Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010

Discursos Sobre a Cidade

Texto de Blog da Rua Nove

 

(XIII)

 

Caindo em si, olhou para o relógio. Horas de almoço. Deveria apressar-se. O candidato estaria já em viagem. Havia que verificar toda a informação e supervisionar todos os preparativos para a sua chegada e para a estadia na cidade. Contactou o posto da fronteira e a polícia de trânsito, inteirando-se dos últimos movimentos. Sem almoçar, dirigiu-se depois para a esquadra. Havia que rever e coordenar toda a estratégia com o comandante da polícia.

 

"É absolutamente imperioso que o apertem depois da intervenção e que o tragam à minha presença, discretamente. Depois disso, deixem-no a sós comigo. Eu tratarei dele". Fique descansado senhor inspector, os nossos homens lidarão convenientemente com o assunto. Eu próprio terei todo o gosto em supervisionar a operação no local, assegurou-lhe o comandante.

 

Nos bastidores do Cine-Teatro, enquanto aguardava que os agentes lhe trouxessem o candidato, o inspector revia mentalmente os acontecimentos do dia. A recepção havia sido mais entusiástica e a multidão maior do que os serviços haviam previsto. O discurso, emotivo mas não particularmente inspirado, havia sido aclamado e aplaudido como nunca acontecera nas intervenções de Norton de Matos. O regime teria uma data de trabalhos pela frente. 

 

"Protesto, senhor comandante, protesto! Este tratamento é indigno da minha patente e ofensivo dos meus direitos de cidadão!" Atrás do comandante, um grupo de polícias conduzia o candidato em direcção ao inspector. Empertigando-se, o inspector fez um gesto enérgico em direcção ao grupo, dizendo: "Obrigado, senhor comandante. Leve-o para aquela sala e deixe-nos a sós. A partir de agora tratarei pessoalmente do assunto."

 

Mal a porta se fechou, o inspector estendeu a mão ao candidato, saudando-o. Este sorriu, já descontraído. Não esperava encontrar o inspector ali, nem ouvir o que este lhe disse. "Tenho que ser breve. Confirma-se que o regime preparara medidas para manipular os resultados das eleições. Mas está tudo assegurado, senhor General. Caso a sublevação corra mal, poderemos contar com asilo político em uma ou duas Embaixadas e com a simpatia de alguns diplomatas estrangeiros."

 

Regressando de madrugada ao hotel, o inspector começou o seu relatório em papel timbrado:

 

"Quinta-feira, 22 de Maio. O candidato chegou aos arredores da cidade pela EN2, apeando-se junto ao posto da PVT. Ladeando o Jardim Público, dirigiu-se para a Ponte Romana, sempre seguido por uma multidão de muitas dezenas de pessoas, entre as quais se encontravam agentes nossos. (...) Mais tarde, no Cine-Teatro, discursou perante centenas de pessoas, muitas vindas de outras localidades, que o aplaudiram entusiàsticamente. Os seus apoiantes registaram esta intervenção em fita magnética. No final da sessão, já nos bastidores, quando intimado pela polícia local a entregar a pistola que trazia consigo, o candidato declarou que, óbviamente, não faria tal. Tive então oportunidade de o confrontar, a sós. (...) Apesar do crescente apoio que o candidato parece vir a congregar, continuam a não existir indícios de qualquer acção concertada para alteração da ordem pública..."

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 12:00

editado por blogdaruanove em 05/09/2010 às 01:38
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Sexta-feira, 25 de Junho de 2010

Discursos Sobre a Cidade

Texto de Blog da Rua Nove

 

(XII)

 

Acordou com os lençóis enrugados, embrulhado sobre si mesmo, como se aqueles panos brancos fossem uma mortalha deixada ao abandono ou um mapa sem sentido. Aquela noite poderia ter durado várias noites. O dia anterior toda uma semana. Não sabia. Madrugada e manhã eram um enevoado indefinido.

 

Costumava recordar calendários e datas, raramente episódios literários ou livros, que quase nunca lia. Mas de repente lembrou-se da versão da Odisseia, de João de Barros, que lera muito depois da primária. E a imagem de Ulisses, amarrado ao mastro para resistir ao canto das sereias, deixou-o suspenso naquele momento.

 

Enrolado nos lençóis, sentia-se perplexo. Estaria assim a proteger-se de ansiedades ou sonhos que não recordava? Ou apenas a resguardar-se daquela luz que tudo inundava?

 

Entrando de lado, por entre os cortinados abertos, o sol, alto, parecia ter estado sempre ali. Sem lhe bater sobre o corpo, dava-lhe a sensação de o ter feito transpirar descontroladamente, destilando uma febre tropical. Cruzaram-lhe a memória imagens de Bafatá, dos Bijagós e do tempo que passara na Guiné. As febres haviam-lhe feito perder a noção do tempo e de si próprio. E agora regressava a si mesmo como se estivesse a recuperar de uma dessas febres. Um estranho em terra estranha e um estranho perante si próprio.

 

Soerguendo-se a custo, viu o quarto banhado numa luz quase insuportável. Perdida entre essa imensidão luminosa, estava a pasta. Um ponto escuro que contrastava com tudo o resto. Passou a mão pelas pálpebras, pressionando os olhos. Viu inúmeros pontos luminosos, amarelados e alaranjados, agitando-se e palpitando sob a luminosidade avermelhada das pálpebras. Depois, a escuridão. E a seguir o mapa sobre a secretária, ao lado da pasta.

