Sexta-feira, 4 de Agosto de 2017

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

 

POLÍTICA, AUTENTICIDADE E AMIZADE

 

No final dos anos noventa do século passado, o nosso saudoso amigo genebrino oferecia-nos um livro que, na altura, e numa leitura um pouco diagonal entretanto feita, achámos verdadeiramente importante, digno de uma leitura mais atenta. Entretanto, como acontece a muitos livros que compramos, muitas vezes acabam por ficar esquecidos num canto das prateleiras dos livros da casa.

 

Foi o que aconteceu com «Geopolítica do caos», de Ignacio Ramonet, editor do Le Monde Diplomatique, a principal publicação de política internacional dos finais dos anos 90, que catalisou, na opinião de Emir Sader “as visões críticas e alternativas à nova Ordem (…)” desde o derrube do Muro de Berlim e à instauração daquilo a que se passou a chamar a Pax Americana.

 

Em tempo de férias, procura-se, nos cantos esquecidos das estantes, os livros que um dia decidimos que haveríamos de ler com mais atenção. Com a sua leitura, e através deles, tentamos compreender melhor os tempos que passamos.

 

Desta vez, não hesitámos em trazer connosco e ler atentamente a «Geopolítica do caos», de Ramonet.

 

Para além das muitas realidades e diagnósticos que nos apresenta (que hoje, mais que nunca, estão certeiros), perante um mundo e uma sociedade cheia de perplexidades, propõe-nos desafios que, urje, devemos enfrentar.

 

Ramonet, a determinada altura, diz: “Neste contexto de deceções e incertezas em que hoje vivemos, dois novos paradigmas estruturam a nossa maneira de pensar: o primeiro é – comunicação. Esta tendência está a substituir, pouco a pouco, a função de um dos principais paradigmas dos dois últimos séculos: o progresso. Da escola à empresa, da família à justiça e ao governo, em todos os campos e para todas as instituições, eis, daqui em diante, a única palavra de ordem: é necessário comunicar. O outro paradigma é o mercado. Que substitui o da máquina, do relógio, da organização, cujos mecanismos e funcionamento garantiam a evolução de um sistema. À metáfora mecânica, herdada do século XVIII (uma sociedade é um «relógio social» e cada indivíduo exerce uma função útil para o bom funcionamento do conjunto) sucede a metáfora económica e financeira. Daqui em diante tudo deve ser regulado segundo os critérios de «Sua Majestade» o mercado, panaceia última”.

E continua Ramonet: “ na primeira fila dos novos valores: os lucros, os benefícios, a rentabilidade, a concorrência, a competitividade”.

 

As “leis” do mercado tomam o lugar das leis da mecânica (que rege a vida dos astros, do cosmos e da natureza) como explicação geral de movimentos das sociedades.

 

Com efeito, estes dois paradigmas – comunicação e mercado – constituem os pilares sobre os quais repousa o sistema do mundo contemporâneo no seio do qual se desenvolvem, com grande intensidade, as atividades que, como explica Ramonet, possuem quatro atributos principais: planetário, permanente, imediato e imaterial.

 

O modelo central é constituído pelos mercados financeiros que impõem como ciência de referência já não as ciências naturais, a mecânica newtoniana ou a química orgânica, “mas o cálculo de probabilidades, a teoria dos jogos, a teoria do caos, a lógica imprecisa e as ciências do vivente”.

 

Os melhores, ditos especialistas, estimavam que, graças à desregulação, à abolição do controlo do câmbio, à globalização financeira e à mundialização do comércio, a expansão seria perpétua.

 

O enriquecimento fácil foi encorajado e aparecem os novos-ricos aventureiros, alguns deles detentores de mega empresas. A especulação financeira foi encorajada e assistiu-se à apoteose dos golden boys. Ou seja, no âmago do sistema: o dinheiro. E com ele o fenómeno da corrupção, a todos os níveis.

 

Entretanto, incertezas e desordem tornam-se parâmetros fortes para medir a nova harmonia de um mundo em que a pobreza, o analfabetismo, a violência e as doenças não cessam de progredir. Um mundo em que menos de 1/5 dos mais ricos da população dispõem de mais de 80% dos recursos, enquanto mais de 1/5 dos mais pobre dispõe apenas de 0,5%... Um mundo, enfim, em que o montante das transações nos mercados monetários e financeiros representa cerca de cinquenta vezes mais o valor das trocas comerciais internacionais… Um mundo em que, dizendo-se viver, na sua imensa maioria, em regime democrático, se travam intermináveis batalhas eleitorais para conquistar democraticamente o poder, sem muitos destes atores se aperceber que o poder mudou de lugar!... E, mostrando, nessas batalhas, o espetáculo de uma total impotência para mudar seja o que for!...

 

Seres constrangidos a negarem-se constantemente, pois o verdadeiro poder está fora do seu real alcance: está em alhures. Por isso não espanta que surjam expressões, que a muitos escandaliza, mas que exprimem efetivamente a verdadeira realidade – figuras de palhaços na senda política quotidiana… Sem deixarmos de por de fora a hipótese de, infelizmente, alguns desses atores, serem cúmplices de uma farsa da qual só eles são os únicos beneficiários! Exemplos? Para quê? Todos os dias eles nos entram pelos olhos e ouvidos através da toda poderosa comunicação social que, na ânsia do lucro, nos conta, e explora, somente a parte que é útil à sua sobrevivência, em termos de concorrência e mercado, controlado pelos grandes magnates do poder económico e financeiro, cujo paradeiro e nomes mal sabemos onde estão!...

 

Enfim, estamos perante o avanço e a vitória do pensamento único, da pretensão universal dos interesses de um conjunto de forças económicas, em particular, as do capital financeiro internacional. Princípio de tal forma contundente que um marxista distraído não chegaria a nega-lo: o económico leva a melhor sobre o político.

 

A Europa inventou o Estado Providência. Como em nenhuma outra parte do mundo, os cidadãos dos países que constituem a União Europeia beneficiam de uma pensão de velhice, de um seguro-doença, de ajudas à família, de um fundo de desemprego, assim como de prerrogativas de direito do trabalho. Este arsenal de garantias socioeconómicas, conquistadas pelo movimento operário, constitui o âmago da civilização europeia moderna. No fundo, é isso que distingue a União Europeia de outras áreas geopolíticas e, principalmente, de seus concorrentes económicos americanos e japoneses.

 

A lógica da globalização/mundialização e do livre comércio planetário impele a alinhar os salários e a proteção social pelos valores, muito inferiores, praticados nos países concorrentes da região Ásia-Pacífico. E é, na nossa ótica, em nome da eficácia económica, e correndo o risco de quebrar a coesão nacional, que os governos europeus, neste início de século, estão fazendo, ou seja, desconstruindo o edifício social que tanto custou a construir. Porque, afinal, se o dinheiro dos contribuintes não fosse retirado pelos detentores do poder do Estado para ostentarem as suas estranhas, irracionais e megalómanas ambições de permanência do poder e das suas cliques partidárias; se soubessem, com competência, eficácia e eficiência, gerir tal como o faz um «bonus pater famílias», não chegaríamos a este ponto!

 

A performance económica entra em contradição com a cultura e a democracia que, segundo parece, esqueceu a advertência feita, já em 1938, pelo escritor Raymond Queneau: “o objetivo de qualquer transformação social é a felicidade dos indivíduos e não a realização de leis económicas inelutáveis” (negrito nosso).

 

Com a crise económica sobrevém também a cultural, assistindo-se à sua própria agonia. Ao ponto de Edgar Morin afirmar que “estamos entrando numa época em que as certezas se desmoronam. O mundo encontra-se numa fase particularmente incerta porque as grandes bifurcações históricas não foram identificadas, não se sabe para onde se vai!”. O futuro apresenta-se-nos bastante incerto, por que tudo está alterado. Por que estamos na hora de questionar certezas, rever práticas, compreender os novos parâmetros dos tempos presentes.

 

Já, na altura em que Ramonet escreveu «Geopolítica do caos» se dizia: “as sociedades europeias continuam a navegar na modernidade, sem objetivo bem definido e sem uma nítida representação do seu devir”.

Urje, pois, - porque não se pode dispensar – uma reflexão a longo prazo e em profundidade. Será uma loucura, diz aquele autor, se não se fizer. Porque saímos de um universo de determinismo simples e entrámos num mundo que, dia a dia, mais se complexifica e no qual a incerteza, a estratégia e a inovação aparecem fortemente associados. Porque, compreender, é o desafio fundamental. Porque a crise por que passamos é também a nossa incapacidade mental, intelectual, conceitual para, inclusive, medirmos a sua própria dimensão.

 

A sociedade europeia encontra-se não só sem crescimento mas, mais ainda, sem projeto! E, assim, despojados dos indispensáveis pontos de referência culturais e desidentificados, os cidadãos enfrentam a crise atual na pior das condições mentais. E chegamos a tal ponto – porque sem horizontes de referência – que são raros os intelectuais que percebem e concebem o nascimento de novos horizontes coletivos. George Steiner disse: “os meus alunos de outrora tinham todas as janelas abertas para a esperança: era Mao, Allende ou Dubcek, ou o sionismo. Existia sempre um espaço onde alguém lutava para que o mundo viesse a modificar-se. Presentemente, não existe nada disso”.

 

Em contrapartida, a promessa da felicidade na escola, na família, na empresa ou do Estado é formulada pela comunicação toda poderosa. Daí a proliferação, sem limites, dos instrumentos de comunicação, dos quais a internet é o coroamento total, global e triunfal. Quanto mais comunicamos, dizem-nos, mais harmoniosa será a nossa sociedade e maior será a nossa felicidade. A nova ideologia do tudo-comunicação, este imperialismo comunicacional, exerce sobre os cidadãos, desde algum tempo, uma autêntica opressão, subliminar, mas profunda. Durante muito tempo a comunicação foi libertadora porque significava, desde a invenção da escrita e da imprensa, a difusão do saber, das leis e das luzes da razão contra as superstições e os obscurantismos de toda a espécie. Hoje em dia, impondo-se como obrigação absoluta, inundando todos os aspetos da vida social, política, económica e cultural, não passa de uma tirania, que, segundo ainda Ramonet, virá a tornar-se, provavelmente, “a grande superstição do nosso tempo”. Para além disso, a sociedade cede as rédeas ao mercado. Este, tal qual um líquido ou um gás, infiltra-se, penetra em todos os interstícios da atividade humana, convertendo-as à sua lógica. Inclusive, determinados campos que, durante muito tempo, estiveram à margem do mercado, como a cultura, o desporto, a religião, a morte, o amor, etc., estão sendo inteiramente invadidos pela lógica da mercantilização generalizada, da oferta e da procura.

 

Todas as mudanças que estes dois paradigmas – comunicação e mercado – provocaram, desestabilizaram fortemente, de uma forma rápida e formidável, os dirigentes políticos. Estes, na sua grande maioria, sentem-se superados por uma cascata de reviravoltas que modificam as regras do jogo e os deixam, no mínimo, parcialmente, impotentes. E não é por isso que deixam de reclamar, alto e em bom som, uma «modernização» e uma «adaptação» aos novos tempos.

 

Por sua vez, inúmeros cidadãos têm a impressão de que os verdadeiros senhores do mundo não são aqueles que têm as aparências do poder político e de que, praticamente, a totalidade dos Chefes de Estado está superada pelos acontecimentos e não parece estar à altura de enfrentar uma crise – aliás, muitos não chegam sequer a identificar os contornos da mesma.

 

***

 

Perante este quadro que acabámos de pintar, com a ajuda de Ignacio Ramonet, ficámos a refletir, por uns minutos, sobre tudo isto, interrogando-nos: e os presuntivos dirigentes políticos que estão na calha para, no próximo dia 1 de outubro, se apresentarem a sufrágio para conduzirem os destinos do nosso município, estarão eles (as) à altura do desafio que os momentos por que passamos exigem?

 

Há muito que vimos criticando este modelo autárquico, defendendo quais os requisitos que reputamos essenciais para que tal desiderato tenha um mínimo de sucesso.

 

Mas, no essencial, no nosso país, muito pouco muda!

 

***

 

Falemos agora dos nossos “problemas” mais caseiros.

 

Surgiu, há 4 (quatro) anos, em Chaves, um Movimento – MAI (Movimento Autárquico Independente). Confessávamos, na altura, que não gostávamos do nome. E explicávamos que quando se cria um movimento é porque, na sua génese, há algo que o impulsiona para um objetivo bem preciso. Questionando e confrontando princípios e valores que nos levam a conviver e viver na sociedade atual.

 

Reproduzamos parte do texto que, naquela altura, escrevemos:

 

Impõe-se que se questionem certas questões que consideramos pertinentes:

 

MAI, como designação, não será uma pura tautologia? Está à margem dos partidos do arco do poder autárquico que nos tem dirigido, ou é contra eles, ou, ainda, não passa de uma dissidência em relação àqueles? Sinceramente, não encontro justificação para tal nome!

É contra corrente aos partidos do arco do poder em Chaves?

É contra corrente ao pensamento autárquico dominante ou apenas se trata de uma briga, de uma dissidência?

É contra corrente às estratégias dos partidos do arco do poder flaviense, quanto aos seus processos e táticas eleitorais?

Movimenta-se contra quê ou contra quem?

Movimenta-se porquê? E em que sentido?

São mulheres e homens de ação ou reação?

Onde reside, essencialmente, a sua diferença em termos não só éticos e morais, mas também políticos?

Constituem uma nova classe emergente de políticos, diferentes, preparados e aptos para fazer face aos desafios complexos que a sociedade do futuro exige?

Importa-nos mais saber sobre estas questões do que avaliar uma despropositada e incongruente promessa eleitoral: restituir o Largo das Freiras ao seu estado «virginal»” (...).

 

No mesmo texto, logo a seguir, dizíamos:

Somos amigo de alguns membros que integram este movimento. E, obviamente, continuaremos a sê-lo. Porque, apesar de, nesta hora, não estarmos inteiramente com eles, consideramos que aquilo que os move é, apesar de tudo, a ética da autenticidade. Autenticidade entendida na ótica de Charles Taylor quando afirma que «ser verdadeiro comigo mesmo significa ser fiel à minha própria originalidade» (…) e que dá sentido à ideia de «viver a minha vida» ou de «alcançar a minha própria realização»”.

 

No respeito integral pelo outro, sem qualquer recriminação ou preconceito… Porque, como diz ainda Charles Taylor, no seu escrito «A ética da autenticidade»: “num mundo plano, em que se esbatem horizontes de sentido, o ideal da liberdade de autodeterminação passa a exercer uma atração cada vez mais forte. Parece que o fato de escolher pode conferir sentido, fazendo da vida um exercício de liberdade, mesmo quando falham todas as outras fontes de sentido.

 

A liberdade de autodeterminação é, em parte, a «solução por defeito» da cultura da autenticidade, mas é, ao mesmo tempo, a sua maldição, porque reforça o antropocentrismo [nós diríamos mais, o narcisismo, tão característico da sociedade em que hoje vivemos]. Este fato cria um círculo vicioso que nos conduz ao ponto em que o valor mais importante que nos resta é a própria escolha (…) Estas são as tensões e as fraquezas presentes na cultura da autenticidade que, juntamente com as pressões de uma sociedade atomizada, a precipitam para a derrapagem”.

 

Mais adiante Charles Taylor, na esteira de Ramonet, ataca a questão essencial dos nossos dias quando afirma: “o reenquadramento eficaz da tecnologia exige uma ação política comum para reverter o movimento gerado pelo mercado e pelo Estado democrático em direção a um atomismo e um instrumentalismo crescentes. Esta ação comum exige que ultrapassemos a fragmentação e a impotência – isto é, que enfrentemos a preocupação, que Tocqueville foi o primeiro a definir, do perigo do desvio da democracia para o poder tutelar. Ao mesmo tempo, as posições atomistas e instrumentalistas são fatores primordiais para a geração das formas de autenticidade mais degradadas e superficiais; e, deste modo, uma vida democrática vigorosa, empenhada num projeto de redefinição, também teria, neste domínio, um impacto positivo (…) Mas para participar eficazmente neste debate multiforme é preciso compreender o que há de grande na cultura da modernidade, assim como de superficial ou perigoso. Como diz Pascal acerca dos seres humanos, a modernidade é caracterizada pela grandeur assim como pela misère”.

 

Sabemos que vivemos num mundo cada vez mais complexo. Questionando-se e oscilando entre certeza e incerteza, constantemente. Num mundo com seres humanos sempre preocupados em encontrar um sentido para as suas vidas. Tendo sempre presente que nos realizamos, num território concreto, cada vez menos isolados dos demais, como pessoas, juntamente com o outro, tão diferente de nós, mas, simultaneamente, tão igual. É nesta inquietação que o ser humano se realiza dia-a-dia.

 

Sinceramente, nada tínhamos, e sequer hoje temos, contra quem enfileirou, no exercício da sua pura liberdade, por outros caminhos.

 

Contudo, cremos que a maioria desses nossos amigos se deslumbraram pelo paradigma da comunicação, fazendo dela o seu conteúdo e não um meio para veicular princípios e valores pelos quais se deveriam bater.

 

Mais - e perdoem-nos a dureza das palavras -, “venderam-se”, positivamente, ao “mercado político” que, nas suas óticas, mais parecia lhes darem proventos pessoais. Fizeram escolhas verdadeiramente narcisísticas, “traindo”, no essencial, os seus ideais e valores de vida. Não lhes interessa tanto para onde vamos como pessoas e território concreto que somos neste cantinho do Alto Tâmega e Barroso. No fundo, traíram não só os verdadeiros propósitos políticos de como sociedade nos devemos reger como os amigos com quem, embora por vias diferentes, partilhavam e comungavam valores e ideais com vista a um novo porvir.

