Domingo, 22 de Janeiro de 2017

O Barroso aqui tão perto - Festas do S.Sebastião

1600-dornelas-17 (325)

o b tao perto

Como já vem sendo habitual nos últimos anos, o 20 de janeiro é dedicado às festas do S.Sebastião no Barroso, daí hoje incluirmos esta reportagem na habitual rubrica dos domingos de “O Barroso aqui tão perto…”, que até aqui tem sido dedicado ao Barroso do Concelho de Montalegre , mas hoje, excecionalmente, vamos até ao Barroso de Boticas com os festejos do S.Sebastião, antecipando um pouco a nossa entrada nas aldeias de Boticas. Assim, hoje, apresentamos também aquele que irá ser o cabeçalho de “O Barroso aqui tão perto…” com uma imagem do concelho de Boticas,  para a abordagem que futuramente faremos a todas as suas aldeias.

 

1600-dornelas-17 (51)

 

Então hoje vamos até aos festejos do S.Sebastião da Vila Grande da freguesia de Dornelas e o S.Sebastião das Alturas do Barroso, mas também com uma abordagem à aldeia da Gestosa e Vilarinho Seco, como também um pouco da história do S.Sebastião (Santo) e da mesinha do S.Sebastião (lenda), por partes.

 

1600-dornelas-17 (66)

 

1 - S. SEBASTIÃO

São Sebastião nasceu em Narvonne, França, no final do século III, e desde muito cedo  que os seus pais se mudaram para Milão, onde ele cresceu e foi educado. Seguindo o exemplo materno, desde criança São Sebastião sempre se mostrou forte e piedoso na fé.

Atingindo a idade adulta, alistou-se como militar, nas legiões do Imperador Diocleciano, que até então ignorava o facto de Sebastião ser um cristão de coração.

A figura imponente, a prudência e a bravura do jovem militar, tanto agradaram ao Imperador, que este o nomeou comandante de sua guarda pessoal.

Nessa destacada posição, Sebastião tornou-se  no grande benfeitor dos cristãos encarcerados em Roma naquele tempo.

Visitava com frequência as pobres vítimas do ódio pagão, e, com palavras de dádiva, consolava e animava os candidatos ao martírio aqui na terra, que receberiam a coroa de glória no céu.

Enquanto o imperador empreendia a expulsão de todos os cristãos do seu exército, Sebastião foi denunciado por um soldado.

Diocleciano sentiu-se traído, e ficou perplexo ao ouvir do próprio Sebastião que era cristão. Tentou, em vão, fazer com que ele renunciasse ao cristianismo, mas Sebastião com firmeza  defendeu-se, apresentando os motivos que o animava a seguir a fé cristã, e a socorrer os aflitos e perseguidos.

O Imperador, enraivecido ante os sólidos argumentos daquele cristão autêntico e decidido, deu ordem aos seus soldados para que o matassem a flechadas.

Tal ordem foi imediatamente cumprida: num descampado, os soldados despiram-no,  amarraram-no  a um tronco de árvore e atiraram contra ele uma chuva de flechas. Depois  abandonaram-no para que sangrasse até a morte.

À noite, Irene, mulher do mártir Castulo, foi com algumas amigas ao lugar da execução, para tirar o corpo de Sebastião e dar-lhe sepultura. Com assombro, comprovaram que o mesmo ainda estava vivo. Desamarraram-no, e Irene escondeu-o na sua casa, cuidando das suas feridas.

Passado um tempo, já restabelecido, São Sebastião quis continuar o seu processo de evangelização e, em vez de se esconder, com valentia apresentou-se de novo ao imperador, censurando-o pelas injustiças cometidas contra os cristãos, acusados de inimigos do Estado.

Diocleciano ignorou os pedidos de Sebastião para que deixasse de perseguir os cristãos, e ordenou que fosse espancado até a morte, com pauladas e golpes de bolas de chumbo. E, para impedir que o corpo fosse venerado pelos cristãos, jogaram-no no esgoto público de Roma.

Uma piedosa mulher, Santa Luciana, sepultou-o nas catacumbas. Assim aconteceu no ano de 287. Mais tarde, no ano de 680, as suas relíquias foram solenemente transportados para uma basílica construída pelo Imperador Constantino, onde se encontram até hoje.

Naquela ocasião, uma terrível peste assolava Roma, vitimando muitas pessoas.

Entretanto, tal epidemia simplesmente desapareceu a partir do momento da transladação dos restos mortais desse mártir, que passou a ser venerado como o padroeiro contra a peste, fome e guerra.

As cidades de Milão, em 1575 e Lisboa, em 1599, acometidas por pestes epidêmicas, viram-se livres desses males, após atos públicos suplicando a intercessão deste grande santo.

 

1600-dornelas-17 (70)

 

2 - A LENDA DA MESINHA DE S.SEBASTIÃO

 

Reza a lenda,  que há muitos, muitos anos, houve nesta região um ano de muita fome e peste, que também atingiu os habitantes do “COUTO”.

Foram tantos os mortos, que os mais crentes apelaram a S. Sebastião para que os protegesse de tal flagelo:

“Se a doença se afastasse, se os doentes melhorassem e os animais escapassem, prometiam realizar anualmente, a 20 de Janeiro, uma festa onde não faltasse carne e pão para quantos a ela comparecessem.”

 

Como o Santo não faltou, cumpriu-se o prometido e assim se fez ao longo dos tempos, mas, com o passar dos anos, o povo foi ficando esquecido, desleixado e possivelmente mal agradecido. Um ano, não se sabe por que motivo, a festa não se realizou. O povo ficou assim, sem a proteção do santo, advogado da fome, da peste e da guerra registando-se graves problemas nesta localidade.

