Terça-feira, 15 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. FRADES SANTOS.

 

Durante algum tempo, em tempos que já lá se foram, por volta da meia-noite, almas penadas de frades devotos apa­reciam, entre as árvores do Campo do Tabolado, junto às fontes, a lerem seus breviários, sob a luz de velas que se prendiam aos capuzes, na cabeça de cada um.

 

– Vinham envoltos em seus hábitos de burel e tinham – assim contava Rodrigo, a dramatizar – as mãos e as faces esbranquiçadas! Círculos escuros em volta dos olhos e da boca! Estavam presos, uns aos outros, por correntes que se arrastavam pelo chão! E entoavam… o cântico dos mortos!!!

 

Tomou um gole de Porto, fez uma pausa teatral e, em seguida – Essas terras pertenciam ao senhor Paulo de Maga­lhães, organista da Igreja Matriz. Pois o pobre homem, e to­dos de sua casa, viviam apavorados com o que viam. Aliás, já acreditavam até no que não viam e, piamente, davam fé ao que os outros contavam. E quem conta um conto, aponta dois – ao que Afonso motejou – Mas tu, Rodriguito, sempre nos apontas mais de quatro!

 

O primo riu – O que se deu é que os empregados já não saíam mais à noite. Alguns até chegaram a adoecer de febres e… – o narrador fez um sorriso maroto – de disenterias. Viviam a correr lá pra casinha... – motivo pelo qual riram­-se todos. Rodrigo tomou mais um Porto e prosseguiu – A mulher de Magalhães disse ter visto a alma de um frade a lhe pôr a língua para fora e pegou umas tremuras de maleita. Só ficou boa à custa de penitências e vultosas dádivas de dinheiro que ela ofereceu ao convento, o qual ficava logo ali, coladinho às propriedades do marido, em terras que se es­tendiam até um ponto do caminho para Vilar de Nantes. Fez isso a conselho dos próprios frades dessa irmandade. Estes, aliás, ao contrário das aparições, estavam muito bem vivos e com bastante saúde.

 

A garrafa do Porto estava cada vez mais ébria de va­zio, quando o primo, bem sóbrio, pareceu concluir – En­fim, eram tantos os problemas com essas almas penadas, que o tal organista preferiu partir para sempre de Chaves, com toda a família. – Fez outra pausa e, a julgar que fosse esse o final da lenda, os mais reagiram. O narrador prosse­guiu – Calma, calma, ainda não acabou. O facto é que, toda vez que perguntavam a esses monges sobre as almas pena­das, eles se diziam muito preocupados. No século anterior, uma peste havia dizimado quase toda a congregação que ali praticava. Seriam então de alguns desses frades, com a sua triste e pestilenta memória, as almas que agora estavam ali a assombrar?

 

Já então a pequena Arminda esbugalhava os olhos, en­quanto o contador de histórias seguia o curso da narrativa, assaz interessante – O próximo a se tornar proprietário das terras do organista chamava-se Francisco Durão. E aquele, meus primos, fazia jus ao nome! Saía sozinho pela noite, madrugada afora, devidamente provido de armas e pronto a enfrentar, fosse quem fosse: os vivos, os não vivos, os mor­tos e os não mortos. Pois não é que as almas, desde então,  nunca mais apareceram? O valente Durão ficava a gritar “Ó seus fradecos penados, que raio de almas cagadas são es­sas, que têm medo de levar espada ao cu?

 

Mamã, de imediato, externou-se ofendida nos ouvidos. Rodrigo pediu desculpas e tentou corrigir o chulo palavrea­do – Cá me perdoem, meus caros, na verdade era assim que ele gritava: “quem é que têm medo de levar ferro ao bucho?” – mas apesar do conserto feito, o efeito desconcertava. Al­guns risinhos nervosos tentaram disfarçar o que as faces rubras revelavam. Então, o primo apressou-se em finalizar – O facto é que, mesmo sem a companhia de outros valentes como ele, para enfrentar essas almas tão santas, mas pena­das, Francisco Durão continuou, por muito tempo ainda, a cultivar a quinta com as próprias mãos.

 

A essa altura, já todos perguntavam – e as almas? – ao que Rodrigo sorriu – Ora, pois, o que se deu a conhecer, algum tempo depois, é que esses frades (e estou a falar dos vivos, é claro), colhiam frutos para seu uso diário nas terras vizinhas às suas, ou seja, às do convento e vendiam os exce­dentes. Não satisfeitos com as cercas de sua monástica pro­priedade, usavam a Murada do Campo da Roda, para se es­tenderem até onde mais pudessem. Um visitador da Ordem acabou com o abuso em 1689, pois os religiosos estavam a se utilizar de uma propriedade fora do convento, o que era contra as regras da Ordem.

 

Concluiu, enfim, o narrador – Na esperança de que essas terras fronteiriças voltassem a ser devolutas, os frades pin­tavam o rosto de branco com uma mistura de farinha e clara de ovo, cercavam os olhos e a boca de carvão e faziam a encenação das almas. – Os próprios frades?! – Eles mesmos! Acompanhavam-nos, decerto, alguns serviçais do convento, que se prestavam de bom grado a esse teatro de Grand Guig­nol. O certo é que, depois das incursões noturnas do novo proprietário, as almas dos santos frades nunca mais vieram assustar ninguém. Certamente tinham medo das cacetadas e golpes de espada do ousado dono da quinta, cujo nome era... como se diz? Um pleonasmo!

 

Florinda e as filhas riam, a não poder mais. Logo, porém, Mamã pôs-se a repreender os excessos anticlericais desse parente tão contestador – Meu bom Rodrigo, és mesmo um pândego, mas não fiques a desrespeitar a nossa religião. Cui­da da tua alma, é que é, pois todos nós, um dia… – e o gaiato retrucou, com uma falsa seriedade – Não se preocupe, Tia Flor, quando ouvirem passar ao Raio X umas correntes e, ao chegarem à janela, virem uma aparição toda de branco e com uma vela à cabeça… podem rezar pelo pobrezinho do primo Rodrigo, uma pobre alma que se perdeu… – e, a rir com gosto – perdeu-se, sim, mas logo se foi achar de novo, na Madalena, muito vivo e a bebericar, com os amigos, da­quela água que mata o bicho!

 

fim-de-post

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:30
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