Terça-feira, 27 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. RAMOS.

 

Nessa noite, não foram logo dormir. Bobadela, o caseiro, havia sugerido que todos fossem assistir a um auto que se levava ao Largo da Igreja, antiga tradição nos festejos de Natal, em algumas aldeias de Monforte – “Os Ramos”.

 

Todos acharam muito interessante a encenação desse auto, um costume passado de geração a geração, ainda que os Bernardes ficassem pouco tempo a presenciá-lo. É que os espetadores assistiam a tudo em pé e João Reis logo percebeu que aquele teatro de Natal ia durar por toda a madrugada.

 

A encenação desses Autos abrangia toda a vida de Cristo, como foi muito bem descrita por Heitor Moraes da Silva, em “Autos do Natal em casas de Monforte”. Como João Reis supunha, começava depois da Missa do Galo e durava a madrugada inteira. Aos aldeães, em todos os dezembros, gostava muito assistirem, com devoção, a mais uma repre-sentação dos Ramos, como se as máximas e conselhos do texto fossem a palavra de Deus. Alguns até já sabiam de cor várias passagens.

 

A apresentação dos Ramos compunha-se, não só de um, mas de 17 pequenos autos, com cerca de 100 personagens ao todo e um natural revezamento de atores. Estes, malgrado o seu total amadorismo, desempenhavam seus papéis com muita seriedade e fé religiosa. Suas vestes eram feitas por eles mesmos ou alugadas na cidade e os aldeães começavam os preparativos vários meses antes. Após o duro trabalho na eira e no lar, dedicavam suas noites de outono a copiar os diversos papéis, escrevendo, com sua pouca formação escolar, ao modo como se falava na aldeia. Os que não sabiam ler (e eram quase todos) aprendiam de ouvido, pela repetição dos letrados. Os ensaios limitavam-se a cada um dizer sua parte decorada, ajudado pelo “apontador”. O resto era o que viesse de inspiração à hora, de acordo com o maior ou menor desembaraço de cada um.

 

O primeiro auto era o “Auto da Criação”, em que o Anjo assim dizia, em determinado momento – “A Santíssima Trindade / ave eterna incriada / determinou fazer tudo/ e tudo fazer do nada.” – E sobre o fruto proibido: “Porque se nela tocardes / pra vós será coisa dura / Adão irá desterrado / E Eva pra sepultura”. Mais adiante, Adão falava para Eva – “Olha-me para estas barbas / que mas deu a Providência / elas por si só requerem / respeito e obediência”. (…) “Depois de seres mulher / ninguém o pode duvidar / que com tuas astúcias / a qualquera podes enganar.” Expulsos do Paraíso, os dois se queixavam da aspereza da terra – “Pois ainda trabalhando-a / fica ela de tal casta / cria ervas como mãe / e silvas como madrasta”.

 

Seguia-se o “O sacrifício de Abel e Caim”, em que este último, desesperado, já em seus momentos de agonia, ouve o Demónio antecipar o que é o Inferno que o espera – “(…) É uma casa / de portas encantadas / para entrar estão abertas / e pra sair estão fechadas. / Reparai bem, pecador / isto é bem mais do que assim / se quereis salvar-vos / não vos finteis em mim.”

 

No terceiro, o “Auto dos Desposórios de Nossa Senhora”, Maria diz ao Anjo – “Se é vontade do Altíssimo / o que voz me mandais / estou pronta a obedecer / ao que me detremenaes.”

 

No “Auto da Anunciação”, percebe-se um latim estropiado ao longo dos anos: “Ave-maria / graça plena / Domenestéco / benedita tu és / entre mulierevos”...

 

No “Auto da Visitação”, José e Maria procuram um abrigo e todos lhe negam – “Marchai-vos braigeiros / não estou para treta / se quereis pousada / ide à estalaige da preta.” E a preta despacha-os, sem papas na língua – ”Se vosa trazer dinheiro / mim dar a vosa o que comer / que mim não ter nada pra dar / ser tudo para vender.” Lá pelas tantas, um pastor oferece vinho a uma camponesa – “Queres uma pinga de vinho / que levo nesta cabaça?” – e ela – “Ora o vinho é coisa santa / hei-de meter muita graça” – ao que, o pastor – “Toma lá, mas tem cuidado / que senão não atinais / que os homens embebedam-se / e as mulheres inda mais”.

 

Nessa mesma noite, havia também o “Auto das Charoleiras”, em que as donzelas entram no palco portando charolas, espécie de andor com imagens religiosas e as “Pastoradas”, que era a parte cómica. Em outros tempos, quando os autos de Ramos eram apresentados dentro da igreja, as Pastoradas representavam a ”parte de fora”, evidentemente profana. Um dos quadros mais divertidos era o dos pastores galegos, a falar e a cantar em sua língua. Toda a comicidade das Pastoradas, porém, apesar de alguns ditos picantes de ingénua malícia, obedecia a uma linha equilibrada de recato primitivo e comedimento aldeão.

 

À altura da passagem do ano, com a Festa dos Moços, os Bernardes viram-se diante de um facto inesperado, que iria perturbar, por algum tempo, a vida do clã e de toda a aldeia.

 

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Terça-feira, 20 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. NATAL EM MONFORTE.

 

Nevava lá fora, em Sant’Aninha de Monforte. Para quem olhasse do alto da torre da igreja, as pessoas a caminho da Missa do Galo, entre as quais, todas as do clã dos Bernardes, pareciam manchas negras a se moverem sobre a neve. Chegara o dia em que se comemora o aniversário mais festejado, na maior parte do mundo: o nascimento do Menino Deus. Papá dissera que lá em baixo, em Chaves, seria esse um dos mais tristes dezembros, pois até o Pai Natal estava com medo de descer pela chaminé e se deparar com a Pneumónica. Alguns riram e Papá ralhou, dizendo que não tivera a menor intenção de fazer graça, ainda mais a se valer, como remoque, dos tão dolorosos factos que estavam a vivenciar.

 

Já que o grande presépio franciscano da família havia ficado na quinta do Raio X, Florinda e as filhas improvisaram, ao pé do pinheirinho, um arranjo de figuras meio toscas, de papier-maché, uma arte feita com cola e jornais molhados, que Mamã aprendera com as freiras do Colégio Santo António, em Belém do Pará. No conjunto de tão singela arquitetura, compensava-se a falta do original com o lago representado por um caco de espelho entre pedrinhas, o poço de madeirinhas feito por Afonso, com um dedal a servir de balde, e o jardim com musgos verdes e flores de papel encarnado. Nos pequenos caminhos, feitos de serragem tingida com água e papel acastanhado, punham-se alguns pequenos biscuits que, desbeiçados, ou com algumas partes a reajustar, haviam sido encontrados por cá e acolá, nos quinteiros de Sant’Aninha e arredores.

 

À ceia da consoada, Papá e Mamã ergueram-se, junto com os mais, inclusive os caseiros, os filhos destes e as criadas (sentados também à mesa, como era costume, em tais ocasiões) e se uniram em oração por todos os que ali se achavam. Rezaram também por sua Aurélia, pelos demais parentes e amigos que estavam enfermos em Chaves (com certo alguém incluído, de modo silente, nas preces de Aurora) e pelos que, como a querida tia Hortênsia, não foram nem de leve atingidos pelos dardos da cruel Pneumónica (e suplicavam que, por certo, jamais viessem a sê-lo). Amém! Por fim, todos pediram misericórdia e descanso eterno aos mortos. Concluiu Florinda, em voz alta – E Deus nos livre das más horas e do mau tempo!