Conta ainda a lenda, que em 1809 (ano em que Napoleão, imperador de França, mandou invadir pela segunda vez Portugal) as tropas entraram por Chaves, a caminho do Porto, passando pelas terras do “Couto”. A má fama dos invasores já tinha chegado às nossas gentes, que atemorizadas pela eminente invasão e suas consequências (pilhagens, mortes, violações, etc.) saíram às ruas com a imagem de S. Sebastião e acolhendo-se à sua proteção, renovaram a promessa: «… Se os invasores não entrarem no Couto faremos todos os anos, dia 20 de Janeiro, uma festa em tua honra, onde não faltará comida a toda a gente que a ela vier…»

Diz a lenda que caiu tal nevão à volta do Couto, que obrigou os invasores a desviarem-se do seu caminho deixando em paz estas “gentes”.

 

1600-dornelas-17 (103)

 

3 - Mesinha de S.Sebastião na Vila Grande

 

As fotos que têm ficado até aqui são da mesinha de S.Sebastião da Vila Grande, da freguesia de Dronelas. A introdução com a história do Santo e da Lenda apenas se deve a que muitos populares, incluindo da Vila Grande, associam o início destes festejos às segundas invasões francesas. Ora na deslocação deste ano um natural da aldeia puxava o assunto à baila, onde afirmava que teve acesso a documentos em que provavam que os festejos da Vila Grande já se realizavam muito antes das Invasões Francesas. Dada a história do santo, a sua data de nascimento e ao ser venerado como padroeiro contra a peste, a fome e a guerra, entre outros, é natural que os festejos já venham de há longa data, como também é natural que lhe dessem mais significado e importância a partir das segundas invasões francesas.

 

1600-dornelas-17 (111)

 

Quanto à mesinha de S.Sebastião da Vila Grande já nos anos anteriores deixei por aqui o seu funcionamento, mas eu volto a repetir num breve apontamento.

 

Ao longo da rua principal da aldeia é colocada uma mesa com mais de 500 metros de comprimento, que é coberta com uma toalha de linho onde são colocados um pão, uma caçarola de arroz e um naco de carne de porco, distanciados de aproximadamente um metro. Antes da distribuição há uma missa, depois a bênção do pão e só depois começa a distribuição da comida, antecedida pelo pedido de “esmola” ou ajuda para as despesas (cada um dá o que quer) e o beijar do S.Sebastião.

 

1600-dornelas-17 (360)

 

No entanto o preparar da festa pelas gentes da aldeia começa muito antes. O Pão começa a ser cozido no forno com 4 dias de antecedência, cozendo ininterruptamente durante esses 4 dias fornadas de 35 a 40 pães de cada vez até atingirem os 1200 pães necessários para a festa, dos quais 400 pães são para colocar na mesinha de S.Sebastião e os restantes para vender aos visitantes, pão esse que é composto por uma mistura de milho, centeio e trigo. . Quanto ao arroz, 110 Kg,  e à carne, mais de 400 postas,  são cozinhados durante toda a noite para começarem a ser distribuídos a partir do meio-dia. A cozedura do pão é feito por turnos de 7 a 8 pessoas durante os 4 dias.

 

1600-dornelas-17 (247)

 

Claro que na noite que antecede a mesinha de S.Sebastião,  grande parte da população da Vila Grande envolve-se com os trabalhos da festa para logo de madrugada começar a receber os primeiros peregrinos.

 

1600-dornelas-17 (370)

 

Peregrinos que vêm de todo o lado, principalmente do Norte de Portugal, com maior participação da gente do Barroso e do Minho, individualmente, em grupos de amigos ou mesmo em excursões que aos poucos vão enchendo toda a rua ao longo da Mesinha de S.Sebastião, ao longo da qual vão reservando lugar e petiscando nas merendas que vão trazendo.

 

1600-dornelas-17 (144)

 

Também o pessoal da imprensa nacional e estrangeira (jornais e televisões) não são alheios à festa, mas também um elevado número de fotógrafos amadores individuais ou de associações, como é o caso do nosso grupo de Associados Lumbudus que marcámos sempre presença ou elementos da Associação Portografia do Porto, este ano com pelo menos 5 associados.

 

1600-dornelas-17 (182)

 

Quanto aos preparativos da festa, tal como dissemos, começa pelo menos com 4 dias de antecedência com o cozer do pão. Quanto à Mesinha do S.Sebastião, comido o pão, o arroz e as postas de carne, o pessoal destroça e quase como num milagre, desaparece num instante, tanto que por volta das 2 da tarde a mesa está completamente vazia, mas claro que há uma razão para tal, é que o S.Sebastião não se comemora só na Vila Grande, pois na aldeia vizinha das Alturas do Barroso também há festa e em Salto, um pouco mais à frente, idem aspas. Mas estas com características diferentes.  Claro que nós também não somos exceção e acabada a festa na Vila Grande também rumámos  os nossos destinos até as alturas do Barroso, mas por etapas.

 

 

4 – Gestosa

 

A caminho das Alturas do Barroso passa-se ao lado da Gestosa. Todos os anos parámos lá num alto onde a aldeia se vê juntinha ao lado de um verdejante vale. Todos os anos ficamos com o apetite de a visitar, mas este ano não resistimos e fizemos o desvio para uma visita breve mas também para ir adiantando trabalho de levantamento fotográfico da aldeia como memória futura para um devido post dedicado à aldeia.

