(XIII)
Caindo em si, olhou para o relógio. Horas de almoço. Deveria apressar-se. O candidato estaria já em viagem. Havia que verificar toda a informação e supervisionar todos os preparativos para a sua chegada e para a estadia na cidade. Contactou o posto da fronteira e a polícia de trânsito, inteirando-se dos últimos movimentos. Sem almoçar, dirigiu-se depois para a esquadra. Havia que rever e coordenar toda a estratégia com o comandante da polícia.
"É absolutamente imperioso que o apertem depois da intervenção e que o tragam à minha presença, discretamente. Depois disso, deixem-no a sós comigo. Eu tratarei dele". Fique descansado senhor inspector, os nossos homens lidarão convenientemente com o assunto. Eu próprio terei todo o gosto em supervisionar a operação no local, assegurou-lhe o comandante.
Nos bastidores do Cine-Teatro, enquanto aguardava que os agentes lhe trouxessem o candidato, o inspector revia mentalmente os acontecimentos do dia. A recepção havia sido mais entusiástica e a multidão maior do que os serviços haviam previsto. O discurso, emotivo mas não particularmente inspirado, havia sido aclamado e aplaudido como nunca acontecera nas intervenções de Norton de Matos. O regime teria uma data de trabalhos pela frente.
"Protesto, senhor comandante, protesto! Este tratamento é indigno da minha patente e ofensivo dos meus direitos de cidadão!" Atrás do comandante, um grupo de polícias conduzia o candidato em direcção ao inspector. Empertigando-se, o inspector fez um gesto enérgico em direcção ao grupo, dizendo: "Obrigado, senhor comandante. Leve-o para aquela sala e deixe-nos a sós. A partir de agora tratarei pessoalmente do assunto."
Mal a porta se fechou, o inspector estendeu a mão ao candidato, saudando-o. Este sorriu, já descontraído. Não esperava encontrar o inspector ali, nem ouvir o que este lhe disse. "Tenho que ser breve. Confirma-se que o regime preparara medidas para manipular os resultados das eleições. Mas está tudo assegurado, senhor General. Caso a sublevação corra mal, poderemos contar com asilo político em uma ou duas Embaixadas e com a simpatia de alguns diplomatas estrangeiros."
Regressando de madrugada ao hotel, o inspector começou o seu relatório em papel timbrado:
"Quinta-feira, 22 de Maio. O candidato chegou aos arredores da cidade pela EN2, apeando-se junto ao posto da PVT. Ladeando o Jardim Público, dirigiu-se para a Ponte Romana, sempre seguido por uma multidão de muitas dezenas de pessoas, entre as quais se encontravam agentes nossos. (...) Mais tarde, no Cine-Teatro, discursou perante centenas de pessoas, muitas vindas de outras localidades, que o aplaudiram entusiàsticamente. Os seus apoiantes registaram esta intervenção em fita magnética. No final da sessão, já nos bastidores, quando intimado pela polícia local a entregar a pistola que trazia consigo, o candidato declarou que, óbviamente, não faria tal. Tive então oportunidade de o confrontar, a sós. (...) Apesar do crescente apoio que o candidato parece vir a congregar, continuam a não existir indícios de qualquer acção concertada para alteração da ordem pública..."

Texto de Blog da Rua Nove
(XII)
Acordou com os lençóis enrugados, embrulhado sobre si mesmo, como se aqueles panos brancos fossem uma mortalha deixada ao abandono ou um mapa sem sentido. Aquela noite poderia ter durado várias noites. O dia anterior toda uma semana. Não sabia. Madrugada e manhã eram um enevoado indefinido.
Costumava recordar calendários e datas, raramente episódios literários ou livros, que quase nunca lia. Mas de repente lembrou-se da versão da Odisseia, de João de Barros, que lera muito depois da primária. E a imagem de Ulisses, amarrado ao mastro para resistir ao canto das sereias, deixou-o suspenso naquele momento.
Enrolado nos lençóis, sentia-se perplexo. Estaria assim a proteger-se de ansiedades ou sonhos que não recordava? Ou apenas a resguardar-se daquela luz que tudo inundava?
Entrando de lado, por entre os cortinados abertos, o sol, alto, parecia ter estado sempre ali. Sem lhe bater sobre o corpo, dava-lhe a sensação de o ter feito transpirar descontroladamente, destilando uma febre tropical. Cruzaram-lhe a memória imagens de Bafatá, dos Bijagós e do tempo que passara na Guiné. As febres haviam-lhe feito perder a noção do tempo e de si próprio. E agora regressava a si mesmo como se estivesse a recuperar de uma dessas febres. Um estranho em terra estranha e um estranho perante si próprio.
Soerguendo-se a custo, viu o quarto banhado numa luz quase insuportável. Perdida entre essa imensidão luminosa, estava a pasta. Um ponto escuro que contrastava com tudo o resto. Passou a mão pelas pálpebras, pressionando os olhos. Viu inúmeros pontos luminosos, amarelados e alaranjados, agitando-se e palpitando sob a luminosidade avermelhada das pálpebras. Depois, a escuridão. E a seguir o mapa sobre a secretária, ao lado da pasta.
Um mapa já desbotado, que um oficial do exército lhe oferecera anos antes. Um mapa da época em que a cidade ainda era vila. As pessoas que por ali teriam andado teriam sido outras, mas o traçado das ruas parecia ser o mesmo. De modo redundante, a vila velha também parecia ser quase a mesma.
Só ele não parecia ser o mesmo.
(continua)