 

E, como isso não bastasse, pior ainda, convivem agora, alegremente, com aqueles - políticos, acólitos e seus afins - que antigamente estavam do outro lado da barricada e a quem tanto diabolizavam.

 

Enfatizemos que, em democracia, e em liberdade, as escolhas são pessoais e legítimas. Mas, naturalmente, não isentas, numa sociedade democrática e aberta, do escrutínio do contraditório e da crítica.

 

Por isso, esta postura deixa-nos a liberdade de também, numa ética de autenticidade, tão fugidia como a que hoje vivemos, questionarmos o conceito de amizade e das escolhas feitas.

 

Porque há limites!

 

Será que, como acima dizíamos, na esteira de Charles Taylor, o «ser verdadeiro comigo mesmo significa ser fiel à minha própria originalidade» (…) e que dá sentido à ideia de «viver a minha vida» ou de «alcançar a minha própria realização»” é seguindo este “trilho”? Não haveria outros caminhos, que mostrassem uma outra e verdadeira originalidade, em ordem à realização pessoal?...

 

Estamos, desta feita com o que Pascal dizia quando, a propósito dos seres humanos, na modernidade por que passamos, há tanto de grandeza como de miséria!

 

O nosso conceito de amizade não vai na ótica “facebookiana”, tal como Zygmunt Bauman nos falava, de “ligar” e “desligar” quando nos dá na real gana. Falamos de verdadeiro convívio, de partilha, de preocupações comuns como seres humanos e com o nosso terrunho, de um relacionamento verdadeiramente humano, de cara a cara...

 

Pela nossa parte seremos sempre fiéis aos ideários que sempre nos nortearam, à procura constante de um melhor porvir, mesmo que, conjunturalmente, não estejamos de acordo com certos princípios e estratégias seguidas.

 

Sem o deslumbramento e o fascínio que a sociedade da comunicação e do mercado nos procuram “impingir” e que certos políticos e intelectuais da nossa praça tão facilmente ficaram seduzidos e aderiram.

 

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:45
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 7 de Julho de 2017

Discursos sobre a cidade

SOUZA

 

BREVE REFLEXÃO À VOLTA DO ATO ELEITORAL QUE SE AVIZINHA

 

 

 

O poder não pertence a ninguém;

é um lugar vazio ocupado apenas provisoriamente.

 

Daniel Innerarity, «A política em tempos de indignação», Publicações D. Quixote, 2015, p. 173

 

 

 

A democracia é uma forma de organização política da sociedade na qual o conflito nunca é definitivamente reabsorvido na unidade de uma vontade comum.

 

Quem assim o não entender, terá dificuldade em entender a política e mesmo pensar em termos «políticos». Por isso, muitos cidadãos se afastam da política ou dela vociferam veementemente. Mas todos estamos «imersos» nela, não podemos passar sem ela!

 

Vivemos num tempo apelidado de aceleração do tempo, no qual, alguns anunciam já o “fim da política”; outros, face à sociedade complexa em que vivemos e a uma certa ingovernabilidade da mesma, outra coisa não apregoa(va)m que a desregulação da mesma, a capitulação do primado da política, face ao imperativo do movimento económico.

 

Daniel Innerarity enfatiza e pugna que “o nosso grande desafio [consiste] em defender as propriedades temporais da formação democrática de uma vontade política, os seus procedimentos deliberativos, de reflexão e negociação, contra o imperialismo das exigências técnico-económicas e a agitação do tempo dos meios de comunicação”.

 

Aquele autor, quando nos fala a propósito dos tempos em que vivemos, de autêntica aceleração de tudo, nomeadamente das decisões políticas, alerta-nos que “as soluções mais emancipadoras não provêm nem da desaceleração nem da fuga para a frente, mas sim do combate contra a falsa mobilidade [...] O «veste-me devagar que estou cheio de pressa» [negrito nosso] não foi formulado para defender a perda de tempo, mas sim para ganhar tempo”. Mais adiante, justifica seu propósito, quando afirma que a sua “proposta final seria, portanto, uma defesa da importância de se ganhar tempo, não através do incremento da aceleração mas sobretudo combatendo metodicamente a falsa mobilidade. A reflexão estratégica, a perspetiva para enquadrar o instante em limites temporais mais amplos ou a proteção do verdadeiramente urgente são, em última instância, procedimentos para ganhar tempo(sublinhado nosso), porquanto não se trata de não ligar nenhuma ao tempo, ou mesmo, lutar contra ele, outrossim, «utilizá-lo a nosso favor».

 

No nosso antepenúltimo Discurso sobre a Cidade, a certa altura, dizíamos “como darmos esperança e desenvolver um território praticamente deserto no meio rural, onde os seus «maiores» - poucos já, infelizmente -, que aí se encontram, se limitam a aguardar pela sua «última chamada», e uma população citadina, sem engenho e arte, descrente, e incapaz de encontrar soluções que concitam uma melhor qualidade de vida para as suas gentes (...)”.

 

E é importante trazermos aqui à colação a tragédia do passado dia 17 de junho, em Pedrógão Grande, para tornar mais ingente uma pausa, um tempo de espera, para refletirmos sobre que modelo de desenvolvimento queremos para o país: cidadãos, autarcas, instituições, empresas e governo, enfim, todos nós.

 

Porque algo está mal na forma como temos desenvolvido o nosso país até agora. A começar nas freguesias e nos concelhos!... E nada melhor como um período eleitoral.

 

Mas sabemos que o ciclo político que atravessamos não é propício para diálogos profícuos e consensos urgentes. Se bem que a função política seja, essencialmente, o uso da palavra, pois, em política, com a palavra fazem-se coisas; contudo, este não é o momento certo para se dar o devido valor às palavras adequadas. Em períodos eleitorais, infelizmente, as palavras outra coisa não são que verdadeiro ruído...

 

Afirmámos, no outro escrito, que a função da política não é a procura a verdade, mas do razoável.

 

E, mesmo o razoável, no contexto em que vivemos, obriga os políticos a porem-se à defesa, a moverem-se na ambiguidade, porque sabem que os cidadãos, infelizmente, se habituaram a orientarem-se, no campo político, com esquemas de polarização, e os media não oferecem espaço para a discussão equilibrada, porque mais seduzidos pela gestão do escândalo e da dissensão, em ordem à obtenção do lucro das suas «corporações».

 

Vale a pena aqui lembrar as palavras de D. Innerarity a este respeito:

 

Os meios de comunicação social, num momento em que os cidadãos têm tanta necessidade de informação para conseguir formar uma ideia acerca do que se está a passar e para tomar as decisões apropriadas, estão a distorcer a visão das coisas políticas de tal modo que acabam por gerar cinismo e desespero. Esses meios alimentam o desencanto e a desconfiança em vez de explicarem [salvo raríssimas exceções] a normalidade democrática [...] enquanto [estes meios de comunicação social] se apresentam a si próprios, conscientemente ou não, como lutadores heroicos que protegem o público desamparado face aos malvados políticos”. Ora, um espaço político binário é, no fundo, um espaço que se pretende despolitizado.

 

Daí que, na nossa modesta opinião, se bem que necessário, dentro desta mentalidade reinante, o espetáculo que aí vem - a campanha eleitoral -, não vai passar de um antagonismo ritualizado, elementar e previsível, transformando a política num combate em que o que está em causa não é discutir assuntos mais ou menos objetivos - estratégias para o futuro do nosso país e, em concreto, do nosso concelho, mas sim - embora apresentados propostas diferentes e significativas, com princípios e valores diferenciados -, encenar algumas diferenças necessárias para se manter ou conquistar o poder. Não nos parece estarem criadas condições para se efetuar uma verdadeira e consciente escolha. Certos procedimentos político-partidários, tão nossos, e tão nosso caraterísticos, e apegados a interesses, predem o cidadão, não lhe dando espaço de liberdade para se dar e concitar uma autêntica e genuína escolha.

 

Vai, neste sentido, o autor que vimos seguindo quando afirma que “O antagonismo dos nossos sistemas políticos funciona assim porque as controvérsias públicas têm menos de diálogo que de combate para obter o favor do público [...] A comunicação entre atores é fingida, uma mera ocasião para prestigiar aos olhos do público, o verdadeiro destinatário da sua atuação”.

 

Assim, este clima de vivência política e eleitoral, de estilo dramatizador e de denúncia, como afirma o autor que vimos citando, embora mantenha unida a fação dos apaniguados partidários em torno de um eixo elementar, contudo, dificulta, e em muito, a posterior consecução de acordos que vão para além da própria «paróquia».

 

As campanhas, desta forma, proporcionam muito poucas ou nenhumas possibilidades de diálogos construtivos, porque servem fundamentalmente para agudizar o contraste e polarizar, simplificando a escolha que vem depois.

 

Mas, temos para nós que quem se apetrecha com um único argumento da sua radical coerência terá pouco futuro na política. A verdadeira atividade política tem mais a ver com a procura de espaços de encontro, com o compromisso e com o envolvimento de outros, que pesam igual ou diferente de nós.

 

E é esta postura que, sinceramente, esperamos daqueles que se candidatam, nas próximas eleições aos órgãos autárquicos no concelho de Chaves. Principalmente daqueles que estão mais próximos do “arco” de princípios e valores políticos que perfilhamos.

 

Porque, na verdade, defendemos que “Os melhores produtos da cultura política tiveram a sua origem no acordo e no compromisso, ao passo que a imposição ou o radicalismo marginal não geraram quase nada de interessante”. Porque nós queremos um concelho e uma cidade nova, diferente, no panorama das ditas cidades médias do nosso país. E, aqui, uma vez mais, estamos com D. Innerarity quando nos lembra que “Os nossos ideais dizem algo acerca do que queremos ser, ao passo que os nossos compromissos revelam quem somos”.

 

Para não nos tornarmos longo nesta despretensiosa reflexão, partilhamos aqui, mais uma vez, o ponto de vista de Innerarity ao não alinharmos no pessimismo dominante em relação à política. Não porque não encontremos razões de crítica! Mas porque acreditamos que só um horizonte de otimismo aberto, que acredite na possibilidade do melhor, é que nos permite criticar com razão a mediocridade dos nossos sistemas políticos e de alguns dos nossos políticos.

 

Na realidade, o otimismo e a crítica são duas atitudes que se dão muito bem, ao passo que o pessimismo e o puro deita abaixo costuma preferir a companhia da melancolia, do cinismo e da pura maledicência.

 

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:14
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 19 de Maio de 2017

Discursos sobre a cidade

SOUZA

 

CENTENÁRIO DA PARTIDA DO 1º BATALHÃO DO RI 19

PARA A FLANDRES-GRANDE GUERRA

 

 

Numa publicação, saída na Revista nº 50 do Grupo Cultural Aquae Flaviae, dávamos conta não só do contexto nacional deste conflito como referíamos a participação dos militares do Regimento de Infantaria 19 (RI 19) na Grande Guerra.

 

No próximo dia 23, por ocasião dos 100 anos da partida do 1º Batalhão do RI 19 para a Flandres/grande Guerra, será lançado, pelas 18 horas, na Biblioteca Municipal de Chaves, o livro da nossa autoria Grande Guerra - Enquadramento Internacional.

 

Cartaz A4.jpg

 

Deixamos aqui aos nossos(as) leitores(as) as singelas palavras do Prefácio que, em 2015, escrevíamos:

 

“Quando nos debruçamos um pouco, e refletimos, sobre a Grande Guerra - o acontecimento mais marcante à entrada do século XX - vemo-la como um enorme terramoto, que abalou e transfigurou, de uma forma profunda e determinante, a Europa, continente dominante e hegemónico em todos os setores da atividade humana - social, cultural, científico, técnico, económico e financeiro.

 

Era uma Europa aristocrática, arrogante, imperialista, ciosa do seu poder, orgulhosa do Progresso, que julgava sempre incessante e ilimitado, e que dominaria tudo quanto à face da terra existisse.

 

À superfície, na placidez desse mundo, fervilhava uma sociedade que, cuidando de viver no melhor dos mundos, gozava a sua Belle Époque.

 

Tudo isto simplesmente se passava à superfície.

 

As principais «placas» em que aquele mundo assentava (império inglês, alemão, francês, austro húngaro e russo, e o moribundo otomano) começavam a movimentar-se. E seus movimentos pressagiavam um fin de siècle em que tudo poderia deixar de ser como dantes.

 

A era da Razão e do Progresso, científico e tecnológico, sem limites, iria dar lugar à ubris, à loucura e catástrofe.

 

Bastava agora apenas um simples movimento em qualquer ponto mais sensível de uma das «placas» para tudo começar a desmoronar-se.

 

E, inopinadamente, num remansoso verão em que as classes possidentes e dirigentes vão de férias, a banhos, um outro banho, de sangue, começa a acontecer!

 

Sarajevo foi o epicentro desse enorme terramoto que, em longas e profundas ondas de choque, se alastrou por toda a Europa e pelas áreas desse mundo por ela dominado.

 

Uma Europa ébria, incontida, cega às consequências das sucessivas decisões que se iam tomando, lançando, em massa, toda uma geração de uma juventude promissora, na fornalha de aço que a metralha, que veio com o Progresso, gerou.

 

Era o princípio do fim de uma civilização a quem faltou o bom senso e a lucidez para pugnar pela construção de uma sociedade outra, numa convivência pacífica de povos”.

 

O Mundo e a Europa em que hoje vivemos foi moldado pela Grande Guerra (I e II Guerra Mundial).

 

Cremos que as palavras por nós escritas há dois anos têm pleno cabimento nos tempos por que passamos, exigindo de todos nós, numa sociedade tão outra que criámos, mas com os mesmos velhos problemas, melhores mecanismos de controlo, muita mais clarividência e lucidez, não só para evitar as calamidades que por várias áreas do Planeta proliferam, como para vivermos numa sociedade sem hegemonias e na aceitação igual e plena das diversas diferenças, do outro diferente.

 

Só assim é que o sacrifício e as vidas perdidas dos nossos antanhos de há 100 anos terão algum sentido e valido a pena.

 

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 7 de Abril de 2017

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

POLÍTICA, EMOÇÕES E MUDANÇA

 

Os «motores» dos aparelhos partidários e dos diferentes movimentos de cidadãos estão começando a «aquecer» para o próximo «embate» eleitoral - as eleições autárquicas.

 

Embora, por decisão pessoal, estejamos afastados da luta direta pela disputa dos lugares nos diferentes órgãos autárquicos do nosso concelho, tal circunstância não nos inibe, muito pelo contrário, que façamos uma pequena reflexão e teçamos algumas considerações, sobre a luta política que aí vem, para aqueles leitores que nos leem e se interessam pelo fenómeno político e as suas pelejas eleitorais.

 

Temos vindo dizendo, ao longo dos nossos escritos, e particularmente nesta rubrica Discursos sobre a cidade, que falta a Chaves - cidade e seu Município - uma visão de futuro que galvanize os flavienses e os faça «arregaçar as mangas» para as tarefas ingentes de um novo porvir.

 

Independentemente das diferentes personalidades e competências, que vão estar, até perto do final do ano, no palco da luta política para os órgãos autárquicos, exige-se lucidez, atenção à noção da realidade que nos cerca, dos interesses e necessidades sentidas pelas populações e pelo território que elas habitam. Sabendo que o espaço de manobra que as autarquias têm é muito curto e estreito, problemático e não isento de dificuldades.

 

Em primeiro lugar, pelos enormes constrangimentos financeiros, particularmente a difícil situação financeira do Município de Chaves. Em segundo lugar, pela periférica e interioridade em que o concelho se encontra. O modelo de desenvolvimento que, nas últimas décadas, temos seguido em Portugal, abortada a regionalização e frustrada a construção de Cidades Médias, capazes de reter os fluxos migratórios das gentes do meio rural para as cidades do seu hinterland, a hegemonia do económico sobre a função política, quer a nível internacional, quer europeu, quer nacional, levou a que o fenómeno da globalização, de cariz neoliberal, lançasse a maioria dos nossos jovens, e promissores recursos humanos, para as áreas metropolitanas do litoral do país e, muito mais grave ainda, para a eterna diáspora a que desde a época de Quinhentos nos habituámos, descurando-se, assim, a valorização do nosso «terrunho». Em terceiro, e último lugar, face ao pano de fundo assinalado, subjaz a questão crucial a que os intervenientes na luta política autárquica se devem preocupar: como darmos esperança e desenvolver um território praticamente deserto no meio rural, onde os seus «maiores» - poucos já, infelizmente -, que aí se encontram, se limitam a aguardar pela sua «última chamada», e uma população citadina, sem engenho e arte, descrente, e incapaz de encontrar soluções que concitam uma melhor qualidade de vida para as suas gentes, limitando-se, quem nos representa, muitas das vezes, a delapidarem recursos financeiros, em fazer e desfazer obras, sem que se vislumbre qualquer objetivo e estratégia credível para o futuro.

 

Esta realidade, que sucintamente acabamos de referir, é dura. Muito dura. Simplesmente, na luta que aí vem, vai passar um pouco ao lado da retórica e dos discursos que os diferentes «quartéis-generais», em termos de campanha, estão preparando.

 

Há que lutar, segundo Josep Ramoneda, para que os partidos políticos e seus agentes interiorizem o cumprimento de três das suas principais funções: a de representação efetiva dos seus representados, que não a de interesses económicos que, muitas vezes, lhes andam aliados, bem assim a da suas cliques partidárias; o recrutamento de quadros competentes para governar e, por último, o reconhecimento dos cidadãos, não como simples figurantes no palco da política, mas como autênticos atores políticos.

