XI
(Último Capítulo)
Na segunda quarta-feira da romaria, pela noitinha, dez dias após a partida para Itália, Demar regressou à cidade.
Embora «'stourado de cansaço», cansado, mais até pelas inquietações e lembranças da «su'Aninhas» do que pelas horas de condução - e os brasileiros até eram simpáticos e gentis, mal conseguiu dormir, com a pressa de ver chegada a madrugada da 5ª fª seguinte.
É que à 4ª fª segue-se a 5ª fª. E a 5ª fª era o dia, não, era a manhã, não, não, era a madrugada em que ele podia estar com a «sua Madalena», a «su'Aninhas»!
Lusco-fusco do amanhecer de 5ª fª e já o Demar estava no portão do Mercado, que dá para as Longras.
Raparigas casadoiras e mulheres de todas as idades iam entrando e saindo da Padaria Rito.
E hoje até um polícia (pareceu-lhe o amigo Guimarães) por ali fazia a ronda.
Encolheu-se no portão.
E o coração ia-lhe ficando cada vez mais encolhidinho.
O tempo passava, o sol já se levantara e alumiava toda a cidade. O desânimo murchava-lhe o olhar e escurecia-lhe a alma.
Derreado com a tristeza, as mãos nos bolsos, os olhos fixos nos cordões dos sapatos, atravessou, julgando-se moribundo, o pátio do Mercado, subiu, com penoso sacrifício o calvário da escadaria que dá para a Rua do Olival, esqueceu-se do Mercedes e foi para casa.
A febre prendeu-o à cama até Domingo de manhã.
Nesse Dia santificado, à hora costumeira da ida à Missa, lá estava na esquina da Trindade. Mas na Rua Direita não viu subir a «sua Madalena».
Deixou de rezar. Deixou de acreditar.
FIM
Mozelos, 8-Novembro-2009
Luís Fernandes
X
O pai da Aninhas não estava para guerras.
Ceou na cozinha e saiu a caminho do "CENTRAL", onde estaria com os amigos, jogaria uma boa sueca ou um chincalhão, sobrecea-ria uma ou duas malgas de tripas, bem acompanhadas com um bom tinto dos Possacos ... e amanhã era outro dia.
A Aninhas nem saíra do quarto para vir cear. Chegou-lhe o «bijú» com marmelada que a Clara lhe fora chegar.
A senhora Mariana, na hora dos "entretantos"', conversou ternamente com o "Morgadinho Alfredo", querendo saber «pormenores particulares» acerca dele, dizendo-lhe quanto lhe agradavam as suas visitas à Loja, e como já tinha notado, «desde há longa data», que ele andava pelo beicinho pela sua Aninhas.
- É ou não é verdade, senhor Morgado? - atirou-lhe, com um riso e ar malandrecos.
- A bem dizer...- gaguejou o rapaz.
- É ou não? - Interrompeu a mandona.
O Morgado atrapalhou-se mais. Mas a sogra dos seus sonhos confortou-o.
- Como vê, eu tenho sempre razão em tudo o que digo e em tudo o que faço. E até sei o que é bom para o Alfredo.
Mas vamos cear que se faz horas.
Alice, Traz a ceia! Segredou ao Alfredo:
Ela já sabia que íamos cear aqui.
A senhora Mariana ceou com um apetite que a raiva mal contida aguçava. O Morgado Feu, com o espírito baralhado pelas pressas da senhora Mariana, em mandá-lo vir de Monforte, e pelas variedades de assuntos tão inesperados, pelos sins e pelos nãos que tinha respondido, pareceu-lhe ter as sinetas de todas as capelas das Terras de Monforte a badalarem-lhe na cabeça e as cordas com que se tocavam, em vez de penduradas defronte das Capelas, estavam, mas era, embrulhadas no seu estômago.
A ceia ceada, a cozinha arrumada, a Loja fechada, as criadas empontadas, a senhora Mariana insistiu com o Alfredo para que bebesse mais um golinho daquela boa aguardente que só ela tinha.