Texto de Blog da Rua Nove
(XI)
Verificou todos os recantos do quarto antes de pegar no envelope. Pareceu-lhe que havia sido deixado por alguém que se movimentara ali dentro para chegar apenas à mesa. Um envelope azul, de papel espesso e entretecido. Lacrado. Um envelope dos serviços, mas sem qualquer nome ou identificação exterior.
O relatório, como pensara. Abriu o envelope cuidadosamente. Já com os papéis na mão, arregalou os olhos e franziu as sobrancelhas, soltando uma risada surda. Ninguém esperaria que o contactassem daquela maneira. De facto, os oposicionistas arranjavam sempre uma forma engenhosa de comunicação. Teria sido uma das criadas?
Todas as informações coincidiam com as que recebera dos serviços. Na primeira cópia. Na outra surgiam aqueles que pareciam os verdadeiros planos. Seriam documentos fiáveis até para os serviços. Mas a mensagem cifrada estava lá. A rota do candidato, que a polícia já conhecia de antemão, e tudo o resto que desconhecia – os encontros clandestinos, os planos, os contactos privilegiados, as personalidades que o apoiavam, sem que a polícia disso soubesse.
Displicentemente, abandonou os documentos sobre a mesa. Não lhe apetecia continuar a lê-los. Precisava de dormir. Mas nunca conseguira dormir com a barba por fazer. No lavatório refrescou a cara, reparando nas olheiras que se reflectiam ao espelho. Há já muito que não se via assim, com a consciência de estar frente a frente consigo próprio. Olhava para a sua imagem como se olhasse para a de um desconhecido.
No rosto notou duas linhas fundas acompanhando as sombras do nariz, contornando as narinas e terminando quase na comissura dos lábios. Pela primeira vez apercebeu-se que estava a envelhecer. E sentiu cansaço. Um imenso cansaço interior.
Voltou-se, regressando à sala. Colocou os papéis na pasta e fechou o cadeado. Hesitou, parecendo não saber o que fazer com aquele volume. Sem muita convicção, passou a pasta da mesa para a secretária. Exausto, caiu na cama, deixando o pijama na gaveta, a barba por fazer e os cortinados abertos.
(continua)

Texto de Blog da Rua Nove
(X)
Afastando-se das imediações do forte, o inspector Bento entrou no Bacalhau vindo do Bairro Aliança e preparou-se para começar a descer a Rua de Sto. António. Nascia o dia. Uma manhã fresca de primavera, prometendo um céu sem nuvens. Lembrava-se das manhãs de nevoeiro e geada que anos antes encontrara no inverno, e a cidade pareceu-lhe outra. A pérgola do jardim fez-lhe chegar o aroma das glicínias. Quase lhe apeteceu assobiar despreocupadamente. A rapariga era um pedaço. Pena era a criança, mas sempre serviria para lhe evitar outras complicações.
Por momentos esquecera o assunto que ali o trouxera. Aprumou-se quando se apercebeu que já havia gente nas ruas e começou a caminhar mais devagar. Queria dar a impressão de vigilância apertada e atenção redobrada. Queria que o vissem como alguém que por ali andava àquela hora por dever profissional. Omnipresente e vigilante.
Já deveria ter mais informações à sua disposição. Mas precisava de dormir algumas horas. Quando chegou ao fundo da rua estranhou o largo à sua esquerda. Estava habituado às arvores e ao gradeamento do antigo mercado, à agitação das gentes e aos sons que dali vinham. O Arrabalde parecia-lhe agora uma praça sonolenta, à espera de acordar com a chegada dos oficiais de justiça e as zaragatas barulhentas dos litigantes.
À entrada da Rua 28 de Maio amontoava-se uma meia-dúzia de pessoas, esperando a partida da carreira de Braga. Gente ensonada, crianças aninhadas entre gigas e sacos, um ou outro animal de criação. Entrou no hotel quando alguns hóspedes já saíam. Todos o saudaram tirando o chapéu, mas ninguém parou para o cumprimentar. Dirigiu-se para a sala de refeições, onde tomou o pequeno-almoço numa mesa de canto. Sozinho, com olhares e ademanes de afectação e superioridade.
Subiu depois para o quarto, cruzando-se com as criadas que tratavam das arrumações. Deitou o olhar a uma, deu um piropo a outra. Sorridente e seguro entrou na habitação. Perdeu o sorriso quando se apercebeu que alguém lá tinha estado e que havia um envelope sobre a mesa.
(continua)