 

1600-gestosa (62)

 

Para já fica a informação de que gostámos daquilo que vimos, pois se lá de cima é interessante, o seu interesse aumenta quando lhe entramos na intimidade, mas descrições ficam para o tal post futuro. Mas gostámos tanto que lhe dedicamos a nossa imagem de arte digital

 

1600-gestosa-art (12)

 

5 - Vilarinho Seco

 

Vilarinho Seco é de paragem obrigatória para repor forças, nem que seja só com um café que é sempre bem acompanhado, quer pelos amigos do costume quer pelos improvisados concertos de cantares acompanhados pelas concertinas dos vários grupos minhotos que invadem estas festas.

 

1600-vil-seco-17 (21)

 

Mas claro que não resistimos a tomar mais umas fotos daquelas que é uma das aldeias mais interessantes de todo o Barroso, também para memória futura de um post que surgirá quando passarmos definitivamente para o Barroso do Concelho de Boticas. Mas desta vez, além das imagens registámos também em vídeo a improvisada atuação de um duo que tanto quanto entendi era a primeira vez que tocavam juntos.

 

 

Claro que a paragem por Vilarinho Seco é sempre breve pois o destino é mesmo Alturas do Barroso par terminar o dia, que ainda só vai a meio.

 

 

6 – Alturas do Barroso

 

Aqui os festejos em honra do S.Sebastião são outros. Em conversa com uma natural das alturas, perguntava-me de qual das festas gostava mais, se a da Vila Grande ou das Alturas. A resposta foi a politicamente correta – Gosto das duas. Mas além de politicamente correta também foi sincera, pois ambas as festas são interessantes, apenas são diferentes, mas há sempre coisas que gostámos mais numa festa do que na outra, mas já lá vamos.

 

1600-alturas-17 (16)

 

Desde criança que oiço falar das Alturas do Barroso e dos Cornos do Barroso, curiosamente só há anos soube que a aldeia das Alturas está juntinha aos Cornos do Barroso e daí, suponho, a proveniência do topónimo, pois de facto, a aldeia implantada a quase 1200 metros de altitude é a mais alta que se localiza na Serra do Barroso.

 

1600-alturas-17 (6)

 

 

Mas como se não bastasse ouvir falar da aldeia desde miúdo, quando comecei a ler a obra de Miguel Torga tropeço com dois momentos registados por torga nessa aldeia, o primeiro data de 1956 que passo a transcrever:

 

Alturas do Barroso, 27 de Junho de 1956

 

Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim, que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhe dá a simples proteção de as respeitar.

 

Miguel Torga in “Diário XI”

 

1600-alturas-17 (51)

 

 

O segundo momento de Torga, mais recente, data de 1991:

 

Alturas do Barroso, 1 de Setembro de 1991

 

Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso, a este tecto do mundo português, admirar no adro da Igreja, calcetado de lousas tumulares, o harmonioso convívio da vida com a morte. Os cemitérios actuais são armazéns de cadáveres desterrados da nossa familiaridade, lacrimosamente repetidos do seio do clã mal arrefecem, cada dia menos necessários, no progressivo esquecimento, à salutar percepção do que significam na dobadoira do tempo. Ora, aqui, cada paroquiano pisa, pelo menos dominicalmente, a sepultura dos ancestrais, e se liga a eles, quase organicamente. Vive, numa palavra, referenciado. Sabe que tem presente porque houve passado, e que, mais cedo ou mais tarde, enterrado ali também, será para os descendentes consciência e justificação do futuro.

 

Miguel Torga, in Diário XVI

 

1600-alturas-17 (24)

 

E faço minhas as palavras de Torga, principalmente estas: - “Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha”, sim, é verdade e tal como Torga – “Não por mim, que venho cheio de boas intenções,” mas por medo a que as pessoas pensem que as minha intenções não são boas, mas ainda   – “Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso” o que também é verdade, pelo menos desde que descobri esta aldeia, é sempre com gosto que regresso a ela, nem que seja e só por altura do S.Sebastião, mas passo por lá mais vezes.

 

1600-alturas-17 (101)

 

Pois além da curiosidade que tinha desde miúdo, Torga aguçou-me o interesse em conhecer também esta aldeia e também como ele apreciei a aldeia, o seu povo, o casario e a festa do S.Sebastião.

 

1600-alturas-17 (162)

 

Pois quanto à festa só lhe conheço o lado profano, aquele do comer e beber, pois nunca tive a honra de assistir à parte religiosa, que suponho que obrigatoriamente existira.  Tudo porque os da Vila Grande, como já atrás referi, só têm festa da parte da manhã e assim vamos deixando as Alturas para a parte da tarde, mas fica a promessa que numa das próximas vezes invertemos a ordem.

 

1600-alturas-17 (183)

 

Pois quanto à parte que assistimos, é em quase tudo diferente da festa da Vila Grande. Começando que a das Alturas é feita debaixo de teto e a ementa é servida em prato. Uma feijoada da boa, um copo de vinho e um pão. Segundo consta, pois nunca estivemos até ao fecho, a festa prolonga-se pela noite adentro, enquanto houver peregrinos com vontade de comer.

 

1600-alturas-17 (168)

 

Mas claro que a parte do comer é só um breve momento, pois a festa esta lá dentro mas também à porta ou nas ruas da aldeia. Os improvisados concertos de cantares ao som da concertina são uma constante onde menos se espera ou melhor, em todos os lugares.

 

1600-alturas-17 (148)

 

Uma visita, passeio, pelas ruas da aldeia também é obrigatório e se houver um pouco de conversa com as suas gentes, tanto melhor, e desta vez até fomos felizes nesta parte, pois além de fotos consentidas ainda tivemos direito a uma demonstração de como se lança o peão e uma história das antigas, também com direito a imagens, mas também estas ficam para um post futuro dedicado à aldeia, com o S.Sebastião de parte, embora a referência seja obrigatória.

