Segunda-feira, 13 de Novembro de 2017

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367 - Pérolas e diamantes: O Vendido

 

Ainda se escrevem livros assim: irónicos e dolorosos, hilariantes e cruéis, satíricos e mordazes. Provavelmente o livro de Paul Beatty é das coisas mais interessantes que li ultimamente. Dwight Garner escreveu no The New York Times que as primeiras cem páginas de O Vendido são as mais cáusticas e mais tesas que leu num romance americano nesta última década, pelo menos.

 

Me, o personagem afro-americano mais azarento do universo ficcional recente, é exemplarmente educado por um pai violentamente excêntrico e sociólogo obcecado pela questão racial que não desiste de lhe inculcar uma cultura de resistência.

 

Ensina-lhe princípios sociológicos estruturantes. Fala-lhe, por exemplo, do “efeito espectador” que ensina que quanto mais pessoas estejam perto para dar uma ajuda, menos provável é que ela seja prestada. Só que o pai de Me desenvolveu a hipótese de que tal efeito não se aplicava aos negros, uma raça cuja sobrevivência, na sua perspetiva, sempre dependeu da entreajuda em momentos de necessidade.

 

Por isso obrigou o seu filho a permanecer parado num dos cruzamentos mais movimentados do seu bairro, com notas de dólar a espreitarem-lhe dos bolsos, com um aparelho eletrónico moderno e brilhante enfiado nas orelhas, com um colar de ouro estilo hip-hop ao pescoço, e, inexplicavelmente, também com um conjunto de tapetes personalizados para um Honda Civic pendurados no braço como um pano no braço de um empregado de mesa, e, enquanto as lágrimas lhes corriam pela face, o seu próprio pai assaltou-o. Bateu-lhe diante de uma multidão de espectadores que não assistiram durante muito tempo. A indiferença, pelo vistos, não tem cor.

 

Ia o assalto ainda em dois murros na cara quando algumas das pessoas se aproximaram do assaltante e, em vez de auxiliarem a vítima, ofereceram ajuda ao agressor. Ajudaram a dar-lhe uma sova, começando a desferir cotoveladas e golpes de wresteling no pobre aprendiz até o porem inconsciente.

 

Quando o pobre e infeliz Me começou a recuperar a consciência, ainda os seus atacantes, suados e com o peito a arquejar, tentavam recobrar do seu esforço e do respetivo altruísmo.

 

A caminho de casa, o “paizão” pôs-lhe um braço consolador sobre os ombros doridos e deu-lhe um sermão sobre como ele não teve em conta o “efeito manada”.

 

Dava-lhe também cursos intensivos de desenvolvimento infantil tentando reproduzir o estudo da consciência da cor em crianças negras dos Drs. Kenneth e Mamie Clark, utilizando bonecos brancos e negros, mas numa versão mais revolucionária.

 

Um dia apresentou-lhe dois cenários com subtexto sociocultural para saber qual deles curtia mais.

 

O Cenário I apresentava o Ken e a Barbie Malibu trajados com fatos de banho a condizer, ostentando as respetivas máscaras e óculos de mergulho, a relaxar em frente à piscina da Casa do Sonho.

 

No Cenário II, aparecia Martin Luther King Jr., o Malcolm X, a Harriet Tubman e um sempre em pé oval e castanho correndo e balançando-se num matagal pantanoso, fugindo a sete pés de uma matilha de pastores alemães que chefiavam uma multidão armada composta pelos G.I. Joe do Me vestidos com roupas do Ku Klux Klan.

 

O rapaz ficou confuso, mas tirou a conclusão óbvia: os brancos ganham porque possuem acessórios melhores.

 

Resumindo e concluindo, depois de todas as experiências falhadas, o pai queimou as folhas com as suas conclusões na lareira. O seu filho, “estatisticamente insignificante”, destrui-lhe todas as esperanças. Me foi para o seu pai uma experiência social falhada.

 

Passou então a dedicar-se ao bairro. Apesar de, segundo o seu filho, não demonstrar muito jeito para cavalos, era conhecido em Dickens como Encantador de Pretos. “Sempre que um mano que tinha «perdido a puta da cabeça» precisava de ser convencido a descer de uma árvore ou de um precipício, ele era chamado. Apenas se fazia acompanhar da sua bíblia da psicologia social, The Planning of Change de Bennis, Benne e Robert Chin, um psicólogo sino-americano lamentavelmente subestimado.”

 

As pessoas achavam que era o seu altruísmo o que lhe permitia aproximar-se tanto dos tresloucados, mas para o seu filho, o segredo residia na sua voz que possuía um tom grave de doo-wop, pois falava em fá sustenido.

 

Mais de uma vez Me teve vontade de perguntar ao seu pai porque é que nunca lhe falou no mesmo tom reconfortante que usava com os seus “clientes”, mas nunca o fez porque sabia que, “em vez de obter uma resposta, ia levar com o cinto”, e o seu processo de cura “ia envolver mercurocromo, e, em lugar de ficar de castigo, teria uma sentença de entre cinco e três semanas de imaginação ativa junguiana”.

 

O Vendido foi vencedor do Man Booker Prize de 2016 e “é uma sátira mordaz que desafia os pilares sagrados da vida urbana, da Constituição norte-americana, do movimento dos direitos civis, da relação pai-filho, feita à medida para o despontar do século XXI”.

 

João Madureira

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:17
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