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Quarta-feira, 15 de Março de 2017

Cartas ao Comendador

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Meu caro Comendador (16)

 

 

Falo consigo como falo comigo. Já uma vez lho disse e o facto de o senhor não o ter comentado até hoje, esse e outros aspectos, não traz para mim qualquer impedimento ao nosso entendimento. Sei interpretar os seus silêncios como o senhor sabe interpretar a minha ausência deles, mas o que hoje se me apresentou clarividente é que ambos podemos estar iludidos!

 

Repare o senhor que o facto de supostamente haver duas cabeças com um único cérebro, levanta-me a questão se cada uma delas terá uma parte do seu cérebro que complementa a outra?! Sendo optimista, se nas duas cabeças haverá uma parte omissa, como que apagada, que sem capacidade de decisão deixa que a outra se imponha! Usando alguma imaginação, se manifestando-se só uma é um sinal de que a outra concorda, se uma parte delas ou nelas se está perfeitamente nas tintas para a expressão de ideias e pensamentos da outra, se ainda que em silêncio poderá discordar na íntegra de tudo o que a outra exprime e que apenas, por um sinal evolutivo, ultrapassou já essa necessidade de se explicar por existir nela, arrisco dizer, um pensamento livre e sereno, sinónimo de: estou numa fase da vida em que nada me incomoda. Ou se na dualidade existe, em vez de sobreposição, uma absoluta divergência sendo que uma se manifesta e a outra não! Quem cala não consente, ou então diria: eu também penso assim! Faz parte da natureza humana, porque é fácil, assumir ideias partilhadas, há um reforço de opinião pela mesma, as pessoas sentem-se mais seguras quando há um apoio de retaguarda. Já é contrário à mesma natureza humana dizer-se: eu, penso exatamente o contrário. A cobardia no exprimir de ideias é muito mais frequente e por isso é talvez mais provável que quem cala não consente! Esta é apenas uma das razões porque o silêncio me é penoso: não sei o que esconde, não sei o que encerra, não sei o que pretende, não sei o que raio pensa quem se cala! Sei que esta é uma divergência nossa!

 

O raciocínio não tem necessariamente, para fazer sentido gastar tempo nele, um determinado objectivo. Só por si, o exercício dele, pode ser útil e levar-nos a um outro propósito que pode até ser superior ao primeiro. É isto que eu nunca lhe conseguirei explicar e lamento por si! Quantas vezes tenho chegado a conclusões interessantes por insistir num raciocínio aparentemente sem lógica, raiz, sustentação razoável ou base estrutural? Quantas coisas surgem do nada, da catarse de ideias aparentemente infundadas ou sem sentido?

 

Há o acaso, também, sim, seja o que for que esteja na sua origem, ele surge-nos no dia a dia. Ter a noção disso é já um grande passo: se estivéssemos a dormir nunca o reconheceríamos! Fechar os olhos depois disto é a atitude de quem não quer saber! Pode fazer sentido se tivermos tomado a decisão conscientes de que foi uma escolha! Já é mais difícil para mim aceitar isso como um acaso sem intervenção minha! Que as coisas que nada me dizem respeito aconteçam, é pacífico, mas se elas têm consequências em mim, aí eu já questiono: fui ouvido? Se não, há que apagar o giz do quadro, não vá alguém copiar mal!

 

Mas isto resulta de uma estrutura construída em cima de uma base que considera o homem com direitos e obrigações e este conceito não está muito difundido! As pessoas acham-se com direitos e isentas de obrigações! Sim, claro que sim, falo das morais. A maior parte das pessoas exige dos outros o que não exige de si! Está tudo estragado: como é que eu posso ter respeito por pessoas que dão uma coisa como exemplo e praticam o contrário dela? E, sim é primário, perdendo o respeito pelo outro nada de bom se pode construir à sua volta. Se nos mereceram alguma estima podemos fazer algum luto, caso contrário, a vala comum poupa-nos tempo. É apenas uma imagem, embora saiba que entende as ideias de per si, prescindindo da sua representação!

 

As imagens são uma necessidade minha, uma descrença de que se possa apreender completamente uma ideia sem uma imagem que a sustente porque a imagem se memoriza em segundos! Sim, estou consciente, o senhor memoriza raciocínios à mesma velocidade, mas eu sou mais humano!

 

Um grande abraço do seu

José Francisco

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 16:05
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