 

1600-alturas-17 (194)

 

E quase a terminar há que referir a simpatia das pessoas das Alturas, não só as que estão envolvidas no trabalho de dar de comer e beber a tanta gente mas também da aldeia em geral.

 

1600-alturas-17 (102)

 

E não só, pois a aldeia também surpreende pela gente jovem, coisa que já vai sendo raro nas aldeias barrosãs e em geral do interior transmontano. Pelo menos do dia de S.Sebastião assim é.

 

1600-alturas-17 (217)

 

E por fim, ficam as fotos prometidas e consentidas, ah! e já ia esquecendo, este ano o S.Sebastião aconteceu em plena vaga de frio polar, talvez por isso não havia neve como em alguns dos anos anteriores e o sol apareceu com a sua alegria do costume…

 

E quanto às festas do S.Sebastião, até pró ano!

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 23:54
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|  O que é?
Sábado, 23 de Janeiro de 2016

A Mesinha de S. Sebastião - Couto de Dornelas - Cerdedo - Vilarinho Seco e Alturas do Barroso

1600-dornelas 16 (13)

 

Aos sábados aqui no blog é dia da nossa ruralidade, daquela que vai além da cidade e das vilas, a ruralidade mais rural, a das nossas aldeias, não só as de Chaves, mas de toda a região envolvente, incluindo todo o Barroso onde o comunitarismo desde sempre fez parte da sua força para vencer os trabalhos de uma terra quase sempre ingrata. Comunitarismo que se reflete também nas celebrações religiosas e que se transforma em festa envolvendo toda a aldeia e comunidade. Mas há festas comunitárias e festas comunitárias que o são mesmo, abertas a toda a comunidade que nela queira participar. São assim as de S.Sebastião no Couto de Dornelas e das Alturas do Barroso, ambas do concelho de Boticas. Festa que desde que a descobrimos fizemos promessa de lá voltar todos os anos.

 

1600-dornelas 16 (24)

 

As imagens de hoje são dessas mesmas festas comunitárias que vão sendo apresentadas pela sua ordem cronológica, em que a primeira imagem que vos deixo coincide com a nossa chegada ao Couto de Dornelas à Mesinha de S.Sebastião. E assim vai sendo, com o decorrer da manhã e do dia até entrarmos na noite, já noutra aldeia. Mas lá chegaremos.

 

1600-dornelas 16 (37)

 

Comecemos então pelo Couto de Dornelas, topónimo pelo qual é vulgarmente conhecida a aldeia, mas penso que não é bem este o seu topónimo, pois o oficial é mesmo a Vila Grande de Dornelas.

 

1600-dornelas 16 (125)

 

Mas falemos da festa onde gostamos de chegar logo pela manhã para não perder pitada, ou quase, pois para por lá a festa começar logo de manhã, grande parte dos seus habitantes já anda há dias a trabalhar para ela. Então na noite que antecede a manhã da festa, nem se fala, é que dar de comer a milhares de pessoas, não é pera doce.

 

1600-dornelas 16 (136)

 

Mas passemos a explicar as imagens. A primeira é da nossa chegada onde a mesinha do S.Sebastião já estava montada na rua principal, mais coisa menos coisa são 400 metros de mesa. Logo pela manhã começam a chegar as pessoas das aldeias vizinhas, mas também os residentes da aldeia marcam presença nas ruas, algumas vestindo ainda as tradicionais capas de burel. Na cozinha comunitária ultima-se a confeção das últimas carnes e arroz em mais de vinte potes dos grandes. Ao lado, o pão já cozido, aguarda a distribuição pela mesa, tal como as gigas de vime cheias de pratos e malgas de madeira.

 

1600-dornelas 16 (240)

 

A visita à cozinha é obrigatória, embora à área de trabalha o acesso seja restrito, pois é apenas para quem trabalha ou para quem como nós blogers e fotógrafos, jornalistas e televisões querem fazer a reportagem e captar outras imagens que só lá dentro são possíveis. Entretanto pela manhã a cozinha serve algumas sopas em malgas para os primeiros forasteiros, e gente que trabalha, consolar os estômagos, pois a comida só sai para a mesinha (a tal dos 400 m) depois da missa e de benzido o pão. Coisa que só acontece por volta do meio dia. Assim, até lá, há tempo de dar uma volta pela aldeia e de apreciar o seu casario mais típico.

 

1600-dornelas 16 (452)

 

Entretanto a mesinha, que pela manhã estava vazia (veja-se a primeira foto), ao meio dia está repleta com milhares de pessoas a aguardar que de vara a vara (a medida) caia um pão, uma caçarola de arroz e um naco de carne sobre uma toalha de linho que previamente cobriu a mesinha de madeira.

 

1600-dornelas 16 (438)

 

Mas ainda antes de a comida chegar à mesa, há o ritual do peditório para ajudar a festa e o desfilar da imagem do S.Sebastião, que os crentes, um a um, vão beijando à sua passagem.

 

1600-dornelas 16 (399)

 

Depois sim, a comida. Pão caseio mistura de centeio e milho, arroz e o naco de carne de porco. É tudo bom, com o sabor que só os potes lhe sabem dar, mas quem vem de fora vai acrescentando sempre qualquer coisinha à mesa, como bolos de bacalhau, linguiças e salpicões, presunto, vinho entre outras coisas, que os estômagos agradecem sempre.

