Terça-feira, 22 de Agosto de 2017

De cá...para o mundo!

1100-de-ca

 

Se há uma coisa que este blog tem feito desde o seu início é, de vez em quando, inventar uma nova rubrica, de certa maneira para ir variando, mas por outro lado para colmatar a lacuna de rubricas que esgotaram ou que estão de férias por tempo indeterminado. Hoje inventamos mais uma e este post pretende ser a introdução e justificação da mesma.

 

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Parada do Corgo - Vila Pouca de Aguiar

 

1 – Nós (de cá) no mundo

Isto que vos vou contar é real e passou-se comigo, teria eu os meus 19 anos, numa viagem de comboio entre o Porto e Lisboa. Pois bem, era uma viagem que eu então fazia regularmente, pelo menos de dois em dois meses, ainda no tempo em que autoestradas só existiam à entrada do Porto e Lisboa e a nossa ligação direta de autocarro a Lisboa, partia de manhã de Chaves e chegava à noite à capital. Ora para abreviar um pouco a maçada de um dia de viagem, ia de autocarro até ao Porto e daí apanhava um comboio denominado ALFA (não sei se ainda existe) que se punha em Lisboa em menos de 4 horas, penso que só tinha uma paragem em Coimbra. Era caro mas compensava e depois não apanhávamos com aqueles vizinhos chatos que nos contavam a vida toda pelo caminho, principalmente porque na curta viagem aproveitava sempre para botar uma soneca e por o sono em dia, é que já então gostava de me entreter com coisas pela noite dentro. E tudo correu às mil maravilhas, exceto numa viagem. Nessa viagem, entrei para o comboio, escolhi lugar à janela, como sempre e aguardei que me poisasse a companhia ao lado. Eis que entra na carruagem uma rapariga, bem jeitosa por sinal, mirou os lugares vagos, fixou-se no que estava ao lado do meu e zás, num instante tinha-a sentada ao meu lado. Confesso que sempre fui um pouco tímido e com um monumento daqueles ao meu lado fiquei mesmo encaralhado. Mas com jeitinho ia lá e até sacrificava a habitual soneca… mas nem foi preciso puxar pelo meu latim, ela começou:

- Olá, sou a “Coisa” (sinceramente já não recordo o nome, mas este serve), e tu!?

- Fernando…

- És aqui do Porto?

- Não, sou de Chaves!

- Ai, não conheço, mas adoro o Algarve!

Com alguma ironia, respondi-lhe:

- Chaves não fica bem no Algarve!

- Ah! pois! que estúpida sou, é na Serra da Estrela, não é?

- Mais ou menos, um pouco mais acima…  

Entretanto o comboio já ia em andamento, virei a cara que ainda me restava para a janela, encostei a cabeça ao assento e botei a minha soneca. Só acordei em Lisboa, já sem ninguém ao lado. Isto não é ficção, foi mesmo real e pela pinta, a rapariga só podia ser mesmo de Lisboa, do Porto não era de certeza. Perdi um monumento!? - Não, ganhei uma soneca.

 

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Balsamão - Macedo de Cavaleiros

Com o tempo, noutras viagens por outras paragens, também com pessoal lá de baixo, ia acontecendo o mesmo, não tão estúpido, mas a mesma ignorância de não saberem onde ficava Chaves, e isso sempre me irritou, mas por outro lado chegava a ficar orgulhoso que tais cenas acontecessem, é que nós, os “parolos” transmontanos, conhecemos este Portugal inteiro e o mundo, Ainda não houve terra, cidade portuguesa ou estrageira onde eu tivesse estado e não encontrasse um flaviense de Chaves ou daqui ao lado (Valpaços, Montalegre, Boticas…) o que vem a ser a mesma coisa, são cá de cima, cá da terra e estão espalhados por todo o mundo.

 

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Vila Nova de Cerveira

2 – Os de fora (lá de baixo) e Portugal

As minha primeiras grandes viagens foi por este Portugal adentro. Aos 15 anos atravessei sozinho Portugal de lés a lés. Chaves – Faro. Desde aí e sempre que pude ou surgia uma oportunidade, aproveitava-a para conhecer outras localidades, ficassem elas onde ficassem. Claro que isso não se faz num dia, e pode demorar alguns anos, ou muitos até, dependendo sempre das oportunidades, isto se quisermos conhecer algumas regiões ao pormenor, mas com o tempo, posso dizer que conheço, no geral,  todo este nosso Portugal, incluindo as ilhas, isto porque desde cedo tive curiosidade de me conhecer,  conhecendo-nos, e antes de virar as vistas lá para fora,  privilegiei sempre fazer as minhas viagens e férias cá dentro de Portugal.  Não quero com isto dizer que rejeite ir para fora, não, já fui algumas vezes e continuarei a ir sempre que puder e tiver a oportunidade e até tenho apreciado aquilo que tenho conhecido, mas uma coisa vos digo, ao segundo dia já estou com saudades da nossa comidinha, do nosso vinho, da nossa gente e da nossa língua, e não há nada pior que uma barriguinha insatisfeita…

