e tal anos atrás, quando fui por lá das primeiras vezes. Registos da vida de então, de, sempre, muita gente na rua, crianças e animais. Sei que trinta anos para a história (das palavras) é uma insignificância, mas para as da imagem, fazem toda a diferença.

 

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Mas como com lamentos não chegamos a lado nenhum, resta-me o consolo de pelo menos de há 10 anos para cá ir fazendo os meus registo fotográficos, às vezes, aparentemente, disparatados e sem qualquer importância, mas que daqui a 30, 50 ou 100 anos, irão fazer toda a diferença e ser um documento precioso para se poder fazer alguma história não manipulada, porque na imagem (fotografia) está lá tudo, ou quase, pois faltam-lhe os sons e os cheiros ou aromas.

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:56
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Sábado, 16 de Janeiro de 2016

As Nogueirinhas do caminho de terra...

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Eu sabia que existiam umas Nogueirinhas para além daquelas que vos tenho trazido aqui até hoje. Sabia-o porque já la tinha estado há uns bons anos atrás, ainda nem existiam telemóveis, nem fotografia digital, nem estrada asfaltada para lá chegar, e foi precisamente a modernidade, essa de nos facilitar as coisas que fez com que eu esquecesse os velhos caminhos de terra para lá chegar, os únicos que existiam quando lá fui pela primeira vez.

 

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Assim, até há uns dias atrás, sempre que passava pelas Nogueirinhas passava pela nova variante, novinha, asfaltadinha e por aí fora, bem mais confortável que os velhos caminhos de terra. Como é fácil habituarmo-nos à comodidade , tanto que nos tenta a pecar e nós pecamos. Desde que a estrada nova existe passei a ver as Nogueirinhas de outro anglo, pouco interessante por sinal, mas a comodidade era essa as Noguerinhas que me dava, e eu aceitei-a e depressa esqueci as outras Nogueirinhas que tina conhecido anos atrás, ou quase, pois eu sabia que elas existiam.

 

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Pois há duas semanas atrás, por sinal num dia pouco convidativo para a fotografia, deixei-a de parte (a fotografia) e passei a reparar mais nos pormenores em vez das composições e, desde uma curva da estrada nova, detetei quase impercetível o velho caminho de terra batida, que de tão próximo que estava das Nogueirinhas, só me podiam levar até ela, e levou, e finalmente retomo as Noguerinhas que eu guardava na memória, um pouco alteradas é certo, mas as mesmas que eu conheci há muitos anos atrás, mas não só, pois o velho caminho de terra batida levou-me até outras descobertas. Mas para já, ficam três imagens apenas, a descoberta ficará para uma próxima oportunidade e assim, tenho um pretexto para voltar lá daqui por uns tempos.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:10
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Sábado, 26 de Dezembro de 2015

Noval - Chaves - Portugal

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O tempo passa sem darmos por isso. Pensava eu que a última vez que tinha ido a Noval em recolha de imagens tinha sido há dois ou três anos, e na realidade passei por lá há dois anos atrás, mas já em pleno anoitecer, ou mais noite que dia, pelo que só deu para recolher três imagens, mas como a maioria sabe, sem luz não há fotografia, pelo menos sem longas exposições e um tripé, que foi o caso. Pois em recolha de imagens a sério só aconteceu duas vezes e já lá vão uns anitos, uma das vezes foi em 2007 e a outra em 2009, pelo que é natural que as imagens que hoje vos deixo não estejam muito atualizadas.

 

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Assim pela certa já entenderam que esta última imagem com neve não é destes últimos dias, mas antes de dezembro de 2009. Embora já em pleno inverno o tempo continua por cá anormalmente quente para a época, aliás não tenho memória de ter passado um Natal com temperaturas tão altas. Contudo não quero com isto dizer que esteja calor, mas antes que daquele frio-frio a que os invernos nos têm acostumado, ainda não chegou.

