Segunda-feira, 3 de Outubro de 2016

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309 - Pérolas e diamantes: o gabinete de ajustamento e os cromos da caderneta

 

O escritor de ficção científica americano Philip K. Dick escreveu, ainda o século passado ia para aí a meio, que vivíamos numa sociedade de realidades adulteradas pelos media, os Governos, as grandes empresas e os grupos religiosos e políticos. Já ninguém atinava com o que era a realidade, pois éramos bombardeados com pseudorrealidades fabricadas por pessoas muito sofisticadas que usavam vários mecanismos eletrónicos complexos.

 

Philip K. Dick não desconfiava dos seus motivos, desconfiava era do seu poder. O que parecia então uma teoria da conspiração tornou-se realidade.

 

De facto, vivemos dentro de uma democracia que revela cada vez mais aspetos de um reality show. As massas são manipuladas por gente muito sofisticada.

 

O sociólogo britânico Zygmunt Bauman, refere, no seu livro Modernidade e Ambivalência, que no mundo que nos rodeia “as certezas não passam de hipóteses, as histórias não passam de construções, as verdades são apenas estações temporárias numa estrada que avança sempre, mas nunca acaba”.

 

Segundo o sociólogo, as desigualdades continuam a aumentar de forma rápida, mas a política é condicionada pela ilusão de que essas desigualdades são inócuas. Daqui resulta o populismo, pois sem direitos sociais para todos, um número crescente de pessoas considerará, e com razão, que os direitos políticos de pouco servem. A sua utilidade tende a ser nula.

 

Philip K. Dick vaticinou que uma organização chamada “gabinete de ajustamento” iria controlar as nossas vidas de acordo com planos que nos transcendem fazendo tudo para que não haja fugas ao que já se encontra escrito no guião.

 

Previu que os partidos “republicanos e democratas” iriam escolher indivíduos irrelevantes que se limitariam a ocupar o poder durante quatro anos.

 

Por muito que nos custe, e para mal dos nossos pecados, o que era ficção científica converteu-se em realidade.

 

Dentro dessa realidade, ou ficção, encontra-se o Juiz Carlos Alexandre que diz sentir-se cercado pelo Fisco, que o investigou, e mesmo por pessoas desconhecidas que andam a perguntar pelas propriedades que possui e que o escutam e até lhe deixam manuais de espiões à porta de casa. Surpreso, mas firme, disse ao Expresso acreditar que o querem afastar de tudo. Sobretudo, pensamos nós, do processo que envolve José Sócrates.

 

O apelidado de “superjuiz”sente que existem movimentações estranhas à sua volta.

 

Um dia recebeu um recado através de uma pessoa que tinha relações com indivíduos ligados a vários casos mediáticos, do seguinte teor: “Deves meter-te com gajos do teu tamanho porque precisas do teu ordenado para comer.”

 

Disseram-lhe ainda outras coisas tais como “se não souberes colar os cromos na caderneta não terás direito a brinde”.

 

Mário Soares, a propósito da prisão de José Sócrates, escreveu: “O Juíz Carlos Alexandre que se cuide…”

 

O Juiz diz não se vergar ao dinheiro e que a sua maior preocupação está relacionada com a enorme sucessão de escândalos na área financeira e a sua escalada de grandeza.

 

Chegaram mesmo a entrar-lhe em casa. Os intrusos não roubaram nada, limitaram-se a deixar uma fotocópia do BI do seu filho e o fragmento de uma arma de fogo do seu sogro. Mexeram em alguns dossiês de trabalho de processos e abriram-lhe o computador.

 

Lá pelo meio da entrevista citou uma carta que Thomas More escreveu a Erasmos: “Se a honra fosse rentável, todos seriam honrados.”

 

O título na capa da revista era “O juiz só”.

 

É caso para dizer que mais vale só do que mal acompanhado.

 

José Sócrates, por causa das coisas, resolveu fazer queixa do juiz Carlos Alexandre invocando, para o efeito, ódio, perseguição e devassa da sua vida pessoal e política.

 

Razão tem Pacheco Pereira ao escrever que “Sócrates quer levar tudo com ele para um destino que ainda não sabemos qual é mas que nunca será brilhante”.

 

João Madureira

 

 

 

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Segunda-feira, 29 de Agosto de 2016

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304 - Pérolas e diamantes: o trabalho e a filantropia

 

Entardece devagar, devagarinho. Como quem se refresca em pleno verão com uma brisa vinda do Brunheiro, leio no jornal que o João Teixeira, o João Freitas e o João Alves, os três alunos do Agrupamento de Escolas António Granjo, tiraram vinte valores no exame nacional de matemática.