 

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Galafura - Douro

Tudo isto para vos dizer que os portugueses lá de baixo, em geral (pois há sempre exceções), irritam-me nas suas viagens e nas suas escolhas de férias. De Portugal só conhecem a terra deles e o Algarve (a areia da praia e o hotel, pensão ou casa que alugam), e depois,  férias, para além do Algarve, são para passar no estrangeiro. São capazes de gastar balúrdios para irem, por exemplo,  para um complexo turístico  no Taiti,  para ficarem lá fechados durante uma semana ou duas, mas não são capazes de gastar umas croas para conhecer o nosso Portugal interior ou da província e depois os parolos somos nós,  e eles é que são os portugueses de primeira… estrelinha que os guie…

 

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Cisterna - Vinhais

Então é assim, nesta nova rubrica vou deixar algumas imagens de localidades e lugares cá do Norte (do Rio Douro para cima, com uma ou outra exceção além Douro ou fronteira com a Galiza) que ao longo destes últimos anos fui vendo e fotografando, um pouco ao acaso, pois tanto podem ser de Vila Flor como de Vinhais, de Valença ou de Lamego e sempre uma do alto tâmega. Vão ser imagens ao acaso de coisas que gostei de registar e que penso merecer saírem do baú para apanhar algum ar e quem sabe, abrir o apetite a alguém para os visitar. Fica assim combinado para todas as terças-feiras ficaremos com “De cá para o mundo”,  logo após o romance Chaves D’Aurora.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:37
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3 comentários:
De Salvador Silva a 22 de Agosto de 2017 às 17:51
Meu caro, sabe como o admiro, mas não posso deixar de lhe dizer que, para além de compreender a razão desta nova rubrica, que aplaudo, há no seu texto introdutório, muita generalização e algum "bairrismo" exacerbado. A ignorância sobre o País de que fala (gostei especialmente "...só podia ser mesmo de Lisboa, do Porto não era..." não é apanágio da gente do Sul, conheço muita gente do Norte e até com alguma cultura, incluindo Transmontanos e Flavienses, que têm o mesmo conhecimento. Salvam-se, como os cá de baixo, as devidas excepções.
Aproveito para informar que o ALFA continua a circular, é hoje o ALFA PENDULAR, Porto/Faro e verso, com paragens, entre outras, em Tunes, Alhos Vedros Lisboa, Coimbra, Aveiro, Espinho... É muito eficiente, de média/alta velocidade, que permite sair de Faro ás 8, está no Porto pelas 14 . Não posso indicar os horários de retorno, mas dá para tratar qualquer assunto e regressar no mesmo dia. Parece-me, para a nossa dimensão territorial, mais do que suficiente, dispensando bem os sonhos megalómanos dos TGV.
Como virtualmente me conhece, eu sou um Alentejano que adora Trás-os-Montes e especialmente Chaves. Continuo a consultar diariamente o seu admirável blog, mas às vezes...
Um abraço amigo.


De Fer.Ribeiro a 22 de Agosto de 2017 às 20:07
Meu caro Salvador Silva, desde já obrigado pelo seu comentário. Quanto ao bairrismo já por si é exacerbado e se não formos nós a defender o que é nosso, quem o defende!?, mas dou-lhe razão ao eu ter generalizado com “os de lá de baixo”, mas considere antes essa expressão como uma figura de retórica em que “os de lá de baixo” são sempre os mesmos, e podem ser de qualquer lado, são assim uma espécie de estirpe onde os de Lisboa encaixam bem, é lá que estão os que mandam nisto tudo, e claro que também não são todos os de Lisboa, são os mesmo de sempre - tanto mais que a grande maioria dos habitantes da grande Lisboa são da província ou interior, mas esses continuam sem ser lá de baixo. Aliás também há muita gentinha de cá que pertence a essa estirpe. Dai, longe de mim de meter tudo no mesmo saco, mas penso que o meu caro Salvador Silva entendeu muito bem o que eu queria dizer.


De Salvador Silva a 23 de Agosto de 2017 às 18:36
Meu caro Fernando, é claro que o entendo, mas também quero entenda que, devido à consideração que tenho por si, não poderia deixar passar em claro algo que me pareceu sectário e não esperava, vindo de si.
Tudo Ok, continuarei a ser fiel e indefetível admirador do blog. Abraço.


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