Quarta-feira, 26 de Julho de 2017

Ocasionais

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“Cá do alto do meu pedestal”

 

“O homem julga-se

a «medida de todas as coisas»:

o mundo sabe que o homem

 não passa de um verso

 na Odisseia da Natureza”.

-Will Durant-

 

É sabido que um texto longo, e, particularmente, em Blogues, torna-se cansativo para os leitores, e, particularmente, para os apressados visitantes.

 

A Internet oferece-se tantos regalos, em tal quantidade e tão variado paladar, que os «aproveitadores» se contentam em dar uma dentada aqui, uma olhadela acoli, ou ...uma apalpadela acolá, e já ficam consolados com tanta fartura.

 

Assim, fartos e eufóricos, resumem a sua apreciação à frase, à palavra ou ao palavrão que maior ardência deixou no seu paladar ...   ou no seu contra-gosto.

 

Fico feliz quando os meus leitores se dizem divertidos com os meus textos.

 

Mais feliz ficaria se, além de divertidos,  tivessem ganho um bocadinho de entusiasmo pela História, um cibinho pela Literatura, um migalho pela Política (com maiúscula), um «isquinho» pela Filosofia, e por deitarem um olho à Física (Hermenêutica?! Credo, cruzes, canhoto!)!

 

Lamento apenas que, tantas vezes, tenham confundido a árvore, ou a carvalheira, com a floresta. Isto é, tomassem a nuvem por Juno, e, onde se fala de um, tivessem lido um milhão.

 

Mas, como entendo que um texto, depois de editado e lido por outros já não é só propriedade do autor, pois aos leitores também passa a pertencer, a liberdade de cada um o interpretar de acordo com a altura e a profundidade do seu conhecimento, da sua sabedoria, do seu preconceito e da sua crença é legítima.

 

Como autor, apenas lamento a precipitação de doutas inteligências na interpretação do que escrevo.

 

A tradução leviana e viciosa embalada e estimulada por preconceitos suportados mais pela conveniência do que pela convicção ou evidência da realidade inspirou um «bitaite» de um divertido comentador   -  “Há algum valente que se queira bater com outro valente’”   -  a quem respondo  com Étienne de la Boétie:

 

- “Que duas, três ou quatro pessoas não se defendam de um só, coisa estranha é, mas não impossível porque lhes pode faltar a coragem.

 

No entanto, que cem ou mil ou uns milhões suportem o jugo de um único, não se deve mais à falta de brio e à apatia do que à falta de valor e de ânimo?”.

 

Permito-me lembrar que mostrar “uma interpretação como mais provável à luz do que sabemos é diferente de mostrar uma conclusão como verdadeira.

 

Há uma substancial diferença de conceito de «portugueses» e de «Povo» entre mim e alguns dos meus leitores.

 

Para alguns,  só há «Povo» e «reaccionário»; português «povo» e português «reaccionário».

 

Não é difícil vislumbrar-lhes o tique de «complexo de esquerda» pela lienearidade das conclusões tão apressadas quão oportunistas, para aproveitamento glosado dessa fatalidade psicológica de «esquerdalhismo». 

 

Quando me for possível, estudarei mais pormenorizadamente o monumento arquitectónico  da sapiência dos meus leitores mais, assim-assim e menos divertidos , e fá-los-ei entrar como suplemento das minhas Crónicas ou dos meus Contos, tornando assim mais aprimorada, erudita e meritória a minha escrita, e justificado o apreço e a conta em que os tenho!

 

Em (pré) época de eleições, pretendi em “O quark e o pavão” pôr em representação uma dupla realidade social, humana, em relação à atitude política consumada no voto, representação essa suportada na ««natureza psicológica» do homem   -   mais «aquisitiva», numa maioria; e mais «especulativa», numa minoria.

 

Ponderando na realidade e na voz corrente acerca do miserável gabarito ético e intelectual dos «governantes abrilístico-democráticos», por um lado, e na precaridade de consciencialização política (e mesmo democrática),  consequência da «longa noite fascista, de 48 anos», que a «longa madrugada de Abril, de 42 anos», coitada, coitadinha, ainda não dissipou, até parece que só o «Povo» ou seja, ”soldados, marinheiros, operários e camponeses”, e não os outros, é que tem o direito de voto e o de exprimir opinião   -  democracia para o «Povo», ditadura para ...ora, quem não é «Povo» é..... reaccionário!

 

E assim, a crença substitui e arrasa a capacidade de análise objectiva das preocupações ou problemas políticos que, quer em período eleitoral, quer na vida corrente, se apresentem aos cidadãos.

 

Espero que os divertidos comentadores continuem a divertir-se muito. Porém, um poucochinho mais de atenção ao que está escrito, e, uma fugazinha ao estudo e compreensão de conceitos aqui, neste e noutros  textos, expostos, ficar-lhes-ia muito bem: o divertimento seria mais entusiasmado e a compreensão dos textos menos leviana, eliminando o risco de me atribuirem o que não escrevi.

 

Mas, se o equívoco lhes serve bem para alimentar a sua vaidade pessoal, os seus preconceitos e as suas crenças, e compensarem-se dos seus complexos, dos meus escritos aproveitem todos os parágrafos, pontos e vírgulas para se consolar.

 

Sei que todos os meus leitores sabem que num discurso escrito, «a intenção do autor e o significado do texto deixam de coincidir».

 

“É indispensável esforço mental para passar do que o autor disse para o que o autor  queria, ou não queria, dizer”.

 

Num mundo cada vez mais apressado, não (me) admira que leitores como aqueles que mais se divertem com  as leituras dos meus «Pitigramas» tenham posto de lado a compreensão e ficado pela conjectura.

 

A unilateralidade está implícita no acto de ler. Daí a passagem para aquela.

 

 “Cá do alto do meu pedestal”, saúdo todos os leitores dos meus textos, e, especialmente, os leitores e comentadores divertidos.

 

 

M., sete de Julho de 2017

Luís Henrique Fernandes

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:47
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