Domingo, 2 de Julho de 2017

Cambedo - Chaves - Portugal

1600-cambedo (217)

 

No largo principal da aldeia, junto à capela, está uma pequena placa onde diz “ En lembranza do voso sufrimento – 1946 -1996”. Pelo texto facilmente nos apercebemos que não é escrito no português atual, e facilmente nos apercebemos que está escrito na língua dos vizinhos galegos do Cambedo, a aldeia que hoje trazemos aqui.

 

1600-cambedo (194)

 

Torga no seu Diário VIII a respeito de uma aldeia barrosã,  escreveu o seguinte: “Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim, que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhe dá a simples proteção de as respeitar”. Cada vez que entro no Cambedo lembro-me destas palavras de Torga, e mesmo tendo por lá amigos que sempre me receberam bem, continuo a entrar lá envergonhado, tal como Torga, não por mim, mas por uma civilização de má-fé que nunca fez justiça para com os pecados que cometeram nesta aldeia, mas também, por essa civilização de má-fé fazer de conta que nada por lá se passou e ter de ser os amigos galegos a reconhecer o seu sofrimento, enaltecer a sua história e afirmar esse reconhecimento oficialmente ao inscrever na toponímia galega, numa das suas principais cidades, a aldeia do Cambedo.

 

1600-cambedo art (2)

 

Mas “nós” somos assim, elogiamos e erguemos estátuas aos de fora, mesmo que cobardes e nos tivessem abandonado num momento de aflição quando tinham a obrigação de nos defender,  e esquecemos os nossos heróis e aqueles que sofreram por terem servido de bode expiatório de uma “guerra” que nem sequer era nossa. O município de Chaves e Portugal, devem um pedido de desculpas ao povo do Cambedo, e não é o povo do Cambedo que o exige, pois esse até prefere o silêncio como melhor forma de esquecer, mas é uma questão de justiça, que há muito é tardia.

 

1600-cambedo (391)

 

Hoje Cambedo é uma aldeia da raia seca com a Galiza, mas isto só aconteceu desde o Tratado de Lisboa ou tratado de limites de 1864, pois até aí era uma aldeia promiscua, ou seja, era em simultâneo pertença do Reino Português e do Reino Espanhol. Certo que a partir de 1864 passou a ser só portuguesa, mas para as ruas, casas e gentes da aldeia, a linha separadora da fronteira apenas existia nos tratados, pois o povo de um e outro lado, sempre foi o mesmo.

E sobre o Cambedo e os acontecimentos pelos quais lhes devemos um pedido de desculpas, não digo nada, pois já o disse em muitos posts neste blog e até num blog exclusivo sobre o tema. É certo que jornalistas,  antropólogos, historiadores, escritores (por exemplo Jorge de Sena) e outros mais atentos já lhe dedicaram livros, documentários televisivos e até já serviu para teses de doutoramento e outros trabalhos académicos, mas continua a ser vergonhoso que a grande maioria da população flaviense não saiba o que por lá se passou no  mês de dezembro de 1946…        

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:23
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Sábado, 13 de Agosto de 2016

Lamadarcos e além da raia

1600-lamadarcos (400)

 

Um pouco mais além da aldeia de Lamadarcos entra-se na Galiza, todas as montanhas de fundo que se veem na imagem são galegas, mas nem sempre foi assim, aliás só a partir de 29 de setembro de 1864 é que assim é, pois até aí Lamadarcos era considerada uma das três aldeias promiscuas que o nosso concelho de Chaves tinha, isto porque a fronteira entre o então Reino de Portuga e de Espanha era a meio da aldeia, dividindo-a a meio. Com o tratado das fronteiras (1864) as três aldeias promíscuas do concelho de Chaves (Soutelinho da Raia, Cambedo e Lamadarcos) passaram a ser pertença apenas de Portugal, em troca Espanha recebeu as três aldeias do Couto Misto, até aí sem nacionalidade definida, gozando de um estatuto próprio de certa independência em relação a Portugal e Espanha.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 18:15
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Sábado, 10 de Outubro de 2015

Porque parece estar na moda...

1600-soutelinho (401)

De vez em quando parece estar na moda falar-se do Couto Misto o que obrigatoriamente nos leva até aos povos promíscuos. A ligação entre ambos é, quase, apenas política e porque uma decisão política, dos então reinos de Espanha e Portugal acaba por ligá-los nas trocas de território das definições da fronteira entre ambos os reinos em 1864. Mas isso são coisas da História que já foi aqui explicado neste blog e num outro também de nossa autoria, que dá pelo nome de Cambedo Maquis.

1600-cambedo 025

Pois hoje não tenho tempo para repetir aqui aquilo que já aqui disse, mas há sempre tempo para deixar aqui imagens das 3 aldeias que, então, eram conhecidas por aldeias promíscuas. E eram promíscuas porque todas as 3 aldeias eram divididas a meio pela fronteira o que fazia com que metade fosse pertença do reino português e a outra metade pertença do reino espanhol.

