Domingo, 29 de Maio de 2011

Cartas Transversais

 

Caro amigo,

 

Li e reli todas as cartas que te enviei nestes últimos quatro meses e após refletir um pouco, cheguei á conclusão que vou parar de te escrever por uns tempos.

 

Primeiro, porque preciso de afinar pontaria dos meus escritos e deixar de falar tanto em mim, no que fiz, faço ou deixo de fazer. Já tenho malta a dizer no gozo, que vivo “de amor e uma cabana”. Pois. O amor vai e vem, vai e vem, vai e vem. A cabana só é boa quando não chove e precisa de telhado novo. Perguntem á minha irmã.

 

A minha abstinência da escrita vai depender muito dos leitores das minhas cartas. Bem sei que o pessoal lê, diz que gosta e está solidário, mas agradeço mais á Seixas e ao Silva que souberam corrigir e criticar. Preciso muito deles. Preciso agora é de saber dos que não gostam.

 

Vão ser eles os responsáveis pelos 30km de estrada que tenho de percorrer todas as semanas para enviar estas cartas transversais. A minha cabana não tem internet.

 

Claro que ficaria feliz se recebesse um ofício do município flaviense a informar do encerramento definitivo da porta de lata da muralha das Portas do Anjo, da barrela dada na Rua Verde, ou da doação do quadro original de Nadir Afonso á Escola Profissional de Chaves.

 

Enfim, preciso que me “passem a mão no pêlo”. Preciso das vossas cartas.

 

A proximidade do período eleitoral é também um bom motivo para suspender a escrita. Como não estarei aí para votar em branco, vou deixar umas quantas cartas semanais em branco como sinal de protesto.

 

Incito a que os flavienses  e portugueses em geral votem em branco. Abster-se de votar é um disparate, mas votar em branco... Imaginem uma grande votação em branco e o seu significado para os políticos eleitos.

 

Quer dizer que os gajos não valem nem a tinta necessária para fazer a cruz no boletim de voto. Quer dizer que o eleitor não se esqueceu da despromoção do Hospital de Chaves, nem do fantasma das portagens que paira nas auto-estradas transmontanas.

 

Significa ainda, que os eleitores deixaram de acreditar em cabeleiras capazes de cuidar da vereação municipal e da assembléia nacional ao mesmo tempo.

 

Mostra que os eleitores sabem da utilidade das abelhas para fazer mel e que a cera fabricada até agora nunca deveria ter saído das salas do tribunal.

 

O voto em branco indica que só Deus é misericordioso. Os homens são fracos e sujeitos a muitas tentações e que a misericórdia deveria ser ou divina, ou mais democrática...

 

O voto em branco aponta ao orgulho perdido de um povo que mendiga empréstimos á CEE com as fotos do Mourinho e os feitos remotos das descobertas...

 

Votar sem cruz é mandar á merda ingenheiros ganzados e incompetentes, funcionários partidários de segunda escolha e ex-jornalistas que sonham com o poder.

 

Nunca pensei em escrever isto, mas a verdade é que sinto a falta dos velhos lideres. Do seu carisma. Da sua capacidade de nos fazer acreditar na possibilidade de cada um dos dez milhões de lusos pagar 400 euros de dívida e ficar com coragem de bater palmas e gritar palavras de apoio.

 

Que S. Bom Senso me perdoe, mas tenho saudades do Sá Carneiro, Soares, Cunhal e Freitas e das suas guerras pelo poder a qualquer preço. Elas mostravam raça, vontade indómita, querer desesperado que nos embalava e seduzia.

 

Sei que há por aí políticos com estas características. Como seres inteligentes não se querem misturar com a ralé que nos comanda. Perde Portugal, perde Chaves.

 

Tu, meu bom amigo, não percas este abraço do tamanho do oceano do amigo que te estima

 

Zé Moreira

 

publicado por Fer.Ribeiro às 12:00
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Domingo, 22 de Maio de 2011

Cartas Transversais

 

 

Desgosto de emigrante

 

 

Caro amigo,


Demorei a entender, mas sou um emigrante.

 

Dois anos e meio fora da terrinha, da comidinha da mamã, do bar habitual e dos amigos habituados é o pontapé de saída para ser emigrante e eu nem tinha dado conta.

 

Agora sei o que custa suportar viver sem o pouco que aí desfrutava. Consigo vislumbrar as privações que passaram aqueles emigrantes do início da década de 60. Eu sou um desses. A diferença é que não tive sucesso...

 

Repara. Tenho um carro com mais de 10 anos. Algumas das suas peças estão presas com arames. Moro numa barraca de barro e taipa nos arredores de uma grande cidade, Fortaleza, durmo de rede no alpendre.

 

Como os nativos, vivo de calções e chinelas de meter no dedo, como muito feijão com arroz, milho na grelha e cozido, gosto de cachaça de cana, cerveja gelada e água de coco nas ressacas, vejo as telenovelas antes e depois do jornal da Globo e jogo na megacena aos sábados.

 

Como todos os emigrantes, a minha vida social não é muito intensa e a que mantenho, serve também de fonte renda. Aos sábados, vou apanhar caranguejos e pescar á rede com uns quantos matutos para o mangue de Paracuru. É o meu dia de praia e de provimento de peixe fresco.

 

Aos domingos é dia de feira em Paraipaba e como sempre, faço frete de transporte com vizinhos. Aproveito e vou á net enviar estas cartas e falar com a família. Também trago algumas compras para a casa.

 

Futebol e cabaré ficam para a parte de tarde. Se joga o Corinthians ainda olho a TV. Se não, quero é arrastar o pé com forró.

 

Os requintes da minha adaptação são tais que até na música já tenho ídolos. Na sertaneja, Paula Fernandes. Tens de ouvir. O mesmíssimo Roberto Carlos escolheu essa menina para cantar com ele. E a escolha de rei...

 

Durante a semana cuido do meu sítio. São três hectares de terra com árvores de fruta como coqueiros, bananeiras, limoeiros, graviolas, mangueiras, goiabeiras e cajueiros.


Depois de um ano como agricultor, também já tenho abacaxi, mamão, melancia, tomate, macaxeira, maxixe, milho e feijão. Agora mesmo estou a colher feijão que vai dar para comer o ano inteiro.

 

Deu-me para criar umas quantas galinhas que felizmente começaram a botar uns ovitos e quando chegar o mês de Julho vou comprar dois porquinhos para cebar até ao Natal.


É assim mesmo. Sou um emigrante. Um pouco atípico, mas emigrante. A mim, o desenvolvimento ou a falta dele, expulsou-me da cidade.

 

Sei o que tu e o resto dos amigos estais a pensar. Se não podia dedicar-me á “ingricola” aí nas terras do Alto Tâmega ou Barroso. Poder podia, mas não era a mesma coisa.


Aí falta o arrebato do clima que de manhã nos molha os ossos com chuva e á tarde nos resseca a pele com sol. Aí falta chão, falta tamanho nas estrelas, luz na lua e gingado nas gajas.


Tem coisas que são iguais. Uma fé inabalável no divino que me leva a contar pelo menos quatro casas de culto por cada povoado. Um gosto perverso pela política que me desespera a cada noticia de corrupção descoberta. Uma idolatração do futebol e da música que me leva ao desespero.

 

Saí do país dos três “éfes”, fado futebol e Fátima. Pensando bem, a diferença entre o nordeste brasileiro e Portugal é bem pequena.

 

Sem mais considerações, recebe aquele abraço do tamanho do oceano


O amigo que te estima,

 

Zé Moreira

publicado por Fer.Ribeiro às 15:59
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Domingo, 15 de Maio de 2011

Cartas Transversais

 

 

 

Primeiro de Maio é quando um homem quiser

 

Caro amigo

 

Num comentário geral ás minhas cartas a melhor das amigas observou a transversalidade dos meus textos. Ela tem razão. A preguiça em escrever, o vício jornalístico em frases curtas e o prazer de deixar o leitor atar as pontas da prosa, são responsáveis por esta característica.

 

De hoje em diante amigo blogueiro, agradeço que mudes o nome dos meus escritos para “Cartas Transversais”, Sei que não te importas com isso.

 

Hoje, que pretendo falar do homem que mais admiro e que sempre foi a minha referência de vida pela sua verticalidade, vou ter problemas com este meu modo de escrever as coisas. Mas pronto, vamos lá.

