Segunda-feira, 5 de Junho de 2017

Quem conta um ponto...

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345 - Pérolas e diamantes: Hot Dogs

 

Depois da Guerra Fria, os seus silenciosos heróis passaram à clandestinidade na mesma sociedade que protegeram. Talvez se sintam agora dissidentes. Quase como estrangeiros no seu próprio país.

 

Antigamente nem sequer eram recebidos nas divisões das traseiras. Agora acomodaram-se às pessoas e às situações.

 

Talvez ensinem em universidades onde lhes é dedicada alguma atenção, que será seguida de alguma confiança e é até provável que gozem de algum apoio.

 

Dizem o que as outras pessoas disseram antes delas: Quem pode, faz; quem não sabe, ensina.

 

Perderam a sua utilidade, a sua unidade e o seu objetivo, porque viram demasiado, omitiram demasiado e conciliaram demasiado.

 

Mas será que alguma vez o desespero e a pobreza humana constituíram séria preocupação para alguma nação rica? Estou em crer que não. Mas eu sou um incréu, não posso servir de exemplo.

 

Habituei-me a misturar o tremendamente sério com o tremendamente frívolo, tentando fazer com que a diferença entre um e outro seja pequena. Faz parte do manual de sobrevivência em sociedade.

 

Aprendi a libertar-me do medo porque sei que as pessoas medrosas nunca aprendem.

 

A maioria das vezes não se ganha. O outro lado é que simplesmente perde. Os conflitos ideológicos, em vez de nos libertarem, reprimiram-nos. A guerra, que diziam fria, terminou. Pelo menos é isso que dizem. O que importa é a esperança.

 

De uma coisa me arrependo, do tempo e das capacidades que desperdiçámos, para nada.

 

Fingíamos que as coisas não existiam, ou então fingíamos que não eram importantes. Era esse o manual de sobrevivência de um revolucionário.

 

Nunca é com a mentira que vamos derrotar os mentirosos.

 

Sei agora que do lado de lá, onde estavam os putativos amigos, mentiam para esconder o seu mau sistema. Do lado de cá também nos mentiam para esconder as supostas verdades.

 

Falavam do respeito pelo individuo, do amor à diversidade e à discussão, na crença de que só se pode governar justamente com o consentimento dos governados. E enalteciam a nossa capacidade de ver o ponto de vista dos outros – sobretudo nos países que explorámos, quase até ao aniquilamento, para os nossos próprios objetivos.

 

Em defesa de uma suposta retidão ideológica, enchemo-nos de uma compaixão deífica, a raiar a indiferença.

 

Apesar das ladainhas ocidentais, é ainda onde nos encontramos. Na indiferença estratégica.

 

Aparentando o contrário, a nossa sociedade continua a proteger os fortes contra os fracos. Apenas aperfeiçoámos a arte da mentira pública.

 

Horace Walpole escreveu que “este mundo é uma comédia para os que pensam e uma tragédia para os que sentem”.

 

Por isso é que, salvo raros momentos, o nosso presente é uma comédia e o nosso passado foi uma tragédia.

 

Por incrível que possa parecer, dizer não é sempre mais fácil do que dizer sim. Deixar de sentir não é deixar de existir. Além disso, a filosofia tem de servir para alguma coisa.

 

Também eu teimei durante algum tempo em ser, ou parecer, conservador. Mas que diabo é que existe por aí de bom que se possa conservar?

 

Eu sei que a vida ou é uma busca ou não é nada. Mas, convenhamos, não é com o aproximar da idade da reforma que uma pessoa se deve disponibilizar a vaguear perdido e a dar voltas à cabeça sobre a maneira de reinventar a humanidade.

 

Agora compreendo, depois de muito estudar a multiculturalidade e os seus apóstolos,  

a razão porque tanto os cambojanos como os tailandeses apostam grossa maquia no número de vezes que uma rã vai arrotar.

 

É com a chegada do verão que se escuta o frenético tagarelar dos insetos.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 29 de Maio de 2017

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344 - Pérolas e diamantes: Convém usar… mas não abusar

 

 

Todos aqueles que atualmente trabalham arduamente sentem que estão a ser usados, que os seus impostos estão a ser gastos ou para resgatar bancos e banqueiros ou então para subsidiar pessoas que se recusam a trabalhar.

 

Os Governos mais não fazem do que ajudar substancialmente os que provocaram a crise, em vez de se preocuparem em ajudar os que mais sofrem.

 

Mas também convém dizer que sem os Estados, os bancos teriam cometido abusos ainda maiores.

 

Em tempos de crise, a solução verdadeira para combater a desigualdade reside em dirigir o foco sobre a comunidade em vez de se apostar na defesa do interesse pessoal.

 

A ideologia fundamentalista dos mercados apenas serve os interesses dos poderosos, sobretudo à custa do resto da sociedade.

 

Muitos dos que não conseguem trabalho, sobretudo entre os mais jovens, emigram; as famílias separam-se e o nosso país vê-se esventrado dos seus cidadãos mais talentosos.

 

Todos nos apercebemos que é falso o sentido de considerarmos como garantidos os êxitos do passado na criação de uma sociedade e uma economia mais iguais e mais justas. Temos de nos preocupar novamente com a crescente desigualdade e com as suas consequências sociais, políticas e ideológicas.

 

Cortar nos investimentos no bem-comum ou enfraquecer os sistemas de proteção social põe em risco os valores básicos da nossa sociedade. A questão, embora não parecendo, é mais política do que económica.

 

Mas também é necessário reconhecer que o crescimento da desigualdade tem algo a ver com a globalização e a substituição de trabalhos semiqualificados por novas tecnologias e pelo trabalho terceirizado.

 

O problema não é que a globalização seja boa ou má. O que é má é a maneira como os governos a gerem, somente em benefício de interesses especiais.

 

Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia, tem razão: “A interconetividade entre os povos, os países e as economias de todo o mundo é um desenvolvimento que pode ser usado com a mesma eficácia, tanto para promover a prosperidade como para espalhar a ganância e a miséria.”

 

Os mercados apenas se têm concentrado na “riqueza” dos ricos, passando os custos ambientais à sociedade e abusando dos trabalhadores.

 

Joseph Stiglitz defende que é imprescindível reduzir a desigualdade, pois só dessa forma conseguiremos salvar a nossa economia, a nossa democracia e a nossa sociedade.

 

Um pouco por todo o mundo, os governos mostram não serem capazes de resolver os problemas económicos fulcrais, incluindo o desemprego, deixando cair os valores universais de justiça, sacrificados pela ganância de alguns, apesar da retórica em contrário.

 

Uma coisa sabemos: a desigualdade crescente não é algo de inevitável. Joseph Stiglitz, defende que são os interesses financeiros quem, no processo de criação de riqueza, sufocam o verdadeiro e dinâmico capitalismo. É a ideologia neoliberal quem tornou a sociedade intoleravelmente injusta. 

 

Os jovens manifestantes que agora se juntam aos pais, aos avós e aos professores, não são nem revolucionários, nem anarquistas. Não querem derrubar o sistema. Acreditam ainda na democracia e no processo eleitoral, acreditam que é possível pôr a funcionar os governos, lembrando-lhes apenas que têm de prestar contas ao povo. Estão indignados com a taxa de desemprego entre os 30% e os 40%.

 

Três temas ressoam em força por esse mundo fora: os mercados não funcionam como devem, porque bem vistas as coisas, não são nem eficientes, nem estáveis; e o sistema político e o sistema económico são fundamentalmente injustos. 

 

E os três estão intimamente relacionados entre si. A desigualdade é causa e consequência do falhanço do sistema político e contribui para a instabilidade do nosso sistema económico, que, por sua vez, contribui para uma maior desigualdade, originando uma espiral recessiva onde mergulhámos e da qual só poderemos emergir através de políticas devidamente concertadas.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 22 de Maio de 2017

Quem conta um ponto....

