Quarta-feira, 14 de Junho de 2017

Cartas a Madame de Bovery

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Minha cara Madame de Bovery (6)

 

Desculpe esta minha ausência prolongada, mas tive de vir a Londres! Precisei de perceber o que tem esta cidade, para que o Comendador nela passasse os últimos anos da sua vida. Ainda não encontrei o motivo ou a razão, mas começa a esboçar-se em tudo o que me rodeia uma desculpa ou um argumento, se quiser. A luminosidade do dia ou a ausência dela, predispõe a um desnecessário assumir de responsabilidade. Não sei como definir este sentimento ou sensação, mas é como se fossemos arbitrariamente livres!

 

Há, sem dúvida nenhuma que há, a sensação de estar em casa, mas sem o peso dos objectos, das paredes que falam, da música que conhecemos e que ouvimos em determinados momentos e que nos deixa reféns, dependentes! É como um apagar de memórias, completo, das boas e das más, como se renascêssemos, como se a nossa vida, a única que temos, nos desse uma segunda oportunidade! Como é que eu hei-de traduzir em palavras o sentimento que me vai na alma?!

 

Atravesso a rua e vejo o Comendador do outro lado, com o seu sobretudo, a sua bengala. Já alguma vez lhe ocorreu pensar porque razão a usava!? Sim, é verdade que depois daquele acidente, do qual falava sempre com ironia, mercê das circunstâncias em que ocorreu, nunca depois dele lidou bem com as consequências! Mas a história da bengala não era uma delas, ele só achava que ela lhe dava mais carisma! Pois é, brincava com o facto, mas a ideia de perfeição que tinha colada à pele e da qual ele era, não um exemplo, mas o exemplo, fechou-o sempre num disfarce de sedução, charme se quiser, com o qual falsamente sabia lidar!

 

Pois foi essa, minha cara Madame de Bovery, a segunda impressão que absorvi desta cidade: a neblina que esconde os pequenos defeitos, os do corpo e os da alma, trá-los à luz do dia, ao meio-dia! Nessa altura o Comendador recolhia-se para um breve descanso. Soube-o por uma vizinha, uma jovem diplomata por quem o Comendador se interessou e a quem ela achava alguma graça! Forma de dizer. Suscitava-lhe indignação e surpresa, a par de admiração e fascínio, a forma como ele abordava os temas no parlamento!

 

As voltas que o mundo dá! Foi-me apresentada, a jovem, num evento social e, sabe como é, portugueses no estrangeiro, parecem irmãos! Como início de conversa falou-me de um Comendador português, que em tempos tinha conhecido! Claro que eu explorei o quanto pude e pude bastante, a convicção que tinha ficado nela desse ser humano que, supunha ela, eu não fazia ideia de quem se tratava. Brilhante a descrição! Tudo quanto não sabíamos, fiquei a sabê-lo num simples jantar, sem qualquer esforço, nem o de perguntar!

 

As características dela tinham de certo, percebi-o facilmente, impressionado o Comendador. Era, veja a senhora, eloquente na forma como expunha os assuntos, vivenciava com impressionante à vontade tudo o que lhe era estranho e alheio. O Comendador gostava disso, de como se subverte a natureza humana ao poder da inteligência! Ela tinha isso. A par da juventude, uma enorme força e vontade de viver. Feliz com tudo. O que estava mal, modificava-o, ajustava-o a si e o que estava bem, elogiava-o. Era fácil de adivinhar que para ela o Comendador era o exemplo do que estava bem e que ela o admirava e lhe alimentava o ego constantemente. Sabemos o quanto ele gostava disso, de se sentir o centro, a convergência dos olhares e da admiração. Ela servia-o na medida exacta das suas necessidades!

 

Não tirei nenhuma conclusão sobre o grau de intimidade com que se relacionaram, sabe que isso não é um aspecto que eu considere ou valorize e que tenho por menor as fraquezas do corpo comparadas com as da alma, por as achar circunstanciais e improdutivas, quase sempre! Sei que muito provavelmente me engano, porque o Comendador, que eu respeitava tão superiormente, dava a isso muito valor. Nunca percebi, honestamente, em que medida exacta e quando é que isso acontecia, mas era muito clara essa parte nele. Eu é que não tinha a lucidez bastante para ver compatibilidade nisso! Sabe como sou, separo coisas inseparáveis e o Comendador juntava os presumíveis opostos em harmonia. Sim, claramente, quando lhe interessava!

 

Hoje, enquanto passeava pelas ruas, perseguia-me uma voz que me fazia entrar em alguns locais e noutros não. Depois de entrar percebia porquê, mas ao mesmo tempo não tinha explicação para o que a isso me impelia! Foi numa das conversas com a jovem diplomata que soube a razão disso. Eram locais onde ela tinha estado, exactamente, com ele! Os armazéns Liberty, acredita nisto, onde tinha comprado o fato de lã e cachemira para o último evento; a relojoaria de Regent Street onde tinha adquirido a sua última peça da colecção de relógios! Foi exactamente ali, no luxuoso hall de entrada, que encontrou o coleccionador inglês de quem sempre tinha andado à procura! Alguém que hipoteca a própria vida, se for caso disso, para completar uma colecção! Admirável! E sabe que não era esse o caso!? Era apenas o dono da loja! O Comendador enganou-se! Não podia, depois disso, regressar! Nem para si nem para mim e muito menos para ele!

 

Daquela que não a esquece,

Maria Francisca

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:01
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