 

Um mapa já desbotado, que um oficial do exército lhe oferecera anos antes. Um mapa da época em que a cidade ainda era vila. As pessoas que por ali teriam andado teriam sido outras, mas o traçado das ruas parecia ser o mesmo. De modo redundante, a vila velha também parecia ser quase a mesma.

 

Só ele não parecia ser o mesmo.

 

(continua)

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publicado por Fer.Ribeiro às 23:46

editado por blogdaruanove em 03/09/2010 às 09:28
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Sexta-feira, 21 de Maio de 2010

Discursos Sobre a Cidade

Texto de Blog da Rua Nove

 

(XI)

 

Verificou todos os recantos do quarto antes de pegar no envelope. Pareceu-lhe que havia sido deixado por alguém que se movimentara ali dentro para chegar apenas à mesa. Um envelope azul, de papel espesso e entretecido. Lacrado. Um envelope dos serviços, mas sem qualquer nome ou identificação exterior.

 

O relatório, como pensara. Abriu o envelope cuidadosamente. Já com os papéis na mão, arregalou os olhos e franziu as sobrancelhas, soltando uma risada surda. Ninguém esperaria que o contactassem daquela maneira. De facto, os oposicionistas arranjavam sempre uma forma engenhosa de comunicação. Teria sido uma das criadas?

 

Todas as informações coincidiam com as que recebera dos serviços. Na primeira cópia. Na outra surgiam aqueles que pareciam os verdadeiros planos. Seriam documentos fiáveis até para os serviços. Mas a mensagem cifrada estava lá. A rota do candidato, que a polícia já conhecia de antemão, e tudo o resto que desconhecia – os encontros clandestinos, os planos, os contactos privilegiados, as personalidades que o apoiavam, sem que a polícia disso soubesse.  

 

Displicentemente, abandonou os documentos sobre a mesa. Não lhe apetecia continuar a lê-los. Precisava de dormir. Mas nunca conseguira dormir com a barba por fazer. No lavatório refrescou a cara, reparando nas olheiras que se reflectiam ao espelho. Há já muito que não se via assim, com a consciência de estar frente a frente consigo próprio. Olhava para a sua imagem como se olhasse para a de um desconhecido.

 

No rosto notou duas linhas fundas acompanhando as sombras do nariz, contornando as narinas e terminando quase na comissura dos lábios. Pela primeira vez apercebeu-se que estava a envelhecer. E sentiu cansaço. Um imenso cansaço interior. 

 

Voltou-se, regressando à sala. Colocou os papéis na pasta e fechou o cadeado. Hesitou, parecendo não saber o que fazer com aquele volume. Sem muita convicção, passou a pasta da mesa para a secretária. Exausto, caiu na cama, deixando o pijama na gaveta, a barba por fazer e os cortinados abertos.

 

(continua)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 12:00

editado por blogdaruanove às 01:29
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Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

Discursos Sobre a Cidade

Texto de Blog da Rua Nove 

 

(X)

 

Afastando-se das imediações do forte, o inspector Bento entrou no Bacalhau vindo do Bairro Aliança e preparou-se para começar a descer a Rua de Sto. António. Nascia o dia. Uma manhã fresca de primavera, prometendo um céu sem nuvens. Lembrava-se das manhãs de nevoeiro e geada que anos antes encontrara no inverno, e a cidade pareceu-lhe outra. A pérgola do jardim fez-lhe chegar o aroma das glicínias. Quase lhe apeteceu assobiar despreocupadamente. A rapariga era um pedaço. Pena era a criança, mas sempre serviria para lhe evitar outras complicações.

 

Por momentos esquecera o assunto que ali o trouxera. Aprumou-se quando se apercebeu que já havia gente nas ruas e começou a caminhar mais devagar. Queria dar a impressão de vigilância apertada e atenção redobrada. Queria que o vissem como alguém que por ali andava àquela hora por dever profissional. Omnipresente e vigilante.

 

Já deveria ter mais informações à sua disposição. Mas precisava de dormir algumas horas. Quando chegou ao fundo da rua estranhou o largo à sua esquerda. Estava habituado às arvores e ao gradeamento do antigo mercado, à agitação das gentes e aos sons que dali vinham. O Arrabalde parecia-lhe agora uma praça sonolenta, à espera de acordar com a chegada dos oficiais de justiça e as zaragatas barulhentas dos litigantes.

 

À entrada da Rua 28 de Maio amontoava-se uma meia-dúzia de pessoas, esperando a partida da carreira de Braga. Gente ensonada, crianças aninhadas entre gigas e sacos, um ou outro animal de criação. Entrou no hotel quando alguns hóspedes já saíam. Todos o saudaram tirando o chapéu, mas ninguém parou para o cumprimentar. Dirigiu-se para a sala de refeições, onde tomou o pequeno-almoço numa mesa de canto. Sozinho, com olhares e ademanes de afectação e superioridade.

 

Subiu depois para o quarto, cruzando-se com as criadas que tratavam das arrumações. Deitou o olhar a uma, deu um piropo a outra. Sorridente e seguro entrou na habitação. Perdeu o sorriso quando se apercebeu que alguém lá tinha estado e que havia um envelope sobre a mesa.

