Quarta-feira, 17 de Maio de 2017

Cartas a Madame de Bovery

cartas-madame

 

Minha cara Madame de Bovery (2)

 

 

Um dia, não hoje, haveremos de falar sobre a amizade, de como se escolhem, se seleccionam, se mantêm e se desiste dos amigos, como se desfolhássemos as pétalas de um mal-me-quer: este sim, este não, este sim, este não, ... O que nos faz, em realidade, preservar alguns e desistir de outros, às vezes com muita resistência e persistência, no primeiro caso, e outras vezes sem dificuldade e insistência nenhuma.

 

Julgo que não se trata de, como uma vez me disse um amigo: “o que nós gostamos nas outras pessoas é que elas gostem de nós!” Não me parece, às vezes, nada disto, mas outra coisa: o que nós somos é uns preguiçosos e é-nos muito mais fácil compreender quem é parecido connosco do que quem é diferente de nós, dá-nos menos trabalho, independentemente da nossa auto-estima ser grande ou pequena. Quando pensamos da mesma forma ou temos características semelhantes, o esforço de entendermos os outros é pequeno ou quase nulo e isso dá-nos conforto, satisfação, bem-estar, ilude-nos a inteligência! Ora era aqui que eu queria chegar, não hoje como lhe disse, um dia. Perceber porque no nosso caso a pétala do mal-me-quer foi: este sim! Deixemos por ora isso. Neste momento preocupam-me outras coisas.

 

Lembra-se da vida preenchida do Comendador? De como retirava tudo da nossa, do tempo que não tinha para nós, até para as pequenas coisas que não consumiam tempo e das desculpas inconsistentes que arranjava para se justificar, de como o fazia de forma gratuita e sem qualquer critério? Perguntava-me na altura se ele não dava conta que nós dávamos conta disso ou se dava conta e fazia de conta! O Comendador estava-se nas tintas para isso, perdoe-me a vulgaridade dos termos! Não era para nós que ele não tinha tempo, era para ele! Era com ele que não conseguia estar a sós e como nós lhe permitíamos isso e algumas vezes até o confrontávamos com isso, ele fugia. Mas não era de nós que fugia!

 

Não posso dizer que me sinto ridícula ao descobrir isso agora, porque isto era na altura impensável! Ainda hoje o é, porque se trata apenas da minha perspectiva dos factos, apenas uma e esta!

 

Mas, repare a senhora, que razão plausível poderia haver para a recusa persistente, constante, perpétua no tempo e sistemática, de convites puramente inofensivos e inconsequentes?! Unicamente o medo! Não, minha cara Madame de Bovery, não é preciso saber responder a isso, o medo, só por si, justifica tudo!

 

Recusava ter uma conversa a dois com o mesmo não que utilizaria se o pedíssemos em casamento. Já no caso das cartas, sendo escritas, funcionava de forma completamente diferente porque não lhe podíamos ver a cara e porque dispunha do tempo que precisava para se preparar, estudar, encenar. Ainda assim não resultava.

 

Acha que foi por isto que se foi embora?

 

Repare que o Comendador nunca soube lidar com o confronto, que nunca soube gerir conflitos. Nessas situações saía sempre discretamente pela porta das traseiras, escudava-se no silêncio como se isso fosse o resultado de uma educação esmerada. Mas era pura impotência, cobardia, insegurança.

 

Repare ainda que se foi embora avisando que ia, mas não deu nenhuma explicação sobre isso, não fundamentou a sua decisão e é estranho isto nele, porque as duas sabemos como ele era preciso e exaustivo no defender, justificar e argumentar das suas atitudes. Mesmo quando, aconteceu-me tantas vezes, se concordava com ele, não prescindia de expor os motivos que o levavam à tomada de decisão. Pergunto-me também, e só agora, se não era a si próprio que tinha verdadeira necessidade de se justificar, se não era a si que tinha absoluta necessidade de se perceber, entender e fundamentalmente aceitar, mais grave do que isso, conhecer!

 

Mas porquê isso? Que vazio existiria nele para esta necessidade abstracta de preenchimento, como se tivesse nascido amputado, tivesse tido durante o seu crescimento sempre consciência disso e em vez de se achar enganado e se sentir tentado a corrigir-se, fizesse exactamente o contrário, quisesse contrariar a falha com que tinha nascido e que só por ele era notada, cavando um buraco ainda maior!

 

Talvez fosse essa a questão, o défice, o que tinha realidade nele, tinha para ele realidade no mundo exterior e não era assim, ao menos não parecia ser!

 

E repare ainda que nada disto é normal. Dos sentimentos mais naturais que tem o ser humano é fazer constantemente a pergunta: estarei enganado? O Comendador não a fazia! Tem esta mesma impressão a seu respeito, estarei enganada, estaremos as duas? Tudo é possível! Eis o que me parece saudável: questionar do mais simples ao mais complexo, de um extremo ao outro.

 

Talvez, para melhor entendimento, seja preciso procurar primeiro nos seus pais, os senhores seus sogros, e depois na sua infância. Haverá numa dessas situações, senão nas duas, a razão do ser assim?!

