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Os Banais Jornais Regionais
(Esta crónica, a última, é dedicada a todos os comentadores das minhas crónicas, todinhos, que me incentivastes a escrever e que me ensinastes algo com os vossos valiosos comentários, e também ao Fernando, que sei que tens pena que eu vá parar de colaborar durante uma temporada.
Ao António Roque e ao José Carlos Barros não lhes dedico mais crónicas. Foda-se, era o que me faltava! Nem sequer um comentariozito, nem uma palavrinha?! Ó rapazes, falta-vos a cidreira em casa? Tó diatcho!)
Uma das coisas que mais entristece em Chaves é a qualidade dos seus jornais, que são de uma pobreza que mete dó. Aquelas três ou quatro folhas dobradas, com notícias mal escritas, pouco interessantes (que se lêem em 5 minutos, todas!), mais aqueles textos que nem notícias são, que são pura palha para encher, como se não houvesse nada para dizer, isso tudo somado (sumido?), é de bradar aos céus. Aliás, basta ir a Verin para se ver a diferença dos nossos para os jornais regionais espanhóis, que têm muita mais informação e qualidade. Os nossos são do piorio, pior seria impossível.
Mesmo o Semanário Transmontano, que parece ser aquele que quer ser o mais abrangente e mais importante, é muito mau, tão mau como os outros.
O que me irrita mais nos nossos jornais é as suas páginas estarem cheias de palha, de coisas ridículas, e, em vez disso, não terem notícias importantes que seriam do interesse da população. Já aqui dei o exemplo de como o ST nunca publicou, sequer, uma notícia, ou entrevista, sobre o João Vieira, o grande pintor de Chaves. Nem a sua morte (que foi notícia de todos os grandes jornais nacionais, como o Público e o JN, mais televisões e rádios) foi notícia. Isto é absolutamente ridículo! Há uns tempos, fiz, também, notar que havia um concerto de música clássica, comentado pelo Maestro Vitorino de Almeida, que nem sequer foi noticiado pelo ST. Como se nas nossas terras um concerto destes passasse despercebido e nem merecesse referência, até parece que os há às dezenas todos os dias. Mais exemplos como estes poderia dá-los às centenas, se tivesse tempo e disposição para isso. O que é irritante no ST é que para encher as páginas, como se não houvesse nada de interessante para escrever, metem artigos onde se contam anedotas de gosto duvidoso, por exemplo, como se nós precisássemos de um jornal para aprender umas anedotas fracas! Para nem falar noutro tipo de artigos péssimos, ridículos.
Hoje, só para chatear, vou dar mais um exemplo de uma pessoa que poderia ter sido tema de várias notícias mas que os nossos jornais continuam a ignorar. Poderia escolher outro exemplo mas vai este. É que há dezenas de flavienses a fazer coisas interessantes por esse mundo fora e que nunca são objecto de notícia. Temos flavienses a trabalhar na NASA, em Oxford, etc, que passam completamente despercebidos por causa da ignorância dos nosso pobres jornalista, embora não dos outros, dos de qualidade, como já vou mostrar, ufa, mais uma vez.
Porque é que os nosso jornais nunca escreveram uma notícia sobre o João Luzio (podem ver aqui a sua página no Myspace), um rapaz de Chaves que já ganhou um concurso de guitarra, o Guitarfest, no Coliseu do Porto, e que também gravou um álbum (Guitars From Nowhere) com alguns dos melhores guitarristas portugueses da música pesada, como o Gonçalo Pereira? Porque é que o Luzio já foi entrevistado num dos canais da televisão por cabo, o MVM, e não aparece em nenhuma notícia dos nossos jornais, apesar de ser notícia em jornais de fora? Isto é ridículo. Não deveria ser o inverso, os da terra a descobrirem os talentos locais e a destaca-los?!
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Por falar nele, ficais a saber que o Luzio está a concorrer a um concurso internacional de guitarristas, se quereis votar nele podeis ir ao seguinte link e faze-lo. Basta fazer o registo e votar. Vamos lá, vamos ajudar os da terra. Nem precisais de ver os outros guitarristas, o Luzio é o melhor! O link: http://www.guitaridol.tv/video/252
Voltando à questão. Porque é que os jornais regionais não dão notícias importantes como estas? A resposta só pode ser uma: burrice, pura ignorância. Não pode ser outra coisa porque se eles enchem os jornais com palha, também poderiam meter estas notícias, que lhes demorariam pouco mais tempo a escrever. O que eu não percebo é como é que eu, uma pessoa normalíssima, que nunca fui jornalista, que passo muitos meses sem ir a Chaves (vivo muito longe de Chaves, é por isso), sei destas coisas e falo delas, e os jornalistas flavienses parecem não saber nada do que se passa à sua volta?! Parece que se sabem mais notícias interessantes de Chaves durante um corte de cabelo no barbeiro do que numa leitura dos periódicos. Do desporto ainda vão dando bastantes notícias, mas isso não basta. No resto, são muito fracos, especialmente na parte da cultura.
Mas a secção dos nossos jornais que eu acho pior são as colunas de opinião, que muitas vezes não têm nada de opinante. O que é irritante nas colunas de "opinião" é a maior parte dos temas tratados não terem absolutamente nada que ver com a nossa região.
Na minha humilde opinião, um jornal regional serve para dar as notícias da região, as pequenas notícias que não interessam aos jornais nacionais, mais as notícias que saem nos nacionais mas que podem ser mais desenvolvidas pelos regionais, juntamente com alguma opinião sobre o que se passa na nossa região ou sobre leis e políticas nacionais que nos afectem. Para o resto, temos os jornais nacionais, como me parece evidente.
Reparem agora neste exemplo de opinião do ST, cujo título é: "Luanda, quem te viu e quem te vê!". Eu nem vou comentar o artigo, não vou dizer se acho que tem qualidade ou não, nem conheço o senhor nem tenho nada contra ele, nada disso interessa. O que acho incrível é que alguém vá para um jornal de Chaves falar da política de Angola. Para isso, não temos os cronistas dos jornais nacionais, os Pachecos Pereiras e os Sousa Tavares? Mas o exemplo que dei é um entre muitos. Há cronistas do ST que se põe a malhar no Presidente da República como se o homem fosse ler o ST ou dar-lhes atenção! O que parece é que estas pessoas não sabem do que falar e depois vão para o ST, e para os outros, dar uma de Pacheco Pereira, dar uma de grandes pensadores, de gente informada, quando nós já tínhamos lido a opinião sobre o mesmo assunto, e com muito mais nível, num dos jornais nacionais. O irritante é que sobre os temas da região não falam ou pouco falam. Lembro-me do tema das barragens no Tâmega, que é uma coisa que nos importa muito, e que só foi tema de crónica, muito ligeira, no ST, depois de o Fernando ter andado por aqui a escrever, mais e melhor, sobre isso. E, só sobre esse tema, poderiam escrever-se muitas crónicas. Mas não, vamos antes escrever sobre Luanda, Moscovo, e o caralho que os foda!
E não, não é por eu gostar de dizer mal das coisas, porque não tenho interesse algum em que alguém me venha dizer "Ó pá, os jornais da tua terra, de Chaves, não valem um chavo!". Tenho pena.
Nem acho que os jornais sejam fracos porque a gente é toda fraca. Sei bem que são fracos porque são escritos por gente preguiçosa, ignorante, e sem brio profissional. Para provar isso e para mostrar que eu também dou valor ao que é bom, dou-vos os exemplo do Jornal de Vilarelho, o Eito Fora, ou da revista Periférica, uma revista de muita qualidade que era feita por gente da região. Há gente na nossa zona capaz de fazer do melhor. Infelizmente não se pede esses para escrever.
E ainda há gente que incha o peito ao dizer que escreve no ST. Foda-se, a mim dá-me o riso. É pena que nunca ninguém me tenha convidado para escrever num destes pasquins, que era para eu poder... recusar. Claro, eu não me ia queimar e aliar o meu nome a merda, que é o que eu acho daquilo. Mas mesmo que eu me decidisse a escrever, por amor a Chaves, nunca o iria fazer porque ninguém me deixaria escrever o que realmente penso. Porque o que o ST precisava era de ter uma secção de Tiradas dos Outros (artigo semanal do ST a criticar artigos de outros jornais da região) chamada Tiradas do ST, em que eu pudesse gozar à farta com eles, para ver se aprendiam algo. Nunca no ST eu poderia ter a liberdade que o Fernando me dá aqui, que é total. Se, até, me apetecer dizer "Ó Fernando, falhaste, aquilo está uma merda.", sei que posso faze-lo, apesar de nunca ter sido preciso porque o Fernando tem nível, escreve bem e é um chefe de redacção de primeira. Por isso, escrever por escrever, escrevo aqui, e no fundo isto até tem mais leitores do que o ST.
Já agora, para a malta do ST que vem aqui ler as crónicas, porque eu sei que sim: ide lá fazer um artigo sobre o Luzio. E ide, também, descobrir quem é o flaviense que trabalha na NASA, porque eu não vos vou dizer, mexei esse cu, caralho, não mexeis uma palha, trabalhai porque é para isso que estais aí. Se um dia me dá na cabeça para comprar o ST despeço-vos a todos com justa causa, a brincar!
Até um dia, talvez um dia deste eu me resolva a escrever alguma outra crónica, nem que seja uma ocasional. Foi um prazer. Até já.
(Esta crónica é dedicada ao António Roque)
Não conheço o António Roque mas sei que escreve muito bem. Parece-me que as pessoas que melhor escrevem, aqui, são o José Carlos Barros e o António Roque. Eu nem gosto de fazer comparações porque as pessoas podem levar a mal, mas como só estou a dar a minha opinião, que nem interessa muito, não há mal. Também posso dizer que me parece que a pessoa que pior escreve sou eu. O que me safa é que vou escrevendo simples e directo aos assuntos. É por isso que gosto da escrita do Fernando, que escreve bem melhor do que eu e que também escreve coisas simples e concisas, e do Gil Santos, que também é simples mas conta histórias interessantes e com piada. Não vou falar de toda a gente porque não vale a pena, gosto de todos de maneiras diferentes.