 

Daniel Innerarity, na sua obra A Política em Tempos de Indignação, a certa altura, adverte-nos que não nos devemos admirar pelo facto de a política estar cheia de retórica, quiçá perto da dissimulação e demagogia. Na verdade, diz, não podemos confundir política com ciência, pois, enquanto a ciência procura a verdade; na política, o jogo é o que que é mais correto, oportuno, justo, viável, económico, etc.. E adianta que “a verdade só tem lugar na política no seio de uma pluralidade de valores em conflito dentro do qual se decide o que é que é correto”, sendo, por isso, natural que os diferentes agentes e atores políticos avaliem de modo diferente os mesmos factos e, consequentemente, cheguem a conclusões diferentes (não da verdade) mas daquilo que é correto, de maneira também diferente.

 

Innerarity afirma que a questão da verdade ou da mentira não passa de “uma embrulhada [no campo político] formada pela cumplicidade de alguns políticos hipócritas, uma cidadania que nem sempre quer que lhe digam a verdade e uns meios de comunicação que dariam cabo de quem dissesse a verdade”. É, por isso, que este contexto obriga a que, permanentemente, os políticos estejam à defesa e a movimentarem-se na ambiguidade e na polarização de posições, tanto mais que, principalmente os meios de comunicação social, praticamente não oferecem espaço para a discussão equilibrada, “seduzidos como estão por aquilo que gera escândalo e dissensão”.

 

O que podemos e devemos esperar dos discursos e propostas dos nossos políticos (e candidatos a políticos) é algo, no nosso entendimento, mais exigente do que ouvir a verdade, outrossim qual a mensagem de esperança?

 

Na campanha eleitoral que se avizinha, esperamos que os nossos políticos (e candidatos a cargos políticos autárquicos), nas suas diferentes retóricas, tenham em conta, essencialmente, uma coisa: independentemente das propostas ou soluções que acharem as mais convenientes e corretas para as nossas gentes e o desenvolvimento do nosso território, que saibam agir com emoção, usando o valor dos sentimentos das pessoas para lhes concitar esperança nas suas vidas.

 

É necessário que os sentimentos, as emoções e a política não se excluem e que estejam ao serviço da renovação da democracia, tanto mais que as autarquias, e os seus representantes, são os que mais perto estão das respetivas populações e dos seus efetivos problemas de vida.

 

Estamos com Innerarity quando diz que “a política e o sentimento não se excluem mutuamente”, muito pelo contrário. As emoções estão presentes em todos os âmbitos da vida e em todas as ações. Como o nosso grande cientista António Damásio diz “não há conhecimento sem emoções”. Os sentimentos e a racionalidade não são qualidades que se excluem. Ambas são práxis sociais e ambas são formas específicas de conhecimento. Os sentimentos não são reações com origem no mais profundo e irracional das pessoas e que irrompem daí para o espaço público. Os sentimentos não podem ficar enclausurados numa esfera privada. A esfera pública é também um âmbito igualmente legítimo para exibir emoções. Sem populismos, sectarismos e (pseudo) políticos carismáticos.

 

Os contendores vencedores no próximo combate autárquico serão aqueles que, para além das suas propostas, consideradas pela maioria as mais corretas, atendendo aos enormes constrangimentos e bloqueios a que Chaves e o seu concelho está sujeito, forem capazes de, sobretudo, mobilizarem para o seu campo, a maioria dos recursos emocionais das pessoas, combatendo os seus medos e dando-lhes esperança.

 

Só com esta estratégia é que a retórica política será eficaz, canalizando as emoções sociais, tornando-as construtivas.

 

Esperamos, sinceramente, que os nossos políticos e candidatos a autarcas sejam capazes de ocupar efetivamente o espaço público, saírem das quatro paredes das suas estruturas, transformadas em salão para intelectuais ou, tantas vezes, pseudointelectuais. E, sem encenações populistas, saiam às ruas da cidade e entrem pelos campos das aldeias, descendo até ao coração das pessoas, levando-lhes uma nova mensagem, uma nova esperança, rumo a uma verdadeira mudança.

 

O que aconteceu no passado não muito longínquo, no nosso concelho?

 

Não ganhou o populismo e a arrogância.

 

Ganhou quem, ao sol e à chuva, ao frio e ao vento, de noite e dia, soube sair do conforto dos seus sofás e, pela cidade e pelos campos, batiam à porta das pessoas, ou iam ao seu encontro, nos seus lugares de «culto» e, num aperto de mão, ou num abraço, olhos nos olhos, com a sua retórica e propostas lhes inspiravam confiança.

 

E ouvia-se dizer pela cidade e nas nossas aldeias: ”aqueles são «bons» rapazes. Vou votar neles!

 

Independentemente do cabal cumprimento das três funções políticas acima enunciadas, é preciso trazer de novo para a política a verdadeira e positiva dimensão dos sentimentos e das emoções.

 

Com elas, a competência, os valores, as convicções, as esperanças, e o que é mais correto para as pessoas e para as suas terras, tornam-se mais percetíveis e humanamente mais credíveis.

 

Só assim é que a mudança, a verdadeira mudança, acontecerá!

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:24
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 3 de Fevereiro de 2017

Discursos Sobre a Cidade - por António de Souza e Silva

SOUZA

 

O LEGADO DE NADIR AFONSO ARQUITETO

 

Somos filho da Galáxia de Gutenberg. Nascemos no culto do Livro e da sua Leitura. Por muito que o digital nos apele a seguirmo-lo, não prescindimos, na leitura, no sentir da textura das folhas de um livro, no seu manuseamento constante.

 

Daí que, quando nos deslocamos de Chaves para outros centros urbanos de maior dimensão, não deixamos de frequentar uma boa livraria - que infelizmente por cá não há! E saber das novidades editoriais, nos livros que vão aparecendo nas áreas que mais gostamos, e investigamos, e nos prendem a nossa atenção e curiosidade.

 

Desta feita, num dos escaparates de uma delas, na cidade Invicta, fomos dar com um livro, editado no verão passado pela editora Caleidoscópio, com o título «Arquiteturas-Imaginadas: Representação Gráfica Arquitetónica e ‘Outras Imagens’. Desenho [...] Cidade [...] Lugar».

 

Trata-se de um conjunto de textos (1º volume), de vários autores, que tiveram por base um Projeto de Investigação, criado em 2009, com a designação do título do Livro, do Centro de Investigação em Arquitetura, Urbanismo e Design (CIAUD), da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, FA/Lisboa, Fundação para a Ciência e Tecnologia, FCT, coordenado cientificamente por Pedro António Janeiro, o editor deste 1º volume, de coletânea de textos.

 

De um relance de olhos ao índice, fizemos uma leitura transversal ao conteúdo dos diferentes autores. Sem desprimor, e enorme importância dos restantes, despertou particularmente a nossa curiosidade dois textos: um, de Michel Toussaint, «Nadir Afonso e a Arquitetura»; o outro, de Sylvio Barros Sawaya, «As Decisões que constroem o Espaço Humano».

 

Pelo primeiro, para além de nos dar o percurso do artista/arquiteto flaviense Nadir Afonso, correndo as sete partidas do Mundo e trabalhando nos ateliers dos arquitetos mais famosos do seu tempo, em projetos que hoje marcam e fazem parte da História da Arquitetura moderna, como Le Corbusier e Oscar Niemeyer, somos informados que “o discurso de Nadir Afonso coloca a Arquitetura e a Arte em mundos diferentes, mas não deixa de se centrar na proporção e harmonia, no entanto [continua Michel Toussaint, seguindo o pensamento de Nadir Afonso], só a Arte no seu isolamento é capaz de assegurar tal. Sob este ponto de vista, Nadir Afonso situa-se na continuidade do pensamento estético desde o século XVIII com Kant, com a separação concetual entre Arte e Técnica, entre Arte e Utilidade, entre Arte e Ciência”. E, mais à frente, continua Michel Toussaint, transcrevendo uma parcela de pensamento de Nadir, ínsita na obra «Mecanismes de la Création Artistique»: “No ato artístico a forma resiste pela sua proporção sensível e no ato técnico ela resiste pela sua estrutura racional. O indivíduo que se propõe ser ‘artista técnico’ força as formas a um jogo duplo que o desenvolvimento progressivo das suas funções diferentes torna insustentável”. No fim do seu artigo Michel Toussaint, a propósito do projeto de uma igreja escreve da seguinte forma o pensamento de Nadir: “Na conceção de toda a obra técnica está aí, sim, a grande contradição a resolver: enquanto as estruturas funcionais, empurradas pela ciência, avançam, as estruturas tradicionais, empurradas pelos ‘destinos espirituais’, puxam para trás. E sobre Gaudi, o arquiteto catalão cujas obras são hoje grande atração turística em Barcelona [Nadir Afonso] afirma: «Não, Gaudi não foi um ‘arquiteto genial’. Querendo ser um arquiteto e um artista ao mesmo tempo, Gaudi falhou numa e noutra dessas atividades. A arquitetura de Gaudi, ‘essa escultura habitável’ que Le Corbusier ele próprio admirava tanto, não é finalmente nem escultura, nem ‘habitat’». Só a extravagância pôde sustentar, mais de meio século, as suas obras»” E Michel Toussaint conclui que “Nadir Afonso não quis mais jogar  (...) [este ] insustentável ‘jogo duplo’, quis terminar com o [seu] ‘verdadeiro martírio’ e voltar à pureza da sua escolha inicial [antes de entrar no curso de Arquitetura]: ser artista. Por isso, abandonou a arquitetura [como profissão]”.

 

Entretanto, Nadir Afonso, enquanto se degladiava com o ‘seu verdadeiro martírio’ - entre ser Artista e /ou Arquiteto, fazendo uma opção em função daquilo que pensava o que eram estas duas áreas, deixou-nos, como arquiteto, nove projetos, sendo a fábrica de panificação (Panificadora de Chaves) uma das obras mais emblemáticas, precisamente localizada na sua terra natal, Chaves.

 

Mas não é do legado desta obra que hoje nos motivou à escrita sobre Nadir, o Arquiteto.

 

Hoje, muito sucintamente, queremos falar do «Anteplano de Urbanização da Cidade de Chaves», por ele coordenado, em 1965, e que acaba por culminar, definitivamente, a sua carreira como arquiteto.

 

Teria todo o interesse que, em futuras iniciativas do Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, se procedesse a um ciclo de conferências subordinado ao tema «Repensar o Urbanismo na cidade de Chaves», tendo como mote aquele Anteplano, historicamente bem situado.

 

Refere Michel Toussaint: ”Como não podia deixar de ser, assentou a proposta de plano na descentralização, isto é, na criação de novos núcleos habitacionais com alguma autonomia, separados do Centro Histórico por áreas verdes inscrevendo-o no modelo das cidades satélites proveniente das doutrinas de Hebzener Howard, conhecido tanto por Le Corbusier, como pela disciplina urbanística em Portugal, nomeadamente a partir da presença de De Groër, arquiteto urbanista convidado por Duarte Pacheco.

 

A ideia de zonamento, ou seja, da constituição de zonas funcionalmente especializadas, está igualmente plasmada neste plano, defendida como basilar pela Carta de Atenas, documento escrito por Le Corbusier [...]. E, entendendo que a «ossatura das cidades é o traçado das suas ruas» como Nadir Afonso escreveu no Anteplano, organizou-o de acordo com as vias existentes, mas não seguindo a predeterminação de um modelo «radiocêntrico, ramificado ou em xadrez». O rio Tâmega e a sua Veiga, bem como as Águas Termais, são aqui defendidas como uma das bases económicas do futuro, não deixando de preconizar a indústria como outra perspetiva de desenvolvimento no horizonte de 20 anos [...]. Afinal este trabalho inscreve-se nos saberes e práticas urbanísticas da época em Portugal e apresenta-se já não apenas como um plano que define as formas dos edifícios e espaços exteriores em desenho, mas aposta sobretudo para um esquema de ordenamento do território da cidade existente e a sua expansão com um regulamento que orientaria as intervenções nesse território [...].

 

Bem pregou Frei Tomás!...

 

O que assistimos a seguir, e fundamentalmente depois de 76 do século passado, com a gestão autárquica do PPD, de Branco Teixeira, foi à subversão total de tudo quanto este autor, cidadão flaviense, preconizava!...

 

Hoje, volvido meio século sobre este trabalho de Nadir Afonso, que desenvolvimento e ordenamento territorial temos na nossa cidade?

 

Será que planeamos, ordenamos e desenvolvemos a nossa cidade, como muito bem diz Sylvio Barros Sawaya, tendo em linha de conta que “é, a todo o instante, que o espaço humano, gerando afirmação do que entende como sendo e do que deseja ser, uma fala social em que a sociedade concreta ali localizada se manifesta através dos gostos, das afeições, das necessidades e anseios, deixando traços inscritos no próprio espaço falando da sua vida e indicando um devir”?

 

As consultas públicas, quando as há, são meros proformas. E os cidadãos são verdadeiramente ostracizados acerca do que se passa e se faz na sua cidade. E, mais ainda, do que se vai passar, nos seus espaços vitais, quer sejam públicos, quer privados.

 

Estamos com Sylvio Barros Sawaya quando fala ser necessário explicitar, de antemão, todos os aspetos que vão levar à modificação do espaço público e privado da cidade onde «habitamos», através do projeto que se vai encomendar, ouvindo previamente os diferentes pontos de vista do(s) cidadão(s). Caso assim não aconteça, o projeto que se encomenda transforma-se numa decisão aleatória, não partilhada e distante da efetiva participação da sociedade, das suas comunidades e seus indivíduos.

 

Quantos projetos encomendados a técnicos para o ordenamento e desenvolvimento do território flaviense tiveram a participação social na conceção do mesmo?

 

É que uma decisão sobre qualquer projeto para a cidade, a nossa cidade, o nosso ‘habitat social’, deve basear-se numa audição prévia à decisão da encomenda do projeto. Trata-se de uma atitude sábia, consequente e harmoniosa, diz Sylvio Barros Sawaya, que vai depois tornar o projeto querido e participado por aqueles a quem se destina para nele estarem todos os dias, usufruindo do seu espaço, de qualquer natureza que seja - público ou privado. Quando um espaço é querido e partilhado por quem o habita, o usufrui, ou simplesmente gosta de o contemplar, não se transforma num corpo estranho à nossa vivência quotidiana...

 

Infelizmente não é isso que, pelas nossas bandas, todos os dias se passa. Exemplos? Não faltam!...

 

Intervir num espaço, em especial de uma cidade, não é apanágio exclusivo daqueles a quem confiamos, pelo voto, os destinos dos espaços que «habitamos». É de todos nós. Que, por isso, devemos ser ouvidos antes de qualquer intervenção. E partilharmos na execução dos mesmos. Porque não estamos aqui simplesmente em presença da elaboração ou execução de uma obra de arte, mas de um espaço que se destina a ser «habitado», usufruído, por todos. Quem não entender isto que siga outras áreas, deixando a política, a arquitetura ou o urbanismo, ou o que quer que seja, e que tenha a ver com o espaço onde a sociedade e as comunidades se desenvolvem e o Homem vive. E, tal como aconteceu sabiamente com Nadir Afonso, mude de rumo. Sejamos honestos!

 

Na verdade, estamos com Nadir - Arquitetar, Urbanizar e Ordenar não é a mesma coisa que Arte.

São, positivamente, duas atividades bem diversas uma da outra. Que exigem visões e posturas diferentes sobre a realidade.

 

Ordenar e gerir um território exige-se não só competência, sensibilidade social mas, acima de tudo, cultura efetivamente democrática, em que a abertura à participação cidadã - isenta do faz de conta e de pequenos ditadores - é a chave decisiva para o sucesso do desenvolvimento e bem-estar das populações que ocupam um determinado espaço - aquele onde a nossa vida, individual e coletiva, se desenrola e acontece.

 

António de Souza e Silva

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:50
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2017

Discursos Sobre a Cidade

SOUZA

 

O IMPOSSÍVEL É POSSÍVEL!

 

Entrámos num novo ano. E, nestas alturas, é comum fazer-se balanços e enunciarem-se novos ou renovados desejos e aspirações.

 

Não estamos hoje virados para fazer balanços e, especificadamente, elencar desejos ou aspirações. Tal, como diz o velho ditado, seria, muito provavelmente, «chover no molhado».

 

Ao longo desta rubrica, temos vindo a falar, e a por o dedo na ferida, daquilo que consideramos serem os males que temos e vemos, reiteradamente, reproduzirem-se em Chaves.

 

Os representantes do poder local que temos sentem-se incomodados quando lhes tocamos na ferida. E, demagogicamente, chamam-nos «os do deita abaixo», ou, não raras vezes, «intelectuais da treta», que só sabem criticar, não apresentando soluções.

 

Percebemos o seu incómodo, sinal da mais completa incompetência quanto aos lugares que ocupam.

 

Não nos compete, individualmente, encontrar e apresentar soluções. Talvez, um pouco, contribuir para fazer diagnósticos.

 

Não acreditamos em políticos heróis, com soluções (individuais) na mão, milagrosas. Pois não as há! Há, isso sim, uma outra maneira de fazer política. Com mentes verdadeiramente abertas. Que aceita as diferentes diferenças. E que conta com todos. Que constantemente insiste e apela a uma maior participação cívica dos cidadãos na construção da sua polis. Sem a crónica doença da partidarite e do compadrio.

 

Temos recursos que nos podem levar longe na escala do desenvolvimento local e na qualidade de vida dos cidadãos.

 

Temos, felizmente, embora poucas, boas práticas privadas que nos fazem acreditar que uma outra cidade e concelho podemos construir e acreditar.

 

Temos a fé que muitos (principalmente jovens) flavienses, desgostosos do rumo da sua cidade, deixem de considerar o seu berço demasiado pequeno e provinciano, e regressem ao seu lar para participarem numa nova construção da nossa terra.

 

Se bem que o que vemos movimentar-se não nos dá grandes esperanças e alegrias, contudo, continuaremos a pugnar por este grande objetivo - voltar a por Chaves no mapa de Portugal e da região em que se integra.

