Sábado, 29 de Julho de 2017

Carvela - Chaves - Portugal

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Sempre tive um certo fascínio pela Serra do Brunheiro e este sempre é mesmo desde puto, penso mesmo que será desde que nasci, e a razão é muito simples, as janelas da minha casa davam diretamente para o Brunheiro, praticamente sem qualquer barreira física entre o meu olhar e a imponência da serra, não que ela seja muito alta, mas é a forma como se dá à apreciação para quem está na veiga de Chaves.

 

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Pois desde miúdo que a Serra do Brunheiro tem sido também o meu barómetro. Digamos que ela é o meu boletim meteorológico diário, quando logo pela manhã abro a janela do quarto  e lhe lanço um olhar para fazer as previsões  do dia.  É, as minhas janelas continuam a ter o Brunheiro por companhia e agora muito mais do que em puto, pois com o tempo fui-me aproximando das suas faldas. Bem , mas tudo isto tem a ver com a nossa aldeia de hoje, Carvela, uma das três aldeias (conjuntamente com Maços e Santiago do Monte) que ficam logo após o dobrar da croa[i] da serra, mas sem vistas para a veiga.

 

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Esta localização das três aldeias mencionadas faz com que elas gozem, ou melhor – sofram, com um fenómeno meteorológico que se repete muitas vezes ao longo do ano. Ontem mesmo quando acordei esse fenómeno estava a acontecer, fenómeno esse  que faz com que essas aldeias fiquem mergulhadas num espesso nevoeiro, tudo acontece quando existe uma diferença de pressão atmosférica entre  o vale de Chaves e o planalto do Brunheiro, que faz com que as nuvens baixas ou nevoeiros e neblinas matinais subam a encosta da serra e estacionem no planalto. De verão e em dias quentes como os que estamos a atravessar, este fenómeno até talvez se agradeça, mas de inverno, dói a valer, principalmente quando as temperaturas lá no alto são negativas e os nevoeiros que sobem se convertem em gelo, criando um ambiente de uma beleza sem igual, mas que só se pode desfrutar desde dentro do carro com o aquecimento ligado ou desde as casas da aldeia com a lareira bem abastecida de lenha.

 

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Carvela é uma das onze aldeias a freguesia de Nogueira da Montanha e uma (freguesia) que mais tem sofrido com o despovoamento, em parte pelo rigor dos invernos mas também pela falta de políticas para a agricultura e floresta que façam com que a sua população possa fazer delas um modo de vida. E isto embora aconteça lá em cima a uma cota de 900 metros de altitude, a terra é generosa para como produtos agrícolas, pelo menos na qualidade daquilo que de lá sai, principalmente na produção de batata.

 

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Aliás é vergonho que na cidade de Chaves onde a batata da montanha é reconhecidamente de qualidade superior, tenhamos que comprar batata espanhola e francesa nas grandes superfícies. É como o presunto de Chaves, o famoso presunto de Chaves, tão falado por esse Portugal fora, mas são poucos os que o avezam.   

 

 

[i] Já sei que o termo croa não existe na língua oficial portuguesa, mas por cá é assim que se vai dizendo e pronuncia e não é mais que a palavra coroa abreviada.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:07
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Sábado, 22 de Julho de 2017

Carregal - Chaves - Portugal

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Hoje vamos mais uma vez até Carregal, uma das nossas aldeias limite de concelho, neste caso na fronteira com o concelho de Valpaços, como quem vai para Carrazedo de Montenegro ou mais além, até Murça.

 

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Hoje vamos até lá com quatro imagens e algumas, poucas, palavras, mas Carregal é das poucas aldeias que não se pode queixar deste blog, pois quase desde o início da nossa existência que tem tido aqui um embaixador e contador das suas estórias e das suas gentes, a par de outras aldeias vizinhas e de quase todo o planalto da Serra do Brunheiro, embaixador esse que dá pelo nome de Gil Santos que todas as últimas sextas-feiras de cada mês traz aqui um novo conto. Pena outras aldeias não terem outros Gil para contar as suas estórias que não são mais que a própria história mas também uma radiografia da cultura rural deste interior transmontano, muito idêntico no seu seio, mas com as suas singularidades que fazem de cada aldeia uma aldeia única.

 

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Claro que com o despovoamento rural também estas estórias se vão perdendo, tanto mais que a grande maioria têm a ver com a vida do dia a dia dos seus atores e personagens que mais não são que as pessoas que as habitam, estórias com dias felizes e outros nem tanto ou mesmo  nada, pois o contrário também fazem parte dessas estórias, com dias difíceis de muita pobreza à mistura, mas todas elas castiças.

 

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Assim, e mesmo sem imagens, as palavras também valem, e muito, pois aquela coisa que se costuma dizer que uma imagem vale mais que mil palavras, não é tão verdadeira assim,  há histórias de vida que nunca conseguirão ter tradução em imagem.

 

E se hoje ficamos com mais uma aldeia do concelho de Chaves, amanhã vamos até mais uma do Barroso.

 

Até amanhã!

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:24
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Sábado, 21 de Novembro de 2015

Stª Ovaia - Chaves - Portugal

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Hoje vamos mais uma vez até Stª Ovaia, uma pequena aldeia de montanha que por ser pequena fica mais exposta ao mal geral de todas as aldeias de montanha do concelho – o despovoamento e envelhecimento da população.

 

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Mas embora pequena há sempre alguém na rua com quem podemos conversar um bocadinho as conversas de sempre ou abordar um bocadinho os lamentos de sempre. Nem que fosse só por isso, gosto de passar por lá de vez em quando, não pelos lamentos mas pela conversa e também pela aldeia que tem sempre pormenores interessantes para registar, que nos falham sempre ou fazemos falhar nas visitas que fazemos para lá poder voltar.

 

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Hoje ficam três imagens, duas da aldeia e outra a caminho da aldeia, esta última num daqueles momentos mágicos do anoitecer em que o sol que resta se apresenta com todo o doirado como se debitasse poesia onde poisa.

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:29
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Domingo, 8 de Janeiro de 2012

Momentos de um sábado a caçar imagens

Pareço regressado aos tempos antigos da caça à fotografia para o blog, ou seja, saía de casa com a intenção de fotografar uma aldeia que tinha em mente e acabava sempre por fotografar outras. Deve ser assim como ir à caça do coelho e trazer perdizes, digo eu que não sou caçador.

 

 

Pois a primeira ideia era sair de Chaves e ir mais uma vez até terras de S. Vicente da Raia, mas como as tardes ainda são pequenas e as terras de  S.Vicente não ficam propriamente aqui ao lado, decidi-me por terras mais próximas. O Planalto do Brunheiro serve sempre para uns cliques, além disso há em mim um certo prazer em fazer frente ao frio. É certo que dói, mas não me vence. Também sempre fui um bocadinho teimoso.

 

Hora de ponta entre Adães e Santa Leocádia

 

Pois lá fui eu pela famosa EN 314 acima. No Peto de Lagarelhos temos sempre outra decisão a tomar, ou continuamos a subir, ou descemos para o vale de Loivos. Mas ia mesmo decidido a subir até às terras das estórias do Gil Santos. Em France, um presépio chamou a minha atenção. Fiz o registo mas quase nem parei. Ia com ganas de continuar a subir e finalmente cheguei à primeira croa da Serra. Ali mesmo onde Carregal decidiu ficar e lançar olhares para o Brunheiro e para a Padrela (claro que falo das serras). Repeti por lá umas voltas, fiz novos registos, não muitos, pois a aldeia também é pequena e ainda dei dois dedos de conversa com uma senhora cujo rosto quase não se via, protegido que estava dos ares da serra com um lenço de lã a cobrir-lhe toda a cabeça. Em tom de provocação ainda perguntei pela gente da terra. – Há poucos, só quase velhos e todos doentes, ainda agora venho de ver um… disse-me. E verdade seja dita, nos 15 ou 20 minutos que andei por lá, só vi mais duas pessoas no amanho de uma horta por trás da Capela. Já não há gente para fazer mais estórias para o Gil nos contar.

 

 

Já que ali estava, toca até Fornelos. É só descer da croa do monte, descer um bocadinho e subir até outra croa que se transforma em planalto. Tudo pela EN 314. Bem, em Fornelos bem tento sacar mais umas fotos, e saco sempre, mas ando sempre à volta sem conseguir o que quero. Desta vez até entrei no concelho de Valpaços sem me aperceber mas cheirou-me logo que aquilo já não eram terras de Chaves. Nem parei. Não que tenha alguma coisa contra o concelho de Valpaços, antes pelo contrário, mas foi só por uma questão de território. E foi a pisar sempre a fronteira que atravessei a 314 e fui até Vale do Galo. Nesta, idem Fornelos. Para além das fotos que tenho em arquivo, da aldeia propriamente dita, não consigo sacar mais nenhuma. Mas na envolvente, aí já a cantiga é outra e há sempre motivos que encantam. Olhem só para a foto que a seguir vos deixo se não parece mesmo uma alameda de um parque de cidade em pleno outono e sem bancos como o Jardim Público. Mas não é, pois esta alameda é às portas de Vale do Galo e é de um souto que se trata.

 

 

Os dias são pequenos e as tardes, então, quando se vai a dar conta já a noite está a bater à porta. Descida apressada para Santa Ovaia com intenção de apanhar novamente a 314 no Carregal, mas ao passar a ribeira o murmúrio das águas convidaram-me a parar, e parei. Também nunca resisto a estes momentos de pura poesia onde tudo é puro e simples. A água é cristalina, o ar é frio mas absorve-se com odores de perfume e os sons são sinfonias. Não sei se os conseguem ver na primeira foto de hoje. Demorei mais do que tinha previsto, pois o aproveitei para fazer e testar uns registos que há muito tinha em mente. Mas não foi tudo, pois chegado a Adães lembrei-me de passar pelo seu miolo e veio-me à lembrança a luz doirada a iluminar a Igreja Românica de Santa Leocádia (terceira foto de hoje). Não podia perder esse momento, mas com jeito, conseguiria ainda o por do sol visto na descida do Carregal para France. Claro que o atraso ia sendo fatal para poder ver ainda a magia do por do sol por entre um avolumado mar de montanhas que lá de cima se avistam. Nas croas dos montes o sol estava naquele momento mágico de pedir um clique fotográfico, mas o raio da 314 não nos deixa encostar em nenhum desses miradouros naturais e havia que descer à pressa até Lagarelhos, pois dali as vistas também encantam, mas tarde de mais, o sol já estava por trás da última serra. Só havia mais uma oportunidade – a de subir o Brunheiro, pois antes mesmo de se chegar a Santiago do Monte, há por lá um sítio já meu conhecido destas contemplações da despedida do sol, e ontem, os tons do céu estavam imperdíveis.

