Amizade
Ele, perdido por achar
Escondido no alto do monte:
Quem à claridade o vê
Confunde-o com o vento,
Quem na escuridão o escuta
Quer ver a luz e o rumo
É pequeno, à luz do dia
E grande na vastidão da noite…
Também poderia ser assim
Mas sucumbe-me o desejo:
Só quando o Mar bravo afasta e atormenta
Quer ele encontrar um porto seguro
Quando manso e claro
Por mais alto que esteja é ignorado
Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
Edificar
Construções construímos humanas
Tão desumanas, coração de pedra
Procuramos em vão, em redor
Em cima e por baixo, tanta dor
Como ainda nos enganas,
Ó construtor
Tudo muito junto, tudo muito perto,
Mas é certo tão certa a nossa solidão
Obra grande ou grande obra, qual certeza:
Enorme encanto e beleza
Ou uma clara escuridão
Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
Amizade
Um sorriso distraído
Tão atento
Uma mão pedida
Segurando nobre lento
Um estar confiante
Nos olhos constante
Compreender
O que se quer esquecer
Guardar o fruto
Do tempo partilhado
E depois
Construir das ruinas
O castelo sonhado
Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
Com Fio
Armei em tua mão
Por boa razão
O poder de ferir
Tal poder te dei
Agora sei
Ao te sentir
E a cada passagem
Com coragem
Bem sei, a esperança
Sem mais nada
No fio da navalha
Há só a confiança
Assim,
Com fio
Ou sem fio
Confio
Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
Esforço
A madeira deixo e na mão gravada uma ideia:
À madeira informe dou forma,
A mão torno rija e deformada
E também eu afiado desafio
Assim a obra nasce transformada
E renasce a cada pancada
Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
Para lá do olhar
Lembra esta ausência
apenas calma ou abandono
Como outrora,
resta-nos esperar pela noite
e ela nos dirá
Para lá do olhar,
se habitado
qualquer chão se torna humano
Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
Evolução
Antes carregava aos ombros
Tudo quanto havia para levar
Agora, acolho imóvel
Tudo quanto há para guardar
Até as portas que guardavam partiram,
E as duras escadas brancas verdes se tornaram
Poderá ser triste, como o semblante da roda quase ausente,
Mas a história é feita da rigidez do que foi
E dos sinais do eterno presente
Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
Cravada pelo tempo
Aqui cravada pelo tempo
guardo quem me segura
Deixo sair, entrando
quem é bem-vindo
Deixo entrar, saindo
quem nunca foi
E aqui, cravada pelo tempo,
permaneço e quem me olha
mais não vê, imagina…
Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
Metamorfose
Um pedaço de madeira, o calor
este ferro em forma de pote
e os frutos da terra a sublimar…
Não é magia, nem mesmo feitiçaria
apenas me deixei
por esta metamorfose encantar
Foto de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
Sustento
Enquanto couber em mim este grito
ouvi-lo-ás, surdo e descontente,
até que o olhar se apague…
Depois, sustentarei alegremente
Quem muito a custo me sustentou
Foto de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
A dureza do sorriso
Triste quem
não souber beber aquele sorriso
até à última gota
Ele que é feito de chuva e pó
E a vida dura perdura
por entre a luz daquele sorriso
Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
Permanecer
Gratas,
Por não se ouvir o chilrear da roda
Ou do ferro a esmagar a pedra dura
Não por velhice, porque ainda há força
E, presentes, sustentamos que perdura
Fotografia de António Tedim, Texto de Paulo Chaves
Destino
O Homem não é um sonho perdido
tem a dor e a saudade
o canto e um destino
e uma voz na liberdade
Se a alma ainda não é nada
e a chama ateada não iluminou
Porém a escuridão é mais clara
Fotografia de António Tedim, Texto de Paulo Chaves
Regresso
Por larga rua caminhamos, olha e vê o nosso passo,
Talvez fosse um florido compasso
Se as portas não trancassem o vazio do eterno silêncio
Olha e vê, ninguém repara no nosso andar
E, assim, seguindo jamais voltaremos
Ou voltaremos, assim, ao pôr-do-sol
Lá, repara, para lá da ponte pelo tempo esculpida
Há, agora, um cão que enche toda a praça
E apenas escondido um homem se afigura
Ali, onde a água reflete o rosto e a memória,
Agora como outrora, a fonte da vida
Ali, antes era público o castigo
Agora, ali, a pedra ninguém convida
talvez voltaremos, assim, ao pôr-do-sol
Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves
Destino
Foi um arrepio súbito, em arrepiar caminho
Nesta névoa circular, como um vulto
Que desassossego, neste passo sossegado, quase parado
Onde só o olhar se move e se quebra o silêncio
Este é o meu grito, é este o meu fado:
Um passo atrás ou seguir o rasto da madrugada
(Fotografia de António Tedim - Texto de Paulo Chaves)



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