 

Viva o 1º de Maio, viva o dia do trabalhador, viva o meu avô. É sempre nele que eu penso quando chega este dia. Há grande homem!

 

Morreu a caminho dos noventa e quatro anos. Era um empreiteiro á moda antiga. Desses que pega numa marreta e manda abaixo a parede mal construída para levantar de novo. Fez isso algumas vezes.

 

Nos passeios e viagens que fazíamos juntos gostava de ouvir as suas histórias. Nasceu no Jardim da Batalha no Porto e viveu os primeiros anos em Moreira da Maia. Começou a trabalhar quando aprendeu a andar e tinha orgulho em dizer que “com 18 anos já era pedreiro de 1ª”. Enumerava com vaidade as muitas obras de cantaria onde trabalhou. Lembro que um edifício vizinho á sede do Comércio do Porto foi um deles.

 

Ainda jovem, colocou a minha avó na garupa da moto e rumou a Trás-os-Montes. Parou em Chaves meio por engano que o destino primeiro, seria Vila Real.

 

Analfabeto, tirou a carta de condução depois dos 40. No entanto, lia como poucos um projeto de construção e sabia, pelo traço, quem era o engenheiro autor da obra.

 

Homem duro, de pouco mostrar os dentes ou gastar palavras, soube, no entanto, granjear bons amigos, bons clientes e bons trabalhadores ao longo dos anos.

 

 Recordo do respeito e admiração com que o meu avô falava do Silva espanhol, pintor, pai do Délio e do Ilídio, também pintores que nasceram e cresceram na “casa”. A mesma reverência vi e ouvi sobre o “Teixeira Bigodes”, o Macedo da carpintaria e o Teixeira de Sousa, canalizador.

 

No ano de 1972 inicia a construção do seu sonho, uma sede própria com depósito de materiais, oficina de carpintaria, escritório, cantina e dormitório para pessoal.

 

Em 74, com a revolução dos cravos, chegou o boato de que iriam ocupar as instalações da sua empresa. Pegou numa caçadeira e passou umas noites de guarda ao relento. Não era necessário. Homens de esquerda e lúcidos reconheciam as condições de trabalho e laser dos operários como exemplares. Admirados com as condições oferecidas, queriam chamar a RTP para testemunhar. Ele não quis. A caçadeira ainda ficou uns tempos montada no armário.

 

Por essa altura o transporte dos trabalhadores passou a ser feito em autocarro e não no “sumopau “das camionetas de carga. Um luxo para a época. Tudo por exigência do meu avô.

A própria região aonde veio a construir a sede da empresa, Alto da Cocanha, seria anos mais tarde indicada para a construção da zona industrial de Chaves. Um visionário.

 

Convidado a assistir á cerimónia da minha formatura, agarrou as mãos do Professor Adriano Moreira e agradeceu em meu nome. A mim, nunca me parabenizou a licenciatura, mas disse-me um dia: - “Rapaz, se eu tivesse um canudo não teria escutado com o chapéu nas mãos tanto disparate sobre construção civil”.

 

Com o alvará de construção nº 134 e os mais de 75 anos de atividade o meu avô fez da sua empresa uma das mais antigas e respeitadas do país. Muitos dos construtores da região trabalharam um dia para o José Moreira. Parte da cidade de Chaves, pública e privada, foi construída pela sua firma.

 

Ele não gostava de construir em Chaves. Dizia que “santos da casa não fazem milagres”. Achava que a sua empresa era descriminada e perseguida pelo poder local por motivos fúteis.

 

Eu dizia-lhe que não, que o pessoal da terra não tinha inveja, que a gente da cidade sabia reconhecer na sua empresa uma verdadeira escola de formação, uma fonte de emprego importante para a região.

 

O meu avô nunca acreditou nisso e, contudo, nunca deixou de participar ou colaborar em Projetos sociais, desportivos ou filantrópicos da comunidade.

 

Com mais de 75 anos de trabalho, o meu avô não morreu rico. Não deixou os filhos ricos e tão pouco os netos e bisnetos.

 

 José Moreira era um trabalhador que acreditava apenas na força dos seus braços. Nunca bajulou, comprou ou corrompeu ninguém. A empresa morreu com ele.

 

Viva o 1º de Maio! Viva o dia do trabalhador! Viva o meu avô!

 

Sem outro assunto de momento que não seja o desejo de que passes um bom feriado e uma melhor semana na companhia dos teus, recebe aquele abraço do tamanho do oceano deste amigo que te estima,

 

Zé Moreira

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:13
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Domingo, 8 de Maio de 2011

Cartas do Zé

 

 

 

“Em que pensas porco? – Na bolota!”

 

Com este ditado popular, costumava iniciar as minhas aulas de marketing e vendas. De um modo jocoso, um pouco brejeiro e linear, procurava explicar aos formandos que o homem de marketing tem de pensar nas necessidades e desejos do consumidor, na bolota. Focado sempre na bolota. Como o porco esfomeado...

 

Corriam os anos 90 e acreditava, tal como hoje que faltava marketing á minha cidade. Os responsáveis por Chaves não entendem, nem procuram entender o mercado e os seus caprichos. Quero dizer, os cidadãos e os seus desejos.

 

Sei que foi fundamental os gastos em infra-estruturas como saneamento básico e água canalizada e que há povoados que nem isso têm. E agora? Para onde estão voltadas as atenções dos “manda-chuva”?

 

Vagueiam atrás de projectos de obras subsidiadas pela comunidade europeia, mas que pouco têm a ver com a realidade da nossa região. Lembro a “zona industrial”, agora aumentada, mas que não passa de um amontoado de barracões e lotes com escritos de “vende-se” ou “aluga-se”.

 

Que me dizem da Polis, que descaracterizou irremediavelmente o Largo das Freiras. Ou o importante complexo termal com águas únicas no mundo, mas que obedece abre e fecha as portas á temporada, como se de caça e pesca se tratasse.

 

Vejamos. Chaves tem monumentos para dar e vender, gastronomia rica e original, boa localização geográfica, vias de acesso, recursos naturais invejáveis e recursos humanos... invejosos.

 

Sim. O calcanhar de Aquiles da nossa região são os recursos humanos. Sobretudo de quem manda. Estes, não querem saber das necessidades dos cidadãos. Procuram apenas responder aos desejos dos eleitores.

 

Falar do potencial turístico da região já cheira mal. Temos pessoal especializado para atender o turista, auto-estradas para trazê-lo, hotéis e restaurantes para o deitar e alimentar. E que fazem os gajos do chicote?

 

Pelejam entre si pelo melhor certame gastronómico, pela construção do museu para homenagear o mesmíssimo pintor (Nadir Afonso) e outras que tais disputas caseiras entre municípios vizinhos.

 

Os projectos conjuntos de desenvolvimento regional só aparecem com fundos comunitários no horizonte. Por si só, são incapazes de se juntar para fazer anúncio na TV para os benefícios das águas termais da região, a originalidade da festa das bruxas de Montalegre, a beleza da olaria local, o circuito dos eventos gastronómicos, concursos de pesca, corridas automobilísticas, exposições de artes plásticas, certames de inventores e ... E pouco mais.

 

Sugiro aos senhores mandões, uma visita a Allariz. Povoado com pouco mais de três mil habitantes, cinco museus e 52 festas por ano... ou quase.

Os galegos desse povoado próximo de Orense são especialistas em inventar festejos. A mais conhecida, a Festa do Boi, acontece por estes dias, mas a festa da empada, da primavera, do cogumelo também são muito visitadas.  

 

Escrevi certame de inventores. Sabias amigo que eu “inventei” esse evento?

 

Foi numa aula de marketing na escola profissional de Chaves em que tinha como convidado o Júlio das Malhadeiras, o inventor mais velho de Portugal. Informado da ideia, o director da escola condicionou a aprovação da actividade, ao financiamento extra-escolar.

 

Foram os empresários da região que, por amizade e respeito ao Sr. Júlio dos Santos Pereira, juntaram o dinheiro necessário para a realização da primeira Flávia Criativa.

 

Estive na organização de todos os eventos até ao V.

 

Aí, não concordei com a doação de uma serigrafia do mestre Nadir Afonso. Queria a pintura original, como sempre aconteceu com outros pintores em todas as edições anteriores. Pedi seis mil euros pelo meu trabalho de assessoria na organização que iria doar para a compra da pintura original do artista.