 

Solene, o patriarca partiu o pão com as mãos e deu uma generosa côdea a cada um dos comensais que, entre goles de jeropiga (ou leve sangria, para os não adultos), entremeavam as migalhas às iscas de bacalhau e aos ovos com vagens de ervilhas. Depois, foi a vez do mesmo bacalhau vir à mesa assado na brasa, com montanhas de batatas, repolhos, grelos, couves-galegas, muito azeite e o que de mais e melhor houvesse na dispensa. A seguir, vieram as sobremesas. Arroz doce, sonhos, aletria, filhoses de abóbora e fatias paridas. Ainda iriam todos, mais tarde, atirar-se às avelãs, nozes e amêndoas, bem como às castanhas e pinhões. Os dois últimos eram acondicionados em assadores que pendiam das cremalheiras, a se abrasarem ao lume vivo, onde ardiam toros de carvalho.

 

Ao final da consoada, era a hora de pedir as bênçãos, como rezava a tradição. Aurita, como fosse a mais velha, chegou até ao pai e falou, com uma solenidade que não era comum nos outros dias – Deite-me sua bênção, meu pai! – Deus te abençoe, minha filha! – e, para a boa Florinda – Deite-me sua bênção, minha mãe! – Deus te abençoe, filha querida! – seguindo-se um por um dos filhos, a fazer o mesmo, em ordem decrescente de idade, até à mais nova, a pequena Arminda.

 

Antes de deixarem a mesa, fizeram-se de novo as orações, dando graças a Deus por mais esse Natal.

 

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Terça-feira, 13 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ARMISTÍCIO.

 

Ao frio novembro de 1918, uma nova alegria veio a todos aquecer. Embora com alguns dias de atraso, chegou a Sant’Aninha de Monforte uma auspiciosa notícia: a Guerra acabou! Os alemães reconheceram-se derrotados e assinaram o armistício no dia 11 daquele mês, pondo termo, assim, à chamada Grande Guerra.

 

Alfredo, que andava lá pela pracinha, correu a dar a notíciaaos seus. Logo Aldenora, estripando alguns xailes, improvisou fitas verdes e encarnadas. Foram todos ao centro da aldeia, com as cores da bandeira pátria, a gritarem vivas e loas ao querido Portugal. Todos os aldeães estavam a correr alegremente ao Largo da Igreja, a levar farnéis de pães, queijos e vinho, muito vinho. Acendiam-se fogueiras para assar castanhas. O rancho de danças e cantorias da aldeia já estava a se formar, com suas roupas típicas de domingo e os músicos a preparar suas gaitas, harmónios, guitarras e violas braguesas, para a gentinha dançar.

 

Festejava-se o fim da grande asneira político-económica das grandes potências da época, na qual, só na Batalha de La Lys, em abril desse mesmo ano, foi-se quase a metade dos cerca de 9.000 soldados portugueses que, em África e na França, perderam suas vidas, nas mais indignas condições. A própria Sant’Aninha enviara à morte, na África, dois de seus mais robustos rapazes.

 

A verdade da História é que vários países e milhares de vidas se envolveram, durante quatro anos, em uma lastimável carnificina, sem justificativa alguma que a validasse, realmente. Seus mais dolorosos registos eram as cartas em que os soldados contavam, aos seus entes queridos, os horrores e a tortura mental que era viver ou morrer em uma trincheira. Mais morrer do que viver, a julgar pelas estatísticas dos milhares de civis e militares que perderam a vida em vão, por uma guerra vã, como em tantas outras contendas vãs e inúteis que soem ser, afinal, todas as guerras.

 

Em suma: tudo vão.

 

A Alemanha, diante da Tríplice Entente, rendera-se afinal à França, à Inglaterra e aos Estados Unidos (a Rússia, após a Revolução Bolchevique de 1917, já havia saído de cena do trágico teatro bélico) e também, certamente, a outros aliados de menor participação, mas de grande mérito e valor. Antes do conflito, Portugal já estivera a lutar contra os alemães, em uma guerra não declarada, na defesa de suas colónias. Acabara por aderir, formalmente, a essa luta. O povo português sentia-se, agora, também um vencedor.

 

Enfim, terminara. Era tempo de festejar a paz e glorificar, tanto os valorosos mortos, quanto os heroicos sobreviventes. De ambos os tipos de bravos, havia soldados de Chaves e de várias aldeias trasmontanas, a serem glorificados no panteão dos heróis. Não fossem por seus dois eméritos rapazes, as agruras bélicas nunca teriam chegado inteiramente a Sant’Aninha de Monforte, uma aldeia esquecida por trás dos montes, mas todos agora celebravam o fim daquela insensata peleja mundial que, ingenuamente, declarava-se “uma guerra para acabar com todas as guerras”.

 

Não apenas falhou em ser a última de todas, como veio a se tornar o tubo de ensaio para outra, mais global e tão ou mais terrível e genocida, a segunda grande guerra do século XX. Esta seria fruto dos delírios de um anticristo, de estranhos bigodinhos à la Charlot (Charles Chaplin, até então, era a mais proeminente estrela de cinema, em Hollywood). Essa besta-fera germânica já estava a entronizar, na derrotada e combalida Alemanha pós “Grande Guerra”, suas garras de Leviatã. Com o seu famoso livro “Mein Kampf” (1924) e o carisma de excelente orador, iria influenciar e obter o apoio crescente da maioria de cidadãos da Alemanha, cegos, surdos e emudecidos pelo fascismo, putrefaciente mancha moral e desumana, que começava a se estender sobre uma considerável fração do mapa da Europa.

 

Seu fanatismo exacerbado iria aprofundar as bases da ideologia Nazi. Eivada de intolerância e fobias, como a eugenia, o racismo, a supremacia ariana e o antissemitismo, culminaria com a perseguição e condução em massa a campos de concentração, onde iriam consumar-se a tortura e morte de cerca de onze milhões de pessoas, no chamado Holocausto, dentre judeus (as vítimas mais numerosas), ciganos, comunistas, Testemunhas de Jeová, homossexuais e deficientes físicos e mentais. Além desses massacres, iriam fazer-se experiências científicas dolorosas e fatais com seres vivos, que tinham prisioneiros como cobaias humanas.

 

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Terça-feira, 6 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. PROMANAS & PRASNICOS.

 

A promana é um banquete onde se providenciam flores, frutas e a iguaria preferida do morto cigano. Dispõe-se à mesa um lugar com o prato, copo, talheres, comida e bebida para o falecido e tudo isso que lhe foi reservado permanece, evidentemente, intocado. Acende-se uma vela diante do retrato do ente querido e, ao lado deste, deixa-se uma garrafa de vinho fechada. O mais do ágape é servido a todos os circunstantes. Finda a cerimónia, toda essa parte dedicada ao morto é jogada fora.

