Domingo, 1 de Maio de 2016

O Barroso aqui tão perto... Padornelos

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Como já vem sendo hábito nos últimos fins de semana, aos domingos damos uma voltinha pelo Barroso, que está aqui tão perto. Começámos a nossa incursão barrosã a partir do concelho de Chaves em direção a Montalegre, via Vilar de Perdizes. Já por aqui passaram Meixide, Vilar de Perdizes, Solveira, Stº André Gralhas e Meixedo, curiosamente todas aldeias das proximidades da raia que faz fronteira com a Galiza mas também todas elas da proximidade da Serra do Larouco. Exceção para Meixide que embora próxima da raia já fica mais distante do Larouco e exceção também na abordagem que fizemos à aldeia, pois foi muito breve, pelo que fica a promessa de uma abordagem a sério, mas ainda não será hoje.

 

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Hoje vamos continuar com a metodologia que aplicámos até aqui, com aldeias da raia e das proximidades da Serra do Larouco ou mesmo já em pleno Larouco, como é o caso da nossa aldeia de hoje que dá pelo nome de Padornelos. A única exceção é que deixámos de nos dirige a Montalegre para tomar a direção contrária.

 

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Padornelos já é uma antiga conhecida nossa. Sempre foi um nome sonante e muito badalado, começando logo em casa dos meus pais, a quem a minha mãe se referia amiúde e o meu aproveitava sempre para nos dizer que era a terra do romance “Terra Fria” de Ferreira de Castro. Mas não só, pois nos meus tempos de liceu apareceu por lá um puto castiço da minha idade, muito extrovertido e que vestia com orgulho o ser barrosão e que por coincidência tínhamos amigos de Montalegre em comum. De nome Afonso, tinha uma especial sensibilidade para as coisas da arte – pintura e escultura – com a particularidade de recorrer a materiais naturais, como tintas extraídas da cor das flores ou objetos/esculturas feitos a partir de raízes de urze e outros arbustos ou arvores, entre outros.

 

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Ao Afonso tinha-o encontrado pela última vez há coisa de vinte e tal anos com uma tenda na feira de artesanato que então se fazia no Jardim Público de Chaves. Cada vez que passava nas proximidades ou por Padornelos lembrava-me dele e perguntava sempre – que será feito do Afonso de Padornelos. Das últimas vezes que fui por lá em recolha de imagens, resolvi perguntar por ele. Pois que sim, que vivia lá com os pais, mas que ainda devia estar a dormir. Artistas! E a um artista nunca se incomoda o seu descanso. Contudo da última vez que lá estivemos, perguntámos mais uma vez por ele. Por coincidência quase em frente à casa dele. Eram 16 horas e a resposta foi a mesma – ainda deve estar a dormir, mas eu ligo-lhe a ver se atende – e atendeu e logo apareceu. Que ficara ali pela aldeia, agora com a mãe viúva e lá ia fazendo as suas coisas (esculturas). Coisas e Afonso que um dia traremos, com mais tempo, a solo, pois sou um dos fãs da sua arte.

 

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E se sou fã da arte do Afonso também o sou de Ferreira de Castro. Quis a sorte que nos meus tempos de liceu, numa fase poética, me tivesse dado para escrever umas coisas. Escrevi e um dia calhou ganhar o Prémio Ferreira de Castro, que, para além da medalha e do certificado, me ofereceu a obra completa de Ferreira de Castro. Não tardei muito e começar a lê-la.

 

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Claro que comecei pelo tão badalado romance “Terra Fria”. Além do próprio romance é impressionante como Ferreira de Castro nos faz sentir a própria aldeia onde a ação se passa, Padornelos, ao fazer-nos sentir a dura realidade da sua vida. Recordemos que o romance foi publicado em 1934 em que Ferreira de Castro observou in loco as aldeias barrosas, e em particular Padornelos, traçando-nos um retrato da vida do povo, evidenciando o sofrimento, a luta quotidiana e o modo de vida quase medieval que se fazia sentir nos inícios dos anos 30 do século passado.

