Sexta-feira, 21 de Julho de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis – sem notas - 7

 

Era um velhote gasto pelos anos e pelas minas do Pejão. A inevitável silicose dificultava-lhe a respiração. Reformado há muitos anos, não se livrava dos venenos que se tinham depositado no labirinto dos seus brônquios, quase que reproduzindo nos pulmões uma réplica, em miniatura, das minas de carvão.

 

Tinha também outros problemas de saúde, principalmente uma rara doença que lhe enfraquecia o sangue, ao mesmo tempo que tornava negras as suas urinas, como se também elas tivessem o pó do maldito carvão. Não era o caso. O certo é que dependia de transfusões regulares de sangue.

 

Nessa época, acreditava-se que lavar os glóbulos vermelhos com soro fisiológico, melhorava os resultados da transfusão. Para isso era necessário um delicado e demorado processo técnico, que tinha uma vantagem: dava-me a mim, então jovem interno, tempo para conversar com o velhote e com a sua esposa.

 

Esta, apesar de passados os oitenta anos, era ainda uma mulher de bonitas e delicadas feições. Mas o que impressionava nela, o que me chamava mais a atenção, era a dedicação, a paciência, o carinho que dedicava ao marido. A forma como lhe dava de comer e lhe limpava a boca e as migalhas que lhe caiam das pernas emagrecidas. A tenacidade com que insistia em explicar-lhe as coisas, apesar da sua surdez e de um certo alheamento. A energia que tinha para o ajudar a ir ao quarto de banho, ou como desencantava umas cuecas, ou umas calças, de reserva, sempre que a próstata do marido lhe fazia uma cruel partida.

 

Apenas deixava escapar, de vez em quando, uma expressão "Oh valha-me Deus, Manel!", como uma ténue forma de protesto, não tanto contra ele, mas contra o destino deles.

 

Num momento em que estávamos só os dois, eu e ela, não resisti a perguntar-lhe: "Minha senhora, como tem tanta paciência e tanta dedicação ao seu marido?". Ela olhou para mim, com um indisfarçável orgulho, que lhe fez brilhar os olhos, e disse-me: "Sabe doutor, ele enquanto pôde, tratou-me sempre como se eu fosse uma Princesa!".

 

Manuel Cunha (Pité)

 

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Sexta-feira, 16 de Junho de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis - sem notas - 6

 

Não tinha sido feliz com o marido. Todo o encanto tinha terminado com o casamento. Não sentia mais afectos, nenhuma ternura, ausência de alegria em comum. Afastamento progressivo, até do ponto de vista físico. Mal se tocavam, excepto nas escassas vezes que acasalavam. Os beijos tinham secado. Às vezes chegava lhe quase uma repulsa.

 

Cedo percebeu que ele mantinha relacionamentos extraconjugais. No fundo, pouco lhe importava. Até agradeceu a redução, até à extinção, dos seus acasalamentos.

 

Nunca lhe tinha batido, mas a violência psíquica era crescente. Desprezo, críticas constantes, desconsiderações de cada uma das suas qualidades.

 

Nasceu nela também o ódio, silencioso, quase clandestino. Deu por si a desejar a sua morte, vendo nela a única hipótese de ser livre.

 

Naqueles tempos, ainda para mais naquela ilha, o divórcio era, para as mulheres, uma proscrição. Naquelas mentalidades, quase se confundia a divorciada com uma espécie de prostituta, em especial nas famílias pobres e humildes. Divórcio só era aceitável para uma mulher rica, das boas famílias. A essas tudo era tolerado, pelo menos nas aparências.

 

Fui construindo uma relação mais pessoal ao longo das sucessivas consultas, a que a sua doença crónica obrigava. A diferença de idades permitia-lhe abrir-se mais comigo.

 

O marido nunca esteve presente, nem quando ela foi internada por uma tentativa grave de suicídio.

 

Um dia, ao marido, foi-lhe diagnosticado um tumor avançado do esófago. Escassas perspectivas, rápida degradação.

 

A Dona A. expunha as suas perplexidades: "Sabe doutor, não sinto pena nenhuma dele, mesmo sendo ele o pai dos meus filhos".

 

Expliquei-lhe que tal era humano e natural, que não tinha de se sentir culpada de nada. Ficou mais tranquila. Depois da morte do marido, confessou-me sentir alivio.