 

Papá prosseguiu – Pois é, ela vem a ser mãe do gajo... aquele tipo... tu bem sabes a quem estou a me referir. Ele também já foi contaminado pela maldita… – palavra que fez Aurora tremer, da cabeça aos pés – É, dizem que o rapazito anda muito mal, lá na Santa Casa de Misericórdia, pois a maldita que lhe levou a avó também o soube pegar de jeito. É um moço forte, mas já está quase a deitar fora os pulmões. Sabe-se lá se escapa. A pobre mãe se desespera… A essa altura, deve estar a fazer aquela tal de prasnico, para o filho não morrer.

 

Consiste a prasnico em oferendas ao santo de cada dia do calendário votivo. Lamentava-se Mariazita, certamente, de ficarem esses ritos incompletos, pois deveriam ser parte de um ritual coletivo, mas que, durante a Pneumónica, tornava-se impossível de realizar. Consolava-se a rezar, em seu milenar idioma – Dat amarô cai san andô tchêri. Súnto si tirô anáv. Av aménde ando tirô rhaio. Ai te avêl pô tirô katê pe luma sar ando tchêri … (Pai-nosso que estais no Céu…) ou – Suntô Mariônê, pérdô san andô svêtô ô Del tu sai. Uusí san angla sá e juvliá uusôi ô fruktô kai arakádilas tutar Jesus. Suntô Marionê Del leski dei… (Ave-maria, cheia de Graça, o Senhor é convosco…).

 

Aurita não pôde sufocar o gemido inoportuno que lhe escapou da garganta. – Quem está lá? – perguntou o pai, encaminhando-se até à porta que dava para os dormitórios. Passou ao corredor e abriu um por um dos quartos. Estavam todos a dormir. Ou quase. Aurora, que dividia com as irmãs um cómodo único, fingiu estar nos braços de Morfeu. Em verdade, em verdade vos digo, ela estava mesmo era a morder os lençóis entre os dentes, para não ressoar pelas calmarias da aldeia o seu angustiado pranto. Abraçava o travesseiro, a pensar dolorosamente em seu amado que, na cidade, estava a lutar contra os germes mortais. Pensava, também, muito dorida, no sofrimento daquela pobre mãe cigana.

 

A rapariga não pudera mais escutar a conversa dos pais e, por isso, deixou de saber o quanto eles ainda se preocupavam com ela – Pobre filha, já estive até a lhe dar alguns conselhos. Zefa me disse que ela nunca mais veio a ter nem um segundinho de cavaqueira com aquele rapaz, mas... ai, meu rico, sabes que um coração de mãe não se engana, acho que ela ainda está a pensar no cigano, todos os dias, todas as noites.

 

João Reis ponderou – Se apenas esse mero ato de pensar não privá-la da saúde do corpo e da mente... Mas eu temo é por qualquer outro mal que isso lhe possa causar. O ratinho que está de facto a me roer a cachola é que Aurita... ora, pois, tu bem sabes, Menina Flor, como são as raparigas de hoje em dia. – Como então que não estou cá a saber, meu marido?! Ora pois que elas vivem com o bestunto na lua! – e o patriarca – Daí que estou a achar, e bem achado, que a nossa menina ainda está de coração voltado para os truques de mágica do Camachito. Tens que ser doravante, para com a nossa filha, igual como os crocodilos d’ África: um olho a fingir que dorme e o outro a vigiar em volta. Porque estás a suspirar? – É que sempre me lembro da minha mãe, que já lá se foi: “filhos criados, trabalhos dobrados”. – Mas nossa Aurita ainda não se pôs de todo, ainda está a se criar... – Ora, pois, meu rico maridinho, por isso mesmo. Ainda vamos ter muito trabalho com a nossa menina!

 

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O Homem Sem Memória em livro

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No dia 19 de agosto de 2010, quando as “Crónicas Segundárias” do Luís de Boticas se despediam deste blog, anunciava a entrada de uma nova crónica de autoria de João Madureira, intitulada «O Homem Sem Memória». Dizia então eu na altura: “(…) crónica que acontecerá aqui todos os inícios das quintas-feiras (…) que em jeito de folhetim, caminhará (pela certa) para mais um romance deste autor.” E assim foi, religiosamente até inícios de 2014, todas as quintas-feiras o “Homem Sem Memória”, não se esquecia, e cá estava ele com mais um capítulo do, agora, livro que no passado domingo foi lançado em Montalegre na Feira do Livro a decorrer naquela vila,  e que dia 16 deste mês, será lançado aqui em Chaves, na Biblioteca Municipal.

 

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 João Madureira com Luis Martìnez-Risco da Fundación Vicente Risco e a Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Montalegre

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Lançamento do livro que se iniciou em Montalegre, e muito bem, pois também é em Montalegre que o “Homem Sem Memória” começa a contar as suas memórias e estórias de criança com muitos adultos à mistura,  vividas nessa vila, ainda antes de passar para a cidade e concelho de Chaves, de se tornar homem, de atravessar uma revolução e muita coisa se passar na República Democrática do Norte, muito antes de acabar os seus dias na República Popular do Sul.

 

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Mas tudo isto é ficção ou talvez não, tal como dizia António Aleixo “P`ra a mentira ser segura/e atingir profundidade,/tem de trazer à mistura/ qualquer coisa de verdade.” Ou como se diz na contracapa do livro “É, sem sombra de dúvida, um espaço de ficção onde cada leitor vai por certo encontrar um ou outro momento que por si poderia ter sido vivido”. Pela minha parte, confesso, que revivi muitos desses momentos como se fossem meus e outros, revivi-os porque fui testemunha deles, ou de outros bem parecidos, que muito bem poderiam ser os mesmos. Foi isto, continuo em maré de confissão, que desde início me ligou ao “Homem Sem Memória” e que criava em mim a ansiedade da espera pelo próximo capítulo, que então no blog só acontecia na semana seguinte. É sem qualquer dúvida um livro que fala de nós e que vão gostar de ler ou reler, pensando naqueles que acompanharam as publicações do “Homem sem memoria” blog.

 

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Em imagens ficam alguns momentos do lançamento de “O Homem Sem Memória” em Montalegre, e não esqueça que no próximo dia 16 deste mês de junho, o livro será apresentado na Biblioteca Municipal de Chaves.

 

 

 

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Terça-feira, 30 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. XAILE SUDÁRIO.

 

O que mais preocupava Florinda era ter o seu rico maridinho, a cada quinzena, de descer a Chaves por uns dois ou três dias, uma vez que o patriarca não podia abandonar os seus compromissos financeiros e comerciais ao deus-dará. Afligia-se, a Mamã – Que não m’o leves para sempre, meu Deus! – e só acalmava-se, de facto, quando o senhor João Reis retornava, no velho landó da família. Além dos géneros alimentícios e das coisas e loisas que Florinda e as crianças haviam por bem encomendar e as quais, com a pandemia, tornavam-se cada vez mais difíceis de serem encontradas, Papá trazia sempre as mais quentes notícias de Chaves e do resto do mundo.

