12 anos

Sexta-feira, 19 de Maio de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis - sem notas - 5

Sobre o amor

 

Era uma enfermaria daqueles tempos, ampla e com grandes janelas, rasgadas na parede voltada para o sul. Várias camas, muita luz. Ala de mulheres, mais convívio do que intimidade.

 

Estava no começo da carreira e transbordava de entusiasmo humano. Gosto em ouvir cada história, atento a cada novidade clínica.

 

Chamou-me em especial a atenção, um velhinho digno, quase sempre sentado ao lado da cama da sua mulher, internada há vários dias, com uma trombose extensa. Aí permanecia horas, pegando-lhe na mão com ternura e aconchegando-lhe a roupa da cama. Por vezes monologava com ela, sem certezas de ser escutado, menos ainda compreendido.

 

Todos os dias explicitava, com palavras simples mas de forma nítida, o desejo de levar a esposa para casa, mal fosse possível: " Não quero que a minha mulher fique no hospital, nem mais um dia do que seja preciso".

 

Não era a postura mais comum nestas situações, menos ainda da parte de um homem. Não havia filhos, nem outros familiares próximos.

 

Entre nós comentámos o caso, com admiração e com respeito.

 

Nessa mesma enfermaria, no canto oposto, estava internada uma senhora, ainda na casa dos 50, segundo  informava o bilhete de identidade. Era um caso típico de grande discrepância entre a idade aparente e a idade real. Mantinha o hábito de se pintar e de se maquilhar, insistindo em tentar disfarçar a tragédia que a destruía: insuficiência cardíaca em fase terminal.

 

Naquela época, o meu papel profissional era considerado menor, o que me dava alguma liberdade de tempo e de conversa.

 

Esta senhora pagava uma factura de uma vida difícil, de prostituição, na parte antiga da cidade. Muito tabaco, muito álcool, muitos excessos.

 

Tinha um sorriso que desarmava, mesmo quando faltavam à maioria dos dentes. Dei por mim a elogiar a dedicação do velhinho que acompanhava a mulher em coma. Confidenciei-lhe a sua vontade de acompanhar a mulher em casa. E de como me surpreendia uma tal dedicação. Respondeu-me num tom genuíno, que não deixou margem para quaisquer dúvidas, sobre a veracidade do que dizia: "Sempre foi assim doutor, mesmo quando ia ter comigo, era sempre dela que falava com carinho e com respeito".

 

Morreu, três dias depois, de me ter contado esta história.

 

Manuel Cunha (Pité)

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 13:00
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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2017

O factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

10 contos de reis, sem notas - 2

 

" Se hoje soubesse"

 

" A doença não tinha evoluído bem. Situação grave, irresolúvel, com desfecho iminente. Ele sabia-o e por isso a necessidade de falar, de contar, de assumir, no seu sotaque alentejano. Com a serenidade de quem dominou o medo , de quem percebeu a morte e a reduziu à vida.

 

Há muitos anos tinha trabalhado no estrangeiro, longas e difíceis ausências. Viagens infinitas de camião, nele dormindo, solitário. Comer o possível, cozinhados rápidos, enlatados, sandes. Ao contrário de tantos, resistia ao assédio das mulheres, fascinadas por uns olhos de um azul denso e profundo, que olhavam para o fundo dos outros que os miravam, transmitindo sempre uma bondade profunda e serena.

 

Gostava da sua mulher, ainda mais dos seus filhos e sofria com as distâncias que o trabalho lhe impunha. Fazia tudo por eles e assim lhes foi proporcionando uma vida confortável, com a ajuda do magro salário da mulher. " Tempos passados, difíceis" resumiu-me com dignidade.

 

1600-camiao.jpg

 

"Num dia de regresso, percebi que a minha mulher estava grávida. Ao princípio tentou ocultá-lo, depois baralhar as datas, de forma a ser verosímil que o filho fosse meu".

