Terça-feira, 29 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. POPÓ.

 

Afonso só largava os estudos, a essa altura, para namori­car em casa da jovem amada, a menina Maria Ritinha, filha de um dos melhores clientes de João Reis. Papá, no entanto, nem precisava dizer ao rapaz que, às nove, já deveria estar de volta à Quinta. O jovem cumpria isso em geral bem mais cedo, por lhe desgostar a chateza repetida de ficar a conver­sar com a rapariga enquanto, a uma pequena distância, a avó da menina fazia tricô. Essas agulhas e fios serviam apenas, na verdade, de mero pretexto para a vigilância familiar e isso, militarmente, aquela senhora exercia do alto de sua tor­re de menagem, uma velha cadeira de balanço.

 

E havia Popó, o cão.

 

O animal postava-se debaixo do sofá onde os pombinhos, a uma distância quilométrica, mal podiam arrulhar e esticar as penas, a fim de ao menos se tocarem nas pontinhas das asas. Penares do pobre Afonso! Já de si retraído, ao tentar se aproximar um pouco mais da Ritinha, ouvia o rosnar e até os latidos ameaçadores do maldito cão. Ainda mais que o ra­bugento Popó não parecia gostar nem um pouco de Afonso, malgrado as tentativas de este se fazer amigo do animal. Tal amizade, evidentemente, bem viria a calhar para os momen­tos em que a guardiã fosse beber ou verter água, mas a velha sempre retornava com um sádico sorriso de tranquilidade, confiante na guarda de seu cão.

 

Até que, certa noite, o Popozinho, algum tempo já decor­rido no exercício de suas funções de segunda sentinela do namoro de Afonso e Ritinha, achou por bem (ou melhor, por mal) morder levemente a perna do rapaz, quando este, como um casto vampiro, tentava dar um singelo beijo na jugular da rapariga.

 

Foi a gota d’água para que, de uma vez por todas, o rapaz desse por terminado o entediante namoro. Não soubesse ele que, em muitas outras casas da vila flaviense, havia moços e raparigas a vivenciarem a mesma situação diante de mães, tias ou avós. Só que alguns tinham mais sorte, pois muitas dessas vigilantes cochilavam e até roncavam com frequência.

 

Além de que, em geral, não havia Popós!

 

 

  1. VOLTA AO LAR.

 

Até quando levarás contigo as chaves do teu segredo? – a rapariga perguntou a si mesma e lançou um olhar à Torre, como se pudesse deixar lá dentro e para sempre os seus mis­térios, não gozosos mas dolorosos e pudesse fazer, daquele amontoado de pedras, uma sólida e muda confidente dos seus infortúnios.

 

Da amurada, olhou para baixo e, mais uma vez, o punhal do pior dos pecados, a cujos pecadores a Igreja nega os san­tos sacramentos, trespassou-lhe a mente. Lembrou-se então da bela, nobre e virtuosa Dueña Conxeta de Albuez.

 

O esposo de Dueña Conxeta, ensandecido pelos ciúmes, mandara encarcerá-la em uma torre de menagem, junto com os filhos que ele dizia não terem saído de seus fecundos e viris instrumentos.

 

Deu-se então que, a uma triste e fria manhã igual a esta, a pobre mulher aproveitou-se de uma falha dos guardas, su­biu até ao cimo da guarita e, de mãos dadas com os infantes, atirou-se ao abismo. Não sabia a desgraçada que, no dia se­guinte, estava a chegar de Braga o seu confessor espiritual, com o fito de protestar pela inocência da infeliz devota.

 

“Que esta água vá curar-te os males d’ alma” – Ainda a lembrar as palavras do doutor Guimarães, Aurora tomou o caminho de volta a casa, pela Rua do Bispo Idácio e, de­pois, pela Santo António. Ao passar perto de uma venda de louçarias finas, viu Hernando a palear com o caixeiro dessa loja e quis logo ter ao cigano, para lhe dizer das boas novas. Apesar de que estas, ora pois, até que de novas se poderiam chamar, porém boas... estavam longe de ser.

 

ca -carolina (448).jpg

 

Conteve-se. Esgueirou-se furtiva, para não ser vista mais adiante pelos empregados de Papá, que estavam a abrir o armazém da Rua das Couraças. Desceu pela Rua do Rio, seguiu pela Alameda Trajano, resolveu margear o Tâmega e cortar caminho pelas Poldras, como algumas vezes fizera com a Zefa em miúda, quando iam buscar Mamã à casa de tia Hortênsia, na Raposeira.

 

Já do outro lado, perto da Azenha dos Agapito, passou por um sítio beirão do rio, onde as lavadeiras já estavam a começar o seu labor de ensaboar, esfregar, bater, lavar, tor­cer e estender roupas brancas nos areais.

 

Por entre elas, uma miúda com o vestidinho roto e um bibe remendado, um pinguinho de gente com um chapéu de palha na cabeça, carregava um regador quase do seu tama­nho, enquanto as da lavagem cantavam:

 

“O cantar não alivia

penas no meu coração

eu tenho cantado muito

e as penas se me não vão”.

 

ca videira (2).jpg

Lavadeiras no Tâmega.

 

Aurora não queria voltar à quinta, onde seu futuro, ago­ra, era um xis a cruzar raios de incógnitas sobre o coração. Havia um nó na garganta, um enovelamento em seu cor­po, um emaranhado de fios em sua vida, dos quais ela não conseguia o vislumbre de quando e como desatar. Tomou o Caminho das Poldras até à Rua da Solidão, essa via sombria que, como o senhor Durão da Lenda dos Frades Santos, faz muito jus ao nome, uma estradinha deserta entre muros ex­tensos, onde apenas os musgos e uma ou outra casa esprei­tam os passantes. Ao se encontrar na Rua do Caneiro, perto da Quinta, hesitou em seguir adiante. Logo porém se fez coragem e chegou à Avenida D. João I.

 

Deu volta ao muro da casa, entrou pelos fundos do pomar, atravessou-o de novo entre as macieiras, laranjeiras e pesse­gueiros e se atirou chorando aos braços de Zefa, que se pôs também a inundar, com tâmegas d’olhos, o piso da cozinha.

 

fim-de-post

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:49
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