 

Sabemos que no passado demos cartas. Sabemos também das dificuldades e dos entraves que a sociedade global em que vivemos coloca os pequenos territórios e, ainda por cima, quando situados na periferias das periferias. Sabemos o que a grande maioria dos leitores que nos lê nos diz ou, para consigo, pensa: «mais um sonhador!».

 

Que assim seja. Mesmo assim não deixamos de sonhar.

 

Sonhar como o nosso grande poeta maior transmontano (alto duriense), Miguel Torga, quando, nas suas visitas frequentes à nossa terra flaviense para tratar os seus achaques, nas Termas de Chaves, 4 anos antes de deixar de estar entre nós, escrevia no seu último Diário, depois de ter abanado com o pessimismo de um flaviense, seu interlocutor:

 

Chaves, 26 de Agosto de 1991 - Não é possível...

 

- Ó rapaz, acaba-me lá com essa ladainha do possível! Fala-me do impossível triunfo do teu clube. Da impossível moderação alcoólica do teu pai, da impossível atenção oficial às legítimas aspirações desta tua cidade natal. Vê se olhas a vida de uma vez para sempre sem muros à volta da imaginação”.

 

Eis, pois, aqui, o nosso desejo para 2017: que aquilo que julgamos como impossível seja possível!

 

Só assim é que a verdadeira dimensão humana efetivamente se realiza...

 

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:10
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 7 de Outubro de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

CHAVES - COM COROA MAS SEM TRONO

 

Na véspera de mais um périplo fotográfico com os amigos do costume para o Barroso, acabámos de ler - o que desejávamos já tê-lo feito há mais tempo - a última obra do nosso saudoso escritor transmontano - Bento da Cruz.

 

Embora não estejamos totalmente de acordo com Bento da Cruz quando afirma «o Barroso é um Paraíso, o único ou um dos poucos que ainda existem à face da terra», estamos, contudo, com ele quanto ao fascínio que as terras barrosãs têm sobre qualquer «estrangeiro» curioso, quando visitadas e calcorreadas.

 

Mas, para conhecer o Barroso não basta apenas visitá-lo ou calcorreá-lo. Nem, tão pouco, fazer longas paragens, convivendo com os seus nativos, residentes. É necessário conhecer a sua história - a sua profunda história -, o ter sido intérprete e ator da vida dos seus muitos lugares. Em suma, é preciso ter a alma barrosã.

 

E foi aqui que Bento da Cruz, como grande escritor que foi, efetivamente se distinguiu.

 

Mais ninguém soube retratar o Barroso, nas suas diferentes paisagens - as naturais e as humanas, das suas gentes - do que ele. Na simplicidade e nudez das palavras do seu povo; na crueza e ardura das suas vidas; na frieza, solidão e agrura da sua terra.

 

Se obras como Hemoptise, Planalto em Chamas, Ao Longo da Fronteira, Filhas de Loth, Contos de Gosto Frio, O Lobo Guerrilheiro, O Planalto de Gosto Frio, Histórias da Vermelhinha, História de Lana-caprina, O Retábulo das Virgens Loucas, A Loba e a Lenda de Hivan e Bellkiss, constituem um conjunto de retábulos, desenhados com a mestria da palavra, e que nos apresentam, no seu conjunto, a límpida imagem, tão bem representada do país barrosão, na comemoração dos seus cinquenta anos de vida literária, ocorrida em 2009, Bento da Cruz deliciou-nos com mais um - «A Fárria».

 

Vale a pena citar as suas primeiras palavras, ínsitas no Preâmbulo desta obra: “Neste ano da graça de 2009, em que faço oitenta e quatro anos de idade e cinquenta de vida literária, duas coisas peço aos deuses. Mais algum tempo no reino dos vivos, entre os quais, apesar de tudo, me sinto bem, e lucidez suficiente para não publicar mais nada. Estou a ficar velho (...)”.

 

Pelos vistos, os deuses concederam-lhe a «graça» que lhes pediu: faleceu em agosto do ano passado com noventa anos e, na verdade, não publicou mais nenhuma obra. A Fárria foi a última.

 

Se bem que não seja, porventura, a sua magnum opus - na qual, na nossa modesta opinião, O Lobo Guerrilheiro se distingue -, nem por isso A Fárria é menos importante.

 

Em toda a trama de A Fárria já se pressente positivamente que a velhice e a presença da morte começava a cavar fundo na alma de Bento Cruz, dando-nos conta que estamos perante uma obra de «despedida», tal qual a do seu amigo e personagem Silvério Silvestre.

 

Mas a prosa continua lúcida, a palavra cristalina, com o enredo a prender-nos a uma leitura feita de uma só assentada.

 

Mas não foi para falarmos desta obra que pegámos na caneta para escrever este «discurso». Apenas serve de pano de fundo para as poucas linhas, melhor dizendo, perguntas, que vamos rabiscar. Porque, a certa altura da sua leitura, damo-nos connosco a perguntar: que importância Chaves, a dita capital do alto Tâmega e Barroso (embora agora, em certos «foruns», já lhe tenham cortado o Barroso) para as minas da Borralha e Salto, em especial, e Montalegre, em geral?

 

Chaves, nesta obra, aparece-nos aqui e ali circunstancialmente. Para os barrosões da década de 40 do século passado até hoje, os verdadeiros centros de atração das suas gentes eram as Terras de Basto, com Cabeceiras à cabeça, a cidade minhota de Braga e o litoral, representada pela Póvoa de Varzim. Está é uma realidade que o rigor dos números e a frieza da estatística nos apresentam.

 

Contudo, os flavienses, porventura alguns de «peito inchado», acham que a sua cidade é a capital do Alto Tâmega e Barroso.

 

Mas, perguntamo-nos: o que Chaves fez e tem feito para, como possuidor dessa coroa, merecer tal trono?

 

Que fizemos, ao longo dos anos, em termos de atratividade, para trazermos Montalegre para a órbitra flaviense?

 

Mutatis mutandis, perguntamos ainda: e o que se passa com os restantes concelhos que integram o Alto Tâmega e Barroso - Vila Pouca de Aguiar, Valpaços, Ribeira de Pena e Boticas?

 

Provavelmente, à exceção de Boticas, com uma dimensão, em termos de gentes, comparável a uma ou duas freguesias (rurais) das maiores de Chaves, para onde está virado Valpaços? Para Chaves ou Mirandela? E Vila Pouca de Aguiar? Para Chaves ou Vila Real? E Ribeira de Pena? Não estará mais no coração das Terras de Basto?

 

Administrativa e politicamente, estes seis concelhos, dizem os nossos políticos locais, constituem uma verdadeira unidade territorial, sólida e coesa.

 

Assente em que bases?

 

Na qualidade da rede viária que os une a Chaves, especificadamente na que a liga a Montalegre e Valpaços? Na economia atrativa e florescente que Chaves possui? Nas instituições culturais ou na programação cultural dinâmica que Chaves oferece com verdadeiro desígnio regional? Nos serviços desconcentrados da Administração Central que Chaves tem? Na sociedade civil flaviense forte, com visão estratégica e horizontes de vida e futuro para oferecer aos nossos jovens, já poucos, e que dia a dia se «esvaem» ou para o litoral ou para uma nova diáspora?

 

Para um simples e atento observador, cada concelho do Alto Tâmega e Barroso vai tratando da sua vidinha, como sabe e pode. Mesmo que cada um cuide de ter as mesmíssimas e mais diversas instalações públicas - não se cuidando da escassez dos recursos -, totalmente subaproveitadas, e com manutenções caríssimas, ou leve a cabo idênticos eventos, muitos deles sem verdadeiro impacto local, quanto mais regional ou nacional, na tentativa de dinamização das respetivas economias locais, não tirando nenhum deles - em particular a sua presuntiva rainha -, qualquer lição tirada da «parábolas dos vimes»!

 

Chaves, enfatize-se, tem a fama de ser a capital do Alto Tâmega e Barroso, ou seja, ter uma coroa, mas, na realidade, onde assenta o seu trono?

 

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:55
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 2 de Setembro de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

Dirigentes políticos lúcidos e esclarecidos, precisam-se!

 

I

 

No final dos anos noventa do século passado, o nosso saudoso amigo genebrino oferecia-nos um livro que, na altura, e numa leitura um pouco diagonal entretanto feita, achámos verdadeiramente importante, digno de uma leitura mais atenta. Entretanto, como acontece a muitos livros que compramos, muitas vezes acabam por ficar esquecidos num canto das prateleiras dos livros da casa.

 

Foi o que aconteceu com «Geopolítica do caos», de Ignacio Ramonet, editor do Le Monde Diplomatique, a principal publicação de política internacional dos finais dos anos 90, que catalisou, na opinião de Emir Sader “as visões críticas e alternativas à nova Ordem (…)” desde o derrube do Muro de Berlim e à instauração daquilo a que se passou a chamar a Pax Americana.

 

Ainda, nas palavras de Emir Sader, que faz a apresentação do livro, saído em 1999, Ignacio Ramonet mostra-nos os traços das “novas relações de poder que se escondem por detrás de aparentes fluxos naturais de bens, de serviços e de informações. Uma fotografia fin-de-siècle que faz jus ao centenário J’acusse, de Emile Zola”. E deixa-nos com este desafio: que cada qual escolha o seu lugar – o banco dos réus ou a procuradoria.

 

O livro «Geopolítica do caos», de Ramonet, para além das muitas realidades e diagnósticos que nos apresenta (que hoje, mais que nunca, estão certeiros), perante um mundo e uma sociedade cheia de perplexidades, propõe-nos desafios que, urje, devemos enfrentar.

 

Diz Ramonet a determinada altura: “Neste contexto de deceções e incertezas em que hoje vivemos, dois novos paradigmas estruturam a nossa maneira de pensar: o primeiro é – comunicação. Esta tendência a substituir, pouco a pouco, a função de um dos principais paradigmas dos dois últimos séculos: o progresso. Da escola à empresa, da família à justiça e ao governo, em todos os campos e para todas as instituições, eis, daqui em diante, a única palavra de ordem: é necessário comunicar. O outro paradigma é o mercado. Que substitui o da máquina, do relógio, da organização, cujos mecanismos e funcionamento garantiam a evolução de um sistema. À metáfora mecânica, herdada do século XVIII (uma sociedade é um «relógio social» e cada indivíduo exerce uma função útil para o bom funcionamento do conjunto) sucede a metáfora económica e financeira. Daqui em diante tudo deve ser regulado segundo os critérios de «Sua Majestade» o mercado, panaceia última”. E continua: “ na primeira fila dos novos valores: os lucros, os benefícios, a rentabilidade, a concorrência, a competitividade”.

 

As “leis” do mercado tomam o lugar das leis da mecânica (que rege a vida dos astros, do cosmos e da natureza) como explicação geral de movimentos das sociedades.

 

Com efeito, estes dois paradigmas – comunicação e mercado – constituem os pilares sobre os quais repousa o sistema do mundo contemporâneo no seio do qual se desenvolvem, com grande intensidade, as atividades que, como explica Ramonet, possuem quatro atributos principais: planetário, permanente, imediato e imaterial.

 

O modelo central é constituído pelos mercados financeiros que impõem como ciência de referência já não as ciências naturais, a mecânica newtoniana ou a química orgânica, “mas o cálculo de probabilidades, a teoria dos jogos, a teoria do caos, a lógica imprecisa e as ciências do vivente”.

 

Modelo central este que, tendo como base o liberalismo, doutrina que não suscita a simpatia maciça dos cidadãos e que, tal como na década 80 com Ronald Reagan, nos EUA, ou no Reino Unido, com Margaret Tatcher, teve então, como hoje em dia ainda com mais intensidade, brutais consequências sociais: agravamento das desigualdades, aumento do desemprego, desindustrialização, degradação dos serviços públicos, deterioração dos equipamentos coletivos… que, segundo as propostas dos monetaristas, todos estes problemas seriam automaticamente resolvidos pela «mão invisível do mercado» e pelo crescimento macroeconómico.

 

Os melhores, ditos especialistas, estimavam que, graças à desregulação, à abolição do controlo do câmbio, à globalização financeira e à mundialização do comércio, a expansão seria perpétua.

 

O enriquecimento fácil foi encorajado e aparecem os novos-ricos aventureiros, alguns deles detentores de mega empresas. A especulação financeira foi encorajada e assistiu-se à apoteose dos golden boys. Ou seja, no âmago do sistema: o dinheiro.

 

Entretanto, incertezas e desordem tornam-se parâmetros fortes para medir a nova harmonia de um mundo em que a pobreza, o analfabetismo, a violência e as doenças não cessam de progredir. Um mundo em que menos de 1/5 dos mais ricos da população dispõem de mais de 80% dos recursos, enquanto mais de 1/5 dos mais pobre dispõe apenas de 0,5%... Um mundo, enfim, em que o montante das transações nos mercados monetários e financeiros representa cerca de cinquenta vezes mais o valor das trocas comerciais internacionais… Um mundo em que, dizendo-se viver, na sua imensa maioria, em regime democrático, se travam intermináveis batalhas eleitorais para conquistar democraticamente o poder, sem muitos destes atores se aperceber que o poder mudou de lugar!... E, mostrando, nessas batalhas, o espetáculo de uma total impotência para mudar seja o que for!...

 

Seres constrangidos a negarem-se constantemente, pois o verdadeiro poder está fora do seu real alcance: está em alhures. Por isso não espanta que surjam expressões, que a muitos escandaliza, mas que exprimem efetivamente a verdadeira realidade – figuras de palhaços na senda política quotidiana… Sem deixarmos de por de fora a hipótese de, infelizmente, alguns desses atores, serem cúmplices de uma farsa da qual só eles são os únicos beneficiários! Exemplos? Para quê? Todos os dias eles nos entram pelos olhos e ouvidos através da todo-poderosa comunicação social que, na ânsia do lucro, nos conta, e explora, somente a parte que é útil à sua sobrevivência, em termos de concorrência e mercado, controlado pelos grandes magnates do poder económico e financeiro, cujo paradeiro e nomes mal sabemos onde param!...

 

Enfim, estamos perante o avanço e a vitória do pensamento único, da pretensão universal dos interesses de um conjunto de forças económicas, em particular, as do capital financeiro internacional. Princípio de tal forma contundente que um marxista distraído não chegaria a nega-lo: o económico leva a melhor sobre o político.

 

A Europa inventou o Estado Providência. Como em nenhuma outra parte do mundo, os cidadãos dos países que constituem a União Europeia beneficiam de uma pensão de velhice, de um seguro-doença, de ajudas à família, de um fundo de desemprego, assim como de prerrogativas de direito do trabalho. Este arsenal de garantias socioeconómicas, conquistadas pelo movimento operário, constitui o âmago da civilização europeia moderna. No fundo, é isso que distingue a União Europeia de outras áreas geopolíticas e, principalmente, de seus concorrentes económicos americanos e japoneses.

 

A lógica da globalização/mundialização e do livre comércio planetário impele a alinhar os salários e a proteção social pelos valores, muito inferiores, praticados nos países concorrentes da região Ásia-Pacífico. E é, na nossa ótica, em nome da eficácia económica, e correndo o risco de quebrar a coesão nacional, que os governos europeus, neste início de século, estão fazendo, ou seja, desconstruindo o edifício social que tanto custou a construir. Porque, afinal, se o dinheiro dos contribuintes não fosse retirado pelos detentores do poder do Estado para ostentarem as suas estranhas, irracionais e megalómanas ambições de permanência do poder e das suas cliques partidárias; se soubessem, com competência, eficácia e eficiência, gerir tal como o faz um «bonus pater famílias», não chegaríamos a este ponto!

 

A performance económica entra em contradição com a cultura e a democracia que, segundo parece, esqueceram a advertência feita, já em 1938, pelo escritor Raymond Queneau: “o objetivo de qualquer transformação social é a felicidade dos indivíduos e não a realização de leis económicas inelutáveis”.

 

Com a crise económica em que, inelutavelmente, estamos, sobrevém também a cultural, assistindo-se à sua própria agonia. Ao ponto de Edgar Morin afirmar que “estamos entrando numa época em que as certezas se desmoronam. O mundo encontra-se numa fase particularmente incerta porque as grandes bifurcações históricas não foram identificadas, não se sabe para onde se vai!”. O futuro apresenta-se-nos bastante incerto, por que tudo está alterado. Por que estamos na hora de questionar certezas, rever práticas, compreender os novos parâmetros dos tempos presentes.

 

Diz Ramonet: “as sociedades europeias continuam a navegar na modernidade, sem objetivo bem definido e sem uma nítida representação do seu devir”. Urje, pois, - porque não se pode dispensar – uma reflexão a longo prazo e em profundidade. Será uma loucura, diz aquele autor, se não se fizer. Porque saímos de um universo de determinismo simples e entrámos num mundo que, dia a dia, mais se complexifica e no qual a incerteza, a estratégia e a inovação aparecem fortemente associados. Porque, compreender, é o desafio fundamental. Porque a crise porque passamos é também a nossa incapacidade mental, intelectual, conceitual para, inclusive, medirmos a sua própria dimensão.

 

A sociedade europeia encontra-se não só sem crescimento mas, mais ainda, sem projeto! E, assim, despojados dos indispensáveis pontos de referência culturais e desidentificados, os cidadãos enfrentam a crise atual na pior das condições mentais. E chegamos a tal ponto – porque sem horizontes de referência – que são raros os intelectuais que percebem e concebem o nascimento de novos horizontes coletivos.

 

George Steiner disse: “os meus alunos de outrora tinham todas as janelas abertas para a esperança: era Mao, Allende ou Dubcek, ou o sionismo. Existia sempre um espaço onde alguém lutava para que o mundo viesse a modificar-se. Presentemente, não existe nada disso”.

 

Em contrapartida, a promessa da felicidade na escola, na família, na empresa ou do Estado é formulada pela comunicação todo-poderosa.