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343 - Pérolas e diamantes: Tudo é relativo

 

Esta situação aflitiva e inverosímil ligada aos casos mediáticos de corrupção passiva para a prática de atos contrários aos deveres do cargo, fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais, falsificação, recebimento indevido de vantagem e tráfico de influências imputada a políticos, banqueiros e fauna similar, faz-me lembrar o velho provérbio brasileiro de “quem rouba pouco é ladrão e quem rouba muito é barão”.

 

Mas hoje não quero ir por aí. Prefiro viajar até ao Brasil e lembrar que D. Pedro foi acolhido no Rio de Janeiro, por volta do ano 1821, no tempo da “Independência ou morte” de forma esfuziante. O então Perpétuo defensor do Brasil apercebeu-se de que eram justos os clamores do povo fiel que “preferia um inimigo declarado a um amigo traidor”.

 

Prefiro cair no meio da revolução republicana e, através da leitura de Machado de Assis (Esaú e Jacó), assistir de palanque à condição humana no meio do rebuliço.

 

Aí se narra o hilariante caso do senhor Custódio, proprietário de uma pastelaria, que mal tinha acabado de encomendar uma nova tabuleta para a sua tradicional “Confeitaria do Império”, é informado que no Brasil tinha triunfado a República.

 

Mandou recado ao mestre pintor para interromper o trabalho, que na altura em que o tinha visto pela última vez, exibia a palavra “Confeitaria” e a letra “d”. Pensava que a letra “o” e a palavra “Império” estivessem ainda apenas delineadas a giz. No entanto, para desespero do senhor Custódio, o trabalho já estava terminado.

 

Por que necessitava de uma nova placa, Custódio procurou a ajuda do Conselheiro Aires. Sugeriu que o nome passasse para “Confeitaria da República”. Mas ficaram com medo de que em poucos meses pudesse existir nova revolta e mais uma vez o nome do local tivesse de ser alterado.

 

O sábio Conselheiro sugeriu então o nome “Confeitaria do Governo”, que calhava bem com qualquer regime. No entanto concluíram que qualquer governo tem oposição e que se ela fosse das boas poderia despedaçar a tabuleta.

 

Aires arriscou sugerir que Custódio deixasse o título original: “Confeitaria do Império”, acrescentando apenas “fundada em 1860”, a fim de acabar com as dúvidas.

 

Mas “parecia que o confeiteiro, marcando a data da fundação, fazia timbre em ser antigo”, o que naquela época de modernidade não soava lá muito bem.

 

Decidiu-se então pelo próprio nome do dono: “Confeitaria Custódio”. Terminava assim a complexa conversação. «Gastava alguma cousa com a troca de uma palavra por outra, “Custódio” em vez de “Império”, mas as revoluções trazem sempre despesas.»

 

Problema bicudo surgiu com a escolha de um novo Hino Nacional. O vencedor do concurso foi o Hino da Proclamação da República. Apesar das modernices, o velho marechal Deodoro disse “preferir o velho”, embora existissem suspeitas de que o autor fosse D. Pedro I. Mesmo a Bandeira Nacional, a despeito das interpretações surgidas posteriormente de que o verde era uma referência às matas do país e o amarelo uma alusão às riquezas minerais, seguia ostentando os seus vínculos com a tradição imperial: o verde, cor heráldica da Casa Real Portuguesa de Bragança; e o amarelo, cor da Casa Imperial Austríaca de Habsburgo.

 

Mas as mudanças eram claras: o indígena, símbolo dileto do Império, foi substituído pela figuração republicana de uma mulher heroica. Deste modo, nada ficava como dantes.

 

Coisa de somenos foi o debate em torno do direito de voto. O que era bom tinha de se manter. Como nos bons velhos tempos do “Império”. Só seriam considerados eleitores os brasileiros adultos, do sexo masculino (apesar da heroica figura republicana), que soubessem ler e escrever. Além do voto das mulheres, estava proibido o voto dos mendigos, dos soldados, praças e sargentos, e dos integrantes de ordens religiosas que impunham renúncia à liberdade individual.

 

Nesse republicano e democrático sistema eleitoral três tipos de procedimentos ficaram famosos. A eleição de “bico de pena”, que significava o não reconhecimento do eleito pela Comissão de Verificação da Câmara dos Deputados – procedimento que eliminava os adversários, anulando a sua eleição. O “voto de cabresto”, que era um ato de lealdade do votante ao chefe local. E por fim, o “curral eleitoral”, que aludia ao barracão onde os votantes eram mantidos sob vigilância e ganhavam uma boa refeição, só saindo dali na hora de depositar o voto – que recebiam num envelope fechado – diretamente na urna.

 

Depois veio a ditadura. O general Geisel foi das mais proeminentes figuras da repressão.

 

Em 1977, posto perante as perguntas dos jornalistas sobre os instrumentos de controlo que criou, caraterísticos de um sistema político autoritário, afirmou: “Todas as coisas no mundo, exceto Deus, são relativas”. E rematou: “O Brasil vive um regime democrático dentro de sua relatividade.”

 

João Madureira

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Segunda-feira, 15 de Maio de 2017

Quem conta um ponto...

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342 - Pérolas e diamantes: O admirável mundo liberal… e outras tretas

 

 

É num sistema económico admiravelmente liberal que uns quantos acumulam fortunas consideráveis enquanto outros, muitos outros, apodrecem no desemprego e na miséria.

 

Esse liberalismo económico, acompanhado por um sistema sexual perfeitamente liberal, é a extensão do campo da luta a todas as idades da vida e a todas as classes da sociedade.

 

Perplexos? Pois não devem ficar já que é essa a “Extensão do domínio da luta” de Michel Houellebecq, no seu primeiro romance, agora editado em Portugal.

 

Essa é a odisseia de um informático de meia-idade que observa os movimentos humanos e as banalidades que se desenrolam nos cafés bares ou em desinteressantes reuniões de trabalho. É aí que ele elabora uma teoria completa sobre o liberalismo, seja ele económico ou sexual.

 

No fundo, é um romance de falhados e abandonados responsáveis por elevarem a rotina a modo de vida.

 

Logo no início, o seu herói luta contra a ideia de ser paspalho por ter de admitir que perdeu o carro. Ele sabe que, a partir desse momento, passará a ser considerado anormal, ou fantoche. O que redundaria em nítida imprudência. O seu software não está preparado para isso.

 

Entretém-se então a escrever diálogos entre animais, onde se aprende muita coisa, nomeadamente sobre vacas bretãs.

 

A vaca bretã, por exemplo, ao longo do ano não pensa senão em pastar. O seu focinho brilhante sobe e desce com uma regularidade impressionante… “e nem um tremer de angústia lhe vem perturbar a expressão patética dos seus olhos castanhos-claros”.

 

No entanto, em determinados períodos não especificados, uma espantosa revolução ocorre no seu ser. “Os seus mugidos intensificam-se, prolongam-se, a sua própria textura harmónica modifica-se até relembrar, por vezes, de maneira espantosa, algumas queixas que escapam aos filhos do homem. Os seus movimentos são mais rápidos, mais nervosos, por vezes assume um trote curto.”

 

E o que pretendem as vacas bretãs? Pois, “encher-se”. E os criadores enchem-nas, “mais ou menos diretamente; a seringa da inseminação artificial pode, de facto, se bem que às custas de algumas complicações emocionais, substituir, nesta função, o pénis de um touro”.

 

Depois o animal acalma-se, regressa ao seu estado anterior de “meditação atenta, pois, após este feito, alguns meses mais tarde, dará à luz um esplendoroso pequeno vitelo. O que é, diga-se de passagem, benéfico apenas para o criador”.