Texto de Blog da Rua Nove
(IX)
Num impulso, o inspector deixou o clube, não ouvindo as boas-noites do barman nem reparando no sorriso irónico que acentuava aquelas palavras.
Viu ao longe a silhueta que desejava, subindo a Rua Direita. Iria certamente pelo caminho mais plano. Seguindo pelo Anjo e pelo Bacalhau evitaria assim as duas ladeiras que cruzavam a Rua de Sto. António. Mesmo ao longe, os braços levantados que seguravam a criança mostravam umas ancas generosas e deixavam adivinhar uma cintura fina.
Acendeu um cigarro e tossiu levemente. Por entre o primeiro fumo, notou que ela se voltara e o vira. Pareceu-lhe que abrandara o passo. Já no Bacalhau voltou-se novamente. O olhar interrogativo que perpassara por entre os longos cabelos acabou por desaparecer, oferecendo-lhe o rosto agora um leve sorriso.
Seguiu-a até à Lapa. Aí viu que se dirigia para uma casa da muralha, subindo umas estreitas escadas de pedra. Morava num primeiro andar. Aguardou que entrasse, enquanto puxava de outro cigarro. Viu as luzes que se acendiam e o seu vulto passando de janela em janela.
O ar cálido e o silêncio da noite fizeram-no olhar para o céu, à procura da lua. Em vão. Deveria ser noite de lua nova, pensou. Sim, disse para consigo, sim, a última lua cheia havia sido a 25 de Abril... Era uma das suas manias obsessivas. Decorava datas e ocorrências registadas em publicações como se fosse editor de almanaques. Alguns subalternos, em conivente segredo, até lhe chamavam o inspector Borda d'Água.
Quando olhou de novo para as janelas, viu as luzes apagadas, embora lhe parecesse que um vulto se movimentava ainda pela casa. Notou depois a ténue luz que se espraiava pelas escadas. E viu a porta aberta.
"Sei o que fazes", foi a única saudação que recebeu ao entrar. Surpreendeu-se mais com o rosto do que com o desassombro da rapariga. Era tão jovem! As mãos que se estendiam apertaram as suas, até que mãos, braços e corpos se estreitaram num abraço.
Acordou de madrugada com um choro de criança. "Tenho de ir amamentar o bebé", sussurraram-lhe ao ouvido. Quando regressou, a rapariga encontrou a cama vazia.
(continua)

Texto de Blog da Rua Nove
(VIII)
Ainda não acabara o bife quando as pessoas começaram a sair da missa. A curiosidade fê-lo levantar-se. Lentamente, demonstrando afectação e um interesse que queria interpretado como profissional, aproximou-se da janela. Ligeiramente recuado, foi observando as saídas.
Mulheres idosas trajando de luto, com os véus sobre o rosto e o terço na mão, casais de braço dado, conversando amigavelmente, crianças seguindo pela mão das mães, uma mulher de criança ao colo...
Seguiu-a com o olhar. Cabelos pretos longos, rosto e braços como alabastro. Um rosto alongado e de feições quase perfeitas. O barman notou aquele olhar. Conhecendo a fama do inspector, aproximou-se, dizendo em voz baixa: "Chegou há pouco tempo à cidade. Parece que veio de A-Ver-o-Mar. Vive sozinha com o filho, na Lapa, junto ao forte."
O inspector puxou de um cigarro e deixou que o fumo criasse um véu azulado entre ele o vulto que se afastava. Seguia aquelas pernas esguias e lembrava-se de um filme alemão que vira há muitos anos. Imaginou-as longas e tentadoras, como as de Marlene.
Com uma diferença fundamental. Estas estavam ali, ao seu alcance.
(continua)