 

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Ficam então três imagens de Noval, uma pequena aldeia aqui ao lado de Chaves e mesmo colada à aldeia de Soutelo, mas se não o soubéssemos, pelas suas características, principalmente do casario, bem acreditaríamos que se podia tratar de uma das aldeias de montanha. Noval que conjuntamente com Soutelo foram aldeias rainhas na tecelagem de linhos e das famosas mantas de lã. Mas isso já são coisas de outros tempos.

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:33
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Domingo, 29 de Novembro de 2015

Tronco - Chaves - Portugal

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Penso que as imagens falam por si e dispensariam muito bem os comentários ou palavras que deixo por aqui a acompanhá-las. Quem me conhece e conhece os registos fotográficos que faço para o blog, sabe que o que prende a minha atenção nas nossas aldeias e mundo rural é, para além das paisagens, o casario antigo e alguns pormenores associados à vida das aldeias. Casario e pormenores que refletem os sabores, saberes, crenças, costumes, hábitos, arte, história e estórias dos locais. Em suma é a cultura dos lugares aquilo que mais me desperta no nosso mundo rural.

 

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Mas claro que quando abordamos a cultura de um lugar estamos a entrar por caminhos aparentemente complexos, isto, se tivermos em conta a definição que cada um de nós tem para a cultura, que é diferente segundo que a aborda. Por exemplo politicamente falando entendem por cultura o que está ligado às artes, ao cinema, ao teatro, à literatura, à música, etc.. Se regressarmos no tempo até à civilização romana e aos falantes da línguas de origem latina, a cultura está também associada ao cultivo da terra para produção. Se entrámos no campo empresarial o mais provável é que se fale de cultura organizacional, mas ainda há mais, pois sempre podemos falar de cultura popular e da cultura segundo as visão da filosofia, da antropologia e das restantes ciências sociais que embora todas à volta do mesmo defendem algumas diferenças.

 

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Quanto ao meu entender de cultura já o deixei no primeiro parágrafo e que se integra perfeitamente naquilo que as ciências sociais defendem, mas para aqui a definição até pouco interessa, pois só levantei esta questão por duas razões. A primeira para justificar as imagens que vos vou deixando aqui durante os fins de semana e que vão de encontro à vidas das nossas aldeias que precisamente identificam uma cultura própria que estamos a perder.

 

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Pois a segunda razão de hoje trazer a cultura também se prende com as imagens de hoje serem de Tronco onde, culturalmente falando, vivem duas comunidades distintas, uma que á mais tradicional nas nossas aldeias e uma outra, a comunidade cigana que há umas dezenas de anos vive na aldeia e tem laços familiares mais próximos à comunidade cigana mais ampla que vive um pouco por todo o nordeste transmontano junto à raia, desde Bragança até Chaves.

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:43
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Sábado, 25 de Julho de 2015

Santiago do Monte - Chaves - Portugal

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Confesso que nas primeiras vezes que passei por Santiago do Monte a aldeia não convidava a uma paragem fotográfica. Um bocado por teimosia na descoberta, teimei e fui entrando na aldeia. Uma, duas, três, já não sei bem quantas vezes, e de cada vez que agora paro por lá há sempre imagens e pessoas que surpreendem e que deixam a descoberto uma beleza que dói. Não são essas imagens que hoje vos vou deixar aqui, pois tenho outra coisa pensada para elas. Em breve, se o “projeto” for avante, cá estarão.

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Hoje deixo-vos apenas duas imagens, minimalistas, mas que falam por si. Realço esta segunda imagem, com o devido elogio ao fio azul, e que demonstra a capacidade de há muitos anos, mesmo de sempre, que as nossas aldeias tinham em preservar o ambiente em que os “lixos” domésticos tinham dois destinos, o primeiro utilizado como fertilizante das terras de cultivo e o segundo, aquele que a terra não come e rejeita, com uma utilidade qualquer, aquilo que agora pomposamente, em nome do ambiente, se chama reutilização. Quanto ao design, é sempre do mais original que há e de peça única.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:17
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Sábado, 18 de Julho de 2015

