Terça-feira, 19 de Setembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. BEBEZÃO.

 

O rapaz de maior permanência, na condição de enamo­rado, veio a ser o Gustavinho Bebezão. Era um rapaz com­prido e magricela, filho único do Comendador Aires de Bragança e de dona Maria, senhora que nunca fora rainha nem primeira, mas era também um pouco louca. Ele estava sempre entre os colegas que Afonso, muitas vezes, levava a casa após as aulas no Liceu, para se entreterem com as figuras dos livros da biblioteca de João Reis, ou conhecerem algumas das novidades que os pais trouxeram do Brasil.

 

Dentre as que mais atraíam os rapazes, estava a pequena coleção de aves, répteis ou outros animais exóticos empa­lhados e, agora, já um tantinho entregues ao natural desgas­te. Aqueles olhos sem vida de animais mumificados, aliás, muito assombravam a Maria, quando esta ia limpar a peque­na sala do patrão. Esses bichinhos sem vísceras foram a úni­ca herança deixada por Belmiro Morais, um tio de Florinda que era dado à Taxidermia. A malária dos trópicos (também conhecida em Chaves como maleita) havia levado o pobre cientista a ver de perto a face do deus Tupã, durante uma de suas longas incursões pela selva amazónica. Dizem que, em  seus tremores e delírios finais, ele pedia para ser também empalhado e colocado junto às preguiças, cotias e os mais de sua coleção.

 

Nessas ocasiões, os do lar e os convidados, todos ansia­vam pela hora da merenda quando, com exceção do patriar­ca que, a esta altura, ainda estava a comandar seus funcio­nários no escritório, iam todos provar de tudo que, de bom ou de melhor ao paladar, Florinda pudesse oferecer. Tudo lá, certamente, estava a saber muito bem ao paraíso do ventre, esse éden no qual ninguém recebe castigo de Deus por ter comido demais, nem mesmo por ter saboreado uma simples maçã de origem serpentina, pois lá, nenhum manjar é proi­bido.

 

 

Na primeira vez, Aurora e Gustavo trocaram somente al­guns olhares e sorrisos, ansiosos e inquietos. Na segunda, acabada a merenda, os dois foram a uma das janelas e con­versaram sobre aqueles mil assuntinhos que, não se sabe de que baús eles saem, nem de que maravilhosas lâmpadas de Aladino se esvaem, estão sempre a fazer parte da vida dos jovens, em qualquer tempo e lugar. Na terceira, sentaram-se nas cadeiras de cana-da-índia da sala de estar e ficaram a sussurrar , entre risinhos, com as húmidas mãos a se toca­rem, ávidas, mas não havidas. Enquanto isso, na biblioteca ao lado, os colegas ficavam a troçar – Afonsinho, ó pá! Vais ser cunhadinho do Gustavinho, que, apesar do tamanho, tudo nele é assim como lhe diz a Mamãezinha, com muito inho, pro casamentinho, delezinho, de seu filhinho, queridi­nho, com a Auritinha, tão lindinha.

 

Não houve a quarta vez. Dona Maria, mais transtornada do que a Primeira, em um momento de lucidez ou de loucura (soubesse lá qual dos estados, só mesmo o pobre do marido pachorrento a lhe aturar os nervos; ou então o seu Dom João Sexto miúdo, que temia mais a ela do que a qualquer armada de Napoleão) mandou à senhora dona Florinda os seus pro­teistos de estima e concideração, em um bilhete de muito mal trassadas linhas e, como se vê, de estropiada gramática. Nele, a matrona pedia que se puzece um termo às sandisses do Gustavinho (não fosse ela, como todos diziam, à boca miúda e graúda, a própria sandice em pessoa). Lamentava ser este ainda um miúdo, que mal deixara de ca... (riscou com um xis) de obrar nos cueiros e já lá estava a pensar em faser outros miúdos, ainda que tais sem-vergonhisses venho a si permitire sobre as benssas e confirmassons da Santa Madre Igreija.

 

Seguiam-se numerosos blá-blá-blás e mais que tais.

 

Gustavo Toledo Ayres de Bragança já chegara aos 21 anos, mas, tanto na mente quanto no comportamento geral, não passava de um puto choramingas. A um simples olhar de sua Mamãezinha, metia o rabo entre as pernas e fazia um mé mé mé de carneirinho. Não foi diferente, portanto, o seu agir para com Aurora. Em péssima e nervosa caligrafia, entremeada com borrões de lágrimas, mandou dizer à sua quase futura sempre amada que, doravante, ela podia sen­tir-se desobrigada de qualquer compromisso a que ambos estivessem por firmar.

 

Aurita apenas deu de ombros e concluiu, para si mesma – Se amada não fora, por esse filhote de Mamã Ratazana, um criançola estúpido e cobarde, cheia de amor por ele é que ela, jamais, haveria de ficar. Enquanto isso, o que mais sen­tiu o ratinho, digo, o rapazinho, foi nunca mais ir à casa de Afonso com os colegas e, assim, deixar de roer, digo, deixar de provar os saborosos bolinhos de dona Florinda.

 

fim-de-post

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:48
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