O que queria dizer com estas coisas de escritas diferentes é que já me pus a pensar que o cronista ideal seria uma mistura de António Roque com Gil Santos. Digo isto porque acho que seria a mistura de uma escrita perfeita com uma história bem contada. Sem tirar mérito a um ou a outro, lembro que isto é só a minha opinião. Como eu não escrevo muito bem e me engastalho facilmente com as vírgulas, se calhar estou a dizer alguma burrada, eu não sei grande coisa disto das escritas!
Na sua última crónica, o António escreveu, e bem, sobre os taxistas flavienses. Mas eu apostava que se fosse o Gil a escrever sobre o mesmo tema, ele iria contar alguma historieta com piada, alguma coisa anedótica. Isso são coisas que acho que o António não costuma fazer. Mas as histórias das pessoas são interessantes e também é bom que sejam recordadas porque há muita gente que não as ouviu e que gostava de as ouvir, ou ler.
Eu podia contar umas historietas dos taxistas flavienses mas não o vou fazer para não andar a tirar o lugar aos outros, e para não parecer que quero competir e mostrar que eu é que sei. Lembro-me de alguns pormenores da última que ouvi quando dois choferes recordavam as viagens que faziam a França para levar e trazer emigrantes. Contavam eles que nas viagens que faziam em grupos, de dois ou mais taxistas, no regresso, e sem passageiros, punham os velhos mercedes 220 (ou 240) D a dar o litro, em quarta e pé a fundo, a 150 km/h, que era quanto davam essas máquinas, e então, encostavam os carros e esticavam bem os braços para trocar a garrafa de vinho de carro para carro.
Mas como eu prometi não contar histórias de taxistas de Chaves, (Ó António, o José, esta vírgula fica aqui bem?! São estas coisas que me desesperam durante as escritas!) vou contar uma de um chofer doutra terra.
É que eu gosto muito de Chaves mas também gosto de andar por outras terras e acabo por ouvir muitas histórias engraçadas.
Um dos motivos que me leva a sair de Chaves, além das histórias e do convívio e das vistas, é a merenda. Se estou por Chaves, acabo por merendar uns pasteis, sempre pasteis. Como não se encontram sandes de presunto à venda, tenho que pedir uns pasteis porque dos bolos nem lhes conheço os nomes! Estou a brincar, não peço bolos porque gosto muito mais de coisas salgadas, é essa a razão de não saber os nomes de alguns bolos que não me interessam nada. Se saio de Chaves, aparece-me quase sempre alguém a convidar para um copo e um bocado de presunto. Mas não dou voltas apenas no concelho de Chaves, também gosto de ir para o de Valpaços, Montalegre, e Boticas, entre outros.
A história que vou contar já a ouvi várias vezes em Boticas.
No caminho de Chaves a Boticas, depois de se passar Casas Novas e se subir o monte até ao cimo, a estrada começa a descer. Nessa descida, entre os dois cruzamentos que dão para a aldeia de Sapelos, há uma curva muito fechada para a direita, perigosa (situada duas curvas antes do fontanário do lado esquerdo), onde já houveram vários acidentes. A curva é mais perigosa para quem vai de Chaves para Boticas porque é a descer, mas pelos vistos também já aconteceram acidentes com carros que subiam. É uma curva que se faz no máximo a 60 km/h.
Já há muitos anos, o Estica, o taxista mais extravagante de Boticas, decidiu apostar que fazia a tal curva a 120 km/h! Lá se meteram os apostantes ao caminho e ao chegar perto da curva, o Estica começou a dar gás no mercedes, estrada abaixo, e, segundo reza a lenda, entrou na curva a 120. Entrar, entrou, mas... não saiu! Houve uma qualquer lei da Física, parece que a da força centrífuga, que se lhe interferiu com a trajectória sonhada e que obrigou o carro a sair a direito para depois ir capotar no mato da berma. Diz-se que um dos passageiros, que ia no banco de trás, ficou desaustinado e depois do acidente não parava de berrar "Ai que já morri! Ai que já morri!".
O Estica regressou a Boticas para ir deitar contas aos parentes (os donos do táxi). Mas ao invés de inventar uma desculpa "normal", de dizer que havia óleo na estrada ou que lhe rebentou um pneu, não conseguiu conter a sua excentricidade e apresentou, seriamente, a desculpa de que na estrada havia LEITE! A culpa foi do leite, porque se não fosse o leite...
Desde esse dia, a população da zona passou a referir-se à tal curva como "A Curva do Leite". Ditos como: "Tem cuidado com a Curva do Leite!" ou "Esbarrou-se outro na Curva do Leite!", são frases que se ouvem, por vezes, em Boticas.
Até à próxima crónica. A próxima vai ser a última crónica que vou escrever aqui no blogue. Talvez venha a escrever alguma crónica esporádica mas penso que durante uns meses não escreverei mais nada.

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Uma Cidade do Caralho!
(Esta crónica tem bola vermelha no canto do écran. Se é uma pessoa sensível a palavrões e malcriadez, pare já aqui e espere pela Pedra de Toque de Terça-feira, que essa sim, é uma crónica de confiança absoluta)
Uma das coisas que mais me custa ao escrever estas crónicas segundárias é não se poder (dever?) meter umas caralhadas, embora eu já tenha metido uma ou outra.
O problema é que eu, desde que aprendi a falar, sempre fui treinado para mandar caralhadas e tornei-me num dos putos que mais caralhadas diziam, uma coisa a que as pessoas achava piada. E nunca mais perdi esse vício, já me está entranhado muito muito profundamente, e por causa disso devo ter dito, durante a vida, vários biliões de caralhadas, porque não há quase frase alguma em que não meta uma.
E aos despois, quando me chego ao teclado para martelar uma crónica, estou sempre a pensar "ai o caralho, caralhos me refodam, ai que stress do caralho, jajus m'acuda, puta que pariu esta merda, puta que pariu as etiquetas, não consigo escrever como penso normalmente, que foda apanho a escrever estas crónicas, etc, etc". Vocês não imaginam o esforço que eu faço para escrever uma crónica decente, à doutor, uma coisinha do tipo que se vê para aí publicada nos jornais. É que nem dou conta que meto as caralhices, só quando chego ao fim é que vou outra vez ler e vejo que tenho de cortar as caralhadas por aqui (aqui não, que se foda, hoje vai ser à Lagardère! É nas outras crónicas) abaixo. Numa ou noutra crónica tenho deixado uma caralhada, que é só mesmo para desougar, não aguento. Eu nem me considero malcriado porque não ando por aí a ofender as pessoas, a dizer coisas como "vai-te foder, ó filho da puta, cabrão do caralho!", não é nada disso, meto as caralhadas mas muito inocentemente, de maneira natural, são uns foda-se que não são para foder ninguém. Hoje, vou desforrar-me mas prometo que na próxima vou escrever tudo decentemente, não vou escrever nenhum palavrão. Peço desculpa por estas minhas caralhadas mas a culpa é do Fernando que me atura e que disse que me dava carta branca para escrever o que me desse na mona. Por isso, se quereis reclamar alguma coisinha ide queixai-vos a ele porque eu quero que as reclamações se fodam, já disse que não falo assim por maldade.
Depois desta introdução um bocado fodida, vamos ao assunto de hoje.
Na última crónica estivemos para aqui a discutir se era melhor a aldeia ou a cidade e o que se devia fazer em Chaves, ao nível cultural e do lazer, para tentar combater a fuga das pessoas para as grandes cidades. Pareceu-me que houve gente que percebeu que eu sou mais "amigo" das grandes cidades e que desprezo um bocado as aldeias. Fiquei um bocado fodido com esta coisa e vou tentar explicar melhor isso.
Na verdade, eu sou da aldeia, sou um puro parolinho da aldeia. Ficais a saber que eu vivi sempre na aldeia e que só comecei a frequentar Chaves quando fui estudar para o 7º ano do Liceu. Antes disso, só tinha vindo a Chaves uma meia dúzia de vezes com os papás, porque naquela altura havia poucos carros e a gasolina era cara, e por isto, só conhecia, praticamente, a Rua de santo António e a Rua Direita. Muito menos conhecia cidades como o Porto, em que nunca tinha estado. Mas agora que me lembro, qual Porto, qual gasolina cara, qual quê! Então se eu só pus os pés em Espanha depois dos 18 anos! E a aldeia é só a uns quilómetros de Espanha. Mas quem é que apanhava fora da aldeia? Podiam-me convidar que eu nunca queria ir, só estava bem na aldeia.
Não sei se estais a ver o caralho do choque que foi para mim ir estudar para o Liceu. Até me passei da cabecinha! É que eu não sou só um parolo da aldeia, sou um super-parolo que nunca teve habilidade nenhuma para lidar com estas coisas das parolices, sou um gajo muito inocente, mesmo purex da aldeia, só queria aldeia, mais nada. Sabeis vós o que é eu chegar a Chaves vestido com uma samarra e com uma calças de fazenda (que tinham sido feitas pela minha mãe com umas calças gastas do meu pai), mais uma bolsa de lona (parola, claro) a tiracolo, em que iam lá dentro uns cadernos à antiga (nada de caderninhos de argolas como já estavam na moda na cidade. E, eu, feito burro, insisti em usar os cadernos durante uns mais quantos anos, claro!) e a merenda? Sabeis vós o que é eu chegar nesta figura à grande cidade e encontrar os colegas de jeans, todos pimpões, com kispos catitas, mais os cadernos de argolas janotas juntos com os livros, tudo enfiado naquelas capas de couro, que se usavam na altura para meter o material da escola? Para mim foi um choque do caralho, foda-se! Eu detestava Chaves e aquelas finesses todas. É que não era só a roupa e as capas de couro, era tudo, os gajos eram muito mais sabidos do que eu e estavam sempre a gozar comigo, como se já não bastasse eu andar desorientado numa povoação tão grande. Por exemplo, eu ia com eles a um café e não sabia os nomes dos bolos, não sabia o que era uma meia-de-leite, etc. E os gajos gozavam comigo, pois então. E eu ficava ali envergonhadinho, nem coragem tinha para ir mijar ao wc porque não sabia onde era o sítio certo.