Cela - Chaves - Portugal

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Como sempre aos sábados fazemos uma passagem pelo nosso mundo rural. Geralmente o mundo rural acontece aqui aleatoriamente, pois nunca sei qual a aldeia que vou trazer aqui aos fins-de-semana, geralmente dou uma vista de olhos rápida pelo arquivo fotográfico e paro quase ao acaso em cima da pasta de uma aldeia, entro nela, vejo as fotos e se há uma ou mais que despertam a minha atenção partilho-a aqui, mas para haver fotos nas pastas de arquivo temos que, antes, passar por essas aldeias para fazer os registos fotográficos e, há aldeias, que calham mais em jeito que outras, principalmente quando dedicamos uma tarde à recolha de imagens e privilegiamos itinerários em que a recolha pode ser mais frutífera. Pois acontece que a aldeia da Cela, embora aqui à mão, não calha a jeito nos itinerários de percurso de várias aldeias e por essa razão raramente passamos nas suas redondezas e daí ter pouco material em imagem da aldeia, pois sinceramente só uma vez fui por lá para recolher imagens e daí ser uma das aldeias em que não passa por aqui com tanta frequência, mas, mais uma vez, fica a promessa que um destes dias lá estarei e a Cela terá aqui uma publicação mais alargada mostrando mais o seu ser. Para hoje fica apenas uma imagem, de marca, com o seu cruzeiro de fundo.

 

 

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Sábado, 27 de Junho de 2015

Amoinha Velha - Chaves - Portugal

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Já não recordo a primeira vez que trouxe aqui Amoinha Velha, mas lembro-me que foi das primeiras aldeias a passar no blogue, precisamente com um olhar sobre esta mesma construção que fica em primeira imagem de hoje, tomada há poucos dias atrás.

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Pois hoje, apenas para cumprir contrato, ficam dois olhares sobre a Amoinha Velha. Um repetente e outro inédito aqui no blogue, mas há mais que ficarão para uma próxima oportunidade.

 

 

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Sábado, 20 de Junho de 2015

Orjais e um adeus ao mundo rural

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Hoje em dia se há palavra que está na moda é a palavra CRISE. Todos conhecem o seu significado, incluindo os putos ao nível do infantário e, a razão deste conhecimento é muito simples, pois não é preciso qualquer definição quando todos a sentem na vivência do dia-a-dia, mas o que mais irrita nesta crise é quererem fazer da maioria dos portugueses lorpas fazendo-os pagar com língua de palmo uma crise na qual não têm culpa, pois esta, é só de alguns poucos, chicos espertos, que têm conduzido as políticas de Portugal debaixo da subserviência de quem sempre mandou – os donos disto tudo – que nos levam ao “honroso” posto de 5º lugar entre os 38 países mais corruptos.

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Estas minhas primeiras palavras é para ir de encontro ao despovoamento rural, cuja culpa é dos mesmos que provocaram a crise, os mesmos que convenientemente decretaram (sem decreto) o abandono do mundo rural, com atuação em todas as frentes como de um complô se tratasse, quando em vez de se apostar na modernização dos caminhos de ferro se optou pelo seu encerramento para que pudessem florescer o negócio das autoestradas, quando venderam a nossa agricultura e pescas à União Europeia, quando apostaram no negócio do betão nas cidades sem qualquer controlo ou planos diretores municipais, quando concentram hospitais públicos nas grandes cidades deixando que os de proximidade definhem as suas valências, quando a pretexto de uma melhor educação concentram centros escolares nas cidades fechando as escolas rurais, quando deixam florescer a torto e direito grandes superfícies comerciais em detrimento do comercio tradicional de proximidade e do pequeno comércio no mundo rural, quando o negócio Portugal está primeiro e só depois estão os portugueses.