 

(continua)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:27

editado por blogdaruanove em 21/05/2010 às 01:21
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Sexta-feira, 12 de Março de 2010

Discursos Sobre a Cidade

Texto de Blog da Rua Nove 

 

(IX)

 

Num impulso, o inspector deixou o clube, não ouvindo as boas-noites do barman nem reparando no sorriso irónico que acentuava aquelas palavras.

 

Viu ao longe a silhueta que desejava, subindo a Rua Direita. Iria certamente pelo caminho mais plano. Seguindo pelo Anjo e pelo Bacalhau evitaria assim as duas ladeiras que cruzavam a Rua de Sto. António. Mesmo ao longe, os braços levantados que seguravam a  criança mostravam umas ancas generosas e deixavam adivinhar uma cintura fina.

 

Acendeu um cigarro e tossiu levemente. Por entre o primeiro fumo, notou que ela se voltara e o vira. Pareceu-lhe que abrandara o passo. Já no Bacalhau voltou-se novamente. O olhar interrogativo que perpassara por entre os longos cabelos acabou por desaparecer, oferecendo-lhe o rosto agora um leve sorriso.

  

Seguiu-a até à Lapa. Aí viu que se dirigia para uma casa da muralha, subindo umas estreitas escadas de pedra. Morava num primeiro andar. Aguardou que entrasse, enquanto puxava de outro cigarro. Viu as luzes que se acendiam e o seu vulto passando de janela em janela.

 

O ar cálido e o silêncio da noite fizeram-no olhar para o céu, à procura da lua. Em vão. Deveria ser noite de lua nova, pensou. Sim, disse para consigo, sim, a última lua cheia havia sido a 25 de Abril... Era uma das suas manias obsessivas. Decorava datas e ocorrências registadas em publicações como se fosse editor de almanaques. Alguns subalternos, em conivente segredo, até lhe chamavam o inspector Borda d'Água.

 

Quando olhou de novo para as janelas, viu as luzes apagadas, embora lhe parecesse que um vulto se movimentava ainda pela casa. Notou depois a ténue luz que se espraiava pelas escadas. E viu a porta aberta. 

 

"Sei o que fazes", foi a única saudação que recebeu ao entrar. Surpreendeu-se mais com o rosto do que com o desassombro da rapariga. Era tão jovem! As mãos que se estendiam apertaram as suas, até que mãos, braços e corpos se estreitaram num abraço.

 

Acordou de madrugada com um choro de criança. "Tenho de ir amamentar o bebé", sussurraram-lhe ao ouvido. Quando regressou, a rapariga  encontrou a cama vazia.

 

(continua)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:53

editado por blogdaruanove em 03/09/2010 às 09:08
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Sexta-feira, 29 de Janeiro de 2010

Discursos Sobre a Cidade

Texto de Blog da Rua Nove 

 

(VIII)

 

Ainda não acabara o bife quando as pessoas começaram a sair da missa. A curiosidade fê-lo levantar-se. Lentamente, demonstrando afectação e um interesse que queria interpretado como profissional, aproximou-se da janela. Ligeiramente recuado, foi observando as saídas.

 

Mulheres idosas trajando de luto, com os véus sobre o rosto e o terço na mão, casais de braço dado, conversando amigavelmente, crianças seguindo pela mão das mães, uma mulher de criança ao colo...

 

Seguiu-a com o olhar. Cabelos pretos longos, rosto e braços como alabastro. Um rosto alongado e de feições quase perfeitas. O barman notou aquele olhar. Conhecendo a fama do inspector, aproximou-se, dizendo em voz baixa: "Chegou há pouco tempo à cidade. Parece que veio de A-Ver-o-Mar. Vive sozinha com o filho, na Lapa, junto ao forte."

 

O inspector puxou de um cigarro e deixou que o fumo criasse um véu azulado entre ele o vulto que se afastava. Seguia aquelas pernas esguias e lembrava-se de um filme alemão que vira há muitos anos. Imaginou-as longas e tentadoras, como as de Marlene.

 

Com uma diferença fundamental. Estas estavam ali, ao seu alcance.

 

(continua)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 21:17

editado por blogdaruanove em 30/01/2010 às 21:30
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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Chaves de Ontem e de Hoje - Praça do Duque D. Afonso

Vamos lá, mais uma vez, a Chaves de ontem e de hoje, em fotografia, através das quais também se pode fazer um pouco da história e dos acontecimentos desta cidade de Chaves.

 

Felizmente Chaves vai tendo um razoável espólio de fotografias antigas, que vão circulando por aí, sendo até comercializadas pelas casas de fotografia da cidade, onde se misturam antigo e recente, muitas vezes sem se saber qual a origem das fotografias ou a sua data. “Roubadas” de ilustrações e livros, reproduzidas de antigos postais, sucessivamente, vão perdendo qualidade em cada reprodução.

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Praça do Duque em 1909

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Desconhecendo-se a origem, é também difícil localizá-las no tempo em que foram tomadas. A qualidade ou falta dela, nas reproduções que por aí abundam, também não são indicativas da sua idade, pois há por aí alguns exemplares em bom estado que são bem mais antigas que outras, que por se apresentarem envelhecidas, parecem de mais idade.