- Ajudava à digestão! - aconselhou.
E quando achou o momento certo, lançou-lhe, em tom de desafio:
- Alfredo, você é ou não um homem a sério? Pois, atão, faça como lhe vou dizer.
E disse!
Subiram ao andar de cima. Atravessaram o corredor. Pararam em frente à porta do quarto da Aninhas. A mãe abriu a porta. Empurrou o Alfredo para dentro do quarto e ordenou-lhe:
-Siga!
Mariana fechou a porta, deu duas voltas à chave, trancando-a.
Foi deitar-se, descansada da vida, pois sabia que só na manhã seguinte é que iria destrancar a porta do quarto da Aninhas.
XI
Na segunda quarta-feira da romaria, pela noitinha, dez dias após a partida para Itália, Demar regressou à cidade…
(continua no próximo sábado)
IX
O filho do Morgado recebeu o recado.
Trocou os socos pelas botas alentejanas, as calças de co-tim pelas de fazenda, a camisola de manga curta por uma camisa de manga comprida, deitou duas pingas daquele frasco de Tabu, ainda anteontem comprado na Felecindo, de Feces, vestiu a casaco mais à mão, e atirou-se pelo Brunheiro abaixo, montado na sua «Florette».
Na recta da raia até voava.
Chegou num ai ao balcão da senhora Mariana.
- Patroa! Já cá está! - berrou a criada ALICE, tal qual lhe fora recomendado.
Assomando a uma porta lateral da sala dos clientes, Mariana sentenciou:
- Beba o que quiser, sente-se e descanse um pouco. Depois chamo-o para falarmos aqui na salinha. Eu já volto.
O Morgadinho, se já saíra de casa intrigado e aflito, estava agora estarrecido.
Nem sabia o que beber.
Deitou à criada um olhar suplicante e sentou-se.
- Que se passa?! - Conseguiu perguntar, com um meneio de cabeça para cima, um levantar das sobrancelhas, que puseram três grossas pregas a toda a largura da testa, e com um tremelicar da boca.
A criada Alice, também com cara de assustada, encolheu os ombros, mexeu os braços, abriu as mãos e procurou uma garrafa de GEROPIGA, na prateleira do fundo do balcão, a disfarçar a vontade com que dali queria sumir.
Veio à mesa pôr-lhe um copo e a garrafa, e palpitou ao ouvido do Morgado, aproveitando o debruçado gesto que o esforço de assear a mesa com a rodilha justificava, que «devia ser por causa da Ninhas»!
Tanto do lado de lá do Tâmega, como do lado de cá, a GEROPIGA é bem boa.
Bebeu um copo, de alto a baixo, sem respirar.
- AaaaaaaaaaH! Que bem lhe soube!
E fez-lhe bem.
O segundo já foi ao fundo com alguns goles.
Bem vistas as coisas, até devia estar satisfeito e calmo.
Não era por nada, mas a senhora Mariana sempre o tratara com agrado, com muito agrado; dava-lhe conversa; até lhe dava a escolher a isca do bacalhau ou os pastéis do mesmo!
Era pena que a Aninhas não reparasse tanto nele e não o tratasse como a mãe. Mas lá chegaria a hora, pensava.
- Alfredo, entre p'ràqui!
Escorropichou o copo, limpou a beiça com as costas da mão, enxugou-a no cu das calças, com os ombros deu um jeito ao casaco, bateu no chão com as botas, mais para se livrar da inquietação do que sacudir-lhes o pó.
Chegou-se à porta e parou. Estava aberta. Mas bateu-lhe com o nó dos dedos e perguntou:
- A senhora Mariana dá licença?
Entre, entre, Alfredo. Sente-se. Fique à vontade. Faça há-de conta que está na sua casa.
Agora ouça bem e saiba ouvir o que eu tenho para lhe dizer e contar. E saiba que conto consigo.
Mas antes vamos falar de uns "entretantos".
X
O pai da Aninhas não estava para guerras…
(continua no próximo sábado)
VII
Na 6ª fª, lá na Rua do Olival, o Demar estava retirado, tristonho, acabrunhado, cabisbaixo.