 

Também se deram ao luxo de alterar a data de realização do certame bianual. De Fevereiro, data de aniversário do velho inventor, passou para quando “for possível”.

 

Até hoje, nem a Escola Profissional de Chaves, ou a Câmara Municipal de Chaves me responderam ou pagaram a importância pedida.

 

O convite para a 6ª edição do Flávia Criativa - Salão de Inventores Júlio dos Santos Pereira nunca chegou á minha caixa de correio.

 

Estes são os recursos humanos da nossa cidade. Não fazem, não sabem fazer e tem raiva de quem faz algo que não dá votos.

 

Sem outro assunto e muito grato por me blogares estas letras, recebe aquele abraço do tamanho do oceano,

 

O amigo que te estima

 

Zé Moreira

 

publicado por Fer.Ribeiro às 12:00
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Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

Cartas do Zé

As Cartas do Zé costumam ser publicadas aqui no blog aos Domingos, no entanto neste último Domingo não houve carta e tudo, porque ela chegou atrasada, mas chegou. Assim, é hoje publicada. No próximo Domingo cá teremos nova carta do Zé.

 

 

 

 

Caro amigo

 

Que me dizes do casamento do príncipe camone? Aquilo foi uma boda e tanto! Gostei de ver. Gosto da ideia de que em breve, uma bela princesa plebeia, vai correr o mundo defendendo todas essas ”causas perdidas” que as princesas e primeiras damas abraçam.

 

A falecida princesa Diana foi um bom exemplo. Fim da fome, das minas terrestres, da SIDA... Em tudo se empenhou com graça, elegância e grande dinamismo.

 

Puro marketing, dizem os cépticos. Claro que é marketing. Eu sei. Mas quantas senhoras não terão copiado os seus gestos altruístas para além claro, do seu penteado, roupas e jóias? Quantas damas não terão trocado o conforto do sofá pelo trabalho voluntário em hospitais, asilos, ou ONG’s?

 

Também em Portugal temos alguns exemplos do empenho de primeiras damas. Lembro o trabalho das esposas de Mário Soares e Cavaco Silva na Cruz Vermelha Portuguesa...

 

Tá bom! Tratava-se, na sua maioria de emprestar a sua presença em festas e leilões para recolha de fundos, mas o impacto dos seus gestos tem repercussão bastante positiva no país. As palavras esperança, solidariedade, altruísmo parecem de novo ganhar sentido.

 

E em Chaves? O que fazem as primeiras damas? Há damas ou a malta da política só joga xadrez? Confesso que não sei, não vi, não conheço, mas quero comentar.

 

Acredito que no dia de todos os santos, uma ou outra tenha pegado na caixa de moedas da Cruz Vermelha e não esqueço a beleza que um dia tiveram os jardins da nossa cidade. Mas é só. Acho pouco. Nem sequer é de considerar isso como trabalho voluntário. As caixas de moedas são distribuídas pela própria organização e a engenheira técnica cumpria horário de trabalho.

 

Mas então que fazem as primeiras damas de Chaves para ocupar os seus tempos livres? Porque é que os jornalistas da terra não divulgam o seu trabalho em obras de beneficência. Penso que a agenda social dessas mulheres deveria ser do conhecimento público e assim poder influenciar positivamente a sociedade flaviense.

 

Estou certo que a foto de uma primeira-dama fazendo trabalho voluntário no hospital de Chaves, ou no asilo de Nantes, aumentaria o número de trabalhadores voluntários nessas instituições. Acredito que a notícia de uma primeira-dama, ensinando a separar o lixo num bairro da periferia, aumenta de modo definitivo os índices de higiene do próprio bairro e da mesmíssima reciclagem na nossa cidade.

 

Porque estamos num país e numa cidade em crise, porque o trabalho de todos é necessário para ultrapassar estes tempos difíceis e porque é preciso provar que “atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher”, quero pedir aos jornalistas flavienses que divulguem as ocupações da nossa primeira-dama.

 

Sugiro um conjunto de entrevistas com a primeira-dama, a esposa de um deputado, de um presidente de clube de futebol, da região de turismo, das águas, instituições escolares, prisionais, militares, policiais, enfim, um conjunto de entrevistas com a cara-metade do pessoal que “leva o cabresto” da cidade. Se a primeira-dama for macho, também serve. É bom saber o que o moina faz pelo próximo.

Quem sabe se pelo meio dessa gente não haverá algum exemplo inspirador a seguir e assim ajudar a amenizar o sofrimento dos mais necessitados.

 

Sim, porque isto de ir de braço dado ao café, missa dominical e inauguração de obra pública ou exposição de artes é pouco. Muito pouco.

 

Da minha parte fica a promessa de que o dia do meu regresso a Chaves será também o dia de recrutamento para trabalho voluntário numa instituição da minha cidade ou região.

 

Sem outro assunto de momento recebe aquele abraço solidário e do tamanho do oceano.

 

O amigo que te estima,

 

Zé Moreira

 

 

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 00:11
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Domingo, 17 de Abril de 2011

Cartas do Zé

 

 

 

Caro amigo,

 

Encalhei na revolução. Sempre me acontece isto. Começa abril e aí estou eu a perder noites em horas, matutando no que foram aqueles anos pós 74.

 

Depois de ler as duas últimas cartas sobre o tema, sabes que a revolução me desiludiu. Podíamos e devíamos fazer mais e melhor democracia.

 

Foram anos loucos. Tudo parecia ser possível em liberdade. Primeiro chegou a Coca-Cola e os filmes porno. Depois, a telenovela e a TV a cores. Jornais e revistas multiplicavam-se pelas bancas veiculando idéias e ideais até então proibidos pelo regime fascista.

 

Atrasada como de costume, a liberdade chegava a um Portugal atrasado e poucos eram os que sabiam o que fazer com ela. Todos, sem exceção a queriam viver. E todos a vivemos. Os, mais ingénuos, acreditamos que os valores da liberdade, democracia e pluralismo seriam o melhor caminho para alcançar a “paz, pão, saúde, educação”...

 

Sigamos a música de Sérgio Godinho: Da paz, vejam o rasto de sangue da descolonização em Angola, Moçambique, Guiné, Timor...  O dinheiro para o pão é emprestado. A saúde traz o português doente e a educação, já comprometeu  o futuro dos nossos netos.

 

Primeiro foram as tais passagens de ano administrativas de 1974/75 e o “facilitismo” nos anos letivos seguintes.

 

Depois acabaram com as “escolas industriais”. Essa facada na educação sangrou até ao início da década de 90 com a criação das escolas profissionais.

 

Por fim, despromoveram o professor dois furos abaixo de cão um de polícia e um de sargento do exército. Assim, sem pensar duas vezes. A figura institucional do professor foi a mais maltratada da revolução dos cravos e foi pena.

 

Então, o portuga que sempre se deslumbrou com tudo o que vinha da estranja, entra na CEE, descobre a palavra competitividade e, com a globalização tem conhecimento de outros sistemas de educação. Os papás e mamãs, querem agora ”mais e melhor” educação para os seus brotos.

 

As reuniões escolares das minhas filhas e os anos de formador na escola profissional deram-me as tendências dos pais modernos: - eles fazem os trabalhos de casa dos meninos, cuidam da boa arte do copianço dos pirralhos e brigam com o prof por mais três décimas na avaliação dos meninos. No entanto, desistiram há muito de velar pelas mais elementares regras de convivência e respeito dos seus rebentos para com os mais velhos.

 

Não é “mais e melhor” educação. Trata-se apenas de competição desenfreada que os progenitores incutem nos putos. Desde pequenino torcem o pepino aos chavalos para que sejam os melhores dançarinos da festa da “pré-primária”, cantem em inglês no final da primária e terminem o secundário com notas de entrada em medicina.

Com a desculpa de querer o melhor para os filhos, vamos projetando neles os nossos sonhos, aspirações e anseios. Passam a ser os nossos instrumentos de competição.

 

Com isto, as psicoses ganham condições ideais de germinar e desenvolver em todos aqueles que por um motivo ou por outro, não conseguem manter o ritmo de competição. Sentem-se falhados, derrotados e excluídos.