 

 

Como podem ver pela foto que atrás vos deixo, cheguei mesmo na hora H para conseguir os segundos mágicos em que o sol se deixa ver pela última vez, já meio comido pela última serra. Após este momento apenas me restava descer novamente ao vale com espírito de missão cumprida e esperar pelo nevoeiro que vem sempre com a noite, mas desse, hoje não tenho registos.

 

Até logo, ao meio dia, com o nosso Léxico-Glossário.  

 

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:03
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Domingo, 30 de Maio de 2010

Guerrilheiros resistentes

As imagens de hoje bem poderiam ser uma descrição do Portugal actual: Enferrujado, roto, mal remendado e com  bicas e bebedouros secos… mas não, é uma pura coincidência…

 

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Ou talvez a coincidência não seja tão pura assim, pois se as imagens até podem transmitir um pouco de romantismo e o bucólico que as nossas aldeias têm, também transmitem dificuldades, vidas difíceis, a velhice e o abandono. Realidades bem reais de hoje mas também de sempre que convidaram (para ser brando) ou obrigou (para ser real) os seus filhos a abandonar a terra mãe.

 

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Resistem apenas os resistentes, autênticos guerrilheiros numa luta desigual contra tudo e contra todos, contra um poder distante que tanto os oprime como ignora, numa luta que sabem nunca vencer,  porque a única arma que têm, é o amor à terra pela qual irão morrer para nela serem sepultados.

 

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Pelos guerrilheiros resistentes, pelo carinho que lhes tenho, ficam três imagens em jeito de homenagem. Esqueço e nego-me a ver a ferrugem das placas, o reboco quebrado, as paredes descoradas e os seus remendos, as bicas e bebedouros secos. Em seu lugar, vejo as rugas de rostos envelhecidos que impõem o respeito da idade, os momentos de toda uma vida e olhos cansados que sem força para chorar, resistem, apenas… em suma, vejo a arte com que os guerrilheiros resistentes enganam e ultrapassam os dias.


 

As imagens de hoje são de S.Vicente da Raia, a descrição e texto, são de uma qualquer aldeia de montanha do nosso concelho de Chaves ou, se quisermos alargar o território, são do interior Norte e transmontano de um país que se chama Portugal Desigual.

 

 

 


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publicado por Fer.Ribeiro às 12:00
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Sábado, 17 de Outubro de 2009

Santa Marinha - Chaves - Portugal

 

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Ainda ontem passava por aqui mais uma estória do planalto do Brunheiro, daquelas que só o Gil Santos nos sabe contar. Pois hoje vamos até uma dessas aldeias do planalto do Brunheiro, uma das muitas aldeias do planalto todas diferentes, mas todas iguais na sua condição de montanha, dos tais Invernos rigorosos e difíceis que só, mesmo, os habitantes do planalto sabem vencer.

 

Vamos até Santa Marinha, uma das muitas aldeias do planalto do Brunheiro, quase todas elas pertencentes à mesma freguesia de Nogueira da Montanha, onde podemos encontrar as verdadeiras aldeias de montanha, lá bem no alto onde, imaginadas desde a cidade (porque não são visíveis) parecem estar naquela parte para lá da serra, onde a terra toca o céu.

 

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Mas só na nossa imaginação isso será possível, pois chegados ao planalto, se de verão, damos com toda a luminosidade de um céu azul bem distante e, se de Inverno, geralmente esbarramos com os ventos frios, nuvens que lá são nevoeiro ou então gelo de cortar e neve de encantar, más só para os que a vivem por breves instantes, pois para os habitantes do planalto, é uma neve que tanto tolhe os ossos, como os dias, que, obrigatoriamente se têm de viver junto à lareira.

 

Pois hoje é por Santa Marinha que vamos andar, a última das 11 aldeias de Nogueira da Montanha a passar aqui pelo blog, com o seu post alargado, pois já por cá tinha passado antes, com breves passagens.

 

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Santa Marinha fica a 17 quilómetros de Chaves e pertence à freguesia de Nogueira da Montanha. O acesso é feito a partir da já nossa bem conhecida E.N. 314 uma das três estradas nacionais que a partir de Chaves nos levam até outras terras e concelhos, neste caso, a 314 é a que nos leva até terras de Montenegro, não as de Chaves, mas as de Valpaços.

 

Pois partindo de Chaves no quilómetro zero da 314, mesmo naquela rotunda que não é rotunda, a tal polémica rotunda que não foi contemplada nas vergonhosas e dispendiosas obras que ligam Chaves a Valpaços para tudo ficar na mesma, avançamos para terras do planalto do Brunheiro (entre outras paragens). Chegados ao Peto de Lagarelhos, há que nos decidirmos por continuar na 314 ou descer para Loivos e Vidago. Continuamos a subida, passamos Lagarelhos e logo a seguir podemos virar à esquerda, em direcção a Santiago do Monte e aí optarmos pela estrada que nos levará até Santa Marinha, mas este não é o melhor caminho, não pelos medos ao “Pita” que o Gil Santos às vezes nos traz nas suas estórias, mas porque o caminho é mais longo.

 

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Há que seguir em direcção a France, e aí sim, antes ou depois desta aldeia (tanto faz) viramos à esquerda e penetramos em pleno planalto do Brunheiro. Para quem não tem GPS (físico ou mental), o melhor mesmo é virar à esquerda depois de France, que aí sim, logo a seguir temos Santa Marinha.

 

Chegado lá, não irão dar com uma grande aldeia, antes pelo contrário, pois é uma das aldeias mais pequenas da freguesia e do planalto, mas pela certa encontrarão uma grande aldeia em tudo que diz respeito ao verdadeiro espírito de uma aldeia de montanha.

 

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Meia dúzia de casas tipicamente de montanha, com o seu granito à vista, poucas aberturas que a pedra nem o frio consentem, uma pequena capela quase que escondida pelo pequeno núcleo e para além da estrada que atravessa a aldeia, existe praticamente uma só rua, mas não é uma rua qualquer, pois trata-se da Rua do Rei. Rei que pela certa não será monárquico em pessoa, mas talvez e, fica-lhe bem, o Rei Brunheiro, o Rei planalto, O Rei das Serras e Montanhas, o Rei das alturas, eu sei lá… sei que seria uma terra difícil para um Rei qualquer, terra onde só os resistentes sabem viver.

 

E chegado a Santa Marinha, as primeiras casas, novas, algumas ainda em conclusão, são mesmo de resistentes que, pela certa amam muito a terra mãe e não embarcaram no êxodo e no abandono duma terra que se tornou madrasta para quem dela tem de viver. Enfim, pelas políticas de Lisboa e por outras que por cá se praticam, vais continuar a ser uma aldeia que, infelizmente, convida mais à partida que ao regresso. Já vamos estando habituados a ser a paisagem de Portugal, onde quem por cá passa gosta do que vê, do que come, das gentes e dos ares, mas passada a breve passagem, não deixamos de ser um povo, como sempre, esquecido pelos ilustres senhores de Lisboa.

 

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Pena que as gentes desta, como quase todas as aldeias da montanha e do planalto, fossem e sejam obrigadas a partir para outras paragens, quando estas aldeias têm tudo que há de bom naquilo que a terra dá. Batata, centeio, castanho, floresta, pastorícia, tradição, e mesmo o frio, embora difícil, é sempre bem vindo para curar as carnes do porco que tão boas e únicas iguarias irão proporcionar ao longo do ano, onde até ainda existe o Presunto de Chaves, do famoso e genuíno, que cada vez é mais raro e tudo indica que é mais uma “espécie” em vias de extinção, um dos produtos que as gentes do planalto tão bem sabem fazer, que até já nem precisa de apresentação ou recomendação, pois já é famoso, mas que nada se faz para o salvar e lhe dar a sua verdadeira dimensão. Mas não tardará aí uma feira de sabores e saberes cá da terra, onde pela certa o genuíno presunto de Chaves marcará a sua ausência, mas continuarão a vir especialidades de outras paragens.

 

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Mais uma vez peço desculpa à aldeia convidada, mas sempre que vou por aldeias da montanha e se conhecem as suas potencialidades e realidades, só podemos ficar revoltados pela forma como são tratadas. Ainda um dia se irá lamentar verdadeiramente aquilo que estamos a deixar morrer, mas esse dia, já será de não retorno.

 

E por Santa Marinha é tudo e com esta aldeia o blog marca também o regresso às aldeias que ainda não passaram por aqui.

 

Até amanhã, com mais uma aldeia de Chaves.

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:59
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Sábado, 11 de Abril de 2009

Mosaico (completo) da Freguesia de Moreiras

 

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Localização:

A 16 km da cidade de Chaves, a Sul desta, no limite do concelho, onde a Serra da Padrela se começa a desfazer para a Serra do Brunheiro situa-se a freguesia de Moreiras, em plena montanha a tocar já terras de Valpaços, mas próxima também de terras de Vila Pouca de Aguiar.

 

Confrontações:

Confronta com as freguesias de Loivos, S.Pedro de Agostém, Nogueira da Montanha, Serapicos (Valpaços) e Stº Leocádia.

 

Coordenadas: (Largo do Cruzeiro)

41º 38’ 25.88”N

7º 28’ 39.95”W

 

Altitude:

Variável – Entre os 750m e os 850m

 

Orago da freguesia:

Santa Maria

 

Área:

11,61 km2

 

Acessos (a partir de Chaves):

– Estrada Nacional 314

 

Acessos (a partir de Vidago):

– Estrada Nacional 311-3

 

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Aldeias da freguesia:

            - Moreiras

            - Almorfe

            - France

            - Torre de Moreiras

 

População Residente:

            Em 1900 – 514 hab.