 

Não foi fácil assim apresentar por ordem cronológica as fotos que hoje vos apresento, embora, graças a alguma documentação, não seja difícil enquadrá-las no tempo, com um erro mínimo de mais ano, menos ano.

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Praça do Duque em 1909

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Então vamos aos ingredientes e dados que me serviram de apoio para as datar no tempo e num espaço de 100 anos que vai desde a primeira foto, que rondará o ano de 1909 e a última, que foi tomada às 18 horas, 30 minutos e 6 segundos do dia 14 de Novembro de 2009. A vantagem da fotografia digital e das informações escondidas no seu exif, dão-nos estes e muitos mais pormenores na fotografia actual, que, nunca enganam.

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Praça do Duque em 1909

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Pois se repararem bem nas fotos há umas em que o edifício da Câmara aparece com relógio, outras sem ele. Noutras aparece o pelourinho no meio da Praça do Duque, depois há edifício da Câmara com relógio e pelourinho e sem pelourinho mas com relógio e sem ambas as coisas. Mais tarde, muito mais tarde, aparece a estátua do Sr. Duque e a Câmara com relógio, mas sem pelourinho.

 

Também se repararem no edifício dos antigos Paços do Duque, hoje Museu Municipal, aparece com dois pisos ou com três, com muitas ou poucas janelas, com tropa à porta ou sem tropa.

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Praça do Duque em 1911

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Outra das diferenças entre as fotos são as árvores da praça, ou seja, com ou sem, grande e pequenas.

 

Por fim, uma cerimónia na praça, conhecida pela celebração de um acontecimento.

 

Todos estes ingredientes e a recolha de dados, levam-nos até às datas das fotos.

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Praça do Duque em 1914

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Comecemos pela cerimónia na praça que vem reproduzida em livros das primeiras comemorações dos 100 anos das guerras peninsulares que decorreram no ano de 1909. Se repararem nas fotos de 1909, não aparece o relógio da Câmara, nem o pelourinho e, nem poderiam aparecer, pois foram lá colocados à posteriori.

 

Quanto ao pelourinho, embora hoje esteja na Praça da República, antes de estar aí colocado, fez a sua passagem pela Praça do Duque. E embora não tivesse encontrado dados quanto à sua localização no Século IXX, sei que no início do século XX ele estava escangalhado e só por ordens de Lisboa da então recente República é que os pelourinhos nacionais foram reconstruídos. Chaves também recebeu notificação para a reconstrução do pelourinho, o que fez em 1911, colocando-o no local que se vê nas fotografias.

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Praça do Duque nos Anos 50

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Quando à deslocação do pelourinho para a Praça de República, também não encontrei dados, mas nunca poderia ter sido antes de 1920, pois até essa data, existia por lá a famosa casa dos arcos, só demolida nesse ano.

 

Quanto ao relógio, há quem por aí defenda que foi oferecido pelo proprietário do Hotel Comercio em troca da Câmara lhe ter permitido um acesso directo Hotel (passadiço) a partir da Ponte Romana. Acesso que ainda hoje existe. Embora as datas da execução desse passadiço e da colocação do relógio até sejam próximas e, o pagamento de favores por parte dos privados à ao poder até ainda hoje seja notícia (basta ligar a televisão e ler os jornais), parece que tal não aconteceu, pelo menos oficialmente, pois há documentos que rezam a aquisição do relógio por parte da Câmara no ano de 1914.

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Praça do Duque em 2006


Por último, a datação da fotografia/postal que eu aponto para meados do Século XX. Come este era fácil datá-lo, não me preocupei com ele e, vai daí que cheguei à hora de fecho da edição deste post sem conseguir encontrar dados, mas uma coisa eu sei, este postal é o último de uma edição da Casa Geraldes e fui eu que o comprei nos anos 70, quando esta colecção ainda estava em venda ao público na Casa de S.João, da família Geraldes. Ou seja, nem havia como passar pela Casa de S.João e perguntar ao Sr. Lila Geraldes quando a edição foi feita. Mas o facilitismo faz-nos sempre perder alguns dados que até podem ser importantes. Mas este é fácil de resolver.

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Praça do Duque em 2006


Quanto às fotografias a cores, embora idênticas e actuais, entre elas, também já há uma distância temporal de 3 anos. As primeiras são de 2006 e a última de há um dia atrás. Mas mesmo que não tivéssemos estes dados, obrigatoriamente tinham de ser posteriores a 1970, pois só a partir dessa data é que o nosso Duque D. Afonso passou a dominar a sua praça e pelo fenómeno "pombas nos telhados", posterior a 1980 e picos.

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Praça do Duque em 2006


Como podem observar, desde que não haja maroscas de photoshop, até nem é difícil irmos ao encontro das datas das fotos.

 

Por último, gostaria de estar por cá daqui a 100 anos para poder ver a evolução desta praça, pois a moda da pedra dos arquitectos e outros que tais, não vai durar sempre, e quem sabe, se mais ano menos ano, em nome do ambiente, não nascerão por aí árvores e jardins em tudo quanto espaço público. Assim a moda pegue ou os arquitectos troquem a pedra pela erva!

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Praça do Duque às 18:30:06 horas de dia 14 de Novembro de 2009

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Até amanhã.