 

Dentro das paredes da escola as crianças alinham pelo diapasão dos papás e vão fazendo a sua competição. Quem tem as melhores sapatilhas, quem é a mais bonita ou o mais popular... Princípios básicos como a gentileza, cavalheirismo, respeito pelo próximo, não cabem numa competição. Competir, rima com excluir.

 

As conseqüências podem ser assustadoras.

 

No passado dia 7, um jovem com dois revólveres, entrou numa escola pública no Rio de Janeiro, disparou mais de meia centena de munições matando 12 crianças e ferindo outras tantas. O Brasil entrou em choque.

 

“Os americanos e os ingleses são divididos por uma língua comum” disse um dia George Bernard Shaw. Penso que podemos dizer o mesmo entre brasileiros e portugueses. Por isso não me custa nada acreditar que em Portugal, um doido frustrado e psicótico escolha dar uns tiros numa escola, cinema ou centro comercial.

 

Todos se vão perguntar como foi possível acontecer essa barbaridade. Depois vamos culpar o excesso de armas nas mãos dos civis, o excesso de violência na TV e até, o excesso de informação na internet.

 

A culpa é nossa meus caros. Fizemos um mau trabalho na educação dos nossos filhos.

 

Pouco me importa que saibam fazer um orçamento com sete anos de idade como fazem os miúdos nas escolas de Singapura. Não ligo a mínima se um adolescente americano sabe desmontar e montar um computador.

 

Computadores , máquinas de filmar e outras tecnologias são ferramentas de formação para que mais nenhum velho, deficiente ou grávida tenham de viajar em pé nos transportes públicos, para que antes de debochar do aspecto, cor, credo e preferências de terceiros possamos ver as nossas próprias ventas e saber que não há perfeição nem milagres e que as gajas das revistas não são assim tão boas, bonitas e magras, é apenas photoshop.

 

Acredito que a educação deve ser encarada como o vinho e a escola como um grande sobreiro. Precisam de tempo, muito tempo. Sem pressas, como sempre fizeram os nossos ancestrais.

 

Com educação, mando aquele abraço do tamanho do oceano do amigo que te estima

 

Zé Moreira

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 15:25
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Domingo, 10 de Abril de 2011

Cartas do Zé

 

 

 

Caro amigo,

 

Aqui, no Brasil acabou o Carnaval. Não foram apenas três dias de festa. A folia durou mais de um mês entre ensaios das escolas de samba, passeatas de “trens eléctricos” e desfiles. Eles fazem o pré carnaval, o pós carnaval, o carnaval fora de época...

 

Sem saber porque, esta época carnavalesca levou-me trinta e sete anos atrás e só me deu para escrever sobre a revolução de abril. Não sei. O modo como os partidos políticos definem o seu programa de comemorações faz lembrar o profissionalismo das escolas de samba e seus desfiles. Cada qual com seus passos de dança, sua música e suas palavras de ordem, “locais históricos” para os comícios.

 

Os disfarces do carnaval brasileiro são mais ricos e diversificados. Nós aí, é o pôr ou não cravo na lapela, usar ou não a gravata vermelha... Uma chatice.

 

É a primeira vez que escrevo e reflito sobre a última revolução em Portugal e a tentação é começar pelo princípio:- Responder á pergunta que o jornalista da voz rouca imortalizou: ”onde estavas no 25/04/74?

 

Lembro que os dois, estávamos no mesmo local: Pela manhã entramos no Liceu Fernão Magalhães. Não recordo se houve aulas mas sei que a meio da manhã, a reitoria mandou a canalha toda para casa e que ninguém ficou para trás no recreio e campos de basquete.

 

Nas ruas, as pessoas pareciam sombras. Um silêncio, um estranho silêncio cobriu Chaves durante todo o dia de 25 de Abril de 1974. As notícias, as primeiras, chegavam a preto e branco e falavam de revolução, liberdade, fascismo e democracia. Tinha 13 anos e foi a primeira vez que ouvi essas palavras.

 

Nos dias e semanas seguintes ía ouvi-las e repeti-las até á exaustão.

 

Hoje, estou convencido que nessa época, os dedos das minhas mãos chegariam para contar os flavienses que realmente conheciam o significado dessas palavras. Contudo, seis dias após a revolução dos cravos, as ruas da cidade, cheias como um ovo, eram inflamadas por democratas de primeira viagem. Era o primeiro 1º de maio pós revolução.

 

Obscuros e insípidos professores, escriturários, desenhadores, viravam oradores e lideres políticos. Ainda hoje acredito que muitos desses líderes deviam agradecer á sua voz. Eram sempre vozes fortes. Quem mais alto e grave falasse, mais hipótese tinha de ser ouvido na bagunça.

 

 Essa constatação, não evitou que alegremente levantasse a mão e votasse o saneamento da quase totalidade do corpo docente nas RGAs (reunião geral de alunos) do velho liceu. O motivo era sempre o mesmo ” o/a prof era fascista”.

 

Oradores de voz e discurso inflamado iam desfilando. Lembro de todos eles. Alunos mais velhos, carregavam a mesma cultura política dois mais novos. A diferença era que falavam mais alto.

 

Escavacar umas cadeiras armários de madeira nobre que estavam arrumados no ginásio era um sinal de aprovação ou repúdio pelo discurso de algum orador e nunca um acto de vandalismo adolescente. Alguns anos depois, conheci alguns “maduros” que estiveram na ocupação da embaixada de Espanha. A destruição de obras de arte “foi um acto libertador”, disseram.

 

Nesse ano, houve “passagem administrativa” para toda a gente. Do ensino obrigatório á universidade. Era a “desbunda”, a grande farra... Ainda hoje este país sofre com essa leviandade do estado português. Quantos médicos e engenheiros mal formados. Quantos arquitectos, médicos, farmacêuticos, tiveram de se formar no Brasil.

 

Geração do desenrasca essa de Abril, mais tarde, apelidou a seguinte, de geração rasca quando, na verdade, a colocou á rasca. Desenrascados e sem vergonha na cara.

 

 Entre um “charro” e um copo de vinho pretenderam alfabetizar o povo. Aí, toca de rumar á província, ao Portugal profundo, á procura de gente para ensinar a ler e escrever. Comer umas gajas, fazer umas ocupações e apropriações de propriedades e bens privados, e claro, beber uns canecos e dar umas passas era quase tudo a mesma coisa.

 

Ainda está por fazer o balanço dessas campanhas de alfabetização. Ainda estão por punir os abusos das ocupações em nome do povo e da classe operária.

 

À festa, vieram juntar-se os “retornados” e militares das ex- colónias em África. Fruto de uma “descolonização possível”, também conhecida por “descolonização exemplar”, traziam medo e raiva no olhar.

 

Falo dos militares sem patente e sem armas, não dos capitães que fizeram a revolução porque queriam aumento de ordenado. Falo dos civis que sem entender porque se viram desalojados das suas casas, metidos num barco ou avião com a roupa do corpo e despejados nos aeroportos e portos nacionais.

 

Sei que alguns deram a volta por cima. Aproveitaram a confusão geral e carregaram diamantes, ouro e liamba que depois trocaram “à peseta”.  Outros, ainda andam ás voltas. A maioria desenrascou-se.

 

Apesar das palavras me saírem um pouco cáusticas com abril de 74, o “deve e haver” da revolução foi positiva. A liberdade embriaga, mas não tem preço. Ela levou-nos á democracia, modelo de convivência política mais justo até ao momento. Por isso temos de desculpar os excessos.

 

É como no Carnaval, ninguém leva a mal.

 

Volto ao assunto. Até lá, recebe aquele abraço do tamanho do oceano do amigo que te estima,

 

Zé Moreira

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
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Domingo, 3 de Abril de 2011

Cartas do Zé

 

 

 

Tentei frases, tentei texto

Nada. O que sai é palavra dura

Merda para os portugas de merda

De tanto olhar para o umbigo

Já nascem com curvatura

Que tenho? Perguntas bem amigo.

Em abril fico assim,

Desolado, chapado, marcado

Uma no cravo, o resto na ferradura

Em vez de rosas espinhos,

os jumentos sempre aguentam.

 

Não é por falta de fé.

Eu sempre acredito que é desta

Que a democracia desembesta.