Texto de Blog da Rua Nove
(VII)
No bar, encontrou a clientela que esperava. Três ou quatro bebedores inveterados junto do barman, um ou dois jogadores de passagem para a sala do fundo e o resto, um grupo animado de rapazes, junto das janelas, apreciando as meninas que chegavam para a missa.
O barman sorriu-lhe, apelando à simpatia de uma pessoa que sabia ser importante. "Boa noite, inspector Vladimiro Bento! Já há muito que não o víamos por aqui." Habitualmente renitente a que o tratassem pelo nome próprio, decidiu não dar importância de maior à saudação, acenando de volta com um baixar e levantar de queixo.
Em Lisboa, no serviço, já estava por demais habituado aos remoques sobre o nome que o pai, entusiasta da revolta bolchevique, havia escolhido sem a menor hesitação. Mas a paciência desaparecia quando a essa graça juntavam os trocadilhos sobre S. Bento e o apelido.
Aguentara isso enquanto estagiário e agente, mas agora não. O posto e a idade haviam-lhe trazido respeito entre os colegas. Só os mais velhos ainda se atreviam a insinuar uma ligação ideológica ao pai, republicano saudosista, comunista indefectível, que dissera mal da situação até à morte.
O criado, ali, não saberia fazer essas insinuações. Queria apenas ser simpático e prestável, procurando cumplicidade e protecção. E uma boa gorjeta. Pediu um vermute. "Aperitivos?" Que sim, que ainda não tinha jantado. Estava de costas para as janelas, mas apercebera-se da debandada. A missa já tinha começado.
Anos antes juraria que andariam por ali mais alferes e tenentes. Mas talvez a mudança do quartel e a distância os tivesse dissuadido. Ao virar da esquina, antigamente, ficava agora quase fora da cidade.
"O senhor inspector quererá comer algo?", perguntou-lhe o barman. "Podemos arranjar-lhe um bife." Deveria ter feito um trejeito de surpresa, pois a explicação surgiu logo de seguida. "Sabe, cada vez temos mais gente ali na sala ao lado, e cada vez saem mais tarde. Tivemos que começar a arranjar uns petiscos e as pessoas começaram a protestar, porque a comida só ia para o reservado..."
Aquiesceu no bife. Entretanto, na sala, um grupo juntara-se a um canto, discutindo um quadro. Nos anos anteriores nunca reparara nele, devia estar ali há pouco. Eram apenas curvas, quadrados, rectângulos e nada mais.
Virou-se para o barman. "Zé, o que é aquilo?"
A resposta chegou com um sorriso escarninho. "Diz bem senhor inspector, diz bem. Aquilo. Aquilo é uma coisa que agora para aí trouxeram. É de um rapaz que está em França, filho do nosso poeta. Diz que é pintor. Mas olhe que os azulejos que tenho lá em casa metem mais vista que essa coisa. Até um pedreiro com alguns tijolos, argamassa e um pedaço de tinta fazia melhor... Olhe, para não ir mais longe, ao pé disto, até o garoto que tenho lá em casa é um artista!"
(continua)

Texto de Blog da Rua Nove
(VI)
"Sei ao que vem, senhor inspector, sei ao que vem...", respondeu-lhe o comandante com um esgar de ironia a acompanhar o gesto nervoso. Dirigiu-se para um grande armário com um cofre, de onde retirou uma pasta, que lançou sem cerimónia para cima da secretária junto da qual o inspector se sentara.
"Aí tem. Nomes e movimentações. As deslocações mais recentes. Estão todos vigiados." O inspector abriu lentamente a pasta onde se encontravam meia-dúzia de páginas dactilografadas com algumas anotações manuscritas.
"Muito bem, muito bem", observou compenetradamente, sem dar a entender que os seus serviços já lhe tinham entregue uma lista semelhante, acrescida de fotografias.
"Está tudo muito bem, senhor comandante, mas aqui nada se diz sobre as famílias dos criminosos da raia... Têm sido vigiados? Têm-se revoltado ou pronunciado contra a situação? É de esses que eu quero saber!"
"Ainda não acabaste o trabalho, grande cabrão? Estás mais preocupado com eles do que com o general... E bem podes estar, porque as pessoas podem ter medo mas não esquecem", pensou o comandante, enquanto lhe dizia: "As pessoas das aldeias estão preocupadas com a família, com os familiares, não querem saber destas políticas da cidade e do governo. Não se preocupe que eles não se envolvem nisto... É uma coisa só de doutores e intelectuais."
"Deixe as preocupações para mim e faça o seu trabalho, senhor comandante. Quero saber se há, ou não, pessoas da raia que se possam envolver com a oposição! Quero um relatório sobre possíveis ligações, aos comunistas e aos intelectuais que apoiam esta candidatura, de todos aqueles que foram presos !"
Os olhos do inspector impunham-se ao silêncio remoído do comandante. Via-lhe e sentia-lhe a vontade de lhe responder levantando-lhe a voz. Mas não, surpreendentemente o comandante sentara-se e conseguira controlar esse instinto.
"E quero também saber se andam para aí a falar e a tentar recordar os acontecimentos, aproveitando esta agitação e este entusiasmo dos oposicionistas!", acrescentou ainda.
"As pessoas podem calar, senhor inspector, mas não esquecem!", rematou o comandante, enfrentando-o directamente com o olhar. "Hmm, afinal talvez não sejas tão cobardolas assim...", considerou o inspector enquanto lhe respondia, silenciosa mas firmemente, com um olhar frio e profissional.
A tensão ficou a pairar no gabinete muito depois de as últimas palavras terem sido pronunciadas e de o inspector se ter levantado e saído.
Escurecia quando saía da esquadra. O ar cálido das ruas animava-se com vultos lentos que se dirigiam para a novena. À porta do clube, homens e rapazes assistiam à chegada das pessoas que iam à missa. Sempre fora um óptimo local para ver quem ia à igreja.
Nem pensou duas vezes. "Jantar? Ainda não, poderei cear mais tarde..." Empurrou o guarda-vento, onde os vidros com monogramas demarcavam um território selecto, e dirigiu-se para o bar. Dali poderia assistir discretamente ao provinciano pavonear das vaidades e ao desfile das meninas casadoiras.
(continua)

Texto de Blog da Rua Nove
Sob os seus pés, a gravilha era um cilício em movimento. A cada passo, sofrido mas sereno, relíquias fragmentadas da lapidação de Santo Estêvão cortavam-lhe os pés descalços.
A meio da subida, uma visão. As chagas da pedreira aberta na montanha.
Sob o sol, cada minúscula pedrinha, resvalando e reverberando, reproduzia o calor da fogueira e das brasas que haviam martizado São Lourenço.
Ao fim do dia, no cimo do Brunheiro, sob uma difusa auréola de neblina, a catarse era o imenso vale aguardando o luar.

