Quarta-feira, 5 de Julho de 2017

Cartas a Madame de Bovery

cartas-madame

 

Minha cara Madame de Bovery (9)

 

 

Deixo-a aqui, desta vez para sempre, ainda que tenha a noção exacta da inexactidão do que digo. Acontece também isto na vida!

 

A perda do Comendador é irreparável e não tem isto nada de trágico. Ambas estamos melhor sem ele e, de alguma forma, ele sem nós! Mas não basta, para ser feliz, coragem e determinação, é preciso vontade, talvez o que não temos!

 

Aconteceu-me aqui, aquilo a que chamo um sinal: ao escrever, saiu-me em escrita a frase inversa ao que inicialmente pretendia dizer! Deixo estar, até não está mal, talvez esteja até melhor, talvez assim faça até mais sentido!

 

Ambas sabemos e ambas soubemos, sem, no entanto, nunca termos falado disso uma única vez! Depois desta, quase eterna, ausência do Comendador na nossa vida, o seu regresso jamais fará sentido! Chegou a altura de ficarmos também em paz!

 

E só há talvez uma forma de o Comendador e nós descansarmos para todo o sempre. E ainda que a primeira parte nunca me tenha preocupado, já a segunda incomoda-me. Mas para isso preciso da sua ajuda! Sendo a senhora o único familiar com vida, terá de ser a senhora a requerê-lo. Pretendo que peça a exumação do corpo do Comendador para se proceder à concretização do seu último desejo: a sua cremação.Às vezes só a morte não chega! Esta foi talvez a última lição do Comendador e eu na altura não percebi!

 

A dificuldade está em que a senhora não tem forma de saber se isto é, ou não, verdade, a não ser acreditando em mim, o que não é de todo fácil, tendo em conta o assunto em causa.

 

Pois foi isso, ora aí está, rasguei o documento assinado pelo nosso caro comendador em que ele manifestava, não essa vontade, mas esse pedido! E repare no que é, sem dúvida nenhuma, estranho. Sempre li no texto que ele deixou escrito apenas um desejo, um gosto, uma vontade, pois que foram essas as palavras que ele usou e que por isso, no meu entender, eram susceptíveis de serem contrariadas, sem qualquer penalização moral. A amizade que por ele tinha, concedia-me esse direito: onde é que já se viu?!

 

Mas vejo agora, já sem o documento, que talvez o significado dessas palavras fosse o que hoje me assaltou o pensamento. O comendador era incapaz de pedir fosse o que fosse! Tinha aquela linguagem formal, cheia de adereços, em parte dissimulada, que nunca deixava transparecer a verdade, ainda que pudesse ser essa a intenção, que a senhora muito bem conhece, e que escondia ou dificultava muitas vezes o entendimento das coisas. Sempre encarei isto como uma escolha sua, mas penso agora que se calhar não era. Ele pura e simplesmente não era capaz de outra!

 

A ser assim, e digo-o desta forma porque não tenho sobre ela uma certeza absoluta, apenas a que baste para agir nesse sentido, pergunto-lhe sem rodeios: a senhora acredita em mim?

 

Saiba que compreendo bem, se nunca me responder a esta carta e que saberei respeitar o seu silêncio mais até do que consegui fazer com o do comendador, pois que o dele não foi uma resposta e o seu será sempre muito mais do que isso! Mas quero também que compreenda, e se puder aceite, que lhe coloco esta questão com seriedade absoluta, pois que a não ser assim, eu nunca me perdoarei tê-la feito só agora.

 

Por mim e por si.