Qual quê! Político português não aprende

Resguarda-se na armadura da democracia

Recusa-se a entender que candidatura quer dizer candura

E o candidato tem de ser casto. Esse é o significado

Quem não o entende devia ser marcado

Para que o marmanjo não engane o desavisado

Que é grave o desarranjo

Com os medíocres a votar e voltar

 

Se esta carta nem verso é

Não devem culpar cá o Zé

O sonho de abril foi grande

Devia ter prolongamento

Sei lá, fazer marcha á ré,

Fazer nova revolução,

sem militares sem pão

ou políticos reformados

sem aumentos pró’s deputados

ou jogo de cadeiras entre amados

Sem cravos, sem flores, com dores.

 

Razão tinha o comuna

Soviético ou chinoca tanto faz

Ao rico e burguês dava urna

ao  povo, calado, pão e paz.

Claro que não acredito nisto

Tão pouco em revolução sem sangue

 Maio de 68 libertou a mente

E morreu gente

Os hippys americanos,

Acabaram como os moicanos...

Mesmo assim, sinto falta

 

Sinto que falta uma revolução

Em abril a gente mente

Mas em abril a gente sente.

 

 

e como sempre faço

ao tratar-se de um "mano"

recebe aquele abraço

do tamanho do oceano.

 

zé Moreira

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 04:19
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Domingo, 27 de Março de 2011

Cartas do Zé

 

 

Caro amigo,


Cultura e desenvolvimento parecem bons assuntos para este último domingo de março.


Shakira, pop star colombiana, atuou na cidade brasileira de S. Paulo no passado fim de semana. Antes do espetáculo, encontrou-se em Brasília com a presidente Dilma para falar de crianças pobres e temas sociais em geral.


Na mesma ocasião, um chileno com 1,30m andava de TV em TV preenchendo os programas de entretenimento brasileiros com uma habilidade sui generis. Este pequeno (e feio) sul americano imita na perfeição a voz da cantora Shakira.


O shakiro, de quem já esqueci o nome, reproduz fielmente as músicas mais conhecidas daquela que abriu oficialmente o último campeonato do mundo de futebol na África do Sul.  Na televisão, os apresentadores convidavam telespectadores a fechar os olhos para melhor se inteirarem das semelhanças vocais. Juro que pareciam iguais.


Sem saber como, dei comigo a pensar nos desfiles de moda promovidos pelo actual presidente da câmara de Chaves, João Batista e do impacto que eles tiveram a nível nacional. Foi-se-me então o pensamento para as “bienais” de artes plásticas diligentemente organizadas e apoiadas por “los mismos”, ou o deslumbramento da mídia local, causado pelos cursos de atores com passagem por Hollywood.


Entretanto, pelo Boletim Municipal, sei que o TEF (Teatro Experimental Flaviense), mantém os mesmos apoios de miséria e que a sua independência financeira continua a ser negada. Ainda ninguém se lembrou da utilidade e necessidade das técnicas de representação teatral na formação dos nossos jovens alunos. São urgentes as parcerias com escolas profissionais da região para o desenvolvimento do teatro e do ensino em Chaves.


Desenvolvimento. Eu escrevi desenvolvimento? Como deixar passar em claro os mais de 20 anos de atividade da ADRAT (Associação de Desenvolvimento da Região do Alto Tâmega) conhecem?


A sua atividade e dinamismo são notórias. Os projetos aprovados em Bruxelas falam por si mesmos.  Da agricultura biológica ao turismo passando pela formação profissional, a nossa região mudou graças ao empenho e trabalho de um punhado de técnicos que trabalham dia e noite em prol do desenvolvimento lá prós lados do Alto da Cocanha.


O reconhecimento deste trabalho está no modo sempre pacífico com que o orçamento desta associação de desenvolvimento local é aprovado, e depois pago, pelas câmaras municipais da região.


Pudera. Todos os projetos são adequados á nossa realidade. Quase todos os formandos saídos dos cursos por si promovidos estão empregados. Os transmontanos do Alto Tâmega já não emigram para saber de sustento. É uma felicidade.


Vejam os empregos gerados com o artesanato do barro preto de Nantes, ou a presença dos cogumelos de estufa em todas as prateleiras dos supermercados flavienses. Que dizer do êxito retumbante da agricultura biológica produzida na nossa região e que hoje é conhecida e apreciada em todo o país. Igual resultado foi conseguido no turismo, o rural principalmente, que, fruto de uma divulgação sem precedente elevou as taxas de ocupação de camas a níveis nunca sonhados pelos proprietários. As povoações rurais fervilham de atividade.


O trabalho feito na preservação ambiental é único. Os nossos rios, matas, coutos de caça e "terras do povo", ficaram mais defendidos pelas populações depois do material de divulgação elaborado pelos técnicos de desenvolvimento.


E pensar que tudo isto o devemos a um homem. A um agente de desenvolvimento local. Um visionário cuja inteligência, capacidade de entendimento das necessidades da região e arcabouço político e intelectual transformou o Alto Tâmega nos últimos 20 anos.


Há mais de duas décadas, frequentei com ele o curso de formação de agentes de desenvolvimento local e testemunhei o aperfeiçoamento das capacidades de oratória e liderança que o caracterizam. Posso garantir. Ao contrário do que por aí dizem, as suas raízes familiares e cor política, em nada pesaram na escolha deste ser superior para a condução da agência de desenvolvimento da região do Alto Tâmega. Perdeu-se um estudante de arquitetura, mas ganhamos um animal do desenvolvimento.


Também posso garantir que, se fecharem os olhos por momentos, será fácil ver o desenvolvimento da nossa região para os próximos anos e o futuro risonho que a espera. É fácil. Vamos, mantenham os olhos fechados.


Para ti amigo blogueiro, o desejo de que mantenhas os olhos bem abertos e aquele abraço do tamanho do oceano, deste que te estima,


Zé Moreira

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 03:49
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Domingo, 20 de Março de 2011

Cartas do Zé

 

 

 

Caro amigo

 

Vou falar de mulheres. Para mim, o tema é uma estreia e de abordagem custosa.


Lembrei começar pela falta de reconhecimento que o mulherio sofre no município de Chaves. Recordo apenas o nome da Rua Maria Rita na toponímia flaviense, mas admito que haja mais.


Desconhecendo em absoluto quem foi essa Maria Rita que dá nome ao jardim infantil vizinho (uma santa, talvez), seria fácil desancar nas machistas gestões autárquicas das últimas quatro décadas.


A ausência de mulherame no topo das listas partidárias que concorrem á câmara de Chaves é gritante.


Depois, lembrei que os comunistas do burgo há muito que apostam em duas mulheres. As professoras Marília e Grilo. Vi o trabalho desta última em breve passagem pela assembleia municipal.


Teoricamente, do lado oposto do espectro político, posso garantir que essa pequena grande mulher é uma trabalhadora nata, amante de Chaves como nenhuma outra e que já lhe devemos uma ou duas medalhas da cidade como reconhecimento.  Agora está na freguesia de Santa Maria Maior e o seu trabalho é, como sempre, dedicado, desinteressado e intenso.


A nível nacional, sei que uma tal Paula ganhou lugar de deputada na Assembleia da República. Só não sei é o que anda a fazer na capital esta socialista flaviense eleita por Vila Real. Acho mesmo que ninguém sabe. Um dia prestará contas.


Como vêem, tenho dificuldade em escrever sobre mulheres. Apenas me ocorre agradecer á minha mãe e irmãs, filhas, cunhada e ex, o ensino dos segredos da culinária e de todas as lides de casa.


Elas são umas guerreiras. Fazem ideia do trabalho que dá limpar e varrer uma casa? Cozinhar e limpar a cozinha? Passar a ferro? E depois disto tudo, ir trabalhar? Porra!


Os anos ensinaram-me que as coisas aparentemente banais e simples são as mais gostosas. Esses mesmos anos foram testemunha da ascensão profissional, social e política da mulher. Revistas e programas de TV vocacionados para elas, ajudaram a divulgar e consolidar as conquistas femininas.


Hoje, já não faz sentido falar em descriminação sexual no ocidente. Sei que as africanas, asiáticas e sul americanas ainda têm um longo caminho de reivindicações. E a mulher europeia? Que caminho vai escolher agora?


Pergunto, porque ando confuso. Os modelos de família estão em mudança. Os papeis sociais, económicos e políticos do homem e da mulher alteraram-se de modo irremediável.