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:39
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Sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Discursos Sobre a Cidade

Texto de Blog da Rua Nove 

 

(VII)

 

No bar, encontrou a clientela que esperava. Três ou quatro bebedores inveterados junto do barman, um ou dois jogadores de passagem para a sala do fundo e o resto, um grupo animado de rapazes, junto das janelas, apreciando as meninas que chegavam para a missa.

 

O barman sorriu-lhe, apelando à simpatia de uma pessoa que sabia ser importante. "Boa noite, inspector Vladimiro Bento! Já há muito que não o víamos por aqui." Habitualmente renitente a que o tratassem pelo nome próprio, decidiu não dar importância de maior à saudação, acenando de volta com um baixar e levantar de queixo.

 

Em Lisboa, no serviço, já estava por demais habituado aos remoques sobre o nome que o pai, entusiasta da revolta bolchevique, havia escolhido sem a menor hesitação. Mas a paciência desaparecia quando a essa graça juntavam os trocadilhos sobre S. Bento e o apelido.

 

Aguentara isso enquanto estagiário e agente, mas agora não. O posto e a idade haviam-lhe trazido respeito entre os colegas. Só os mais velhos ainda se atreviam a insinuar uma ligação ideológica ao pai, republicano saudosista, comunista indefectível, que dissera mal da situação até à morte.

 

O criado, ali, não saberia fazer essas insinuações. Queria apenas ser simpático e prestável, procurando cumplicidade e protecção. E uma boa gorjeta. Pediu um vermute. "Aperitivos?" Que sim, que ainda não tinha jantado. Estava de costas para as janelas, mas apercebera-se da debandada. A missa já tinha começado.

 

Anos antes juraria que andariam por ali mais alferes e tenentes. Mas talvez a mudança do quartel e a distância os tivesse dissuadido. Ao virar da esquina, antigamente, ficava agora quase fora da cidade.

 

"O senhor inspector quererá comer algo?", perguntou-lhe o barman. "Podemos arranjar-lhe um bife." Deveria ter feito um trejeito de surpresa, pois a explicação surgiu logo de seguida. "Sabe, cada vez temos mais gente ali na sala ao lado, e cada vez saem mais tarde. Tivemos que começar a arranjar uns petiscos e as pessoas começaram a protestar, porque a comida só ia para o reservado..."

 

Aquiesceu no bife. Entretanto, na sala, um grupo juntara-se a um canto, discutindo um quadro. Nos anos anteriores nunca reparara nele, devia estar ali há pouco. Eram apenas curvas, quadrados, rectângulos e nada mais. 

 

Virou-se para o barman. "Zé, o que é aquilo?"

 

A resposta chegou com um sorriso escarninho. "Diz bem senhor inspector, diz bem. Aquilo. Aquilo é uma coisa que agora para aí trouxeram. É de um rapaz que está em França, filho do nosso poeta. Diz que é pintor. Mas olhe que os azulejos que tenho lá em casa metem mais vista que essa coisa. Até um pedreiro com alguns tijolos, argamassa e um pedaço de tinta fazia melhor... Olhe, para não ir mais longe, ao pé disto, até o garoto que tenho lá em casa é um artista!"

 

(continua)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:04

editado por blogdaruanove às 01:14
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Sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

Discursos Sobre a Cidade

Texto de Blog da Rua Nove 

 

(VI)

 

"Sei ao que vem, senhor inspector, sei ao que vem...", respondeu-lhe o comandante com um esgar de ironia a acompanhar o gesto nervoso. Dirigiu-se para um grande armário com um cofre, de onde retirou uma pasta, que lançou sem cerimónia para cima da secretária junto da qual o inspector se sentara.

 

"Aí tem. Nomes e movimentações. As deslocações mais recentes. Estão todos vigiados." O inspector abriu lentamente a pasta onde se encontravam meia-dúzia de páginas dactilografadas com algumas anotações manuscritas.

 

"Muito bem, muito bem", observou compenetradamente, sem dar a entender que os seus serviços já lhe tinham entregue uma lista semelhante, acrescida de fotografias.

 

"Está tudo muito bem, senhor comandante, mas aqui nada se diz sobre as famílias dos criminosos da raia... Têm sido vigiados? Têm-se revoltado ou pronunciado contra a situação? É de esses que eu quero saber!"

 

"Ainda não acabaste o trabalho, grande cabrão? Estás mais preocupado com eles do que com o general... E bem podes estar, porque as pessoas podem ter medo mas não esquecem", pensou o comandante, enquanto lhe dizia: "As pessoas das aldeias estão preocupadas com a  família, com os familiares, não querem saber destas políticas da cidade e do governo. Não se preocupe que eles não se envolvem nisto... É uma coisa só de doutores e intelectuais."

 

"Deixe as preocupações para mim e faça o seu trabalho, senhor comandante. Quero saber se há, ou não, pessoas da raia que se possam envolver com a oposição! Quero um relatório sobre possíveis ligações,  aos comunistas e aos intelectuais que apoiam esta candidatura, de todos aqueles que foram presos !"

 

Os olhos do inspector impunham-se ao silêncio remoído do comandante. Via-lhe e sentia-lhe a vontade de lhe responder levantando-lhe a voz. Mas não, surpreendentemente o comandante sentara-se e conseguira controlar esse instinto.