            Em 1920 – 535 hab.

Em 1940 – 635 hab.

            Em 1950 – 797 hab.

            Em 1960 – 789 hab.

Em 1981 – 511 hab.

            Em 2001 – 308 hab.

 

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Principal actividade:

- A agricultura.

 

Particularidades e Pontos de Interesse:

Vulgarmente conhecida por Moreiras, o topónimo da aldeia e freguesia é no entanto Santa Maria de Moreiras, sendo uma freguesia rica em história e arqueologia onde se incluem o alto dos Crastos ou Outeiro dos Mouros, que segundo J.B.Martins seria assento de um antigo povoado castrejo da idade do ferro. Mesmo ao lado de Moreiras e bem próxima localiza-se a aldeia da freguesia de Torre (de Moreiras), cujo topónimo os historiadores locais dizem ter origem numa edificação senhorial fortificada da Baixa Idade Média.

 

France e Almorfe são as outras duas aldeias da freguesia que segundo os historiadores apontam, os topónimos terão origem em raízes etimológicas alti-medievais, relacionadas com a reconquista e influência árabe.

 

Na proximidade do Monte Crasto, ou Castra, dizem existir uma velha calçada que dizem romana.

 

Quanto ao topónimo Moreiras, uma das origens apontadas é a de derivar do “moraria”, termo arcaico ligado à amoreira (do latim “morus”), a árvore de fruto que dizem, outrora, era vegetação com abundância na freguesia e que a ser verdade estariam ligadas à seda, talvez como aconteceu e é conhecido o mesmo fenómeno no “Couto de Ervededo”.

 

Santa Maria de Moreiras teria sido um importante centro da Ordem dos Templários que daria origem à Ordem de Cristo numa região que se prolongaroa desde Arcossó até S.Julião de Montenegro onde o símbolo utilizado por estas ordens se repete em marcos, cruzeiros e cruzes dos templos religiosos existentes nesta região, onde se encontram imóveis com valor patrimonial, como o é a Igreja Paroquial de Moreiras que invoca Santa Maria, os cruzeiros bem próximos destas ou ainda as capelas de S.Vicente da Torre em France e de Almorfe.

 

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Do casario e arquitectura civil, há a realçar o existente em Moreiras com a Casa das Bravas e a Fonte do Cruzeiro, a imponente chaminé de uma das construções bem próxima da igreja mas também alguns atentados recentes numa das suas casas senhoriais com brasão e que atenta no seu interesse.

 

Quanto a festas religiosas destacam-se as que se levam a efeito em honra do Espírito Santo sete semanas após a Páscoa, as festividades de Nossa Senhora dos Favores (a 15 de Agosto), de Nossa Senhora do Rosário (em 7 de Outubro) e Santa Luzia (a 13 de Dezembro).

 

É sem dúvida alguma mais uma das freguesias que se tem de ter em conta nos itinerários de interesse do concelho, com passagem obrigatória por France (curiosamente às vezes também designada por França), uma breve vista de olhos à pequena povoação de Almorfe e vistas mais demoradas sobre Moreiras e todo o conjunto do Largo da Igreja, cruzeiros e fonte, sem esquecer dar um pulo a Torre de Moreiras. Quanto à chaminé que me referi atrás em Moreiras, não é necessário fazer-lhe referência à localização, pois pela certa será onde a sua vista se vai prender quando chegar a Moreiras.

 

Freguesia também conhecida pelos rigorosos e frios invernos onde raro é o ano em que a neve não brinda a freguesia com um pintura a branco. Bonito de ver, mas frio e difícil de suportar, talvez por isso, a tendência, seja a de mais uma freguesia onde se conjuga o verbo do despovoamento, aliás bem visível no gráfico que atrás se apresenta.

 

Referência também para a gente amiga que por lá se granjeia, que após se conseguir a amizade, é como se fossem da família.

 

 

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Linck para os posts neste blog dedicados às aldeias da freguesia:

 

            - Almorfe - http://chaves.blogs.sapo.pt/217663.html

 

            - France - http://chaves.blogs.sapo.pt/221519.html

 

            - Moreiras - http://chaves.blogs.sapo.pt/305322.html

 

            - Torre de Moreiras –  http://chaves.blogs.sapo.pt/219324.html

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:13
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Domingo, 29 de Março de 2009

São Julião de Montenegro - Chaves - Portugal

 

Hoje vamos até S.Julião de Montenegro,


S.Julião de Montenegro, fica a 12 quilómetros de Chaves, o principal acesso à freguesia é feito pela E.N. 213 (Chaves-Valpaços) é sede de freguesia, à qual pertencem as povoações de Limãos e Mosteiró de Baixo, confronta com as freguesias das Eiras, Faiões, Águas Frias, Oucidres, Nogueira da Montanha e Cela e ainda com as freguesias de Alvarelhos, Ervões e Friões, estas últimas do Concelho de Valpaços.

 

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São Julião, freguesia com a área de 15,29 km2 e 293 habitantes residentes, dados para a freguesia, pois para a aldeia propriamente dita, os números resumem-se a 113 habitantes, com 6 crianças com menos de 10 anos, 5 entre os 10 e os 20 anos e 44 habitantes com mais de 65 anos. Números do ano de 2001 do Censos que como em todas as aldeias demonstram bem a tendência do despovoamento do mundo rural, principalmente o mundo rural de montanha o mundo dos resistentes, embora por S.Julião até ainda haja alguns casais novos que vão dando alguma vida à aldeia que fazem esquecer um pouco o abandono da sua velha rua principal.

 

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A agricultura é a principal actividade da aldeia e da freguesia, embora com os seus terrenos essencialmente de natureza granítica a altitudes acima dos 700m, no entanto como são terras com abundância de água, são também terras férteis. Se cultivadas, produzem centeio, milho, trigo, batata, toda a espécie de legumes e variadas frutas, com especial destaque para a castanha.

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Se hoje a agricultura é a principal actividade da aldeia, nem sempre foi assim, pois tempos houve em que para além da agricultura havia outras actividades mais rentáveis, como uma importante exploração mineira com muita actividade no período da 2ª Guerra Mundial, exploração essa que se fazia num local a que hoje ainda chamam estanheira, por ter sido jazida de umas importantes minas de estanho.

 

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E embora possa parecer estranho, principalmente pela sua distância até à raia, S.Julião ficava também nas rotas e caminhos do contrabando, com os fardos a mudar de mãos precisamente no troço de estrada nacional que passa junto à aldeia. Pela certa que desde as minas ao contrabando passando pelo tempo do “pulo” para outras paragens, haverá muitas estórias perdidas e por contar.

 

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S.Julião de Montenegro, assume como topónimo o nome de S.Julião + Montenegro com origem no antigo julgado de Montenegro, aquando a aldeia gozava de grande importância que ainda está patente em algumas tradições fidalgas e na sua Igreja Matriz, um templo românico, que data dos princípios da nacionalidade, com uma traça arquitectónica que foi suportando como pode os atentados do tempo e até os do homem.

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A igreja matriz de São Julião de Montenegro é um templo de traça românica onde ainda persistem muitos dos elementos arquitectónicos originais. Só a fachada principal, com uma orientação a Oeste, é que se encontra completamente descaracterizada por obras de restauro mais recentes, aliás obras a que tem estado mais ou menos sujeita ao longo dos tempos e ligadas a estragos causados por causas naturais, como o terramoto de 1755 (segundo alguns documentos) ou mais recentemente, atribuídas a um ciclone do início do século passado que muitas vezes é referido pela população mais idosa, ou mais recentes ainda, nos anos 80, por iniciativa do então padre da freguesia. Obras mais ou menos felizes que lá foram mantendo a cachorarrada  que testemunha a sua origem românica, bem como uma pequena porta que se rasga na parede norte do edifico e que curiosamente podemos ver repetida em desenho na Igreja de Moreiras, desenho onde se encontra reproduzida a famosa cruz usada pela Ordem dos Templários que neste caso seria já da Comenda da Ordem de Cristo, à qual pertenceu S.Julião.

 

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No interior da Igreja revela-se um importante testemunho de pintura mural, surgindo ainda alguns fragmentos a forrar as superfícies das paredes internas do templo. Os vestígios concentram-se junto do arco triunfal e em toda a sua superfície, constituindo-se assim como um dos raros exemplares que testemunham a riqueza e a temática pictórica que de uma forma geral existia no interior das igrejas medievais.

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Igreja românica, no entanto e aquando das obras de restauro já aludidas, o tempo regressou até à época romana com a descoberta de três marcos miliários pertencentes à via augusta XVII. O primeiro é atribuído a Macrino, datável de 217-218 e surgiu debaixo de um dos altares juntamente com um outro exemplar, encontrando-se actualmente no interior da igreja, junto da porta principal. Possui a seguinte inscrição: [OPLL]IV[S] MACRI[NVS] / NOB(ilissimus) C[A]ESAR.

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Um segundo marco é atribuído a Décio, apresenta a indicação da milha (VI) e é datável do ano de 250. Apresenta a seguinte inscrição: IMP(eratori) [G]AIO TRA / IANO DECIO IN / VICTO AVG(usto) TR(ibunicia) P(otestate) / II CO(n)[S](uli) III PRO / CO(n)S(uli) / RE[ST(ituit) V(iam) A A(qvis) F(lavis) / M(ilia) P(asum) VI [HE / RENNI] OETRVS / [CIO M]ES[IO NOBI / LISSIMO CAESARE]

 

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O terceiro exemplar encontra-se no adro da igreja, ao lado do portão de ferro que permite acesso ao terreiro do templo. Trata-se de um grande fragmento da secção inferior que termina num espigão quadrangular. Não possui epigrafe. António Rodriguez Colmenero (RODIGEZ COLMENERO,1997: 333, nº 426) refere ainda um quarto fragmento de miliário, também procedente da igreja de S. Julião e que na altura se encontrava no domicilio do Pe. Fernando Pereira. O autor consegue recuperar a inscrição ---]FLAVIO DALMACIO[---

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Importantes testemunhos dessa importante via romana da qual ainda hoje se podem ver alguns fragmentos na freguesia das Eiras, mesmo por baixo do Miradouro de S.Lourenço e que facilmente se adivinha a passagem por terras de S.Julião de Montenegro.