Faltam modelos, fórmulas de convivência entre os sexos. A família precisa de ser reinventada e sair fortalecida do sismo iniciado há quase dois séculos com a revolução industrial.


A mulher, agora é a caçadora que põe em casa a comida na mesa. É a militar que carrega as armas. A gestora que produz e distribui riqueza. A presidente que decide o futuro de um país, cidade ou empresa.


Alterado o status quo dentro da família homem e mulher não souberam responder aos novos papeis. A desagregação foi inevitável. Os divórcios a consequência.


Com educação machista que todos recebemos, é difícil aceitar que a tua mulher tenha melhor ordenado do que o teu. É insuportável ter de abandonar uma carreira profissional em nome da família. Agora, que “ando devagar porque já não tenho pressa”, dou conta dos erros, culpas e responsabilidades masculinas nesta matéria.


No entanto, hoje acredito que esta “guerra dos sexos” tenha solução. A saída é que não haja vencidos. Apenas vencedores. Os que amam, os que acima de tudo, acreditam que o amor que uniu é mais forte do que todos os preconceitos induzidos pelos processos culturais, sociais e educacionais.


Assim, lembro o sabor de uns pastéis de Chaves morninhos, acompanhados da leitura do Expresso, bom sexo e boa prosa entre cada caderno. Conseguem imaginar coisa melhor com uma mulher? Eu não. Mesmo assim, procurei feito um caçador idiota colecionador de momentos de plástico idiotas atravessando anos, oceanos e gajas.


Ainda hoje, quando o fim de semana é em Chaves, vou atrás dos pastéis, do Expresso e da mulher inteligente e disposta. Nunca mais reuni os três. Talvez porque quem faltava era eu.


Vês amigo! É-me difícil falar de mulheres. Aprendi apenas a amá-las e mesmo isso, demorou o seu tempo. O tempo de uma vida. Por isso partilho contigo e com o resto dos blogueiros esta coisa estranha e maravilhosa que é amar a mulher e de propor a solução para a família do século XXI: o amor.


A dica não é minha. Qualquer religião que se preze, fala nesta coisa do amor. Apenas é preciso acreditar. Acreditem no amor e no abraço do tamanho do oceano deste escriba que muito vos estima,

 

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 02:30
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Domingo, 13 de Março de 2011

Cartas do Zé

 

 

Caro amigo,


Este domingo é de humor. Já o disse. Escrevo do Brasil, Ceará, cidade Paracuru, 70 km a norte de Fortaleza, a capital do estado, dengue, buracos, crimes violentos e humor. Vamos falar de humor.


Os cearenses têm orgulho nisso. É o estado brasileiro com mais humoristas por metro quadrado. Turistas, sabem que em qualquer restaurante de Fortaleza, o baião de dois e o churrasco é empurrado com piadas e cerveja em abundância.


No calçadão da Beira Mar, nos bares da Praia do Futuro os espetáculos de humor são a toda a hora.


O Ceará tem tanto humorista que exporta para o resto do Brasil. Há cinco décadas, Chico Anísio e Renato Aragão (DIDI), abriram o caminho e fizeram escola na TV Globo.


Depois apareceu Ton Cavalcante, radialista que virou palhaço e agora é apresentador de TV com programa de divulgação de novos talentos do humor. A maioria é, adivinhem, cearense.


Foi este tal de Cavalcante que “descobriu” o palhaço Tiririca. Lembram? O tal que nas últimas eleições brasileiras arrecadou mais de um milhão e trezentos mil votos, tornando-se o deputado federal mais votado do Brasil.


O humor brasileiro não é exclusivo do Ceará. Em Brasília, o palhaço-deputado, ou deputado palhaço, como preferirem, só tomou posse depois de dar provas de que sabia ler e escrever. Passou o teste com muita dificuldade. Recentemente, foi eleito pelos seus pares para a Comissão de Educação e Cultura.


Quando assisto ao noticiário ou leio este tipo de palhaçadas brasileiras, não me surpreende o facto de determinados deputados serem palhaços analfabetos, pugilistas, ou putas. O que me espanta é o sentido de humor de quem neles deposita o seu voto.


Cansado da corrupção na política, da violência de rua, da injustiça económica e social, o povo brasileiro vota com humor e irreverência.

Que inveja me dá.


 Nós, aí, votamos num técnico agrário. O Desportivo foi á 1ª divisão, mas o vale do Tâmega e Veiga de Chaves continuam na bagunça improdutiva de sempre. Depois votamos num licenciado em ciência política e o “socinho” inaugurou uns supermercados, distribuiu uns quantos jobs pelos boys da sua cor e tratou foi da vidinha política dele. Agora, elegemos um professor de história que se dedicou a descaracterizar o centro da cidade, montar redes de galinheiro nas muralhas centenárias, e claro, inaugurar uns supermercados.


No plano nacional a coisa pouco se altera. Um “inginheiro” que fumou mais marijuana do que eu, prepara-se para completar o segundo mandato á frente do governo de Portugal. Ele e Cavaco Silva, serão os governantes que mais tempo estiveram no governo depois do 25 de Abril. Será o segundo Sócrates a ser citado nos futuros livros de história...


Como podem compreender, estas constatações não têm graça nenhuma. Chegam a dar vontade de chorar.


Por exemplo, quando o Bill Clinton foi eleito presidente dos EUA, os norte americanos estavam fartos de saber que o gajo tinha puxado umas passas valentes de maconha e “comia” umas galinhas fora do casamento. E quê? Não tinham votado e eleito dois atores de cinema para presidente e governador?


Aqui não. Tudo se esconde, tudo se adultera em prol do “bom nome”, do “bem parecer” e da manutenção da “paz social”. Até uns exames de licenciatura foram efetuados aos sábados e domingos.


Ora estas merdas não me fazem rir. Sinto-me enganado. Em Portugal, os gajos apresentam-se a sufrágio como impolutos, seres tão perfeitos como o fato azul ou cinza que vestem. Só depois começam a aparecer as costuras descosidas, os remendos nos fundilhos e o desbotar da cor.


Nós, os flavienses fazemos pior. Além de votarmos no corte e cor do fato, exigimos que o “bacano” seja de outra terra, que “santos da casa não fazem milagres”. É chique.


 De analfabetos, passamos a parolos, deslumbrados e palulas (como nos designam os barrosões).


O nosso vale, se facilitou o fluxo de pessoas e mercadorias, parece ter esvaziado os flavienses de ideias e atitudes.


Os antepassados que defenderam Chaves do acosso monárquico, os que resistiram á invasão dos franceses, os que imprimiram o primeiro livro em Portugal, iriam preferir o voto num palhaço, pugilista ou prostituta.


Com sentido de humor e irreverência, é possível manter a verticalidade do ser humano, porque mesmo em sistemas democráticos sempre aparecem homens que se julgam mais homens que os outros e nos querem fazer “andar de quatro”.


Procurei falar de humor sem rir ou contar piada. Para ti, rapaz direito, aquele abraço bem vertical e do tamanho do oceano,


o amigo que te estima


 

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 04:06
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Domingo, 6 de Março de 2011

Cartas do Zé

 

 

 

 

Caro amigo,

 

Acabado de escrever e enviar a carta sobre comunicação social na nossa região,decidi falar um pouco mais do assunto.

 

Na verdade arrependi-me de esbanjar ironia e sarcasmo em semanários, rádios, seus responsáveis eaté, colaboradores.  Eles merecem é umas bofetadas bem dadas.

 

Quantos deles nunca telefonaram para empresas ou autarquias a negociar publicidade a troco de noticias favoráveis ou pelo menos, não desfavoráveis?

 

Quantos deles resistem ao beija-mão ao responsável público ou patão do privado?

 

Quantos deles resistem aos comes e bebes à borla dos presidentes e gerentes?

 

Eu costumo chamar-lhes brigada do croquete. Pelo que comem e pelo que calam com um croquete ou bolinho de bacalhau nos queixos.

 

Infelizmente, esta equipa não é típica da nossa região. Ela está representada em todo o país. Afinal, grande parte dos profissionais deste nosso “4º poder” foram recrutados ás portas das escolas secundárias de Lisboa. Foi em meados da década de 70 e as cantinas escolares já eram sinônimo de “larica”. Daí virá a preferência de fazer a notícia a dar ao dente.

 

Comida e bebida á parte, faltam tomates ao jornalismo flaviense. Para quando um “bi” ou “tri” semanário em Chaves. Que é feito da banda desenhada? Porque é que as entrevistas com os candidatos ás autarquias acabam com a campanha eleitoral e ninguém aparece a fazer balanços de legislaturas nem denúncias do prometido e não realizado.

 

Porque será que ninguém se lembrou, perguntou e publicou, quanto custa o periódico municipal em papel couché, fotos a cores e uma tiragem superior á anunciada por qualquer publicação local.

 

E o flaviense?Já questionou os seus botões sobre a simples existência  de alguns meios da região? Pois aí têm: - Pelo menos, um semanário nasceu para derrubar um presidente da câmara. Conseguiu. Que porra de linha editorial esta!

 

Pior, só mesmo o desavergonhado alinhamento de interesses político-económicos que contribuiu para atribuição de licenças de emissão radiofônica na região.

 

Acompanhei com atenção estas duas histórias de polichinelo. Não ponho nomes, porque o pessoal já sabe quem são os melgas.  (quem não souber eu digo por e- mail).

 

Andam agora disfarçados de políticos coerentes e impolutos, empresários de seriedade inatacável e intelectuais de sólida independência.

 

 Admito que não quero ir a tribunal por isto. Sabem? Estes gajos gostam é de ir ao juiz.

Acusando ou “sentando o cú no mocho”, adoram estar perto das togas. Eu não. Estive lá uma vez e fui condenado por abuso de liberdade de imprensa. Desculpavam se me retratasse. Fiquei na minha e fui condenado.

 

Carrego esse estigma comigo. Esquecer a palavra “presumivelmente” custou-me caro.

 

Por outro lado, presumi que o director da publicação me defendesse e enganei-me.

 

Presumi que à outra parte estivesse  interessada na verdade e em  fazer justiça. Também me enganei.

 

No entanto cá estou. “Sempre que alguém me quiser, basta fazer um sinal”. Obrigado pelo teu piscar de olho e um abraço do tamanho do oceano.

 

José Hermínio Moreira

 

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 12:00
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Domingo, 27 de Fevereiro de 2011

Cartas do Zé

 

 

 

Caro amigo,

 

Este domingo, vou falar de comunicação social na nossa cidade.

 

Confesso que ando afastado das leituras da imprensa local e por motivos óbvios, mais ainda do FM flaviense.

 

Nem sempre foi assim. No meu quiosque ouvia as rádios locais e devorava a imprensa da nossa terra. Para escrever sobre a matéria fui á net ver e ler alguns números atrasados dos semanários. Não era preciso.

 

É incrível o padrão de qualidade da nossa comunicação social. Estou convencido que é graças a este caso único de qualidade que todas as instituições públicas e privadas de Chaves funcionam tão bem, sem descasos ou abusos para clientes e utentes.

 

O elevado nível académico, cultural, moral e ético dos directores responsáveis, apenas é igualado pelos seus colaboradores.

 

Assim, é de realçar a ausência de profissionais qualificados ou seja, jornalistas. Para quê? Fernando Pessoa era escriturário e vejam aonde chegou.

 

O formato e conteúdo dos mídia mantém-se, em alguns casos, desde a sua fundação. Porquê? Em equipa que ganha não se mexe, diz o ditado.

 

No desporto, por exemplo, continuam a dar o resumo do jogo do domingo anterior enquanto cabeças mais levianas gostariam de ler uma antecipação da jornada do domingo seguinte. Como? E perder a certeza do resultado, da formação das equipas, a leitura de todos os jornais desportivos da semana para assim garantir um texto irrepreensível?

 

Neste campo, o desportivo, nota-se o salto mais qualitativo e quantitativo da imprensa local. O número de páginas dobrou e o número de colaboradores também, para cobrir todos os escalões de futebol de todos os campeonatos da nossa urbe. Seja futebol federado, de escola, de rua...

 

E interessa a quem? Que pergunta! É claro que interessa aos pais, tios, sobrinhos e amigos dos vinte e dois “meus” que naquele dia decidiram fazer uma peladinha. Se cada parente e amigo comprar um jornal...

 

Chegado o período eleitoral salta á vista as rigorosas bitolas de isenção, pluralismo e democracia de cada órgão de comunicação social local. Dizem o quê? Rigorosamente todos os meios, respeitam ao minuto e á linha escrita, o direito de todos os intervenientes políticos. Os partidos têm livre acesso e igual oportunidade de se manifestarem.

 

E, se alguém pensa que é na época das eleições que maior número de colaboradores desinteressados faz os seus escritos para os jornais e rádios, pode tirar o cavalinho da chuva. Se ás redacções chega mais matéria para publicação nessas alturas, será por causa do atraso nos correios, ou pelo raro, mas possível, fenómeno de inspiração criativa e colectiva dos escribas.

 

Qualquer insinuação de subserviência dos jornais e rádios ao poder público, por exemplo câmara municipal, é pura demagogia.

 

Chegado a Chaves em finais dos anos 80 e perante tal quadro de perfeição e harmonia dos meios informativos flavienses, tornou-se claro para mim que nunca iria exercer a minha profissão, jornalista.

 

Com os meios de comunicação social local a abarrotar de talento, profissionalismo, entusiasmo e competência, tentei o ensino e a vida empresarial. Não fui feliz.

 

Quem sabe, um dia, com o aprendizado dos grandes mestres das letras flavienses, historicamente avessos a pressões políticas e económicas, baluartes da ética e boas práticas jornalísticas, quem sabe, dizia eu, possa aspirar a escrever num jornal ou rádio da minha cidade.

 

No entanto, vejo alguns nomes novos na imprensa local. Aos estagiários, uma sugestão de trabalho: Verificar a relação de militância em partidos políticos e emprego nos municípios do Alto Tâmega. Estou certo que descobrirão o quanto é politizado o funcionário municipal. Autarquias há a rondar os 100% de funcionários inscritos no partido. Isto é cultura política meus senhores. Nada de seguidismo, nada de caciquismo, nada “babar o patrão”. Cultura política em estado puro.

 

Fazendo autocrítica ao meu trabalho como jornalista, acho que me falta a humildade de um bom desenhador de construção civil pendurado no seu estirador, para assim poder riscar um bom artigo de imprensa. Falta também o arrojo de um comerciante para vislumbrar em cada facto um “furo” e o olho calibrado de um tipógrafo para entender que um artigo de jornal pode ter mais de um tipo de letra e mais do que uma leitura.

 

Como vez, caro amigo, já não me resta pinga de ódio para destilar. Nos últimos anos, consegui recompor todas as mutilações intelectuais que me fizeram e em que eu ajudei.

 

 Ficou apenas um sarcasmo básico do qual gosto e de que não pretendo abdicar por necessário e útil ao meu equilíbrio mental.

 

 Percebes agora como preciso de ti e do teu blog todos os domingos.

 

Um abraço do tamanho do oceano.

 

 

publicado por Fer.Ribeiro às 03:17
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Domingo, 20 de Fevereiro de 2011

Cartas do Zé

 

 

Como vais amigo?


Quem diria! Já não consigo parar de te escrever.


Aqui, no Ceará começaram as chuvas. É tempo de plantar o feijão, milho, maxixe, macaxeira e cuidar da apanha de alguma fruta (banana, manga, graviola). A enxada acorda comigo ás cinco da manhã e só a largo quando o cabo fica quente pelo sol. Volta ao fim da tarde e depois, é sempre a dar-lhe até á janta.

 

A visita de parentes, serviu de desculpa para procurar um ajudante, mas infelizmente, não aumentaram as minhas horas livres, o tempo para os amigos, a folga para teclar contigo, e por tabela, com todos aqueles que visitam o teu blog.


É uma honra e uma sorte escrever aqui. Nem sabes quanta malta tem comentado os poucos escritos que fiz. O facebook, melhor invenção depois da roda, faz milagres. Enfim, estou a gostar. Por isso, vou continuar.


Melhor que isto, só mesmo se o pessoal desse também algumas novidades daí. Sabes que sofro de “flaviensite crónica” ou saudade, também te disse que se estende a algumas pessoas mas, a verdade é que tenho ganas de uma boa fofoca á moda do Largo das Freiras, ou mesmo uma descascadela a la quiosque do Arrabalde.


