Sábado, 6 de Janeiro de 2018

Pedra de Toque

pedra de toque copy.jpg

 

O meio da noite

 

Da noite das pessoas reconhecem o princípio e o fim que termina coma a manhã radiosa, o nascer do dia.

 

Quando há meses criei o hábito de, “passar pelas brasas” ao fim da tarde, descobri o meio da noite, esse período mágico onde desaguo feliz, prenhe da paz interior, que há muito não conhecia.

 

Acontece que, depois de ¾ de horas de sono chego ao meu lugar de eleição na hora do sossego – o meio da noite.

 

No fundo do silêncio encontro o céu com estrelas brilhantes, cometas dançando para meu fascínio.

 

A memória entra em turbilhão e traz-me os amigos, os amores, os vivos e os mortos, com quem procuro entender-me, aconselhar-me, questionando-os, escutando-os.

 

Ele, o que nasceu em Belém, que morreu na cruz – o grande castigo na época -, também para os corajosos, para os dignos e para os libertadores, escuta-me e dá-me a palavra exata, Serena-me. Só não aparece no meio da noite porque não ressuscitou. Então eu levito e entro no espaço.

 

Aí ouço a música de todos os géneros, de todas as latitudes. Não passo, nem sonho, sem música.

 

Hoje uma orquestra cheia de talentos tocou para mim o bolero de Ravel. Dancei com o povo em êxtase de mãos estendidas que, escutava em silêncio no meio da noite.

 

Nesse momento deixei o meu poiso e subi Olimpo. Aí ouvi os que entoavam o amor, a solidariedade, a saudade.

 

O sussurro das águas correntes era música celestial para os meus ouvidos, lindamente sublinhando os versos que ia dizendo.

 

Voltei então ao meu lugar de eleição.

 

O frio faz-me procurar o calor humano que me traz acalmia.

Do sítio dei um salto a Coimbra, percorrendo Lusa Atenas de mão dada com amiga o romantismo dos recantos e lembrei também os punhos em crise dos companheiros de luta.

 

A ti mulher de outrora, apertei a cintura e colei-me com ela bem ao teu corpo no baile da faculdade.

 

Os camaradas de guerra na imensidão de África com muitas gargalhadas e sofrimento, apareciam quando solicitados.

 

Da última vez invadiu-me o cheiro e o sabor do Natal, a ternura da família, o amor sem limites.

 

A vida no dia seguinte vai continuar.

 

E da próxima vez que repousar no meio da noite quero que tu venhas luminosa para contigo viajar longamente pelo sono e pelo sonho parando tão só na sede, na fome, no cansaço.

 

Quando vieres de novo traz os teus olhos.

 

A chuva e o vento batem nas vidraças.

 

Gosto tanto de ti…

 

António Roque

´
publicado por Fer.Ribeiro às 02:55
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