 

Da sua, sempre amiga,

 

Maria Francisca

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Quarta-feira, 14 de Junho de 2017

Cartas a Madame de Bovery

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Minha cara Madame de Bovery (6)

 

Desculpe esta minha ausência prolongada, mas tive de vir a Londres! Precisei de perceber o que tem esta cidade, para que o Comendador nela passasse os últimos anos da sua vida. Ainda não encontrei o motivo ou a razão, mas começa a esboçar-se em tudo o que me rodeia uma desculpa ou um argumento, se quiser. A luminosidade do dia ou a ausência dela, predispõe a um desnecessário assumir de responsabilidade. Não sei como definir este sentimento ou sensação, mas é como se fossemos arbitrariamente livres!

 

Há, sem dúvida nenhuma que há, a sensação de estar em casa, mas sem o peso dos objectos, das paredes que falam, da música que conhecemos e que ouvimos em determinados momentos e que nos deixa reféns, dependentes! É como um apagar de memórias, completo, das boas e das más, como se renascêssemos, como se a nossa vida, a única que temos, nos desse uma segunda oportunidade! Como é que eu hei-de traduzir em palavras o sentimento que me vai na alma?!

 

Atravesso a rua e vejo o Comendador do outro lado, com o seu sobretudo, a sua bengala. Já alguma vez lhe ocorreu pensar porque razão a usava!? Sim, é verdade que depois daquele acidente, do qual falava sempre com ironia, mercê das circunstâncias em que ocorreu, nunca depois dele lidou bem com as consequências! Mas a história da bengala não era uma delas, ele só achava que ela lhe dava mais carisma! Pois é, brincava com o facto, mas a ideia de perfeição que tinha colada à pele e da qual ele era, não um exemplo, mas o exemplo, fechou-o sempre num disfarce de sedução, charme se quiser, com o qual falsamente sabia lidar!

 

Pois foi essa, minha cara Madame de Bovery, a segunda impressão que absorvi desta cidade: a neblina que esconde os pequenos defeitos, os do corpo e os da alma, trá-los à luz do dia, ao meio-dia! Nessa altura o Comendador recolhia-se para um breve descanso. Soube-o por uma vizinha, uma jovem diplomata por quem o Comendador se interessou e a quem ela achava alguma graça! Forma de dizer. Suscitava-lhe indignação e surpresa, a par de admiração e fascínio, a forma como ele abordava os temas no parlamento!

 

As voltas que o mundo dá! Foi-me apresentada, a jovem, num evento social e, sabe como é, portugueses no estrangeiro, parecem irmãos! Como início de conversa falou-me de um Comendador português, que em tempos tinha conhecido! Claro que eu explorei o quanto pude e pude bastante, a convicção que tinha ficado nela desse ser humano que, supunha ela, eu não fazia ideia de quem se tratava. Brilhante a descrição! Tudo quanto não sabíamos, fiquei a sabê-lo num simples jantar, sem qualquer esforço, nem o de perguntar!

 

As características dela tinham de certo, percebi-o facilmente, impressionado o Comendador. Era, veja a senhora, eloquente na forma como expunha os assuntos, vivenciava com impressionante à vontade tudo o que lhe era estranho e alheio. O Comendador gostava disso, de como se subverte a natureza humana ao poder da inteligência! Ela tinha isso. A par da juventude, uma enorme força e vontade de viver. Feliz com tudo. O que estava mal, modificava-o, ajustava-o a si e o que estava bem, elogiava-o. Era fácil de adivinhar que para ela o Comendador era o exemplo do que estava bem e que ela o admirava e lhe alimentava o ego constantemente. Sabemos o quanto ele gostava disso, de se sentir o centro, a convergência dos olhares e da admiração. Ela servia-o na medida exacta das suas necessidades!

 

Não tirei nenhuma conclusão sobre o grau de intimidade com que se relacionaram, sabe que isso não é um aspecto que eu considere ou valorize e que tenho por menor as fraquezas do corpo comparadas com as da alma, por as achar circunstanciais e improdutivas, quase sempre! Sei que muito provavelmente me engano, porque o Comendador, que eu respeitava tão superiormente, dava a isso muito valor. Nunca percebi, honestamente, em que medida exacta e quando é que isso acontecia, mas era muito clara essa parte nele. Eu é que não tinha a lucidez bastante para ver compatibilidade nisso! Sabe como sou, separo coisas inseparáveis e o Comendador juntava os presumíveis opostos em harmonia. Sim, claramente, quando lhe interessava!