 

Houellebecq tem razão: “A escrita não alivia nada. Traz à memória, delimita. Introduz uma suspeita de coerência, a ideia do realismo.” É como quando nadamos, que a cada movimento que exercemos nos deixa mais perto do afogamento.

 

De facto, mais vale observar sapateiras a trepar umas por cima das outras dentro de um aquário de uma marisqueira, prontas a ser consumidas.

 

E o mundo lá se vai uniformizando. “Os meios de telecomunicação progridem; o interior dos apartamentos enriquece-se com os novos equipamentos. As relações humanas tornam-se progressivamente impossíveis (…) O terceiro milénio promete.”

 

Esta mediocridade é penosa. Boa vida e repleta de qualidade e interesse é a dos quadros superiores. Uns gostam de ténis, outros apreciam a equitação e muitos são praticantes de golfe. No entanto, enquanto uns “são doidos por filetes de arenque; outros detestam-nos”. Apreciam ter “os pés enraizados” em “espessas alcatifas cinzento pérola”. E os escolhidos anunciam-nos, através de um graffiti: “Deus quis desigualdades, não injustiças”.

 

De facto, o terceiro milénio promete.

 

João Madureira

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Segunda-feira, 8 de Maio de 2017

Quem conta um ponto...

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341 - Pérolas e diamantes: O desfasamento

 

Foi a divina Atena, a filha de Zeus, quem, se não me engano, colocou no espírito de cada um o contrário do que está no espírito do outro. Por isso é que a vida é bela e as discussões e dissidências fazem parte da existência em sociedade.

 

Devemos sempre lembrar-nos de que a opinião que temos uns dos outros, as relações de amizade, os laços familiares, etc., nada têm de fixo, antes são, como dizia Marcel Proust, eternamente móveis como o mar.

 

Por isso é que casais aparentemente muito unidos se separam e amigos que julgávamos inseparáveis dizem infâmias acerca um do outro. Mesmo as grandes alianças entre os povos se desfazem em pouco tempo.

 

Uma coisa no entanto sei: para as pessoas puras tudo é puro. Mas elas são tão poucas.

 

Depois vêm os aborrecimentos. Como dizia o senhor de Charlus, nada é mais agradável do que sofrer aborrecimentos por uma pessoa que valha a pena.

 

O lamento do aristocrata continua válido. “São as pessoas do meu mundo que não leem nada e têm uma ignorância de lacaios. Dantes, os criados de quarto do rei eram recrutados entre os grandes senhores, e agora os grandes senhores pouco mais são do que criados de quarto.”

 

Como válida continua a ser a história daquele homem que julgava ter numa garrafa a princesa da China. Era perseguido por essa loucura. Curaram-no dela. Logo que deixou de estar louco, ficou estúpido.

 

Existem maleitas de que se não deve querer curar ninguém, pois são as únicas que nos protegem de infortúnios ainda mais graves.

 

Por vezes chove e venta e depois instala-se uma neblina fria que só se levanta lá para o meio-dia. Mas quando o sol chega, nós renascemos e a existência permanece intacta dentro de nós. Essa mudança de tempo basta para recriar o mundo e nos recriar a nós.

 

Que podemos então dizer se aquilo que jugávamos inicialmente provável se veio a revelar falso e num terceiro momento tornou a ser verdadeiro?

 

A necessidade de falar impede-nos não só de ouvir, como de ver.

 

Por isso nos rimos. Rimo-nos quando percebemos que existe um desfasamento entre aquilo que esperamos que as coisas sejam e aquilo que descobrimos que elas verdadeiramente são.

 

Com a ajuda de Ricardo Araújo Pereira, transcrevo agora um excerto de The Importance of Being Earnest.

 

“Jack: Gwendolen, é terrível para um homem descobrir subitamente que, ao longo de toda a sua vida, não disse outra coisa a não ser a verdade. Serás capaz de me perdoar?”

 

“Gwendolen: Serei. Porque sinto que és capaz de mudar.”

 

Aristóteles disse que o riso é exclusivo dos homens. Nisso distinguimo-nos dos outros animais. E igualmente de Deus.

 

RAP tem uma hipótese. Ei-la, por junto e atacado: “O homem é o único que ri porque também é o único que tem consciência da sua própria extinção. Os animais desconhecem que vão morrer, e Deus sabe que é eterno.”

 

Afinal, o artista é um homem mediano. A obra de arte mais não é do que o resultado do esforço de uma mente específica.

 

O escritor é, segundo Gonzalo Torrente Ballester, um homem capaz de produzir imagens coerentes e de as expressar por palavras.

 

Escrever é um ofício, por mais que os defensores do êxtase místico e da musa desaforada pretendam negá-lo, ou reduzir ao mínimo a sua importância.

 

“Devemos ter sempre presente que Miguel Ângelo, além de genial escultor, era um perfeito canteiro.”

 

O filósofo espanhol Arauguren avisou-nos que apesar de vivermos demasiado longe de onde as coisas se decidem para podermos participar diretamente na sua elaboração, vivemos demasiado perto para as ignorarmos e deixarmos que a nossa realidade segregue as suas próprias superestruturas. 

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 24 de Abril de 2017

Quem conta um ponto...

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339 - Pérolas e diamantes: O dedo e a Lua

 

Arrelia-me e desconcerta-me a tacanhez e o desplante com que certa gente, e alguma rapaziada de esquerda, critica o Museu de Arte Contemporânea de Chaves. Até porque combater a arte é coisa fácil em meios provincianos. Parece mesmo que dá votos.

 

À falta de melhor argumento, ataca-se a cultura porque dá despesa. Quando oiço estas alarvidades, fico com os pelos em pé. Que até não são muitos, mas… são rijos.

 

Muitos nem sequer se dão ao trabalho de lhe fazer uma pequena visita. Argumentam que os bilhetes são caros, que o edifício custou uma pipa de massa ou que as obras de Nadir Afonso os exasperam. Ou, o que ainda é mais ridículo, que o presidente da Câmara é o António Cabeleira.

 

Fazem-me lembrar os pintores denominados Pré-Rafaelistas que, segundo, Hélia Correia, tinham tanta aversão a Rafael que falavam com desprezo da Transfiguração, chamando-lhe pomposa e antiespiritual, sem no entanto nunca para ela terem olhado.

 

Pelos vistos, não aprenderam nada com o exemplo do Centro Cultural de Belém, hoje a joia da coroa cultural de Lisboa.

 

Fica mal a gente séria e responsável tentar vender estes argumentos comprados aos ressabiados que lustram as cadeiras dos nossos cafés.

 

Depois engalanam-se com prosápia e enfeites argumentativos, tentando evidenciar uma desajeitada modéstia que aprendem sempre muito à pressa, pois as eleições impõem o seu calendário e o candidato anterior foi proveitosamente queimado pelas disputas intestinas dentro do partido.

 

São como os lobos que, a pouco e pouco, se vão orientando na direção de um novo líder da matilha.

 

Correm de um lado para o outro à procura da certeza, sem nunca a conseguirem alcançar.

 

Uma consciência limpa é o melhor travesseiro.

 

Parecem preiteantes mirando-se nas biqueiras dos sapatos estendendo gel pelo cabelo e puxando as mangas do casaco adquirido no Corte Inglês. Por vezes vestem os sucedâneos do burel para se disfarçarem de povo. Viciaram-se na crítica fácil e em criarem uma espécie de mal-estar permanente. Lutam contra as evidências e as emoções como quem luta contra os insetos.

 

Apreciam a regularidade da vida, se possível sem nenhum acontecimento particular. Até os domingos parecem incomodá-los.

 

Cada um faz o que pode. Os idiotas costumam fazer idiotices e os espertos, por vezes, fazem idiotices ainda maiores. Que Deus nos dê paciência.

 

São sempre generosos com a crítica e pouco dados ao elogio. Acham que um pensamento acaba sempre por achar um pensador.