 

Posteriormente, ficou apreensiva pela tristeza de uma das filhas, atingida fortemente pela morte do pai. Apesar dos maus tratos deste se estenderem também aos filhos, esta tinha conseguido um pouco mais de proximidade com ele. A tristeza dela foi-se agravando, angustiando a mãe, que se sentia revoltada, porque o marido mesmo depois de morto, lhe prejudicava a vida.

 

A senhora A. sentia-se finalmente livre mas suspeitava que, na tristeza da filha, estava envolvido o "espírito do marido": " Tinha encostado".

 

Sentindo-se liberta e com coragem, foi pela primeira vez visitar a campa do marido. Encontrando-se a sós, ordenou-lhe que desencosta-se da filha, porque senão ela excomungava-o. Quando me estava a confidenciar isto, disse de uma forma original: " Oh senhor doutor, que eu nem sei como é que se excomunga um morto. Mas ... de certeza que está na Internet!"

 

Tanto quanto sei, a filha vive hoje feliz.

Manuel Cunha (Pité)

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Sexta-feira, 19 de Maio de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis - sem notas - 5

Sobre o amor

 

Era uma enfermaria daqueles tempos, ampla e com grandes janelas, rasgadas na parede voltada para o sul. Várias camas, muita luz. Ala de mulheres, mais convívio do que intimidade.

 

Estava no começo da carreira e transbordava de entusiasmo humano. Gosto em ouvir cada história, atento a cada novidade clínica.

 

Chamou-me em especial a atenção, um velhinho digno, quase sempre sentado ao lado da cama da sua mulher, internada há vários dias, com uma trombose extensa. Aí permanecia horas, pegando-lhe na mão com ternura e aconchegando-lhe a roupa da cama. Por vezes monologava com ela, sem certezas de ser escutado, menos ainda compreendido.

 

Todos os dias explicitava, com palavras simples mas de forma nítida, o desejo de levar a esposa para casa, mal fosse possível: " Não quero que a minha mulher fique no hospital, nem mais um dia do que seja preciso".

 

Não era a postura mais comum nestas situações, menos ainda da parte de um homem. Não havia filhos, nem outros familiares próximos.

 

Entre nós comentámos o caso, com admiração e com respeito.

 

Nessa mesma enfermaria, no canto oposto, estava internada uma senhora, ainda na casa dos 50, segundo  informava o bilhete de identidade. Era um caso típico de grande discrepância entre a idade aparente e a idade real. Mantinha o hábito de se pintar e de se maquilhar, insistindo em tentar disfarçar a tragédia que a destruía: insuficiência cardíaca em fase terminal.

 

Naquela época, o meu papel profissional era considerado menor, o que me dava alguma liberdade de tempo e de conversa.

 

Esta senhora pagava uma factura de uma vida difícil, de prostituição, na parte antiga da cidade. Muito tabaco, muito álcool, muitos excessos.

 

Tinha um sorriso que desarmava, mesmo quando faltavam à maioria dos dentes. Dei por mim a elogiar a dedicação do velhinho que acompanhava a mulher em coma. Confidenciei-lhe a sua vontade de acompanhar a mulher em casa. E de como me surpreendia uma tal dedicação. Respondeu-me num tom genuíno, que não deixou margem para quaisquer dúvidas, sobre a veracidade do que dizia: "Sempre foi assim doutor, mesmo quando ia ter comigo, era sempre dela que falava com carinho e com respeito".

 

Morreu, três dias depois, de me ter contado esta história.

 

Manuel Cunha (Pité)

 

 

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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2017

O factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis, sem notas - 2

 

" Se hoje soubesse"

 

" A doença não tinha evoluído bem. Situação grave, irresolúvel, com desfecho iminente. Ele sabia-o e por isso a necessidade de falar, de contar, de assumir, no seu sotaque alentejano. Com a serenidade de quem dominou o medo , de quem percebeu a morte e a reduziu à vida.

 

Há muitos anos tinha trabalhado no estrangeiro, longas e difíceis ausências. Viagens infinitas de camião, nele dormindo, solitário. Comer o possível, cozinhados rápidos, enlatados, sandes. Ao contrário de tantos, resistia ao assédio das mulheres, fascinadas por uns olhos de um azul denso e profundo, que olhavam para o fundo dos outros que os miravam, transmitindo sempre uma bondade profunda e serena.

