Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017

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324 - Pérolas e diamantes: incarnar segundo as leis

 

Quando visitei pela primeira vez o museu Quai d’Orsay e observei um quadro de Vicent van Gogh senti-me como Po, o Panda do Kung Fu, quando entrou no átrio proibido onde está guardado o Rolo do Dragão, viu uma obra preciosa de pintura sacra e exclamou, com veneração, como não podia deixar de ser: “Nunca vi senão cópias desta pintura”, momento dignamente ascético e com uma referência à distinção da cópia e da cópia da cópia.

 

Reconheço que senti gozo e prazer, numa leitura freudiana, claro está. Isto fez-me lembrar a oposição entre os pelagianos (o pelagianismo foi um conceito teológico que negava o pecado original) e Agostinho de Hipona. Para os pelagianos, o gozo era em si mesmo uma coisa boa que podia ser mal usada, enquanto para Agostinho, o gozo era uma coisa má, mas que, no interior do casamento, podia ser bem usada.

 

Este mesmo dilema sentiram os militantes comunistas perante a atitude a tomar relativamente à “libertação sexual”, oscilando entre dois extremos: de um lado estavam os wilhelm-reichianos (pelagianos), que insistiam na capacidade libertadora da sexualidade livre e do outro situavam-se os marxistas-leninistas ascéticos (agostinianos), que zurziam na “sexualidade livre”, considerando-a como um fenómeno ilustrativo da decadência burguesa, tendo como propósito confundir o povo e desviar a sua energia dos objetivos revolucionários.

 

No fundo, um corpo limpo e roupas asseadas podem, apesar de tudo, esconder uma alma suja. Afinal o heroísmo e o erotismo podem fazer parte da perversão humana.

 

Em Gallipoli, Mustafa Kemal Ataturk disse às suas tropas: “Não vos dou ordem de lutar, dou-vos ordem de morrer. Enquanto morremos, outras tropas e outros comandantes poderão chegar e render-nos.”

 

Como diz Slavoj Zizek, o sacrifício do reagrupamento para a batalha decisiva “é a última tentação a que devemos resistir, a última máscara com que uma atitude não ética se disfarça como se fosse a própria ética”.

 

Marcuse bem nos avisou: “A liberdade é a condição da libertação”. Por outras palavras: “Se transformarmos a realidade tendo como objetivo realizarmos os nossos sonhos, sem transformarmos esses nossos sonhos, terminaremos, mais cedo ou mais tarde, por regressar à realidade anterior.”

 

Quando nos confrontam com as crianças que morrem de fome e nos dizem, por exemplo, que com o preço de dois cafés podemos salvar a vida de uma delas em África, a verdadeira mensagem é a de que pelo preço de duas bicas, cada um de nós pode continuar a levar a sua vida agradável e relativamente ignorante, não só livre de problemas de consciência, mas até consolado pela participação ativa na luta contra a fome.

 

No século IV, quando o cristianismo logrou impor-se como religião do Estado do Império Romano, Hilário, o bispo de Poitiers, avisou os seus congéneres: “O imperador não vos traz a liberdade pondo-vos na prisão, mas trata-vos com respeito no seu palácio e assim torna-vos seus escravos.”

 

E a radicalidade ainda torna as coisas mais complicadas. Durante a Revolução Cultural, os Guardas Vermelhos levaram tão a sério o apelo à auto-organização popular fora do enquadramento do Estado-Partido, que o Partido Comunista reagiu organizando os seus Guardas Escarlates, que pretendiam ser ainda mais vermelhos do que os Guardas Vermelhos, embora, evidentemente, ao serviço do Partido.

 

Em 2007, os órgãos de informação liberais do ocidente tiveram motivo para rir, pois a Administração dos Serviços Religiosos do Estado chinês publicou a “Ordenação Nº 5”, uma lei destinada a entrar em vigor no mês seguinte. O seu perfil abrangia “as medidas administrativas a tomar quanto à reencarnação de budas vivos no budismo tibetano”.

 

Alertava-se o povo para o facto deste “importante passo de institucionalização da administração da reencarnação”, definir os procedimentos a observar por quem pretenda reencarnar, ou seja, resumindo: proíbe-se os monges budistas de reencarnarem sem autorização do governo, pois ninguém, fora da China, pode exercer influência sobre o processo de encarnação, e apenas os mosteiros chineses podem solicitar as necessárias autorizações.

 

Afinal o comunismo ainda não desistiu de controlar tudo. E se já orienta o próprio capitalismo, só lhe falta mesmo dirigir a incarnação.

 

Deus que se cuide, pois os camaradas chineses já andam no seu encalce. 

 

 João Madureira

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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