Colegas e amigos não estranharam. Tinha sido a "Missa do 7° Dia", pela morte do seu pai, onde quase todos estiveram presentes, e todos o sabiam.
Um casal já entradote na idade cochichava perto do Mercedes, apreciando a cor, a limpeza e o conforto do automóvel. Um sotaque brasileiro perguntou ao Rambóia de quem era aquele táxi.
Chamaram pelo Demar.
O casal quis saber se o dono do Mercedes podia levá-lo a Roma.
- Só não posso levá-los para lá da Cortina de Ferro! - respondeu o Demar.
- Somos brasileiros e...
- ... E eu também! - interrompeu o Demar.
- "In - te - ré - ssan - te"! - exclamou o casal, em uníssono. Queremos ir ver o Papa.
Acertaram a hora de partida. E logo no sábado, de manhã cedo, iniciaram a viagem.
VIII
Nos dias seguintes à 5ª fª do retorno de Lebução, a Aninhas mal saía do seu quarto. A mãe notava-lhe os modos estranhos e as estranhas olheiras.
Na 3ªfª, de manhãzinha, não foi a Aninhas quem foi ao pão.
Na 3ªfª, a meio da manhã, a mãe soube, sabe-se lá por que espírito santo, ou endiabrado, que a sua Aninhas tinha sido vista a meter-se num táxi, com malas, e, talvez arrependida, voltara para casa ainda antes do regresso dos pais.
Foi um berreiro dos diabos, lá, na Pensão da Madalena.
A mãe queria saber, tim-tim por tim-tim, tudo o que se passara.
Fina e ladina, a mãe da Aninhas sentiu-se traída, atraiçoada, apunhalada pelas costas, no que dizia respeito ao seu grande anseio de ver a filha casada com um «bom partido».
E quem melhor partido que o Morgado de Monforte?!
Rapaz abastado, bem parecido (aos olhos da mãe), de modos bonitos e de tão boas palavras (para a mãe), atão não era uma sorte para a Aninhas da Madalena?!
- Gabirus! Gabirus! - berrava a mãe.
Sim, aqueles gandulos da cidade eram uns bons gabirus. Mas a sorte da sua filha era ela quem a tratava!
- Clara! - gritou. Toma conta da casa, que eu já volto.
Foi ao Posto Público da Madalena e ligou para o Posto Público de Monforte.
- Alô! Quem fala? - responderam de lá.
- É o sr. Aurélio do Posto Público? - pergunta, num berro, a senhora Mariana.
- Não senhora! É a mulher. A Ondina!
- Ah! Senhora Ondina! Faça favor de mandar dizer ao filho do Morgado, o FEU, para vir imediatamente à cidade falar com a Dona Mariana, da Pensão da Madalena.
- Mas é assim uma aflição tão grande, senhora Mariana?!
- Meta-se na sua vida, que eu cuido da minha! Ho-messa! Faça o que lhe mandam e não perca tempo! Quero o rapaz cá, «rápido e depressa»! Adeus!
Pousou o telefone com uma força como quem dá um murro a partir os queixos a um macho danado.
Mulher dos diabos! Diziam que tinha pêlo na venta!
Pobre pai da Aninhas!
(continua no próximo sábado)
VI
Depois de confirmadas todas as instruções e recomendações, os arrumos no sítio, os pais daninhas lá foram para a «carreira» que os levaria até à capital do Barroso.
Meia hora antes do "mei-dia novo", O Demar meteu-se no táxi, que era seu, atravessou a Ponte, fez que olhou para o estabelecimento do Benjamim Eugénio Leite, e misgou a varanda da casa da «sua Madalena». Ficou contente por ver lá pendurado o tal avental «sacramentado» para dar o sinal de «avançar».
Foi ao To Manco atestar de "gasoil".
Entrou pela Rua de S. Roque, foi pela Rua do Rajado e parou na Rua do Campo da Fonte.
E, para sua alegria, logo apareceu na porta a Aninhas com as trouxas emaladas.