 

Voltando à igreja de S.Julião, ainda é um bonito exemplar a apreciar quer pelos modilhões da cornija e as pinturas a fresco que apresentam algumas alfaias e paramentos religiosos de grande valor artístico. Interiormente possui uma só nave, a qual, no seu conjunto com a abside e dois altares laterais, representa uma cruz, formato de igreja mais usado nos séculos XI e XII em toda a cristandade. O altar principal e o seu retábulo são lavrados em talha simples do segundo período da renascença. No tecto da capela-mor, está pintado o apóstolo S.Pedro no acto que se seguiu à negação.

 

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Continuando ainda com a igreja e para um último apontamento e, um alerta para quem de direito. A população lamenta não ter dinheiro para recuperar o tecto da capela-mor e as suas pinturas. De facto é lamentável que o nosso mais rico património, neste caso o religioso ligado ao românico, tenha que depender da vontade e das expensas da população. Património cultural que é de todos e até da humanidade, mas que em termos de preservação e custos cai sempre sobre a população. Pois acontece que a população de S.Julião está envelhecida e não tem dinheiro para mandar recuperar as pinturas do tecto da igreja que entretanto se vão deteriorando cada vez mais. Património cultural, histórico e artístico que se poderá perder e pela certa que não será por culpa da população, mas talvez por culpa da própria entidade que é a Igreja Católica que deveria cuidar dos seus templos (em vez de os “roubar” como parece já ter acontecido em tempos nesta igreja de S.Julião), por culpa da Junta de Freguesia (que já sabemos que também não tem meios), por culpa da Câmara Municipal (que se põe à margem destas questões) e por parte do Estado, “IPA’s”, “IGESPARES” ou seja lá o que for ou quem seja. Ninguém tem responsabilidades e a realidade repete-se não só aqui em S.Julião, mas também na Granjinha e noutros templos que embora não tão antigos como os românicos, não deixam de ter interesse e em todos eles, a não ser os cuidados da população, ficam abandonados e entregues ao seu próprio destino.

 

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Foi demorada esta abordagem à Igreja de S.Julião porque sem dúvida é também um dos templos mais importantes que testemunham o românico no nosso concelho.

 

S.Julião, bispo de Toledo, que foi coevo dos reis Vamba e Ervígio, soberanos godos é também o santo que dá nome à aldeia e que é também o seu padroeiro, celebrado em 11 de Março, no entanto a verdadeira festa da aldeia (um pouco e tal como acontece em todas as aldeias de montanha) é o mês de Agosto, em que as ruas se enchem de gente com os regressos à terrinha dos seus filhos.

 

Para a feitura deste post, foram recolhidos dados do INE (censos 2001), ANAFRE e IPA.

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Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

Capeludos - Chaves - Portugal

 

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Ontem passei a tarde no grande planalto do Brunheiro em terras da freguesia de Nogueira da Montanha, onde as sombras de Inverno são sempre brancas, das neves que não derretem e das geadas que se acumulam. Estive em algumas casas em que as paredes dos compartimentos interiores não habitados, estão brilhantes com o revestimento de uma camada de gelo. Os produtos agrícolas que guardam nas despensas e anexos exteriores, como as batatas e as cebolas, congelam.

 

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Uma das aldeias que ontem visitei foi Capeludos, um bom exemplo de aldeia de montanha, onde o frio é a constante de Outono/Inverno e onde as sombras são sempre brancas. Mas antes as sombras brancas, os frios intensos, as geadas e a neve do que a chuva, pois essa além de fria, entra nos ossos tolhidos por reumatismos.

 

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Capeludos é uma pequena aldeia que fica a 15 quilómetros de Chaves e é uma das onze aldeias da freguesia de Nogueira da Montanha. Situa-se em pleno planalto do Brunheiro a uma altitude acima dos 825m.

 

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Mesmo ao lado e ligada fisicamente por construções está a aldeia de Sandamil, aliás a Rua Central é comum às duas aldeias e, sinceramente, não compreendo a razão pela qual oficialmente existem duas aldeias, pois uma mais parece ser um bairro da outra. Mas pela certa que haverá razões e tradições que as separam e dão a cada uma o seu topónimo e em coisas de tradições não me meto, antes, respeito-as.

 

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Falar de despovoamento nesta freguesia de Nogueira da Montanha já não é novidade …

 

Bem poderia continuar por aqui fora com as palavras que dediquei ao post de Sandamil, que ninguém se daria conta da diferença entre Capeludos e Sandamil. Não por distracção, mas porque a realidade e a identidade das aldeias de montanha é em quase tudo idêntica e então entre estas duas aldeias, apenas um cruzamento das mesma rua as divide.

 

 

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Mas claro que no meio de tanta identidade algumas diferenças haverá, e começa pelas escolas, a antiga no meio do largo, abandona e a nova, à na entrada da aldeia, mas abandonada também. Afinal as duas aldeias diferem no ter ou não edifícios escolares, mas apenas isso, pois são escolas sem alunos e sem professores.

 

Capeludos tem Capela, pequena, simples e bonita, localizada também na entrada da aldeia, entre a escola nova abandonada e a escola velha abandonada. Um grande largo, separa a Capela do núcleo antigo da aldeia. Largo que em tempo de intervalo da escola (de uma aldeia próxima ou da cidade) se transforma em campo de futebol dos putos que por lá há, mas como o tempo é de crise, os putos também são poucos e o jogo compõe-se com dois jogadores para cada lado e sem respeitar escalões etários, senão não havia jogo.

 

 

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Alheios aos putos, está o burro que pasta junto à escola nova abandonada, um cão que por ali anda às voltas ou o cavalo que pasta no mesmo largo em que os putos jogam à bola, ou as cabras que partilham pasto com outro burro, ou até a senhora que vergada pelos anos mas também pelo frio a rondar os zero graus, seguia o seu caminho e lá ia à sua vida, atravessando o largo junto à escola velha abandonada, entre o cavalo que pastava e os putos, que dois de cada lado, jogavam à bola e nas suas corridas para lá e para cá, entre pontapés atraiçoados pela irregularidade do campo, se iam divertindo e combatendo o frio, mesmo que mãos e caras já estivessem roxas de tanto ar gelado.

 

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E eu por ali perdido no meio do largo lá ia apontando a objectiva para mais um fio azul, para a capela, registei a passagem da senhora, o jogo dos putos, o cavalo, os burros e cabras e eis que “apita” para intervalo do jogo, é tempo de voltar ao balneários, reduzido a um tanque junto à escola velha abandonada, com meia torneira presa por um fio azul e água do tanque congelada que os putos à força de pedrada, lá foram partindo, para com os pedaços de gelo, entre mãos roxas de frio, começarem um novo jogo e uma nova brincadeira, mas agora com gelo, enquanto a bola, pasmada no meio do largo, lá vai esperando por novos toques e pontapés, com dois jogadores de cada lado.

 

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Podem não acreditar, mas deliciei-me com aqueles momentos ao reviver brincadeiras e jogos passados como os da minha infância, também com o jogar da bola num largo qualquer ou no meio da rua e com o quebrar do gelo, em que o seu brilho e transparência impressionavam mais que o frio que nos deixava as mãos roxas de dor.

 

Ali, também no meio do largo como se invisível fosse, fiz os meus regressos no tempo, os meus registos fotográficos, deliciei-me e além dos putos, que não me ligaram nenhum, ninguém deu por mim, mas dava eu conta do frio que me convidava mais uma vez a entrar para o quente do carro.

 

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Elogio ao fio azul

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E agora vamos lá inventar mais um bocadinho que até ausência de melhor, é a minha opinião sobre o assunto. Vamos falar do topónimo Capeludos, que à primeira vista, o termo poderia derivar de capelas, mas embora até capeludos (termo) tenha alguma ligação indirecta a capelas, o termo provém de capelo + udo. Ora sabemos que capelo era o nome que se dava ao antigo capuz dos frades, ou à touca das freiras ou viúvas. Udo penso que sozinho não tem qualquer significado, mas acrescentado a certas palavras, reforça-as e dá-lhe um significado  mais rude (tromb(udo), carranc(udo), abelh(udo) e por aí fora (continuo a inventar, pois nada percebo destas coisas). Mas então Capelo+udo – Capeludo – Capeludos, é o topónimo da nossa aldeia… e para que servia o capelo dos frades? Entre outras funções, para proteger as cabeças, sobretudo do frio. Coisa que em Capeludos (aldeia) é bem necessária, pois frio por lá não falta. Estamos chegados então ao topónimo Capeludos, onde dadas as alturas seriam necessários capelos para as pessoas antigamente abrigarem as cabeças, mas também os corpos. E fico-me por aqui até alguém contrariar a minha teoria.

 

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Quanto à população de Capeludos, segundo o Censos de 2001, tinha 68 residentes, dos quais 10 tinham menos de 10 anos, 4 residentes entre os 10 e os 20 anos e 18 com mais de 65 anos. Passados 9 anos sobre os censos, não sei como andará agora de população, sei que pelo menos 4 jogadores de bola rondam os 10 anos, ou seja, para uma aldeia pequena, (também aqui é semelhante a Sandamil), para a totalidade de população, ainda vai havendo crianças, numa aldeia que até tem duas escolas (a velha e a nova) mas abandonadas.

 

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E hoje não apresento os meus habituais lamentos sobre o despovoamento e os maus tratos a que as aldeias de montanha e do interior estão sujeitas, pois também aqui são semelhantes aos de Sandamil, aos de Nogueira da Montanha, aos de Alanhosa, aos da Amoinha Velha, aos de Carvela, aos de Gondar, aos de Maços, aos de Santa Marinha, aos de Santiago e aos do Sobrado, ou seja iguais a todas as aldeias do Planalto do Brunheiro, terras que estão lá bem no alto, para além da serra que todos avistamos aqui de baixo desde o vale, terras onde dói viver os invernos, mas também dói aos resistentes verem os seus filhos partirem para paragens longínquas à procura de uma vida mais digna  que aquela que não encontram no grande planalto, e mais não digo, porque hoje não me lamento.