 

Gostava da sua mulher, ainda mais dos seus filhos e sofria com as distâncias que o trabalho lhe impunha. Fazia tudo por eles e assim lhes foi proporcionando uma vida confortável, com a ajuda do magro salário da mulher. " Tempos passados, difíceis" resumiu-me com dignidade.

 

1600-camiao.jpg

 

"Num dia de regresso, percebi que a minha mulher estava grávida. Ao princípio tentou ocultá-lo, depois baralhar as datas, de forma a ser verosímil que o filho fosse meu".

 

Mas era tudo por demais evidente. A sua curta estadia prévia, mal se tinham encontrado na cama. Dias sem fertilidade, dias sem felicidade. " Talvez ela já andasse embeiçada pelo outro".

 

O certo é que as vozes na aldeia eram implacáveis. Sorrisos de desdém, piadas, insultos sussurrados nas costas. Até uma carta anónima, com datas e lugares. A impiedade não conhece limites.

 

Um dia ela própria assumiu, em termos quase agressivos, a roçar a provocação. A seguir veio o choro e o arrependimento, a vitimização. Que ele também tinha culpas, que era bom demais e isso tornava tudo, para ela, mais difícil.

 

gravida-post.jpg

 

O outro tinha desaparecido para longe. Não queria saber de nada, nunca assumiu nada.

 

Foram dias pesados, a chacota da aldeia, a necessidade de proteger os filhos, as dificuldades na decisão. Nas suas análises prevalecia a pena, pela mulher, pelo bebé que ia nascer, pelos que tinham nascido.

 

"Sempre precisei de tempo para pensar, de dormir em cima dos problemas, de caminhar com eles, analisando-os e simplificando-os".

 

A decisão chegou então definitiva. Perdoou-lhe e perfilhou, nos papéis e também na alma, o menino que então nasceu.

 

"Com ela as coisas nunca mais foram as mesmas. Aliás já não o eram, muito antes disso".

 

Nesse momento resisti à tentação de lhe perguntar se o menino, agora já homem, sabia que não era seu filho biológico. E ele prosseguiu até ao fim " nunca soube realmente quem foi o homem que me enganou. Mas se hoje soubesse quem foi e conseguisse encontrá-lo, queria beijar-lhe os pés e agradecer-lhe pelo filho que me deu".

 

Ao contar olhava-me nos olhos, retirando-me as angústias que o seu estado produzia em mim: " Sabe doutor, agora que estou a morrer, os outros filhos estão longe, ausentes. Este está sempre comigo e cuida de mim. É o meu carinho e o meu conforto.

 

O menino compensou tudo."

 

 

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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Nota informativa

Há um mês o autor desta rubrica, o Médico  Manuel Cunha, anunciava o inicio da divulgação “10 contos de reis, sem notas”.  Contos que lhe tinham caído nas mãos, em jeito de prenda,  oferecidos por um dos seus doentes, com o compromisso de não os divulgar enquanto o doente e seus descendentes fossem vivos. Um acidente estúpido acabou por lhes tirar as vidas e os textos acabaram por ganhar a liberdade de serem publicados. Contudo os anos foram passando e só agora, Manuel Cunha (Pité) se decidiu pela sua publicação “desse hipotético livro, na certeza de ser neste Factor Humano do blogchaves, que o autor gostaria que fosse publicado”.

Se quiser rever o ”O Factor Humano” publicado há um mês, onde além da explicação do aparecimento destes “Contos” se faz a introdução aos mesmos, basta seguir este link:  FACTOR HUMANO 

 

Vamos então ao primeiro conto.

 

10 contos de reis, sem notas - 1

 

Não dizia que não, mas olhava de lado , desconfiado.

 

Corria o mês de Novembro , estávamos em plena serra do Marão e fazia um vento frio e cortante.

 

O telheiro que nos devia abrigar, não tinha qualquer protecção lateral. Os  nossos pés pisavam mato acamado , giestas e carquejas ,misturadas com bostas e cacas de múltiplas origens , várias idades e diferentes texturas.