 

Daí a proliferação, sem limites, dos instrumentos de comunicação, dos quais a internet é o coroamento total, global e triunfal. Quanto mais comunicamos, dizem-nos, mais harmoniosa será a nossa sociedade e maior será a nossa felicidade. A nova ideologia do tudo-comunicação, este imperialismo comunicacional, exerce sobre os cidadãos, desde algum tempo, uma autêntica opressão, subliminar, mas profunda. Durante muito tempo a comunicação foi libertadora porque significava, desde a invenção da escrita e da imprensa, a difusão do saber, das leis e das luzes da razão contra as superstições e os obscurantismos de toda a espécie. Hoje em dia, impondo-se como obrigação absoluta, inundando todos os aspetos da vida social, política, económica e cultural, não passa de uma tirania, que, segundo ainda Ramonet, virá a tornar-se, provavelmente, “a grande superstição do nosso tempo”.

 

Para além disso, a sociedade cede as rédeas ao mercado. Este, tal qual um líquido ou um gás, infiltra-se, penetra em todos os interstícios da atividade humana, convertendo-as à sua lógica. Inclusive, determinados campos que, durante muito tempo, estiveram à margem do mercado, como a cultura, o desporto, a religião, a morte, o amor, etc., estão sendo inteiramente invadidos pela lógica da mercantilização generalizada, da oferta e da procura.

 

Todas as mudanças que estes dois paradigmas – comunicação e mercado – provocaram, desestabilizaram fortemente, de uma forma rápida e formidável, os dirigentes políticos. Estes, na sua grande maioria, sentem-se superados por uma cascata de reviravoltas que modificam as regras do jogo e os deixam, no mínimo, parcialmente, impotentes. E não é por isso que deixam de reclamar, alto e em bom som, uma «modernização» e uma «adaptação» aos novos tempos.

 

Por sua vez, inúmeros cidadãos têm a impressão de que os verdadeiros senhores do mundo não são aqueles que têm as aparências do poder político e de que, praticamente, a totalidade dos Chefes de Estado estão superados pelos acontecimentos e não parecem estar à altura de enfrentar uma crise – aliás, muitos não chegam sequer a identificar os contornos da mesma.

 

II

 

Perante este quadro, perguntamos, os os autarcas que nos «governam» estão à altura do desafio que os momentos por que passamos exigem?

 

Há muito que vimos defendendo quais os requisitos que reputamos essenciais para que tal desiderato tenha um mínimo de sucesso.

 

De lá até aqui, o que observamos? Nos partidos, ditos do arco do poder municipal, o que vemos? A mesma estratégia; os mesmos processos; o mesmo discurso, conforme se é poder ou oposição; as mesmas recriminações; as mesmas promessas… Mudam-se apenas as caras – umas mais bonitas que outras, e, o que praticamente conta, é a estética e simpatia pessoal do candidato (a).

 

 

As verdadeiras mudanças, a nova ordem de que tanto hoje necessitamos, não são aquelas que vêm (ou nos impõem) de cima. Elas constroem-se, de uma forma verdadeiramente esclarecida, a partir da base. Porque é aqui que, com uma nova mentalidade, como de uma verdadeira revolução cultural e mental se tratasse, é que estão as pessoas, a verdadeira obra-prima para a construção de um Novo Mundo. Por isso acreditamos naqueles que, a partir da sua aldeia, do seu bairro, da sua cidade e do seu município, procuram, de uma forma democrática, representativa e partilhada, ser capazes de, com os seus pares e vizinhos, lucidamente, empenharem-se nessa nova construção. Porque acreditam que novos mundos são possíveis!

 

Para uma melhor e mais eficaz ação, hoje, mais que nunca, exige-se dos dirigentes políticos uma total compreensão do mundo em que vivemos. Exige-se dirigentes políticos com uma visão esclarecida do mundo que pisamos, deixando para trás os discursos que integram um elenco de promessas eleitorais que, imediatamente, são desmentidas pela realidade e, consequentemente, não cumpridas.

 

Existe, porventura, debate autárquico? Os principais intervenientes desse debate contribuem, com elevação, para o diálogo, compreensão e construção de uma sociedade flaviense mais aberta, informada e partilhada na gestão da coisa pública flaviense, que é de todos nós e, para a qual, todos nós, com maior ou menor grau, contribuímos.

 

Porventura não assistimos, como há dois mil anos, ao mesmo espetáculo que os romanos ofereciam aos seus súbditos - Panem et circenses?...

 

António de Souza e Silva

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:18
link do post | comentar | ver comentários (2) | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 5 de Agosto de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

Refundar (reformar) o Estado ou reformular novas regras do «jogo» (político) democrático?

 

I

 

Em período de férias, não se está para muita reflexão e «discursos». Mesmo no mundo do espetáculo, em vez de «estreias», assistimos a «reprises».

 

Pois, connosco, desta vez, acontece-nos o mesmo.

 

Talvez seja pelo excessivo calor a que, neste período, estamos sujeitos, mas, perdoem-me os leitores, desta feita, apetece-nos mais ler que escrever.

 

E, revisitando textos nossos publicados no passado noutra local, reproduzimos, com algumas adaptações, aqui, uma «reprise» de um texto escrito no passado 9 de fevereiro de 2013.

 

Estávamos em pleno «reinado» neoliberal do governo de Passos Coelho e Paulo Portas.

 

 É no contexto deste período que o texto que se segue deve ser lido e interpretado.

 

Contudo, cremos, a atualidade do(s) temas(s) continua a mesma. Consequentemente válida. Tanto mais quando comemoramos neste ano os 40 anos da Constituição da República e do Poder Local.

 

E agora com mais acuidade dada a mudança de novos protagonistas e de “novas esperanças”...

 

II

 

Deixemo-nos de eufemismos, caros políticos – exímios vendedores, de discurso fácil!

 

Agora a palavra reforma do Estado está sendo substituída pela palavra «refundar»?... Não nos soa um pouco a um certo passado, com outras cambiantes?

 

fig-1.jpg

Vindo de quem vem, tal desígnio até nos parece que outra coisa não é se não a «destruição», pura e simples, do Estado que temos. Mas, se atentos aos protagonistas e ao que sobra do sumo das suas eloquentes e retóricas palavras, a coisa será bem assim?

 

Se não, vejamos:

 

  • A ideia da proposta fala a sério como devem ser organizados os diferentes setores da administração central e periférica?

 

  • A ideia da proposta fala a sério como deve ser gerido o setor empresarial do Estado?

 

  • A ideia da proposta fala a sério como deve ser organizado o território e, consequentemente, gerido, em termos da administração regional e local?

 

É isso que efetivamente se quer, ou seja, acabar com uma administração central assente na palhaçada da lógica de concursos, que de imparciais pouco ou nada têm, para dar lugar aos que são da mesma cor ou à cunha para afilhados, enquanto os reputados candidatos a funcionário e técnicos não entram?

 

Será que se quer acabar com a dança indecorosa dos «boys» e «girls» que enxameiam os gabinetes ministeriais, pagos a peso de ouro e sem qualquer experiência profissional, senão a partidária, enquanto os reputados técnicos da administração pública, pagos por todos nós, são postos numa prateleira (ou vão para qualquer quadro de mobilidade especial, pagos a meia pataca e com o ferrete de já inúteis)?

 

Será que se está a pensar reestruturar os serviços de forma espartana, mas com efetiva lógica de eficácia para as funções que devem desempenhar, trabalhando com eficiência, acabando com os luxos, mordomias e desperdícios?

 

Será que se quer acabar com a maioria dos serviços e quadros da administração pública, encomendando tais tarefas a «empresas amigas», pagas milionariamente, tal como aconteceu com as parcerias público-privadas, por se ter reconhecido total incapacidade da administração pública para levar a cabo as suas funções, congeminando «negociatas» ultra milionárias com grupos e instituições cujo proveito só delas estas retiram, deixando para trás um negro fumo de compadrio e corrupção?

 

Quanto ao setor empresarial do Estado. Já alguém, de uma forma séria, discutiu e assentou que setor empresarial deveríamos ter?

 

Já alguém, de uma forma séria,  exigiu que fossem geridos com verdadeira eficácia, como se de uma verdadeira empresa se tratasse, e não mais uma instituição para colocar os amigos e correligionários do partido, pagos a peso de ouro, para, depois, uma vez mais, sermos nós, com os nossos impostos, a pagar, para além desses ordenados milionários, o preço de ineficiência e consequentes incompetências?

 

Quanto à administração regional e local. Fiquemo-nos apenas pelas autarquias.

 

fig-2.jpg

Como é possível que, em pleno século XXI, num mundo tão diferente e globalizado como o que hoje em dia temos, continuemos a ter uma organização territorial assente num modelo de meados do século XIX, com mais de 150 anos?

 

Como é possível, numa era do conhecimento, informação e técnica e das ultrassofisticadas  redes de informação, haja o enorme espartilho de autarquias que temos com tão amplas competências e uma complexa organização e gestão de serviços?

 

Será que a mascarada do trabalho que foi feito por este governo (de Passos Coelho e Paulo Portas) de «extinguir», parece, mais de mil freguesias, sem «tirar» um só município ou câmara, foi digno e sério? Será que não foi andar a brincar com todos nós e com o nosso dinheiro, plasmado em impostos de natureza insuportável?

 

Porventura algumas freguesias e municípios hoje em dia já não se justificam que existam. Por isso, essas mesmas, devam ser extintas.

 

Mas somos contra a extinção, pura e simples, das autarquias. Elas têm uma história, adrede a um território que amamos. Tem um passado que deve ser honrado e preservado!

 

Agora o que não podemos é ter, num país tão pequeno, tantas câmaras e tantas juntas de freguesia a serem administradas e geridas com uma carga de órgãos e pessoas que giram à sua volta! Tal situação já não se justifica!

 

Esta forma de gerir o país, assente no sistema político-partidário que temos, levou à perpetuação, tal como nos séculos XIX e XX, do caciquismo local e, com o poder que hoje em dia os municípios (câmaras) têm, a um despesismo incrível e inaceitável, por proliferação, por todo e qualquer canto do país, de obras faraónicas e ineficientes, porque mal dimensionadas, em termos de escala não só territorial com das gentes que servem.

 

Por isso, a reforma do Estado, em termos autárquicos, deveria começar por cima e não por baixo!

 

Ao termos rejeitado a regionalização, demos uma forte machadada na possibilidade de esta situação se poder inverter. Porque a regionalização, entendida também como uma nova forma de administrar e gerir o território, fatalmente teria de abordar a alteração do atual espartilho do quadro autárquico do nosso país.

 

Porque hoje com os meios que a ciência e a técnica põem ao nosso dispor, a escala regional é a mais adequada para administrar e gerir com eficácia e eficiência o nosso território, aligeirando competências e o peso institucional das atuais autarquias, ao lhes retirar as competências dos sistemas e serviços mais complexos, focalizando-as mais nos serviços de proximidade e vizinhança.

 

A regionalização não foi por diante, mas, ao menos, poderíamos ficar por uma solução porventura intermédia.

 

Se bem que a escala seja ainda pequena, mais adequada para a gestação de sistemas intermunicipais, como abastecimento de água, saneamento básico, recolha de resíduos, redes de gás, eletricidade, gestão territorial, etc., o conjunto dos municípios do Alto Tâmega e Barroso poderia ser uma boa base de partida. Assim, porque, a partir desta realidade, não se pegava nestes seis municípios – Boticas, Chaves, Montalegre, Ribeira de Pena, Valpaços e Vila Pouca de Aguiar – e se criava uma única estrutura que substituísse, em termos de efetiva representação democrática, a atual CIM-AT (Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega), que não apresenta, na sua efetiva prática, nenhuma coesão territorial, porquanto, ali, cada autarca se encontra democraticamente legitimado para lutar, única, e quase exclusivamente, pelos interesses do seu próprio concelho, havendo raros momentos de solidariedade?

 

A Comunidade Intermunicipal do Alto Tâmega (CIM-AT) não passa de uma autêntica mascarada!...

 

O que impede que isto se faça? O lobby dos senhores presidentes câmara, como já com a regionalização aconteceu, coadjuvados, muitos deles, com a atuação de alguns centralistas, políticos e opinion makers, defensores acérrimos das «regalias» que o «Terreiro do Paço» lhes dá!

 

E é aqui que tudo bate.

 

Em Portugal jamais se farão reformas a sério enquanto este estado de coisas do nosso sistema político partidário se mantiver. Infelizmente!...

 

Daí se compreende que a reforma do sistema eleitoral não vá por diante bem assim a da organização e gestão do território.

 

Os partidos, de um modo especial os do arco do poder, não a querem porque sabem que, se deixam à sua sorte os seus «caciques»-autarcas, não dispõem de meios no terreno para, na batalha eleitoral, terem sucesso assegurado.

 

Vivemos, manifestamente, num regime partidocrático.

 

Não somos contra a existência de partidos. Muito pelo contrário! Somos pela sua efetiva democratização, plasmada num maior protagonismo dos seus militantes, e não somente do da sua «nomenclatura». Nos partidos que temos vive-se como se estivéssemos num regime de ditadura. Não há efetivamente «direito» a pontos de vista diferentes e divergências, pois o que não faltam são «muftis» para proferirem a sua respetiva «fatwa», sob pena do exercício de verdadeiras «purgas». Sem o amplo debate, resultante de pontos de vista diferentes, divergentes, não há lugar a uma autêntica vida democrática dentro dos partidos (e a maioria dos debates não passam de puras encenações!).

 

O que é fundamental é simplesmente a aceitação do que é essencial num partido, ou seja, a sua matriz fundacional, o que levou à sua existência. Quem, eleitoralmente, em eleições internas verdadeiramente esclarecedoras e livres, sem qualquer constrangimento, vencer, apresentando a melhor leitura da situação e as melhores propostas estratégicas, é quem governa. Os vencidos não são postos de lado. Em função das suas qualidades, vontade e competências, devem lealmente colaborar nas tarefas da construção da alternativa democraticamente vencedora!

 

Numa sociedade em que cada vez mais se valoriza o sujeito como pessoa – ator e fazedor do seu próprio destino -, o nosso sistema político transformou-se numa estrutura opaca, coartando, tanto quanto pode, o papel do cidadão e dos movimentos de cidadãos no palco da cena política ativa.

 

Muitos dos que votam não conhecem as pessoas em quem votam – apenas siglas partidárias.

 

fig-3.jpg

Se não dermos um espaço muito mais amplo de participação ao cidadão (e movimentos) responsabilizando-os também como agentes-atores, fazedores da polis, quebrando com a hegemonia quase absoluta dos partidos na política, caminharemos para uma sociedade cada vez mais descrente da política, dos políticos, em dessintonia completa com aqueles (as) que, supostamente, os deveriam representar. E, desta forma, está-se a um pequeno passo da perversão do sistema, aliás como dia-a-dia, constantemente, já estamos presenciando.

 

Por isso, dizemos, mais que reformas que, no final de contas, não são mais que paródias do nosso viver coletivo, há que, primeiro, reformular, de uma forma séria e empenhada, novas regras do nosso «jogo» (político) democrático.

 

Se o sistema político não assumir, com autenticidade, a função e o papel dos cidadãos, quer dentro quer fora dos partidos, como indivíduos em palco, da política ativa, responsabilizando-os cada vez mais, ficará porta aberta para o cidadão comum se divorciar por completo da política, aumentando cada vez mais todo o tipo de oportunismos e corrupção (apesar do papel dos meios de comunicação, mas cuja lógica está fora do jogo democrática, pois estes, numa verdadeira lógica capitalista e de mercado, somente atendem ao lucro da notícia), enfraquecendo, inexoravelmente, a vida democrática do país em que vivemos.

 

E, órfãos de uma vida democrática autêntica, nosso país tornar-se-á – como aliás já está acontecendo -, presa fácil das aves de rapina que, a preços da chuva, e com a conivência cúmplice de uns quantos histriões,

 

fig-4.jpg

e que outra coisa não são senão verdadeiros «vendedores do templo», mas apelidando-se de salvadores da pátria, desbaratam e alienam os nossos recursos, tornando-nos depois presa fácil, «escravos» de um sistema no qual «eles» ditam as regras do jogo e não nós próprios.

 

Quanto a este sistema de coisas, cujo exemplo mais recente são as célebres sanções que os burocratas e alguns “donos disto tudo” nos queriam impor, imitemos o nosso grande artista Bordalo Pinheiro quando, embora noutro contexto, esculpiu esta célebre caricatura.

 

fig-5.jpg

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 03:03
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 8 de Julho de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

O FERIADO MUNICIPAL DE CHAVES E OS 40 ANOS DO PODER LOCAL

 

I

 

Hoje é o Dia do Município de Chaves.

 

Muitos municípios escolheram o seu feriado municipal comemorando um santo; outros, por ocasião da criação do seu município ou eleição ou indigitação da sua sede a cidade; outros ainda, em razão de um acontecimento local relevante.

 

Chaves escolheu este dia pela sua relevância no contexto nacional da altura.

 

Com efeito, a partir de 8 de junho de 1912, definitivamente, os monárquicos ou legitimistas deixaram de ter qualquer apoio ou veleidade quanto ao regime que em Portugal iria vigorar – a República, saída de 5 de outubro de 1910.

 

É certo que se viveram na altura tempos excessivamente complicados, difíceis e perturbantes nos poucos anos em que a I República vingou, fruto não só de um complicado e dramático contexto internacional, mas também das excessivas dificuldades que Portugal, a sua economia e sua sociedade, tinham para se adaptarem ao ritmo da modernidade.

 

Mas o que está em causa não é o que veio a seguir à implantação da I República. Do que se deve falar é do ideário que a I República trazia para o Portugal daqueles tempos.

 

Não estamos de acordo com aqueles que contestam esta data como feriado municipal, dizendo que ela não é significativa, chegando ao ponto de afirmarem que este dia é «vergonhoso», porquanto, nas escaramuças entre republicanos e monárquicos, até havia flavienses nas duas frentes.