Se o motor do automóvel trabalhasse ao ritmo daqueles corações, já onde iriam!...
A recta de Faiões passaram-na sem dar conta e chegaram à Bulideira num abrir e fechar de olhos. Aí pararam. Afagos e beijinhos acalmaram o desassossego da aventura.
Com o espírito mais sereno, desceram até à Ponte da Pulga. Logo à frente apareceu uma placa da JAE onde a Aninhas julgou ler "PERDOA-ME".
O Demar guiava devagar, sentindo pelas costas os amanheceres nevoeirentos do Arrabalde e vendo pela frente o risonho futuro com a «sua Madalena».
- É PEDOME! - disse-lhe, à Aninhas.
- Ora! Devia ser "ABENÇOO-VOS! - refilou a Aninhas, alegre e meigamente, com um beijinho na carinha do «seu Demarzinho».
Logo chegaram a Lebução, que fica dois passos à frente de Pedome. Vinhais não era longe. Mas era melhor comerem já qualquer coisa, pois o relógio apontava próximo do «mei-dia velho».
E lá foram almoçar numa Casa de Pasto de Lebução.
Satisfeitos, divertidos, contentes com o sucesso da aventura, até atrapalhavam os pensamentos com o entusiasmo de se falarem e ouvirem ao mesmo tempo.
De repente, o Demar calou a boca, fechou os olhos e levou as mãos à cabeça.
A Aninhas assustou-se com o repentino inesperado.
- Que foi?! - perguntou, mais assustada que curiosa.
Demar suspirou, fez uma pausa quaternária, respirou fundo, pegou-lhe nas mãos, e falou-lhe, com palavras envolvidas em mágoa:
- Ninhas, nunca mais me lembrei! Amanhã é a Missa de Sétimo Dia pelo meu pai. Sou o irmão mais velho, e o rancho é de Sete - eu, cinco raparigas e outro rapaz, o mais novo de todos. Seria um escândalo, uma vergonha, um mau exemplo, eu faltar à Missa do 7° dia pela morte do meu pai. Temos de voltar para trás e deixar a fuga para outra ocasião.
Aninhas ficou sem fala.
Nem soube se foi a surpresa, se o amor, se a decepção que lhe deram força para dizer, com desfalecimento:
- Como quiseres!
Lebução ficou para trás.
A placa da JAE, que agora lhes apareceu, parecia ter escrito "PERDEU-ME", mas dizia PEDOME.
O Mercedes do Demar vinha carregado de silêncio.
Depressa chegaram às Açoreiras de Cima. E, nas Açoreiras do Meio, o Demar perguntou, amargurado:
- Ninhas, vais bem?
Nunca mais enxugavam as lágrimas daquela Madalena!
E um dique mais forte rebentou quando acenou um sim com a cabeça.
O Demar parou o carro numa berma mais larga da estrada, ainda antes de Faiões.
Ambos compreenderam, e compreendiam, que ela tinha de voltar para casa com melhor cara.
- Vamos! - disse a Aninhas, depois de uns largos minutos a ensopar mais um lenço, a assentar ideias e a ganhar forças para entrar em casa e subir para o seu quarto, dali a pouco.
O carro parou no mesmo lugar de onde ambos partiram.
Aninhas pegou nas malas, abriu a porta de casa e fechou-se no quarto.
À noite, os pais regressaram de Barroso.
VII
Na 6ª fª, lá na Rua do Olival, o Demar estava retirado, tristonho, acabrunhado, cabisbaixo.
Colegas e amigos não estranharam. Tinha sido …
(continua no próximo sábado)
V
Na 5ª fª seguinte, à madrugadora hora do costume, a esquina do Rito estava ocupada pelos visitantes do costume.
O Demar e a Aninhas juraram, como em todos os encontros, amor eterno; trocaram beijinhos e afagos; prometeram o céu um ao outro, e assustaram-se quando voltaram a referir assiduidade do Morgado e os «bitaites» da mãe.
- Resolvido – disse ele. Vamos fugir!