 

Foi a um desses retornos de João Reis, que todos se comoveram com as tristes novas sobre a tia Henriqueta e mais algumas pessoas conhecidas, a exemplo de dois irmãos de Rodrigo, sobre os quais a nefasta Pneumónica estendera o seu negro xaile à guisa de sudário. Outro coberto por esse xaile foi Luís Miguel, o belo afilhado de Adelaide, que os poucos a terem visto a açoriana enterrar o rapaz, tinham que conter risinhos internos e nervosos, pois, mesmo com a sinceridade da sua imensa dor, a Dama da Carochinha parecia estar a representar um drama no Teatro Flaviense.

 

Algum tempo depois, a própria viúva contou a Florinda que, já a caminho da aldeia para onde seguiam, Miguel começou a passar mal e ela, mesmo sem nenhuma experiência de conduzir a charrete, teve que trocar de lugar com o moço e tocar os animais na descida para Chaves, uma vez que ninguém, por dinheiro que fosse, queria levá-los de volta à Vila apeçonhada. No dia seguinte, quando já avistavam de novo a Torre de Menagem, o belo rapaz morria-lhe nos braços.

 

Logo João Reis bendizia os vivos – Ainda bem que, por vontade de Deus, a doença não chegou até ao couro de nosso Manuelito, nem ao de nenhum dos seus, não é, ó pá? – e o cocheiro apenas ria, mostrando os dentes estragados – Quanto à nossa Lilinha, esta parece mesmo que se há de salvar, aos cuidados de Deus e da Comadre Hortênsia – pois facto era que, para alegria de todos, Aurélia já estava fora de perigo. Não mais iria entregar- se às cutiladas da Ceifeira, a Indesejada, malquista por todos os que vivem ou sobrevivem, mesmo os enfermos de corpo ou de alma. Sempre muito louçã e imune à peste, também não haveria de ser desta vez que a tia Hortênsia iria deixar, para cultivo dos outros mortais, o seu cantinho de chão dos penitentes.

 

Eram ótimas notícias, mas Aurita queria saber mais, se havia algo a dizer sobre certo alguém, o que a deixava ansiosa e recolhida em si mesma. Mais tarde, quando todos pareciam se deixar ninar pelos sons de silêncio da noite serrana, Aurora escutou Papá dizer à Mamã que, em sã consciência cristã, lamentava-se de uma infeliz omissão – Ora pois, Menina Flor, estás a ver que... ora pois, sei que isso até nem seria recomendável fazer, a esta altura, mas muito me condói não ter podido ir ao enterro da mãe de dona Mariazita Camacho, a senhora cigana que mora em frente. Ainda estou a ouvir a pobre senhora gritar – Ai que se me morre, também, o Hernandito! Já cá me dói, com essa peste maldita, não se poder cantar os taliertôs para invocar os ancestrais! E ai que me dói, mais ainda, não ter feito a promana para a mamacita!

 

 

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Terça-feira, 23 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. DIAS DE PAZ.

 

Apesar de tudo, foram dias felizes para todos, sem uns e outros ao menos se queixarem do tempo, ora fresco, ora mais frio do que se havia de gostar, nem dos ventos que pareciam cortar a face. Os miúdos aproveitavam as poucas horas em que o benfazejo Sol vinha dizer bons-dias e se espalhavam pelos quatro cantos da quinta. Por ali, por acolá, encantavam-se com as árvores, os galhos baixos em que se deixavam ficar, as hortaliças cobertas com toldos negros por causa do frio, os leitõezinhos em seu curral, as vaquinhas leiteiras e seus novilhos no estábulo, os cavalos de carroça a comerem suas rações de feno, todo um universo em sua mais plena quietude.

 

Nesses poucos e preciosos momentos ensolarados, punham-se a brincar, com os filhos do caseiro, o Jogo das Escondidelas. Para sortear quem deveria procurar os demais, valiam-se de versinhos, a um modo ritmado e monossilábico, tocando uma sílaba ao peito de cada um dos brincantes, até finalizar no que seria, então, o escolhido – “Sete e sete são catorze / com mais sete, vinte e um / tenho sete namorados / mas não caso com nenhum!” – e estes – “Menino Jesus / passou por aqui / escolheu-te / a ti! “– ou ainda – “Mariazinha / fez xixi na panelinha / foi dizer à sua vizinha / que era caldo de galinha!” – e outros – “Pim, pom, pum, / cada bala mata um, / dá de comer á galinha / e ao peru / Quem te salva és tu. “ – mais, ainda – “Fui à caixa das bolachas / comi uma, comi duas, / comi muitas, até dez / olha o burro que tu és. “ – ou estes, mais – “O José foi à horta / encontrou uma cabra morta / O José pôs o pé / A cabrinha fez mé, mé.”

 

O que a todos mais atraía, ao termo sul do quinteiro, era um pequeno canastro de uma pedra só, a moldar uma casita com telhado, que mais parecia a escultura de um templo de dois andares, portas e janelas, mas cujas dimensões não iam muito além de um metro e meio. As extremidades da cumeeira eram encimadas por uma cruz e um relógio de sol. Comuns em toda a região, canastros monolíticos como esse vinham de muitos séculos que já lá se foram e era considerado um verdadeiro milagre ainda estarem assim, tão escapadiços das erosões do Tempo.

 

Aurora e Afonso espantavam o tédio a cuidar de uma estufa na qual, outrora, Mamã estivera a tratar de orquídeas que trouxera da Amazónia e, agora, servia para proteger as flores e hortaliças, para as quais fosse hostil o duro inverno. Aldenora havia trazido livros às mancheias, de sorte que, muitas vezes, a viajar pelos países do sonho e da ficção, só voltava para o mundo real à hora das necessidades básicas de todo ser vivente, como o sono, as refeições e os cuidados da higiene.

 

À tardinha, as meninas se pegavam a bordar e tricotar, ao lado de Florinda e a cavaquear sobre os sítios e gentes que lá ficaram, entre a veiga e o Brunheiro. Após a ceia, aquecidos ao pé da lareira, ficavam todos a ouvir as histórias e lendas da região, sobre mouras encantadas, homens que se transformam em lobos, bruxas que voam e outras narrativas fantásticas, contadas por Zefa de Pitões ou Crispina Bobadela, a mulher do caseiro.

 

Ainda estava bem longe a primavera.

 

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Terça-feira, 16 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. SANT’ANINHA DE MONFORTE.

 

Chovia bastante, quando chegaram a Sant’Aninha de Monforte. Com suas ruas estreitas e íngremes, as casas de pedra com varandas de madeiras coloridas, todas as vias conduziam ao Largo da Igreja, ponto de convergência de todos os aldeães, ao centro do qual havia um templo muito simples e antigo, feito de grandes blocos de granito calcário. Nessa pracinha, situava-se também um pequeno mercado, misto de talho e venda de queijos & enchidos, além de uma tendinha para os mantimentos em geral.

 

Por trás da igreja, aglomeravam-se fregueses a uma ta­verna, oculta à visão dos forasteiros, mas sob os olhos se­micerrados e cúmplices do senhor Cura. Ora, pois, que este atacava os ébrios aldeães no sermão, mas ia com frequência a essa tasca, acompanhado da mãe de seus cinco “afilha­dos”, ante os olhos, também semicerrados e cúmplices, dos fiéis borrachos que, certamente, jamais iriam dar queixa ao Bispo. Menos ainda ao Papa. Sem batina, disfarçado, com um chapéu braguês a lhe cair sobre a testa e a se fingir de surdo e mudo, sua “comadre” servia-lhe de intérprete – Que queres, meu bom senhor? Ai, jesus, o pobre mudinho está a dizer que quer uma bagaceira das boas e uns nacos de pre­sunto – e lá comparecia o aldeão “incógnito” ao balcão do taverneiro, ávido de molhar a garganta com uma aguardente das boas.