 

"E quero também saber se andam para aí a falar e a tentar recordar os acontecimentos, aproveitando esta agitação e este entusiasmo dos oposicionistas!", acrescentou ainda.

 

"As pessoas podem calar, senhor inspector, mas não esquecem!", rematou o comandante, enfrentando-o directamente com o olhar. "Hmm, afinal talvez não sejas tão cobardolas assim...", considerou o inspector enquanto lhe respondia, silenciosa mas firmemente, com um olhar frio e profissional.

 

A tensão ficou a pairar no gabinete muito depois de as últimas palavras terem sido pronunciadas e de o inspector se ter levantado e saído.

 

Escurecia quando saía da esquadra. O ar cálido das ruas animava-se com vultos lentos que se dirigiam para a novena. À porta do clube, homens e rapazes assistiam à chegada das pessoas que iam à missa. Sempre fora um óptimo local para ver quem ia à igreja. 

 

Nem pensou duas vezes. "Jantar? Ainda não, poderei cear mais tarde..." Empurrou o guarda-vento, onde os vidros com monogramas demarcavam um território selecto, e dirigiu-se para o bar. Dali poderia assistir discretamente ao provinciano pavonear das vaidades e ao desfile das meninas casadoiras.

 

(continua)

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:21

editado por blogdaruanove em 18/09/2009 às 00:44
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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Discursos sobre a Cidade

 

Texto de Blog da Rua Nove 

 

(V)

 

A esquadra pareceu-lhe ainda mais lúgubre e miserável do que anteriormente. Sob as luzes ténues, as fardas cinzentas tornavam-se indiscretamente visíveis e as barrigas arredondavam-se ainda mais, de forma obscena. Tudo o resto eram sombras que escondiam as reentrâncias das paredes, o salitre que nelas crescia e as baratas que se escapuliam silenciosamente.

 

Haviam-lhe dito que durante os dias mais frios de Inverno aquela penumbra abrigava também o rastejar faminto e desesperado dos ratos, conhecedores de todas as gretas e frinchas do velho soalho. Num canto, viam-se ainda as marcas das balas que um polícia novato disparara, numa tediosa noite de serviço em que decidira aproveitar os roedores para praticar tiro ao alvo.

 

Os veteranos divertiram-se com a façanha e a irresponsabilidade do maçarico, apostando logo, uma vez que a transferência era certa, em qual das esquadras mais reles iria ser colocado. Nos dias de serviço interminável, e sem qualquer história, as apostas eram o passatempo preferido, sendo apenas suplantadas por alguma lerpa ou bisca que se jogava numa arrecadação, à sorrelfa, quando a noite ia alta.

 

"Uns ignorantes e uns molengões!", pensou o inspector. Ali, apenas lhe prendiam a atenção o subchefe e o comandante. O subchefe, um finório, tinha sempre arranjinhos por fora que lhe iam arredondando o vencimento. O comandante, esse, só pensava noutros arranjinhos. Ainda novo, não podia ver rabo de saias nem deixar de apertar com tudo e todos quando lhe dava na gana, só por ruindade. "Um grande filho da puta, que se julga o maior cá da terra", na opinião despeitada de muitos concidadãos, entre os quais se contavam alguns maridos enganados à conta da sua fogosidade. "Um cobardolas de merda, que se acagaça com os superiores e os militares, e fica em sentido connosco", na opinião desdenhosa do inspector.

  

"Sabe ao que venho, senhor comandante", disse o inspector quando entrou no gabinete sem bater. O comandante virou-se, enfurecido, mas acalmou-se e levantou-se de imediato quando viu a pessoa que tinha na frente.  

  

O inspector, impassível, fez um pequeno movimento com o queixo, em direcção ao comandante. Este olhou logo para baixo e, sem qualquer embaraço aparente, abotoou rapidamente a braguilha, enquanto dizia para uma rapariga, desalinhada e estarrecida, que se quedara junto à secretária – "Podes ir. Depois falamos..."

 

(continua)

 

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Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Discursos sobre a Cidade

Texto de Blog da Rua Nove

 

(IV)

 

 

O edifício da polícia contrastava tristemente com o novo Palácio de Justiça. Casebre de dois pisos, encostado à muralha medieval, tanto podia ser tomado por um armazém em mau estado como por uma casa desabitada. Para lá chegar, quem vinha da parte baixa subia uma íngreme ladeira que, percorrida a pé, parecia um calvário consagrado à Trindade.

 

Lembrava-se do trocadilho mental que fizera da primeira vez que andara ali pelas redondezas. De um lado a polícia, de outro a igreja e bem no meio uma elegante e discreta casa de jogo. A "santíssima trindade"...

 

A princípio, chegava sempre de carro à esquadra, para manter a distância, a discrição e, quando já era conhecido, o estatuto. Insistia sempre na discrição inicial por uma questão de método, mas ali percebera que um carro numa cidade pequena nada tinha de discreto.

 

A discrição passara então a ser também uma questão de surpreender pessoas desprevenidas em situações que se revelavam ora graves ora divertidas.

 

Ainda se ria de um episódio dos anos 40. Desconhecido na cidade, depois de farto jantar, dirigira-se sozinho para a velha buvete de granito. Tinham-lhe recomendado um pequeno passeio ao luar e um bom copo de água das caldas, para sentir as geadas de Dezembro, acomodar o estômago e aclarar as ideias.

