Segunda-feira, 24 de Outubro de 2016

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312 - Pérolas e diamantes: A Piada Infinita

 

De facto, A Piada Infinita (Infinite Jest, no original) é mesmo um livro grande, ou um grande livro, se preferirem. Ou melhor ainda: o calhamaço de David Foster Wallace é um livro enorme. E quando digo enorme é enorme mesmo. Em todos os sentidos.

 

A edição portuguesa (Quetzal) tem 1198 páginas, composto em caracteres Sabon, 1100 páginas em tamanho 10, e as outras 98 compostas por notas a tamanho 8, quando não a 6.

 

Segundo o Sunday Telegraph ainda não inventaram uma definição para aquilo que ele escreveu.

 

Apesar de sofrer de problemas de depressão (suicidou-se em 2008, com apenas 46 anos), DFW escreveu uma comédia tresloucada, onde misturou várias e pertinentes reflexões filosóficas, sobre os vícios da nossa sociedade, sobre as relações familiares e o papel do entretenimento nas nossas vidas.

 

David Foster Wallace estudou Inglês e Filosofia e, durante a adolescência, foi praticante federado de ténis, atividade que viria a ser essencial na sua obra. Era admirador de Thomas Pynchon. Eu, pela parte que me toca, acho-o bem melhor do que o seu putativo mestre.

 

A Piada Infinita é uma obra de um fôlego imenso, que escapa a qualquer definição, parecendo mesmo uma obra vinda de um outro universo diferente do nosso. O homem escrevia como quem respira.

 

Uma das partes que mais me tocou é um diálogo, versando a tristeza, estabelecido entre os dois irmãos (Hal e o deficiente Mario) sobre o seu irmão mais velho (Orin) e o resto da família Incandenza: uma mãe invulgarmente bela e um pai genial que se suicidou enfiando a cabeça dentro de um micro-ondas.

 

Mergulhar de cabeça, ou melhor, com cabeça, n’A Piada Infinita é uma experiência alucinante e arrebatadora. A sua ação passa-se à volta de uma Academia de Ténis e um centro de reabilitação de alcoólicos e toxicodependentes. No centro da narrativa encontra-se um filme realizado por James Orin Incandenza Jr., intitulado precisamente Infinite Jest, do qual se diz que deixa os espectadores num estado de apatia permanente, incapazes de se preocuparem com outra coisa que não seja ver de novo o filme.

 

Para Hal, algumas pessoas quando mentem ficam muito quietas e pensativas e o olhar delas adquire uma grande intensidade e concentração. Dessa forma tentam dominar a pessoa a quem mentem. Outras começam a ficar agitadas e pouco fiáveis, alternando as mentiras com pequenos movimentos e sons autodepreciativos, como se a credulidade fosse a mesma coisa que a pena. E existem outras que escondem a mentira com tantas voltas e apartes que tentam fazer passar a mentira de forma despercebida no meio de toda a informação supérflua que nos transmitem. Emitem uma espécie de ruído incomodativo.

 

Há ainda os mentirosos kamikazes, que nos contam uma mentira surreal e basicamente inacreditável, para de seguida fingirem uma crise de consciência, retratando-se dessa mentira original e logo nos obsequiaram com outra que querem impingir-nos realmente, para dessa forma a mentira verdadeira nos parecer uma espécie de cedência, um ajuste com a verdade. Felizmente, lembra-nos Hal, esses mentirosos são fáceis de detetar.

 

Existe uma variante de mentirosos que são mestres em complicar demasiado as mentiras, sustentando-as com criações muito elaboradas, repletas de detalhes e aditamentos. Esses são sempre apanhados.

 

Desta variante, surgiu uma análoga, que é o mentiroso que dantes complicava muito as coisas mas que acabou por se aperceber que as suas criações muito elaboradas o lixavam sempre. Por isso mudou de estilo e passa agora a mentir de forma abreviada e esparsamente, sugerindo aborrecimento, como se estivesse a dizer uma verdade tão óbvia que nem vale a pena perder tempo com isso.

 

Existem também pessoas que simplesmente são demasiado boas, demasiado complexas e idiossincráticas, que proferem mentiras muito próximas do cerne da verdade para conseguirmos perceber a diferença.

 

Hal Incandenza, nos seus dezassete anos, acha que acredita que os únicos monstros verdadeiros talvez sejam os mentirosos que não conseguimos perceber que o são. Aqueles que não revelam nada.

 

João Madureira

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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