Alto, espadaúdo e bem parecido, o senhor director da Liga para os Bons Costumes era um incansável defensor da moralidade e da família. O sogro delegara nele a administração da Casa de Modas Paris em Chaves, depois de perceber que o seu bom aspecto fazia sucesso entre a clientela feminina.
A sua simples presença no estabelecimento, mesmo que displicente, aumentava consideravelmente o movimento e os lucros. Sem outra ocupação que gerir os capitais do estabelecimento e as propriedades do sogro, passava os dias entre as reuniões da sede da Liga e as visitas ao Clube Social.
Arranjava ainda algum tempo para estar no escritório da Casa de Modas, um compartimento reservado, no primeiro andar, onde ajudava as melhores clientes nas provas de vestidos e roupa interior. Eram por vezes sessões mais demoradas do que a singela prova de uma única peça faria prever, mas as clientes acabavam por sair sempre sorridentes e satisfeitas, muitas vezes já com a nova peça vestida. E voltavam sempre. Não raro, antes mesmo de terem chegado as novas colecções.
A acção da Liga pautava-se por louváveis artigos nos jornais da terra, pelos apelos à instrução que aí publicava - "Lei-a. Ler é saber mais!" era o notável slogan promovido na imprensa local, e pelas moderadas e moralizantes intervenções de edificantes palestras mensais religiosamente realizadas no Clube Social, o qual, muito cristãmente, reunia as boas famílias da região. Aí se zelava pela moral pública com chás de beneficência e se faziam donativos para os pobres com o resultado de piedosos jogos de bridge ou canasta.
Um dia, colocou-se grave questão aos membros da Liga. Havia que acabar com as poucas-vergonhas que manifestamente ocorriam numa casa de devassidão. Foi consensual a decisão, que contou com o apoio dos representantes das forças da ordem e do município. Havia que acabar com as poucas-vergonhas e encerrar aquele antro. Para isso decidiu-se fazer uma rusga e surpreender pessoas em flagrante. Deixou-se a data ao critério do comandante das forças da ordem, para que decidisse em função da disponibilidade dos efectivos. Este encarregou da missão um velho cabo, matreiro e sabido. Disse-lhe que nem ele próprio queria saber a data, mas que queria resultados, "Detenções em flagrante, entendido nosso cabo?" Perfilando-se como se estivesse na formatura, o cabo não hesitou em responder - "Perfeitamente, meu comandante!"
Dias depois apresentou-se ao superior. "Então, novidades, nosso cabo?" Em sentido, e fazendo a continência, este declarou solenemente - "Saiba Vossa Senhoria que sim, meu comandante! Acabei agora de regressar da missão." Uma declaração cheia de brio profissional. "Óptimo, óptimo", exclamou o comandante, perguntando de seguida - "Houve flagrante?" O cabo apressou-se a responder, ufano - "Sim senhor!" Não se contendo, o comandante esfregou as mãos. "Bem, bem! Então já podemos encerrar aquilo..." Aqui, o cabo perdeu um pouco a compostura e gaguejou - "Talvez não seja boa ideia, meu comandante..." Contrariado, o oficial inquiriu - "Mas então houve flagrante ou não?" Já embaraçado, o cabo acenou que sim. "Então qual é o problema?", rosnou o oficial, incomodado. "Saiba o meu comandante que apenas apanhamos dois indivíduos em flagrante... Um é o chefe das milícias. O outro é o director da Liga para os Bons Costumes, que por sinal ainda estava em roupa interior. De senhora..."

