Sábado, 22 de Julho de 2017

Carregal - Chaves - Portugal

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Hoje vamos mais uma vez até Carregal, uma das nossas aldeias limite de concelho, neste caso na fronteira com o concelho de Valpaços, como quem vai para Carrazedo de Montenegro ou mais além, até Murça.

 

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Hoje vamos até lá com quatro imagens e algumas, poucas, palavras, mas Carregal é das poucas aldeias que não se pode queixar deste blog, pois quase desde o início da nossa existência que tem tido aqui um embaixador e contador das suas estórias e das suas gentes, a par de outras aldeias vizinhas e de quase todo o planalto da Serra do Brunheiro, embaixador esse que dá pelo nome de Gil Santos que todas as últimas sextas-feiras de cada mês traz aqui um novo conto. Pena outras aldeias não terem outros Gil para contar as suas estórias que não são mais que a própria história mas também uma radiografia da cultura rural deste interior transmontano, muito idêntico no seu seio, mas com as suas singularidades que fazem de cada aldeia uma aldeia única.

 

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Claro que com o despovoamento rural também estas estórias se vão perdendo, tanto mais que a grande maioria têm a ver com a vida do dia a dia dos seus atores e personagens que mais não são que as pessoas que as habitam, estórias com dias felizes e outros nem tanto ou mesmo  nada, pois o contrário também fazem parte dessas estórias, com dias difíceis de muita pobreza à mistura, mas todas elas castiças.

 

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Assim, e mesmo sem imagens, as palavras também valem, e muito, pois aquela coisa que se costuma dizer que uma imagem vale mais que mil palavras, não é tão verdadeira assim,  há histórias de vida que nunca conseguirão ter tradução em imagem.

 

E se hoje ficamos com mais uma aldeia do concelho de Chaves, amanhã vamos até mais uma do Barroso.

 

Até amanhã!

 

 

 

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Sexta-feira, 19 de Junho de 2015

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

DA TRAQUITANA À SAINÇA

 

Naquela manhã gélida de janeiro, dos ramos pelados das carvalhas da Lampaça, bem como das telhas de meia cana dos beirais dos tugúrios, pendiam pingarelhos como se fossem luzeiros do mais fino cristal. Um carambelo que durava há semanas e que enfeitava as fronças das giestas brancas com navalhas de gelo, aguçadas por um vento boreal refinado nos cumes da Sanábria e do Larouco!

 

Rais parta, Ti Peliqueiro, parece que a puta da galega pariu dianho! – Queixava-se a Tia Brízida, com o xaile de merino encafuado, enquanto amarfanhava uma gabela de labrestos para acomodar os coelhos.

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A noite havia sido agitada em casa dos Ladairos, na Ribeira do Pontão. A matriarca parira um raparigo, o derradeiro de uma ninhada de cinco. Um rapaz que havia de tomar o nome de Arlindo na pia batismal de Santa Leocádia, sob as praxes do Carabunhas. Contudo, pouco tempo o Arlindo se deu a esta graça. O povo rebatizou-o de Burraçudo. Assim passou a ser conhecido desde gargalhorte, não só por lhe incharem as carnes ao redor dos olhos, mas, sobretudo, por morrinhar, horas a fio, no escano da cozinha, confortado pelo borralho e pelo ronronar da gataria nas folgas da muração. Porém, a maior (des)virtude do Burraçudo era a de ser fanhonha. Todos arreganhavam os dentes dele, desde os tenros anos em que jogavam ao pião, ao rou-rou, à reca, ou à pincha carneira no prado. Já adulto, poucos o entendiam, sobretudo quando estivesse com um grãozito na asa, o que acontecia com certa frequência. Foi marca que lhe ficou e que haveria de o acompanhar à cova.

 

O Burraçudo não era mal parecido, tinha proa e haveres, por isso aquele defeito não o privava das melhores fêmeas, prevenidas ou desprevenidas. Na Ribeira, de onde era natural, bem como nas terras vizinhas, levava tudo a eito. Tanto, que andou muitas vezes envolvido em zaragatas. Levou muita lostra e pagou muita rodada pelas tabernas por mor de meter a foice em seara alheia. E teve mais sorte que o mano velho, o Perdigoto, que apareceu morto, dizem que por razões passionais, nas voltas do Fernandinho, com uma machada cravada no caco! Nunca se descobriu quem o escacholou, mas toda a gente sabia, mais ou menos, porquê!..

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No Carregal, o Burraçudo catrapiscava a Aurélia da Rua, em Santa Ovaia, a Grifa, em Matosinhos, a Lívia, em Santa Leocádia, a Serena, em Fornelos, a Rabeca e, no Vale do Galo, a Pompeia. E nunca teve nenhuma de poulo!.. Mas, a sério, a sério, namorava a Milena na sua própria terra.

 

Com tal ocupação, aos domingos, era um corridinho! Quem as pagava era o inocente do seu alazão! Suava como um cavalo para dar conta do recado, porém, estou que menos do que o dono para dar conta do seu!..

 

Deste forrobodó carnal, a primeira a alcançar foi a Milena. Aconteceu, acidentalmente, numa das visitas culturais(!) que costumavam fazer ao Cerco do Pontão, uma fortificação em ruínas que teria servido, há séculos, como reduto defensivo do lugar. Foi um falatório, até porque a moça, de boas famílias, estava guardada para outro pimpão! Porém, como o povo diz que “a ração não é para quem se talha mas para quem na come, o marmanjo levou a dianteira ao de Loivos e papou-a. Ela era, inclusivamente, estudada e mais tarde, já casada, haveria de chegar a professora regente.

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Foram forçados a juntar fazenda, para grande desgosto da família da rapariga. Os pais, para seu sustento, dispensaram-lhes parte da herança ainda em vida, mesmo sob pena de o adágio “quem dá o seu antes que morra merece com uma cachaporra”, se poder vir a confirmar! Tocou-lhes meia dúzia de leiras que os sustentassem e à respetiva prole. Uma delas, de bom proveito, ficava a cerca de um quilómetro da aldeia. Era o linhar da Sainça. Terra mimosa, gorda e húmida. As novidades ainda vinham longe e já na Sainça se exibiam com abundância!

 

A Milena não tinha parido e já a Aurélia anunciava ao Burraçudo, numa das frequentes visitas ao Carregal, a gravidez do primeiro zorro e a Grifa, em Santa Ovaia, do segundo. Como soi dizer-se, era como quem cantava à desgarrada! Quando a legítima emprenhasse - ele dizia que bastava despir as calças e arrimá-las para cima da enxerga - emprenhavam as amantes! Os amigos da copofonia, na galhofa, tornavam a culpa à lua nova!

 

O nome dos legítimos inspirava o dos zorros que nascessem a seguir! Na Ribeira, a Milena teve três rapazes e duas raparigas, a Cremilde e a Graziela, o Agripino, o Alpoim e o Heitor. No Carregal, a Aurélia teve três rapazes e duas raparigas, todos batizados na capela do lugar, que curiosamente data de 1480, com os mesmos nomes dos da Ribeira. E o mesmo aconteceu em Fornelos, em Santa Ovaia e em Vale do Galo! Estranhamente, todos os rebentos puxaram ao pai, mesmo os femininos: nariz curto e grosso, rosto bolachudo, corpo atarracado, roliço, cabelo farto, tez morena e voz roufenha. Parecia castigo do criador!

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O Burraçudo estimava muito a esposa, quase tanto como as amantes. Porém, a rainha das concubinas era, sem dúvida, a Aurélia do Carregal. Com ela passava mais tempo, porque tinha a cobertura de uma sua irmã que vivia naquele lugar e lhe dava rebuço. Também porque no Carregal apanhava a carreira para Chaves, onde dizia ter de ir com muita frequência! Depois, era o regabofe pelos palheiros, pelos fanencos das poulas e pelas chamiças das touças, desde as Padanas ao Corgo!