 

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E vai estando tudo dito sobre Capeludos, uma pequena aldeia, pouco povoada e cujo casario se resume a um pequeno núcleo de casario tradicional com casas em granito (muitas abandonadas e/ou em ruínas), um grande largo, duas escolas abandonadas, uma capela e meia dúzia de casas mais recentes que foram surgindo ao longo da na Rua da Capela.

 

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E sobre Capeludos é mesmo tudo. Por terras de Nogueira da Montanha, falta-nos apenas uma abordagem mais alargada de Santa Marinha. Alargada dentro do possível, pois é mais uma das pequenas aldeias de montanha. Fica a promessa que um dia destes vamos por lá.

 

Até amanhã!

 

 

 

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publicado por fernando ribeiro às 04:23
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Domingo, 25 de Janeiro de 2009

Tresmundes - Chaves - Portugal

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Vamos até Tresmundes e vamos começar pelo seu topónimo, à minha maneira, por dedução e por aquilo que nome indica, associado ao lugar, aos ares, aos sons ao cheiro, àquilo que a própria aldeia nos sugere. Pois chegados a Tresmundes, logo se entende o porquê do seu topónimo, não tivesse Tresmundes, três mundos a seus pés ou ao seu alcance, de vistas e largos horizontes que facilmente se podem imaginar e até sonhar desde esta aldeia, pois de facto, tem o grande vale a seus pés, todo um mundo de cidade, para logo a partir dele se entrar por um outro mundo de montanhas barrosãs e um pouco ao lado, montanhas galegas. Todos estes três mundos são possíveis em imagem, em sonhos e aventuras imaginárias vistas lá do alto, desde Tresmundes.

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E depois de dar largas à minha imaginação quanto ao topónimo, dizem os entendidos cá do sítio, que não é assim, o topónimo Tresmundes, nada tem a ver com os meus “três mundos”, mas antes com um nome próprio de pessoa da Idade Média. Na falta de melhor, vamos ficando com aquilo que os entendidos dizem, no entanto convém ter sempre em conta que na história também se inventa e quando o inventor é conceituado, o invento passa a facto, confirmado ou não, principalmente quando não há documentos que atestem a veracidade das afirmações…pensando melhor, acrescento à confusão a minha teoria dos “três mundos”, pois nem há como passar por Tresmundes e avistar aquilo que o horizonte nos proporciona, para confirmar a minha teoria.

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Cidade de Chaves vista desde Tresmundes

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Devaneios aparte, vamos então até Tresmundes, que como já entenderam pela primeira foto, pertence à freguesia de Cela, ou seja, é uma aldeia de montanha, bem lá no alto, a 800 metros de altitude e em plena encosta da Serra do Brunheiro, daquela encosta que se mostra ao vale de Chaves, que é visível da cidade, embora a aldeia não o seja, ou melhor, há duas ou três casas que espreitam para o vale e que vistas desde este, são apenas pequenos pontos brancos que se confundem com o recortar da silhueta do Brunheiro projectada nos céus, de azul forte de verão, ou cinzentões de inverno.

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Pela altitude facilmente se compreenderá que é aldeia de invernos rigorosos, mas não só, mas também pela sua localização geografia na ocupação da encosta poente do Brunheiro, que só tardiamente deixa que o sol ilumine com algum calor durante as tardes, que de Inverno, quase nem existem. Assim, o branco das geadas e nevadas prevalecem durante dias e semanas nas sobras da própria sombra a que a aldeia está sujeita. Terra e aldeia de clima bem difícil e feita para os resistentes, os autênticos, que lhe resistem, sobretudo pela idade e pelo amor que sempre existe pela terra onde se nasceu.

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Tresmundes, como aldeia de montanha, é também terra de resistentes, não só pela montanha alta em si, mas também por aquilo que a montanha e a inclinação das suas encostas não permite e porque tudo que se consegue arrancar dela significa trabalho e esforço redobrado, aliado à tais politicas de esquecimento e desprezo ditado desde os governantes de Lisboa para com o interior, onde a gente que por estas aldeias existe, não é igual à do litoral ou dos grandes centros, mesmo que muitos deles fossem paridos por esta gente. Mordomias e as luzes da cidade, facilmente fazem esquecer o engaço, e olham para esta gente, que afinal é a sua gente, como gente de outro mundo, como se de uma reserva nativa em vias de extinção se tratasse, e, com as tais politicas ditadas da capital, para lá se caminha, para a extinção, não só das aldeias montanhosas do interior, mas para toda uma riqueza cultural, usos e costumes e sobretudo o espírito salutar e comunitário de gente de bem, com princípios, de palavra, hospitaleira e amiga. Valores que não contam como números para apontar em gráficos à Europa e Valores que cada vez mais são esquecidos por quem nos “governa”.

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Para quem é habitual neste blog e, que para além das imagens, lê aquilo que escrevo, sei que é mais do mesmo aquilo que por aqui deixo sobre o despovoamento das aldeias, mas só há uma maneira de conhecerem a realidade actual das nossas aldeias, e essa, está fortemente ligada ao próprio despovoamento e ao esquecimento a que as aldeias foram dotadas, ou melhor, estão sujeitas, pois é triste, para quem conheceu todas estas aldeias há 30 ou mais anos atrás, entrar nelas e vê-las sem vida, sem crianças, envelhecidas e com todo o seu rico casario tradicional degradado, abandonado ou em ruínas, onde só e mesmo os resistentes, resistem. Esta é uma realidade que não se pode esquecer, que tem culpados e por isso não se pode ignorar, ou fazer de conta que não existe. Por isso, vão continuar a ter mais do mesmo, porque eu tenho teimosia bastante para não calar estes e outros males que nos assolam, enquanto os de Lisboa brincam com os dinheiros públicos e megalomanias com TGV’s e outras grandezas de entreter para parecermos grandes na Europa, mas só para parecermos e não para o sermos ou então, pior ainda, para enriquecer quem é “grande”. No entanto é-se grande, quando não se

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renega os seus e damos valor aos valores das pessoas, à sua identidade, ao seu passado, à sua realidade, aos seus usos, costumes e tradições, às suas diferenças. É aí que está toda a nossa riqueza, que podemos dar e exportar para a Europa, mas infelizmente, todas as políticas de Lisboa são de desprezo para connosco, onde até as tradições artesanais daquilo que fazemos melhor, são proibidas e punidas por Lei. Claro que falo do da matança do reco, do fumeiro artesanal, das couves da horta, das compotas sem rótulo e prazo de validade, do leite vindo directamente das tetas da vaca, do vinho de lavrador, dos queijos do pastor, do cabrito da corte, da aguardente do alambique da esquina… ou seja, de tudo que a ASAE persegue e que quer acabar com o que é bom e puro, com as tradições, com o povo, com as aldeias. Vergonha é o que deviam ter os senhores de Lisboa, mas não têm, pois além disso são hipócritas e lambem-se todos com as linguiças, os salpicões e presuntos que em jeito de subserviência os de cá (iguais a eles, mas em miniatura) lhes enviam, para num futuro próximo, não serem esquecidos… Já não há respeito e por isso, não me calo e ninguém me calará enquanto as políticas dos políticos de Lisboa forem contra o nosso povo do interior e os políticos da província, entretidos com os seus umbigos e “grandes” feitos, continuem a dizer ámen a tudo quanto é ditado da e pela capital. É tempo de dizer “Basta Já” ou traduzido para português “Já Chega!”.

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 Podem parecer devaneios de escrita, mas não o são, são antes revoltas que se sentem dia-a-dia por quem por cá vive, pelos resistentes, sobretudo pelos das aldeias, da montanha, onde estas injustiças mais se fazem sentir.

 

Regressemos a Tresmundes, que desde o seu mundo, a 9 Km de Chaves, lá desde o alto do Brunheiro, os seus 91 residentes (Censos 2001) vêem o com certeza sonham com um mundo melhor, mesmo que de lá avistem três mundos.  91 residentes, perdão, resistentes, onde mesmo assim, em 2001 havia 5 crianças com menos de 10 anos, 19 com menos de 20 anos (incluindo as 5 crianças) e 18 resistentes com mais de 65 anos.

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Quanto à vida da aldeia, é os costume nas aldeias de montanha, a agricultura predomina, a de proximidade e subsistência, com a batata, o centeio e a castanha, como principais actores nas suas lides da terra. Claro que, ninguém mo disse mas adivinha-se, tem os seus emigrantes e também os resistentes que têm que encontrar o seu modo de vida fora da aldeia, pois por lá, o que se produz, com certeza que não chega para viver.

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A aldeia desenvolve-se à volta de um grande largo onde marca presença como elemento principal a capela, simples e pequena cuja padroeira é a Senhora do Rosário, mas onde também figura o São Barnabé com uma representação muito invulgar.

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Por último e para terminar uma referência ao estradão que liga e separa Tresmundes de Carvela, ou falando em termos rodoviários, o estradão que separa ou liga a Estrada Nacional 213 da Estrada Nacional 314, pois é um estradão de montanha, em terra batida e diariamente utilizado por dezenas de pessoas, pois este estradão tem apenas 3 Km e poupa na ligação entre as duas aldeias ou as duas estradas 21 Km de estrada asfaltada, pois se quisermos fazer esta ligação, com condições mínimas, entre as duas aldeias (a apenas 3 Km de distância), teremos que obrigatoriamente descer todo o Brunheiro, passar pela cidade, para de novo subir o Brunheiro. 3 Km de estrada têm os seus custos, mas os benefícios, neste caso, compensam o investimento, e sempre se poderá fazer com um luxo que se roube à cidade de Chaves.