 

conto1 (8).jpg

 

P. era o doente crucial da nossa investigação. Nessa altura estava já confinado a uma cadeira de rodas .O porquê era , para nós, a questão decisiva . Haveria nesta família a estranha situação da coexistência de duas doenças genéticas ligadas ao cromossoma X ? E se fosse o caso, seria uma simples e invulgar coincidência , ou haveria uma explicação mais científica ?

 

Por isso estávamos ali , para colher uma amostra do seu sangue , para complexos estudos laboratoriais.

 

Mas a mim começou a interessar-me P. propriamente dito e muito menos uma análise  sanguínea complexa.

 

Percebemos então que o seu grande medo era "apanhar sida "através da colheita de sangue. Que não , dizíamos nós , explicando-lhe que era tudo material esterilizado , um só uso. Finalmente convencido ,  já não se perturbou quando , ao abrirmos a mala de trabalho , as embalagens das seringas e das agulhas , caíram ao chão. Sacudidas as sujidades exteriores  e lavadas as mãos  , pudemos então abri-las , ajustar as agulhas às seringas e fazer a almejada colheita.

 

P. não acreditava na hipótese de ter uma doença genética. Aliás nem conseguimos explicar-lhe minimamente o que isso era.

 

A sua teoria e convicção era que o seu estado actual, resultava dos efeitos tardios das  chuvas tropicais, apanhadas na Guiné , aquando da Guerra  Colonial. Desde essa altura e de forma progressiva , tinha vindo a perder a força muscular , em especial nos membros inferiores , até ficar incapaz de deambular, limitado à sua cadeira de rodas.

 

Achava da mais elementar justiça ser reconhecido como deficiente das forças armadas, convicto de ter uma doença profissional, contraída durante o serviço militar obrigatório, julgava ele que em defesa da Pátria.

 

Na Guiné fora barbeiro do General  António de Spínola e com ele estabelecera uma relação que ultrapassava , de alguma forma, as habituais hierarquias militares.

 

Há sempre , até na vida militar , uma intimidade peculiar, entre barbeador e barbeado..Conversas específicas , comentários e desabafos. É mais natural para um General recordar-se do seu barbeiro soldado do que de um qualquer tenente ou capitão.

 

Por tudo isto Spínola deve ter ditado uma carta de resposta , ao pedido do seu soldado barbeiro , escrito por uma sobrinha , numa letra quase infantil. Se não a ditou directamente ,deu ordens para ela ser escrita. Sem intimidades descabidas, sem desejar sequer uma rápida recuperação , prometia empenho em assegurar a justa pensão militar de invalidez.

 

spinola.jpg

Fotografia de Eduardo Gageiro

 

Spínola afinal estava a escrever para um homem que , de navalha na mão , o poderia ter degolado em tantas ocasiões. Um soldado barbeiro disponível , mais do que ninguém , para ouvir desabafos seus , sobre oficiais subalternos , às vezes até sobre alguns políticos da metrópole.

 

À cautela Spínola propôs-lhe uma futura vinda a Lisboa, para se apresentar no quartel X. Talvez quisesse também rever o seu estimado barbeiro, certamente para verificar " ao vivo " se a incapacidade motora era assim tão relevante.

 

Não ficaram datas marcadas nem indicações para telefonemas ou telegramas.

 

Assim P. , nessa altura ainda com alguma capacidade para deambular , programou a sua visita a Lisboa. Uma boleia inicial até Amarante, onde tomou uma taça de verde tinto com uma sandes de queijo. Depois a carreira para o Porto, com almoço de tripas numa tasca de Campanhã desta vez com duas taças do tal verde tinto. Apanhou em seguida o comboio até Lisboa ,onde chegou às 16 h.

 

Convicto que o seu General estaria até tarde no quartel ,arriscou a despesa de um taxi , condicionado também pelas dificuldades motoras.

 

Apresentou-se no quartel às 16.30  h, dizendo apenas que vinha encontrar-se com o" seu "  General Spínola.

 

Foi imediatamente detido para interrogatório , embora prontamente libertado , dada a simplicidade da aparência e perante a evidência da sua incapacidade física.

 

Estávamos na tarde de 11 de Março de 1975 , com Spínola já refugiado em Espanha , após a sua falhada tentativa de golpe de Estado.

 

Tudo isto nos contou P. , antes e depois da colheita de sangue. Ficou uma história inesperada , colhida num local agreste.

 

A mais surrealista história do 11 de Março de 1975.

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:56
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