 

1600-dornelas 16 (509)

 

Nós marcamos sempre lugar no final da mesa. Assim podemos ir fazendo as fotos ao longo dos 400m de mesa e no final também saborear a oferenda. É ponto também de reunião de outros amigos fotógrafos ou não, como no caso da última foto com o nosso amigo A. Tedim, Luís Alves e um “cerdedense” vizinho do Couto de Dornelas que de tanto nos falar da sua terra resolvemos passar por lá para a conhecer, e em boa hora, pois foi a surpresa do dia, que o resto já conhecíamos. As próximas seis imagens são de lá, de Cerdedo.

 

1600-cerdedo (36)

 

Lembram-se de há dias eu dizer por aqui que havia dois Barrosos, o agreste e o verde. Pois por aqui misturam-se os dois, ou seja, nas terras mais baixas o verde é tão intenso que parece ter luz própria mas, mesmo ao lado, começa a subir-se à croa das montanhas, a luz apaga-se e o agreste predomina.

 

1600-cerdedo (38)

 

Então em dia de chuva com neblinas altas, Cerdedo apresentou-se como uma revelação desenhada com a mestria de um artista, daqueles mesmo artistas, verdadeiros. Nada ficou ao acaso, o desenho dos caminhos, os recortes dos muros, a colocação dos canastros, os tons da pintura dos verdes nos lameiros salpicados de amarelos torrados de bois e vacas, os sépias das folhas secas que teimam não soltar-se das árvores.

 

1600-cerdedo (67)

 

Até o casario parece ter sido arrumado de modo a não incomodar a harmonia da restante composição, fundindo-se com ela, fazendo parte dela.

 

1600-cerdedo (30)

 

Este encanto podia ter sido magia do momento, com as neblinas altas que mais não eram que nuvens de chuva a apagar por completo o azul do céu e a intensidade da luz do sol para que as sombras não apagassem o brilho da chuva caída sobre o todo de uma paisagem que mais parecia uma tela roubada do caixilho de uma pintura para não quebrar a coerência da composição.

 

1600-cerdedo (79)

 

Por último, ainda em Cerdedo e ainda as pinturas, agora numa tela de Silva Porto, “Guardando o rebanho” que recordo desde miúdo por ter uma reprodução pendurada numa das paredes da sala de casa dos meus pais, só que, o pastor de Silva Porto caminhava para nós, e o pastor do Cerdedo, como cena final, afasta-se de nós.

 

1600-cerdedo (91)

 

Poderia terminar aqui o post que já ficavam bem servidos, mas hoje estou generoso e quero contar-vos, sobretudo em imagem, o resto do dia, pois embora a última imagem seja de Cerdedo, quase não tínhamos saído, ainda, de Couto de Dornelas, e o nosso destino nesse momento era mesmo Alturas do Barroso.

 

1600-gestosa (38)

 

E tínhamos ainda pela frente que subir quase toda a Serra do Barroso e fazer uma passagem com paragem obrigatória em Vilarinho Seco, mas antes, ainda havia tempo de parar no meio da serra para apanhar umas imagens, nem que fossem apenas as dos tais devaneios.

 

1600-gestosa (17)

 

E depois sim, Vilarinho Seco que tal como o Cerdedo foi uma agradável descoberta de há anos atrás e por isso temos de parar sempre por lá para ver se continua tudo lugar e não houve qualquer doidice que estragasse a composição, mas há também o Pedro, onde é também obrigatório parar para botar um copo, mesmo que seja um café.

 

1600-Vilarinho-seco (356)

 

Por último as Alturas do Barroso onde se celebra com festa, também comunitária, o S.Sebastião, mas aqui de forma diferente. Infelizmente chegamos lá sempre tarde, já quase em hora de termos que regressar, mas cumprimos sempre a promessa. Fotograficamente falando é que as coisas se complicam, pois se em Cerdedo até deu jeito a luz não estar muito intensa, aqui, dava-nos jeito haver mais alguma, mas enfim, não se pode ter tudo. Assim,  fica uma imagem noturna.

 

1600-alturas-16 (28)

 

E com isto ficam aqui vinte imagens sobre o Barroso, que temos aqui tão perto e que é sempre tão interessante ir por lá para recordar o que conhecemos e descobrir novas pérolas, quase sempre com o atrativo da sua simplicidade ou mesmo virgindade.

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 23:43
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Domingo, 25 de Janeiro de 2015

O S.Sebastião do Couto de Dornelas e Alturas do Barroso - 2

1600-vil-seco-15 (35)

Apresentamos em duas partes o S.Sebastião do Barroso porque de facto é assim que acontece por lá, ou seja, a primeira parte em Couto de Dornelas e a segunda em Alturas do Barroso, mas entre as duas aldeias há ainda a paragem obrigatória em Vilarinho Seco onde sem festa, a festa continua.

1600-vil-seco-15 (37)

Do Couto de Dornelas às Alturas do Barroso pouco mais são de 10 quilómetros e Vilarinho Seco fica sensivelmente a meio do trajeto, assim a paragem obrigatória nesta aldeia não se deve à distância, mas antes pela necessária hidratação ou mesmo um simples café, mas também pela festa que sempre acontece e pela beleza da aldeia.

1600-vil-seco-15 (72)

Toda esta região do Barroso tem uma beleza singular devido a ainda ir mantendo a sua integridade de um núcleo de construções que mantém as características das construções típicas do Barroso. A não ser um ou outro caso isolado as coberturas de colmo já fazem parte da história, apenas a estrutura dos beirais testemunham que um dia existiram. Penso que poderia e ainda pode haver uma solução interessante uma sobrecoberta, mas isso ao S.Sebastião até pouco interessa. Resumindo, queria eu dizer que é sempre interessante parar em Vilarinho Seco nem que seja para tomar meia-dúzia de imagens que são sempre interessantes.

