Terça-feira, 8 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. FOLAR DA FESTA.

João Reis levou toda a família aos festejos, com fitas ver­des e encarnadas nos chapéus dos putos e no seu próprio, assim que tal nos xailes de Flor, das meninas e das criadas. Todos estavam a empunhar bandeirinhas pátrias. Os miúdos logo pediram que o Papá lhes pagasse uma bebida fresca, mais precisamente a “Gazoza Transmontana” que, segundo os reclamos em um jornal (no qual era ela apresentada assim mesmo, com essa grafia de dois zês) era “de facto a melhor”.

 

Mercê de uma pequena distração, Aurora acabou por se perder dos seus. Talvez a célebre e folhetinesca Mão do Destino já estivesse a traçar suas linhas em prol do ciga­no, pois logo uma luva de couro, cor de morcela, tocou no ombro direito da rapariga. Esta, ao se virar, tremeu dos pés à cabeça. Diante dela, mais guapo do que nunca, Hernan­do entreabria os lábios com os dentes ainda não manchados pelo vício do fumo, a lhe oferecer um sorriso que combinava muito bem com o seu maroto olhar. O de sempre.

 

O sorriso de Aurita não tardou a se esboçar, em agradável permuta. Ainda mais que o moço tomou-lhe um lenço que ornava os ombros e, a um zás trás, transformou-o em uma bela flor. Quando ela teve de volta o seu pequeno xaile, ad­mirou-se em ver o flóreo botão se abrir e lhe revelar uma fatia de folar bem flaviense. A menina, então, achou-se até ousada para iniciar alguns momentos de cavaqueio – Como sabeis fazer isso, senhor Camacho? – e ele sorriu de novo, desta vez com malícia – Sei fazer muito mais – mas logo res­pondeu à pergunta de Aurora – Ora, brasilita, é fácil, muito fácil. É apenas um passe de mágica que aprendi por aí, pelo mundo.

 

Foram os dois então para os lados da Torre e, sentados em uma das amuradas em volta, Hernando se pôs a expli­car como tudo era feito. Daí passaram a falar sobre vários assuntos triviais, mas que os faziam tão alegres como par­dais ao milho. Chegaram depois aos relatos das poucas, mas bem vividas aventuras do jovem cigano, algumas com certo exagero por parte do narrador, durante suas viagens por es­panhas, franças e itálias.

 

Dessas vivências de andarilho, que lhe serviam para não esquecer as nómadas origens, havia certas passagens, as mais picantes e mulherengas, que ele certamente omitia. Ou então, como sói acontecer aos contumazes contadores de lérias, como ele, Hernando sempre dizia, a fim de preser­var sua identidade, que tais e mais teriam ocorrido a algum moço da aldeia xis ou ípsilon.

 

Envoltos nesse início de namorico, mal perceberam quando o pai de Aurora chegou, segurou-a firme pelo bra­ço, cumprimentou secamente o rapaz com um – Boa tarde, senhor Camacho, esteja a passar bem; com licença – e mui de pronto afastou-se com a filha, a ralhar entre os dentes – Vamos, menina, andemos de volta a casa, onde lá é que me­lhor estás, pois “quem à boa árvore se abriga, boa sombra o cobre”. E lá também é que te vou explicar porque o povo diz “O lume ao pé da estopa, vem o diabo e assopra.”

 

Logo se juntaram ao resto da família e, com os protestos de Aldenora e a chorosa revolta dos menores, tomaram o caminho de volta à Quinta. O que mais pesava aos miúdos era deixarem de provar, conforme o Papá tinha prometido, as castanhas assadas, os gelados, as tortas de Viana ou os especiais pastéis de Chaves, que se ofereciam em uma con­feitaria recém-inaugurada ao Largo das Freiras.

 

  1. ANOS 20.

 

Então se passaram alguns anos, marcados apenas pelas notícias dos jornais locais ou dos que vinham de Lisboa ou do Porto, sempre lidas por Papá em voz alta ao pequeno-al­moço. Entre as novidades, os costumes dos anos 20, “inde­centes, obscenos, pornográficos”, como a eles se referiam os comentários de João Reis – Ai, Menina Flor, essas coisas que estamos a conhecer... esses países que se perderam nas teias da depravação, tudo isso me deixa preocupado.