Sei que é impossível, mas podíamos experimentar de outra maneira: - Eu fazia algumas perguntas e tu, ou outro gabiru com mais pachorra, procurava responder. O pessoal já sabe o meu e-mail.


Queria novidades do meu Desportivo de Chaves. Amo esse clube. Tanto, que gostaria de o ver em outra despromoção.  Sei lá, talvez até aos regionais. Que descesse tanto, que todos os “parasitas socioeconómicos”, “filhos de fulano” e “filhos de fulano de tal”, que gravitam á sua volta o abandonassem. O Desportivo precisa de verdadeira dedicação.


Os gajos que acusavam ex-autarcas das verbas dispensadas ao clube e que dariam para fazer muitas obras sociais na autarquia, são os mesmos que passados alguns anos pedem ainda mais dinheiro dos munícipes.


A descida até aos fundos, serviria para separar o trigo do jóio. Os ratos, sempre abandonam os barcos que se afundam.


Pena que á Câmara Municipal de Chaves, não possamos aplicar a mesma receita... Quem vai substituir o senhor professor de História? Estou certo que será um tipo do PS. É a “alternância democrática” que tanto gostamos.


Todos os flavienses precisam de estar atentos. Que não ponham lá nenhum menino sem sal, sem idéias.  Ser dirigente da banda dos Pardais, ou de uma corporação de bombeiros, também não convence.


Querer muito ser presidente, também não chega. O actual, até por meu amigo passou. Era visita assídua do meu quiosque e de muito “estaminé” da cidade até ser eleito. Depois, nunca mais foi visto.


O tipo que eu gostava de ver no gabinete da presidência, tem de vir de um grupo e não de um partido político. Um grupo de flavienses com um projecto para a cidade e não projectos avulso para supermercados e grandes superfícies. Não sei se será desta, mas estou convicto que um dia, a cultura democrática dos flavienses, vai superar as diferenças partidárias e dará origem a esse grupo, o que nos dará um presidente de que possamos ter orgulho. Assim espero.


Também espero que o comércio de Chaves esteja melhor do que estava. O presidente da associação comercial (ACISAT) ainda é o mesmo? Que pena... Ele não se cansa. Quem tem de se aborrecer são os comerciantes e correr com um sujeito que foi útil nos primeiros quatro anos, mas que há muito deixou de merecer o voto dos associados.


Comerciantes e empresários de Chaves precisam de um digno representante. Conheço um, o único que vejo como empresário com E maiúsculo. Há muitos anos que não falo com ele. Sei que continua ás voltas com a maior empresa de transformação de pedras ornamentais da região, mas acho que nunca irão convencer Artur Pereira, a “pegar” na ACISAT .


Tenho pena. A experiência dos seus sessenta e pico anos, as duas licenciaturas em alfândegas e administração, e sobretudo, o trajecto de um empresário de sucesso, dariam à Associação Comercial Industrial e Serviços do Alto Tâmega, o “comandante” certo.


Esta é a minha opinião e nunca a discuti com ninguém. Nem com o visado.


Mudando de assunto. E o turismo da terra. Ouvi dizer que mudou de responsável. Querem dizer-me porquê? Houve dança de cadeiras? Quem é o novo manda-chuva no turismo do Alto Tâmega?


E a cultura em Chaves? Ainda é o mesmo António a tratar dessas coisas. Ainda é aquele para quem cantar á capela era cantar na capela e isso estava proibido?


Não é por escrever no teu blog, mas será que esses fulanos responsáveis pelo município, sejam socialistas ou social democratas, não têm olhos na cara nem sensibilidade suficiente para ver que tens mais arcaboiço para assuntos culturais num dedo, que todos os Antónios da câmara dos pés á cabeça.


Um passarinho chegou a dizer-me que sofres até perseguições por causa deste teu blog. Que estúpidos. Deveriam agradecer e recolher matéria para trabalho autárquico. Será que nunca ouviram falar na teoria sistémica de administração pública.


Eis outro motivo porque gosto de te chamar Pluto. Para que não haja confusões de Antónios.


Abraço do tamanho do oceano.

 

José Hermínio Moreira

publicado por Fer.Ribeiro às 23:50
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Sábado, 12 de Fevereiro de 2011

Cartas do Zé

 

 

 

Caro amigo,

 

Com o passar dos dias , meses e anos longe da minha cidade, dou conta e reconheço da “flaviensite crónica” que sofro. Alguns chamam-lhe saudade e eu a esta altura, já não estou para teimas. Que seja saudade.

 

Sem as pessoas, a maioria delas, eu até passo bem. Mas sem o rio, as pontes, ruas, becos, casas e até, as pedras da calçada, tudo me custa esquecer, tapar, passar por cima. Quando dou por mim, estou a fazer escandalosas comparações, mirabolantes associações. Queres ler?

 

Esta semana que passou os jornais da tv aqui do Ceará, destacaram duas “notícias”. Uma, a esperada inclusão deste estado brasileiro numa lista de 16 onde a dengue pode virar epidemia.

A outra, é a constatação do avanço do mar no litoral de todo o estado do Ceará fruto das mudanças do clima.

 

O que têm a ver estas duas noticias com Chaves? Para uma mente sã, nada. Mas alguém como eu, logo pensa no que seria a Rua Verde se fosse brasileira, aqui do Ceará. Com toda aquela sujeira, todo aquele matagal que invade as casas de pedra, semi destruídas e que ocasionalmente abrigam seres semi destruídos pela droga, gatos vadios e muito lixo.

 

Seria um foco da dengue quase de certeza. Acontece que para ser foco de doenças não é preciso a Rua Verde ser brasileira, basta a merda que tem em cima e com o pouco interesse que isso parece despertar nos responsáveis autárquicos da cidade de Chaves.

 

Sentados nas suas secretárias, a escassos 100 metros deste potencial foco de doenças, continuam míopes de poder, doença rara, infelizmente não mortal, como a dengue.

 

O avanço do mar do Ceará e a destruição de muitas construções humanas, faz-me andar mais 50 metros. Estamos na Rua Maria Rita, próximo das Portas do Anjo. Olhamos para a muralha centenária e que vemos? Uma porta em chapa de zinco?

 

Bom, se não é zinco é uma chapa qualquer. Já foram umas tábuas manhosas que alguém deixou ali, para tapar o buraco da muralha. Depois virou portão de chapa.

 

Denunciei já esta anormalidade. Nos jornais e na autarquia. Na altura, um gajo meu amigo que foi trabalhar para a câmara de Chaves e que agora é o Sr. Eng. Mota, do turismo do Alto Tâmega, até rabiscou qualquer coisa “para não esquecer”.

 

Claro que esqueceu. Ninguém fez nada até agora. Sabes porque caro amigo? Queres que as pessoas saibam o porque desta porta na muralha? Os motivos são os mesmos do abandono da Rua Verde, em pleno centro histórico.

 

O dinheiro. O dinheiro que alguém vai ganhar se lhe deixarem ficar a porta em chapa de zinco. Essa porta representa um novo acesso a um imóvel situado na rua atrás da muralha. Não importa dizer que essa muralha é patrimônio de todos e não pode ser apropriada por um privado.

 

A 150 metros  das secretárias dos míopes da autarquia, ninguém fez nada. Esperam que o povo esqueça, que a falcatrua e o abuso amadureça, cumpridos 20 anos, inventam um usocapião qualquer e dizem que aquilo é legal.

 

A vergonha pelo imobilismo atravessa o historial de vários presidentes de câmara. Falarei do descaso de todos eles. Pelo nome e apelido. Nenhum poderá dizer que não sabia de nada. Todos eles estacionam o carro ali para ir ás compras. Este último pára ali o carro para ir á sede do seu partido político.

 

Também o vi passar na Rua Verde. Será que quanto mais destruído estiver aquilo mais vai valer  para o empreiteiro? E a saúde pública? E a dengue? E o avanço do mar?

 

Ai amigo, esta minha “flaviensite crónica” vai de mal a pior, mas se vires por aí o Tó Pedra, agora eng. Mota ou o sr. Professor Batista, teu actual patrão, pergunta-lhes pelo rabisco no papel. Se ainda têm rabisco. Se sabem para que serve um rabisco.

 

José Hermínio Moreira

 

publicado por Fer.Ribeiro às 22:00
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