 

Hoje, enquanto passeava pelas ruas, perseguia-me uma voz que me fazia entrar em alguns locais e noutros não. Depois de entrar percebia porquê, mas ao mesmo tempo não tinha explicação para o que a isso me impelia! Foi numa das conversas com a jovem diplomata que soube a razão disso. Eram locais onde ela tinha estado, exactamente, com ele! Os armazéns Liberty, acredita nisto, onde tinha comprado o fato de lã e cachemira para o último evento; a relojoaria de Regent Street onde tinha adquirido a sua última peça da colecção de relógios! Foi exactamente ali, no luxuoso hall de entrada, que encontrou o coleccionador inglês de quem sempre tinha andado à procura! Alguém que hipoteca a própria vida, se for caso disso, para completar uma colecção! Admirável! E sabe que não era esse o caso!? Era apenas o dono da loja! O Comendador enganou-se! Não podia, depois disso, regressar! Nem para si nem para mim e muito menos para ele!

 

Daquela que não a esquece,

Maria Francisca

 

 

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Quarta-feira, 7 de Junho de 2017

Cartas a Madame de Bovery

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Minha cara Madame de Bovery (5)

 

Sabe aquele ponto a partir do qual não sabemos se existimos?! O ponto onde a matéria se dilui, se liquefaz? Aquele estado das coisas próximo das não-coisas em que parece que tudo acaba ou começa e nós meio perdidos agarramos em qualquer coisa, a primeira que nos vem à mão?! O lençol da cama, a almofada do sofá, o fio do pescoço, o copo da água ali posto não sabemos por quem, o rabo da gata, o que seja, o que for, como se nos quiséssemos agarrar, amarrar, prender, colar a qualquer coisa para não ir, porque há alguém do outro lado a puxar-nos e nós por medo a contrariar, a gastar as últimas forças, sem nenhumas, e a resistir, já depois do último momento!

 

Aconteceu-me algumas vezes e numa delas não omiti e contei ao Comendador e ele respondeu-me com a sua habitual complacência: pronto, está bem! Como se aquilo que eu lhe tivesse dito não tivesse importância nenhuma, fosse um exagero de mulher, um devaneio, um histerismo e eu o que queria era perceber porquê!

 

E eu lamentava, profundamente lamentava, não me saber fazer entender, não saber identificar o que sentia, não encontrar as palavras certas para o transmitir, posto que era um sentimento, e deixava-me invadir pela impossibilidade de se ter uma vida sem compreender isto, como me parecia ser a do Comendador e dizia intimamente: como é vã! Mas não era a dele, era a minha e eu não percebia!

 

A senhora sabe do que falo? Já lhe aconteceu também? Com o Comendador? Tê-lo ali à nossa frente e ele a quilómetros de distância, imóvel, petrificado, sem sequer se dar ao trabalho de dizer: mas eu estou aqui! Efectivamente não estava! E era isso que magoava, era isso que doía, assim por dentro, como um sangramento interior, uma hemorragia interna que se sente e se não vê! Adiantava nesse ponto afirmar que era real? Sim, sim, é exactamente disso que falo!