 

Sussurrava à esposa – A Lisboa, já andam por lá algumas dessas raparigas do tipo maria-vai-com-as-outras, a se exi­birem com esses vestidos que lhe sobem às pernas, quase a mostrar os joelhos... percebes o decoro, Menina Flor? Pior ainda é o corte de cabelos, mais curto que o dos rapazes, esse tal de “à la garçonne”. Só espero que essa vergonheira toda não nos chegue por cá! – ao que Mamã concordava – Pois estou a pressentir que isso há de ser, como nos alertou a Virgem de Fátima... o fim do mundo!

 

É que aos olhos de muitos flavienses, Paris tornara-se um imenso bordel, onde artistas, intelectuais e outros cidadãos marginais, nativos ou imigrados, exibiam em público sua libertinagem explícita, desde o Louvre aos cabarés de Pigalle, desde Montmartre aos cafés de Sain-Germain-des- Prés. Ao Porto e Lisboa, no entanto, já lá se podiam ver passar pelas ruas algumas raras pessoas de grande ousadia, veementemente execradas por todos aqueles que se abriga­vam sob o manto da grande mãe eclesial, católica, apostólica e romana. As melindrosas, os charletons e os cabelos “à la garçonne” eram ecos de um universo distante, nessa peque­na vila trasmontana, onde as jovens solteiras e as senhoras de bem (pois que, de mal, só as marafonas...) cobriam-se da cabeça aos pés. Certamente que haveriam de existir, toda­via, algumas raparigas que ficassem a suspirar por Lisboa, à moda de “As Três Irmãs”, de Checov, finas e sensíveis mo­ças da Rússia campesina que sonhavam, algum dia, partir para Moscovo.

 

De Moscovo, aliás, quem sempre trazia notícias era o pri­mo Rodrigo, malgrado algumas carrancas de Papá quando o via penetrar na sala de estar da Quinta, agora a medo de que ele, com suas ideias estapafúrdias, acabasse por corromper as cabecinhas de seus miúdos e nelas introduzisse os novos costumes dos anos 20. O rapaz abraçara de corpo e alma as ideias bolchevistas da Revolução Russa de 17 e era conheci­do por suas polémicas nos cafés do Largo das Freiras. Vivia agora a falar de um futuro em que os operários seriam donos das fábricas e dos seus instrumentos de trabalho, não have­ria mais patrões e empregados, todos seriam iguais de facto e com todos os seus direitos perante a Lei.

 

Rodrigo era denunciado várias vezes ao senhor Chefe de Polícia, pelos seus inadequados comportamentos políticos e sociais. Como ele fosse, no entanto, muito querido na cidade e o poder ainda estivesse com os republicanos, anticlericais, bem como o rapaz limitasse as suas ações apenas a palavras e, o melhor atenuante, qualquer deslize seu pudesse atribuir­-se a excessos com a ginja ou com o bom vinho, acabavam por não lhe dar qualquer seriedade.

 

Já esquecidas do incidente sobre as aparições de Nossa Senhora em Fátima, Aldenora e Florinda atiçavam o facho discursista do jovem e, de ambas as partes, as contendas ver­bais se animavam. Ele, a louvar os princípios coletivistas e as igualdades sociais. Elas, a defenderem a Santa Madre Igreja das “ideologias esdrúxulas” e ateias do rapaz. A se valerem da pronta acolhida nas mentes simples como a de Flor, os capitalistas se uniam aos curas das aldeias, para espalhar os boatos de que doutrinas como essas, que do­minavam a cabeça do jovem primo, foram implantadas por “comunistas perversos, que matam os padres, fazem mal às freiras e comem criancinhas”.

 

Às meninas Aurita e Aldenora, no entanto, encantava o facto de, algum dia, as mulheres no mundo inteiro poderem ser mais livres, independentes, trabalhar fora de casa como os homens e, até mesmo – ai que esperança, ainda, àquela altura! – eleger os governantes da pátria. Quando atiçado, porém, em suas posições anticlericais, o rapaz, que também gostava de cometer alguns versos e escrever contos, a partir das lendas colhidas na região, saía-se sempre com algumas histórias de padres e freiras. Não tão picantes, por certo, quanto as que Adelaide fazia Florinda corar de pejo, mas igualmente interessantes, como a Lenda das Almas dos Fra­des Santos.

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:20
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