 

Acomodados na quinta, logo Zefa, ao feitio dos lares da região, que, habitualmente, assim o faziam para que o Dianho não passasse pelas portas e gritasse, visando algum morador, ainda viçoso ou moribundo – Ó de casa, junta as pernas e os socos, que eu vim te buscar – pintou todas as janelas de cruzes encarnadas e “sinos-saimão” pretos. Sua esperança era de que, ao seu modo e jeito, conseguisse en­ganar os diabinhos da Gripe. Escorava-se na fé de que todo cristão, com o Signo de Salomão em volta, jamais correria perigo. Enquanto isso, os mais com seus rosários de credos, ave-marias, padres-nossos e salve-rainhas, rezavam ao bom Deus e à Virgem Santíssima para que a terrível dama, alcu­nhada de Espanhola, com seus funestos leques, olés e sala­maleques, não lhes levasse a Lilinha para bater matracas, ao invés de castanholas. Rogavam também que, por aquelas serras e cercanias, se por acaso a maldita viesse cortar ca­minho pela aldeia, não lhe agradasse o cheiro das rosas e bogaris dos jardins e andasse para longe de Sant’Aninha, sem lhes bater à porta.

 

Essa outra quinta dos Bernardes, aonde eles iam algu­mas vezes para aproveitar o ameno verão da serra, ficava um pouco antes do casario da aldeia. Era quase toda de pedra, muito rústica, poucos cómodos, mas sua fachada frontal, com balcões de madeira cheios de desenhos geometrica­mente esculpidos, até que havia de ter lá os seus encantos. Também era mui encantador o jardim, sempre bem cuidado e onde, a essa altura, só floriam amores-perfeitos, como nos canteiros da Grão Pará. Na estação primaveril, todavia, era um ror de cravos, rosas e quantas flores mais se pusessem a abrir. Aos fundos, estendia-se um quinteiro com alguns bovinos, caprinos e ovinos, além das aves e cães domésticos. Lá estavam também a indispensável horta e, ainda mais atraente de se ver, o pomar com as pereiras, macieiras, cerejeiras, figueiras e o que mais houvesse de frutíferas árvores.

 

As condições de conforto, porém, não eram as mesmas do Raio X. Não havia luz elétrica na aldeia e a iluminação noturna provinha dos lampiões de zinco e dos candeeiros a petróleo. Embora aquecido pelo braseiro, o interior era muito frio, mesmo na primavera. A latrina era um bloco monolítico, onde se fizera um buraco, a dar direto para a fossa. As abluções eram feitas em bacias de louça, dispostas em artefactos de ferro, com um cabide ao lado para pendurar as toalhas e, em baixo, um cântaro, de material esmaltado, o mesmo de que eram feitos os recipientes usados para os asseios gerais e a higiene íntima. A água para tais necessidades era aquecida ao lume do fogão ou da lareira. Para os banhos completos, poucas vezes tomados nas estações frias, ou seja, na maior parte do ano, Papá mandara fazer uma tubulação especial, que levava para o chuveiro a água proveniente de uma espécie de reservatório de pedra, junto ao braseiro, o que deixava o líquido devidamente amornado.

 

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Terça-feira, 9 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. GRIPE PORTUGUESA.

 

Em Portugal, também verificou-se uma taxa elevadís­sima de mortalidade, com duas ondas epidémicas, sendo a mais letal entre os meses de agosto de 1918 e fevereiro de 1919. Atingia, sobretudo, as pessoas entre os 20 e os 40 anos, tendo causado cerca de 120.000 mortos no território continental. Sem saberem ao certo que medidas terapêuticas tomar, para evitar o contágio ou curar os doentes, os médi­cos aconselhavam apenas que se evitassem aglomerações. O pior é que o terrível mal fazia também adoecer (e falecer), por todo o território português, numerosos esculápios e pro­fissionais de enfermagem.

 

Em quase toda a região de Trás-os-Montes, as milícias do germe causaram muitas mortes. As vilas e aldeias da re­gião, mesmo isoladas, não podiam evitar que transitassem por elas os vetores humanos vindos da Espanha e de outras regiões da Europa. Uma Vila de Chaves diferente, portanto, era a que tentava, agora, sobreviver. Estima-se que a vila tenha sido vitimada em cerca de 40% da população.

 

Aos primeiros rumores da influenza global, alguns abas­tados como João Reis providenciaram todos os mantimen­tos necessários, para que se refugiassem por um bom tempo com suas famílias em aldeias serranas, plenos da esperança de que, nessa forma de quarentena, o mal por ali não os al­cançasse. A maldita, no entanto, em sua lotaria, já escolhera a menina Aurélia, deixando a todos na mais profunda cons­ternação. Logo tiveram que a isolar, mas felizmente foram acudidos pela bondosa comadre Hortênsia, que já levara por esses tempos ao Campo Santo o marido e uma das filhas. Porque olhasse “mais ao Céu do que a este chão de penitên­cia”, como aquela boa senhora se referia a “este mundo vão”, não tinha medo algum de cair nas garras da funesta dama da Grande Foice.

 

João Reis, confiante de que a boa comadre cuidaria bem da Lilinha, certificou-se de que todos os outros da casa estivessem perfeitamente sãos e pediu a Manuel de Fiães que preparasse bem os cavalos e o velho landó. De pronto já estava a levar Florinda e os outros filhos até à quinta de Sant’Aninha de Monforte, na Serra de Maios. No caminho, cruzaram com Adelaide, que também se evadia da vila, jun­to com o seu belo e fiel “afilhado”. Naqueles dias, porém, nem mesmo o gajo mais estúpido se punha a rir, à passagem da Carochinha. Até o mais simples sorriso de escárnio ou de alegria se ausentara dos lábios flavienses.

 

Ao subir à serra, Florinda esteve, em boa parte do trajeto, a pedir aos filhos que tapassem os olhos. Em vão. Ninguém conseguia deixar de os dirigir, horrorizados, para os tantos mortos que eram levados em rústicos caixões, os miúdos em caixotes, todos de confeção ordinária, ou até mesmo em simples macas improvisadas, feitas com lençóis e cobertores remendados. Os mesmos panos em que os moribundos ha­viam acabado de se entregar ao sono derradeiro.

 

 

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Terça-feira, 2 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. GRIPE ESPANHOLA.

 

Milhões de europeus e, logo então, povos do mundo in­teiro, falidos, esfomeados, enfraquecidos, sem carvão ou eletricidade para aquecer os cómodos das habitações, torna­ram-se cobaias para a grande experiência dos deuses, eter­namente insatisfeitos com a Humanidade que os criou.