 

Depois ressuscitava, voltava a mim e tudo aquilo entrava na minha memória sempre com uma réstia de dúvida, a de se tinha ou não acontecido ou sido real! Metia então numa caixa, selava e arrumava! Mas de vez em quando a coisa regressava, como um animal faminto, satisfeito, mas não saciado e insistia. Não era bem um repetir das coisas, era mais um voltar a senti-las, mas de outra forma. E nesses escassos segundos em que aquilo durava, como se fosse um ataque, fugaz, mas violento, eu fervilhava em emoções e a probabilidade do não retorno parecia-me tão real que me deixava ao mesmo tempo extasiada e perdida! Pensava: e se isto é o fim? E não me conseguia decidir se era bom ou mau e importava-me com isso, como se tivesse de o explicar depois a alguém! Mas não tinha, nem sequer a mim! E insistia nisto e o Comendador olhava de novo para mim, do outro lado da fronteira, como se não estivesse ali, ou estivesse e dissesse: está-lhe outra vez a dar! E era exactamente aqui que eu sentia um enorme desconforto, porque começava a pensar que aquilo podia ter sido uma alucinação, um contorno só aparente do real, uma sombra, uma experiência extra-sensorial, um flash, e o Comendador outra vez ausente, cheio de lógica e razão, a insistir na sua, muito sua, característica complacência, a impacientar-me ao limite: deixe lá isso! E eu deixava, numa submissão talvez censurável, eu deixava, mas era por cansaço, mais do que por estar a absorver a mesma complacência e dizia, por ele: pronto, está bem! Mas não estava, eu só queria evitar que ficasse pior!

 

E era aqui, minha cara Madame de Bovery, que me vinha aquele seu conceito do deslizamento do eu, em favor de um alter ego que, por definição, não era meu! O fio do novelo, como diz, que eu não sabia se havia de puxar ou não, porque queria ao mesmo tempo que o novelo se desfizesse e que ele permanecesse íntegro, com a única finalidade de parecer ignorá-lo. Esteve de facto presente essa intenção!

 

Podia sim, seria talvez até expectável, como diz, uma nota final, mas, não sei porquê, não me apeteceu falar dos Maias!

 

Não lhe posso, por isso, responder com sinceridade, como gostaria! Não sei se foi um final feliz, não sei sequer se o pretendido! Mas concordo consigo: improvável e magistral!

 

Desculpe ter escrito com esta dificuldade notória no uso e na concordância dos tempos dos verbos, nem me explico, a senhora sabe perfeitamente de onde isto vem!

 

Como habitualmente,

Maria Francisca

 

 

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Quarta-feira, 14 de Dezembro de 2016

Cartas ao Comendador

cartas-comenda

 

Meu caro Comendador (3)

 

 

Sem querer tirar-lhe nenhuma parte da admiração que por si tenho, já em tempos tinha pensado isso mesmo! E apesar de o saber tão bem como o senhor, não deixo de ter alguma esperança em que um dia as coisas possam ser diferentes, embora não saiba diferentes em quê, digo diferentes do que são agora.

 

Podemos, julgo eu, em qualquer caso, fazer um esforço, grande ou pequeno, agora isso depende da maior ou menor facilidade que temos em sair do real, de imaginação e visualizar como nos comportaríamos se, na situação do outro, estivéssemos nós!

 

Concordo consigo em que será sempre uma ficção da nossa parte, essa tentativa de tornar ou fazer parecer real coisas que o não são. É certo que nunca conseguiremos deixar de ser quem ou como somos para temporariamente desempenhar o papel do outro e que todo o nosso empenho nisso nunca será o que baste para servir de ideia ao outro ou ele ter sequer a noção disso. Mas, impossibilidade por impossibilidade, não lhe parece a si que nesse esforço, eficaz ou não, haverá um benefício mútuo? Não será um acto probatório julgarmo-nos um outro para nos podermos julgar a nós próprios? Não poderá vir daí um maior conhecimento a nosso respeito? Tem toda a razão, eu também me pergunto sobre a utilidade disso! Hipoteticamente ela parece poder ter algum valor, mas é muito discutível em que é que na prática isso opera! Umas vezes talvez possa e outras vezes talvez não. Quando as coisas são assim, acha que vale a pena? Perder algum tempo com o que não interessa para poder tirar disso alguma coisa que finalmente nos interesse?