 

Chegado à fonte, por entre a névoa da água quente, deparara-se com um polícia. Fardado, mas claramente embriagado. Este não fora com a sua cara, insistindo em pedir-lhe a identificação e em saber o que andava ali a fazer àquelas horas tardias alguém que ele, representante da autoridade, nunca tinha visto em Chaves.

 

Palavra puxara palavra, levando à apresentação das respectivas identificações. Como resultado, o sóbrio e digno representante da autoridade acabara por ir passar a noite nos calabouços da própria instituição, depois de admitir que tinha exagerado na medicação para combater o frio...

 

Ao que constava, não lhe tinha servido de lição. Juntamente com um vermelhusco e rubicundo colega continuava a ser um dos típicos e inofensivos patuscos da corporação.

 

Agora, quando já se sabia que estava na cidade, costumava subir a pé, desafiadoramente, a Rua Direita, a rua de maior comércio, para então chegar à Rua da Cadeia.

 

Ao contrário do habitual, naquele fim de tarde decidira subir a Rua de S. António, passando em frente do Cine-Teatro. Queria marcar bem o território, passando também junto dos cafés mais frequentados. Ao chegar ao Largo das Freiras, antes de subir a ladeira, estacou, virando-se lentamente para trás.

 

Uma mancha enorme e avassaladora, ameaçadoramente escura, surgia ao fundo da rua, no longínquo enfiamento da ponte. O Brunheiro cercava a cidade e a Madalena. A mesma mancha escura e indistinta, verde, castanha e cinzenta, que se recortava nas tardes de inverno. Era Maio, mas aquelas continuavam a ser terras de Montenegro.

 

(continua)   

                                                                                              

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Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Discursos sobre a Cidade

Texto de Blog da Rua Nove

 

(III)

 

 

Ignorando o ascensor, encaminhou-se para as escadas. Um velho hábito que adquirira na rotina das esperas e vigilâncias em Lisboa. Nem sempre o acesso mais rápido e directo aos quartos era o mais indicado nos hotéis. Muito se poderia descobrir nos corredores, muito se poderia ouvir das múltiplas conversas mal abafadas por cada uma das inúmeras portas. Além de que sempre convinha manter as criadas debaixo de olho. Por diversas razões, claro.

 

Já no quarto, pendurou cuidadosamente o chapéu no cabide, enquanto observava e confirmava a familiaridade dos pormenores. No regresso aos locais onde trabalhava ou pernoitava habituara-se a lançar um rápido olhar para verificar se algo teria sido tocado ou alterado. Ainda não haviam despejado os cinzeiros. Sabiam que ele gostava do cheiro a tabaco e cumpriam escrupulosamente as ordens que dera para que não despejassem os cinzeiros enquanto não chegasse. Não ocorria a muitas pessoas ser aquele também um estratagema para que as criadas lhe entrassem pelo quarto dentro e ele lhes pudesse deitar um olhar mais demorado...

 

Aproximou-se da secretária que se encontrava junto das janelas, trazendo para junto de si a pasta fechada a cadeado. "Al grano", pensou, "é altura de tratar do que interessa." Retirou alguns dos relatórios que se encontravam nas capas de cartolina amarela, já amarrotada e desgastada pelo uso frequente.

 

"Lista dos membros da Comissão de Apoio". Hmm! Sempre os mesmos... Saudosistas da utopia pós-monárquica e do caos democrático. Orgulhavam-se da tradição republicana da cidade e da resistência aos trauliteiros, mas esqueciam-se dos séculos de fidelidade monárquica da vila. Doutores, engenheiros, advogados... Já estavam todos identificados, não havia novidade.

 

"Movimentação do candidato oposicionista". Este era constantemente actualizado e todos os dias havia novidades. Pegou nas folhas do relatório mais recente, que lhe havia sido entregue no posto de fronteira. "Olha, olha!... O figurão passou a andar armado para a deslocação à província..."

 

"Elementos subversivos e contestatários da situação". Este era o relatório que mais o intrigava. Ali apareciam nomes de pessoas que nada tinham a ganhar com tal atitude, mas que mesmo assim não deixavam de falar contra o governo, os governantes e as forças da ordem. Eram os que habitualmente  pagavam as favas e serviam de exemplo, indo de quando em vez parar à prisão. Olhou para a lista. Aparecia ali de tudo. Até dois alfaiates e um desempregado que se entretinha a prestar serviços aos que iam aos bancos e não sabiam ler nem escrever... Eram pessoas como estas que o deixavam perplexo e preocupado quanto ao futuro do regime.

 

Enquanto assim reflectia, abriu as janelas. O parapeito era ladeado por dois aros onde estavam colocados vasos de flores. Sardinheiras. Puxou uma última fumaça do cigarro, preparando-se para o apagar. Maquinalmente, aproximou-o das flores rubras, deixando que o alaranjado do tabaco aceso fizesse murchar as pétalas de algumas delas...

 

                                                                                       (continua)

 

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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

Discursos Sobre a Cidade

 

Texto de Blog da Rua Nove

 

(II)

 

 

Não havia reparado ainda naquela mudança. Durante a manhã, quando se deslocara até Vila Verde, seguira pela ponte nova, para manter a discrição. Agora, divertia-se com a ironia. O tribunal e a ponte. Duas obras que apenas tinham sido concluídas depois da morte do velho marechal, o paizinho da cidade.