 

O segredo reside, segundo estes jovens, no muito trabalho que fazem ao longo do ano, no esforço e na dedicação. No entanto, continuaram a fazer o que faziam nos seus tempos livres.

 

Como se isto não fosse proeza bastante, leio noutra edição d’A Voz de Chaves que a Bruna, a Célia e a Laura, também alunas do Agrupamento de Escolas António Granjo, conseguiram a mesma proeza: alcançaram nota 20 no exame nacional de matemática.

 

Por vezes as coisas fazem sentido. Os mitos também se abatem e os preconceitos também se desfazem.

 

O sol esconde-se por detrás dos pinheiros e dos carvalhos. As sombras nos bosques estendem-se pelos caminhos. Por fim param e desaparecem. Os raios de luz penetram no arvoredo e são filtrados através da folhagem, inundando os troncos com uma luz morna. Por cima de nós ergue-se o céu azul já pálido do crepúsculo. Algumas aves voam alto. O vento parou por completo.

 

Beberrico o meu gim tónico Nordés (versão leve) com água tónica Nordic, muito gelo, bagas de zimbro, casca de lima e um pedaço de folha de louro.

 

Tudo isto é bonito. Eu continuo entregue aos meus devaneios, ora amargos e por vezes doces (daí eu apreciar gim), próprios, segundo os escritores românticos, dos espíritos solitários.

 

Por vezes gosto de sonhar com a vida no campo. Lembro-me bem de um tio meu que parecia saído de um romance de Ivan Turguéniev, pois possuía um olhar doce, tinha os lábios enrugados, amava a natureza, especialmente de verão, pois era muito friorento, e era homem para expressar-se com toda a vulgaridade do mundo, dizendo coisas como esta: “Adoro ver cada abelhinha a transportar no seu corpinho, de flor em flor, o seu grãozinho de pólen…”

 

Conhecia quase todas as frases bempostas com que se socializava na época. Por isso acompanhava, com alguma perseverança, a evolução da literatura. Quase toda de cordel, por certo.

 

Gostava, no entanto, de se mostrar um leitor prático. Ouvi-lhe muitas vezes dizer que não se consegue alimentar um pintassilgo com cançonetas.

 

Também eu, qual Vassíli Ivánovitch, me vejo a trabalhar no meu jardinzinho, com árvores plantadas por mim, com frutos e bagas e flores e ervas medicinais.

 

Não me hei de despedir por hoje sem vos citar o velho médico militar russo reformado que, virando-se para os senhores jovens, lhes dá conta das suas cogitações.

 

“Como sabeis, deixei a prática, mas duas vezes por semana tenho que recordar os velhos tempos. Vêm-me consultar e eu não os posso pôr na rua. Acontece que os pobres me vêm pedir ajuda. E por aqui não há médicos. Há um vizinho, um major reformado, imagina, que também dá consultas. Eu pergunto: estudou medicina? Respondem-me: não estudou, não, ele é mais por filantropia… Ah-ah, por filantropia! Hem? Vejam só. Ah-ah! Ah-ah!”

 

Para homenagear quem devo, aqui fica a expressão latina suum cuique, que em português de lei podemos traduzir por a cada um o seu. E voilà tout.

 João Madureira

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Segunda-feira, 15 de Agosto de 2016

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302 - Pérolas e diamantes: o calor de julho e outras merdices

 

Dizem os entendidos que nunca tivemos um mês de julho tão quente, com os valores médios de temperatura máxima a rondar os 32 graus, o que originou muitas noites tropicais. Daí a crise política se ter evaporado, pelo menos na opinião de Pedro Santos Guerreiro, o novo diretor do Expresso, que adota e subscreve as declarações do nosso presidente MRS. O calor de julho, por incrível que pareça, não teve expressão na mortalidade, mas, segundo dois jornalistas do Público, o cenário pode mudar. Quando o calor aperta, o rendimento do trabalho baixa, por isso a ONU prevê que as alterações climáticas tenham um forte impacto na economia global, porque vão levar a uma diminuição do rendimento profissional nos países mais pobres. Já ao nível do investimento, a bolsa registou o mês passado como o melhor dos últimos 19 anos. Pedro Nuno Santos acha que seria um erro provocar eleições, até porque a geringonça já chegou a ter 16 reuniões por dia. Atrapalhados com a situação do país, os deputados Domingos Pereira, João Gouveia, Joaquim Raposo, Pedro Pinto e Miranda Calha ainda não abriram o bico neste ano parlamentar. Manuela Ferreira Leite diz que nunca levou as sanções europeias a sério porque tinha a perceção de que tudo isto foi um teatro bem montado, em que o Governo e as autoridades europeias contracenaram com muita qualidade. Pedro Passos Coelho enfiou o barrete até às orelhas. Em 163.668 professores das escolas públicas portuguesas, apenas 451 têm menos de 30 anos. Já os alunos afirmam que andam a esforçar-se para ter sorte. No entanto, apostar no Euromilhões vai ficar mais caro a partir de setembro. Uma professora confessa ao Sol que, como as escolas são o barómetro da sociedade, os alunos refletem o desprezo pelo saber e a desesperança. Em Sesimbra, os turistas que ajudam a puxar as redes recebem peixe de borla. Os militares, gastos e cansados de tanta guerra, resolveram cerrar fileiras e lutar contra a idade da reforma. Segundo o Expresso, a Parvalorem, a antiga dona do BPN vai ser liquidada. A invasão dos Pokémons é mesmo verdadeira. Luís Onofre criou uma nova linha de sapatos masculina que pode tornar os homens mais altos cerca de 3 centímetros. O património ao abandono vai ser aberto a privados. Segundo o Expresso e o Ministério Público, os pagamentos a José Sócrates vêm desde a OPA da PT e têm origem na ES Enterprises, desde 2006. Para José Mourinho, andar a cheirar títulos não é o mesmo que ganhar. E no futebol roçar a arrogância é positivo. Por isso é que Portugal, segundo o Special One, partiu do pressuposto de que não ia sofrer golos e fazendo um ganhava. Por causa da pesca predadora feita nas costas portuguesas, pela procura desenfreada do mercado asiático, o cavalo-marinho, o meixão e o pepino do mar estão em vias de extinção. Segundo o jornal I, Ascenso Simões não foi afastado da campanha do Partido Socialista por causa dos cartazes. A razão é mais complexa. AS é transmontano, católico e da ala mais à direita do PS. E quem lê a entrevista até pode chegar mais longe e concluir que Ascenso Simões é também da ala mais à direita do catolicismo português pois prefere o Papa alemão Bento XVI, considerando que o Papa Francisco, quando lhe fazem uma pergunta, responde de forma inopinada, o que evidencia que é um Papa sem estrutura ideológica clara. E que a bonomia não é suficiente para uma igreja com 2000 anos. Presunção e água benta, etc. Quanto ao futuro do primeiro-ministro já o observou na bola mágica da vidente do vale de Vila Pouca: Quando a festa acabar, Costa deverá regressar ao parlamento europeu, cujo mandato interrompeu. Culturalmente vai mais longe, muito mais longe do que o PS alguma vez foi, pois, na sua douta opinião, o seu partido tem de perceber que a condecoração do governo francês a Tony Carreira é um elemento central (sim, central, não leram mal) do simbolismo público. Estou em crer que AS subscreve na íntegra as palavras de César Mourão: “Não sou um humorista, embora achem que sou.” Claro que ainda não atingiu (o Mourão, claro!) as explosões de humor do Vasco Santana n’O Pátio das Cantigas, mas é jovem e possui talento. Bem vistas as coisas, tudo é uma comédia de enganos. Diane Arbus defendia que fotografar de perto é a condição para existir como pessoa. Já Moebius ou Gir ou Jean Giraud, o magistral desenhador de BD, defendia que não existe qualquer razão para que uma história seja como uma casa. Pode ser como um campo de trigo, um elefante ou fogo de artifício. Francisco Valente noticiou no ipsílon que Barry Lyndon, do genial Stanley Kubrick, vai voltar a ser exibido nas salas de cinema. Na sua opinião, nunca um filme tão bonito nos mostrou o quão feios podemos ser. Claro que tudo isto me deprimiu. Julho deitou-me abaixo. Só podia. Mas arribei quando li a entrevista de Teodora Cardoso, a presidente do Conselho das Finanças Públicas. Explica que os economistas são um pouco incultos e aconselha-os a prestarem mais atenção à História, à Sociologia e à Ciência Política. Afirma que precisa de ler livros policiais para adormecer, pois distraem-na das preocupações do dia a dia. Mas o que me deixou deveras tranquilo foi a revelação de que do seu apartamento, com vista para o Bugio, acompanha, através dos binóculos, as regatas e a entrada e saída dos navios.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 4 de Julho de 2016

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330 - Pérolas e diamantes: epístola aos néscios ou o princípio da pena

 

Dá pena observar os templos e as praças religiosas transformados em armazéns de venda de fancaria e pechisbeque. Tudo isso supostamente abençoado por Deus. Está visto que os vendilhões do templo nunca o abandonaram. Limitaram-se a esconder-se por detrás de algum altar.