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E por Tresmundes é tudo e pela freguesia de Cela também vai sendo. Freguesia tão próxima de Chaves e tão rural que é, e também de contrates com paraísos esquecidos e incompreendidos, comas as suas duas Ribeiras, a de Sampaio, cuja beleza preenchia qualquer alma pelo seu bucolismo e que anos recentes desvirtuaram e  a Ribeira do Pinheiro, pelo qual este blog ainda nunca passou, pois a par da Vila Rel, é a aldeia ou lugar cujos acessos são difíceis e complicados, que neste caso da Ribeira do Pinheiro, fica ali mesmo a umas dezenas de metros da E.N. 213. Mas fica a promessa que um dia, este blog também passará por lá, pois pelo que aparenta, é um pequeno paraíso em beleza.

 

Até amanhã!

 

P.S. – O visitante que hoje atingir as 600.000 visitas tem direito a uma dúzia de pastéis de Chaves.

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Domingo, 18 de Janeiro de 2009

Sobrado - Chaves - Portugal

 


 

Recordando, lembrei-me que já uma vez tinha feito uma breve passagem pelo Sobrado. Fui à procura do que então disse e, continua actual (corrigido e aumentado):

 

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Nº1, nº2, 3 e 4 casas habitadas a 2 pessoas por casa = 8 pessoas. Eia como sou bom em matemática do despovoamento, ainda por cima é uma disciplina que é muito fácil de entender, nem tanto de compreender ou aceitar.

 

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É assim o Sobrado, o casco velho do Sobrado. Algumas casas mas pouca gente, apenas os mais resistentes, os que teimaram em ficar, por amor com certeza, e se amanham à terra com o mesmo jeito com que a amanham. Não partiram e vão fazendo a vida no contar (que já é descontar) dos dias, à espera que chegue o Natal que aqui, acontece em Agosto, nas féria de verão, quando a aldeia ganha alguma vida com gente jovem, quando é chegada a hora de receber os filhos e netos que andam lá fora a lutar pela vida.

 

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Triste sina a sina da vida na montanha deste Portugal desigual, mas o mais curioso e, que até chega a meter impressão, é que a gente da montanha é grande, valente e orgulhosa, não partiu, é certo, mas é como se tivesse partido por esse mundo fora e quando se vê ao espelho, vê filhos e netos com orgulho, honra e até vaidade de os saber bem na vida, na França, na Suiça ou seja lá onde for…e para eles, para estarem bem com a vida, é condição suficiente que os seus filhos o estejam e estejam livres da vida agreste da montanha.

 

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Tal como então, também o post de hoje é dedicado aos resistentes do Sobrado, septuagenários e octogenários que vivem os dias à espera do Natal de Agosto.

 

Setenta e tal anos a guardar ovelhas, setenta e tal anos como pastor que lhe deixaram muitas recordações mas também algumas mazelas nos ossos. Descobri-o há dois anos atrás a pedido de um neto e,  hoje é um amigo que é obrigatório visitar quando passo pelo Sobrado. É o Senhor Coelho ou o pastor do Sobrado. Tem saudades do tempo em que percorria todo o planalto do Brunheiro  à procura de boas pastagens, mas mais que saudades do tempo de pastor, tem saudades do tempo de juventude, de toda uma vida dedicada ao grande planalto. Agora, como resistente do mesmo planalto,  recorda os tempos passados e fez questão de me mostrar, o abrigo do rebanho e os restantes anexos da casa, posto de abrigo, dos tempos de pastor. É um dos resistentes do Sobrado,  com orgulho de uma terra que conhece melhor que ninguém, mas de uma terra que também dói nos rigores dos frios de Inverno, daqueles que se supõe viver naturalmente porque se está habituado, mas não é assim, o frio dói mesmo, nos ossos e até nos haveres que se guardam nas despensas do prevenir de todo um ano, e que com tanto frio, congelam e se estragam. Excepção para as carnes de porco, que no sal ou ao ar, agradecem o frigorífico natural dos Invernos do planalto.

 

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Mas vamos até ao Sobrado, uma pequena aldeia do planalto do Brunheiro e que quase se confunde e mistura com a natureza, entre a Amoinha e Nogueira da Montanha, não fossem as casas novas junto à estrada e, para desprevenido, o velho núcleo é quase como se não existisse, mas existe.

 

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O Sobrado pertence à freguesia de Nogueira da Montanha, localiza-se em pleno planalto do Brunheiro, fica a 15 quilómetros de Chaves e o acesso é feito (a partir de Chaves) pela estrada nacional 314, a tal que passa pelo Peto de Lagarelhos e que chegados a France, é só virar à esquerda (antes ou depois – tanto faz).

 

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O Sobrado, como todas as aldeias do planalto, é terra da boa batata, alguma castanha, lenha e as culturas próprias das terras altas, mas também tem as suas culturas de horta, aquelas que sempre existem junto às casas, onde não faltam as couves, as cebolas, os alhos, os tomates, as cenouras, a alface e tudo que se necessita para a subsistência do dia a dia e que o curto verão ainda vai permitindo, pois de Inverno, tirando as couves, pouco mais se dá por estas terras.

 

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Quanto ao topónimo de Sobrado e à sua origem, mais uma vez, e na ausência de melhor, vamos para as suposições. De todos os significados atribuídos a sobrado (termo) entre os quais se encontra “soalho”, “pavimento de madeira”, “casa de senhor de engenho”, “que sobrou”, “que resta”,  “excessivo” e finalmente “abastado”, com origem no Latim superátu, «elevado», eu, fico-me por esta última proximidade de significados/origem, pois caem-lhe bem e fazem sentido, não fosse Sobrado uma terra elevada do planalto e até abastada em termos de boas terras de planalto, onde convém não esquecer que este planalto é mesmo lá no alto do mais alto que a Serra do Brunheiro tem, ou seja apenas uma aldeia que fica a 830 metros de altitude.

 

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É também mais uma aldeia da freguesia, que tal como Sandamil, se reúne às quase únicas aldeias do concelho que não têm capela, nem cemitério nem escola, talvez pela proximidade da sede de freguesia (Nogueira), ou talvez por sempre ter sido uma pequena aldeia de montanha, que quase sempre se resumiu a um pequeno núcleo de casas típicas de arquitectura tradicional de granito e que só apenas nos anos 70/80 se viu crescer ao longo da estrada com algumas novas construções.

 

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Falta só mesmo referir a sua população, os números do despovoamento, pois segundo o Censos de 2001, a aldeia tinha 24 residentes, nenhuma criança com menos de 10 anos, 4 apenas 4 residentes com menos de 20 anos. Não vale a pena inventar, pois os números (penso) dizem tudo. Poucos, mas resistentes e boa gente que conhece melhor que ninguém a vida do planalto do Brunheiro e os rigores do Inverno e do frio, o mesmo que se sente e dói, mesmo que os senhores de Lisboa pensem que por aqui estamos habituados a ele e que nem sequer desperta alertas da protecção civil, aliás, aldeias que com frio ou sem frio, deveriam despertar sempre os alertas nacionais, mas claro, como em termos de rendimentos de votos nada contam, também não contam para nada – mas existem e têm gente, que segundo os direitos da democracia, deveriam ser considerados como os outros que têm direito a direitos. Por cá são mais as obrigações, que nessas, nunca somos esquecidos. É o tal Portugal desigual, que desde Lisboa, este que por cá existe, confunde-se com a paisagem.

 

 

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publicado por fernando ribeiro às 03:19
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Domingo, 11 de Janeiro de 2009

Sandamil - Chaves - Portugal

 

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O frio, ultimamente de Norte a Sul do país não se fala de outra coisa. A televisão assim o quer e quando a televisão quer, é lei e assunto do dia nos temas de conversa e de escrita, de imagens e de fotografia. Portugal foi invadido por uma onda de frio e basta os termómetros por Lisboa registarem temperaturas abaixo do 10 graus para se instalar o pânico na capital. Convoca-se a protecção civil a actual, montam-se tendas de apoio, distribuem-se cobertores e sopas quentes, saem comunicados e alertas, os centros de saúde e hospitais entram de prevenção e etc. coisa e tal. Também no frio, Portugal é Lisboa e o resto é paisagem, principalmente o interior Norte das terras altas (Trás-os-Montes).

 

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Quase todos os distritos do país entraram em alerta laranja mas o distrito de Vila Real não. Aqui pelos nossos lados até parece que não houve (há) frio, nem neve, nem gelo, nem temperaturas negativas, nem canalizações de água congeladas, nem estradas cortadas, nem povoações isoladas. Neste preciso momento em que escrevo estas linhas, estão no exterior 5 º negativos e pouco passa para além da meia-noite. Andar nas estradas de montanha a esta hora é um risco que se pode pagar com a vida e as populações mais idosas das aldeias de montanha (e também da cidade) não têm aquecimento em suas casas, nem dinheiro para o pagar. Mas tudo isto, como é aqui no interior, não é notícia nem dá direito a alertas laranjas, nem direito a apoio à população mais carenciada, pois por cá, para os de lá, já estamos habituados.

 

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O problema do frio por cá, não é só nestas ondas de frio que invadem Portugal e faz tremer os lisboetas, por cá é uma constante, é o nosso dia-a-dia dos Outonos e Invernos, principalmente nas aldeias de montanha que vivem em altitudes mais elevadas, onde o frio é quase sempre de cortar à faca.

 

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Ontem passei a tarde no grande planalto do Brunheiro em terras da freguesia de Nogueira da Montanha, onde as sombras de Inverno são sempre brancas, das neves que não derretem e das geadas que se acumulam. Estive em algumas casas em que as paredes dos os compartimentos interiores não habitados, estão brilhantes com o revestimento de uma camada de gelo. Os produtos agrícolas que guardam nas despensas e anexos exteriores, como as batatas e as cebolas, congelam.

 

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Claro que isto não é exclusivo da freguesia de Nogueira da Montanha, mas de todas as freguesias fora do Vale de Chaves, ou seja, de montanha.

 

Isto é apenas um pequeno desabafo sobre o frio, pois até nisso, somos descriminados e pouco importa (aos do poder e aos de Lisboa) que durante estes dias de neve e gelo, haja populações isoladas e também para nada conta que as estradas e auto-estradas que nos deveriam ligar às políticas concentradas nestas noites estejam cortadas ou abertas mas intransitáveis, que ainda é pior. Ligações às políticas de concentração como aos hospitais para os casos mais e agora menos graves, é que em Chaves, quase se pode dizer, que já não há Hospital. Mas isto aos de Lisboa pouco interessa, desde que eles, claro, ali à mão de semear tenham meia dúzia de hospitais.