1600-lamadarcos (217)

Essas 3 aldeias, todas no concelho de Chaves, dão pelo nome de Soutelinho da Raia, Cambedo e Lamadarcos. Anuncio-as sempre por esta ordem porque é a ordem que elas ocupam ao longo da fronteira seguindo o sentido dos ponteiros do relógio, se nós estivermos virados de frente para a Galiza. Noias a que nos vamos habituando desde miúdo de as coisas às quais incutiram normas seguirem sempre nesse sentido. Mas isso para aqui até nem interessa. Ficam então pela mesma ordem anunciada as fotos das 3 antigas aldeias promíscuas do nosso concelho: Soutelinho da Raia, Cambedo e Lamadarcos. Quanto ao Couto Misto e à História destras 3 aldeias, um dia destes fica prometido, aqui, o derradeiro artigo, devidamente documentado com o rigor que se exige. Inté!

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 05:39
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Domingo, 19 de Abril de 2009

Lamadarcos - Chaves - Portugal

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Ainda há dias quando por aqui passou o post da Pastoria eu dizia como dava gosto deixar a cidade para trás quando as aldeias nos recebiam com o seu verde a contrastar com o céu azul, onde os únicos sons que se ouvem, às vezes, é o do vento a passar pelas folhas das árvores, como quem acompanha toda uma sinfonia do cantar das aves, onde nesta visita, até o cuco nos brindou com o seu canto. Também é assim a entrada e estrada que nos leva até Lamadacos e que se repete na própria aldeia nos caminhos e carreiros do contrabando.

 

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Hoje vamos até Lamadarcos, com o seu post alargado, mas não é a primeira vez, pois já por diversas vezes aqui mencionamos a aldeia, pois é de referencia obrigatória quando se fala em terras da raia, quando se fala na sua promiscuidade e quando se fala no couto misto ou mixto, esse “reino maravilhoso” que existiu até ao ano de 1864 e só terminou no Tratado de Lisboa desse mesmo ano.

 

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Mas afinal o que foi o Couto Misto!? Para não me estar a repetir deixo por aqui o que disse sobre o assunto no post de 14 de Dezembro de 2007, onde a respeito do Cambedo abordava o Couto Misto:

 

 “Imaginem que três aldeias da raia entre Portugal e Espanha se constituíam numa pequena república, com regras e privilégios muito próprios e independentes dos dois estados, em que os naturais dessas aldeias poderiam optar pela nacionalidade portuguesa, pela espanhola ou por nenhuma delas, que não pagavam tributos ou impostos nem a Portugal nem a Espanha, que não usavam documentos de identificação pessoal e que juridicamente não estavam sujeitos a nenhum dos estados, que podiam usar armas sem qualquer licença e que não cumpriam o serviço militar nem em Espanha nem em Portugal. Uma república onde não existiam impressos, papeis selados, modelos ou normas, etc, e que em qualquer papel comum podiam fazer todo o tipo de acordos, contratos ou documentos. Uma república que se auto governava e discutia os seus assuntos ou firmava acordos em assembleia com todos os seus habitantes e que elegia entre os seus, um Juiz que exercia as funções governativas, administrativas e judicias, auxiliado por homens-bons das três aldeias, também eleitos entre si e, que guardavam o seu arquivo e selos numa arca de madeira fechada a três chaves (uma por cada aldeia), que para abri-la, além das três chaves, tinham de reunir a presença de pelo menos 12 homens-bons das suas aldeias.

 

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Imaginem uma república que podia comprar e vender, quer em Portugal quer em Espanha, todo o tipo de produtos e mercadorias, sem com isso ter obrigação de pagar direitos, apresentar guias ou qualquer documento aduaneiro. Uma República que não permitia a entrada das autoridades espanholas ou portuguesas em perseguição de qualquer indivíduo de um desses estados, excepto os perseguidos por delitos graves, como o homicídio, mas que além de não permitirem a entrada das autoridades, ainda acolhiam os fugidos e lhes davam asilo. Imaginem ainda que nas terras desta república podiam cultivar todos os géneros, sem quotas ou objecto de estanco como o tabaco.

 

Pois não é necessário imaginarem mais, porque essa república existiu mesmo e dava pelo nome de Couto Misto ou Couto Mixto e, era composta pelas aldeias de Rubiás, Meaus e Santiago. Aldeias de montanha, localizadas entre o Concelho de Montalegre (Portugal) e os concelhos de Baltar, Calvos e Randim (Galiza), tinha cerca de 27 hectares de território e menos de 1000 habitantes. Foi assim desde o início da nacionalidade portuguesa até ao de 1864”

 

Para saber mais sobre o Couto Misto seguir este link: http://chaves.blogs.sapo.pt/231841.html

 

Ou então consultar o blog cambedo-maquis

 

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E o que tem a ver Lamadarcos com o Couto Misto!?

 

Pois no mencionado tratado de 1864, Portugal e Espanha, fizeram  uma rectificação de fronteiras em que o Couto Misto passava para o reino espanhol e em troca Portugal ficava com a totalidade das aldeias de Soutelinho da Raia, Cambedo e Lamadarcos, pois até aí eram aldeias promíscuas, ou seja, aldeias que eram divididas ao meio pela fronteira.