 

A mediocridade é sempre penosa.

 

Aprenderão ao envelhecer que as coisas se tornam simples. E também que não vale a pena alterar os hábitos e os princípios apenas pelo prazer de se parecer moderno.

 

Creio que leram Jacques Lacan e acreditaram que quanto mais formos ignóbeis melhor nos correm as coisas.

 

Cito-lhes de graça Michel Houellebecq: “De qualquer maneira, o amor existe, uma vez que se pode observar os seus efeitos.”

 

Ou então Henri de Régnier: “A solidão não é possível senão em muito jovens, quando temos pela frente todos os sonhos, ou então em muito velhos, quando temos para trás todas as recordações.”

 

E termino com um velho provérbio chinês: “Quando o sábio mostra a Lua, o idiota olha para o dedo.”

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 17 de Abril de 2017

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338 - Pérolas e diamantes: É preciso ter fé

 

A beleza consegue ter um alcance infinito. Mas o mesmo podemos afirmar acerca da desgraça.

 

Dizem-nos descuidados. Sim, talvez o sejamos. Mas muitas vezes um cuidado excessivo pode transformar-se numa outra forma de descuido.

 

É bem verdade que a política caiu em desgraça. Não é uma coisa que se recomende a gente séria e honesta. Mas todos sabemos que se não vivermos a política é a política que nos vive a nós, ou vive por nós, ou além de nós.

 

Quem comanda o Estado é mestre em arranjar soluções ainda antes de ter arranjado um problema.

 

Intriga-me, e arrelia-me, o argumento do nosso país ter caído na ratoeira da dívida pública e da austeridade. A esses pergunto: Será que Portugal algum dia saiu de lá?

 

As pessoas que dizem que não temos escolha são é demasiado cobardes para escolher. Deixam correr a linha para endrominar o peixe.

 

Uma pessoa vai para a metrópole e começa logo a pensar em grande, a falar eloquentemente e a augurar enormes mudanças. Depois, quando volta à província, começa a magicar se a sua bazófia não terá inchado tanto como o ego.

 

A província é boa para criar filósofos. Dizem eles que somos servidores da nossa terrinha, que tanto amam, e nós com eles, nos feriados ou dias santos.  

 

Mas o ser humano é aquilo que é. Muita gente, mesmo no meio das grandes desgraças, prefere escolher o mal que já conhece em vez do bem que aprendeu a idealizar.

 

Apenas os tolos e os malucos continuam a sonhar.

 

Por vezes as guerras param porque os adversários se esqueceram das razões que os levaram a tal desatino. Outras vezes apenas ficam cansados de lutar.

 

Lembro-me do aforismo do marechal de cavalaria Budionny, o comandante preferido de Estaline: “Tanto me dá quem enfrento. Eu gosto é de golpear com a espada.”

 

Continuamos a ter uma visão infantil do mundo. Vivemos ainda segundo o abecedário. E o nosso professor é o presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Não conseguimos amadurecer. Infantilizamo-nos. Pior, deixámo-nos infantilizar.

 

Estes últimos anos de crise económica, financeira e social, foram um duro golpe na nossa vida e na nossa imaginação. No nosso porvir. Começámos a sentir medo do futuro. Ensinaram-nos a viver com a carteira alheia e a pagar os juros da dívida com língua de palmo. 

 

Andávamos com a cabeça cheia de utopias. Dizem os sábios que se a fé na razão abandona o homem, na sua alma instala-se o medo, como num selvagem. O diabo, afirmam os versados, gosta de se ver refletido nos espelhos da irracionalidade.

 

O negócio mais rentável é o medo. Vendem o medo da bancarrota, da austeridade, do empobrecimento, da desgraça. Pouco mais temos para negociar no mercado mundial. Vendemos o nosso sofrimento para honrarmos os acordos monetários.  

 

Este mundo pós-modernista vende-nos o futuro na província em largos cartazes onde se podem ver uma vaca enfeitada com papel crepe guardada por uma velhota embrulhada em papel celofane.

 

E eu não sei se me hei de rir ou chorar.

 

Afinal onde está o fogo da política, a energia da polémica, a excitação da querela, a proclamação do amor pela humanidade e a luta de classes? Tudo se desvaneceu, eclipsado pelas nuvens do conformismo e da subserviência.

 

Acredito que a fé na verdade, na beleza e na benignidade da natureza humana é a forma mais elevada do bem. Por isso, agora compreendo o motivo por que o muçulmano Avicena, ao terminar um dos seus dias dedicados ao pensamento, se tratava invariavelmente com vinho e mulheres.

João Madureira

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Segunda-feira, 10 de Abril de 2017

Quem conta um ponto...

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337 - Pérolas e diamantes: Uma limonada, por favor…

 

Não há nada como a realidade para nos fazer rir até às lágrimas.

 

Quando a República Islâmica do Irão começou a censurar as dobragens dos filmes e das séries apareceram então os grandes momentos do cinema americano em terras de Alá.

 

A meio de um filme de cobóis, um indivíduo todo ajaezado de americano do bom velho oeste, entrava no saloon, com os coldres ajustados na anca e dizia ao barman: “Quero uma limonada!” Então a barman, com a mão ligeiramente a tremer, servia-lhe um copinho de um líquido que o cobói emborcava de um trago, momentos antes de repetir: “Serve-me outra limonada!”

 

Os espetadores de televisão riam-se até lhes doer o estômago. Mas em casa, o mais longe possível dos guardas da revolução.

 

Longe também vão os tempos dos grandes romances que uniam ocidente e oriente. Dom Quixote, segundo os peritos, é o primeiro romance árabe. O primeiro romance árabe e europeu. Não é por acaso que Cervantes o atribui a Sayyd Ibn al-Ayyil, que ele grafa como Cide Hamete Benengeli. O primeiro grande louco da literatura universal dá-se a conhecer ao mundo através da pena de um historiador mourisco da Mancha.

 

Segundo uma das personagens principais do livro Bússola, de Mathias Enard, “dever-se-ia recuperar a Torre dos Loucos para nela criar um museu da loucura que começaria com os santos orientais loucos de Cristo, os Dom Quixotes, e incluiria não poucos orientalistas. Um museu da mistura e da bastardia.”

 

Loucos existem espalhados um pouco por todo o mundo. No Brasil existe, pelo menos, um que dá pelo nome de Marcelo Mirisola, que escreve, segundo Vitor Rosa, de “forma louca, libertária e ácida”.

 

O seu livro, O azul do filho morto, “possui a estranha alegria – ou a felicidade clandestina – daqueles que preveem a derrota de antemão”.

 

O seu alter-ego leva uma “vida de tatu filhadaputa”. Recusaram-lhe o seu primeiro original, intitulado Um pouco de Mozart e genitálias, fazendo-me recordar o já saudoso amigo e pintor Rui Rodrigues, artista dado também a esses temas. “Azar de quem recusou”.

 

Para ele, os editores, fora um seu que lhe paga umas cascas de alho por ele escrever o que escreve, são, além de outras coisas que deixo bem quietinhas nas páginas do romance, “analfabetos, cegos por opção, degenerados, mercenários e débeis mentais. Vale a mesma coisa pros jurados de concursos literários e pros poetas em geral”. Ele odeia poetas.

 

Pior do que poeta só “livro psicografado”, que lhe lembra um tal Emanuel, que é o espírito de um porco, “apenas não é mais covarde, tarado e mau-caráter do que escritor de livro infantil”, incluindo aí os escritores de manuais de autoajuda e livros policiais, pois “enredo é coisa de criança”.

 

Admite que foi batizado na Igreja do Calvário, entre exus e orixás, que sendo aquilo que são, mesmo assim são mais honestos porque admitem deliberadamente serem analfabetos, não escrevendo livros bem intencionados. “Sincretismo dá nisso.”