 

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Uma das aldeias que ontem visitei foi Sandamil, um bom exemplo de aldeia de montanha, onde o frio é a constante de Outono/Inverno e onde as sombras são sempre brancas. Mas antes as sombras brancas, os frios intensos, as geadas e a neve do que a chuva, pois essa além de fria, entra nos ossos tolhidos por reumatismos.

 

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Sandamil é uma pequena aldeia que fica a 15 quilómetros de Chaves e é uma das onze aldeias da freguesia de Nogueira da Montanha. Situa-se em pleno planalto do Brunheiro a uma altitude acima dos 825m.

 

Falar de despovoamento nesta freguesia de Nogueira da Montanha já não é novidade, mas curiosamente Sandamil surpreende, não pelo número de habitantes que segundo os Censos de 2001 se resumia a 44 habitantes residentes, mas surpreende quando à sua distribuição etária, pois dos 44 habitantes havia 3 com menos de 10 anos, 13 com menos de 20 anos e apenas 7 com mais de 65 anos, distribuindo-se a restante metade da população pelo escalão etário dos 20 aos 65 anos. Digamos que são poucos mas bem distribuídos por idades.

 

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Sandamil é mesmo uma pequena aldeia, com pouco mais de 10 casas habitáveis e as mais antigas degradadas ou em ruínas. Algumas construções recentes. Claro que aqui os números em todos os casos são reduzidos e contam-se pelos dedos das mãos.

 

Mesmo ao lado e ligada fisicamente por construções está a aldeia de Capeludos, aliás a Rua Central é comum às duas aldeias e, sinceramente, não compreendo a razão pela qual oficialmente existem duas aldeias, pois uma mais parece ser um bairro da outra. Mas pela certa que haverá razões e tradições que as separam e dão a cada uma o seu topónimo e em coisas de tradições não me meto, antes, respeito-as.

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E estamos chegados ao topónimo de Sandamil. Para os mais distraídos poderão ser levados a pensar que por aqui as sandes são a mil, a terra das mil sandes. Mas nem o pão que se costuma consumir por aqui é muito dado a sandes e assim, pela certa que não é daí que lhe vem o seu nome. A única explicação que encontrei para este topónimo é a que corre cá pelos historiadores da terrinha e que dizem que Sandamil era um nome próprio da Idade Média e que será daí que vem o nome desta aldeia. Seria então a aldeia do senhor Sandamil. Algumas vezes a aldeia aparece com chamando-se Sandomil, como por exemplo no Google Earth. Assim se quiserem ver Sandamil desde os satélites, mais vale pesquisar em Sandomil-Chaves, senão ainda vai parar a Sandamil de terras Galegas, ou a uma outra qualquer terra Sandomil portuguesa, pois existem pelo menos uma com este topónimo, lá para os Lados de Seia, Guarda.

 

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Mas esta aldeia tem ainda algumas características únicas, pois é a única aldeia do concelho (que eu saiba) que não tem uma capela, como também não tem edifício de escola (antiga ou actual), nem cemitério, embora este último não seja de estranhar, pois muitas das vezes, resume-se ao cemitério da freguesia.

 

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Estranho não haver capela, a não ser que exista e eu não tivesse visto, mas duvido, pois a aldeia praticamente resume-se ao que está construído ao longo da tal Rua Central que liga as duas aldeias. Existe, isso sim, num pequeno largo da aldeia um nicho recente (daqueles que agora estão na moda) com uma santa.

 

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E é quase tudo sobre Sandamil, pois apenas falta referir o que por lá se faz, ou seja, agricultura com o que é tradicional no alto planalto do Brunheiro. Algum gado, batata e centeio, fora isso, penso que haverá gente (mais jovem) a trabalhar fora da aldeia, além dos seus emigrantes, que também os terá. Tudo em número reduzido, pois estamos a falar de uma aldeia que é e sempre foi pequena, mas nem por isso deixa de ser interessante e tem até belíssimos exemplares de construção tradicional em granito.

 

Para se chegar a Sandamil, mais uma vez tomamos a EN 314 até às bomba de gasolina de France e logo a seguir vira-se à esquerda, ainda ante se se entrar na aldeia de France. Umas centenas de metros à frente, eis Sandamil.

 

Até amanhã, a inaugurar mais uma nova rubrica no blog, a alternar com os Ilustres Flavienses.

 

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publicado por fernando ribeiro às 02:25
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Sábado, 13 de Dezembro de 2008

Mosaico da Freguesia de Santa Leocádia

 

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Localização:

A 17 km de Chaves, situa-se no limite Sul do concelho de Chaves, toda ela em área de montanha, na encosta setentrional da Serra da Padrela e banhada pela Ribeira de Oura.

 

Confrontações:

Concelho de Valpaços e freguesias de Moreiras, Loivos e Póvoa de Agrações.

 

Orago da freguesia:

Santa Bárbara.

 

Área:

15.30 km2.

 

Acessos (a partir de Chaves):

– Estrada Nacional 314 (Chaves – Carrazedo de Montenegro – Murça). As última aldeias do concelho (Carregal e Fornelos) são pertença desta freguesia a partir das quais se faz o acesso para a sede de freguesia e restantes aldeia..

 

Acessos (a partir de Vidago):

– Estrada Nacional 311 até ao Peto de Lagarelhos ou via Loivos por Caminhos de Montanha (asfaltados) .

 

 

Aldeias da freguesia:

            - Santa Leocádia a 18 Km de Chaves;

            - Adães a 16.5 Km de Chaves;

- Carregal a.16 Km de Chaves;

- Fornelos a 18 Km de Chaves;

- Matosinhos a 18 Km de Chaves;

- Santa Ovaia a 17 Km de Chaves;

- Vale do Galo a 18 Km de Chaves.

 

As distância a Chaves podem variar mais ou menos 1 Km conforme o acesso entre aldeias que se tome.

 

População Residente:

 

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            Em 1900 – 814 hab.

            Em 1920 – 747 hab.

            Em 1960 – 1.093 hab.

            Em 1981 – 751 hab.

            Em 2001 – 419 hab.

 

Principal actividade:

- Agro-pecuária bovina e caprina e agricultura típica da região, com a batata, centeio mas também a castanha como principais culturas.

 

Particularidades pontos de Interesse:

Com um rico e interessante património edificado, com casas solarengas em Matosinhos (com destaque para a Quinta do Real, um solar setecentista com capela particular e convertida em turismo rural) e Adães e quase todas as aldeias com importantes núcleos de construções típicas e tradicionais em granito, realçando-se além das casas senhoriais, a sua importância em edificações religiosas como a Igreja Paroquial de traça românica de Santa Leocádia e as Capelas da Santíssima Trindade, de nossa Senhora da Assunção, de Nossa senhora da Boa Viagem, de São Bento e de São José.

 

Freguesia também muito rica em paisagens naturais, avistando-se de algumas aldeias autênticos mares de montanhas onde os pôr-do-sol atingem particular beleza.

 

Sem dúvida alguma é mais uma das freguesias (com passagem obrigatória por todas as aldeias) à qual recomendo uma visita.

 

 

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Linck para os posts neste blog dedicados às aldeias da freguesia:

 

            - Santa Leocádia

 

            - Adães

 

            - Carregal

 

            - Fornelos

 

            - Matosinhos

 

            - Santa Ovaia

 

            - Vale do Galo

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:59
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Domingo, 7 de Dezembro de 2008

Sobreira - Chaves - Portugal

 

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Mais um Domingo, mais uma aldeia. Hoje toca a Sobreira ou por Assobreira também conhecida. Mais uma aldeia da freguesia de Águas Frias e mais uma aldeia de montanha.

 

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Já o disse aqui no blog que Sobreira foi uma das últimas aldeias do concelho que conheci, não por qualquer razão em especial, mas porque calhou ser assim, ou até talvez não, pois Sobreira né uma daquelas aldeias em que para se conhecer, temos que ir lá de propósito, pois não fica no itinerários de qualquer estrada ou caminho.

 

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Demorou a conhecer a aldeia, mas fiquei surpreendido com o que conheci, pois sempre a imaginei uma aldeia pequena, com meia dúzia de casas, mas embora não seja grande, está bem longe daquilo que imaginava e pelo seu núcleo, demonstra bem ter sido uma aldeia agrícola importante no planalto de Monforte ou do Castelo de Monforte.

 

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É na realidade uma das aldeias de Monforte, lá bem no alto onde se faz sentir e bem o rigor dos Invernos. Talvez seja por esta razão, associada às razões do despovoamento do costume, que Sobreira também é feita e vivida hoje em dia por resistentes.

 

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Claro que não será preciso dizê-lo, pois facilmente se adivinha que Sobreira sempre foi uma aldeia fortemente ligada à agricultura e pecuária, com as culturas do costume (a batata e o centeio com principais actores e as culturas típicas da horta nas terras de vizinhança das casas) e as criações também do costume ( o porco, a ovelha, a vaca para o leite mas também para o trabalho nos campos, a par do burro e do cavalo ou das mulas). Mas isto faz já parte da história, embora bem recente, pois o que hoje há por lá, são apenas amostras do que foram os grandes tempos agrícolas e pecuários da aldeia.

 

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Sobre a aldeia em tudo que é literatura disponível apenas encontrei uma referência tipo dicionário onde consta: “ Assobreira, também designada por Sobreira, é um pequeno lugar que quase se reduz a uma antiga quinta  rodeada de campos característicos da região”

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Pois não me pareceu tão pequena assim, pelo menos em número de construções do seu casario, que por sinal é bem interessante e embora sem casas senhoriais, é um bom exemplo das aldeias típicas do casario de granito, com algumas intervenções (poucas) de meados do século passado. Casario que como na maioria das aldeias de montanha dos resistentes, está maioritariamente abandonado e em mau estado.