Depois, fui-me ambientando lentamente, passei a gostar de Chaves e até a fazer bons amigos. No início ainda tive que mandar uns murros a dois ou três queques da cidade, que queriam gozo, mas depois disso os gajos começaram a ver que eu era agreste mas que nem era muito burro e lá fomos ficando amigos.
Quando eu já estava ambientadinho a Chaves, tive que ir para ao Porto! Ó caralho, aí é que foi pior, aí é que me custou a ambientação! Foda-se, é que um gajo de uma aldeia tem muitas mais coisas em comum com os de Chaves (com quem um gajo pode falar de presunto, por exemplo) do que com os tripeiros, que são gente muito mais sofisticada, e eu nunca gramei as sofisticações! Fui-me logo meter com gajos que discutiam de cinema, por exemplo, e eu nunca tinha posto os pés num cinema. Quando fui pela primeira vez ao cinema, veio uma senhora com uma lanterna dizer que me levava ao lugar, e eu pensei "Não há quem me safe, tenho mesmo cara de parolo, de aldeão, a senhora topou-me logo e veio-me ajudar porque percebeu que eu nunca iria descobrir o assento certo, ai que vergonha!". Os meus amigos tripeiros falavam de muitas coisas que eu não percebia nada, coisas que me levaram muito tempo a aprender para poder comunicar com aqueles sabichões. Mas, claro, aprendi e ambientei-me, já não queria outra coisa senão Porto.
E não é que depois do Porto me meti ao caminho pelo mundo fora? Agora, posso dizer que já vivi em algumas das maiores cidades da Europa, numas pouco tempo, coisas de semanas ou meses, mas noutras coisas de anos. E vivi duma maneira que me deu para conhecer bastante o que se passa por aí fora, conheci gente das mais altas e das mais baixas classes, incluindo gente fina da cultura e da pasta, o que me dá alguma bagagem para andar por aí fora muito descontraído no meio da gente sofisticada, já não sinto nada aquela aflição de estar a entrar num mundo desconhecido, aquela coisa que eu sentia quando só conhecia a aldeia e não queria conhecer mais nada. Além de ter conhecido muita gente e ter aprendido muitas coisas, também aprendi a falar e escrever outras línguas, o que é importante para se conhecerem mais profundamente outras culturas, como é evidente. Hoje em dia, posso dizer-vos que eu entro por uma qualquer grande cidade adentro (Roma, por exemplo) com uma descontracção tão grande como se lá tivesse sido criado. Desde o conduzir, a falar com qualquer pessoa, estou sempre na maior, acho que me fiz um gajo fino! Se calhar até fiz. Estou tão fino, sofisticado e descarado, que até tenho a lata de escrever como me apetece num qualquer blogue de nomeada, eu é que sei como é. E agora, o que me acontece, especialmente se ultimamente estive a viver numa cidade como Paris, é que entro em Chaves e aquilo parece-me uma aldeia, ou, vá lá, uma vilória. São sempre as mesmas caras, as mesmas tretas, ainda não há cinema nem teatro, parece-me que está tudo parado no tempo, e os gajos que antigamente me gozavam por eu não conhecer os bolos, parecem-me uns parolos que não evoluíram nada.
No outro ano, enfiei-me na aldeia, por alturas de Inverno, e não saí de lá durante duas semanas. E, quando me enfio na aldeia, volto a ser aldeão. Deixo de ler os bons jornais e revistas, desligo da internet, e vou para o café conviver e falar de agricultura, do gado, da caça, e não quero saber de mais nada. Nem me lembro dos finos amigos franceses, que não sabem que estou para fora cá dentro, e que me mandam mensagens a convidar para ir à ópera ou a alguma exposição de arte moderna. Que se fodam Paris e as artes modernas, viva a linguiça na brasa em cima de um bocado de pão centeio!
O que sei é que ao fim das duas semanas fui a Chaves, ao fim da tarde, já lusco-fusco, e quando entrei pela Rua de santo António abaixo e ao começar a ver as luzes das montras e as pessoas bem vestidas e com ar fino, tive um arrepio na espinha e pensei cá para mim "Tó diabo, foda-se, coisa fina, estamos a entrar na cidade, isto é do caralho, Chaves é uma cidade do caralho!". Exactamente como quando entrei em Chaves pelas primeiras vezes!
Lá está, é a tal coisa, a verdade é que eu nunca consegui aprender os nomes de todos os bolos que se vêem à venda no Aurora!
Até à próxima!

Aldeia ou Cidade?
Uma vez, em Montalegre, assisti a uma discussão entre um local e um emigrante local. Dizia o local que preferia Montalegre a Paris e que não trocava 1000 euros em Montalegre por 2000 em Paris.
Este é o tipo de discussões malucas a que se podem assistir nos cafés da nossa região. Mas há pessoas que acham que isto não é uma discussão, elas têm a certeza que Montalegre (ou qualquer aldeola de Chaves, ou mesmo Chaves) é melhor do que Paris.
Lembrei-me disto porque num post atrasado, alguém comentou:
...que raio de país é este que atira para o abandono a sua metade mais interior?
para quê? para juntar aos magotes gente que perde na qualidade de vida?...
Parece-me que o comentador também pensa que se vive melhor no interior.
Sinceramente, eu acho piada como é que alguém pode comparar Montalegre com Paris, ou tirar conclusões fáceis sobre a qualidade de vida ser superior numa aldeia de Chaves quando comparada com a de uma grande cidade.
Como é que se compara Montalegre a Paris? É melhor em quê? Os ares são mais puros? São. Há menos barulho? Há. Não há confusões com trânsito nem se perdem horas a chegar a casa? Sim. Arranja-se melhor fumeiro em Montalegre? Claro. Não há tanta gatunagem e se houver algum artista armado em carteirista um gajo manda-lhe logo dois murros nos cornos que ele não volta a tentar a brincadeira e fica logo "marcado"? É verdade.
E o resto? Para que é que um gajo quer os 1000 euros em Montalegre? Gasta-os onde? Há um cinema em Montalegre para um gajo se entreter? Não? Em Paris? Centenas. Bares para um gajo ir beber um copo? Em Montalegre?! Só no verão, no inverno está tudo às moscas, um gajo vai tomar um café e vê os mesmos dois ou três gatos pingados do costume para depois ter que ir para casa desconsolado ver a televisão. E teatros, exposições, museus, e música ao vivo, que é que há disso em Montalegre? Nada, nadinha, um gajo morre de tédio. Então não será melhor ter 2000 euros no bolso em Paris para ter essas coisas às dezenas e diariamente?
Não tenho resposta para esta pergunta nem me meto em discussões destas, acho que cada um deve escolher o estilo de vida que gosta. Quem quiser ar puro, bom fumeiro, e sossego, vai para a aldeia, quem gosta da confusão e de uma vida com mais estímulos deve ir para a cidade.
Eu nem acho que as pessoas façam estas escolhas de uma maneira assim tão simples. É evidente que quem nasce numa aldeia está habituado à vida sossegada e mete-lhe impressão a confusão. O mesmo se passa com alguém da cidade que experimenta a aldeia, fica stressado por não ter nada que fazer. Uma pessoa que viva na aldeia não muda, de repente, para a cidade porque lhe apeteça ir ao cinema todas as semanas.
O que se passa é que hoje em dia as pessoas têm uma grande mobilidade e é muito fácil experimentar ir viver noutros sítios, especialmente se são obrigadas, como os nossos adolescentes, a irem estudar para as cidades ou a buscar trabalhos em áreas que não existem no interior.
E depois de lá estarem, depois de passarem por aquele período em que não gostam mas que têm que gramar, adaptam-se e já não querem regressar à aldeia. Claro que não são todos, há muitos que querem regressar e que o fazem. Mas não me admiro de que haja muitos mais que não queiram regressar. Os ares puros? Oh, que se lixe! O bom fumeiro e o folar? Isso arranja-se aquando de uma visita à família. Perdem-se umas coisas boas mas ganham-se as outras que as cidades grandes têm para oferecer. O que é alguém, com 20 anos de idade, tem para se divertir num aldeia, ou mesmo numa cidade pequena como Chaves? Não tem muita coisa, especialmente a começar pelo entretenimento que está mais na moda: o engate.
Quem é que pode fazer companhia a um catraio que viva, por exemplo, em Samaiões, especialmente se este gosta de companhia com pernas bem feitas e cara bonita? Pouca gente, se calhar duas ou três catraias, que por azar, com apenas um bocadiiiiiinho de azar, já estão "controladas". Solução? Ir até Chaves, por exemplo. Mas a cidade não é muito grande, só há dois ou três bares que vão tendo gente ao fim de semana, porque se for numa noite de inverno e durante a semana não se vê uma alma a passear pela cidade. É por isso que eu não me admiro que se este catraio for estudar para o Porto ou para Lisboa nunca mais volte. É que se calhar o sexo também é um dos motivos da desertificação do interior, se calhar um dos motivos mais fortes. E as catraias são as que gostam mais das cidades, porque estas têm as lojas para elas irem, montras, têm mais gente, mais sofisticação, que são coisas que as mulheres gostam. Os rapazes até se aguentam melhor na aldeia, arranja-se umas pescarias e uma caçadas, mais umas futeboladas e uns copos e já está tudo bem. Ou estaria se depois se pudesse ir ao engate, ou só lavar as vistas. As raparigas é que preferem outras andanças que não as das aldeias. Claro que não são todas elas, mas são a maioria.
Pensem lá se não conhecem várias pessoas que saíram para fora e nunca mais voltaram porque acabaram por se casar por lá.
É nestas coisas que eu acho que também tem que se investir muito no interior: cultura e lazer. Há que fazer com que a nossa região seja mais atractiva para o pessoal novo. Não é só o trabalho que é importante. Há que investir na vida cultural, especialmente das pequenas cidades, que é para estas poderem ser centros de divertimento dos da cidade e dos que vivam nas aldeias ao lado.