E explicou à «sua Madalena» o vitorioso e venturoso plano.
Um beijinho mais que derretido e escondido por um xi-coração apertadinho selou o combinado.
Duas – ou três?! – terças-feira mais tarde, na esquina da Canelha, ainda mal o sol espreitava pelas ameias do Castelo de Rio Livre, com o Demar a querer matar saudades, a Aninhas morria por lhe dar a novidade.
- E das boas! – dizia-lhe, a rir, consoladinha por o ver assim tão maluquinho por ela.
O tempo fugia. O Demar parou a tartaruguenta corrida das suas mãos e a catadupa dos beijos.
“Poien”! Que grande pancada.!
- Quinta-feira, os meus pais vão a Montalegre. Eu fico a tomar conta da casa – soletrou a Aninhas.
- ‘Stá feito! – pensou o Demar.
E combinaram o final do desassossego.
VI
Depois de confirmadas todas as instruções e recomendações, os arrumos no sítio, os pais d’Aninhas lá foram…
(continua no próximo sábado)
IV
O amor entre a Aninhas da Madalena e o gabiru da cidade crescia a olhos vistos.
Os olhares colhidos com as subidas e descidas das escadas do Mercado, as bênçãos dos padrinhos, da Montanha e as bem – aventuranças de N.S. da Lapa e de S.João de Deus alimentavam o fogo daquela paixão que lhes consumia a paciência, fazendo parecer-lhes faltarem anos e séculos para o encontro do amanhecer da próxima 5ª fª.
Os afagos, os beijinhos, os xi-corações mil vezes dados, mas sempre tão apressados, por ser tão destapada a esquina da “Rito”, ou a da Canelha, com a Rua, ambas das Longras, a loucura com que se queriam, os sonhos que um e outro construíam, a esperança de uma vida eterna, eternamente juntos, juntinhos, e a começar, a começar…oh! Quem dera que já tivesse começado ontem!
Graças à sêmea de Lebução, ao trigo de quatro cantos de Faiões, ao «biju» da Granjinha, e ao pé ligeiro do madrugador Demar, matavam-se saudades, nasciam ilusões, construíam-se castelos no ar, enxugavam-se lágrimas, acreditava-se no amanhã, agarrava-se a vida!
E, aos domingos, de manhã, à hora certa, lá estava o gabiru do Demar, todo aperaltado e bem parecido, na esquina da “Trindade”, a ver o par mãe-Aninhas a subir a Rua Direita, com a impressão, até, de que era o pai que trazia pelo braço para, lá no altar de Santa Maria Maior, lha entregar por inteiro.
A Aninhas, mal chegava à Ladeira da Brecha, até já adivinhava o Demar naquele estratégico canto da Trindade. Para ela, também o Domingo era dia santo. E a Trindade, santíssima!
Na missa, a Aninhas, às vezes, sentia-se despida pelo olhar apaixonado e ternurento com que o seu Demar a absorvia, lá do alto do Coro. Por isso, amiúde ajeitava o véu e limpava, disfarçadamente com um dedo, aquela picadazinha que lhe fazia corar aquele pontinho de maça do rosto. À saída da missa rondavam por ali alguns lapantins da cidade. Mas nada do Demar. Ela, a Aninhas, bem sabia onde ele já estava. A mãe é que não sabia, nem sonhava.
Desciam a Rua Direita. E, ao chegar à esquina da Ladeira da Brecha, a Aninhas logo dava conta da posição estratégica do “seu Demar”.
Ele via-a descer a Rua parecendo-lhe que até vinha, mas era, a correr para ele, de braços abertos e a gritar-lhe com um riso da maior felicidade: - “Sou Tua! Sou Tua!”.
Na 3ª fª o amor foi pontual com o alvorecer.
Incomodada com as assiduidades do Morgado e com os remoques e desafios da mãe, por ela não “dar cônfia” ao marmanjola de Monforte, desabafou com o Demar o seu desconforto caseiro.
O Demar não era Morgado. Mas estava, e era, bem governado.