 

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Casario novo e recuperações recentes, também são coisa quase inexistente na aldeia o que nos leva a uma das aldeias a acrescentar à grande maioria das aldeias do concelho, em que o filhos da terra que partiram, não têm no seu horizonte um regresso, embora regressem sempre, de vez em quando ou uma vez por ano, para visitar os resistentes e para matar saudades de vivências da infância e das coisas boas, que só as há nas aldeias e muitas das vezes, precisamente para esses momentos especiais. Claro que falo do presunto, do fumeiro, mas também das coisas da horta, tudo “biológico” e natural e fabricado com as melhores normas e regras do que é artesanal.

 

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Pois uma vez que sobre a aldeia não há literatura (pelo menos que eu conheça” vamos lá àquela parte em que vou inventando, principalmente no que diz respeito ao seu topónimo Sobreira ou Assobreira, que como o nome indica, não será estranho aos termos, sobral, sobrado, montado, montanheiro. Quanto ao Sobreira/Assobreira, talvez em relação ao segundo topónimo esteja associada a nossa tendência de facilitar a nossa linguagem falada, tal como na troca dos vês pelos bês em que poupamos uma série de movimentos dos músculos faciais. Também no termo Assobreira teremos a redução de vários termos a um único, qualquer coisa do género de: “bou àssobreira” em vez de: “ Vou a Sobreira”. Claro que tudo isto é a minha fértil imaginação a inventar, mas como costumo dizer, até prova (e científica) em contrário, acredito naquilo que me apetecer ou imagino.

 

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Em vamos à sua localização, acessos e números.

 

Sobreira é uma das 5 aldeias da freguesia de Águas Frias, dista 9 quilómetros da cidade de Chaves, está integrada no planalto (alto) de Monforte o acesso (a partir de Chaves) é feito pela Nacional 103 até às Assureiras do Meio. A partir de aqui, bota monte acima, sempre a subir até à Sobreira por estrada municipal, estreita mas com bom pavimento asfaltado até umas centenas de metros imediatamente antes das Avelelas, onde se deve virar à direita. Basta seguir a indicação da placa, claro que, se o ferrugem ainda deixar ler. Mas creio que sim.

 

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Quanto a números, os Censos 2001 são os indicadores mais recentes do costume, ou sejam 83 habitantes residentes dos quais só 3 crianças com menos de 10 anos, mas mesmo assim, segundo dados mais recentes em idade escolar, ainda há pela aldeia 7 jovens (incluindo os do secundário).

 

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Para terminar, e para quem gosta de andar à descoberta das nossas aldeias rurais, Sobreira é uma das aldeias que deve incluir no seu itinerário, sempre com gente a partilhar a rua, geralmente sentada no descanso da sua resistência, no convívio de todos os dias.

 

Até amanhã!    

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:29
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Domingo, 30 de Novembro de 2008

Soutelinho da Raia - Chaves - Portugal

 

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Em dia de neve todos somos putos e como em Chaves (cidade) ainda não nevou, havia que ir à procura da neve onde de certeza a havia, e ontem, a oferta até era grande, bastava subir a uma das montanhas das redondezas e tudo estava vestido de branco.

 

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Para neve e nevões, nem há como o Barroso e Chaves, nesta sua condição de concelho de transição da terra fria para a terra quente, também tem um pouco de Barroso.

 

De facto o nosso concelho dilui-se bem nos concelhos vizinhos com as nossas aldeias de transição, principalmente com os concelhos de Vinhais onde as nossas aldeias do xisto (freguesia de S.Vicente da Raia) fazem a passagem, com o concelho de Valpaços onde desde Tronco até à Dorna se começa a descair para as suas terras, sendo Limãos um caso flagrante, pois para chegarmos até lá temos que entrar primeiro no concelho de Valpaços.

 

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Acontece o mesmo com os concelhos do Barroso, com Seara Velha a entrar por Boticas adentro ou Soutelinho da Raia, já instalado quase nas faldas do Deus Larouco. Por último temos as nossas aldeias da raia, que desde Soutelinho da Raia, passando por terras de Ervededo, Cambedo e toda a freguesia de Vilarelho também da Raia, passando pelas freguesias de Mairos e Travancas, para terminar de novo na freguesia de S.Vicente da Raia, onde Segirei fecha a promiscuidade que há entre o povo galego e o povo transmontano da raia, ou melhor, apenas um povo, o mesmo povo da raia de um e outro lado da fronteira, que pese embora tivesse existido oficialmente, nunca existiu entre estas aldeias.

 

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Claro que em tempo de nevão tínhamos que ir até uma das nossas aldeias barrosãs – Soutelinho da Raia.

 

Soutelinho da Raia é uma aldeia cheia de história e estórias, começando pela sua história da promiscuidade de ter sido, claro, um povo promíscuo, ou seja, uma aldeia que nos anos até finais do Século IXX era partilhada pelos reinos de Portugal e Espanha, com a fronteira a cortar uma das ruas principais da aldeia. Foi assim até a abolição do Couto Misto ou Mixto, aquele tal “estado” que pertencia a Portugal, mas também pertencia a Espanha e que quando convinha, nem pertencia a Espanha, nem a Portugal. Mas tudo isto já foi explicado aqui no blog e no blog Cambedo Maquis, onde se explica como as aldeias promíscuas de Soutelinho da Raia, Cambedo e Lamadarcos, passaram para o reino português em troca do Couto Misto que passou todo ele a ser pertença de Espanha.

 

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Para quem não seguiu o Cambedo Maquis, fica aqui o linck para a promiscuidade dos povos da raia e o Couto Misto  ou aqui no Cambedo-maquis .

 

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Escusado será dizer que Soutelinho da Raia foi desde obrigatoriamente terra de contrabando, Guardas-Fiscais e contrabandistas e, também, terra que sofreu bem de perto a guerra civil espanhola e no pós guerra civil, também as passagens da guerrilha espanhola e a passagem de muito contrabando para a II Guerra Mundial. Tempos difíceis, apenas mal recordados pelo mais idosos (porque preferem esquecer) e duplamente penosos pela sua circunstância de aldeia da raia.

 

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Em termos de contrabando e Guarda-fiscal, era quase aldeia de passagem obrigatória para todos os guardas que escolhiam como fim de carreira a sua aproximação ao posto da cidade de Chaves.

 

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Soutelinho da Raia está implantada num planalto, bem lá no alto da Serra da Panadeira onde esta faz a transição para a Serra do Larouco. É uma das aldeias que assume em tudo as características do clima do concelho de Montalegre, com Invernos rigorosos, frios e geralmente secos e onde, sempre, caem, as primeiras neves do Outono ou os grandes nevões de Inverno e se não caem, tem sempre o ar frio da neve do Larouco por companhia.

 

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Fora do contrabando que durante muitos anos ajudou a povoar a aldeia, tem a agricultura como uma das suas principais actividades, ou quase única, com as culturas características das terras altas e frias da montanha, ou seja a batata, o centeio e a castanha.

 

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Castanha aliada à raia com a Galiza, que se crê estar na origem do topónimo de Soutelinho da Raia, ou seja um pequeno souto na raia. Também e até melhor explicação, aceito perfeitamente esta origem para o seu topónimo.

 

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Em termos de arquitectura tradicional do granito, podemos sem qualquer dúvida apontá-la como uma das aldeias mais típicas e interessantes, pese embora agora esse mesmo casario esteja em grande parte degradado e abandonado, mas mesmo assim, não perdeu o seu interesse e tipicidade onde até se encontra algumas recuperações cuidadas.

 

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É uma das aldeias do nosso concelho que merecem uma visita demorada e cuidada para apreciar o seu casario típico, o forno comunitário ou do povo, as fontes de mergulo, os cruzeiros, uma capela de galilé aberta e de devoção ao Senhor dos Desamparados, uma outra capela devotada ao Senhor dos Aflitos e a Igreja barroca cuja construção é apontada para os Séculos XVII ou XVIII e que tem como padroeira a Santa Bárbara. Contudo e segundo apurei é o Senhor dos Desamparados que tem direito a festa, cuja tradição a festeja no mês de Junho.

 

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Em termos históricos e políticos, consta na história da aldeia o assassinato do Tenente Coronel António Victor Macedo, vítima dos seus adversários políticos no dia seguinte ao combate de Valpaços, em 1846, travado entre Sá da Bandeira e as tropas da rainha S.Maria II.

 

Soutelinho da Raia é a única aldeia da freguesia com o mesmo nome. Possui 5.97 km2

 

 Em termos de população e despovoamento (e hoje não vou falar das políticas do esquecimento a que as aldeias estão sujeitas), deixo-vos apenas os números que falam por sí. Soutelinho e segundo os Censos de 2001 tinha 192 habitantes residentes, que pode fazer inveja a muitas aldeias, mas nem tanto se compararmos os números com os Censos de 1960 em que havia 493 habitantes, ou mesmo com os Censos de 1981 em que ainda havia 342 habitantes. Penso que em termos de população está tudo dito, mesmo assim ainda vai mantendo alguma população, embora os restantes números não sejam promissores para a sua manutenção, pois segundo o mesmo Censos 2001 apenas havia uma (1) criança com menos de 10 anos e 5 habitantes com menos de 20 anos.

 

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E só falta mesmo creditar aqui os créditos do post, pois ontem tinha prometido à minha criança levá-la até à neve, mas também tinha (a criança) compromissos inadiáveis para o meio da tarde, assim tinha apenas uma hora para a recolha fotográfica de ilustração deste post, tarefa que se apresentava quase impossível. Ainda bem que por aqui os amigos ainda são para as ocasiões e lacei o convite ao amigo Dinis Ponteira para uns bonecos na neve mas também para uma mãozinha na recolha fotográfica, que já sabemos, que saindo do seu olhar, são olhares de qualidade. Obrigado Dinis pela ajuda e para quem ainda não conhece o amigo e colega blogueiro ou companheiro de viagem na arte dos olhares sobre Chaves, fica aqui um linck para o seu blog, onde poderá encontrar outros lincks para as suas galerias de fotografia de olhares apurados sobre a cidade e outro locais: Dinis Ponteira

 

 

E por hoje é tudo. Amanhã cá estarei de novo com mais um ilustre flaviense.

 

Até amanhã!

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:35
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