É importante que as pessoas da região se possam juntar em eventos que lhes agradem. É que não é só o sossego que é atractivo, as pessoas também gostam de reboliço. E é bom que haja momentos em que as pessoas possam conhecer pessoas com modos de pensar parecidos e interesses em comum, o que são coisas difíceis de se encontrar se as pessoas viverem permanentemente nas aldeias. Se Chaves tiver eventos interessantes e com qualidade, haverá pessoas que vêm de Vila Pouca, de Montalegre, das aldeias, etc, para se juntar, conviver, e também para se namorar, porque não. Além de que isso também fará Chaves muito mais atractiva para quem vem de longe para trabalhar mas esteja indeciso em fixar-se na região.
E vós, que é que achais? Preferis a aldeia ou a cidade? Porquê? Que é que achais das actividades que há em Chaves? Chegam ou não são nada suficientes? Que ideias há para melhorar as coisas?
Até à próxima!

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Os domingos são os dias em que escrevo estas crónicas secundárias. O domingo, em princípio, seria um bom dia para escrever crónicas porque é um dia sossegado em que não há muito para fazer. Só que a minha costela copofónica fode-me a disposição para a escrita, porque antes de um domingo há sempre uma noitada de sábado à espera da minha alma de bebedolas. Na verdade, nem bebo muito, mas com a coisa do trabalho, o sábado é aquele dia que dá jeito para beber, e para beber aquilo que não se pode nos dias anteriores mais o que apetece beber a um sábado. Não é? No jantar de sábado, botei abaixo uma garrafinha de um bom shiraz australiano (era para ser só meia, mas...), depois fui-me com amigos a beber mais cerveja australiana, mais umas bejecas holandesas, e no domingo de manhã (a fugir para a tarde...) acordei a pensar: olaralalá, hoje é que vou estar com disposição para escrever crónicas, ui ui ui! À tarde fui beber chá com amigos, depois fui ver a grande final do campeonato do mundo da bola, e ainda depois fui celebrar com amigos espanhóis, com quem acabei a cenar. Llegué a casa à uma da matina. Como já não tinha nem tempo nem disposição para pensar numa crónica, estou a fazer aquilo que é mais fácil: escrever a direito, escrever sobre a vida, neste caso, a vidinha copofónica.
Mas a copofonia fez-me lembrar (deve ser coisa das amstel holandesas que bebi) que há uns tempos tinha pedido autorização ao J. Rentes de Carvalho para publicar textos seus, aqui, no blogue de Chaves, e em especial um sobre a Adega Faustino. Que maravilha, já não tenho que me preocupar com a crónica, pensei! Faço uma introdução a brincar com as minhas bebedices, a seguir meto o texto do Rentes, e já está, já posso ir para a caminha curar-me. E até fico bem visto porque os leitores vão pensar que o que estou a fazer é divulgar a boa literatura portuguesa. Também, mas não só. Porque o que quero é cama, nem me apetece pensar em livros!
Tirando estas brincadeiras todas, porque o Rentes de Carvalho merece ser muito bem tratado, o que se passa é que eu sou, desde há uns anos, grande fã da literatura dele, e por isso que lhe pedi para publicar alguns textos dele aqui.
O Rentes de Carvalho é um escritor curioso, é muito conhecido na Holanda, onde já vendeu mais de meio milhão de livros, mas é quase desconhecido em Portugal. Lá está, é incrível como as nossas pobres terrinhas são especialistas em ignorar as poucas pessoas de qualidade, especialmente se estas vão viver para fora. Quem perde somos nós.
O meu livro favorito dele é o Ernestina, que se encontra por aí à venda numa nova edição da Quetzal. É um livro fabuloso, é passado em Trás-os-Montes, e vale a pena ser lido, especialmente se se é transmontano. Se alguém quiser seguir o seu blogue, o Tempo Contado, ou ouvir uma entrevista sua na TSF, aí estão os links.
O texto do Rentes de Carvalho sobre a conhecida adega flaviense, li-o no blogue do Francisco José Viegas, outra pessoa que tem uma costela flaviense. Está ilustrado com fotografias do Fernando, do Dinis, e do Eduardo Pinto.
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Talvez na próxima crónica eu me encontre menos ressacado e escreva uma crónica melhor sobre outra coisa qualquer. Gostei bastante dos comentários dos leitores à última. Tenho aprendido bastante com os comentadores. Não se acanhem, comentem, eu gosto muito. E se o desejarem, também podem sugerir temas que gostassem de ver aqui falados. Que é que achais, já chega de presunto, mudo o disco?
Até à próxima, fiquem com o texto do Rentes de Carvalho:
«… Se entro num café, também nunca falha que um dos bêbedos presentes me tome por alvo do seu interesse. Ora se é grande a minha piedade para com os doentes do espírito, e vasta a paciência que tenho com bêbedos, há entre estes últimos um tipo que facilmente me irrita: aquele que insiste em me contar a sua vida e os seus problemas. E que quando recuso ouvi-lo se torna inconveniente. Para depois, agressivo, desatar aos berros, às patadas no chão, e finalmente ameaçador, arregaçar as mangas pronto para o soco.
Devo dizer que só por inadvertência deixarei as coisas chegar a esse ponto. Em regra, quando ele vai a meio da sua biografia, arranjo modo de discretamente me safar. Acontece, porém, que alguns passam com tal rapidez de uma fase para a outra que, quando me dou conta, já eles seguram a garrafa pelo gargalo e exigem que lhes preste atenção ou me racham a meio.
Por isso a minha frequência dos cafés se tornou esporádica e foi sem entusiasmo que, tempos atrás, em Chaves, acompanhei um amigo a uma taberna. Para me convencer tinha ele usado um argumento de peso: tratava-se de “Faustino & Filhos”, a maior taberna de Portugal.
De facto logo de entrada me surpreenderam as dimensões e a particularidade do recinto ser redondo. O tecto é sustentado por enormes vigas de ferro forjado que vão das paredes para o centro, onde pousam numa gigantesca roda do mesmo material. Tudo na construção aponta para os fins do século dezanove, época áurea do consumo do vinho, e da taberna como centro da vida social.
Nessa tarde bebiam ali umas cem pessoas, mas sem aperto se acomodariam duas mil ou mais. Atrás do balcão estão cinco tonéis, cada um para cinco mil litros de vinho. Na adega, escondida atrás de uma porta, guardam-se as reservas: dois tonéis de quinze mil litros cada, e outro, verdadeiro monumento, que leva dezassete mil e quinhentos litros. Todos três tão colossais que, para os lavar por dentro, o pessoal precisa de escadotes.
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Surpreenderam-me as dimensões de tudo, como me surpreendeu também a paz que ali reinava. Numa prateleira onde se esperaria a televisão, estava um velho rádio, empoeirado e silencioso. Os grupos conversavam em murmúrios, bebiam calmamente o seu vinho, iam ao balcão buscar mais.
Ouviam-se alguns risos, mas ninguém gargalhava. Faustino Júnior, bisneto do fundador, explicou-me que era sempre assim: umas vezes mais gente, outras vezes menos, nos domingos e dias de festa casa cheia, mas por tradição bebia-se ali em harmonia e sem barulho.
Nos quase cem anos de existência não havia notícia de jamais lá se ter dado uma zaragata. E quando alguém se embebedava, levavam-no discretamente para a rua antes que fizesse distúrbios.
Esse ambiente de desacostumada serenidade e as dimensões monumentais do interior e dos tonéis, tinham resultado numa curiosa alcunha.
– Sabe como chamam cá ao nosso estabelecimento? – perguntou o proprietário. Eu ignorava.
– É a igreja do Faustino.»

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Presunto e Optimismo
(Esta crónica é para o Fernando Ribeiro, o dono do blogue, e também para o José Carlos Barros, poeta que contribui com posts em algumas Sextas. É para eles por serem das pessoas que se afligem seriamente com a desertificação e com outros problemas da nossa região.)
Na última crónica falei sobre o desaparecimento do presunto de Chaves, nesta queria falar sobre a importância em que ele reapareça.
A última crónica diz como é que o presunto de Chaves fez fama, embora ele nem sequer fosse feito exclusivamente no concelho de Chaves, também vinha do Barroso, de Valpaços, e de outras terras. É estranho que, agora, qualquer presunto feito no concelho de Chaves leve o nome de presunto do Barroso porque faz parte dessa área geográfica de produção. Como disse, acho isto um erro de marketing, do pior que vi na vida, porque é uma estupidez alterar o nome do presunto mais famoso de Portugal.
Vou ser optimista e dizer meia dúzia de coisas que vão parecer malucas e radicais para algumas pessoas. Mas acho que o que nos falta é fazer coisas radicais e não estar sempre a moer com a mesma mó, que cada vez está mais desgastada.
Acho que seria muito importante o presunto de Chaves voltar a ter o seu nome e ter também uma área geográfica de produção. É importante aproveitar a fama que ele já tem, especialmente porque Chaves é um bom nome e que tem outras coisas que fazem esse nome conhecido, como a final no Jamor, por exemplo! Além disso, o presunto de Barroso sempre se vendeu sobre o nome de Chaves e nunca houve problemas com isso. Deve acabar-se com a área geográfica de produção de presunto de Barroso e criar-se a de Chaves. Agora, vou dizer uma coisa mais radical e que vou explicar a seguir.
A futura área geográfica de produção do presunto de Chaves deve englobar as áreas onde se ia buscar o presunto, como Barroso, Valpaços, etc, e tentar estender-se essa área o mais possível, desde Bragança até Vila Real, e incluindo, mesmo, algumas partes do Minho e das Beiras. Isto porque em Trás-os-Montes o presunto é todo muito parecido, e também o é com o da Beira e de partes fronteiras do Minho, não haveria problemas nenhuns com diferenças na qualidade. O que imagino é que será muito difícil convencer as pessoas que isso tem lógica, especialmente se as pessoas são de Vinhais, por exemplo, que é uma terra onde se faz bom presunto e fumeiro. O orgulho e o bairrismo parolos podem ser um entrave.
E porque é que eu queria uma área tão grande a produzir presunto de Chaves? É muito simples, é uma coisa que só os parolos dos nossos governantes não vêem. Há várias razões para isso. Primeiro, o presunto de Chaves tem grande qualidade. Segundo, é muito barato, encontra-se à venda nas feiras de fumeiro de Montalegre por apenas 10 euros o quilo, por isso é um produto muito competitivo. Terceiro, o mercado nacional não está esgotado, como se vê pelo muito presunto espanhol (bem pior do que o de Chaves, e mais caro) que entra pela fronteira. Quarto, o mercado do presunto é um mercado mundial, ou quase mundial, e se se podia entrar em força no mercado nacional, no mundial ainda melhor estaríamos, já explico porquê.