Viu o perigo.
Das aulas de Português e de História ainda lhe restavam umas pitadas de El Cid, Roland, D. Quixote, Avalon… e… e aí está! Tal como aquele colega da Escola Comercial e Industrial que, contrariado nos seus amores pela Tina Americana, contratou o “Balila” e fugiu com a rapariga, para Braga… Ele, Demar, gabiru-da-cidade, até tinha carro próprio..
V
Na 5ª fª seguinte, à madrugadora hora do costume, a esquina do Rito estava ocupada…
(Continua no próximo Sábado)
III
Do Largo do Arrabalde, o “Demar” vigiava a Ponte, com a secreta esperança de que alguma vez a «sua Madalena» a atravessasse sozinha, para lhe poder falar em sossegado.
E um dia calhou.
A Mãe andava a fazer umas costuras, à máquina, e precisou, de repente, de um carrinho de linhas número 30.
Mandou-a aos «Machados». Que fosse num pé e viesse noutro, recomendou.
Junto ao Quiosque do Arrabalde, o Demar estava na laracha com os engraxadores e, como nem quer a coisa, viradinho para o rio.
Que salto lhe deu o o coração!
Parecia-lhe ela, lá no meio da ponte.
Que susto, quando viu que era ela mesmo que vinha ali já em frente às escaleiras da Pensão do capitão Souto – “ A Comercial”!
Atravessou para o passeio do “Silva Mocho”, desceu para as Longras e chegou à esquina da rua com a Ponte ao mesmo tempo que ela, a «sua Madalena», chegava à esquina da Ponte com a Rua das Longras.
Olharam-se.
Os «Machados» eram mesmo em frente.
A esquina foi aquela frinchinha da janela por onde se puderam, a medo, falar.
- Amo-te! – sussurrou ele.
- Adoro-te! Murmurou ela.
O estremecimento da voz de ambos até lhes fez a vista turba.
Ele virou para a Canelha das Longras. Ela atravessou para os «Machados».
O Coração parecia-lhes querer saltar do peito.
O Sol já virava para Curalha. Mas até lhes pareceu ter-se levantado um bocadinho para abençoá-los e lhes dar um bafo de conforto. Foi coisa de um raiozinho cor-de-rosa que bateu nos olhos da Aninhas quando ia atravessar para a loja, e, batendo na frontaria da Pensão Rito, fez reflexo indo direitinho à vista do Demar quando se virou a caminho da Canelha.
Ah! S. João de Deus fizera-se padrinho da Aninhas. Nossa Senhora da Lapa, madrinha de um gabitu da cidade.
A hora de ir ao pãp, fresco, do dia, é à hora da primeira missa do dia.
A Aninhas começou a vir ao pão, ali à Padaria das Longras, que era a Padaria Rito, logo ao lado da entrada da Pensão Rito.
Pela «sua Madalena», o rapaz começo a madrugar, mais do que a aurora.
Descia a rua do Olival, sumia-se pelas escadas do Mercado, atravessava este, e parava junto ao portão que dá para as Longras. Metia conversa, ora com a regateira da fruta, ora com a regateira dos frangos e coelhos. Pelo canto do olho vigiava quem se aproximava da esquina da Rito.
Hoje, amanhã, depois, e depois de tanta vigília, sempre chegou a hora de o seu palpite acertar – a “Madalena” viera ao pão!
O coração do rapaz palpitou desgovernado com o acerto do palpite.
Ele viu-a à entrada da Padaria.
Ela viu-o à saída do portão do Mercado.
Ela rezava para que os seus passos dessem para um compasso de espera lá na esquina, antes da «sua Madalena» sair do pão.
Ela, com a saca do pão pendurada no braço; ele, com o chapéu puxado para os olhos, deram as mãos, prometeram as bocas e acordaram abraçados, com o trepar dos socos do Ti’Aniceto, que ia para a veiga.
E, para que a mãe não desconfiasse de nada, combinaram ela vir ao pão, numa semana, às 3ªs.Fªs, noutra, às 5ªs.Fªs.