 

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A aldeia de hoje já nada tem a ver com o Padornelos dos anos 30 do século passado. Alguns vestígios do que poderia ter sido, apena isso, do cenário atual já não há Leonardos  a lutar dia a dia pelo sustento da sua família. Ele a mulher, ainda sem filhos, procura em trabalhos esporádicos e principalmente no contrabando, ganhar algum dinheiro enquanto sonha para se estabelecer por conta própria com uma venda. É neste contexto que Ferreira de Castro nos descreve a atividade do contrabando, que então era o pão nosso de cada dia de contrabandistas a calcorrear o Larouco e Guardas-fiscais atrás ou à espera deles. Mas Ferreira de Castro vai mais longe. De volta a Padornelos um homem que havia estado emigrado nos Estados Unidos, o «americano» como ficam apelidados todos os que regressavam de terras americanas. Depressa começa a mostrar a sua riqueza que o leva a ser considerado um dos homens mais importantes e influentes da aldeia e é ele que dá origem ao drama que irá assolar a aldeia.

 

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“Terra Fria” é um romance que nos faz sentir uma constante solidão. Somos assaltados por imagens de uma terra desoladora, fria, onde a pobreza é a única condição conhecida e onde o rico julga ter todo o poder sobre o pobre que faz sentir em nós um sentimento de revolta. Ferreira de Castro para além de evidenciar a pobreza do Portugal profundo, neste caso o do Barroso, lança aqui uma crítica feroz ao abuso de poder do regime caracterizado no «americano» e na sua forma de agir.  Romance “Terra Fria” que passou a fita de cinema com um filme realizado por António de Campos em 1995 e protagonizado por atrizes como Alexandra Lencastre, Ana Bustorff  e Alexandra Leite, entre outra(o)s. Para quem gosta do Barroso, há dois livros que eu recomendo como de leitura obrigatória. Um é precisamente este,  “Terra Fria” de Ferreira de Castro. O outro, é do há pouco falecido Bento da Cruz, “O Lobo Guerrilheiro” . Diferentes, mas ambos muito reais quanto à vida do Barroso do século passado. Aliás as estórias que dão origem ao “Lobo Guerrilheiro” são todas elas estória reais do Barroso, e sei-o, porque antes de chegarem a livro, já eu as conhecia por serem contadas nos serões à lareira de casa dos meus pais.

 

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Mas vamos a Padornelos de hoje, sem Leonardos (que eu saiba), sem contrabandistas, sem guarda-fiscal mas com o Larouco sempre presente e com uma vida muito mais fácil que nos tempos do romance, mas ainda com o rigor dos frios ingratos de inverno, que embora os barrosões estejam habituados a ele, não deixa de ser frio, mesmo o da neve que para muitos é uma atração, para Padornelos é uma realidade que obriga os seus habitantes ao recolhimento forçado.

 

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Na página oficial na NET do Município de Montalegre, sobre Padornelos pode-se ler:

“É a referência lógica à terra fria barrosã, desde os tempos de Camilo, muito antes de Ferreira de Castro! Mas Padornelos goza de outras referências bem mais importantes (ou devia gozá-las)! Importa recordar que lhe foi concedido um foral autêntico, por D. Sancho I e confirmado, a 5 de Outubro de 1266, por D. Afonso III. Foi ‘’conselho sobre si’’, isto é, gozava dos privilégios que aos grémios municipais se concediam: “Os homens de Padornelos devem meter juiz e serviçal e mordomo e clérigo” E assim, por este documento que substituía o de Sancho I, se conferia existência jurídica ao rudimentar concelho, com magistraturas próprias. Dessas glórias antigas (foi depois uma das honras fronteiriças de Barroso) sobeja ainda o facto de ter direito a capitão residente para poder arregimentar homens, dos 18 aos 60, para a defesa nacional, sempre que Portugal fosse acossado.”

 

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Por sua vez no Arquivo Distrital de Vila Real sobre Padornelos pode-se retirar a seguinte informação:

“A freguesia de Padornelos esteve anexa à freguesia de Santa Maria de Montalegre, tornando-se depois reitoria independente.

Foi-lhe concedido foral por D. Afonso III, a 5 de Outubro de 1205.

Em 1839 surge na comarca de Chaves e, em 1852, na de Montalegre.

Freguesia do concelho de Montalegre composta pelos lugares de Padornelos e Sandim.