 

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Então poderemos dizer que até 1864 havia a aldeia de Lamadarcos espanhola e a aldeia de Lamadarcos portuguesa.

 

Ainda hoje existem por lá se distingue a Igreja Portuguesa e a Igreja Espanhola e os seus habitantes ainda sabem traçar a fronteira que então existia e que atravessava pátios, casas e a rua principal e até se contam estórias da casa que tinha a cozinha em Espanha e a sala e os quartos em Portugal.

 

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Mas em termos de vida, usos e costumes, tudo continuou igual como igual é o povo da raia de um lado e do outro da fronteira, com a única diferença que as trocas, tornas e comércio que até aí se faziam no íntimo de uma aldeia, se passou a fazer clandestinamente pelos caminhos e carreiros do contrabando que ligam Lamadarcos às aldeias mais próximas galegas. Também como sempre ainda hoje não se estranha que também pelas ruas de Lamadarcos às vezes a língua que se ouve seja a galega.

 

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Muitas estórias há pela certa para contar na história de Lamadarcos. Estórias dos seus tempos promíscuos e estórias de clandestinidade com contrabandistas e guardas-fiscais como principais protagonistas, mas também no grande pulo e passagem de “peles” (os nossos emigrantes dos anos 50 a 70) que também por Lamadarcos tinha uma das suas rotas e também de políticos a caminho do esílio, Algumas estórias que pela certa a população mais idosa ainda conhecerá e muitas que se perderam para todo o sempre.

 

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Mas vamos lá saber mais um pouco de Lamadarcos, que é sede de freguesia, à qual pertence também a aldeia de Vila Frade.

 

Lamadarcos é assim terra da raia, que fica a 15 quilómetros de Chaves e que tem como companheiras de raia as aldeias de Vila Verde da Raia e de Mairos.

 

Aldeia situada a nordeste do vale de Chaves, na margem esquerda do rio Tâmega, já nas faldas da serra da Cota, a uma altitude compreendida entre os 390 e os 530 metros de altitude, confrontando com as terras da Galiza. Possui abundantes águas e daí todo o seu verde que tão agradáveis faz as suas entradas e também, por isso,  belos prados e veigas que produzem cereais, legumes, frutas, vinho e batata.

 

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O topónimo Lamadarcos que às vezes também aparece como Lama de Arcos, tem sido objecto de estudo dos nossos historiadores, mas todos parecem encaminhar a origem do topónimo precisamente para Lama de Arcos, que teria origem ou faziam referência aos arcos pertencentes a uma ponte que existiria sobre o ribeiro do Rosmaninho. A ponte ou pontilhão de arcos desapareceu com as possíveis intempéries, mas o topónimo permaneceu. Até prova em contrário, também eu aceito esta hipótese, embora, como tudo na história, fique sempre em aberto outras hipóteses e origens.

 

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Mas Lamadarcos não é só na simples promiscuidade  de uma aldeia dividida a meio que tem história, pois durante as demoradas guerras da Restauração, a parte desta aldeia, pertencente a Espanha, foi destruída e incendiada em 1641, pelas tropas portuguesas comandadas por Luiz Gomes de Figueiredo.

 

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Dissemos atrás que a aldeia ainda hoje tinha a Igreja Portuguesa e a Espanhola, embora em uso actualmente só esteja a portuguesa, no entanto a Igreja espanhola tem uma traça bem interessante, com o seu campanário lanceolado, a rosácea aberta sobre a portada principal e a capela mor, com um altar de pedra bem lavrado e de interessantes colunas serpeantes e outros motivos ornamentais. A imagem da padroeira, diz a voz do povo, que na data da sua inclusão em território português foi transferida pelos espanhóis para a aldeia de Feces. A igreja esteve dotada ao abandono quase durante um século. Foi restaurada em 1930 e decorada com estatuária, embora ainda hoje apresente o seu interior amplo, sem bancos, mas que deixam à vista todo o seu chão em pedra que não são mais que o fecho das sepulturas que existem no seu interior.

 

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A Igreja Matriz portuguesa, como é designada, possui uma arquitectura muito simples.

 

A padroeira é a Nossa Senhora da Conceição, que está representada numa bela imagem neo barroca que ostenta a seus pés o escudo de Portugal, no entanto o Santo que se festeja é o Stº António, no 2º Domingo de Agosto  e até há uns anos atrás, festejava-se também o Stº Amaro em 15 de Janeiro.

 

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E sobre Lamadarcos por hoje é tudo, pois ainda vamos de novo à freguesia para o post em falta de Vila Frade e depois disso ainda terá por aqui o seu mosaico. Assim para já ficamos por aqui mas ainda a tempo de agradecer a quem nos acompanhou e deu a conhecer a aldeia na nossa visita, com um grato obrigado ao sr. Orlando Serra e à sua filha Fernanda.

 

Até amanhã.

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:38
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