Nascido flaviense, ali mesmo a dois passos da Igreja Matriz, na Casa de Saúde do Dr. Mário Carneiro, cedo passei a viver em Viana do Castelo. Regressei a Chaves já no fim da infância, com os olhos cheios de mar e a imaginação deslumbrada com toda a alegria de entre Minho e Lima.
Conhecendo já a região, achei-a estranha. Não encontrava ali a agitação das Festas da Senhora da Agonia, nem os gigantones, nem a contagiante alegria dos infindos arraiais minhotos. E o mar, aquele mar líquido e hipnotizante, havia-se transformado e solidificado num obstáculo intransponível. Em Viana havia um altar que celebrava a costa e glorificava o mar – o monte de Santa Luzia. Aqui havia um gigante que guardava o vale e cercava a cidade – o Brunheiro.
Andei perdido durante alguns meses. Até que um dia compreendi que a cidade já estava dentro de mim e que a Rua de Santa Maria, onde vivia a minha avó, era o centro do meu pequeno mundo.
Nas manhãs caiadas e soalheiras de verão, era ali que me encantava com o trinado dos canários e pintassilgos e me animava com a vozearia das vendedeiras. Depois de longas noites a brincar por entre a conversa das vizinhas que vinham sentar-se na rua, ao fresco, os pregões matinais e a plumagem dos canários contrastavam alegremente com as palavras quase ciciadas da noite, que por vezes perpassavam por cima de nós, entre sacadas e varandas, como zilros.
Era dali que partia para quase todas as minhas aventuras. Longos recolhimentos, silenciosos e solitários, no misterioso quarto da ama, vasculhando velharias esquecidas, ou barulhentas brincadeiras na varanda interior, zaragateando com o Luís e o João enquanto jogávamos às latinhas em pistas improvisadas.
Era ali que decidia e planeava, à última hora, maravilhosas e divertidas aventuras na Galinheira ou intrépidas deslocações ao distante Açude.
Muitas vezes, as aventuras acabavam por nada ter de maravilhoso ou emocionante. Mas não havia lugar para o desânimo, porque outro dia se seguiria àquele. Esse sim, certamente cheio de surpresas e de verdadeiras maravilhas.
Era essa uma idade em que eu tinha todo o tempo do mundo e em que todas as pessoas que viviam nesse meu mundo eram eternas.
E é disto que eu creio que todos nós temos, ou teremos, saudades. Saudades das alegrias e dos tempos despreocupados do nosso passado. Saudades do tempo em que não éramos nós que tínhamos de ser adultos. Saudades de nós mesmos, num tempo em que éramos outros.

Texto de Blog da Rua Nove
"Pelo mês de Abril de 2001, na varanda que dá sobre as serras de Mairos e Brunheiro, contemplávamos um pôr do sol de eterna e grandiosa beleza. Talvez levadas por este panorama, começámos a falar da cultura local e das suas muitas raízes.
Cada uma, por razões diversas, tinha recolhido serranismo transmontano com origens remotas."
É assim que começa o posfácio de Maria de Jesus Facco Viana ao livro Sabores Judaicos – Trás-os-Montes, obra de duas transmontanas de origem flaviense, Graça Sá-Fernandes e Naomi (Graça) Calvão, publicada em Abril de 2008.
Com fotografia de Valter Vinagre, o livro reproduz algumas imagens dos distritos de Bragança e Vila Real e várias receitas tradicionais, recordando-nos o entretecer das culturas judaico-cristãs em Trás-os-Montes.
Parece-me assim oportuno recuperar um texto que publiquei na imprensa regional, há dez anos, sobre alguns aspectos da tradição judaica e anti-semita em Portugal:
"Por vezes, o entrelaçar raiano das tradições de Natal e Reis é algo que ainda nos traz revelações inesperadas e surpreendentes. Mesmo nos detalhes mais simples. A mim, este ano [1998], foi a marca utilizada por um fabricante de turrón que me trouxe a surpresa.
A mim, que há já muito tempo estou convencido das origens anti-semitas da palavra bruxa, embora careça de provas documentais que apoiem tal tese.
É possível, no entanto, concatenar um conjunto de factores que nos levem a aceitar esta tese como extremamente plausível. Por um lado, as pesquisas desenvolvidas não me permitiram encontrar esta palavra no léxico português anterior ao século XVI. Por outro lado, verifica-se que as características de paronímia e sinonímia entre bruxa e bruja não são extensíveis a quaisquer outras línguas para além do Português e do Castelhano. A isto se junta o facto de [Frei Joaquim de Santa Rosa de] Viterbo [1744-1822], no seu Elucidário [1798], e [José Pedro] Machado [1914-2005], no seu Dicionário Etimológico [1952], ignorarem a sua etimologia ou darem explicações nebulosas para a origem do vocábulo.
Não disponho, como é óbvio, de provas sustentáveis que me permitam afirmar peremptoriamente que a adopção desta palavra, em Português e em Portugal, apenas surgiu no século XVI, como manifestação anti-semita... mas sempre considerei muita coincidência paronímica o facto de a palavra utilizada para abençoar e consagrar as refeições judaicas de sexta-feira ser precisamente baruch(a), que significa bento/a, bendito/a, abençoado/a, abençoar... É esta palavra, aliás, utilizada também como nome próprio. Um famoso filósofo europeu de origem judaico-portuguesa é disso claro exemplo – Baruch Spinoza (Bento de Espinosa, 1632-1677).