 

A legítima fingia nada saber desta vida excomungada do marido. Evidentemente que sabia, até porque as alcoviteiras não deixavam de lhe ganhar os favores com a troca de novidades, sempre frescas! Portanto, andava bem informada, mas fazia à de conta!.. Desde que fosse bem tratada e aos filhos não faltasse pão, deixava dar que para si bondaria! A verdade se diga, também não constava ser mulher de grande mantença!..

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E se a todos os ilegítimos, que o Burraçudo nunca perfilhou, ajudava como podia, os do Carregal eram especiais. No tempo da produção hortícola, a Aurélia era a única que tinha ordem para colher o que precisasse no linhar da Sainça! Era uma farturinha no tempo das baijes, das alfacias, das tomates, das cebolas - que consolavam rachadas com sal à merenda e faziam nutritivos caldos de porretas - das cinouras - rilhadas nas maçadouras do prado. Enfim, neste tempo era vê-la, quase todos os dias, da Traquitana, onde morava, à Sainça e da Sainça à Traquitana! Tudo coletava pela hora da sesta para que desse menos no olho. Também estava autorizada a apanhar guiços para o lume nas poulas do Burraçudo, níscaros nas suas touças, bem como as castanhas nos soutos. Pelo Natal, era a única que recebia, por intermédio do cunhado do Burraçudo, consoada especial: uma remeia de vinho, do de Cova do Ladrão, um pão centeio cozido pela sua irmã, e uma almotolia de azeite.

 

A Aurora Serritcha do Carregal tinha dois filhos gémeos a frequentar a escola da Ribeira, na classe da Milena. Dois morqueliáiros que não conseguiam sequer aprender o nome da Padrela, a serra que alcançavam da janela da sala de aula. A Serritcha tornava a culpa à mestra e dizia que era ela que não fazia caso deles e que por isso é que não passavam da primeira. Assim, pensou que se a pusesse a par das manobras da Aurélia para se abastecer na Sainça, poderia ganhar a sua atenção!

 

− Ó senhora pressora, vossemecê conhece a Aurélia do Cargal? Pois olhe que é ela lhe anda a comer a horta da Sainça e a bem dezer o restro! Não perde uma sesta! Aprobeita a calmaria, bai-se-lhe ao renovo e enche o cu. Uns trabalham, senhora pressora, e outros governam-se! Olhe que é uma boa porra!..

 

A professora há muito que andava com a pulga atrás da orelha. Agora tinha a confirmação. Preparou-lhe a estrangeirinha. Só que, inadvertidamente, confidenciou-a a uma amiga. Esta, por mero acaso (!), privava com o marido que, assim, se inteirou das intenções da mulher.

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Ora, numa tarde de canícula, no mês do S. João, a Milena ajeitou uma vergasta de marmeleiro e, logo após o almoço, sem sequer arrumar a cozinha, deixou que o marido se espojasse na cama para gozar a sesta e meteu pés ao caminho para a Sainça. Acocorou-se num centeio contíguo e fez-lhe a espera. Não tardou que a Aurélia escancarasse a cancela e, com grande à-vontade, se introduzisse na horta. Não tinha ainda começado a colheita, quando uma vergastada lhe atravessou o lombo de lés-a-lés. E outra e mais outra, até assobiavam!..

 

− Ah minha puta dos infernos, atão és tu que andas a comer a minha hortinha? Deixa estar que te vou encher a brajuega!..

 

A Aurélia, que não era mulher para se ficar, mal recuperou das vergastadas, engalfinhou-se na Milena e, aos rebolões, assobalharam o talhão das cebolas. Nesta refrega, entre gritos, palavras que não me atrevo a reproduzir e o verde-gaio ao léu, as mulheres, desgrenhadas, pareciam o diabo em figura de gente!.. Entrementes, o Burraçudo pinchou o portelo para as separar. Intrometeu-se e apanhou por medida! Foi o catano para as apartar!.. Após uns longos vinte minutos de gritaria e de toma lá, dá cá, conseguiu as tréguas entre arrebunhanços e manhuços de cabelo!

 

No final de um sermão, sábio, diga-se de passagem, acabaram os três a dormir a sesta - que sesta - numa fresca da Galgueira, embalados pelo trinar de um rouxinol que das avelaneiras os mirava descorçoado!

No rego de um lameiro do Belão ficou a cesta de vime da Aurélia, repleta, a refrescar as mais viçosas delícias da Sainça!..

 

O Burraçudo era levado do catano p’rás mulheres!..

 

Gil Santos

 

 

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Domingo, 16 de Dezembro de 2012

Carregal - Chaves - Portugal

 

Acho que o relógio cá de casa tem um vírus papa horas, pois só assim explico a escassez de horas destes meus últimos dias, mas mesmo assim, vou fintando o tempo para vir aqui um bocadinho.




Pois estamos em fim-de-semana e como sempre são as aldeias que por aqui tento trazer todos os sábados e domingos e sejam rainhas e senhoras dos fina-de-semana, pois de cidade já chega a semana inteira. Ficam alguns pormenores do nosso mundo rural.




Hoje calha a sorte ao Carregal, aldeia tantas vezes cantada nas estórias que o Gil tem contado aqui no blog, mas também em livro, sobre as gentes e aldeias do planalto do Brunheiro e Serra da Padrela, terras onde os 9 meses de inverno são cumpridos com todo o rigor.



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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

 

 

O NANO DO CARREGAL

 

O Adriano do Carregal — povoação a umas duas léguas de Carrazedo Montenegro — é hoje rapaz para mais de meio século. Fez a instrução primária comigo em Adães, mas mal aprendeu a ler e a escrever. A contar nunca precisou de aprender!


O Nano era um lafrau que nunca vi doente ou triste!


Descalço e com calças de serrubeco remendadas no rabo, vencia, à pata, como todos aliás, os três quilómetros para a escola como se nada fosse, mesmo nesses invernos em que a neve dava pelo joelho! Da lousa, comprada no início do ano, restava apenas um pequeno caco esbotenado na sacola surrenta que usava à tiracolo. Cadernos, lápis ou esferográficas, qual quê?! Escrevia com um ponteiro minúsculo de ardósia e apagava com a saliva e a ajuda da manga do mesmo casaco que usava desde os seis anos. A merenda era invariavelmente a mesma: um naco esboroado de pão seco de centeio, duro como cornos. No inverno lá ia comendo o coto duma chouricita que algum lhe dava, mas era raro. No outono, vingava-se nos magustos feitos no monte com fronças de giesta branca. Na Primavera, tempo dos ninhos, passava a vida a cucar os ovos aos passarinhos. Topando o ninho chocalhava as pedrinhas para ver se tinham pito. Não lho sentindo fazia um furo na casca e, com uma palha centeia, chupava-lhe a alma. E era vê-lo regalado a lamber as beiças! No verão, safa-se com as pescoceiras. O Nano, não tinha pai na arte de caçar boieiras. Tendo bois no pasto acercava-se deles, aproveitava os montículos de terra que as toupeiras, vulgo ratas, faziam nos lameiros, armava aí o engenho com um saltão de isco e era vê-lo atrás de uma carvalha a espreitar, esperando que a vítima, gulosa, se atirasse ao insecto. Mal a infeliz ave mordia já o arcanho estava armado de novo. Depenado, o bicho, era enfiado numa verga de giesta onde esperava por companheiro. Numa tarde de agosto, o Nano conseguia encabar cambalhota de respeito – para mais de meia centena – e de peito feito atravessava o Prado com ar de herói. Os pais e os irmãos – uns dez – tinham festa rija nessa noite. Aguçando um guiço, espetava cada qual o seu rijão, tisnando-o no braseiro. Era um manjar digno de rei!