 

Salvo o devido respeito, estamos em total e completo desacordo com este entendimento. Nada de relevante na história se faz sem luta, sacrifício e até com o custo da própria vida. E não é por isso que não se devem comemorar certos acontecimentos, incorporando-os na nossa vida coletiva como elementos identitários da mesma.

 

Os Defensores de Chaves, em 8 de julho de 1912, ao darem uma machadada definitiva na «ressurreição» legitimista ou monárquica, mostraram a todo o país que tinham um ideário e por ele, afincadamente, lutavam – a República.

 

Por isso, o 8 de julho é para os flavienses uma data na qual eles mostram ao país inteiro, na senda daquilo que foi sempre a sua história, vivendo em terras de fronteira, lutando pela independência do nosso rincão, de que lado da história eles estiveram e estão – na assunção dos seus ideais progressistas, democráticos, de justiça social e de desenvolvimento da sua pátria e do seu município.

 

O 8 de julho, ao contrário do que alguns afirmam, não ofende ninguém, muito pelo contrário, enobrece a causa pela qual um punhado de valentes homens flavienses lutaram, numa lógica republicana e progressista.

 

O 8 de julho não se trata de um acontecimento de qualquer “politiquice caseira de castas flavienses”, outrossim, repete-se, da defesa de um ideário que, após 50 anos da noite salazarenta, nós todos, portuguesas e portugueses, prosseguimos com o 25 de Abril de 1974. Nem sempre com sucesso e no melhor dos caminhos, mas sempre persistindo no encontrar o melhor dos mundos para todos nós.

 

O 8 de julho, sendo historicamente um acontecimento travado em solo flaviense, evoca um ideário pelo qual muitas portuguesas e portugueses se bateram. Razão suficiente para continuar a ser o nosso Dia do Município. E a orgulharmo-nos pelo nosso contributo à causa das ideias de Progresso, de Desenvolvimento, de Igualdade e de Justiça Social.

 

 

II

 

 

Comemora-se este ano 40 anos do Poder Local.

 

A restituição das Liberdades e o Poder Local foram duas conquistas plenamente conseguidas pelo 25 de Abril de 1974.

 

Mas é bem verdade que falta ainda cumprir Abril e Portugal quanto a Desenvolvimento, Igualdade e Justiça Social.

 

Durante 40 anos, o Poder Local foi um elemento fundamental no dar voz às populações locais e ao desenvolvimento das nossas terras, particularmente as do interior.

 

Passados 40 anos, há que refletir sobre o Poder Local que hoje temos e, eventualmente, encontrar novas formas organizativas e outras legitimidades mais consentâneas e adaptadas à realidade de um mundo cada vez mais complexo e totalmente globalizado. Se esta reflexão não for feita, e não encontrarmos outras fórmulas e legitimidades de governação, o atual Poder Local em vez de ser uma fonte de desenvolvimento para as nossas terras e populações locais, transformar-se-á numa das forças de bloqueio da sociedade portuguesa.

 

 

III

 

 

Para comemorar os 40 anos do Poder Local, a autarquia flaviense achou por bem agraciar os autarcas que desempenharam funções de vereador na Câmara Municipal de Chaves durante este período.

 

Consultando as atas da Câmara Municipal não se percebe muito bem da fundamentação da proposta, se de verdadeira proposta se trata a intervenção do Presidente de Câmara na reunião ordinária de 29 de abril de 2016. Apenas damos conta do estabelecimento de um critério para a atribuição das diferentes medalhas municipais, por ocasião do Dia do Município, e tendo em conta a comemoração dos 40 anos do Poder Local: de ouro, se foi vereador a tempo inteiro, com pelouro(s); de prata, se foi vereador a meio tempo, com pelouro(s) e de bronze, se foi simplesmente vereador, quer tenha ou não assumido qualquer pelouro.

 

Fomos vereador a tempo inteiro na autarquia flaviense durante dois mandatos. Por tal facto, somos, pois, um dos comtemplados.

 

Aceitando, democraticamente, as legítimas deliberações do atual executivo municipal, não podemos, todavia, estar de acordo com semelhante «proposta» ou critério de atribuição. Não é o estatuto de vereador a tempo inteiro, meio tempo, com ou sem pelouro(s), e o ser simplesmente vereador, com ou sem pelouro(s), que lhe dá legitimidade para ser agraciado. Trata-se aqui de um critério fácil de atribuição que não releva do real valor do trabalho que o ex-autarca, independentemente do seu estatuto, desempenhou em prol do desenvolvimento do seu concelho. Nem tão pouco tem em conta o real sacrifício pessoal, profissional e familiar que o mesmo teve no desempenho das suas funções, quando muito bem sabemos que um vereador a tempo inteiro, ou mesmo a meio tempo, tem a vida muito mais facilitada para o desempenho de funções autárquicas do que um simples vereador que, para além da sua atividade profissional, participa e desenvolve trabalho (voluntariamente) nos órgãos da autarquia.

 

Por estas razões a nossa consciência apontava-nos que não deveríamos receber tal agraciamento, porquanto, como cidadão e flaviense de coração – há mais de cinquenta anos vivendo nesta terra – outra coisa não fizemos, quando integrámos os elencos camarários, em dois mandatos, em função de um imperativo ético, que cumprir um dever de cidadão. E, olhando para a lista de agraciados, tendo em conta o critério adotado, damo-nos conta que a lista está incompleta...

Sabemos que a memória humana é curta, passível de falhas. Mas a história, com as suas fontes, aí está para nos relembrar. Temos pena que uns tenham sido lembrados e outros esquecidos!

 

Melhor ponderando sobre este assunto, tomámos a decisão de comparecer à cerimónia de hoje e receber a aludida medalha.

 

Houve dois argumentos que barraram as objeções da nossa consciência. O primeiro assenta no pressuposto de que quem vai receber a medalha não é simplesmente o cidadão e flaviense, António de Souza e Silva, mas o ex-autarca, militante socialista, que integrou as listas do Partido Socialista nas duas eleições em que o PS de Chaves saiu vencedor. Quem vai ser agraciado é o ex-autarca socialista que integrou uma equipa e lutou por um projeto de progresso para Chaves, tendo tudo feito, com o seu melhor saber e competência, pese embora as suas enormes falhas, para que aquele projeto em que acreditava fosse em frente.

 

Neste entendimento, é uma enorme honra ir receber a medalha de ouro do Município de Chaves. Não para a levarmos para casa – que tal não merecemos – mas para a entregarmos nas mãos do atual Presidente da Comissão Política do PS de Chaves para ficar no domicílio a que, por direito, pertence – a sede da Secção do PS de Chaves. Porque foi de lá, como militante socialista, que saímos para a autarquia flaviense e nos fizemos autarca. Os méritos que se pretendem agraciar não são nossos, são do coletivo do qual saímos. Sozinhos não seríamos ninguém!

 

A argumentação supra seria só por si necessária para apaziguar a nossa consciência e justificar a nossa presença hoje, às 12 horas, no Auditório Municipal de Chaves.

 

Contudo, outra razão mais funda ditou e justificou este nosso gesto: aquilo que como autarca fomos bebemo-lo no exemplo, no sacrifício, abnegação, persistência e solidariedade de dois grandes amigos, saudosos camaradas e ex-autarcas que, em momentos bem difíceis da consolidação do Poder Local em Chaves, tão bem nos demonstraram o que seja um verdadeiro camarada, um bom socialista – José Augusto Fillol Guimarães e Domingos Benjamim Carneiro Ferreira. Não foram ou vão ser agraciados. Nem mesmo a título póstumo. Pois a medalha que hoje vamos receber, que, como acima dissemos, ficará como espólio na sede do Partido Socialista de Chaves, é a eles inteiramente dedicada para que os novos militantes e próximos autarcas socialistas se lembrem destes dois ilustres e abnegados socialistas flavienses que tanto deram das suas vidas pela a causa do socialismo democrático e do Poder Local em Chaves.

 

António de Souza e Silva

 

 

Salvar

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:23
link do post | comentar | ver comentários (3) | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 3 de Junho de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

ONDE PÁRA A COMUNIDADE INTERMUNICIPAL

DO ALTO TÂMEGA E BARROSO

 

1.jpg

Fonte:- http://adrat.pt/wp-content/uploads/2016/02/EstrategiaAT.pdf

 

Falávamos no nosso último «discurso» sobre a Estratégia Integrada de Desenvolvimento do Alto Tâmega e questionávamo-nos sobre a capacidade dos seus autores e atores locais terem uma densidade institucional suficientemente credível e forte capazes de elas próprias serem integradoras do sistema (territorial) e agentes de mediação capazes de criarem uma base sólida para impulsionarem uma verdadeira e eficaz estratégia (autossustentada) de desenvolvimento.

 

Não é nossa intenção aqui escalpelizar, analisando por ponto, um documento, com perto de 250 páginas, e essencialmente técnico.

 

Sinceramente não sabemos qual foi a equipa contratada para a sua elaboração, nem tão pouco é nossa intenção por aqui em crise a capacidade técnica dos seus autores. Sabemos que foi “encomendado” pelos políticos da região; que obedeceu, porventura, a um “caderno de encargos” e, para a sua elaboração, foram postas metas e objetivos a obter com este documento. O seu horizonte de aplicação é 2020.

 

Todavia, o seu conteúdo é demasiado importante para que os munícipes que integram os 6 municípios do Alto Tâmega (e Barroso) não o conheçam minimamente e, consequentemente, não deixem de refletir sobre ele!

 

E é o que vamos fazer neste despretensioso «discurso», sem sequer termos a pretensão de, repetimos, procedermos a uma análise e reflexão integral do mesmo. Apenas dois aspetos, que reputamos de extrema importância, para o seu sucesso, ou seja, do que se aponta no documento, que é o desenvolvimento do Alto Tâmega (e Barroso).

 

Como nota prévia. Não sabemos das razões porque a Comunidade Intermunicipal (CIM) passou a ser designada tão-somente por Alto Tâmega. Podem-lhe dar as voltas que quiserem, o Barroso, com os dois concelhos que o integram, é suficientemente específico e “forte” para que a CIM o “ampute” da sua designação. Não que estejamos a apelar para uma separação; pelo contrário, apenas chamar a atenção para a sua especificidade, que jamais poderá estar ausente em qualquer estratégia de desenvolvimento territorial.

 

Mas não é este o nosso principal foco de atenção, análise, reflexão e discórdia. Pode ser que aqui o corte da palavra não olvide a atenção para uma realidade muito concreta que é a barrosã.

 

***

 

O nosso pomo de discórdia situa-se noutro foco de palavras, as que são efetivamente ditas, e no significado muito subliminar que elas contêm.

Vamos diretos ao assunto.

 

No ponto 3 do documento sub-judice, que fala da Estratégia Integrada de Desenvolvimento, a certa altura diz-se que “a elaboração da estratégia para o Alto Tâmega teve sempre em consideração uma abordagem que privilegiasse um processo abrangente e participado, envolvendo ativamente os atores mais relevantes do território em causa e que proporcionasse um impacto positivo na região” (sublinhado nosso).

 

Fomos, ao longo do texto, à procura daqueles “atores mais relevantes” e, quando se aborda o Modelo de Governação, a páginas 2007, aqui estão:

 

2.jpg

 

 Fonte:- http://adrat.pt/wp-content/uploads/2016/02/EstrategiaAT.pdf

 

Pergunta-se: não haverá, porventura um enorme desequilíbrio quanto à representação dos agentes locais concelhios no Conselho Estratégico para o Desenvolvimento Intermunicipal? Será que o parecer de entidades como a UNICER e a Solverde, ou mesmo até o Regimento de Infantaria, é mais importante e relevante do que, nomeadamente, as diferentes associações das diversas autarquias?

 

E, já agora, permitam-nos um aparte: o que a UTAD - Universidade de Vila Real - andou a fazer todos estes últimos anos em Chaves para pensarmos que, com a sua integração neste Conselho Estratégico para o Desenvolvimento Intermunicipal, órgão consultivo, se vai envolver ativamente numa Estratégia Integrada de Desenvolvimento do Alto Tâmega (e Barroso)?

 

Mas a nossa apreensão e dúvidas não ficam por aqui.

 

Confessamos que acreditávamos, sinceramente, que o documento, e os políticos que o mandaram elaborar, tivessem uma outra “postura” e uma outra “visão” daquilo que se chama o processo participativo das decisões, que deve ser, evidentemente, o mais transparente e democrático possível!

 

Especifiquemos, porque as palavras têm significados e aquilo que expressamos com elas são portadoras de sentido(s).

 

O que é que entendem os técnicos que elaboraram o documento, e os políticos que o aprovaram, quanto a “atores mais relevantes no território”?

 

Porque, em vez de “atores mais relevantes do território”, não se optou por “atores que mais relevantemente representam os munícipes (todos) do território” abrangente pela CIM - AT?

 

É que as palavras empregues revelam não só uma “ideia” do que se entende por desenvolvimento e, consequentemente, um determinado “modelo de desenvolvimento”!

 

O quadro acima reproduzido, que apresenta os ditos “atores mais relevantes do território”, é significativo quanto ao “modelo de desenvolvimento” que nos propõem, ou pretendem impor, para o Alto Tâmega (e Barroso)!

 

Sabemos das fragilidades que, quer a ADRAT, quer a ACISAT, em si mesmas, comportam. Mas por duas entidades ou empresas que operam (Solverde e UNICER) neste território, e que nem sequer estão cá sediadas, não será um pouco de mais, ou porventura, cedência a certos poderes?....

 

É certo que, quando o documento fala na Missão, ali se diz que pretende-se que os “atores regionais do Alto Tâmega irão mobilizar-se de forma articulada e em rede na dinamização de iniciativas que permitam a materialização da Visão proposta, tendo em atenção a eficácia dos resultados e a racionalização do uso dos recursos”, falando-se na adoção de uma estratégia em “hélice quádrupla”, contando com as empresas e as Associações Empresariais; entidades do Sistema Científico e Tecnológico; as Câmaras Municipais dos seis concelhos; as Associações de vária natureza e as IPSS, refletindo, estas últimas (Associações e IPSS), as vontades, “preocupações e visões dos cidadãos do Alto Tâmega, [desempenhando] estas entidades (...) também um papel importante na região [que] importa, por isso, envolver no processo”. E adianta-se: “É através destas que se consegue uma implementação real e próxima dos principais destinatários e interessados em todo o processo – os cidadãos – incrementando as possibilidades de sucesso de um plano que lhes é dirigido”.

 

Mas onde está espelhada esta “representatividade” em termos do Conselho Estratégico para o Desenvolvimento Intermunicipal, por forma a mantê-las “envolvidas, constantemente entusiasmadas e com vontade de participar ativamente na sua concretização”?

 

Fica-se com a ideia que o Conselho Estratégico para o Desenvolvimento Intermunicipal do Alto Tâmega (e Barroso), em termos práticos, não passa de uma “fachada”. Com efeito, mesmo sendo um órgão de natureza consultiva, onde está representado o cidadão anónimo do Alto Tâmega (e Barroso), ou seja, a esmagadora maioria da sua população, que não se espelha, ou nem sequer está representada, naquela “hélice quádrupla”?

 

***

 

O segundo aspeto tem a ver com a Visão proposta no aludido documento - o topo da pirâmide da Estratégia Integrada de Desenvolvimento.

 

3.jpg

Fonte:- http://adrat.pt/wp-content/uploads/2016/02/EstrategiaAT.pdf

 

Vejamos o que o documento expressa quanto à Visão: “Até 2020, o Alto Tâmega será um território integrado, que conseguirá inverter as tendências demográficas atuais, através da promoção da coesão social e da dinamização da economia local, tendo por base o aproveitamento da localização de fronteira e a valorização dos recursos endógenos, especialmente a água”.  

 

Sem uma Visão, não há qualquer estratégia de desenvolvimento que tenha sucesso. Porque é a Visão que se tem para um território que mobiliza as instituições e os cidadãos/munícipes para o seu próprio desenvolvimento.

 

Só que a Visão tem de ser clara, percetível, fácil de entender por todos os munícipes. Tal como seu nome sugere, tem de funcionar como “um raio de luz” que ilumine o cidadão e o leve à ação. Porque são eles os cidadãos/munícipes os atores/agentes do seu próprio desenvolvimento, porquanto ninguém desenvolve ninguém a não ser nós próprios.

 

Por isso, pergunta-se: será que esta Visão, assim formulada pelos técnicos, e aceite pelos políticos, é efetivamente mobilizadora?

 

A que faz a Unidade de Direção, constante do Modelo de Gestão e Organização em termos de comunicação para que o conteúdo veiculado pela equipa técnica seja percetível e, consequentemente, mobilizadora para todos os munícipes do Alto Tâmega (e Barroso)?

 

Em suma, não será a Estratégia Integrada de Desenvolvimento do Alto Tâmega (e Barroso) um documento-retórica, completamente ultrapassado pela realidade “dolce far niente” que o dia-a-dia nos oferece?

 

Passado ano e meio sobre este documento, o que o cidadão do Alto Tâmega (e Barroso) e, concretamente, o munícipe de Chaves sabe quanto à sua execução, suas propostas e ações mobilizadoras?

 

Alguém sabe que canais usa a Unidade de Direção para comunicar com todos os cidadãos do Alto Tâmega (e Barroso)?

 

Não estaremos antes perante uma “caixinha” só manipulável pelos nossos políticos de turno, totalmente afastados da realidade concreta do quotidiano dos problemas dos altotameguenses e barrosões?

 

António de Souza e Silva

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:36
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 1 de Abril de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

 

DESENVOLVIMENTO DO ALTO TÂMEGA

AS NOSSAS INTERROGAÇÕES

 

I

 

Os sistemas produtivos locais das "regiões que ganham" organizam-se em torno de dois eixos:

 

  • a coesão interna: capacidade de os vários actores do sistema conceberem uma estratégia comum de desenvolvimento;

 

  • a abertura ao exterior: a capacidade de o local estabelecer contactos externos e aceder às dinâmicas de desenvolvimento globais.