 

Admite que sempre disse que ser feliz é fácil. Quer ver é alguém “ser infeliz e abrir mão dos malditos orgasmos e do chocolate importado. Aí é que é preciso ter talento, bom humor negro e pessimismo… e não gozar jamais”.

 

Por mais que se esforce, e nisso eu junto-me a ele, não consegue perceber por que razão a “famigerada classe média desaprendeu de sofrer por causa da Tevê a cabo. E a tecnologia, no final das contas, acabou servindo pra caipira desalmado apertar botãozinho e escolher a pior programação”.

 

Também eu, como ele, acreditava nas canções de Simon & Garfunkel, e na sua pretensa “afinidade”. Mas foi tudo ilusão. Foi tudo do tamanho de um chiclete que depois de mastigado, sem tino nem destino, se deita fora.

 

Não entendam este escrito como um apelo à leitura do livro, pois a obra destina-se apenas a reservoir dogs. Até porque “se existe verdade é por descuido”.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 3 de Abril de 2017

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336 - Pérolas e diamantes: Tragédia e comédia

 

Uma quadra de Omar Khayyam reza o seguinte: “Fui à mesquita, roubei um tapete. / Muito mais tarde senti-me um malandrete. / Voltei à mesquita: o tapete estava roto, / Precisei de arranjar outro.”

 

Naqueles velhos tempos os tapetes ainda voavam pacificamente transportando jovens príncipes ou velhos sábios.

 

Depois começaram a voar mais alto e transformaram-se em enormes aviões que se arremessaram contra altas torres no império das américas. As mil e uma noites transformaram-se em horror.

 

Consumou-se mediaticamente o combate das civilizações, que mais não é do que a guerra das religiões.

 

Deus e Alá tentam provar qual deles é o maior.

 

Alá, de espada em punho e pela mão dos seus guerreiros-mensageiros, entretém-se a degolar infiéis.

 

Já Deus contemporizou na sua raiva e no seu ciúme e tornou-se o grande inimigo dos carneiros.

 

Ainda nos perguntamos por que medonha razão, ou objetivo divino, resolveu trocar, no momento do sacrifício, o filho de Abraão por um cordeiro e não por uma galinha, um grilo, uma gipsófila ou um cravo vermelho.

 

Dessa sua divina opção resultou a enorme perseguição aos ovinos por séculos e séculos. E ainda hoje se mantém, com o sucesso que todos conhecemos, e prosseguimos. O cordeiro pascal é ainda a nossa forma de celebrar a ressurreição do seu filho.

 

Por falar em animais, não se sabe ao certo por que razão o homem se afeiçoou aos cães. Sabemos que Wagner leu “O Mundo Como Vontade e Representação” de Schopenhauer em setembro de 1854, precisamente no momento em que começa a compor Tristão e Isolda. Um dramalhão que dá seguimento ao mito dos amores pecaminosos e terríveis que apenas podem terminar em morte.

 

Dizem que Schopenhauer nunca amou ninguém como amou Atma, o seu cão. Contam também que o filósofo alemão nomeou o seu cão herdeiro universal.

 

A loucura não é apenas coisa de deuses. É também privilégio dos humanos.

 

Álvaro de Campos, essa criatura criada pelo semideus Pessoa, tenta seguir Apollinaire, que era amante do Oriente e de paquetes e que também fumava ópio, misturando drogas e viagens.

 

Na sua bíblia, que um amigo me ofereceu em dezembro de 1983, com uma dedicatória de Álvaro Cunhal, este um semideus do comunismo, leio no Opiário: “É antes do ópio que a minha’alma é doente. / Sentir a vida convalesce e estiola / E eu vou buscar ao ópio que consola / Um Oriente ao oriente do Oriente.”

 

Afinal é de lá que nos chega tudo aquilo que somos. Para o bem e para o mal. Valha-nos Deus, o divino pai de Jesus, o salvador e Alá, o misericordioso, e Maomé o seu profeta dileto.

 

O problema foi quando os deuses nos começaram a fazer favores. Thomas Bernhard ouviu-os e resolveu registar uma sua frase célebre: “As pessoas vingam-se dos favores que lhes fazemos.” Não sabemos é se o divino autor do desabafo foi Alá, o misericordioso, ou o divino Deus da cristandade. Seja quem seja, a confissão aí ficou como aviso.

 

A condenação caiu sobre os artistas europeus, em forma de tuberculose, a maleita pública e social, ou sífilis, a doença íntima e vergonhosa.

 

Primeiro alinho os tuberculosos mais conhecidos: Rimbaud, Gauguin, Goethe, Miguel Ângelo, Brahms, Picasso e Hesse.

 

Agora os sifilíticos: Nerval, Van Gogh, Rückert, Proust, Roth, Musil e Hesse, que era ambas as coisas. E muito provavelmente Beethoven, daí a sua surdez, e a quem descobriram outros males: hepatite e cirrose.

 

E Pessoa também tinha muitas doenças. E adições. E ainda por cima amava a poesia de Khayyam. Este parece ter sido feito depois de beber uns copos e de ler algumas quadras do poeta persa: “Ao gozo segue a dor, e o gozo a esta. / Ora o vinho bebemos porque é festa, / Ora o vinho bebemos porque há dor. / Mas de um e de outro vinho nada resta. “

 

Que os deuses nos apanhem confessados.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 27 de Março de 2017

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335 - Pérolas e diamantes: Só os burros…

 

Confesso que as entrevistas já me começam a aborrecer um bocadinho. Algumas são tão enfadonhas que dão sono logo na primeira resposta. Outras prolongam o enfado e o sofrimento até à segunda pergunta. Existem porém outras que se podem ler até ao fim. Mesmo que, por vezes, nos provoquem um abrir de boca lá pelo meio, que nós disfarçamos para podermos continuar a lê-la sem problemas de consciência ou de pudor.

 

Foi o caso da entrevista de António Barreto ao Sol. A mim avivou-me a memória, o que desde já lhe agradeço. De facto, a nossa entrada no século XXI tem sido um bocado dura. Sobre o futuro, o tempo o dirá. Mas o século passado foi um horror. E dos grandes. Foi o pior século de todos, mesmo parecendo o contrário.

 

Do ponto de vista das realizações positivas podemos lembrar a paz e a riqueza, a penicilina, a aspirina, a esferográfica, a televisão, os computadores e os telemóveis. Mas o século XX ficará na História como o século onde se desenrolaram as piores guerras da Humanidade, onde houve o maior número de mortos e torturas da Humanidade. Execuções sumárias, campos de concentração, prisões em massa, intolerâncias inimagináveis, comunismo, fascismo e nazismo.

 

Pelo menos numa coisa Mário Soares teve razão: o comunismo é o grande embuste da História.

 

Mas deixemos falar António Barreto: de tudo aquilo que o comunismo prometeu, nada realizou. “Nem o internacionalismo, nem a paz, nem a igualdade, nem o progresso científico e tecnológico, nem a democracia. Tudo isso, o comunismo destruiu. E o comunismo tem no século XX tantas responsabilidades ou mais que o nazismo… o comunismo foi uma das grandes chagas do século XX.”

 

Para não nos ficarmos só pelos pareceres vagos das palavras, passemos aos números. Na União Soviética, o comunismo foi responsável por cerca de 45 milhões de mortos. Na China o número ficou-se pelos 35 milhões. Já para não falar do vergonhoso tratado feito entre a União Soviética e a Alemanha nazi que deu de barato dois anos para Hitler invadir a Europa e incendiar o mundo.

 

Como não podia deixar de ser, os entrevistadores conduziram o entrevistado para os caminhos de confronto com o seu antigo partido. O PS acha que António Barreto é agora um bocado de direita. Ele responde que os socialistas “terão feito mais arranjinhos com a direita” do que ele. “Com a direita política, com a direita económica, com a direita financeira, com a direita cultural…”

 

E dá exemplos: tudo o que aconteceu na economia e na banca. “Houve uma grande promiscuidade entre os interesses económicos e políticos de alguma direita e de alguma esquerda do PS.”