1600-vil-seco (24-25)

Mas o nosso destino é mesmo Alturas do Barroso. A saída de Couto de Dornelas acaba por acontecer quase sempre depois das duas da tarde, pelo caminho além da paragem obrigatória em Vilarinho Seco há sempre outras paragens ocasionais. Ora aqui porque há que tomar umas fotos às vacas a pastar, ora ali porque há neve, ora acoli por outra coisa qualquer, às vezes até por um chichi dum mais apertado é preciso parar e assim, quando se chega a Alturas do Barroso já a tarde está mais pra lá do que pra cá, então se o céu está encoberto com nuvens a tarde chega mesmo a cheirar a anoitecer.

1600-alturas-15 (30)

Claro que nós vamos lá pela festa da festa, pela festa da fotografia , mas também pela feijoada do S.Sebastião. às vezes é complicado conciliar tudo mas descomplica-se, pois a missão tem de ser cumprida e cumpre-se.

1600-alturas-15 (54)

Claro está que com tantos afazeres o regresso à terrinha já é feito noite escura, via Montalegre. Éh! É aquela tal noia de nunca regressar pelo mesmo caminho ou então apenas o pretexto para passar por Montalegre, para ver se o castelo está no sítio e se a Vila e a Portela continuam no seu lugar.

 

E assim vai sendo o cumprir da promessa do 20 de janeiro.

Até pró ano.

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 02:30
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2015

Festa do S.Sebastião barrosão

1600-sebastiao-15 (561)

Lá fui eu pagar a promessa ao S.Sebastião barrosão, das terras altas e frias de Boticas.

1600-sebastiao-15 (425)

Esperava-se neve, mas em Couto de Dornelas só frio, mas não o suficiente para calar a festa da música enquanto se espera pela mesa completa.

1600-sebastiao-15 (405)

Depois sim, pão, arroz e carne de porco oferecido pelo S.Sebastião, o resto e por conta de cada um, incluindo os talheres, mas se não os houver, também não há problema – o vizinho do lado desenrasca.

1600-vil-seco-15 (97)

 Vilarinho Seco

Mas o S.Sebastião não se fica por Couto de Dornelas. Um pouco mais acima, em Alturas do Barroso, também espera pelos peregrinos, mas antes há a passagem obrigatória com paragem em Vilarinho Seco onde mesmo sem S.Sebastião a festa continua.

1600-alturas-15 (149)

E por fim Alturas do Barroso que para fazer jus ao nome conserva a neves dos últimos dias para visitante ver e até brincar. Claro que o frio continua, não estivéssemos nós em plena terra fria, mas também não era nada do outro mundo, era frio apenas.

E por hoje fica esta breve passagem, no próximo sábado deixamos por aqui mais algumas imagens do S.Sebastião barrosão e da festa comunitária das suas aldeias.

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:57
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Quarta-feira, 22 de Janeiro de 2014

Chá de Urze com Flores de Torga - 21

 

Há dois dias atrás o S.Sebastião levou-me até ao Barroso e,  passei ou estive em algumas terras que Torga trilhou ainda eu não tinha nascido. Conforme ia passando ou estando nalgumas dessas terras, iam-me vindo à lembrança algumas palavras escritas nos Diários de Torga, inspiradas em, ou nessas mesmas terras. Uma delas foi Alturas do Barroso, palavras que, algumas,  já passaram neste blog e que as tenho sempre presentes quando entro numa aldeia, principalmente naquelas em que entro pela primeira vez ou que não conheço tão bem como outras.

 

Alturas do Barroso, 27 de Junho de 1956

 

Entro nestas aldeias sagradas a tremer de vergonha. Não por mim, que venho cheio de boas intenções, mas por uma civilização de má-fé que nem ao menos lhe dá a simples proteção de as respeitar.

Miguel Torga, In Diário VIII

 

 

E relembrando as palavras de Torga os meus olhares tentam adivinhar,  olhar aquilo que Torga olhou e o levou ao registo, pois uma coisa é ler as suas palavras e outra é, in loco, vivê-las e senti-las. Claro, se a sensibilidade do momento ou do olhar o permitirem, só assim entenderemos a plenitude das suas palavras.

 

Alturas do Barroso, 21 de Setembro de 1969

 

A paz destes barrosões, sentados no combro de uma lameira a guardar a junta de bois! Parecem sonâmbulos a apascentar a eternidade.

Miguel Torga, In Diário XI

 

 

Há dois dias atrás, também eu em Alturas do Barroso, subi com os passos pesados a que a neve obrigava até ao alto onde foi erigida uma capela e de onde se vê toda a aldeia. Penso ser aí o “tecto do mundo português” a que Torga se referia em 1991 nos seu Diário XVI, no mesmo registo onde Torga aborda a relação, a referência e proximidade “quase orgânica” que este povo tem com os seus mortos. Ao descer do alto da capela, entrei na aldeia com a avidez de caçar imagens em dia de celebração de S.Sebastião. Numa das ruas, ainda muito antes de me cruzar com uma velhota totalmente vestida de preto,  ao ver-me de câmara fotográfica na mão, muito antes de a levantar à posição de mira, foi-me avisando que não queria fotografias porque estava de luto. Mais uma vez vieram-me à memória as palavras de Torga e fiquei a “tremer de vergonha”.  