 

Depois da guerra e da fome, mais um cavaleiro do Ómega se pôs a cavalgar, do Báltico ao Mediterrâneo, a espalhar uma peste que chamavam erroneamente de “espanhola”, mas era mais apropriado nomear de Pneumónica. O germe terrível, de grande poder patogénico, como um general de grandes táticas e espertíssimas estratégias, multiplicou-se pelos infelizes hospedeiros e disseminou sua influenza por todo o continente, como lavas de um vulcão a cuspir febre, tosse e catarro. A se aproveitar dos fracassos e impotências de grande parte da comunidade europeia, recém-saída do sanguinolento fratricídio, pôs-se a acabar o serviço que as contendas bélicas começaram e entregou à Grande Ceifeira mais alguns milhões de vidas. Sedenta de cadáveres, não se contentou em gerar uma simples onda epidémica. O mal acabou por se espraiar, como a mais destrutiva pandemia da História, pelos mares – já agora bastante navegados – da América, África, Ásia e Oceânia.

 

Não se conhece, com exatidão, a origem dessa pande­mia (1918-1919). Na verdade, os primeiros casos notificados ocorreram em abril de 1918, entre as tropas francesas, britâ­nicas e americanas estacionadas em portos de embarque da França. Em maio chegou à Espanha. Foi designada de “gripe espanhola”, porque as primeiras notícias mundiais, sobre os acometidos por esse tipo de peste, vieram do país ibérico, o qual não participara da Guerra, mas estava a contabili­zar um número alarmante de civis que adoeciam e morriam com os sintomas da Pneumónica.

 

As dores de cabeça, a febre e a falta de ar eram muito gra­ves e, em poucos dias, o doente morria incapaz de respirar, com os pulmões cheios de líquido, como assim descreveu um médico norte-americano: A doença começa como o tipo comum de gripe, mas os doentes desenvolvem rapidamente o tipo mais viscoso de pneumonia jamais visto. Duas horas após darem entrada no hospital, têm manchas castanho­-avermelhadas nas maçãs do rosto e, algumas horas mais tarde, pode-se perceber a cianose a se estender por toda a face, a partir das orelhas, até que se torna difícil distinguir o homem negro do branco. A morte chega em poucas horas e acontece simplesmente como uma falta de ar, até que mor­rem sufocados. (…) Ver esses pobres diabos sendo abatidos como moscas, deixa qualquer um exasperado”.

 

Causada por uma virulência incomum e frequentemente mortal de uma estirpe do vírus Influenza A, subtipo H1N1, tornou enfermos cerca de um bilhão de pessoas, metade da população do mundo na época. Cerca de vinte a quarenta milhões não resistiram, tornando-se uma das mais impres­sionantes estatísticas de óbito da História. Tão somente na Índia, em apenas alguns meses, ao último trimestre do ano de 1918, foram mais de doze milhões de mortes.

 

Tinha-se medo de sair às ruas. Estabelecimentos como bancos, casas comerciais, repartições públicas, teatros, ba­res, cinematógrafos e tantos outros fechavam as portas, por falta de clientes e de funcionários. As pessoas do povo fica­vam a recomendar pitadas de tabaco e queima de alfazema ou incenso, para evitar a contaminação e desinfetar o ar. Até o sal de quinino, remédio usado no tratamento da maleita, passou a ter uso generalizado, mesmo sem qualquer com­provação científica de sua eficácia contra o vírus letal.

 

Nenhuma das calamidades recentes chegara aos pés da moléstia reinante e, quanto mais avançava a pandemia, insta­lava-se um pânico geral, pois, como disse à época, no Brasil, o historiador Pedro Nava: “Aterrava a velocidade do contá­gio e o número de pessoas que estavam sendo acometidas”. (...) “O terrível não era o número de casualidades, mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse ao cemité­rio, quem abrisse covas e enterrasse os mortos. O espantoso já não era a quantidade de doentes, mas o facto de estarem quase todos doentes, a impossibilidade de ajudar, tratar, transportar comida, vender gêneros, aviar receitas, exer­cer, em suma, os misteres indispensáveis à vida coletiva”.

 

As pessoas imunes eram vistas como se fossem um mi­lagre divino. Ao mesmo tempo, a todos os dominados pela fé inabalável na Virgem Maria (e que eram, então, a maio­ria em Portugal), mas desprovidos de certos conhecimentos científicos, já existentes àquela altura, parecia que vinham a se cumprir as profecias de Fátima e, portanto, já estar a chegar o Apocalipse...

 

 

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Terça-feira, 25 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. GRANDE GUERRA.

 

O mundo todo acompanhava, estarrecido, a guerra que as elites carniceiras da Europa fizeram eclodir, dos anos 14 a 18 do século XX, em talhos onde se expunham cadáveres esquartejados e os soldados, nas trincheiras, grande parte dos quais advindos como voluntários, viam-se diante de ini­migos que, em igual condição à deles, também estavam à mercê da chuva, do frio, dos lamaçais e, com mais cons­tância, dos piolhos, ratos e carraças. Acabavam quase todos vitimados pelas balas ou gases venenosos, por enfermidades como o tifo e a febre quintã ou, pior ainda, pelas septicemias oriundas de ferimentos mal cuidados, ante a falta de cer­tos procedimentos sanitários e de medicamentos ainda não existentes, como antibióticos, vacinas e outros mais.

 

O maior legado que os marechais dessa guerra deixaram à Europa, após ficarem brincando, insanos e entediados, com os jogos de matar soldadinhos, não de chumbo, mas de carne e osso, foi mergulhar o continente em uma trípli­ce aliança, a dos três efes: fome, fraqueza, falência. A indi­gência aumentara, na maior parte dos países, com a falta de recursos médicos e de géneros alimentícios que pudessem servir de trincheiras ou fortalezas inacessíveis a outros em­bates, bem diversos e mais genocidas e que, tal como aquela guerra, seriam travados contra as forças de Tânatos, o deus da Morte.

 

Nessa batalha, que logo estaria a se anunciar, por toda parte, como guerra não declarada, até mesmo os arquidu­ques Ferdinandos d’Áustria-Hungria estariam à mercê de serem abatidos, não por estudantes bósnios de nome Gavrilo Princip, mas por batalhões de germes mortíferos, criados pela Natureza, nos seus imprevisíveis desígnios de ora mãe, ora madrasta.

 

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Terça-feira, 18 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. DESENCANTOS.

 

Novas esperanças teve Aurora de rever seu Hernando, ao dia seguinte, quando prosseguiram as homenagens aos heróis da resistência republicana de 1912.

 

Como um raro milagre, Papá consentiu dessa vez que, sob a proteção de tia Margarida, os filhos e as criadas fos­sem ao quartel da Infantaria, que ora se franqueava ao públi­co. Assistiam-se por lá aos exercícios e jogos militares, cuja programação constava de “ginástica sueca, assalto a sabre, luta greco-romana, assalto de baioneta, corridas de obstá­culos e de resistência, saltos à vara e altura, esgrima, saltos a cavalo e concurso hípico” e tinha, como contendedores entre si, os recrutas da Cavalaria 6. Como era de hábito, du­rante a execução dos exercícios, tocava a Banda da Infanta­ria 19. A todos, o que mais deslumbrou foi o desfile dos dois regimentos militares, a entoarem, de modo forte e viril, a marcha “Legenda Dourada”, hino da guarnição de Chaves.

 

A um dado momento, Aldenora inquiriu a irmã – O que tanto os teus olhinhos procuram assim, tão ansiosos, se é que m’o podes contar? – Aurora não respondeu e a outra continuou, ferina, mordaz – Se é um certo mau elemento que vive perto de nós, cá por Chaves, ele acaba de passar por ali com uma rapariga, a lhe encher os ouvidos de risos e perdigotos. E me parece que, de tudo isso, dava-se ela por muito apreciar a corte do finório, pois parecia uma rosa a se entregar ao chupa-flor!

 

Logo a tristeza chegou de tal sorte ao coração de Aurora, que, à noite desse mesmo dia, apesar de mais um dos raros consentimentos de Reis a que as filhas saíssem de casa, não quis acompanhar tia Margarida ao Teatro Flaviense. Nesse teatro, uma comissão de senhoras, na patriótica incumbên­cia de angariar fundos para a Liga de Instrução e Benefi­cência, destinados à assistência das famílias dos soldados mobilizados para a Grande Guerra, ia realizar “um brilhante espectáculo dramático”, com peças que, conforme dizia “O Flaviense”, eram da melhor qualidade.

 

De acordo com o jornal, tudo estava preparado “de molde a poder esperar-se uma noite de encanto, festa verdadeira­mente feminina, com todas as graças e delicadezas que só a mulher sabe dar às obras em que a sua alma vibra superior­mente. São todas elas feitas de mimo e brandura, tecidas n’um enlevo de finura e subtileza. Depois, sendo interpre­tadas por senhoras de reputada inteligência e ilustração e por cavalheiros que muito têm brilhado no palco flaviense, essas obras, de um grande valor literário, hão de ter a so­mar, à graça própria, a segura interpretação que lhes vai ser dada.

 

À manhã do outro dia, a se valer de seu precoce desen­volvimento intelectual, admirável para uma menina de ape­nas 14 anos, Aldenora fez uma verdadeira reportagem do evento, a fim de, mais ainda, espicaçar a irmã – Ai, Aurita, nem calculas o que perdeste, sua parva! Os camarotes es­tavam ocupados pela melhor sociedade de Chaves. Todo o teatro mostrava, ai Jesus, um lindíssimo aspeto! Precisavas ouvir a sinfonia da orquestra, quando começou o espetácu­lo! E quando subiu o pano?! Nem parecia mais o palco velho, feio. Nem aquele! Estava uma riqueza de luxo, de requinte, de beleza! Os atores da comédia “Os Quatro Cantinhos” tra­balharam tão bem, com tanta naturalidade!

 

Prosseguiu, empolgada – Depois o senhor Adriano Coim­bra recitou um poema tão sentido, em que parecia colocar, em cada palavra, as vibrações de sua alma. Gostei muito, também, da comédia “A Missão da Mulher”, uma profun­da lição de moral, que se passa com uma família durante essa terrível guerra que está, por aí, a fazer morrer os nossos pobres rapazes e – concluiu – no final, representaram uma peça de Júlio Dantas, “Rosas de todo o ano”. Que primorosa, minha irmã! Como disse a tia Margarida, foi uma noite de puro e total enlevo.

 

Adveio, então, a fraternal fisgada – Ora, pois, mas que patetice a minha! Não é que já estava a me esquecer de con­tar?! O filho mais novo dessa família que mora aí em fren­te… ele também estava lá, com uma dessas raparigas que andam por aí, assim... como dizer? Tão desgarradas, que até parecem não ter pai nem mãe. Quer dizer, até me faz crer que aquela mulher seja mesmo uma dessas, mas é deveras rica, porque estava muito bem vestida e cheia de joias, da cabeça aos pés.

 

Por fim, a última alfinetada – Aliás, ela é muito mais bo­nita do que muitas rapariguinhas por aí, que ainda não sa­bem nem se arranjar bem diante do espelho. Sabes tu que há rapazes que só gostam de mulheres como ela, mais livres, mais velhas, mais experientes? Esses aí, certamente, jamais vão se interessar por uma menina honrada e de boa família, mesmo que sejam certas tontinhas por aí...

 

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Terça-feira, 11 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. LUZIA CARRAPATO.

 

Após o fim do concerto da Banda de Infantaria 19, com uma apoteose ovacionada pelo público, estava a menina Aurora a deixar o Jardim com a família, quando viu, pela segunda vez, a velha demente, que fora recém-apupada pelo magote de putos. Desgrenhada, suja, continuava perdida em seus solilóquios e a gritar sem parança. Era, de hábito, inofensiva. Enfurecia-se bastante, porém, quando a malta vinha molestá-la, provocando-a com palavras e gestos indecentes. A pobre mulher retribuía, então, com gestos e palavras ainda mais agressivos.

 

Como Aurita viesse mais atrás dos Bernardes, ao lado de tia Margarida, esta contou-lhe a história da louca senhora.

 

 

Luzia Carrapato, outrora de Avelar e Guimarães, tradicional família minhota, apaixonou-se perdidamente por um judeu polaco, paixão logo correspondida. O pai da moça, de arraigada fé cristã, negou aos jovens qualquer possibilidade de um enlace matrimonial. Transportou-a para uma quinta longínqua de sua propriedade, onde a rapariga ficou reclusa.

 

O jovem semita foi-lhe ao encontro e com ela fugiu para Viana do Castelo, de onde seguiriam até à Galiza e, depois, para a Polónia. O senhor Matias de Avelar e Guimarães, todavia, contratou os serviços de um bandoleiro, para seguir no encalço dos amantes, matar o rapaz e trazer a fugitiva de volta à casa paterna.

 

A menina Luzia estava grávida. Ao lhe nascer o filho, o avô minhoto pagou a um nómada cigano uma tarefa imediata: desaparecer com a criança pelo mundo afora e nunca mais passar por aquelas bandas do Minho. Deu-lhe ainda um manhuço de réis a mais, para atender ao sustento do petiz. Esse era um costume bem antigo, desde a Idade Média, sobretudo entre os nobres e abastados.

 

Afirma-se que provém, dessa forma de alienação de crianças bastardas, uma parte do ancestral preconceito contra os ciganos. Alimentou-se, por toda parte, a lenda de que estes roubavam miúdos, cujos pais nunca mais os tornariam a ver. A propagação dessa lenda foi aumentando, cada vez mais, mormente quando se viam nos acampamentos gitanos, sem que lhes soubessem a procedência, crianças de olhos azuis e de tez bem mais clara do que a pele dos demais integrantes do clã.

 

O que resultou dessas bárbaras ações do pai de Luzia é que a menina enlouqueceu. Em seu desvario, saiu pelo mundo afora a falar de sua dorida história, enquanto ninava panos enrolados como se fosse o filho perdido, para o qual ficava a cantarolar sem harmonia nem pausa. Uma algaravia a que ninguém alcançava compreender.

 

 

Essa história deixou a menina Aurora tão impressionada que, nessa noite, perdeu o sono até ao alvorecer. Sentia a modos que o estômago se lhe revirava e dava um nó. Não parava de pensar nos padecimentos da pobre mulher, a sofrer unicamente pelo facto de se entregar aos ditames do amor, até suas últimas consequências. Quando, enfim, conseguiu dormir, viu-se a correr suja e com as melenas desgrenhadas pelas ruas de Chaves, com um bebé de verdade nos braços. Era perseguida por pessoas muito más, que acabavam por encurralar a si e à criança, em um beco escuro e sem saída, onde, ao fundo, havia um homem encapuzado, sinistro e aterrador. Ao se revelar sua face, com olhos encarnados e riso sardónico, ele não era o Papá, mas parecia o Papá, tinha a cara de Papá... e isso fez, de tal sonho, um pesadelo ainda maior.

 

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Terça-feira, 4 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. SONHO DE VERÃO.

 

Eis então que Aurora, à altura em que se ouvia tocar o passo dobrado “Querido Portugal”, com um arranjo da Banda e, como sempre, de excelente harmonia, olhou casualmente para um grupo de rapazes que riam de algo, de alguém ou de alguns e percebeu, dentre eles, o jovem morador da casa em frente à sua, na Estrada do Raio X. Sentiu-se mergulhar em agitados pesadelos como se, naquela noite de sonhos de verão, algum Puck brincalhão do senhor Shakespeare, foragido de Stratford-on-Avon, no tempo e no espaço, viesse exortá-la para o Amor.

 

Como que a um sexto sentido, Hernando lhe devolveu o olhar. Trazia aos lábios um sorriso zombeteiro, com uma aura de luz em volta de si, que parecia fazê-lo se elevar aos céus, o que muito perturbou a sensitiva pastorinha de Chaves, que não conseguia desviar os olhos de tão bela quão profana aparição. De repente, porém, a entrecortar esse cruzamento de olhares, passou a correr entre eles uma pequena malta de putos esfarrapados, em feroz perseguição a uma pobre velha, senhora de manifesta perturbação mental. Enquanto alguns senhores repreendiam os rapazolas, alguns outros atiçavam os trocistas a continuarem com esses gestos de tamanha impiedade.

 

Ao cessar a balbúrdia, logo todos se dispersaram, com a mesma rapidez da curiosidade saciada. A malta, porém, afastara do campo de visão de Aurora o jovem Hernando e seus camaradinhas. No lugar onde há pouco estiveram, não havia mais nenhum belo rapaz de lenço ao pescoço, olhos de lince e riso debochado.

 

Entrementes, João Reis falava aos seus, em tom baixo, mas indignado, que o único problema daquele Jardim era a falta de policiamento. Nos dias em que as bandas tocavam, o jardim era livre para todos. Não se podia, portanto, conforme explicava o Papá, impedir a entrada de qualquer zé-dos-anzóis que, por uma condição social menos favorecida, estivesse com um fato surrado, sem gravata e tamancos nos pés. Com isso, no entanto, permitia-se também a entrada de mendigos, com o seu esmoler importuno; bêbados, a liberarem gestos obscenos e palavras de baixo calão; maltas de miúdos a correrem por aquele passeio público, andrajosos e quase nus, como se acabassem de sair das páginas de uma obra de Charles Dickens.

 

Para um quadro completo de Pieter Bruegel, havia também os doidos. Chaves, como qualquer outra vila ou cidade, também tinha os seus próprios loucos, a perambularem maltrapilhos pelas ruas: a Don´Ana, o Bisca Velha, o Furriel, a Rosa Tirana, o João da Manta, o Mata-a-velha (esse, além de louco e mendigo, era ladrão)... A garotada miúda e alguns rapazotes os perseguiam e arreliavam, sem que a Polícia nada fizesse para impedir. Sobre o facto ocorrido naquela noite de julho, alguém escreveria uma nota no próximo número do jornal “O Flaviense”: “Essa prática selvagem, inconveniente e desumana de irritar os coitados, transforma em furiosos e tresloucados a esses doidos que, não fora a falta de respeito do rapazio, não passariam de pobres malucos inofensivos”.

 

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Terça-feira, 28 de Março de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. MOSCAS E MOSQUITOS.

 

Apesar de morar tão próximo de Hernando, Aurora passou muito tempo sem vê-lo. Como acontece quando se espanta uma incómoda mosca, mas o inseto persiste em voejar em torno do incomodado, assim estava a menina a tentar nunca mais pensar nele. Esse mosquito maroto, no entanto e por diversas vezes, vinha que lhe vinha pousar à lembrança ou, até mesmo, materializar-se em carne, osso e sedução. Tal ocorreu a um entardecer, em que ela estava a passear com os familiares, por entre as alamedas do Jardim Público.

 

 Era véspera do feriado em que se iam comemorar cinco anos da vitória dos republicanos, contra a incursão monárquica em Chaves. O florido parque, construído entre as margens do Tâmega e a Avenida Dom João I, na Madalena, relativamente próximo à Quinta Grão Pará, ainda hoje é um belo e bucólico recanto. Naquele tempo, aos fins de semana, Reis tinha o costume de levar a família a passear, para usufruir, nos dias soalheiros, do excelente passeio pela fresca das brisas que as árvores proporcionavam.

 

Nessa noite de 7 de Julho de 1917, o Jardim Público apresentava-se ornamentado com uma profusa iluminação elétrica, para fazer jus a um festival de grandes atrações: concerto de canto coral com alunos da Liga Flaviense; queimação de vistosos fogos-de-artifício, pelos mais hábeis pirotécnicos da localidade; um grupo de “gentis damas da sociedade de Chaves” a vender sortes, no recinto de um bazar organizado às proximidades do coreto e cujas rendas, incluindo o aluguel de cadeiras, seriam revertidas em favor da subscrição nacional pelas vítimas da guerra e suas famílias órfãs. Haveria também a distribuição do bodo (roupas e alimentos) aos pobres.

 

 

coreto.JPG

Jardim Público de Chaves. Coreto. (PT). Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

Máxime seria o Hino Nacional cantado pelos praças da Cavalaria 6 e da Infantaria 19, juntamente com a admirável Banda dessa Infantaria, a qual, como já o fazia habitualmente, iria tocar lindas peças musicais: “O Barbeiro de Sevilha”, Ouverture, de Rossini; “Madame Butterfly”, de Puccini; “Segredo do Rajá”, de P. Ribeiro; “Regresso a Chaves”, de O. Douvens; “Tanauser”, opereta, seleção, de Wagner; “Cantares da Aldeia”, de B. da Costa e outros melódicos manjares, dentre os quais algumas mazurcas e zarzuelas.

 

Comentava-se elogiosamente que, com a nova iluminação do Jardim, os integrantes da Banda podiam agora ler melhor as partituras, sem a deficiente luz elétrica anterior, pois, às vezes, aquela chegava a interferir no desempenho das mãos ou da boca dos músicos. Até então, muitas vezes, tornava-se bem difícil aos olhos destes conseguir, com exatidão, descobrir o que se estava a enxergar nos pentagramas. Já não bastassem os pequenos insetos, que teimavam em pousar sobre as partituras e se confundirem com as notas da composição! Disso tudo, resultavam desafinações eventuais, nada agradáveis e eufónicas aos ouvidos do público, menos ainda aos componentes da Banda. Para os músicos, realmente, isso era constrangedor.

 

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