 

Daí nasceu a “peste negra que é o BES e a família Espírito Santo”. Que coincidiu com uma “espécie de praga, a praga Sócrates. Faz lembrar uma praga bíblica”.

 

Ele há cada coincidência. É como a crença na existência das bruxas.

 

“Tudo o que correu mal em Portugal acaba sempre por pôr em realce a ligação entre o BES e o PS de Sócrates.”

 

António Barreto interroga-se, como nós nos interrogamos, de como é possível que exista um buraco de seis mil milhões na CGD, de quatro ou cinco mil milhões no BES, de três ou quatro mil milhões no BPN e ninguém saiba de nada. “Não há culpados nisto tudo? Não há ladrões?”

 

De facto, “a democracia portuguesa está penhorada e cativa por causa da economia e do sistema financeiro”.

 

Se dos processos do BES e de Sócrates, e da CGD já agora, nada resultar de substantivo, haverá “uma espécie de afundamento definitivo da Justiça portuguesa, talvez da democracia portuguesa”. 

 

Sinto que por vezes há necessidade de sermos conservadores porque há coisas do passado que é importante guardar: certos afetos familiares, alguns valores identitários, carinho pela História e por algumas tradições. Rejeitando, no entanto, as velharias bafientas e a autoridade sem sentido, nem objetivo. Mas também existe a necessidade de ser progressista, porque o futuro é uma coisa que devemos construir em comum e em liberdade.

 

Além, disso, e como dizia Mário Soares: Só os burros é que não mudam de opinião.

 

 João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 20 de Março de 2017

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333 - Pérolas e diamantes: O carinho enternecedor da burguesia

 

A propósito do seu último livro “Os Pobres”, a socióloga Maria Filomena Mónica deu uma interessante entrevista ao jornal de Negócios onde defende que em Portugal existe uma espécie de “apartheid” social, pois a composição da sociedade portuguesa é de tal forma desigual, e essa desigualdade é já tão antiga, que surge aos nossos olhos como uma coisa normal e banal.

 

Esta sua preocupação com a pobreza teve início logo na sua adolescência, quando, na companhia de freiras, foi levada a um bairro de lata em Lisboa para poder ver os pobres no seu meio e dessa forma iniciar o seu treino para exercer a caridade. Disseram-lhe que exercendo a caridade rapidamente iria para o céu. MFN não considerou que a sua viagem para o céu justificasse aquilo que viu.

 

Na sua perspetiva, “a caridosa burguesia tradicional cultivou a pobreza dos outros com um carinho enternecedor. Nunca lhe passou pela cabeça que talvez fosse possível acabar com ela ou, pelo menos, tratar muito seriamente disso”.

 

No seu livro pode ler-se este belo naco de prosa: “Cultivavam-se os pobrezinhos, regavam-se com bocadinhos de pão com conduto, com pequenas moedas e cultivava-se sobretudo a sua pobreza. Havia a comida dos pobres, as visitas dos pobres e a sexta-feira que era dia dos pobres.”

 

Esta crítica ao antigamente, também se estende até aos dias de hoje. Reconhece que as redes de solidariedade social, muitas delas com presença de pessoas católicas, até realizam um bom trabalho. Mas a ideia que lhe está por trás é que os ricos estão por cima dos pobres.

 

De facto, estas redes apoiam mas não estimulam as pessoas a sair da pobreza. Habituam-nas a pensar que a pobreza é uma coisa normal. Sim, existem pobres e qual é o problema? O problema é que não devia haver. Ou pelo menos não deviam existir tantos. Propaga-se então a ideia de que não são iguais a nós, de que não têm as mesmas necessidades, de que se satisfazem com menos. Esse é o carimbo da desigualdade. E a desigualdade ali fica como uma espécie de barreira intransponível.

 

De um lado os ricos, que necessitam das melhores coisas. Do outro lado, eles, que são pobres, só necessitam do básico e servido em pequenas doses para não oparem.

 

Desde cedo que MFN abandonou a religião. Ou melhor, foi expulsa da Igreja por um padre. Foi um drama para a sua mãe, que era dirigente da Ação Católica Portuguesa.

 

Revoltava-a a visão da pobreza por parte da Igreja, onde os pobres estavam sempre a mendigar a ajuda dos ricos, e onde estes, sob o olhar majestático de Deus, se viam obrigados a exercer a caridade.

 

Para ela, isto era um sinal de que a Igreja não tinha compaixão por aqueles que mais sofriam e dava boa consciência aos ricos, que tricotavam três casacos de bebé para dar no Natal e iam para casa. “Eu não conseguia fazer isso.”

 

Não se resignava à glorificação do sofrimento. Os pobres eram resignados e aceitavam a doutrina de Cristo, pensando que “estavam ali para serem pobres e não havia nada a fazer. Pessoalmente, eu não quero ser resignada, não queria e não quero sê-lo no futuro”.

 

Na sua infância, a socióloga conviveu com pessoas das boas e católicas famílias portuguesas. Até das mais antigas. Considera no entanto que, apesar da sua bondade, não lhes passava pela cabeça que a desigualdade social é um crime. Já os seus colegas universitários, que eram todos do MES (Movimento de Esquerda Socialista), achavam que os pobres iriam desaparecer de um dia para o outro. Ela também achava, mas depois verificou que não era assim.

 

Eles aí permanecem com todo o seu esplendor. Apesar disso, pensa que com todas as críticas que se possam fazer à sociedade portuguesa, “não há comparação entre aquilo que se vive hoje e o que se vivia há 50 anos. Portugal melhorou bastante e as pessoas, às vezes, esquecem-se. A tendência é para glorificar o passado. O passado, para algumas pessoas, tornou-se um mito. Dantes é que era bom. Dantes, mas quando?! Só se for no século XII”.

 

Apesar de pertencer à secção dos portugueses ricos, Maria Filomena Mónica não se deixa apanhar na teia do ceticismo. É que os ricos são todos iguais, mas há os que são mais iguais do que outros.

 

Oiçamos a sua opinião sobre a União Europeia: “Não posso dar-me ao luxo de ser uma eurocética. Porque não pertenço a um país rico. Se pertencesse à Escandinávia, seria eurocética.”

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 13 de Março de 2017

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332 - Pérolas e diamantes: A essência do engano

 

 

A História e a vida ensinaram-me a acreditar que é perigoso acreditar muito no que quer que seja.

 

Uma outra coisa aprendi por mim próprio: a verdadeira decadência implica não levar nada demasiado a sério. Sobretudo a arte decadente. Mas também as ideologias. E ainda a religião.

 

Philip Kerr, no seu livro “O Projeto Janus”, põe o padre Bandolini a atribuir a culpa de toda a Reforma à cerveja forte.

 

Para ele, o vinho é uma bebida perfeitamente católica, porque torna as pessoas ensonadas e cúmplices. Já a cerveja torna-as agressivas. Por isso, os países que consomem muita cerveja forte são sobretudo protestantes. E os países onde se bebe muito vinho são católicos romanos.

 

Já os russos emborcam vodka que é uma bebida que ajuda a atingir o perdão, pois não tem nada a ver com Deus. Por isso é que agora os comunistas andam a bater com o punho direito no lugar onde lhes fica o coração.

 

Em verdade vos digo: a essência do engano, pelo menos na opinião de Bernie Gunther, um ex-agente dos serviços secretos, e personagem principal do livro de Kerr, não é a mentira que se diz, mas as verdades que se contam para a apoiar.