Agora, intencionalmente ou não, a memória colectiva subjacente ao grafismo do turrón La Bruja trouxe-me outro indício... A intrigante utilização de estrelas pentagonais como simples elemento decorativo e a insólita utilização de uma estrela hexagonal para realçar o lettering do logotipo La Bruja. Isto é: La Bruja tiene la estrella de David...
Num sentido mais lato, contudo, o que ainda muito me intriga é a persistente componente anti-semita da nossa linguagem e do nosso imaginário, por paradoxal oposição ao profundo enraizamento de tradições nitidamente judaicas na nossa cultura.
Entre muitas outras, as palavras gabirú, maganão, safado e safardana apresentam uma evidente conotação negativa na nossa língua, bem como as expressões fazer judiarias a alguém e ser de estrela [de David] e beta [baeta]. Apesar destes preconceitos, o Natal de muitos dos nossos pais e avós foi marcado por um jogo que está bem presente nas suas memórias de infância. Rapa, tira, deixa e põe...
O jogo do rapa. Deixem, agora, que mude o nome a este brinquedo e lhe chame dreidel, ou dreydl, em yiddish, e passe a ler as quatro letras em Hebraico, Nun, Gimel, Hei, e Shin, sabendo que constituem um acrónimo da expressão (Um) Grande Milagre Aconteceu Lá (em Israel)... O rapa. Um brinquedo e um jogo que a diáspora judaica manteve durante as festividades do Hanukkah, para consagrar e honrar a memória da Terra Santa. Um jogo que nós adaptámos e baptizámos com a devida vénia à tradição anti-judaica: rapa, tira...

Vem-me ainda à memória a curiosa tradição de Páscoa que, na minha adolescência, vim encontrar em Chaves. Em vésperas da Semana Santa juntava-se dinheiro para comprar peças de barro no antigo mercado da Rua do Olival. No domingo de Páscoa, na Rua de Santa Maria, as crianças jogavam aos púcaros e caçoilos, atirando-os de mão em mão até se partirem... Mais tarde, Amílcar Paulo [n. 1929], ensinou-me que a tradição sefardita cripto-judaica mantinha o hábito de quebrar loiça doméstica, durante a Páscoa, como símbolo de renascimento e renovação...
Recordo, para concluir, as reticências que algumas pessoas tiveram perante o nome escolhido para a minha filha. Embora não aceitando as objecções, compreendi-as. Há uma quadra popular que evidencia ainda o preconceito dos católicos para com este e outros nomes:
Ana, Magana,
Rebeca, Susana,
Pariste um gato
Debaixo da cama...
Surge como inevitável a associação das expressões aqui há gato e sabe a rabo de gato com esta quadra, mesmo que as suas origens possam ser outras... Se, entretanto, considerarmos que a antiga judiaria de Chaves ainda não foi definitivamente localizada e à tradição oral acrescentarmos um pouco de imaginação, veja-se onde a Rua dos Gatos nos pode levar..."

Adenda de 21 de Maio de 2009:
Por deferência da Real Academia Española (http://www.rae.es/rae.html), fui informado que o projecto Nuevo Diccionario Histórico de la Lengua Española, coordenado por José Antonio Pascual, nos permite saber que o texto em língua espanhola onde se regista a ocorrência mais antiga da palavra bruja é La Celestina (1499), a célebre obra atribuída a Fernando de Rojas (c. 1465/70-1541), ele próprio descendente de judeus conversos.
Uma rápida releitura de uma edição recente da obra (Barcelona: Ediciones Brontes, S. L., 2007) permitiu-me verificar que, pelo menos, o vocábulo hechicera ocorre 6 vezes, o vocábulo hechizos 1 vez e o vocábulo bruja 1 vez (acto sétimo, página 140).

O "Jástou Servido"
Enfezado e de nariz adunco, o Anacleto passou a meninice sentado nos degraus do fontenário da Madalena. As mulherzinhas que iam encher os cântaros na torneira de pressão tinham que o enxotar quase sempre. Macambúzio, de joelhos ossudos e pernas esgalgadas, punha os braços sobre os joelhos que espreitavam dos calções, entrelaçava os pulsos e ficava tempos infindos olhando para quem ia à água. Animava-se apenas quando os xailes negros ou os lenços sobre os cabelos grisalhos davam lugar a alguma moçoila espigadota, indiferente às suas graçolas de reguila ou, as mais das vezes, repontona.
Crescidote, era vê-lo a jogar ao sete-e-meio ou à lerpa, à sombra das arcadas, sempre de olho nas pernas das raparigas que iam à água.
Feito o serviço militar, em Braga, regressara a Chaves, lamentando que as representantes de um dos três "Pês" que a má-língua atribuíra à cidade minhota não fossem assim tantas na sua terra. Foi-se contentando com as poucas que havia, ficando-se pelos hábitos da adolescência.
Continuando a viver na Madalena, aí trabalhava durante o dia, atravessando todas as noites a ponte para ir até aos reservados de jogo dos cafés da Rua Direita ou da Rua de Sto. António. Já de madrugada, passava depois pelas casas que consolavam a solidão dos milicianos de Cavalaria e Infantaria e dos noctívagos da cidade.
Mas não acamaradava com estranhos. Ia com o seu grupinho folgazão, o mesmo de sempre. Enfezado em criança e enfezado depois da tropa, um meia-leca como diziam os companheiros de pândega, deixava-se envolver pela animação das meninas, encostando-se aqui e ali, quase desaparecendo entre as ancas generosas e os seios opulentos.
Quando a bebida toldava os pensamentos dos folgazões e despertava os sentidos, o ambiente das casas animava-se ainda mais e começavam as romarias para os quartos. As meninas fugiam aos beliscões subindo os degraus, com gritinhos escandalizados, enquanto os mais atrevidos ensaiavam um levantar de saias ou o desapertar de um corpete.
Nessa altura havia sempre uma menina que olhava para trás e reparava que o Anacleto permanecia no sofá, com um aspecto seráfico, de sorriso nos lábios.
"Então o Sr. Anacleto não sobe?", perguntavam sempre. A resposta era invariavelmente a mesma — "Não, muito obrigado menina. Já estou servido..."
© Blog da Rua Nove