  

 

Alturas do Barroso, 1 de Setembro de 1991

 

Incansavelmente atento às lições do povo, venho, sempre que posso, a este tecto do mundo português, admirar no adro da Igreja, calcetado de lousas tumulares, o harmonioso convívio da vida com a morte. Os cemitérios actuais são armazéns de cadáveres desterrados da nossa familiaridade, lacrimosamente repetidos do seio do clã mal arrefecem, cada dia menos necessários, no progressivo esquecimento, à salutar percepção do que significam na dobadoira do tempo. Ora, aqui, cada paroquiano pisa, pelo menos dominicalmente, a sepultura dos ancestrais, e se liga a eles, quase organicamente. Vive, numa palavra, referenciado. Sabe que tem presente porque houve passado, e que, mais cedo ou mais tarde, enterrado ali também, será para os descendentes consciência e justificação do futuro.

Miguel Torga, in Diário XVI

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:22
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sábado, 21 de Janeiro de 2012

O São Sebastião na Vila Grande e Alturas do Barroso

A mesa à espera que os visitantes cheguem

 

Tal como prometi, este blog vai começar a andar por aí a olhar também as festas, tradições, saberes e pontos de interesse da região do Alto Tâmega e Barroso.

No ano passado fomos à tradicional festa de São Sebastião ou “Mesinha de São Sebastião” na freguesia de Couto de Dornelas. Já lhe conhecíamos a fama de festa comunitária há muitos anos, mas uma coisa é aquilo que nos contam e outra é estar na festa e ver com os próprios olhos. Vi e gostei tanto que fiz promessa de ir lá sempre que puder.


Durante dias cozeu-se o pão que irá ser servido à mesa


As imagens de hoje vão tentar mostrar um pouco da tradição. As palavras também vão tentar ajudar a compreender esta festa, a tradição e a lenda.

Comecemos pela lenda:


A Lenda
 
REZA A LENDA, ... que há muitos, muitos anos...

Houve nesta região um ano de muita fome e peste, que também atingiu os habitantes do “COUTO”.


É destes potes que sai o arroz e a carne de porco para todos os visitantes


Foram tantos os mortos, que os mais crentes apelaram a S. Sebastião para que os protegesse de tal flagelo:
“Se a doença se afastasse, se os doentes melhorassem e os animais escapassem, prometiam realizar anualmente, a 20 de Janeiro, uma festa onde não faltasse carne e pão para quantos a ela comparecessem.”

Como o Santo não faltou, cumpriu-se o prometido e assim se fez ao longo dos tempos...


Antes de comer há que agradecer ao santo


...Mas, com o passar dos anos, o povo foi ficando esquecido, desleixado e possivelmente mal agradecido. Um ano, não se sabe por que motivo, a festa não se realizou. O povo ficou assim, sem a protecção do santo, advogado da fome, da peste e da guerra registando-se graves problemas nesta localidade...


O peditório não faz a festa, mas ajuda


...Conta ainda a lenda, que em 1809 (ano em que Napoleão, imperador de França, mandou invadir pela segunda vez Portugal) as tropas entraram por Chaves, a caminho do Porto, passando pelas terras do “Couto”. A má fama dos invasores já tinha chegado às nossas gentes, que atemorizadas pela eminente invasão e suas consequências (pilhagens, mortes, violações, etc.) saíram às ruas com a imagem de S. Sebastião e acolhendo-se à sua protecção, renovaram a promessa:


O Sol tem ajudado à festa, mas é traiçoeiro


«… Se os invasores não entrarem no Couto faremos todos os anos, dia 20 de Janeiro, uma festa em tua honra, onde não faltará comida a toda a gente que a ela vier…»

Diz a lenda que caiu tal nevão à volta do Couto, que obrigou os invasores a desviarem-se do seu caminho deixando em paz estas “gentes”.

Lenda ou não, a verdade é que se tem mantido a tradição e todos os anos, dia 20 de Janeiro, os habitantes do COUTO de DORNELAS renovam a promessa cada vez mais convictos do amparo do Mártir São Sebastião.


A festa faz-se ao longo de toda a rua


Pois não sei se é por São Sebastião estar grato por manterem-lhe a gratidão que o dia de ontem, tal como o do ano passado, lá pelo Barroso mais alto o dia parecia de verão.

Mas passemos à descrição da festa.


A toalha de linho cobre toda a mesa


Durante uns dias coze-se o pão milho e armazena-se numa sala para que no dia da festa não falte pão para todos os visitantes. São umas centenas de pães. Na madrugada do dia 20 acende-se a fogueira, poem-se os potes ao lume (23 conto-os na foto) e coze-se a carne de porco e mais tarde o arroz que depois de prontos e devidamente benzidos serão servidos à ora do almoço a todos os visitantes. Para tal é disposta uma mesa ao longo da rua principal da aldeia – a Vila Grande.


Há que aproveite para vender os produtos da terra e quem compra, agradece


Saliente-se que esta festa é festa da freguesia de Couto de Dornelas do concelho de Boticas,  à qual pertencem, além da Vila Grande, as aldeias de Gestosa, Vila Pequena, Espertina, Antigo, Lousas e Casal.


Mas íamos na mesa ao longo da rua principal da aldeia, que atinge um comprimento de cerca de 400m onde é colocado, de vara em vara (é esta a medida), um pão milho, uma caçarola com arroz e um pedaço de carne de porco. O resto fica por conta dos visitantes, ou sejam os talheres e as bebidas.


O vai e vem de tabuleiros de arroz e gigas de pão


A montagem e o serviço desta mesa não é tão simples assim como atrás é descrito, pois durante a noite são montadas as pranchas de madeira ao longo da rua e, se pela manhã, de manhãzinha, as ruas e as mesas se encontram despovoadas de gente, por volta das 8 da manhã começam a compor-se com os visitantes vindos da freguesia mas também um pouco de todo o lado, com muita gente do Minho, da região do grande Porto, de Chaves também há fiéis seguidores, entre outros locais que não pude apurar. Apurei os companheiros do lado aos quais agradeço, pois desprevenido fui só armado com câmara fotográfica e eles dispensaram-me os talheres, um prato e o vinho. A festa é comunitária e como tal ninguém sai de lá sem comer e beber. Obrigado companheiros de Stº Tirso que também têm promessa de vir a esta festa todos os anos.