 

Na Bíblia diz-se que os fariseus afirmavam existir um grande perigo em substituir um Deus no coração pelo coração de Deus. Os vendilhões invocam agora o Espírito Santo para apregoarem a sua mercadoria. Uns pensam que basta trazer ao peito um santinho para ganharem o céu. Outros consideram que o alcançam confessando-se, para depois irem tomar a hóstia com os olhos fechados e o coração momentaneamente apertadinho. Mas nada nesses atos tem algo a ver com o amor. É apenas rotina. Pensam salvar-se pela rotina.

 

Não vejo no olhar dos fariseus a doçura dos santinhos que marcavam as páginas do meu catecismo.

 

Os fariseus aparecem agora como os salvadores do mundo, mas são gente perigosa porque se especializaram em abstrações.

 

Estamos a embrutecer, meu Deus, estamos a embrutecer sem nos darmos conta. A impaciência cresce dentro de nós. Os amigos esfumam-se ou disfarçam-se. Por isso é que cada um de nós necessita de um inimigo em quem confiar.

 

A voz dos fariseus redime-os. Possuem uma voz funda e conveniente, regulada, uma voz treinada para mentir com elegância e convicção, exercitada para conquistar os adversários pela ilusória limpidez dos propósitos.

 

Os militantes da política cada vez se parecem mais com os religiosos sem Deus. Andam sempre a escolher o caminho às apalpadelas, sem revelar vontade própria, sem um princípio orientador. Sem um desígnio nobre.

 

Estão sempre a falar das razões pelas quais o seu partido tem razão antes mesmo de nos apercebermos de que a não tem.

 

Há demasiadas imagens deles a circular por aí, mas que funcionam ao contrário, em vez de os fortalecer, enfraquece-os. Pensam que melhoram como pessoas se se deixarem assessorar.

 

Sorrio. Só nos resta sorrir. Um bom sorriso é a melhor arma em qualquer lugar.

 

Depois olhamos para o que se passa no mundo e pensamos como é revoltante a atitude da maioria das pessoas que vivem na Europa e dizem sentir-se frustradas por não desfrutarem ainda do último modelo de telemóvel, por não vestirem a roupa de marca que está na moda ou de o seu carro não estar tão artilhado como o do vizinho.

 

Por mais que me esforce não consigo distinguir entre a violência “legítima” praticada pelos denominados governos legais e a violência “ilegítima” exercida pelos grupos insurretos. Todas as bombas mutilam e matam da mesma maneira. Não acredito na violência como argumento, nem na paz imposta pelas armas.

 

Não creio na razão da força. Acredito na força da razão.

 

Só após dedicar longas horas à leitura de textos das três religiões monoteístas é que me dei conta que possuem muitas coisas em comum. Apesar disso, judeus, muçulmanos e cristãos andam há mais de quinze séculos a matarem-se uns aos outros. Mesmo o Alcorão, que muitos apelidam de violento, afirma-se um livro da revelação que começou com Abraão e integra nos textos fragmentos, personagens e episódios da Bíblia e do Talmude.

 

Num dos seus contos iniciáticos, o Mullah Nasruddin narra que um dia apareceu no mercado um homem generoso que – vendo-o ridicularizado por, de cada vez que alguém lhe oferecia uma esmola, mostrando-lhe sempre duas moedas, uma dez vezes mais valiosa do que a outra, e pedindo-lhe que escolhesse a que preferia, Nasruddin escolhia invariavelmente a de menor valor –, lhe disse: “De cada vez que te ofereçam duas moedas, escolhe a de maior valor. Assim terás mais dinheiro e os outros não te vão considerar idiota.” Então o sábio Mullah respondeu: “O senhor parece ter razão. Mas se eu escolho a moeda maior, as pessoas vão deixar de me dar dinheiro para provarem que sou mais idiota do que eles. Não imagina a quantidade de dinheiro que já ganhei usando este truque. Não há mal em fazer-se passar por tonto se na realidade se está a ser inteligente.”