 

Na base deste dois eixos está o conceito de densidade institucional, essa característica que, assente nas relações de proximidade, assegura a coesão dos sistemas produtivos locais pela lógica de ação coletiva fundada nas convenções e instituições locais, e deste modo, funciona como o ponto de partida para os territórios construírem os seus processos de desenvolvimento.

 

Temos a base e os eixos em que se articula o desenvolvimento territorial. Mas como se criam as competências fundamentais para a competitividade desses sistemas produtivos? Para a elaboração deste emergente paradigma do desenvolvimento local e a "explicação" da competitividade territorial surgem quatro conceitos chave que estão obviamente interligados e se reforçam mutuamente (BRAMANTI):

 

  • inovação; learning (aprendizagem); redes; governância.

 

 

figura 1.JPG

 

 

 Fonte: Bramanti (1999); (Retirado de Cerqueira, 2001)

    Figura 1.– O emergente papel do território: uma visão diagramática dos quatro fatores chave

 

Desde a nova teoria do crescimento endógeno até às abordagens evolucionistas, a inovação é hoje consensualmente vista como um motor de crescimento. O que as novas abordagens do desenvolvimento regional fizeram foi incorporar o espaço como um fator "interno" no processo de criação e difusão de inovação.

 

Mas devemos aqui entender inovação no seu sentido mais lato, ou seja, mudanças benéficas, sejam ela técnicas (novos produtos ou melhorias nos existentes), organizacionais (métodos de gestão) ou institucionais (mudanças de hábitos ou mentalidades) (MAILLAT e KÉBIR).

 

A importância dos processos de aprendizagem já foi salientada para a criação das "competências" necessárias aos sistemas produtivos locais (tecnologia, know-how, qualificação dos recursos humanos e métodos de gestão) para responder aos desafios da globalização e da learning economy. Globalização e learning economy são dois conceitos intimamente ligados por um processo de causalidade cumulativa: o surgimento de uma economia mundial integrada permitiu uma aquisição de informação, competências e tecnologias mais rápida e com menos custos que no passado; por outro lado, a globalização tem sido impelida pelas novas tecnologias de informação, que tem funcionado um pouco como o seu "meio de transmissão" (JOHNSON e LUNDVALL). Ou seja, quanto mais global é uma economia mais learning economy se torna, e vice-versa.

 

O impacto positivo das novas tecnologias de informação na produtividade só poderá ser aproveitado pelo local se as suas redes de cooperação forem capazes de integrar e difundir estes processos de inovação, tornando-se também redes de "conhecimento intensivo". E a competitividade territorial só será alcançada se essas redes, apoiadas na sua base local, ultrapassarem essa dimensão conseguindo gerir as diferentes fases da atividade produtiva (financeira, I&D, marketing, distribuição) que hoje se realizam a uma escala global.

 

A governância é o conceito usado para descrever o processo organizativo, ou se preferirmos, político, que une conceitos (inovação, aprendizagem e redes) na elaboração duma estratégia de desenvolvimento, e que é dependente da capacidade dos atores e instituições duma região, ou seja, da sua densidade institucional.

 

O que daqui resulta é que para além da força motriz do mercado e da capacidade reguladora do Estado, deve existir uma outra entidade a que BRAMANTI chama de integradores do sistema (sejam agências de desenvolvimento, associações empresariais, etc.), e cuja função será fomentar os processos de criação de bens públicos e sobretudo bens relacionais, ou seja, funcionarem como agentes de mediação no estabelecimento da estratégia de desenvolvimento que passa, como vimos, pela inovação, redes e processos de aprendizagem. É o papel das instituições que promovem a confiança para cooperar e interagir que facilita a incorporação desse conhecimento. E o que é válido para os processos de aprendizagem também o é para a inovação e a criação de redes, onde a dicotomia mercados/Estado dever ser substituída por uma relação de complementaridade traduzida numa governância de base local.

 

figura 2.JPG

 

Fonte: Bramanti (1999); (Retirado de Cerqueira, 2001)

 Figura 2. O Os processos de desenvolvimento territorial - Da base ao ponto de chegada

 

São estes os quatro pilares em que assenta uma estratégia de desenvolvimento local e a forma como eles se interrelacionam. E é da combinação "correta" desses fatores que se explica as histórias de sucesso de certas regiões e o declínio de outras. Esta combinação deve ser vista em articulação com os dois eixos atrás definidos: o grau de coesão interna do sistema e a sua capacidade de abertura ao exterior (redes transnacionais ou o circuito global de produção), isto é, se o isolamento do exterior provoca uma "morte por entropia", o excesso de abertura anula os efeitos da proximidade e provoca a desintegração do sistema. É então no equilíbrio entre este dois eixos que a mencionada combinação correta se estabelece.

 

Contudo, as regiões mais desfavorecidas não possuem as pré-condições necessárias – uma densidade institucional que, articulada numa coesão interna e numa relação com o exterior, construa um processo de desenvolvimento baseado nos quatro fatores chave atrás referidos - o que as remete para um círculo vicioso de pobreza e desfasamento.

 

O que aparece então como central numa política pública de desenvolvimento local para as regiões mais desfavorecidas é a inversão desse círculo vicioso. A estratégia para estas regiões deve ser a de estabelecer os meios com os quais se ultrapassem os limiares mínimos de densidade material e institucional que qualificam um determinado espaço (REIS, 1999). O que passa por intensificar as bases (económicas, sociais e culturais) que concorrem para a formação duma coesão interna apoiada em características coletivas (não privadas), e lançar instituições formais, sobretudo as que incentivam os processos de aprendizagem. Desta forma, iniciam-se processos de causalidade cumulativa para criar a necessária densidade institucional, a condição primeira para uma competitividade territorial capaz de gerar o bem-estar local.

 

Ou seja, há um limiar mínimo de densidade que é necessário atingir, uma base que é necessário criar. Temos pois a necessidade de uma nova política de desenvolvimento local que, articulada com esses integradores do sistema ou agentes de mediação, os fomentadores dos processos de criação de bens públicos e relacionais, possa criar essa base para uma estratégia de desenvolvimento que passa, como vimos, pela inovação, processos de aprendizagem, redes e governância.

 

II

 

Lemos atentamente o documento «Alto Tâmega – Estratégia de Desenvolvimento Territorial». Feito, naturalmente, por técnicos cuja competência não pomos em causa e que, no papel, esquadrinharam a estratégia de desenvolvimento do Alto Tâmega, do qual, o concelho de Chaves, faz parte.

 

A responsabilidade deste documento, e da sua estratégia gizada, é da CIM (Comunidade Intermunicipal) do Alto Tâmega.

 

Sabemos qual seja o maior desiderato deste documento e estratégia – a obtenção do maior número de Fundos Comunitários possível de uma Comunidade Europeia que anda a desnorte.

 

Pondo este desiderato de lado, nossa maior dúvida vai para a real eficácia daquele documento e consequente estratégia que propõe. Na verdade, pergunta-se:

 

  • Onde está a capacidade de coesão interna do Alto Tâmega, quando sabemos que, por parte, fundamentalmente, dos seus autarcas, cada qual “puxa” para o seu “feudo”, não vendo a região onde se inserem como um único território e com uma única visão?

 

  • Onde está a abertura ao exterior dos seus autores e atores locais, fazedores do seu próprio desenvolvimento? Temos no Alto Tâmega uma densidade institucional suficientemente credível e forte, com instituições que o compõem, capazes de elas próprias serem integradoras do sistema (territorial) e agentes de mediação capazes de criarem uma base suficientemente forte para uma verdadeira e eficaz estratégia (autossustentada) de desenvolvimento?

 

 

Temos sérias dúvidas.

 

No próximo «discurso» voltaremos a este assunto, esclarecendo nosso ponto de vista.

 

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 02:53
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 4 de Março de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

RECORDANDO APRESENTAÇÃO DO LIVRO

 

“CRÓNICA TRISTE DE NÉVOA”

 

 

Arrumando gavetas, sem contar, fomos dar com este texto que, na íntegra, reproduzimos:

 

“Quando começamos a ler Crónica Triste de Névoa e os nossos dedos lentamente vão esfolheando as páginas que a cada movimento nos contam as histórias da história ou nos remetem para o esconderíjio, recôndito, onde o pequeno João nos relata as suas memórias, ficamos com a sensação de que o autor, um flavienese, na ressaca das suas noites de insónia ou nas manhãs de pesadelo, outra coisa não quis senão nos contar uma história de “névoa” para flaviense reviver, ou seja, e como um amigo me dizia, um livro de um flaviense para flavienses.

 

1600-tristedenevoa

 

Os estereótipos representados quer pela figura do Dr. José Fino, quer do Eng. Filipe Pereira, quer ainda do bem conhecido Rosmaninho soam, são familiares para muitos flavienses. E quem é que já não ouviu falar das tertúlias dionisíacas como aquelas do Café Comercial? Aqueles, como eu, que aqui viveram a sua adolescência, nas décadas 60 e 70, outra coisa não ouviam contar!

 

Mas o que torna esta narrativa diferente é a forma sui generis como está arrumada e é tratada. Ou seja, a afronta do opíparo viver durante 12 longos movimentos – ou 12 longos meses - de certos personagens, no recanto de Névoa, na década de 40, enquanto milhões de seres humanos morriam por essa Europa fora e outros, bem junto de nós, pelas ruas de Névoa, mostravam a mais pura pobreza.

 

Este contraste neorealista, por vezes cínico, de retratar a realidade flaviense, servindo-se do palco encoberto, de Névoa, é apenas um pretexto, um artifício usado, ao longo dos doze movimentos da obra para nos interrogarmos sobre a nossa condição humana. As atrocidades da guerra, o pensamento do senhor Oliveira Salazar e até as reuniões de Câmara, presidida pelo medíocre capitão José Borges, para acabar com a pobreza em Névoa, entre outros, outra coisa não são que simples quadros aos serviço desta tarefa: a descrição de cidades sem rosto nas quais a pobreza e miséria moral é bem mais preocupante e degradante do que a pobreza material.

 

E quão bem longe estão os quadros da pobre e miserável Névoa das memórias dos 12 meses vividos em Montalegre e em especial em Ervededo, imersa em ruralidade!... São histórias de vida, tristes, é certo, as do João Domingos e do seu amigo Manuel Fortunato, bem como da avó Maria Fonseca, entre outras, mas autênticas, edificantes, cheias de valor e amor, de um verdadeiro calor humano. São memória as palavras sábias da Maria Fonseca para o pequeno João e a camaradagem e solidariedade entre o Manuel Fortunato e o João Domingos, que jamais deverão ser esquecidas! Num mundo em que cada vez mais se questionam e põem em causa princípios e valores que devem pautar e reger a conduta dos homens e da sociedade, os diálogos entre o pequeno Joazinho e a avó Maria Fonseca são de um enlevo, de uma doçura! Verdadeiramente de encantar!... Obrigam-nos a refletir sobre os verdadeiros e genuínos valores das relações e convivência humana!

 

1600-brunheiro (355)

 O vale de Chaves mergulhado em névoa

 

O livro Crónica Triste de Névoa é assim, e antes de mais, um genuíno tratado de pedagogia, para além de um verdadeiro ensaio de história de época, de um estudo da sociedade flaviense da década de 40 bem como um verdadeiro estudo de etnografia transmontana, digno de um autor que nunca negou o exercitar activo da cidadania, entendendo que a construção do homem como cidadão se faz pela vivência e partilha dos usos, costumes e tradições, com os seus princípios e valores, nas comunidades que nos viram nascer e nos acolhem.

 

Foi como aprendiz de professor que, em finais da década de 70, conheci João Madureira na então Escola do Magistério Primário de Chaves. Já lá vão vinte e quatro anos!...

 

1600-jm (11)

João Madureira

 

O meu relacionamento com o João nem sempre foi fácil nem tão pouco linear, apesar de sempre rico de intensidade humana. A sua personalidade não se apreende e “apanha” facilmente. João Madureira, quem é? Apesar de estarmos em presença de uma obra que também nos relata a sua saga familiar, devemos contudo ter sempre presente que a natureza humana é, pela sua específica, polifacetada e transitória condição, sempre difícil de se definir numa simples pincelada. Mas creio que o livro que hoje nos é dado à leitura, em certo sentido, nos levanta essa “névoa” e, por isso, poderemos arriscar. Vejamos se, nas palavras do professor de filosofia, em empolada e acesa cavaqueira no Café Comercial com os seus comparsas, e nas da avó Maria Fonseca. Porventura aqui ele não se deixa “apanhar” e nos levanta, de alguma forma, parte do seu «véu».

 

1600-torre (115)-1

 Torre de Ervededo

 

Enfim, que o exercício de altivez apreendido e diagnosticado pela rica e intensa personagem da Maria Fonseca na personalidade do pequeno João redunde em capacidade de ousar uma vez mais em nos deliciar com temas e histórias dos nossos pais e avós mas também sobre temas do mundo que, também nós, ajudámos a construir e que vamos deixar como legado aos nossos filhos. Esse mundo, no dizer de uma conhecida colunista de uma revista semanal, que nos fala, lá fora, do terrorismo, da guerra do Iraque, da política externa americana, da política externa europeia, dos Balcãs, do Médio Oriente, do 11 de Setembro, do Afeganistão, do Presidente Bush, dos Berlusconis e Tony Blairs, da liderança europeia, do caso espanhol, do atentado de Madrid, da economia mundial, do Brasil, do Terceiro Mundo, das novas exclusões sociais, da ciber-sociedade, do problema das televisões e do papel não só informativo mas também formativo, como veículo privilegiado de comunicação que são, dos compromissos internacionais de Portugal, do envio de tropas portuguesas para palcos de guerra, dos miseráveis que constituem a maioria da população mundial, da sida, do fundamentalismo islâmico, das novas religiões; e cá dentro, da sociedade depois do 25 de Abril, do nosso sistema político, se a economia muda ou não, se a qualidade média dos governantes e governos muda ou não; dos média, da justiça, da educação, da cidadania, da saúde, dos direitos humanos. E do pensamento em relação à cultura, às cidades, à ruralidade, à administração pública, enfim, de todos os lugares-comuns da nossa contemporaneidade, do mundo em que vivemos e em que os nossos filhos hão-de viver... Nunca esquecendo, atendendo à especificidade e tristeza do dia que hoje todos vivemos, de reflectir sobre a precaridade da vida e do momento que hoje atravessamos com a morte de um homem que viveu sempre em função das suas convicções e dos seus ideais de solidariedade humana e da convivência entre os povos, como um iminente e convicto europeísta – Sousa Franco!...

 

E aqui não me queria antecipar, como a avó Maria Fonseca para o ronronante Joaozinho, no final desta obra: “Não sei se faço bem em contar-vos estas histórias”!...

 

Pela minha me interrogo se faço bem em estar para aqui a repetir-vos todas estas coisas.

 

Mas... creio que vale a pena!

 

Ler, refletindo, faz falta.

 

Leiam esta obra!

 

E ponham-se também a escrever. Coisas que tenham a ver com todos nós. Com o nosso viver. Porque todos seremos poucos para construirmos um mundo cada vez melhor!”.

 

 

Montalegre, 9 de Junho de 2004

 

1600-jm (42)

 João Madureira com o Barroso e a Serra do Larouco de fundo

 

Já se aproximam 15 anos que proferimos estas palavras.

 

Os protagonistas são outros. Os acontecimentos também.

 

Mas será que no mundo, no país e, nesta nossa cidade, mudou assim tanta coisa?

 

Não estaremos em presença de uma Europa sem rumo, num país, de certa forma, «amordaçado», e vivendo numa cidade sem rosto na qual a pobreza e miséria moral é bem mais preocupante e degradante do que a pobreza material?

 

Que pena só se poder ouvir e ler, muitas das vezes, a voz e a escritas «de legião de imbecis», que, a todo o custo, nos pretendem reduzir a simples mercadoria, nos media e redes sociais, dizendo e falando de pura banalidades, tal como o recente falecido Umberto Eco enfatizava, fazendo-nos esquecer da escrita que verdadeiramente nos retrata e nos questiona, fazendo-nos pensar como seres humanos!...

 

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 03:11
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2016

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

ENTRE PÓ E CINZAS

DA GRANDEZA À MISÉRIA DE UM PORTUGAL EM RUÍNAS

 

I

 

Do conceito que temos cidadania, consideramos que cada português (e, consequentemente, cada flaviense), de acordo com as suas competências e apetências, tem o dever, a estrita obrigação cívica, de refletir e alertar, como ser social que é - e de tudo fazer -, para avivar e aprofundar, o mais democraticamente possível, o nosso viver coletivo. Em ordem não só a uma maior igualdade e equidade social, mas também para que essa igualdade e equidade se faça tendo em vista o desenvolvimento integral e harmonioso do território em que nos é dado viver. No respeito pela História e pela nossa memória coletiva. Pondo-a ao serviço das diferentes comunidades, das mulheres e homens que delas fazem parte.

 

II

 

Aqui há dias, numa sala de espera de um hospital privado, observo, no écran de um televisor, a seguinte frase: “Estamos no Norte, no Centro e no Sul do país”. Atentos ao mapa que nos era apresentado, víamos, positivamente, três pequenas manchas: a da área metropolitana do Porto; a da área metropolitana de Lisboa e o Algarve. Era uma infinidade de especialidades médicas e cirúrgicas ao dispor do utente. De uma instituição que apenas conhece simplesmente três pequenas franjas do país, apenas e tão só, situadas no litoral do pequeno retângulo que é o nosso Portugal. Tudo o resto é espaço vazio, desértico, não-lugar.