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O que me irrita a mim nesta história do presunto é a ignorância. Tenho viajado por vários países da Europa e conheço o presunto que se encontra por aí fora. O que se encontra nos supermercados dos vários países europeus é presunto espanhol ou italiano, e um bocadinho de presunto Alemão, não muito mais, embora eu não seja um especialista em presunto europeu. O presunto é normalmente apresentado em caixas plásticas com 60 gramas (com umas 6 fatias muito finas) e que se vendem à volta dos 3 euros. É fácil fazer a conta e descobrir que por vezes pago o presunto a quase 40 euros o quilo! Mas é presunto que não vale nada, o único que sabe a presunto é o espanhol. O presunto italiano é muito famoso, especialmente o de Parma, mas eu nem gosto porque ser adocicado, não tem sal e nem sabe a presunto. O Alemão ainda é pior, não é fumado como o nosso, em que o afumar serve para secar o presunto, o alemão é exposto ao fumo, já fatiado, para ganhar o sabor do fumo, o que é detestável mas que é prática comum dos povos do nórdicos, gostam de afumar a comida desta maneira, incluindo o peixe. Por estas razões, se o nosso excelente presunto caseiro se vende a 10 euros, seria fácil competir com presunto que se vende a 30 e 40 euros o quilo, mesmo contando com o lucro dos supermercados e de despesas com transportes. Há outra razão forte que iria ajudar imenso a exportação: os emigrantes. É que nas principais cidades do mundo, como Paris, Londres, e Nova York, há muitos milhões de portugueses a viver e que têm que se contentar com o caro e fraco presunto espanhol. Se eles apanhassem lá o nosso presuntinho caseiro, nem que fosse a 30 euros o quilo, iriam comprá-lo, de certeza absoluta, e ajudariam a espalhar a fama e contribuir para a comercialização. Mas se nós nem nos fazemos ao mercado nacional... Parece-me que anda tudo a dormir.
Mas não é só no presunto que temos que apostar mais, é também nos fumeiros e tudo que esteja relacionado com a carne de porco. Nas feiras do fumeiro de Montalegre e Boticas os produtos esgotam. E eu acho que os preços são muito baixos. Mais uma vez, o mercado nacional não está esgotado, longe disso.
Falei com responsáveis sobre o fumeiro da região de Barroso e fiquei a saber que um porco dá de lucro cerca de 1300 euros, depois de descontados a comida, o abate, etc. Ou seja, quem se der ao trabalho de criar um porco e o for vender à feira a Montalegre faz em fumeiro, presunto, etc, 1300 euros limpos. Acho isto muito bom mas que pode, até, ser melhorado, porque os preços praticados são barateiros! Imaginem um casal que crie 12 porcos, fica com um ordenado limpo de 1300 euros por mês, e se quiser subsídio de férias e décimo terceiro basta criar mais 2. Como as pessoas sabem, até há uns anos as grandes casas de lavoura da região criavam uns 10 porcos facilmente e ainda tinham tempo para o resto da lavoura. Por isso, acredito que um casal possa criar sem grandes problemas uns 24 porcos (na zona de Montalegre já há várias casas que criam estas quantidades e até mais) e ter dois excelentes ordenados de 1300 euros por mês, limpinhos! Isto é um ordenado de doutor, especialmente na nossa região onde ainda há casas muito baratas e que mesmo com a criação dos 24 porcos ainda sobraria tempo para a horta e outras coisas, que também são lucro.
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Não percebo de que é que a nossa gente está à espera, é evidente que o que está a dar é criar porcos e fazer bom fumeiro. E não há que ter medo, já disse que o mercado nacional não está esgotado, longe disso, além de que há muito mercado para a exportação. E o lucro por porco pode ser aumentado bastante, basta reparar que nas grandes superfícies se vende fumeiro industrial espanhol a preços muito mais altos do que o do muito melhor fumeiro caseiro de Barroso.
Eu imagino o futuro da nossa região com a gente a voltar às aldeias para se dedicar ao fumeiro e encher os bolsos. Porque se alguém quiser trabalhar a sério e criar apenas porcos, pode criar uns 50 e ter um ordenado brutal de 5000 euros por mês! Não percebo porque é que as pessoas continuam a emigrar, há que criar porcos.
Também seria bom que houvesse vários criadores de porcos por aldeia, porque assim podem ajudar-se na matança e na feitura do fumeiro. Imaginem 6 casais numa aldeia a criarem cada um 24 porcos. De Novembro a Janeiro ajudar-se nas matanças e fumeiro, e mais tarde, quando é só deitar a comida aos porcos, podem ajudar-se na alimentação dos porcos de um casal que vá de férias. É que com ordenados de 2600 euros por mês, estes casais vão querer ir para as Caraíbas, por exemplo. Deixam os porcos com os amigos e vão curtir o mundo. Já estou a imaginar as nossas gentes estendidas numa praia das Caraíbas com um cocktail na mão e a ligar do telemóvel para o vizinho "Ó Zé, como é que vão o caralho dos recos? Tá tudo a rolar? Aqui é que se está bem, rapaz, já nem me lembram os recos nem o caralho, foda-se! Vamos mas é montar aqui umas cortes!".
É assim que eu imagino o futuro da região. Basta ser esperto e desenvolver este negócio. É por isso que eu acho que era bom criar uma região de produção grande, que é para ter quantidade para servir o mercado mundial e não andar a vender às pinguinhas e não ter mercadoria para servir os fornecedores regularmente. Também acredito que as pessoas que se podem fixar cá, com o negócio dos porcos, vão ter tempo para desenvolver outras actividades que são lucrativas, como as do mel, dos produtos biológicos (ainda não se faz nada disto, apesar de termos condições, e mais uma vez digo, por esses supermercados da Europa vêem-se muitos produtos desses e a preços bem altos, de certeza que há mercado para algumas coisas nossas), etc. Há que ter iniciativa e explorar os mercados, não podemos estar à espera que algum Dinamarquês passe por cá a perguntar "A como é que está o preço do presunto?". Nós é que temos que nos mexer e basta mexermo-nos um bocadinho, grande qualidade e bons preços já nós temos.
Até à próxima, mãos aos porcos!


O desaparecimento do Presunto
Na última crónica prometi escrever sobre o desaparecimento do presunto de Chaves.
Mas, hoje, não me está a apetecer nada escrever sobre o presunto. Primeiro porque é um tema deprimente, e segundo porque me apaixonei recentemente por uma mulher belíssima, que já era uma boa amiga, uma grande companheira, mas que, infelizmente, arranjou recentemente um namorado. E agora estou a pensar na vida, porque é que me atrasei, porque é que estou sempre atrasado, etc. Não é que esteja muito triste ou ciumento, nada disso, mas no que não me apetece pensar é nos presuntos, estou a pensar em outras pernas. Por isso, tende piedade de mim, prometo escrever um post mais profissional, dentro do meu amadorismo, sobre o presunto. Ou para compensar, até escrevo uma crónica sobre o porco completo!
Na verdade não quero dizer nada que não se saiba sobre o presunto de Chaves, e que o Fernando não tenha já dito neste blogue.
A história do presunto de Chaves encontra-se por aí na internet, como nesta notícia do Diário de Trás-os-Montes.
Que conta:
A história do Presunto de Chaves tem praticamente um século. Foi no longínquo ano de 1910 que Manuel Guedes, de Outeiro Jusão, o começou a introduzir no mercado lisboeta, onde ganhou a fama que hoje tem.
“Levava-o em carros de bois até à estação do comboio!”, recorda um neto do comerciante, que chegou também a estar envolvido na actividade. No entanto, a época de ouro do Presunto situou-se nas décadas de 60/70. Na altura, já Manuel tinha passado o negócio a dois filhos: António e Luís Guedes.
Os dois irmãos chegaram a colocar no mercado lisboeta uma média de 30 toneladas de presunto oriundo de Chaves e das aldeias vizinhas, que palmilhavam à procura dos melhores exemplares. Foi também na década de 70 que António Guedes, ainda vivo, decidiu alterar o esquema de distribuição do produto.
Passou a vender directamente aos restaurantes de “luxo”, eliminando os intermediários, mas ganhando uma nova responsabilidade: a de garantir a qualidade do produto, que aceitava de volta, em caso de reclamação.
Na década de 80, o mercado do presunto de Chaves sofreu, no entanto, um grave revés. Por várias razões. A mais forte terá sido a invasão do presunto espanhol no mercado português, nomeadamente o “Pata Negra”, um produto com Denominação de Origem Protegida. “Embora a preço superior, tem a vantagem de ser um produto com gosto sempre igual e ter menos desperdícios (gordura, por exemplo)”, explica o neto de Manuel Guedes, Vinhais Guedes. Por outro lado, o presunto de Chaves começou a perder qualidade. “As pessoas deixaram de respeitar as tradições, nomeadamente na alimentação e salga dos animais”, recorda Vinhais Guedes, lembrando ainda o decréscimo de produção, provocado pela emigração.
Mas depois destes anos todos para se fazer a fama do presunto de Chaves, que é o presunto mais famoso em Portugal, parece que o presunto acabou, como se conta na mesma notícia:
Certificação impossível
O concelho de Chaves faz parte da área geográfica de produção do Presunto de Barroso, que em 1994 obteve uma Indicação Geográfica Protegida (IGP). Esta inclusão torna agora impossível uma certificação deste género.