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Quero com isto dizer que não admira que a maioria das nossas aldeias estejam à beira do despovoamento total, pois já não é uma questão de não querer mas antes de não se poder viver numa aldeia onde não há escolas, não há saúde, nem meios para poder subsistir que seja, com todos os saberes, sabores, trabalho e tradições são proibidas e penalizadas por uma autêntica PIDE que quer acabar de vez com a pequena economia que prendia a população no mundo rural. Agora só em grande, plastificado e sem sabor. Assim, quem é que poder viver numa aldeia? – Mas se tudo a continuar assim, num futuro próximo, quem é que poderá viver nas vilas ou cidades de província, do interior ? - Oh Portugal, Portugal, não despertes e vais ver onde vais parar! Ou a quem vais parar! Só espero que a Grécia não amouxe , que defenda a sua gente e a sua cultura para dar um pontapé no cu a esta merda toda. Desculpem o palavreado, mas não há uma forma mais direta de o dizer.

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As fotografias de hoje são de Orjais, de 2008, uma aldeia também despovoada e envelhecida onde não faltam novas construções fechadas, muitas antigas em ruinas, e as hortas onde há de tudo com sabor (batatas, cebolas, alhos, alface, feijões, tomates, nabos, grelos, couves de todas as variedades e tudo que se queira comer) são cada vez mais raras, onde os capoeiros já não dão frangos, galinhas, galos nem ovos, onde o forno do povo já não coze pão e a corte já não tem, com vossa licença, o reco, nem a despensa chouriças, presuntos e tudo que o requinho dava, e se o há, é ilegal, dizem que por falta de higiene e outras mentiras do género, a mesma que criou e pagou estudos a tantos doutores e engenheiros que quando assentaram o cu em Lisboa depressa esqueceram as berças.

 

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Há dias assim, ou assim fico de cada vez que tenho de trazer aqui uma das nossas aldeias. Revolta e chega a doer, principalmente para quem as conheceu cheias de vida, com gente pobre, é certo, mas feliz. Hoje só povoadas por olhares tristes e velhos .

 

 

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Terça-feira, 16 de Junho de 2015

O Barroso aqui tão perto... Firvidas

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Embora o blog se intitule Chaves – Olhares sobre a cidade o meu território flaviense vai além das fronteiras administrativas da cidade e do concelho de Chaves, quer por ligações afetivas, familiares ou de amizades aos concelhos vizinhos, incluindo os galegos, mas também porque é um território de gente igual, quero dizer de traços comuns aos nossos flavienses.

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Aliás embora normalmente se considere que só os concelhos de Boticas e Montalegre integram o território do Barroso há quem defenda, e eu assino por baixo, que a margem direita do Rio Tâmega já integra território barrosão e, a verdade é que os traços arquitetónicos das construções tradicionais do Barroso estão também refletidos em muitas aldeias do concelho de Chaves, tais como Soutelinho da Raia, Castelões, Calvão, Seara Velha, entre outras.

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Não quero com isto justificar o trazer aqui, de vez em quando, aldeias e lugares do Barroso, tanto mais porque o que passa aqui em imagem são de lugares e olhares que gosto de partilhar e aos quais também vou de vez em quando por puro prazer da descoberta e da apreciação. Lugares bem próximos da cidade de Chaves, alguns mais próximos que muitas das nossas aldeias.

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Pois hoje deixo-vos com uma aldeia do concelho de Montalegre, Firvidas, que tal como as nossas também sofre do mal do despovoamento e envelhecimento, mas também de uma beleza singular com a mais valia de umas pequenas cascatas de águas cristalinas que têm sempre o dom de encantar. E é por estas e por outras que gosto de roubar olhares ao Barroso e de os partilhar aqui.

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Até amanhã, de regresso a Chaves com um "Chá de Torga".

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:29
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Segunda-feira, 8 de Junho de 2015

Corpo de Deus em Vilar de Nantes

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Hoje não faço o habitual regresso à cidade. Vou ficar em casa e como tal, a também habitual imagem de entrada na cidade não vai ser da cidade, mas de uma aldeia, ou talvez não, pois dá-se o caso de hoje em dia ser mais um bairro da periferia da cidade que propriamente uma aldeia, pelo menos a julgar pela definição que ainda ontem deixei aqui para reflexão, mas continua a ser aldeia pelo menos quanto à sua comunidade e ao seu núcleo histórico, aquele que se desenvolve sempre à volta de uma igreja ou nas suas proximidades.