 

Um antigo provérbio árabe diz: “Tenta alcançar a Lua com uma pedra… Nunca conseguirás, mas acabarás por manejar a funda melhor do que ninguém.”

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 7 de Março de 2016

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280 - Pérolas e diamantes: lá à frente também chove

 

E de repente os pais entraram na discussão política em Portugal. E não foi da melhor maneira. O BE comportou-se como um elefante dentro de uma loja de porcelana.

É claro que cada um tem o pai (ou pais) que lhe calhou em sorte. Por exemplo, o pai de Magnus Pym, O Espião Perfeito de John le Carré, era tão aldrabão que se chegava a enganar a ele próprio. E, sobretudo, o que é desprezível, enganava o filho com o amor que lhe devotava.

Um dia o filho, já secretário comercial e funcionário encarregado dos vistos da embaixada britânica nos EUA, respondeu em carta a Rick: “Querido Pai. Fico muito contente por aprovares a minha nomeação. Infelizmente não estou em posição que me permita tentar convencer Pandita Nehru a conceder-te uma audiência, para lhe apresentares o teu plano de apostas mútuas no futebol, embora imagine com facilidade o avanço que isso poderia representar para a economia periclitante da Índia.”

O BE, mais papista que o Papa, resolveu utilizar a imagem de Jesus num cartaz para fazer uma campanha a assinalar a aprovação da lei que permite a adoção por casais do mesmo sexo, dizendo que “Jesus também tinha 2 pais.”

Dois pais também parece ter a brilhante ideia de nacionalizar o Novo Banco: não só o Partido Comunista, o que não é de estranhar, mas também o economista Vítor Bento, ex-conselheiro de Estado, primeiro presidente do ex-BES e um neoliberal assumido.

O Vítor economista veio lançar a ideia, peregrina por certo, de que a eventual nacionalização do NB serve para evitar que a consolidação na banca seja liderada por entidades externas. O PCP aplaude de pé. O PS espera sentado que a solução, qual fruto maduro, lhe caia no regaço.

Taur Matan Ruak, o presidente timorense, talvez sentindo-se órfão de mãe, resolveu acusar os dois putativos pais da independência de Timor Leste, Xanana e Alkatiri, de beneficiarem amigos e familiares em contratos do Estado, comparando tais privilégios aos que existiam no tempo do antigo ditador Indonésio Suharto, que eles combateram de armas na mão.

Matan Ruak disse no Parlamento que Xanana e Alkatiri usam a unanimidade e o entendimento para terem “poder e privilégios”. Bem-vindos sejam pois, estes dois progenitores, ao sistema democrático.

Mas voltemos ao BE. Bernardo Ferrão, no Expresso, disse que “imbecil” era a palavra certa para definir o polémico cartaz sobre a adoção gay com a imagem de JC.

A mim, que sou agnóstico, a provocação aos católicos deixou-me parcialmente indiferente. Não alinho em guerras ideológicas, nem sexuais e muito menos religiosas.

O que me deixa triste é que nem na provocação conseguimos ser criativos. As palavras impressas no cartaz são a tradução de dois placares da St. John’s United Methodist Church, publicitados nos EUA e no Canadá, um em inglês (Jesus had two dads and he turned out just fine) e outro em francês (Jesus aussi avait deux papas!).

É o nosso triste fado, nem na “imbecilidade” conseguimos ser originais.

Esta esquerda chique e bem vestida faz-me lembrar o tio do João, de um texto de António Mota, que depois de o seu sobrinho soprar as velas do bolo de aniversário, pega num caixote, senta-se no terraço e começa a encher balões. E ali fica toda a tarde: Pfffffffff… Pffffffffff… Pfffffffff…. Depois larga-os. E os balões lá vão subindo, guiados pelo vento, em várias direções. Não sabe para onde se dirigem nem onde vão parar. Nem isso lhe interessa. Acredita que algumas das sementes que levam dentro hão de germinar. Claro que dali poderão nascer algumas papoilas, mas delas nunca uma seara rebentará.

Na Tertúlia de Mentirosos, Jean-Claude Carrière refere um conto da tradição chinesa, que passo a contar aos estimados leitores, como forma de conclusão que tem a enorme vantagem de não ser conclusão nenhuma.

Um homem caminha lentamente à chuva. Um outro passa por ele apressado e pergunta-lhe: Porque não andas mais depressa? O homem lento responde: Lá à frente também chove.

 

João Madureira

 

 

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