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Isto só mostra a inteligência dos nossos autarcas. Depois de quase um século de esforços para se fazer o nome do presunto de Chaves, de repente muda-se o nome para um desconhecido presunto do Barroso! Isto é que são golpes de marketing, do melhor que já vi! É como de repente a Ferrari decidir mudar o nome para Barrosini! Chama-se a isto dar um tiro no pé, mas não com uma 6,35 ou sequer com uma caçadeira, é mesmo tiro de canhão! É que Chaves é o nome que o presunto tinha, é um nome muito conhecido, mesmo por outras coisas, é um nome com impacto, e mudar para Barroso, que quase ninguém conhece, foi um grande erro. E não quero tirar o valor ao Barroso, que bem merece. Também não estou a atirar culpas a partido nenhum em especial, imagino que tenha sido uma decisão conjunta dos "inteligentes" autarcas do PS e PSD, de Chaves, Montalegre, e Boticas. Não terá sido uma coisa mesquinha, coisa de ganância, uma competição estúpida entre concelhos que deveriam saber que têm muita mais força se se unirem (porque todos temos os mesmos problemas)? É que tão estúpidos foram os de Barroso como os de Chaves.
Na próxima crónica vou escrever uma coisa optimista (para não poderem dizer que eu só digo mal), e com um ou duas ideias humildes para o caso do desaparecimento do presunto de Chaves, que eu acho que é uma coisa que tem que ser invertida rapidamente. E não vai ser só presunto, como escrevi acima, vou escrever sobre o porco completo.
Até à próxima segundária-porcina!

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O Presunto Parolo
Na última crónica escrevi sobre como é muito estranho que nos cafés de Chaves não se vendam sandes de presunto e como o único McDonalds venderá mais hambúrgueres do que todos os cafés do concelho vendem sandes de presunto. Isto é uma situação caricata e quase absurda. Como é que uma cidade como Chaves, que tem (ou tinha...) aldeias a fornecer os melhores ingredientes que há, se deixa invadir e encantar por uma multinacional que atravessa o Atlântico para vir servir comida que consiste em carne processada industrialmente e que é servida entre fatias de pão insípido, juntamente com um pacote de batatas fritas? Não é que a venda de sandes de presunto seja incompatível com a de hambúrgueres, mas em Chaves devia ser quase isso. Aqui, a venda de hambúrgueres deveria estar reservada apenas à meia dúzia de freaks que julgam que seria muito cool serem operários numa qualquer fábrica de Chicago e que por isso teriam apenas meia hora de almoço e poucos dólares no bolso para irem a um restaurant comer um steak. Santa estupidez!
Parece-me que esta situação é devida, essencialmente, à parolice e ignorância dos flavienses, não ao grande amor que têm pelos hambúrgueres. É que se pensarmos bem, não são só as sandes de presunto que não se vendem em Chaves. Basta reparar que não há nenhuma diferença entre um qualquer café de Chaves com outro do Porto ou Lisboa, os alimentos à venda são os mesmos: os mesmos bolos, as mesmas torradas, as mesmas tostas-mistas, etc.
Que é que eu queria comprar mais num café em Chaves? Algumas coisas mais, tipo: orgulho, qualidade, inteligência, e bom gosto. Sei que isto não são coisas que se comam e que muito menos se possam comprar, mas eu explico. O que eu não compreendo é porque se for ao Sport tomar o pequeno almoço não posso pedir torradas de pão centeio. Porque é que tenho que gramar as mesmas torradas de pão de forma industrial (cheio de conservantes até ao pescoço) que se servem nas grandes cidades se poderia estar a entreter-me com umas boas torradas de pão centeio? Porque é que não temos orgulho no nosso pão, que é muito melhor, e comemos aquele, feito há vários dias, vindo duma qualquer fábrica de Lisboa, ou mesmo do estrangeiro? Pedir torradas de pão centeio é pedir muito? Ainda por cima quando isso estimula a produção de produtos locais e de qualidade? Acho que não é pedir muito e até peço mais. Por exemplo, gostava de chegar ao Aurora e poder tomar um dos meus (e de muita gente) pequenos-almoços favoritos: folar com café. Insisto, os estabelecimentos deveriam promover os produtos locais e vender, também, fatias de folar. Gostava de me poder sentar no Aurora e pedir "Se faz favor, são duas fatias de folar com carne e uma malga de café". Sim, uma malga e não uma daquelas chávenas banais da meia-de-leite, que são chávenas de meia-tigela, como se diz. Seria altamente sofisticado servirem o café numas bonitas malgas onde se pudesse molhar o folar com largueza. É que são estas coisas que acrescentam valor, que dão um toque especial. Imaginem turistas vindos de Lisboa, fartos de gramar as torradas em pão de forma, chegarem a Chaves e terem a oportunidade de se deliciar com pequenos almoços de grandes torradas de pão centeio, ou fatias de folar, ensopadas em malgas de bom café. Iam daqui para Lisboa contar aos amigos "Caraças, em Chaves é que se comem pequenos-almoços excelentes, são inigualáveis!". O problema é que os flavienses pensam exactamente o contrário, julgam que se fossem vistos no Aurora com uma fatia de folar na mão e uma malga de café à frente, seriam considerados uns parolos, uns lateiros, e que a sua reputação estaria em risco (eu sei o que eles sentem porque ouvi a risota parva de alguns leitores do blogue quando pedi malgas para o Aurora, mas eu dou-vos 2 dias para pensar profundamente nisso e dar-me razão, deixem de ser parolinhos). Para eles, semelhante coisa é inimaginável. Por isso sentam-se no Aurora a comer a torrada industrial e a pensar que fazem boa figura porque podem comer o mesmo que se come em qualquer tasco de Lisboa. É também esta a razão de ninguém ser visto a comer sandes de presunto, porque as sandes de presunto estão mais próximas do agricultor da aldeia que come o presunto ao fumo da lareira do que do lisboeta, que está limitado aos bolos e aos pasteis de Chaves, especialmente se Chaves já nem presunto produz para se comerem boas sandes em Lisboa.
Mas não é só folar que eu queria nos cafés, também queria poder escolher para a merenda umas fatias de bola de centeio com carne (não a bola de carne que também se encontra nos grandes centros) ou uns rojões do soventre acompanhados de fatias de pão centeio, claro. E mais uma vez repito que as pessoas iriam adorar, especialmente as de bom gosto.
É esta mentalidade parola que fez com que o presunto de Chaves desaparecesse, tanto que desapareceu completamente. Imagino que alguns de vós não saibais! O presunto de Chaves já não existe, é verdade. Mas este tema vou deixa-lo para a próxima crónica. Imagino que vocês estejam já a pensar que são crónicas a mais sobre presunto, que isto já parecem as 1001 noites da arábia em versão presunto, mas eu não concordo, nunca é demais falar sobre o melhor e mais famoso presunto português que já existiu, sim, porque já não existe.
Até à próxima crónica presuntária!

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Presume-se Presunto
Chaves é uma cidade conhecida por várias coisas: as termas, os pasteis, etc. Eu acredito que as duas mais famosas são o presunto e os pasteis.
O fama do bom presunto é conhecida de norte a sul do país, seja por pessoas que apenas ouviram falar dele, por outras que pensam tê-lo provado (mas era do espanhol!), ou por uma pequena minoria que realmente conhece bem o presunto de Chaves.
O mais estranho na história dum presunto tão famoso é que haverá, também, muitos flavienses que nunca o provaram! Acredito, mesmo, que alguns nunca provaram presunto nenhum.
Isso acontece porque é mais difícil encontrar presunto em Chaves do que porcos a andar de bicicleta pela Rua de Santo António abaixo. Se a alguém lhe apetecer comer umas sandes de presunto a meio da tarde e se dirigir a algum café local, não encontra algum que as sirva. Será melhor, mais fácil, e menos problemático, que a essa pessoa lhe apeteça um bolo com nome francês, por exemplo. Fica logo servido. Porque se entrarmos num café e pedirmos ao empregado "Se faz favor, arranje-me uma sande de presunto", a resposta que ouviremos, invariavelmente, é "Desculpe, não servimos sandes de presunto", acompanhada de uma expressão facial que rosna "Este deve pensar que isto é alguma tasca, foda-se!".
Imagine-se a seguinte ficção, que por incrível que pareça, hoje em dia, é perfeitamente plausível que já se tenha passado algo parecido em Chaves:
Ora, temos um turista gastronómico que chega a Chaves, todo lampeiro para comer umas boas sandes de presunto, e que entra em seis ou sete cafés onde recebe sempre a mesma e decepcionante resposta: não há. Tentando não sair derrotado, nunca imaginando sequer que é impossível comer sandes de presunto em Chaves, pergunta a um transeunte "Boa tarde, sabe indicar-me um local onde possa comprar sandes de presunto?". O flaviense, atrapalha-se, nunca antes tivera que pensar em semelhante e difícil pergunta, apenas habituado que estava, aquando da larica à hora do lanche, a entrar num café e pedir o habitual éclair, ou bola de berlim (sandes de presunto nunca lhe tinham passado pela cabeça, e muito menos pela goela, pelo menos em cafés), e por isso responde "Desculpe, não conheço sítio algum que as sirva, mas em qualquer café encontra bons pasteis de Chaves". O turista, desanimado, responde "Sim, já provei os pasteis, são muito bons, mas agora queria saborear umas sandes de presunto e não sei onde". O flaviense, que já antes tinha pensado estar a ouvir o fino sotaque de Lisboa, tenta ajudar com aquilo que acha uma bela sugestão "Você é de Lisboa, não é? É, acertei. Olhe, sabe o que lhe recomendo a si, que vem de Lisboa? Há, aqui pertinho, um McDonalds que serve uns hambúrgueres que são uma autêntica delícia, muito tenrinhos e saborosos, não conheço mais sítio algum, nem noutro McDonalds, nem no de Montalegre, que sirva hambúrgueres como aqueles. Vá por mim, experimente que vai gostar, nem se lembra mais das sandes de presunto!". O turista fica espantado e a meditar na situação "Bem, lá vou ter que engolir um éclair, porque de pasteis já estou eu farto. Afinal os flavienses não comem presunto e parecem, estranhamente, grandes fãs de hambúrgueres, uns autênticos especialistas no assunto, imagino que no drive in do McDonalds local já haja uma janelinha, com a altura adequada, para quem espere pelo hambúrguer sentado na cilha do burro, já nem na aldeia se deve comer presunto".
Parece-me que esta ficção não está muito longe da realidade. Imagino que actualmente o McDonalds venda mais hambúrgueres do que os cafés todos do concelho vendem sandes de presunto. Julgo até que será mais fácil encontrar cafés no Porto, ou em Lisboa, que sirvam sandes de presunto. Não percebo esta alergia que os flavienses têm ao presunto.