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Pois hoje vamos deixar aqui a celebração do Corpo de Deus em Vilar de Nantes, celebração que aconteceu ontem num nítido desrespeito pela tradição de séculos, isto, só para que se pudesse cumprir a tradição. Mas já de seguida explico melhor isto que parece ser uma contradição, mas onde não há qualquer contradição.

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Então é assim: O Corpo de Deus, o Corpus Chisti do latim, é uma festa que celebra o sacramento da Eucaristia, instituído na última ceia, na quinta-feira santa, e daí o Corpo de Deus assinalar-se sempre numa quinta-feira, 60 dias depois da Páscoa. A origem desta festa é secular, instituída pelo Papa Urbano VI, desde logo ganhou a adesão popular, principalmente com a realização de uma processão que em Portugal se foi fazendo com as ruas decoradas com flores e as varandas e janelas com colchas e toalhas, do mais fino que as casas têm, havendo ainda algumas localidades que colocam tapetes florais no chão das ruas por onde a processão passa, como é o caso de Vilar de Nantes.

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Em Portugal sempre se cumpriu a tradição com muitas localidades a realizarem procissões ou pelo menos uma missa e, como dia santo que é, até 2012 era também feriado nacional para que a população pudesse celebrar este dia, no entanto já sabemos que o atual governo de tão preocupado que anda com o Portugal europeu, ou a pretexto disso, vai sacrificando os portugueses e as sua tradições seculares, e lá se foi o feriado e a festa de uma quinta-feira santa.

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Daí o desrespeito pela tradição e a procissão que deveria ter acontecido na quinta-feira santa passada passou a acontecer domingo e tal como diria Torga “Que povo este! Fazem-lhe tudo, tiram-lhe tudo, negam-lhe tudo, e continua a ajoelhar-se quando passa a procissão” … mas isto são contas de outro rosário, pois o que quero mesmo trazer aqui hoje é mesmo a procissão e a tal comunidade que existe nas aldeias que neste caso, Vilar de Nantes, é uma das que bota toalhas e colchas nas varandas e janelas e colocam tapetes florais no chão.

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Procissão que, confesso, foi a primeira vez que assisti em Vilar de Nantes, e quase por mero acaso, não fosse um colega e amigo ter-se oferecido para me tratar das heras do jardim e das pétalas das rosas para atapetar um troço de rua e eu continuaria a descer à cidade para ver uma procissão que acontece aqui tão perto e bem mais enfeitada.

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Pois já que a tinha descoberto resolvi ir até lá atempadamente, assistir a azáfama do decorar das ruas, onde os vizinhos de cada rua quer fazer melhor e mais bonito que as ruas vizinhas, tudo a bem do conjunto e até há, quem não tendo rua com passagem de procissão se voluntaria para decorar uma rua mais abandonada de vizinhos, e depois também quis ir ver as minhas heras e pétalas das rosas a fazer bonito, e foi bonito, sim senhor.

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Certo que algumas ruas foram mais prendadas que outras, com colorido e desenhos de atrair o olhar e a apreciação, e os vizinhos sentem-se orgulhosos na apreciação, mas no final o que vale mesmo é o conjunto e que não haja troço de rua onde a procissão passar que fique sem tapete florido.

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E tudo é feito com amor à tradição e à procissão, pois só assim se entende que se faça uma obra de arte para ser completamente destruída com a passagem da procissão que faz com que todo o trabalho, porque sou testemunha dá trabalho, não seja trabalho inglório, e para o ano, ainda há de ser mais bonito, assim haja flores e verdes à mão.

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Pois por aqui em imagem tento deixar o trabalhar de cada rua, as obras de arte e a procissão. Transpirei a bom transpirar para o conseguir, tanto mais que o calor convidada a transpirar mas também a refrescar, e lá vamos nós outra vez para a tal comunidade de aldeia onde se mata sempre a sede a quem a tem, pois há sempre uma porte que se abre e que nos convida ao refrescar e já há muito que aprendi que é de má educação recusar. Eu nunca recuso.