 

No posto de fronteira, deparara-se com os habituais casos de contrabando. Apenas contrabando. Nada que dissesse respeito à sua polícia. Ultimamente, contudo, outros casos iam surgindo. Casos que se poderiam tornar suspeitos. Contrabando de peles. Pessoas que passavam a fronteira a salto. Era mais para a montanha que isto acontecia, para Mairos, ou até mesmo para Montalegre, mas este era assunto que já lhe dizia respeito e se encontrava sob a sua jurisdição. Nunca se sabia quando entre essas levas apareciam homens que andavam a monte ou que conspiravam contra a situação.

 

No vale, tais movimentos seriam agora de maior risco. Com a recente agitação política, as fronteiras principais estavam sob vigilância mais apertada. Ali, até a zona do açude passara a ter patrulhas mais frequentes. As brigadas da Guarda Fiscal andavam mais embirrentas, a GNR, a pé ou a cavalo, não parava de se mostrar, a tensão crescia e tornava-se evidente.

 

Os candidatos a banhistas, que no açude procuravam aproveitar os tépidos dias de primavera, passaram a ser bruscamente afastados. Conhecidos que fossem, esbarravam na cara fechada e sisuda dos guardas, pegavam nos pertences e abandonavam a ideia de uma sesta descansada junto ao canal.

 

O inspector apercebera-se da tensão logo à chegada, quando vira um guarda-fiscal a embirrar com uns ciganos que haviam sido obrigados a levantar o acampamento junto ao rio. A discussão azedara, havia vozearia e gritos e no meio de tudo isto um cão a ladrar. O cão, cada vez mais frenético, ladrava aos pés do guarda. Este, sem sequer olhar, afastara-o com um tremendo pontapé, enquanto tirava a pistola do coldre. Valeu ao cão ter dobrado uma esquina e valeu aos ciganos terem ido atrás do cão.

 

Não se recordava de haver testemunhado tal animosidade em nenhum guarda-fiscal. O olhar desvairado do guarda, que encimava um pescoço entumescido por veias prestes a explodir, veio-lhe várias vezes à memória, enquanto regressava à cidade.

 

E essa memória, que ora se diluía na mansidão das águas ora se encrespava na vertigem dos redemoinhos, acompanhara-o ao longo dos canais da veiga até ali, à porta do hotel. 

   

                                                                                                        (continua)

 

                                                                                                                                          

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Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

Discursos Sobre a Cidade

 

Texto de Blog da Rua Nove

 

 

(I)

 

O inspector recordava-se muito bem da rua e do hotel.

 

Hospedara-se ali havia uma dúzia de anos, ainda agente, quando viera participar numa operação de fronteira. Dias difíceis, aqueles, em que militares, a GNR e os serviços da sua polícia tinham tido trabalhos redobrados para resolver uma situação delicada. (“Delicada? Delicada uma porra!”, pensou. “Haviam morrido homens, haviam-se desfeito famílias…”) Não tinham bastado as geadas, a lama nos caminhos e nos montes, o colaboracionismo entre famílias portuguesas e espanholas a prolongar a resistência, o Natal estragado. Não. Houvera ainda que abafar muitos pormenores, passar a versão de banditismo para os jornais e tratar do assunto com as autoridades espanholas. (“Uma porra, uma porra!”)

 

Nos degraus do hotel, observava agora a rua estreita, entretanto transformada num pequeno mundo. Um mundo de província, agitado aqui e ali por acontecimentos que não seriam notícia em lado nenhum. À sua frente, uma escadaria deixava a rua, subindo a encosta que levava aos bairros medievais. À esquerda, algumas casas pareciam amparar o pano de muralhas, abrigando oficinas de sapateiros e correeiros. Nessa extrema, de quando em quando, agitavam-se as gentes e partiam algumas camionetas para as aldeias. As carreiras do Teodoro, concorrentes das carreiras de Braga.

 

Na opinião do inspector, nem se poderia falar de concorrência… Menos de meia dúzia de viagens por dia, passando por Boticas e Montalegre, era o uso que a empresa Magalhães fazia da sua concessão, enquanto a Auto-Viação assegurava as rotas mais lucrativas, para Valpaços, Vila Pouca e Vila Real. Mas as pessoas achavam que o facto de os escritórios se situarem no outro extremo da rua, já quase no Arrabalde, testemunhavam concorrência.

 

De lábios cerrados e sorriso fungado, virou-se para a sua direita, perscrutando as camionetas de Braga e a exiguidade dos escritórios – uma porta estreita, à direita, e um caixilho de madeira, envidraçado a quatro quintos, à esquerda. A maior parte dos passageiros aguardava as partidas no passeio. No interior, na escuridão do tugúrio, acumulavam-se apenas as encomendas, como ele bem sabia.

 

Enquanto deixava que a imagem cinzenta das camionetas se diluísse por entre o fumo do cigarro e o granito, olhou para o largo. Haviam tirado dali as velhas árvores e o mercado. Agora, a praça era rematada pelo novo edifício do tribunal.

 

                                                                                  (continua)

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