Imagino que haverá alguns adolescentes que com a "febre" dos hambúrgueres talvez nunca tenham provado presunto, ou pelo menos não provaram do de Chaves, porque as aldeias já produzem pouco e muito do que circula é espanhol.
Também será misterioso, especialmente para os turistas, que não se consiga comprar um presunto em Chaves. Só com muito trabalho e por encomenda. É muito estranho, não é? Presume-se que o presunto de Chaves venha de Chaves e se compre aí, porque se não se encontra à venda aqui, donde virá?!
Isto é triste porque o bom presunto é uma coisa que vale a pena ser saboreada. Eu adoro presunto mas sou obrigado, pelas circunstâncias, a come-lo apenas em casa. Claro que há restaurantes que o servem como entrada, mas como petisco para a merenda é quase impossível de encontrar.
Há outra coisa que eu nunca percebi no negócio dos petiscos. Nas poucas casas onde se podem comer sandes de presunto, nunca vi anunciadas sandes de presunto "chamuscado". Uma das melhores maneiras de comer presunto é grelha-lo nas brasas (chamusca-lo) e depois mete-lo, ainda a pingar, entre duas talhadas de pão centeio, por exemplo. Antigamente, no tempo em que nem dinheiro havia para as grelhas metálicas que se usam nas lareiras, punha-se o presunto a chamuscar enfiado num trocho, que primeiro se afiava e limpava com uma faca. Talvez melhor do que o presunto, para estes "chamuscos", é a carne da pá. É uma delícia roer os couratos chamuscados da pá. Hoje em dia, por razões práticas, eu "chamusco" o presunto, ou a pá, em casa, numa grelha eléctrica. Não percebo porque é que os estabelecimentos onde se petisca, como alguns cafés, não se dedicam a vender um petisco tão bom como este, parece-me que só perdem negócio. Não me acredito que se as pessoas pudessem escolher entre um hambúrguer ou um "chamusco", escolhessem o hambúrguer.
Sobre o presunto há muito para dizer num próximo post.
Até à próxima segundária.

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Há uns tempos, li uma entrevista no Semanário Transmontano que continha algumas perguntas que dão que pensar. O entrevistado era o Alexandre Chaves. As tais perguntas são as seguintes:
Semanário TRANSMONTANO: Fala com sotaque porque não se consegue desenvencilhar dele ou por opção?
Alexandre Chaves: Eu falo à Chaves, não por snobismo, mas por que gosto. Foi assim que aprendi a falar.
ST: Nunca ninguém lhe chamou parolo?
AC: Sim, quando saí de Chaves fui para Braga para o Colégio Sá de Miranda e as pessoas perguntavam: de onde é que é este gajo? Tem uma postura, uma linguagem, uma maneira de se exprimir tão genuína, parolo, se quiser. E eu dizia: eu sou de Chaves. Está-me na alma, já nem sou capaz de mudar nem quero. Sinto-me bem assim.
ST: Na aldeia, fala na mesma ou ainda mais parecido com os locais?
AC: Falo na aldeia como falo com um ministro, no parlamento, como falaria com o rei, se existisse.
Fiquei impressionado com tanta insistência e preocupação sobre o sotaque de Chaves.
O que é irritante nesta questão é que ela só é posta a pessoas do interior do país, é discriminatória, e que ainda por cima é posta pelo Trasmontano. Porque não creio que haja um jornalista que faça este tipo de perguntas a personalidades de Lisboa. Já imaginaram o que seria perguntar "Fala com sotaque lisboeta, não se acha parolo?". Ninguém se lembraria de perguntar isto porque estamos constantemente a ouvir essas pessoas (artistas, políticos, etc), seja na tv ou no rádio, a usar o sotaque lisboeta, naturalmente. Porque é que usar o sotaque de Chaves é parolo e o lisboeta não? Talvez porque o sotaque flaviense denuncia que somos do interior obscuro enquanto o lisboeta reforça a ideia (muitas vezes errada) de que são meninos finos da capital. Porque sotaque por sotaque, o de Chaves é mais correcto do que o lisboeta, disso não tenho dúvidas. Os lisboetas, ou lesvoetas (como escreve um castiço bloguer da nossa região), não sabem pronunciar bem louco, dizem lôco, e eu acho isso muito pôco certo. Em Chaves pronunciam-se muito bem as palavras, os V's são ditos discretamente, não são V's vindicativos, vaidosos, e exageradamente sibilantes, como os de Lisboa; no resto também somos bastante correctos, imagino que tenhamos uma das dicções mais correctas e perceptíveis do país. Diz-se que a pronúncia mais correcta é a de Coimbra, embora essa também tenha incorrecções. Mas se é essa a correcta, porque é que um flaviense, ou um lisboeta, se deve esforçar por falar à Coimbra? Eu não acharia normal que um alentejano me aparecesse à frente com sotaque coimbrão, julgaria isso uma estupidez.
Levando a teoria do Transmontano (sobre o bem pronunciar) ao extremo prova-se como ela é ridícula:
Suponhamos que o Transmontano tem a oportunidade de entrevistar o presidente do Brasil, Lula da Silva. Imagina-se que as primeiras perguntas vão ser: Fala com sotaque brasileiro porque não se consegue desenvencilhar dele ou por opção? Nunca ninguém lhe chamou parolo? Porque é que não fala com sotaque de Coimbra?
Imagino que o Lula só pudesse pensar qualquer coisa como a seguinte: "Esti cara tá fodjido da cábeça!".
Não acredito que um galego, ou um catalão, se considere parolo por não ter pronúncia de Madrid. Ou que haja alguém em Nova Iorque que tenha complexos por não falar como os de Washington. Parece-me um problema para provincianos estúpidos e que não têm muito em que pensar.
Para dar um contra-exemplo local, vamos examinar o flaviense menos parolo de todos, aquele que tem mais classe, o qual todas as pessoas respeitam. Para mim o flaviense com mais classe é o Nadir Afonso. Pensavam que era o presidente da câmara? Não! Porra, esse é vaidoso, põe-se em bicos de pés quando fala, usa sempre o discurso chato e palavroso à lá político, e não tem muita pinta, pois não? Mas o Nadir tem muita classe, correu o mundo, trabalhou com os melhores arquitectos, e é um grande pintor. Para além disso, fala com naturalidade, directo ao assunto, não precisa de grandes palavras para sobressair porque é inteligente, a sua conversa é sempre interessante, sem pretensões, e apimentada por um sentido de humor brilhante. É isto tudo que lhe dá grande elegância e classe, e o faz uma pessoa cativante. E agora, pergunto eu: qual é o sotaque que o Nadir (um senhor que passou muitos anos fora de Chaves, julgo que actualmente vive em Cascais, o que lhe poderia servir de desculpa para não falar à Chaves) usa? É o sotaque flaviense, mas cerrado! Agora, vão perguntar ao Nadir se se acha parolo. Quero ver.
Que tipo de perguntas vai o Transmontano fazer a seguir? Imagino coisas como: Come presunto de Chaves, não se acha parolo? ou Prefere mesmo a linguiça caseira à salsicha da Nobre, não se acha parolo?
Haja orgulho em ser de Chaves. Quem é de Chaves fala à Chaves, não temos nada que ter vergonha de falar assim, antes pelo contrário, muito pior estão os lesvoetas e os açorianos! E os meninos de Braga, que chateavam o Alexandre, também não se podem rir muito, que fiquem eles lá com o sarrabulho minhoto, que nós temos o nosso e até é bem melhor.
A discriminação do Transmontano é tão pedante que chega a perguntar ao Alexandre se vai para a aldeia fingir um sotaque aldeão, que fica subentendido como ainda mais parolo. Perguntas interessantes não fazeis vós, seus totós, sobre a desertificação nem se pergunta.
Adiante.
P.S. O Transmontano acusa, esta semana, a câmara por ter votado ao esquecimento o pintor João Vieira. Isso é muito cínico num jornal que deveria servir para divulgar a cultura, como os outros, mas que nunca fez nada pela obra do Vieira, nem sequer deu a notícia da sua morte, como já referi antes.
Até à próxima segunda.
Para quem gosta de música contemporânea, há hoje, 3 de Junho, em Montalegre, um concerto com o grupo Projecto XXI, que se dedicam à divulgação da música de compositores portugueses. O conhecido Maestro António Vitorino de Almeida estará presente para comentar o concerto, que começa às 21, 30h no auditório municipal e faz parte do programa da feira do livro que decorre de 1 a 9 de Junho. Também há outras actividades interessantes.
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Acho piada que os jornais da região não divulguem este evento. Até parece que têm muitas coisa interessantes com que encher as poucas páginas que publicam. Os jornais de Chaves têm a desculpa, fraca, que isso são coisas passadas lá para os lados de Montalegre. Mas o Semanário Transmontano não tem desculpa. Quem for ao site do Transmontano encontra apenas uma escondida referência à feira do livro, na Agenda, sem pormenores e apenas com as datas. No meio de uns quase 20 artigos sobre desporto (não tenho nada contra, só a favor), não haveria também espaço para dizer que o Projecto XXI e o Maestro vão a Montalegre? Ou só as chegas e os homicídios é que têm direito a notícia?
António Chaves

Ainda a Pintura
Na anterior segunda-feira, no meu primeiro post deste blogue, fiz críticas aos autarcas e jornais de Chaves pela falha completa que têm tido na divulgação de um grande pintor da região, o João Vieira. Mas imediatamente houve um comentador do post a informar que a próxima Bienal de Chaves vai ser dedicada ao João Vieira (que até aqui tinha sido ignorado por todos os autarcas que têm passado pelo poleiro, seja de um ou outro partido). Depois disso, na sexta-feira, confirmei a notícia sobre a Bienal ao ler o Semanário Transmontano.
Quem tiver lido o post anterior e soubesse que a Bienal vai ser uma homenagem ao Vieira, poderia ter ficado a pensar que eu também já sabia do acontecimento e estava apenas a armar-me em espertinho, em sonso. Mas não foi nada disso, o que se passou é que eu conheço a arte do João Vieira há bastantes anos, apeteceu-me divulga-la, e, como ando desligado do que vai acontecendo na cidade, também não sabia que a Bienal lhe vai ser dedicada, nem tão pouco sabia que iria haver Bienal! É que apesar do Vieira ser pouco divulgado em Chaves, ainda há pessoas que lhe conhecem a obra, especialmente as pessoas com um nível cultural ligeiramente diferente do dos nossos queridos autarcas.
No mesmo artigo do Semanário, lê-se que a câmara tem um projecto para a criação do Centro de Artes João Vieira, que vai ser feito em Anelhe, presumo. Parabéns, é uma boa iniciativa.
Vou fazer um aparte para uma crítica ao artigo do Semanário. Na frase "A exposição de João Vieira, pai do conhecido vocalista dos Ena Pá 2000, que, em 2005, se apresentou como candidato à Presidência da República, estará patente ao público até dia 4 de Julho.", há uma afirmação errada. O filho do João, o Manuel João Vieira, nunca foi candidato à presidência da república. O que fez foi uma brincadeira em que dizia que se iria canditatar, apresentou um programa cómico (fez o mesmo em 2001), mas nunca chegou a ser um candidato oficial porque as 7500 assinaturas necessárias não foram aceites por terem sido feitas pela mesma pessoa! É um erro pouco importante embora fosse conveniente apresentar factos correctos. Mas já que o artigo era sobre pintura, não percebo porque não se disse que o Manuel João Vieira é também um artista plástico com reputação, com variadíssimas exposições de pintura, ou que a sua arte é requisitada pela Vista Alegre, por exemplo. Parece-me que isto não é dito por ignorância do Semanário. Meus amigos, vocês publicam apenas quatro folhas (a que chamam jornal) uma vez por semana e por isso têm a semana inteirinha para fazer uma coisa decente, apliquem-se!
Por outro lado, também muitos não saberão que o João Vieira cantava e até gravou disco em Anelhe.
Por falar em Manuel João Vieira, costumo vê-lo em Chaves umas 2 ou 3 vezes por ano, o que parece revelar gosto pela região. Não se perdia nada em convida-lo para uma exposição ou para qualquer tipo de colaboração em actividades culturais, coisas que são escassas na nossa cidade.
Espero que a Bienal corra bem. Tem alguns dos nomes mais sonantes da pintura portuguesa e espanhola,artistas que vale mesmo a pena ver. Não me acredito que do Miró e do Picasso venham obras importantes, o mais provável é que sejam apresentados desenhos ou pinturas "rápidas", coisas que o Picasso fazia em 2 minutos e que se podem ver ocasionalmente em galerias de arte de Lisboa ou do Porto.
Convém não esquecer que há picassos e picassos. É que o Pablo ainda tem o nome no Guinness Book of World Records por ser o artista mais rápido do mundo: durante os 78 anos que durou a sua carreira, produziu cerca de 13.500 pinturas e desenhos, 100.000 gravuras, 34,000 ilustrações para livros, e 300 esculturas, perfazendo um total de 147.800 obras de arte.
Há uma história do Picasso relacionada com a sua rapidez em desenhar. Uma senhora pediu-lhe para ele lhe desenhar o seu retrato e o artista acabou-o num instante. A senhora disse-lhe obrigado e perguntou quanto lhe devia, ao que ele respondeu que eram 5000 dólares. Ela espantou-se e perguntou-lhe como é que podia pedir tanto dinheiro por um desenho que lhe demorou 1 segundo a fazer. Ao que o artista respondeu: Madame, levou-me a vida inteira.
Quem estiver interessado em ver a rapidez com que Picasso pintava pode ver algum dos vídeos que se encontram no youtube.
Até para a semana, não se esqueçam da Bienal!

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Os Dois Pintores de Chaves
Uma das coisas que não aprecio é a maneira como os emigrantes são recebidos quando regressam de férias à terra. Os locais tem por hábito menosprezar-los. Talvez não o fizessem se pensassem das dificuldades que muitos emigrantes passaram para sair do país, nas longas jornadas clandestinas (muitas vezes a pé), no atravessar de rios a nado (em que alguns morreram), e nas dificuldades tidas na chegada a um país desconhecido, como sejam o isolamento social e as saudades que se passam. Nunca percebi este menosprezo pelos emigrantes que bem contribuem para o desenvolvimento das terras natais com a entrada de capital. Não sei se será o comportamento exuberante de alguns deles que provoca alergia aos locais, se a inveja provocada pelos bons carros ou o desgosto com o sucesso dos outros. Se o Zé do Chico (que andava por aí a pedinchar jeiras para comer um caldo), emigra e aparece, passados 2 anos, com um carro maior que o do regedor, de certeza que vai ter que se arranjar algum defeito ao Zé, se não for no cu é nas calças à francesa.
Mas não são só os emigrantes que são sujeitos a tratamento diferenciado. Se alguém migra para uma grande cidade, como Lisboa ou Porto, imediatamente se desconfia que o migrante se acha mais fino que eles (Olha, até já fala à Lisvoa e diz vurro!), já não liga nada à terra, etc. Há até quem ache os migrantes uns traidores que abandonam a terra! O que é uma grande estupidez, porque quem tenha a ambição de exercer algumas profissões, como apresentador de televisão, cientista, ou maquinista de comboios, não o pode fazer em Chaves e por isso tem que sair. Isto não implica que quem sai perca o amor à terra e que não regresse para matar saudades, comer bom presunto, por exemplo, e, também, ser recebido como um finezas, ou simplesmente ignorado.
É o ignorar e menosprezar quem sai da terra que me leva ao assunto de hoje, que é o de Chaves ter dois grandes pintores internacionais mas apenas um deles ser conhecido (na terra, fora dela são os dois bem conhecidos). Um deste pintores é o Nadir Afonso, toda a gente o sabe, e que é uma pessoa simpática e com um grande sentido de humor. O outro, ninguém o conhece nem ninguém fala dele. Infelizmente faleceu em 2009. Mas nem esse acontecimento foi notícia nos jornalecos regionais. Nem sequer no Semanário Transmontano, que é um jornaleco com a mania que é o melhor, mas a mim me parece apenas o menos pior. Também essa má notícia não foi motivo de post aqui no blogue de Chaves.
Já agora, ó Fernando, tu não és obrigado a postar nada, mas há que estar atento, não podes falhar, é que com esta coisa do 1 milhão de visitas, estás com as costas carregadinhas de responsabilidade, o teu blogue tem mais visitas do que os jornais regionais, todos juntos, têm em 50 anos. Porta-te bem, abre a pestana.
Bem, se nenhum dos jornalecos regionais deu a notícia da morte deste grande pintor de Chaves, nem o Semanariozeco Transmontaneco, todos os outros grandes jornais, mais televisões e rádios, a deram.
Esse pintor chamava-se João Vieira e era natural de Anelhe, onde vinha de visita quando lhe apetecia. Podem-se encontrar as notícias sobre o seu falecimento no jornal Público, na TSF, etc.
Para quem não o conhecia, aqui vai um bocadinho da notícia do Público, do dia 5 de Setembro de 2009:
Nascido em Vidago, em 1934, João Vieira ingressou em 1951 na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, onde frequentou os dois primeiros anos do curso de pintura.
Começou a expor em 1956, ano em que se ligou ao grupo do café Gelo, em Lisboa, quando partilhava um atelier por cima deste café com José Escada, René Bertholo e Gonçalo Duarte.
Os quatro, juntamente com Lourdes Castro, Christo e Jan Voss, fundam mais tarde o grupo KWY, em Paris, que fica também conhecido pela revista com o mesmo nome.
Mas antes, em 1957, João Vieira parte para Paris onde é aluno de Henri Goetz na Académie de la Grande Chaumière. Na capital francesa, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, trabalha com o pintor Arpad Szenes, marido da pintora Maria Helena Vieira da Silva.
Depois de outras passagens por Paris e ainda por Londres, onde em finais de 1964 lecciona no Maidstone College of Art, regressa a Lisboa em princípios de 1967 e começa a trabalhar quase exclusivamente como cenógrafo teatral.
A ligação ao teatro terá expressão nas artes plásticas, como é manifesto na sua primeira performance em simultâneo com a sua exposição O Espírito da Letra, realizadas na Galeria Judite Dacruz em 1970.
A RTP2 vai passar hoje às 22h30 o documentário “Pinto Quadros Por Letras” sobre o pintor.
O João Vieira foi das grandes figuras da arte portuguesa do século XX, como se lê no Expresso.Teve exposições nas melhores galerias, como o CCB ou Serralves, e ainda produziu painéis de azulejos para estações do metro de Lisboa e Budapeste, ou capas para discos, como do Vitorino.
Agora, pergunto eu: e em Chaves, houve algum dia exposição do Vieira? Não me lembro, penso que não. Porque será? Será porque ele era de Anelhe, da aldeia, ou porque os 15 km de Anelhe a Chaves são distância intransponível? Ou será que foi o ele ter ido viver para Lisboa?
Não sei explicar. O que acho é completamente ridículo que certos pintores de Chaves, que são fracotes (são quase todos, há um ou outro mediano e há o Nadir, claro, e haveria o Vieira não fosse a ignorância), apesar de bons rapazes, sejam convidados, apaparicados, e apoiados para expor aqui e acolá, e um pintor deste calibre tenha sido estoicamente ignorado. É ridículo e obtuso porque Chaves só teria a ganhar com isso, como é evidente, assim como tem a ganhar em receber bem quem bem nos representa fora da cidade.
Mas ainda se vai a tempo. Nada impede que ainda se faça uma exposição com a obra. Talvez seja complicado porque ela deve andar ocupada em mostra-se em Serralves, ou noutras grandes galerias, mas se se consegue o Nadir também se conseguiria o Vieira.
É caso para perguntar ao senhor vereador da cultura "Ó pá, andas a dormir? Olha que a pintura não é só Nadir!". E quem diz perguntar ao actual vereador, diz também a todos os seus antecessores, que pelos vistos de cultos não têm nada, ou muito pouco.
A mim é que não me podem acusar de não defender tudo que é bom da terra, sou dos flavienses mais flavienses que há, até tenho Chaves no nome!
Até à próxima Segunda.
António Chaves


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