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E prontos. Sei que não é lá muito correto este remate do “prontos”. Os puristas da língua olham para ele de lado, mas dá jeito para rematar e depois estamos a falar de tradições e aldeias, onde não há caganças dessas, e as pessoas se vão entendendo com o português popular, com ou sem acordo ortográfico…

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Ficam então as imagens, algumas das muitas que por lá tomámos, imagens que queremos repetir e que podem servir de convite para quem não tem nada que fazer neste domingo que agora também do Corpo de Deus, pelo menos até 2017, foi a promessa, mas como já estamos habituados a que as promessas não sejam cumpridas pelos políticos, vamos lá ver se será ou não que 2017 terá de regresso o Corpo de Deus de regresso ao seu dia, na primeira quinta-feira passados que são 60 dias após a Páscoa.

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Fica então a imagem da passagem da procissão na última rua do percurso

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E a entrada na igreja de Vilar de Nantes, onde termina a procissão e se passa à missa do Corpo de Deus.

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Por nós, até para o ano.

 

 

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Domingo, 7 de Junho de 2015

Cimo de Vila da Castanheira ou um pretexto para uma definição de aldeia

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Quase todos os fins de semana quando abordo aqui as nossas aldeias, acabo por cair no mesmo discurso, o discurso do problema que mais as aflige e que poderá ser abreviado em duas palavras – envelhecimento e despovoamento. Na tentativa de mudar de discurso sem abandonar o tema, fui à procura de definição de aldeia e, espante-se, embora todos saibamos o que é uma aldeia, não existe uma definição concreta, cabal e satisfatória para a definir, pois todas as definições acabam por andar à volta daquilo que o dicionários nos dão, como por exemplo no meu: “ s.f. 1 - pequena localidade, geralmente com poucos habitantes e de organização mais simples que a de uma vila ou cidade, sem autonomia administrativa; povoação rural; 2 – meio rural; campo.” – Dicionário da Língua Portuguesa – 2006 – Porto Editora.

 

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Bem podem procurar na Internet, onde há definições para tudo, que pouco mais conseguirão que no dicionário. Mas nas definição do dicionário que nos remete para a povoação rural, ainda tive esperança que no significado de povoação tivesse uma explicação/definição satisfatória, mas também esta apenas diz “ Povoação – Acto ou efeito de povoar; as pessoas que habitam uma localidade”. Em ambas as definições, de aldeia e povoamento, para além das casas apenas fala em abstrato de pessoas e habitantes, nada mais. E é aqui que está o principal problema das aldeias – poucas casas e pessoas, e é assim que são vistas pelos que detêm o poder, apenas poucas casas e poucas pessoas, sem interessarem os nomes das pessoas, os laços familiares, os usos e costumes, a religião, os saberes, aquilo que as une entre si e à terra que habitam, os porquês de estarem ali, a sua história, etc, etc, etc, que faz de cada aldeia uma comunidade especial e única, com direito à individualidade de cada um mas que partilha comunitariamente coisas comuns, quer sejam físicas ou não, como um forno, uma fonte de água, um cemitério ou uma crença, um orago, o dia da festa, um uso ou costume.

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Pois ninguém, nem nenhuma definição nos dá aquilo que todos sabemos ao não dizer que uma aldeia é uma pequena localidade, com poucos habitantes onde vive uma comunidade. É que a comunidade e o seu entendimento fazem toda a diferença, senão vejamos a definição (há muitas e para todos os gostos, quase tantas como comunidades) mas fiquemos por uma que me é muito querida pelo seu âmbito social, a de Ander-Egg: “comunidade é um agrupamento organizado de pessoas que se entendem como unidade social, cujos membros participam de alguma característica, interesse, elemento, objetivo ou função comum, com uma consciência de pertença, situadas numa determinada área geográfica na qual a pluralidade das pessoas interage mais intensamente entre si que noutro contexto”

 

E é tudo. Fica para reflexão no que resta de fim-de-semana com a ilustração de três olhares sobre uma aldeia – Cimo de Vila da Castanheira.

 

 

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