A paróquia de Padornelos pertence ao arciprestado de Montalegre e à diocese de Vila Real, desde 22 de Abril de 1922. O seu orago é Santa Maria.”

 

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Ora cá estão mais uma vez as contradições da História. Neste caso não é que seja importante, pois o essencial é historiado corretamente, que no caso é o foral que foi concedido a Padornelos.  Noutros casos a coisa é bem mais séria e altera a realidade dos acontecimentos. Mas para apoiar aquilo que eu digo, reparem que no sítio oficial na NET do Município de Montalegre se diz que o foral foi concedido por D. Sancho I e confirmado a 5 de Outubro por D. Afonso III, enquanto no Arquivo Distrital diz que o foral foi concedido por D. Afonso III, no mesmo dia 5 de Outubro, mas 61 anos antes, em 1205. Isto foi um pequeno aparte só para reforçar que nem tudo que está reproduzido na história está correto, e vem-me sempre à lembrança daquilo que a história diz sobre o Silveira e o Pizarro nas Segundas Invasões Francesas em Chaves.

 

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Por muita palavra que aqui se deixe sobre os locais que visitámos, a realidade, o viver estes locais ao vivo é outra coisa. As palavras têm a força que têm e as imagens, idem, aspas, mas ainda não há palavras nem imagens para fazer sentir os sons , os aromas e o tempero do ar a deslizar  nas nossas faces, principalmente estando na terra fria onde o ar é sempre diferente.

 

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E como o post já vai longo vamos ficar por aqui, para já, pois será sempre com gosto que regressaremos a Padornelos, não só pelo cozido à portuguesam, que isso é outra história, mas pelo ambiente, pela Serra do Larouco, pelo forno do povo, a igreja, a capela, a caso do sino ou do boi, pelo casario típico que ainda mantém a sua integridade e pela tais coisas que as palavras e a imagem das fotografias não conseguem transmitir e também para revisitar os amigos como o Afonso de Padornelos e a sua arte.

 

Como  de costume ficam os sítios da net consultados para recolha de informação:   

http://digitarq.advrl.dgarq.gov.pt/details?id=1066822

http://www.cm-montalegre.pt/

http://www.jfmeixedo.com/

 

Anteriores abordagens deste blog a aldeias ou temas do Barroso:

A Água - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-a-agua-1371257

Gralhas - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-gralhas-1374100

Meixedo - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-meixedo-1377262

Solveira - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-solveira-1364977

Stº André - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-sto-andre-1368302

Vilar de Perdizes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1360900

Vilar de Perdizes /Padre Fontes - http://chaves.blogs.sapo.pt/o-barroso-aqui-tao-perto-vilar-de-1358489

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 22:43
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8 comentários:
De marco praça a 3 de Maio de 2016 às 14:30
Boa tarde
Começo por elogiar o seu blog e a qualidade das fotos com que nos presenteia. Não podia deixar de comentar este post sobre Padornelos, o meu lugar de eleição não apenas na magnífica região de Barroso, mas a nível nacional. Desde que conheci Padornelos, tenho regressado todos os anos, completamente afeiçoado ao lugar. Vou sempre pelo inverno, sou contemplado por dias gélidos, com muita neve e saraiva e sempre temperaturas negativas.
Em Fevereiro conheci o Afonso num agradabilíssimo serão ao calor do borralho. É sem dúvida uma figura incontornável de Padornelos.
Estou ansioso para regressar, conhecer in loco a sua obra e poder estar novamente à conversa com ele, na esperança de me tornar mais conhecedor dessa terra mágica que é Padornelos.
Tenho um significativo levantamento fotográfico da aldeia em dias de neve e encontro-me a desenvolver um trabalho de investigação sobre a região, se for do seu interesse, comunique.
Com os melhores cumprimentos


De Fer.Ribeiro a 4 de Maio de 2016 às 00:16
Olá Marco
Obrigado pelo seu comentário e claro que estou interessado no seu trabalho sobre Padornelos/Larouco/Barroso, mas sobre esse assunto por favor entre em contacto comigo por mail; ribeiro.dc@gmail.com
Cumprimentos

Fer.Ribeiro


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