 

Mas era tudo por demais evidente. A sua curta estadia prévia, mal se tinham encontrado na cama. Dias sem fertilidade, dias sem felicidade. " Talvez ela já andasse embeiçada pelo outro".

 

O certo é que as vozes na aldeia eram implacáveis. Sorrisos de desdém, piadas, insultos sussurrados nas costas. Até uma carta anónima, com datas e lugares. A impiedade não conhece limites.

 

Um dia ela própria assumiu, em termos quase agressivos, a roçar a provocação. A seguir veio o choro e o arrependimento, a vitimização. Que ele também tinha culpas, que era bom demais e isso tornava tudo, para ela, mais difícil.

 

gravida-post.jpg

 

O outro tinha desaparecido para longe. Não queria saber de nada, nunca assumiu nada.

 

Foram dias pesados, a chacota da aldeia, a necessidade de proteger os filhos, as dificuldades na decisão. Nas suas análises prevalecia a pena, pela mulher, pelo bebé que ia nascer, pelos que tinham nascido.

 

"Sempre precisei de tempo para pensar, de dormir em cima dos problemas, de caminhar com eles, analisando-os e simplificando-os".

 

A decisão chegou então definitiva. Perdoou-lhe e perfilhou, nos papéis e também na alma, o menino que então nasceu.

 

"Com ela as coisas nunca mais foram as mesmas. Aliás já não o eram, muito antes disso".

 

Nesse momento resisti à tentação de lhe perguntar se o menino, agora já homem, sabia que não era seu filho biológico. E ele prosseguiu até ao fim " nunca soube realmente quem foi o homem que me enganou. Mas se hoje soubesse quem foi e conseguisse encontrá-lo, queria beijar-lhe os pés e agradecer-lhe pelo filho que me deu".

 

Ao contar olhava-me nos olhos, retirando-me as angústias que o seu estado produzia em mim: " Sabe doutor, agora que estou a morrer, os outros filhos estão longe, ausentes. Este está sempre comigo e cuida de mim. É o meu carinho e o meu conforto.

 

O menino compensou tudo."

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
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Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2017

O Factor Humano

1600-cab-mcunha-pite

 

Nota informativa

Há um mês o autor desta rubrica, o Médico  Manuel Cunha, anunciava o inicio da divulgação “10 contos de reis, sem notas”.  Contos que lhe tinham caído nas mãos, em jeito de prenda,  oferecidos por um dos seus doentes, com o compromisso de não os divulgar enquanto o doente e seus descendentes fossem vivos. Um acidente estúpido acabou por lhes tirar as vidas e os textos acabaram por ganhar a liberdade de serem publicados. Contudo os anos foram passando e só agora, Manuel Cunha (Pité) se decidiu pela sua publicação “desse hipotético livro, na certeza de ser neste Factor Humano do blogchaves, que o autor gostaria que fosse publicado”.

Se quiser rever o ”O Factor Humano” publicado há um mês, onde além da explicação do aparecimento destes “Contos” se faz a introdução aos mesmos, basta seguir este link:  FACTOR HUMANO 

 

Vamos então ao primeiro conto.

 

10 contos de reis, sem notas - 1

 

Não dizia que não, mas olhava de lado , desconfiado.

 

Corria o mês de Novembro , estávamos em plena serra do Marão e fazia um vento frio e cortante.

 

O telheiro que nos devia abrigar, não tinha qualquer protecção lateral. Os  nossos pés pisavam mato acamado , giestas e carquejas ,misturadas com bostas e cacas de múltiplas origens , várias idades e diferentes texturas.

 

conto1 (8).jpg

 

P. era o doente crucial da nossa investigação. Nessa altura estava já confinado a uma cadeira de rodas .O porquê era , para nós, a questão decisiva . Haveria nesta família a estranha situação da coexistência de duas doenças genéticas ligadas ao cromossoma X ? E se fosse o caso, seria uma simples e invulgar coincidência , ou haveria uma explicação mais científica ?

 

Por isso estávamos ali , para colher uma amostra do seu sangue , para complexos estudos laboratoriais.