 

Naturalmente não culpamos estas instituições pela escolha dos lugares onde prestam os seus serviços especializados. Elas, tão-somente, na prossecução da maximização dos seus lucros, seguem a cega lei do dito mercado, instalando-se onde a procura é maior e onde os recursos especializados lhes estão mais acessíveis, à mão.

 

O que, a propósito deste caso - como, de resto, muitos outros que poderíamos elencar -, pretendermos, é questionar e dar ênfase quanto ao modelo de desenvolvimento que, principalmente, desde o Liberalismo e a Revolução Industrial, reiteradamente temos vindo a implementar.

 

De um país que desde o medievo nasceu, cresceu e se fez grande até à era de 500; que viveu do fausto das suas conquistas; que se embriagou pelos seus feitos, de lá para cá, o que fez em capital acumulado (e não esbanjado) em prole de uma maior riqueza e desenvolvimento do seu povo e das suas gentes?

 

Pelo contrário, de lá para cá, outra coisa não temos vindo a assistir, sistematicamente, senão ao cotejo (precisemos mais, cortejo) das nossas misérias, quando deixamos partir a fina seiva dos nossos melhores ativos à procura de uma pátria outra que melhor cuide deles!...

 

A elite que gere este náufrago, que somos todos nós que por cá ficamos, vivendo das prebendas das instituições que controlam, e que criaram, com o nosso suor e as nossas lágrimas, transformadas em impostos, e vivendo opiparamente à beira mar plantada, esqueceu-se, de norte a sul, do Portugal interior, que também somos todos nós, não se importando que esta (s) ruína (s) - pessoas e património - que entretanto vão perecendo, se transformem em pó e cinzas.

 

III

 

Vítor Serrão, no prefácio do pequeno livro Portugal em ruínas, de Gastão de Brito e Silva, a certa altura, refere: “O conceito de «ruína» assume aqui uma linguagem pesada e culposa [...] na constatação de que pouco ou nada se fez para evitar a desonra e a indignidade. Estes destroços de casas rústicas e solares, igrejas, fábricas, hospitais ou fortalezas, que se multiplicam na paisagem construtiva do país de norte a sul, formatam uma parte da nossa História recente, como se, apesar das boas leis da salvaguarda que existem, apesar da competência dos técnicos e dos profissionais do setor, apesar da riqueza das doutrinas e - mais do que tudo - apesar da extraordinária riqueza patrimonial de um país que, a esse nível, parece inesgotável de recursos, andássemos divorciados do que à nossa volta se passa, distraídos perante o abandono escandaloso que grassa nos nossos sítios de memória e cúmplices silenciosos dos atos especulativos que são crime de lesa-majestade.

 

As ruínas, com o acúmulo do tempo de abandono, deixam de ser recuperáveis e passam a ser «não-lugares sem memórias». Para muitos, tais não-lugares passam a não ter sentido e a ser desnecessários, o que legitima o ato destruidor como condenação inevitável [...] Quando o sociólogo (e fotógrafo) António Barreto avisa sobre a possibilidade de Portugal deixar de existir como país, tal como o conhecemos, justamente porque se perdeu este olhar de consciência estética (e ética) através da qual nos relacionamos como o nosso quotidiano de referências, o alerta está dado para os múltiplos perigos que decorrem deste depauperamento auto suicidário sem sentido - que urge saber enfrentar.

 

Será imperioso não esquecermos, portanto, que é no âmbito do «saber ver em globalidade» que tudo se inicia e que a consciência da salvaguarda dos patrimónios se reforça sem preconceitos excludentes - vistos não mais como a «parcela morta» no campo da Cultura [...] mas como algo que importa preservar, nem que seja pelo registo cripto-artístico, quando a recuperação se torna já impossível.

 

Trata-se, em suma, de parcelas de um «corpo único, coerente e vivo», tão importantes quanto os grandes monumentos do tecido patrimonial reconhecível, e que por isso impõem respeito, desvelo de olhares, estudo integrado, inventariação rigorosa e cuidados preventivos inadiáveis” (Janeiro de 2014).

 

IV

 

Somos pouco dado a elogios pessoais. É, contudo, justo que abramos aqui uma exceção.

 

Temos verificado e constatado, ao longo destes 11 anos de existência do blogue CHAVES, do nosso amigo Fernando DC Ribeiro, todo o carinho e empenho que o autor põe no registo do acervo fotográfico, como arte, transformado em documentário-memória, do nosso património construído, rural e urbano (do Alto Tâmega e Barroso e, especialmente, o do concelho de Chaves). Grande parte dele é hoje já, manifestamente, ruínas. Em pouco tempo, se nada fizermos, nada restará senão pó e cinza.

 

Não está apenas na nossa mão inverter esta tendência global que crassa pelo país fora em termos da delapidação daquilo que nos verdadeiramente identifica - a nossa memória histórica e coletiva.

 

Mas, certamente, está nas mãos de todos os flavienses refletirmos sobre o nosso meio urbano e, principalmente, o meio rural. Para decidirmos o que nele perspetivamos em termos de futuro. Cuidando do património que estamos a deixar cair em ruínas. Respeitando a memória do seu tempo. Inventando novas valências, pondo-as ao serviço do tempo presente e do futuro.

 

Deixarmo-nos cair na apatia e na indiferença é desinteressarmo-nos pela nossa própria identidade. É apressarmos a nossa «morte» como flavienses orgulhosos que devemos ser da nossa terra e da grandeza da nossa história.

 

AZS_7904.jpg

 (Outeiro Seco - Solar dos Montalvões)

 

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:32
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2015

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

   TODOS DIFERENTES, TODOS IGUAIS

 

I

 

Nestes últimos tempos, três acontecimentos têm ocupado, preferentemente, os espaços informativos dos media: os ataques jihadistas (do Daesh) em Paris; a Cimeira do Clima (sobre o aquecimento global), também em Paris e, mais por casa, a Tomada de Posse do XXI Governo, de António Costa.

Nestes três acontecimentos encontro um traço comum que os liga: uma nova postura, uma nova necessidade de estar na vida, na sociedade, no planeta que nos é dado viver, a requerer uma mudança - de mentalidade, de atitude, de ação.

Comecemos pela Tomada de Posse do XXI Governo Constitucional e analisemos os discursos e as posturas dos seus dois principais intervenientes: Cavaco Silva, principalmente, e António Costa.

Deixando de lado a justificativa do discurso de conjuntura de cada um, para um observador minimamente atento (e isento), o que ali esteve presente foram duas visões, duas formas de ver e encarar o mundo, o futuro, aquilo que aí vem.

Falemos abertamente. O discurso de Cavaco Silva representou o último estertor, o «grito de agonia» de um homem desesperado, agarrado ao passado e à preservação e manutenção dos privilégios das castas possidentes que arrastaram a maioria do povo português para a pobreza. Ao falar do jeito que falou, deixou-nos preocupados. Os portugueses não precisam de tanta crispação. Muito menos vinda do seu Presidente da República. Ainda bem que pouco falta para o homem deixar o cargo, que deveria ser exercido com uma vertical e exemplar isenção e com autêntico e fervoroso sentido patriótico (ao verdadeiramente perceber a vida e o dia-a-dia da maioria dos portugueses)! Defender proselitamente tratados (orçamentais) europeus, como se fossem leis divinas, numa Europa a braços com uma enorme crise, principalmente de identidade, que sabe que para sobreviver terá de mudar de vida e se refundar?!... Este homem deve urgentemente entrar no Convento para, no recato rigoroso daquele mundo celestial, se arrepender, fazer o seu mea culpa, pagar e penar as suas culpas e se entregar, definitivamente, a uma verdadeira clausura de silêncio.

 

II

 

A enorme violência a que todos assistimos nestes últimos dias em Paris, feito o pesado luto das suas vítimas, deve-nos obrigar a levar a pensar em que tipo de mundo em que vivemos.

Quando, aqui há uns tempos, acabávamos um trabalho sobre a Grande Guerra não nos saía da cabeça as seguintes palavras de Affonso Romano de Sant’Anna:

[...] Os homens amam a guerra

E mal suportam a paz.

 

Os homens amam a guerra,

portanto,

não há perigo de paz.

 

Os homens amam a guerra, profana

ou santa, tanto faz.

 

Os homens têm a guerra como amante,

embora esposem a paz.

 

[...] Durante séculos pensei

que a guerra fosse o desvio

e a paz a rota. Enganei-me. São paralelas

margens de um mesmo rio, a mão e a luva,

o pé e a bota. Mais que gêmeas

são xifópagas, par e impar, sorte e azar

são o ouroboro - cobra circular

eternamente a nos devorar.

[...] Acabará a espécie humana sobre a Terra?

Não. Hão-de sobrar um novo Adão e Eva

a refazer o amor, e dois irmãos:

Caim e Abel

- a reinventar a guerra.

 

Positivamente, hoje a realidade é esta. Mas, obviamente, não acreditamos em tais fatalismos. Acreditamos que as duas margens do mesmo rio um dia se encontrarão, felizes, abraçadas no Mar da Paz. Desde que o Homem tenha a sensatez para saber cuidar do «útero» donde proveio e se fez. A atual e desenfreada exploração e uso dos recursos da nossa Mãe Terra levou a que, pela negligência de todos e avidez de alguns, uma qualquer catástrofe possa surgir (para além, infeliz e inevitavelmente, das naturais) pondo em grave crise a existência da espécie humana no nosso planeta.

A modernidade, ao fazer-nos acreditar na ideia de progresso social para a humanidade, intimamente ligado ao progresso científico e à razão, veio dar um novo folgo à cidadania, herdada da Grécia clássica, entendida como construção de espaço de felicidade para todos.

Sabemos, contudo, no que resvalou o projeto da modernidade. E como, a partir desta experiência, de sucessivos desastres patenteados ao logo do século XX, irrompeu a rejeição da tentativa de colonização pela ciência dos demais espaços culturais, levando ao surgimento daquilo que autores apelidam de uma sociedade dita «pós-moderna» – que os meios de comunicação e informação modernos propiciaram -, ou seja, uma sociedade fragmentada, heterárquica, global, policontextual, portadora de uma nova dinâmica, e cada vez mais complexa. Uma sociedade que levou ao aparecimento, cada vez mais acentuado, da individualismo e de uma cultura dita narcisista. Que vive sob as ordens do presentismo e do agorismo, e em que o futuro se nos apresenta apenas como portador de medos e não eivado de projeto(s) de esperança.

Temos de criar novos espaços públicos que incluam, necessariamente, um desvio de rota na lógica dos que defendem o desenvolvimento como crescimento indiscriminado e perverso dos recursos naturais. Porque somos Natureza e, como tal, ou nos construímos solidariamente, ou nos tornamos agentes privilegiados de desintegração planetária pela implosão da esfera pública, vista como espaço vital de partilha humana.

Temos de reinventar uma ética inclusiva a partir da multiplicidade de experiências, cimentada pelo escopo comum de disseminar novos espaços de solidariedade, e não prescindindo de uma comunhão saudável com a Natureza. Em que se encare seriamente uma educação ambiental abrangente e aberta, disposta a reconciliar a Humanidade com o mundo em que vive, encontrando no pensamento ecológico um novo princípio ético, assumindo pretensões de universalidade.

Cabe, portanto, à cidadania, enquanto processo de construção de espaços públicos, formular um novo contrato social, baseado na responsabilidade, individual e coletiva, no governo cooperativo e na cosmopolítica, de cunho fortemente emancipatório, e tendo como princípios fundacionais a ecologia, a solidariedade participativa e a inclusão social.

Espaços públicos de vida digna que devem ser construídos paulatinamente por meio de frentes comuns de combatividade solidária, tendo como horizonte de sentido a partilha de espaços sociais de que os cidadãos necessitam para a realização coletiva de suas identidades e diferenças.

Repetimos, como já o fizemos no último discurso, se hoje assistimos a uma globalização elitista, em cujos processos as condições materiais de existência são crescentemente apropriadas pelos «novos cidadãos» do mundo, urge lutar politicamente por uma globalização inclusiva, em que desenvolvimento passe a significar mais qualidade de vida, maior partilha do bolo de bens e riquezas, que os agentes privilegiados do sistema de mercado se negam a socializar, em vez de uma acumulação de capital predominantemente privado, conquistado à custa da «descartabilidade» do ser humano-cidadão. Porque, apesar de todos diferentes, somos todos iguais.

Por isso, dou as boas-vindas a este XXI Governo Constitucional. Sei que muita gente, mesmo aqueles que pertencem ao Partido Socialista, não estão de acordo com esta solução, e estão intimamente do outro lado da «barricada».

Saúdo António Costa pelo seu realismo e pragmatismo. Hoje exige-se aos líderes partidários que não sejam heróis mas que sejam agregadores de vontades para que, em conjunto, assumindo naturalmente cada um as suas diferenças, possamos encarar o futuro, que sabemos cada vez mais inseguro, perigoso, incerto e imprevisível. Porque todos somos poucos.

 

III

 

É este também o nosso desejo para as gentes e as terras deste Reino Maravilhoso das outrora Águas de Flávio: que renasça uma outra mentalidade e atitude de estar na vida e na sociedade flaviense, enfrentando, todos, os nossos próprios problemas comuns, assumindo que somos todos diferentes mas que igualmente devemos ser tratados e convocados para a construção do nosso próprio futuro. Desaparecendo, definitivamente, aquele espírito de seita, que certos autarcas, que estiveram à frente dos nossos destinos, tinham na hora de olhar e repartir o bolo do orçamento municipal em ordem à melhoria das condições materiais, sociais e culturais das suas gentes. Erradicando, de uma vez por todas, aquele espírito, por nós presenciado, que, afanosamente, em períodos eleitorais, não tinha vergonha, quando ao povo se lhe pedia o voto, em apregoar que «se apenas tiver um rebuçado, não o ia dar ao zorro, mas sim ao filho legítimo», pouco se cuidando se o zorro tinha a barriga vazia e o filho cheia!

 

IV

 

Saímos, recentemente, de membro de um órgão social de uma associação flaviense, legalmente constituída, funcionando regularmente, com planos e orçamentos aprovados e cuja atividade fundamental é a formação, a ocupação dos tempos livres, a animação cultural e a divulgação da nossa terra e suas gentes por todos os cantos do mundo da diáspora transmontana.

Embora os seus representantes sociais, em meados de 2010, se tenham apresentado na autarquia flaviense para darem a conhecer a sua associação, volvidos mais de 5 (cinco) longos anos, ainda a mesma não faz parte da lista oficial das associações do concelho.

Solicitado um espaço para a sua sede, dos espaços possuídos pelo Município de Chaves, tarde e mal, e sabe-se o que se lutou, e com que vontade lhe foi concedido um cubículo, onde apenas se podem sentar não mais de 4 ou 5 pessoas, pois, quando é necessário convocar os associados para Assembleias Gerais, o «pessoal» espalha-se pelo corredor que abarca outras (e fartas) instalações de outras associações...

Quanto às relações de colaboração da autarquia com a associação. Sabendo a autarquia da existência de gente com «engenho e arte» para a elaboração de trabalhos e exposições, os seus responsáveis fazem de conta, esquecem-se que esta gente existe. Mas paga (e bem caro!) trabalhos individuais para serem expostos, editados e divulgados, dizendo que estão a promover a cidade, o concelho e o seu património, quando outra coisa mais não faz que promover individualidades, ditas artistas, alguns deles, no máximo três (3) membros, em objetiva e nítida deslealdade para com a sua associação, segundo uns; como autênticos Cavalos de Tróia, segundo outros. Para quem, nas páginas do Facebook faz uma propaganda militante contra os políticos, a corrupção e o compadrio do poder, não há dúvida que estas ditas individualidades de artistas dão aqui um bom exemplo!...

Senhores responsáveis da autarquia flaviense, analisaram porventura, em profundidade, o verdadeiro conteúdo e significado do Padrão dos Povos cujo original se encontra no Museu da Região Flaviense, e com uma réplica num dos lados do nosso ex-libris - a Ponte Romana?

Aquae Flaviae romana fez-se em diálogo e colaboração com gentes de culturas e terras diferentes!

É esse grande legado, que os romanos nos deixaram esculpido, que esperamos que os vapores de condensação das suas Termas, agora a descoberto, não tapem a visão aos autarcas de hoje.

É salutar assumirmos a diferença. É ética, politica e verdadeiramente democrático tratarmos como iguais os filhos, quer os da constância do matrimónio (ditos outrora legítimos), quer os de fora do mesmo (outrora zorros). Todos eles são flavienses. Diferentes, porventura; mas iguais na mesma humanidade, trato e dignidade.

E qualquer autarca que se preze, seja de que partido for, está onde está, não para servir a sua corte, clientela e acólitos (diga-se, militantes ou simpatizantes), mas todos os cidadãos e flavienses.

 

António de Souza e Silva

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:26
link do post | comentar | ver comentários (1) | favorito
|  O que é?

.Fotos Fer.Ribeiro - Flickr

frproart's most interesting photos on Flickriver

.meu mail: blogchavesolhares@gmail.com

.Setembro 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
14

23

24
25
26
27
28
29
30


.pesquisar

 
ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

 

 

El Tiempo en Chaves

.Facebook

Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita Instagram

.subscrever feeds

.favorito

. Solar da família Montalvã...

.posts recentes

. Discursos sobre a cidade ...

. Discursos sobre a cidade

. Discursos sobre a cidade

. Discursos Sobre a Cidade

. Discursos Sobre a Cidade ...

. Discursos Sobre a Cidade

. Discursos sobre a cidade ...

. Discursos sobre a cidade ...

. Discursos sobre a cidade ...

. Discursos sobre a cidade ...

. Discursos sobre a cidade ...

. Discursos sobre a cidade ...

. Discursos sobre a cidade ...

. Discursos sobre a cidade ...

. Discursos sobre a cidade ...

blogs SAPO

.Blog Chaves no Facebook

.Veja aqui o:

capa-livro-p-blog blog-logo

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites