Quarta-feira, 11 de Outubro de 2017

Nós, os homens

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III

  

Na realidade, e esta conclusão só a tirei muito mais tarde, a diferença de sexos não é assim tão grande!

 

O que se passava é que ela era muito mais nova do que eu. E não falo propriamente em anos, mas em experiência de vida. Aquelas coisas por que passamos, boas ou más, e que nos vão amadurecendo, ela ainda não tinha passado por elas. Ainda não tinha sido mãe, nunca tinha passado por um casamento que tinha fatalmente terminado, etc., etc.

 

De forma que aquilo que eu considerava uma sorte, como ter tropeçado nela num dos dias da minha vida, para ela não passava de um acaso. Tinha sido eu, mas podia ter sido outro qualquer.

 

A menina tinha uma agenda semanal preenchidíssima. Entre trabalho e lazer, tudo era importante e não abdicava de nada para estar comigo. E eu respeitava aquele horário rígido como se aquilo fosse uma organização militar e obedecia como um cordeirinho, embora nunca tivesse fundado o MEEH, a conselho do meu grande amigo.

 

Sempre que ela precisava de tempo extra, retirava-o dos nossos encontros. Olhava para o relógio em alturas que me deixavam desconfortável, mas acabava sempre por compreender. É claro que não se podia chegar atrasado a um jantar com hora marcada, fosse com quem fosse, ou a uma partida de badminton num domingo de manhã!

 

Não podemos ser egoístas nos relacionamentos, sob pena de perdermos as pessoas que amamos. Eu, ao contrário dela, já sabia disto por experiência própria pois tinha perdido a mãe das minhas filhas exactamente porque não tinha achado aceitável que ela fizesse o que lhe apetecia e desse cabo da minha vida e da das minhas filhas em simultâneo. Não soube partilhar o egoísmo da pessoa com quem vivia e por isso fiquei sem ela. Agora não ia cometer o mesmo erro, a menina fazia o que lhe apetecia e eu ficava à espera dela!

 

Havia de chegar um dia em que ela pensaria como um homem ou tivesse a minha idade ou as duas coisas e talvez aí compreendesse o que era realmente importante. Estas coisas, não adianta muito insistirmos nelas ou tentar precipitá-las, têm de vir de dentro para que depois se possam instalar de uma forma mais confortável.

 

 

Na realidade, e esta conclusão só a tirei ainda mais tarde, a diferença de sexos e de idade não era assim tão grande!

 

O que se passava é que eu gostava muito mais dela do que ela de mim. Era por isso que ela não sentia aquela necessidade premente de estar comigo, aquela urgência do que não se pode adiar, aquele querer agora porque depois pode ser tarde!

 

Estas coisas não se explicam, ou se sentem ou não! Nem sequer adianta muito dizer que nós as sentimos assim porque há sempre o argumento contrário de que há muitas formas de dizer as coisas ou que as pessoas sentem de maneira diferente. Como é que ainda há gente neste século que se atreve a dizer coisas destas! Como se nós fossemos alguns otários e não soubéssemos que a forma mais simples de dizer as coisas, é dizê-las e a forma mais simples de as sentir, é senti-las, independentemente de haver 1001 formas de umas e outras!

 

E é exactamente aqui que eu perco a paciência, com os homens e com as mulheres, que neste aspecto eu não distingo sexo nem idade, nem sequer experiência de vida, é quando me fazem de estúpido.

 

Mas até para isto há solução. Se a coisa para nós for séria, denunciamo-la, se não for fazemo-nos de estúpidos também, até a coisa ser séria e nessa altura denunciamo-la.

 

É talvez aqui que percebemos, em função de como a coisa corre a partir daqui, se andámos a perder ou a ganhar tempo. Seja em que caso for, é pacífico. Nunca vos conseguirei descrever a sensação que me provocou a cor daquela sangria com champanhe e morangos, naquela noite no bar!

 

Divinal, talvez seja a palavra que mais se aproxima!

 

E a inteligência talvez consista nisto: em determinar a altura certa, o momento exacto em que decidimos deixar de fazer de estúpidos! Digo-vos já que deve ser das coisas mais difíceis de determinar. É relativamente fácil fazer de conta, fingir que não se passa nada, que está tudo bem, então não? Um sorriso nos lábios, a anedota certa no momento crucial! Quem é que não é capaz de uma coisa destas?

 

O problema surge quando a gente começa a exigir que nos levem a sério, quando começamos a achar que merecemos dos outros o mesmo respeito que temos por eles, quando reclamamos para nós os direitos da “Declaração Universal dos Direitos Humanos”.

 

Eh pá, mas o que é que te deu, perdeste o sentido de humor ou quê? Assim não tem graça!

 

Cai-se em desgraça! Um gajo passa de estúpido a inteligente e perde a graça!

 

Ralações humanas, aqui sem gralha nenhuma no português!

 

Cristina Pizarro

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:21
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