Terça-feira, 16 de Janeiro de 2018

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PEDIDO.

 

O clima ansioso do encontro pôs-se ainda mais acentuado após a sobremesa, antes que os homens passassem ao pequeno escritório doméstico e as mulheres à sala de estar, a fim de lhes saberem bem o vinho do Porto, os licores e o café.

 

Enquanto Aldenora dirigia seus olhos à alvura da toalha, os mais entreolhavam-se, curiosos. Ao presumível noivo, dirigiam-se os demais olhos ali presentes, com discreta intermitência.

 

Eis então que o rapaz, a suar bem mais, naquela fresca primavera trasmontana, do que um pescador no verão das colónias d’África, após um olhar de soslaio para o sisudo dono da casa, levantou-se de chofre e – Exlecentíssimo... Extelentíssimo... Ex-ce-len-tís-simo senhor João Reis Bernardes, Ex-ce-len-tís-sima senhora dona Florinda, senhor meu Papá, senhora Mamã, me...me...menina Aldenora e todos que estão cá... cá... ne...nesta noite es... especial, a com... compartilhar connosco o vinho e o cão...digo, o vinho e o pão... eu... eu...faz favor, senhor meu pai! Gostava que por mim falasses...

 

Após alguns pigarros teatrais, o pai do pretenso noivo tomou a palavra – Deixa estar, meu rapaz, vou falar por ti, mas, por certo, não vou falar por teu coração, ora pois que esse.... ô meu prezado João Reis, vamos andar com isso de uma vez. Ora pois, pois! Já todos estão a saber por que raios de motivo é que nós todos cá viemos. Meu menino pede a mão de tua filha, a bela e prendada Aldenora, para...para... mas por agora, que fales tu, de novo, e por ti mesmo, ó António Sidónio!

 

O rapaz, ainda mais nervoso – Eu...eu peço a sua bênção, senhor João Reis Bernardes, para que eu... eu quero um sincero compromisso com a menina Aldenora e, portanto… – fez uma pausa e, na ocasião, por estar muito emocionada, a noiva não atentou para o resto – assim que eu… que eu concluir meus estudos, vamos dar corrida aos banhos na Cúria e aos preparos de nosso... nossa futura união, pelos laços sagrados do matrimónio. Ufa! – sentou-se e o pai arrematou – Ufa, digo-te eu. Mas ora pois que falado foi e, portanto, falado está. Tem que ser! Ouçamos agora o que diz a rica menina e o venéreo... ai que me perdoem... o venerável senhor seu pai!

 

A um ato cénico previamente estudado, João Reis deixou passarem correndo, em maratonas pela sala, alguns segundos de silêncio. Enfim – Gostava que me respondesses, ó filha, se te afeiçoas a este menino, filho de nosso prezado Professor António Sidónio de Castro Cordeiro – e a rapariga respondeu, quase em um sussurro – Sim, Papá – e ele – Ora pois… não digo menos disto. Estamos concertados – e, a brindar – Cá vai! À saúde dos noivos! – ao que os mais ergueram suas taças e copos – E de todos nós! – enquanto os manos de Nonô e sua futura cunhada, a baterem com as colheres nos pratos, faziam ecos da alegria geral. Só então a noiva ergueu, enfim, os olhos para o amado. Já que os lábios ainda eram, àquela altura, reprimidos pela sharia cristã, as pupilas de um e de outro, a quem nenhuns podiam negar a liberdade, trocaram entre si muitos, muitos e muitos beijos, molhados de emoção.

 

Aos dias que se seguiram, Aldenora era uma ansiedade só a que chegasse cada sábado, o dia autorizado para que o rapaz visitasse a noiva. Eram tardes ansiosamente esperadas por Nonô, a se esmerar nos melhores vestidos e, quando não fosse o xaile habitual à cabeça, ornava os cabelos com laçarotes ou flores, além de outros adornos próprios das raparigas. Nesses encontros, como já vimos ser de praxe e assim mandarem os bons costumes, os pombinhos jamais eram deixados a sós. Fosse Mamã ou uma das filhas, alguém sempre estava a servir de guardião da moral familiar.

 

À noiva, gostava que sempre fosse Aurora a cumprir tais funções. Com esta irmã, apesar das constantes briguinhas e competições que mantinham entre si, desde miúdas, Aldenora sempre conseguia alguma cumplicidade, a lhe favorecer ao menos um entrelaçar de mãos e alguns rápidos beijinhos às faces. As outras manas também fechariam os olhos, mas não as bocas. Correriam a reportar tudo que ali se passasse à Mamã, menos por maldade, mais por falta do que fazer. As cândidas carícias, porém, eram para os dois jovens o motor que os fazia vislumbrar, cada vez mais, as sendas para o ungido e abençoado leito conjugal...

 

fim-de-post

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:58
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