Texto de Blog da Rua Nove
Lentamente, as nuvens rodearam a montanha. Ameaçadoras, juntaram-se, tornando-se numa só. Perdendo a claridade, toda a luz se tornou baça. Os contornos do horizonte esbateram-se. A serra do Brunheiro transformou-se num manto de escuridão. Um manto de escuridão entretecido num negro monte de nuvens.
A chuva, pesada e sonora, começou a cair, cobrindo árvores e arbustos. Velhos carvalhos e olmos, dobrando os ramos, levavam a água a cair em movimentos graciosos. Por pouco tempo. As grossas gotas de água pareciam ondas de um mar tormentoso rebentando sobre a floresta. As copas largas dos castanheiros centenários criavam um santuário que parecia afastar a violência daquela torrente interminável.
Sob a vasta copa de um velho castanheiro, pequenos blocos de granito resistiam a uma água que parecia querer diluir as rochas como se fossem frágeis pedras de sal. No tronco, viradas a norte, manchas aveludadas de musgo mostravam a irregularidade do seu recorte, por entre matizes de castanho e verde. No chão, folhas douradas, ainda ressequidas, tentando resistir, desfaziam-se ruidosamente sob o embate da água. Tudo parecia sucumbir àquela sombra imensa e aquosa.
E de repente, num instante mágico, num instante eterno, um pequeno raio de sol perfurou aquele céu basáltico, reflectindo-se na mica e no granito, iluminando o tronco virado a norte. Naquele instante, na brevidade daquele instante preciso e eterno, suavemente depositadas no musgo, as gotículas de humidade rebrilharam. Rebrilharam como jamais voltariam a rebrilhar.
Sentindo a rugosidade do granito no umbral da porta do casebre, o velho aspirou a humidade do ar. Voltando as costas à chuva, fechou a porta atrás de si, tacteando o caminho até à lareira. À luz do fogo, os seus olhos, afundados nas órbitas e perdidos nas pálpebras, pareciam sorrir.
Ainda lhe restava a imaginação.

Texto de “Blog da Rua Nove”
Impressões do Outro Lado
Em pleno caroço de Manhattan, dá-me a grata impressão de estar do outro lado. (Queremos sempre estar do “outro lado”...)
J. R. Miguéis
Regresso a Chaves durante breves dias. E a cidade, que parece não mudar, está diferente. A diferença destaca-se nitidamente das memórias que conservo. A memória destas gentes, dos seus afectos, dos seus desejos. A memória do meu passado. A memória da cidade que foi. E quão diferente, de facto, está esta cidade.
Olhando-me todos os dias ao espelho, não me vejo mudar. Aqui, contudo, tenho consciência das transformações e da passagem, efectiva e inexorável, do tempo. Por cada ruga no rosto dos amigos, por cada branca no cabelo dos conhecidos, por cada ausência de rostos e lugares que já não voltam. Então compreendo como o tempo passou, como essas rugas, essas brancas, essas ausências anunciadas, fazem parte da minha existência. Aqui e agora.
Recordo Viana, Porto, Évora, Lisboa, Toronto, Nova Iorque. Cidades onde vivi anos e anos. Onde tenho amigos. Onde fui deixando afectos. Onde me revejo. Mas para ver a minha imagem reflectida, integralmente, preciso de Chaves. É aqui que compreendo a vida como um contínuo, como um conjunto de ciclos que se alternam, mas que têm um centro comum. E sinto palavras de há vinte anos como se as tivesse acabado de escrever...
Cidade. Recordação enevoada de uma infância quase esquecida, perdida já entre as velhas casas e a desguarnecida muralha da vida. Breves instantes de atemporalidade, em que voltamos a chutar a bola de trapos no terreiro da Lapa, ou a ler as espantosas e mirabolantes aventuras de Serafim e Malacueco num estreito e gasto passeio da rua de Santa Maria. Afirmação nítida do nosso carinho por esta terra e por estas gentes, qual carícia maternal que nos traz aconchego e protecção. Consolo inesgotável do inverno que inevitavelmente envolve o nosso ser.


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