 

Desconfio sempre das ditas qualidades pessoais dos designados como políticos mediáticos. Desconfio da sua oratória demasiado assertiva e folclórica, do seu enorme ativismo, dos seus dotes invulgares de atores, porque, dessa forma, pretendem encobrir a sua falta de convicções políticas sérias.

 

O seu objetivo principal é apenas aparecerem na fotografia, satisfazendo assim a sua “mediopatia”, a sua necessidade de serem queridos e admirados, o seu desejo de protagonismo.

 

Por isso é que é frequente ouvi-los dizer uma coisa num dia e no seguinte afirmar exatamente o contrário e, sobretudo, dizer a uns e a outros o que cada um deles quer escutar.

 

Raramente participam nas discussões de ideias. Esperam que as partes em conflito, por convicção ou por esgotamento, decidam a seu favor e cheguem a um acordo. Nessa altura, armados da sua oratória e autoridade de líderes, limitam-se a reafirmar a posição vencedora e a ratificar o acordo.

 

Não têm posição séria sobre nada, ou quase nada, a não ser seguir o seu inefável desejo de continuar no cargo que ocupam ou em conseguir outro melhor.

 

São pessoas de ação porque a sua vida depende disso. Vão a toda a parte, assistem a todas as reuniões, festas e homenagens, batizados, bodas e funerais.

 

Em vez de resolverem os problemas, adiam-nos ou transformam-nos em problemas diferentes. Adiam tudo para a última hora.

 

Nietzche apercebeu-se que os seres humanos não conseguem suportar demasiada realidade. Defendia que a verdade é nociva para a vida. Por isso abominava a nossa diminuta moral pequeno-burguesa.

 

O pior é deixarmo-nos acreditar que temos razão por já a termos tido.

 

Não há nada que mais nos agrade do que ver um tipo a dar cabo de outro.

 

Uma coisa aprendi ao longo destes anos: os mentirosos nunca mentem, apenas alteram a verdade. Até porque a ser mentira, a sua mentira, é apenas boa, é somente uma mentira nobre, uma mentira oficiosa, uma mentira salvadora.

 

Afinal, a quem interessa a verdade?

 

Górgias, que viveu quatro séculos antes de Cristo, disse que a poesia (naquele tempo a ficção ou o romance) é um engano em que quem engana é mais honesto do que quem não engana, e que quem se deixa enganar mais sábio do que quem não se deixa enganar.

 

Após estes anos todos, continuo a fazer a mesma prece que Reinhold Niebuhr: Senhor, concede-nos a graça para aceitarmos com serenidade as coisas que não podem ser mudadas, coragem para mudar as que devem ser mudadas e sabedoria para distinguir umas das outras.

 

 João Madureira

 

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Segunda-feira, 6 de Março de 2017

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331 - Pérolas e diamantes: Conluio de malvados

 

 

Começo a ficar um pouco farto daquelas pessoas que se vangloriam de fazerem as coisas bem. Sempre com um dedo apontado ao céu e outro ao seu próprio umbigo. Concordo com a sua trupe de bajuladores. De facto eles fazem muito bem todas as coisas sem importância.

 

Vivemos numa fase atípica da nossa democracia. Provavelmente perigosa. Temos liberdade, mais de quarenta anos dela. Continuamos a dizer aquilo que queremos. Mas eles, os que mandam, fazem invariavelmente o que planeiam. 

 

No fundo devemos tentar encontrar o nosso ponto de gravidade. Devemos insistir na procura da coragem, da força e da determinação. Não nos devemos limitar a fazer lixo. As nossas vidas são tão insignificantes. Até os nossos inimigos são insignificantes. Nem sequer vale a pena desperdiçar as nossas forças com eles. 

 

Eu procuro ir de encontro às palavras para inventar a realidade. Se formos bons, as histórias narram-se sozinhas. A nós cabe-nos repeti-las e transmiti-las. Temos de tentar fazer ver o mundo para além das nossas convicções.

 

Tento afastar a fadiga e reaprender a humildade de quem sabe saber pouco.

 

Aprendi com Cervantes que o sorriso e a ironia nascem do desencanto e da consciência de tudo aquilo que é trágico. É através da desilusão que se chega à fraternidade e ao amor. Tal como Dostoiévski, acredito que o Dom Quixote basta para justificar a Humanidade.

 

Deus nos livre de todos aqueles que – e cito Aristóteles – se apressam a executar uma ordem antes de ouvi-la por inteiro, pois assim só podem errar.

 

Por vezes chego a pensar – e a sentir, valha-me Deus – que não existe cidade à qual voltaríamos de tão bom grado as costas, quando nela habitamos, como Chaves. Mas também não existe nenhuma outra à qual se deseja tanto voltar, mal a deixamos.

 

É uma maldição esta contínua oscilação entre a ideia fixa de partir e a mania de voltar, entre a impossibilidade de suportá-la e, ao mesmo tempo, de passar sem ela.

 

Por vezes sinto-me como o judeu descrito por Kafka: “Eu escrevo diversamente do que falo, falo diversamente de como penso, penso diversamente de como devo pensar, e assim por diante até à mais profunda obscuridade.”

 

O grande escritor romeno Norman Manea resumiu de forma magistral o mundo em que vivemos: “No grande mercado livre e carnavalesco do mundo de hoje nada mais parece audível se não for escandaloso, mas nada é suficientemente escandaloso para se tornar memorável.”

 

Acho que foi Kapuscinski quem escreveu que uma árvore encantadora também pode proporcionar um duro bastão para zurzir.

 

Afinal, apenas a cultura permite separarmo-nos das nossas raízes e assumir um comportamento cosmopolita.

 

E não vale a pena pensar que os nefelibatas, os bajuladores e os carreiristas escrevem sem conhecimento de causa, dizendo muitas vezes que não aconteceu nada. Quando isso acontece lembro-me sempre da anedota daquela freira jovem e bonita que quando lhe perguntaram qual a razão de ter sido a única que escapou à violação de um grupo de delinquentes que tinham assaltado o seu convento, respondeu: Não sei… eu só disse «Não».

 

Eu sou um homem com defeitos, não com “defeitozinhos”. Platão ensinou-nos que “lá onde um homem se expõe livremente, nasce espontâneo o conluio dos malvados”.

 

Todos sabemos que um génio pode escrever coisas insignificantes, que não merecem ser lidas, mas se nos informarem que esta página ou aquela obra é de um génio somos forçados a atribuir-lhe significados que na realidade não se encontram lá. E isso não se aplica apenas aos génios, mas a todo aquele que goze de uma certa notoriedade.

 

Mesmo na educação, apenas é eficaz a evidência dos valores, não a sua predicação.

 

João Madureira

 

 

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Segunda-feira, 27 de Fevereiro de 2017

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330 - Pérolas e diamantes: a mão herética do deus António Lobo Antunes

 

Deixem que vos confesse uma coisa: eu aprecio bem mais as entrevistas do que os romances de António Lobo Antunes. Pode parecer uma confissão herética, mas é verdadeira. Ele, na sua imensa modéstia, diz que escreve com a mão de Deus. E que os seus romances (?) são polifónicos. A mim soam-me mais como música estocástica de Iánnis Xenákis. A sua dita polifonia é, por assim dizer, uma dissonância permanente que nos leva quase até ao absurdo e à incompreensão.

 

Talvez por isso, como referiu ao Expresso, não é fácil viver com ele pois parece estar sempre em guerra civil. Não revelou foi contra quem ou a favor de quê.

 

Às vezes pensa, e bem, creio eu, como Verdi, que com os seus 82 anos, quando lhe perguntaram porque não escrevia a sua autobiografia, respondeu: “Já levei 60 anos a maçar as pessoas com a minha música e agora vou maçá-las com a minha escrita?”

 

Além disso considera que todos os livros são autobiográficos. Que vida tão emaranhada deve ter experimentado o senhor. Que coisa sem sentido.