 

Mas a mim começou a interessar-me P. propriamente dito e muito menos uma análise  sanguínea complexa.

 

Percebemos então que o seu grande medo era "apanhar sida "através da colheita de sangue. Que não , dizíamos nós , explicando-lhe que era tudo material esterilizado , um só uso. Finalmente convencido ,  já não se perturbou quando , ao abrirmos a mala de trabalho , as embalagens das seringas e das agulhas , caíram ao chão. Sacudidas as sujidades exteriores  e lavadas as mãos  , pudemos então abri-las , ajustar as agulhas às seringas e fazer a almejada colheita.

 

P. não acreditava na hipótese de ter uma doença genética. Aliás nem conseguimos explicar-lhe minimamente o que isso era.

 

A sua teoria e convicção era que o seu estado actual, resultava dos efeitos tardios das  chuvas tropicais, apanhadas na Guiné , aquando da Guerra  Colonial. Desde essa altura e de forma progressiva , tinha vindo a perder a força muscular , em especial nos membros inferiores , até ficar incapaz de deambular, limitado à sua cadeira de rodas.

 

Achava da mais elementar justiça ser reconhecido como deficiente das forças armadas, convicto de ter uma doença profissional, contraída durante o serviço militar obrigatório, julgava ele que em defesa da Pátria.

 

Na Guiné fora barbeiro do General  António de Spínola e com ele estabelecera uma relação que ultrapassava , de alguma forma, as habituais hierarquias militares.

 

Há sempre , até na vida militar , uma intimidade peculiar, entre barbeador e barbeado..Conversas específicas , comentários e desabafos. É mais natural para um General recordar-se do seu barbeiro soldado do que de um qualquer tenente ou capitão.

 

Por tudo isto Spínola deve ter ditado uma carta de resposta , ao pedido do seu soldado barbeiro , escrito por uma sobrinha , numa letra quase infantil. Se não a ditou directamente ,deu ordens para ela ser escrita. Sem intimidades descabidas, sem desejar sequer uma rápida recuperação , prometia empenho em assegurar a justa pensão militar de invalidez.

 

spinola.jpg

Fotografia de Eduardo Gageiro

 

Spínola afinal estava a escrever para um homem que , de navalha na mão , o poderia ter degolado em tantas ocasiões. Um soldado barbeiro disponível , mais do que ninguém , para ouvir desabafos seus , sobre oficiais subalternos , às vezes até sobre alguns políticos da metrópole.

 

À cautela Spínola propôs-lhe uma futura vinda a Lisboa, para se apresentar no quartel X. Talvez quisesse também rever o seu estimado barbeiro, certamente para verificar " ao vivo " se a incapacidade motora era assim tão relevante.

 

Não ficaram datas marcadas nem indicações para telefonemas ou telegramas.

 

Assim P. , nessa altura ainda com alguma capacidade para deambular , programou a sua visita a Lisboa. Uma boleia inicial até Amarante, onde tomou uma taça de verde tinto com uma sandes de queijo. Depois a carreira para o Porto, com almoço de tripas numa tasca de Campanhã desta vez com duas taças do tal verde tinto. Apanhou em seguida o comboio até Lisboa ,onde chegou às 16 h.

 

Convicto que o seu General estaria até tarde no quartel ,arriscou a despesa de um taxi , condicionado também pelas dificuldades motoras.

 

Apresentou-se no quartel às 16.30  h, dizendo apenas que vinha encontrar-se com o" seu "  General Spínola.

 

Foi imediatamente detido para interrogatório , embora prontamente libertado , dada a simplicidade da aparência e perante a evidência da sua incapacidade física.

 

Estávamos na tarde de 11 de Março de 1975 , com Spínola já refugiado em Espanha , após a sua falhada tentativa de golpe de Estado.

 

Tudo isto nos contou P. , antes e depois da colheita de sangue. Ficou uma história inesperada , colhida num local agreste.

 

A mais surrealista história do 11 de Março de 1975.

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:56
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