Depois veria-se!
IV
O amor entre a Aninhas da Madalena e o gabiru da cidade crescia a olhos visto.
Os olhares colhidos com as subidas e descidas das…
(continua no próximo sábado)
(II)
O morgado tornara-se assíduo na Pensão da Madalena. A «Florette», que sucedera à «Pachancho», encurtava imenso os 10 Kms que distam de Monforte à cidade.
Aos domingos lá passava na Pensão para «botar» um copo, antes de ir ver jogar o Atlético.
Aos domingos lá passava para petiscar um bacalhau frito, ou bolinhos do mesmo, e «botar» mais um copo, depois de vir de ver jogar o Flávia.
Às 4ªs fªs lá estava caidinho na Pensão para “matar i bicho” antes de passar pela Feira dos Recos, ali ao lado, no Campo da Fonte. De passagem para a Feira do Gado do Tabolado, a presença de um amigo de uma qualquer Aldeia do lado de lá do rio, ou do Barroso, justificava mais uma aproximação ao balcão, e dar mais duas palavras à dona da Pensão, enquanto atirava olhares apaixonados à filha da dona da Pensão.
Finda a feira, acertava contas do negócio passando lá pela Pensão da Madalena a mordiscar, com demorada cerimónia, mais uma lasquinha de bacalhau frito.
E punha em desacerto o ritmo do seu coração, com as dificuldades de transpor aquela maldita fronteira daquele balcão, teimoso em manter à distância dos seus desejos aquele fruto delicioso da «sua Aninhas».
Quando o gole de tinto lhe molhava os lábios até se julgava estar a derreter com beijos aquele docinho que trazia preso pelo beicinho.
Às 6ªs.fªs. ou sábados, lá, em Monforte, nasciam sempre justificados pretextos para mais uma ida à cidade: - uma vela da motoreta, que estava suja; uma câmara-de-ar; uns socos a precisarem, “rai’s parta!”, de umas tachas; uma licença de um cão; enfim, havia sempre falta de qualquer coisa que abundava na cidade.
Mas a Aninhas não saía nada à mãe.
Esta tinha a palavras sempre pronta na ponta da língua, falava de igual para igual com qualquer cliente.
A Aninhas saía mais ao pai.
Este era reservado, quase tímido.
Mas «bô home», como toda a gente logo dizia, sempre que houvesse referência ao tio Aníbal.
Claro que até os gabirus da cidade também andavam de olho na «sua» aninhas. Mas ele, o morgado, filho do morgado de Monforte, tinha “mais peito” para tal conquista.
Com o coração e os sentidos todos postos no seu príncipe encantado, Aninhas não tinha olhos nem ouvidos para mais ninguém.
Para ela, o morgado de Monforte não passava de um cliente fiteiro e fanfarrão. Já há muito que dera conta que o morgado caíra no goto da mãe. Até ainda há pouco esta tinha comentado com a tia Quinhas, em tom de recado e de sentença juntos, que este morgado era «um bom partido».
Perdida como estava pelo «seu Demar», não se dava por achada, fosse com quem fosse.
(III)
Do Largo do Arrabalde, o “Demar” vigiava a Ponte, com a secreta esperança de que alguma vez…
(continua no próximo sábado)
Tal como anunciamos, começa hoje em forma de episódios o contar de uma estória que nos leva até aos meados século passado na cidade de Chaves. Uma breve e intensa estória de amor perturbada pela missa de 7º dia. A estória é contada em XI episódios que irão estar aqui nos próximos sábados à noite. Estória já publicada em livro, de autoria de Luís Henrique Fernandes, edição de autor, ao qual agradeço a devida autorização para a publicar aqui na integra.
A foto da capa do livro/ilustração do cabeçalho é de autoria de Dinis Ponteira. As ilustrações utilizadas ao longo da história são de autoria do blog Chaves, com imagens de arquivo do blog Chaves Antiga de Chaves, imagens, mais ou menos da época em que a acção se passa.
Fica hoje o I Capítulo. Espero que gostem.