Ali pelos Santos, mal as primeiras chuvas se anunciavam, era raro ver o Nano na escola. Avizinhava-se o tempo dos míscaros e aguardava-o muito trabalho. Foçava touças e soutos e, com o faro do porco das trufas, não lhe escapava um cogumelo que fosse. Enfiava-os numa verga de castanho e aí vinha todo contente com duas ou três cambalhotas, como ele dizia. Claro está que os fungos pediam um estufado de carne ou outro qualquer peguilho que não avezava. Por isso ia para a estrada oferecer a mercadoria às pessoas que, raramente, por ali passavam de carro. Ganhava umas coroas que, à parte uns tostões que surripiava para rebuçados, serviam para afogar o pai em vinho.


Era alegre o Nano e fazia-nos felizes.


Quando não havia escola ia com duas ovelhitas ranhosas para o monte. Juntava-se por lá com outros marmanjos e, claro está, a brincadeira tomava o lugar das obrigações. Os animais esquecidos, conhecedores do terreno, procuravam as lambarices no renovo dos campos próximos. E era vê-los contentes a derrotar as couves, o nabal ou o centeio de qualquer vizinho. O Nano não se atrapalhava! Se fizessem queixa ao pai – zeloso de boa educação – e vendo-se ameaçado pela vara de marmeleiro, fugia. Servia-lhe de cama qualquer manjedoura. À fome, como assim, já estava habituado! Um dia, ameaçado de morte pelo pai e tomando a coisa a sério, pisgou-se. Ao terceiro dia ainda não tinha aparecido, pelo que pôs a aldeia toda em polvorosa Vasculharam-se os poços, as minas e os palheiros e nada do mariola. Apareceu ao quinto dia, como se nada fosse, sorrateiro e de boa saúde. Outras vezes, quando não havia que fazer, divertia-se a ordenhar as ovelhas para uma malga feita do carolo de pão centeio e a beber o leite do úbere, ainda quente. E que bem lhe sabia!

Uma dia o Nano ia-me matando. Era pelo Natal, tinha caído um daqueles nevões antigos. Não havia nada para fazer senão jogar ao tchincalhão no palheiro. Era o que fazíamos.


— Vamos aos coelhos! — propôs o Nano.


Era difícil resistir ao desafio e lá fomos uns quatro. Antes, porém, convenceu-me a rapinar umas pedras de enxofre ao meu avô que sobraram do tratamento da vinha de Cova do Ladrão. Palhitos tinha ele. A estratégia consistia em pôr o enxofre a arder no fundo da mina seca dos Cáximos, que afiançava ter coelhos com’ó carvalho. Depois esperava-se à porta que os bichos, espavoridos, saíssem e colhiam-se à paulada.


Lá fomos.


Dois guardavam a entrada e os outros, com uns fatchucos de palha a fazer de tochas, tinham de chegar o fogo ao produto no fundo do minoco. Coube-me a mim e ao Nano esta espinhosa tarefa. Chegados às entranhas da terra, já com a tocha a perder a alma, botámos fogo ao enxofre que ardendo como pólvora punha uma luz fantasmagórica no teto da mina. O fumo era repugnante, tóxico e o pior é que corria mais do que nós para a saída. Sem luz, com a peste a envenenar-nos e a tropeçar a cada passo, foi o bom e o bonito para sair dali!..

Quando chegámos à boca do túnel, vínhamos brancos como a cal.


Coelhos, nem vê-los! O pior era como havia eu de justificar o vermelhão dos olhos e a tosse irritante em casa?

 

Boa te vai!

 

Muitas outras peripécias podia contar deste Nano!..


Eu bem queria, bem tentava, mas confesso que nunca fui capaz de ser como ele!


Quem é que no seu tempo de puto não teve um amigo como este?

 

Hoje, o Nano do Carregal, trabalha lá para as Espanhas. Constou-me que está queimado pelo álcool. Não me surpreende!..


Que saudade eu tenho do Nano, dos ninhos da carriça e da largura do tempo de outro tempo!

Gil Santos

 


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Domingo, 30 de Agosto de 2009

Aldeias de Chaves - Portugal

Alanhosa

 

 

 

Carregal

 

 

 

Vila Nova de Monforte

 

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