 

Diz que quando escreveu as cartas de guerra à sua namorada “era bonito que se fartava. Agora é um monstro”. Provavelmente, na sua simplicidade introspetiva, um monstro das letras.

 

Conheceu o pugilista Mike Tyson, que considera “inteligente que se farta”, na Public Library de Nova Iorque. O que foi um dos momentos altos da sua vida, pois o nosso eterno candidato ao Nobel é um apaixonado pelo boxe. Quem diria! Até pensou escrever um livro sobre pugilismo.

 

O boxe, para Lobo Antunes, é muito bonito. O seu pai organizava combates entre os seus filhos na casa de banho, com a porta fechada à chave para a mãe não entrar. Eram miúdos.

 

Diz que espera escrever apenas mais dois livros e acabou-se, pois tem “medo de escrever porcarias...  De não ter sentido crítico, pois os escritores que vivem muito tempo começam a fazer porcarias e não percebem”. O que não é, definitivamente, o seu caso. Nem pouco mais ou menos.

 

O nosso estimado romancista foi muito precoce. Segundo diz, e segundo a sua mãe contava, aos dois anos já falava espanhol. Aos 13 anos o seu pai deu-lhe uma segunda edição de “Mort a Crédit”, de Céline, e ficou deslumbrado.

 

Quando o filho disse ao pai que queria ser escritor, ele logo o avisou: “Isso não é boa ideia, estuda, namora. Porque se fores escritor não podes fazer mais nada.”

 

O António não queria ser António, que era o nome do avô, mas sim Sérgio. Ele até gostava muito do avô, mas embirrava com o nome. O avô levava-o aos museus a Itália e dava-lhe “explicações enormíssimas em frente de cada quadro. Depois havia os escarradores.” Ele “só gostava dos escarradores. Queria lá saber dos quadros! Velasquez? Meninas? Queria lá saber”.

 

Diz que acredita em Deus, mas que está sempre zangado com ele. O que não admira, pois continua a estar zangado com o falecido José Saramago. Nunca teve nada contra ele, diz ele. Mas o Saramago tinha-lhe “um pó, uma inveja”. Nunca percebeu porquê.

 

Ele, o Saramago, na opinião do António, “achava-se mesmo um grande escritor”. Ele, o António, que gostaria de se chamar Sérgio, “sempre achou aquilo (os livros do José, especialmente o “Memorial de Convento”) “uma merda”. O Saramago, além de escritor de merda, na opinião do António, possuiu sempre o defeito de ter “mulheres de direita, enquanto se afirmava comunista”. E cita Juan Marsé para arrasar Saramago: “Non es un escritor es um predicador.”

 

Os bons escritores, diz o António, devem ser humildes.

 

Por isso é que Lobo Antunes chegou a fazer um teste de QI e descobriu que tinha 187.

 

A sua mãe costumava dizer: “Não há nada mais estúpido do que um homem inteligente”. Na opinião do seu filho tem toda a razão.

 

Terminamos com um seu desabafo: “A quantidade de coisas estúpidas que fiz ao longo da vida…”

 

João Madureira

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Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2017

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329 - Pérolas e diamantes: Donald Trump é kitsch

 

Oiço Marine Le Pen falar e tenho uma sensação de déjà vu. A senhora, dizem, é de extrema-direita. É contra o euro, a união europeia e a NATO. Exatamente o mesmo discurso do PCP e do BE em Portugal que, dizem, é a extrema-esquerda portuguesa, partindo do princípio, claro está, de que o PS é a esquerda, ou é de esquerda, ou é socialista, já que partido é-o de facto, com as vantagens que todos lhe reconhecemos, sobretudo para os seus dirigentes e apaniguados

 

Ao que tudo indica estão-se a trocar os nomes e os níveis semânticos mais populares da política. A esquerda parece uma nova direita e a direita encaminha-se, já não para o centro, mas diretamente para a esquerda. Talvez tenha sido por isso que, nos EUA, Donald Trump conquistou os votos dos operários da indústria do rust belt (cintura da ferrugem). Também ele é contra a NATO, a União Europeia e o euro. Ou seja, defende os mesmos princípios teóricos de Jerónimo de Sousa, Catarina Martins, Marine Le Pen e de Nigel Farage.

 

Em França, o direitista Fillon, foi apanhado por, enquanto deputado, ter criado um emprego fictício para a mulher, Penelope Fillon, e para dois dos filhos, o que lhes permitiu receber centenas de milhares de euros de fundos parlamentares. O centrista Emmanuel Macron foi quem mais beneficiou com a escandaleira. Dizem as sondagens que pode ser ele o próximo presidente francês, isto se a putativa “frente republicana” se unir contra a extrema-direita de Le Pen.

 

Numa coisa Emmanuel tem razão: “Alguns políticos fingem falar em nome do povo, mas são apenas ventríloquos.”

 

Também Angela Merkel se vê atrapalhada nas sondagens, já que pela primeira vez uma delas colocou a chanceler alemã atrás do social-democrata Martin Schulz. 

 

É tudo uma questão de imparidades. Por causa delas, os bancos registam todos os anos centenas de milhões de euros de perdas em créditos concedidos. Assumem agora que essas dívidas são incobráveis. A destruição de valor é gigantesca. Desde 2008, ultrapassa os 40 mil milhões de euros. Uns não pagam porque foram à falência, outros safam-se porque as garantias que deram não são executáveis. 

 

Joe Berardo, esse génio dos negócios e altruísta da arte, por exemplo, pediu mil milhões de euros à Caixa, ao BES e ao BCP para comprar ações. Deu na altura como garantia outras ações que valiam, dizem os analistas financeiros, cerca de 5 euros. A dívida de milhões da Ongoing aos bancos já citados foi dada também como praticamente perdida. A Lone Star, candidata à compra do Novo Banco, também já veio dizer que o crédito concedido ao construtor civil José Guilherme (o tal senhor que ofereceu um presente de 14 milhões de euros a Ricardo Salgado) está perdido.

 

Como se isto fosse pouco caiu-nos em cima a eleição do inenarrável Trump. O escritor Paul Auster considera que, por causa disso, o futuro da América está em risco. E põe o dedo na ferida: “Apesar das belezas da Constituição Americana, os EUA é um país fundado em dois enormes crimes: o genocídio dos indígenas e a escravatura durante 350 anos. É obsceno!”

 

No seu país, diz Auster, “ninguém quer saber de intelectuais ou escritores. As únicas figuras públicas que as pessoas gostam de ouvir são os atores de cinema”, e, digo eu, os demagogos do kitsch.

 

Eu explico. Kitsch, é uma espécie de ideia artística que envolve a falsificação da verdadeira arte, ou, então, o seu rebaixamento sensacionalista. Pretende tornar aceitável tudo aquilo que, na existência humana, é intolerável e se esconde atrás de uma fachada de sentimentalismo barato, beleza enganadora e virtude aparente.

 

Kitsch, defende Javier Cercas, “é uma mentira narcisista que esconde a verdade do horror e da morte”. Da mesma forma que “o kitsch estético é uma mentira estética – uma arte que, na realidade, é uma arte falsa –, o kitsch histórico é uma mentira histórica – uma história que, na realidade, é uma falsa história.”

 

Trump pertence ao kitsch político, porque é um embuste político, uma realidade adulterada e fabricada, uma mentira estética, uma história falsa.

 

Tudo isso é Trump. Donald Trump é tudo isso e, se calhar, até é um pouco mais.

 

PS - Peço que, se vos for possível, me desculpem estes apartes aparentemente insubstanciais. Mas eu não me pretendo esconder atrás dessa perspetiva cobardolas de não escrever o que me sai da alma, para, em troca, escrevinhar aquilo que acham que devo escrever para agradar aos críticos, aos falsos amigos e aos néscios oficiosos.

 

João Madureira

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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