A Missa do 7º Dia
(I)
Era no tempo em que o amor era mais proibido que consentido.
Ainda havia clãs que concertavam os casamentos dos filhos, ainda estes no berço.
Ele era “rapaz da cidade”, estudado na Escola Comercial e Industrial.
Ela era rapariga bonita, do Bairro da Madalena, com traços daquela beleza transmontana resultante da mistura de Celtas, Romanos, Visigodos e Mouriscos.
Naquele tempo, a cidade era o Largo do Arrabalde e os arrabaldes do Largo. O rio, o Ribelas, as Portas do Anjo e o Monumento eram sinais da diferença entre o urbano e o sub-urbano. Mesmo nos Bairros da cidade usava-se, tal como nas aldeias, o «ir à cidade» - a substituir o «ir à Vila», de antes de 1929.
Um morgado, filho do Morgado de uma das Aldeias da Raia, apaixonou-se pela rapariga, logo na primeira vez que a viu, na Pensão da mãe, na Madalena.
Porém, do lado de lá do rio, nas redondezas do Largo do Arrabalde, morava o príncipe dos sonhos da moçoila.
Ela perdera-se de amores por ele logo na primeira vez que o vira, quando acompanhou a mãe à compras no Mercado Municipal.
Para o morgado foi paixão à primeira vista; para a rapariga foi a primeira paixão à vista.
Se a mãe entrasse na Rua das Longras lá a convencia a subir as escadas para virem para a Rua do Olival.
Se a mãe descia as escadas do Olival e quisesse atalhar pela Rua das Longras convencia-a que tinha visto, de relance, os padrinhos à porta da Pensão Império, lá na Rua do Olival, e queria passar por ali para lhes pedir a bênção.
E os olhares trocados com o seu principezinho, sempre a postos na área do “Mocho”, ateavam as chamas, cada vez mais ardentes, daquele amor fogoso.
Chegaram à fala.
E comprometeram-se.
(II)
O morgado tornara-se assíduo na Pensão da Madalena. A «Florette», que sucedera à «Pachancho», encurtava …
(continua no próximo sábado)


. A Missa do 7º Dia (11) - ...
. A Missa do 7º Dia (10) - ...
. A Missa do 7º Dia (9) - P...
. A Missa do 7º Dia (7) e (...
. A Missa do 7º Dia (6) - P...
. A Missa do 7º Dia (5) - P...
. A Missa do 7º Dia (4) - P...
. A Missa do 7º Dia (3) - P...
. A Missa do 7º Dia (2) - P...
. A Missa do 7º Dia (1) - P...

. As minhas páginas e blogs
. Gravuras e Postais de Chaves
. Fio Azul
. Animação Sociocultural
. RIA
. Cidade de Chaves
. De interesse público
. Imprensa
. Expresso
. Público
. Páginas e Blogs
. A
. Aquae Flaviae - Grupo Cultural
. Amigos dos Animais de Chaves
. Aguas Frias - Aguas Monforte
. António Lousada - Fotografia
. Aveleda
. Azoriana
. B
. C
. Cancelas
. Chaminés
. Club de Campismo e C. de Chaves
. Curalha
. D
. DE SVO
. E
. Eirense
. Espelho Mágico (Ana.M.Borges)
. F
. Faiões
. Fotografia - Na alma de um poema
. Fronteiras - Histórias da Raia
. G
. H
. I
. Instante
. J
. Jumento
. L
. Lebução de Valpaços - A terra, a gente e a vida
. Luas
. M
. N
. Nadir Afonso - Espacillimite
. Nós
. O
. P
. Pegasus
. Q
. R
. S
. Soutochao (aldeia galega da raia)
. Sérgio Pinheiro - Fotografia
. Swing
. Sentir
. Seara Velha - À Volta do Pote
. T
. TAMAGANI
. U
. V
. Valdanta
. Vidago - Pag. Junta de Freguesia
. Vidago, Bombeiros Voluntários
. Vilarandelo - Um dia uma imagem
. X
. Z