 

Quem é que mandava lá em casa: o senhor seu pai ou a senhora sua mãe? Teria havido em sua casa uma clara inversão de papéis ao que era habitual na época? A mãe governava a casa, dava as ordens, ditava o que se devia ou não fazer, punha e dispunha, era autoritária e prepotente, enquanto o pai não passava de um tosco? Nunca lhe ouviu este comentário!? Teria ele crescido em toda a infância revoltado com o papel que o seu pai assumia, passivo, obediente e submisso? Teria nessa altura ele jurado a si próprio que consigo isso nunca seria aceitável e que jamais aconteceria, levando isso ao limite, como se quisesse na idade adulta vingar o próprio pai, sem nunca ter percebido que ele fazia isso de bom grado e que até agradecia à mulher por lhe poupar tanto trabalho, reconhecendo que ela fazia melhor o papel que ele alguma vez faria!

 

Teria sido isto a conturbá-lo, o facto de o seu pai reconhecer que, em certos casos, havia alguém melhor do que ele ou mais adequado a desempenhar uma tarefa? O reconhecimento de maior competência num ser supostamente mais débil, ter-lhe-ia invertido conceitos que se recusava a os ver assim!? Ter-lhe-ia faltado na figura paterna o que ele tinha por ideal de ser homem!? Seria por causa disso que tratava as mulheres com distanciamento, arrogância e frieza como se tivesse pavor de se aproximar delas, com o medo de ser dominado, ficar dependente ou refém, como tinha, no seu ver, acontecido ao pai a quem ele sempre tinha visto como um fraco!?

 

Teria ele ouvido alguma conversa entre os pais, aos cinco anos de idade, quando já tinha a personalidade formada, mas ainda não a maturidade capaz de o fazer perceber o contexto, o entendimento das palavras, as razões de ambos para escolher essas e não outras, coisas que nem os adultos têm!? Poderá ter tido isso uma implicação determinante na sua vida, limitante, castradora!?

 

Era o mais novo, o mais velho ou um do meio? Estava entre irmãos homens ou entre irmãs mulheres ou as duas coisas? A ser este o caso, quem era mais velho e mais novo? Os avós viviam na mesma casa dos pais? Maternos ou paternos? Havia um ou uma tia-avó solteira, daquelas que têm uma disponibilidade infinita para as crianças? Havia amas, daquelas que substituem quase inteiramente as mães no seu papel de cuidar das crianças? Quem é que lhe dava banho? Quem é que lhe contava uma história ao deitar? Que histórias é que lhe contavam antes de adormecer? Com que idade foi dormir para um quarto sozinho? Quando chorava de noite quem é que se levantava da cama para lhe dar colo? Partilhava o quarto com algum dos irmãos? Quando tinha pesadelos os seus pais permitiam que ele se enfiasse na cama deles? Quem é que lhe arranjava o pequeno-almoço?

 

Alguém em casa praticava o desporto da caça? Havia armas, algum acidente na sua habitual limpeza que feriu não o próprio, mas um inocente, o raio de um azar do estar ali em vez de noutro sítio? Seria por causa disto que o Comendador tinha aquela consciência sempre presente e da qual era refém, de que estava ali, mas podia não estar?! Desculpe a pergunta que sei ser demasiado íntima, mas havia alguma cicatriz no seu corpo?

 

Havia missa aos domingos? Ia de livre vontade ou contrariado? Recusava-se a ir?

Alguma vez os seus pais foram chamados à escola por comportamento pouco digno ou desadequado? Quem o ajudava nos trabalhos de casa? Estudava sozinho ou acompanhado? Quando tinha más notas alguém o repreendia? Era castigado por isso? Que castigos lhe davam? Quem o levava à escola? Quem é que estava presente, ao fundo da sala, no seu exame de admissão na quarta classe?

 

Obrigavam-no a comer a sopa quando ele dizia que não queria?

Com que idade...?

Nunca haveremos de saber!

 

Pois é exactamente essa, minha cara Madame de Bovery, a grande dificuldade que eu tenho, a de saber que importância é que tudo isto tem e em que dose certa a devemos dar a essas mesmas coisas! Damos a que sabemos, mas sabemos pouco!

 

Há contudo um erro sistemático que sempre podemos cometer nos raciocínios: quando são lógicos parecem-nos correctos, mas alguns de nós sabem que neste puzzle as peças podem encaixar todas e apesar de não sobrar peça alguma, não quer dizer que o puzzle esteja bem construído! As peças encaixam de várias maneiras porque há semelhança no formato ainda que o seu conteúdo seja diferente, às vezes oposto, às vezes sem nada de coincidente! Temos a verdade e o seu contrário em pé de igualdade! Não é bom!

 

O Comendador quando fazia puzzles nunca lhe sobravam peças e via nisso uma vitória, quando nem sempre era disso que se tratava! Talvez fingisse ver, tinha as suas máscaras, como todos nós! Esta era apenas uma delas, a mais simples, a mais óbvia e a mais fácil de descobrir! Quanto ao resto não posso dizer nada, pelo menos com a convicção com que digo esta!

 

Com um abraço da sua grande amiga

Maria Francisca

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 08:30
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