Os companheiros de Santo Tirso fizeram promessa de vir todos os anos


Voltemos à mesa. Coladas as pranchas, chegado o pessoal, começam a marcar lugar ao longo da mesa e se de manhazinha a rua e a mesa estão despovoadas, ao meio dia estão repletas de  gente, mas há sempre lugar para mais um.


Uma vara de medida


Benzida a comida, começa-se a servir, mas antes há que por a toalha de linho que irá cobrir todos os 400 metros de mesa que é seguido do beijar do São Sebastião, o peditório para o santo, um pão, uma caçarola de arroz, um pedaço de carne, mais uma vara de medida (que tem cerca de 1,20m) e mais um pão, uma caçarola de arroz e um pedaço de carne e assim sucessivamente até se chegar ao fim da mesa. O abastecimento é feito com corridas sucessivas de vai e vem à “cozinha” com grandes tabuleiros de arroz, uma caçarola enorme de cobre cheia de carne e gigas de pão. Em menos de uma hora todos os visitantes são servidos e, segundo as minhas contas, estimo que sejam cerca de 15.000 os que comunga desta refeição. Basta olhar para o preencher das ruas, saber o comprimento da mesa e fazer as contas.


 

400 metros de mesa para 15 mil pessoas


Claro que festa é festa e quem vem de excursão à festa, e são muitos, faz-se acompanhar de outras iguarias e manjares para acrescentar à mesa, mas não só, pois não faltam as concertinas, danças e cantares que se vão servindo também ao longo da rua, com os grupos que vêm de fora e começam logo a atuar à saída dos autocarros.


Excursões da gente do minho alegram a festa


Quanto à iguaria, há que prová-la para se poder deliciar. Garanto-vos que é coisa boa, com sabor à tradição da carne curada e fumada, com um arroz que é único acompanhado de pão milho caseiro…que mais dizer!? Talvez que falta o copito de vinho, mas esse aparece sempre.


Lumbudos barrosões em ação


Claro que há quem vá lá não só pelas iguarias e pela festa mas também para o registo da tradição. As televisões e a imprensa escrita costumam marcar presença, mas as câmaras fotográficas e de filmar também se vão repetindo nas mãos dos visitantes mas também as de outros fotógrafos, que embora amadores, vão fazendo da fotografia uma arte de mostrar e registar, como as de alguns Lumbudus da Associação de fotografia com sede em Chaves ou da Associação de Fotografia do Porto – Portografia, e alguns autores de blogs que se iam acotovelando amistosamente com um “desculpa” constante para não perder nenhuma cena e registo.


 

Em alturas do Barroso ninguém sai sem comer


Sai-se sempre de lá com espirito de festa cumprida e com vontade de voltar para o próximo ano, mas a festa não acaba ali na Vila Grande, pois esta tradição comunitária do São Sebastião não é exclusiva da Vila Grande da freguesia de Couto de Dornelas. Uns quilómetros mais à frente ou ao lado, conforme se aborde, há outra festa comunitária de São Sebastião, esta na aldeia de Alturas do Barroso, que, feita em moldes diferentes e sem o aparato da mesa ao longo da rua, não deixa que nenhum visitante saia de lá sem comer um prato de feijoada, um pão e um copo de vinho. Dizem que só fecham a cozinha quando já não houver mais nenhum visitante sem comer e assim, a “mesa”, prolonga-se por toda a tarde e entra pela noite dentro.


Em Alturas do Barroso um prato de feijoada, um pão e um copo de vinho é a dose


Bem, se a iguaria da Vila Grande era um petisco apreciado por todos, a pratada das Alturas de Barroso conforta qualquer estomago e, não pensem que é uma feijoada onde os feijões são reis e senhores, nada disso, vêm com todos os pertences e não são de plástico como os dos restaurantes da cidade, pois por lá têm os sabores do Barroso. Claro que embora tivesse sido a primeira vez que fui ao São Sebastião de Alturas do Barroso também fiz promessa de voltar lá sempre que puder.

 

 

O São Sebastião dá as boas vindas à entrada - Alturas do Barroso

 

A juntar a isto tudo há o apreciar único da paisagem e temas barrosões e a visita a algumas aldeias e locais que não se podem perder, como Vilarinho Seco, os Cornos do Barroso e um passeio de regresso ao longo da Barragem dos Pisões e das suas povoações, já por terras de Montalegre.


Fica-se sempre à espera que o 20 de Janeiro surja de novo no calendário. São aquelas datas fixas que a juntar às Sextas-Feiras 13 de Montalegre devem constar obrigatoriamente na nossa agenda.   


´
publicado por Fer.Ribeiro às 22:36
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

.Fotos Fer.Ribeiro - Flickr

frproart's most interesting photos on Flickriver

.meu mail: blogchavesolhares@gmail.com

.Outubro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9

15
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


.pesquisar

 
ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

 

 

El Tiempo en Chaves

.Facebook

Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita Instagram

.subscrever feeds

.favorito

. Solar da família Montalvã...

.posts recentes

. O Barroso aqui tão perto ...

. A Mesinha de S. Sebastião...

. O S.Sebastião do Couto de...

. Festa do S.Sebastião barr...

. Chá de Urze com Flores de...

. O São Sebastião na Vila G...

blogs SAPO

.Blog Chaves no Facebook

.Veja aqui o:

capa-livro-p-blog blog-logo

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites