Segunda-feira, 31 de Julho de 2017

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353 - Pérolas e diamantes: O fuso da Branca de Neve

 

Não é fácil crescer pobre, pois é-se impregnado de uma característica aguda que os homens letrados denominam como prudência. Aprende-se que o altruísmo não passa de um ramo de flores ornamentais. O que importa é lavrar o terreno que sobra para criar os alimentos. É como se a sensatez fosse uma desordem excecional.

 

A pobreza moderna é como um pai inflexível: castiga com os olhos.

 

Por vezes encontra-se um trevo de quatro folhas e pensamos que nos foi enviado para dar sorte. O meu perdi-o antes de chegar a casa.

 

Os passeios pelo campo e os amanhãs que cantam (cantavam?) são boas imagens para a escrita.

 

As coisas imaginárias são belas, mas têm um problema: dissipam-se porque são sonhos.

 

Por vezes confundimos tudo. Podemos até confundir as ideias, mas nunca devemos confundir os ideais. 

 

Winston Churchill bem nos avisou que há pessoas que mudam de ideias para não mudarem de partido e há pessoas, como foi o seu caso, que mudaram de partido para não mudarem de ideias.

 

Por isso se costuma confundir experiência social e política com o que afinal não passa de passes de prestidigitação.

 

Claro que os homens que nunca mudam de partido, e mudam frequentemente de ideias, afirmam, sem pestanejar, que são gente de verdade, gente responsável, de bom senso e coerente.

 

Um meu amigo, sempre que lhe lembram que vivemos num sistema democrático, responde sem vacilar: “Em política, só é preciso mentir com convicção.”

 

Desde pequeno que me quiseram fazer acreditar em anjos. E mesmo amá-los. Estou em crer que desiludi quem tanto persistiu na fantasia. A mim, o que me fascina, são os homens e as mulheres que são capazes de levantar voo.

 

Pensa-se que o mérito é um mistério. As grandes novidades da humanidade aparecem sempre sugeridas pelas falhas do que se denomina por progresso. Mas as palavras não conseguem amortecer as quedas. Por incrível que pareça, a humanidade continua envolta num jogo de extermínio.

 

Eu sofro da doença da dúvida. Outros preferem forçar o real para que se ajuste às suas conceções. Feitios. A cada um a sua mania.

 

Afinal, a salvação é o estado mais alto da poesia. Alguns, no entanto, confundem impotência com amor e escrevem poemas de adultos como se fossem crianças. A cobardia afasta-nos (afasta-os?) da dimensão da verdade. A mediocridade é uma erva daninha que se disseminou como os cravos vermelhos na alvorada tosca de Abril.

 

A minha mãe ensinou-me que não devemos fazer aos outros o que não queremos que nos façam a nós. Isto também é válido para os outros. Esses outros que se pensam uns. Esses outros que são presas fáceis do ciúme, da inveja e da má-língua. Foram ensinados ao som da sinfonia da desordem, do caos e da conspiração. E da hipocrisia.

 

Deixaram-se apanhar pela doença da intimidação. Pensam que nela adquirem o grande poder da linguagem. Mas são apenas gagos falando num comício de surdos.

 

De facto, as suas antevisões de um futuro risonho, do qual se dizem profetas e obreiros, apenas correspondem a um imaginário de criança.

 

Conspiraram para impossibilitarem o triunfo do líder dos seus porque eram os segundos na fila da sucessão. Giram estonteados em volta de si mesmos. São como os cães que perseguem a própria cauda.

 

Costumam interpretar, porque lhes interessa, o trabalho persistente e a independência de espírito como arrogância. Pensam sempre em frente do espelho. Espelho meu, espelho meu, haverá líder mais bonito do que eu?

 

Parecem a Alice no país da intriga. Vivem o fenómeno político e social como sonâmbulos das boas causas e dos melhores efeitos. O diploma que exibem como válido corresponde apenas ao curso partidário das universidades de verão que angariaram tendo em vista iludirem os incautos.

 

Sofrem da síndrome da Branca de Neve, dormem durante quatro anos decididos a acordarem ao fim desse período de tempo, e até dispostos a acordarem o povo, sem se darem conta de que quem dorme são eles mesmos. O povo já lá vai à frente. O povo levanta-se sempre cedo para ir trabalhar. Além disso, ninguém consegue ser ao mesmo tempo a bela dormente e o príncipe encantando. Nem nas histórias infantis.

 

Nesta história de sonâmbulos o beijo é mesmo o do Judas.

 

Gosto de os ver andar nos carrocéis do poder. Sempre às voltas, sentados no cavalinho de pau, imaginando-se os napoleões das suas tribos.

 

Sim, acho que merecem alguma coisa, que o povo lhes ofereça um pauzinho com algodão doce e os presenteie com uma nova ficha para poderem continuar a rodopiar em vão, agora montados na girafinha de plástico ou num pónei amarrado a um poste. 

 

A hipocrisia deve ser recompensada.

 

João Madureira

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 09:00
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