 

Bem sei. Falo consigo como falo comigo! E sabe que isso me coloca uma questão: o que diria eu se fosse o senhor a perguntar-mo? Passamos da retórica à dialéctica ou isto não lhe faz nenhum sentido?

 

No que respeita à carta, gostava de saber responder de forma objectiva às perguntas claras e inequívocas que suponho que faz, mas por causa daqueles dois de quem anteriormente lhe falei, não me consigo pôr de acordo. Repare o senhor que conforme varia o ângulo de visão, assim varia o que é visto e o que é visto nem sempre é o mesmo que o que é observado! Dependendo do nosso estado de espírito, do sonho que tivemos durante a noite, do sonho com que acordámos com vontade de realizar, das pequenas vitórias diariamente conquistadas ou das outras, batalhas onde morremos sem termos tido tempo para lutar, assim vemos o vasto campo que se estende à nossa frente quando abrimos, para ele, os olhos. Mas até o abrir dos olhos às vezes cansa, quando pensamos que pode acontecer ver menos com eles abertos do que com eles fechados! Nunca lhe aconteceu isto? Abrir os olhos e ter preferido não os ter aberto por ter deixado de ver o que antes claramente via? Nunca se lhe turvou a visão por incidência directa do Sol quando o dia estava chuvoso e, apesar disso, dentro de si tudo era claro, límpido, transparente, desobstruído?

 

É como lhe digo, para ser fiel aos meus princípios, só dizendo por um lado sim, por outro lado não, é que consigo responder não à primeira, mas a todas as questões que o senhor colocaria. Como poderia eu dizer-lhe a si, concretamente a si, um sim ou não, se em si tudo é grande e tudo no que é grande pode caber?

 

Fazendo-o, parece-me, correria o risco -risco é talvez demasiado, mas deixemos estar- de ser outra vez incoerente e o senhor sabe que eu tenho um problema grave com isto porque nunca sei de que lado estou! Foi já diagnosticado por mim, um problema em mim de lateralidade, de não saber se o que está ao meu lado esquerdo não o estará antes do lado direito e sei, ao menos identifico eu, que a origem de isso ser não é tanto um sintoma de falta de orientação ou mesmo desorientação, sendo que estas coisas nada têm a ver uma com a outra, mas é em vez disso, ou melhor, antes disso, um vazio na referência! Explico-me melhor, se bem que já o tenha entendido: do lado esquerdo de quê ou de quem? O que define isto?

 

Não estou eu do lado esquerdo de quem me está à direita? E o contrário também? O meu lado esquerdo sou eu que o elejo e se o senhor fizer o mesmo, mas de forma oposta, entramos em conflito. Quem o provocou? Eu posso ser responsabilizado por aquilo que penso, mas que culpa é que tenho de o senhor não estar de acordo comigo?

 

Hoje, deixo-o aqui. Tenho ainda outras cartas para escrever onde, à semelhança do que faço consigo, questiono pelo estado das coisas, das pessoas e do mundo. E sabe que me não respondem?

 

Às vezes receio não ser suficientemente claro no colocar das questões ou tratar-se apenas, sendo claramente optimista, de um qualquer erro no endereço!

 

Consigo é diferente, consigo eu posso contar! Para além de corrigir sempre assertivamente o meu défice, não só em vocabulário, mas em todo o resto, o erro no endereço está fora de questão!

 

Do sempre seu, amigo,

 

José Francisco

 

 

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Terça-feira, 13 de Outubro de 2015

Chaves, duas imagens com chuva e algum paleio à mistura...

1600-(44489)

Já lá vai o tempo em que era obrigatório passar todos os dias pelo Jardim das Freiras, a então nossa sala de visitas, mas depois do atentado cometido, deixou de ser aquilo que era e perdeu todo o seu interesse. Mas ainda há “vícios” antigos que se vão mantendo e, um deles, é a voltinha à cidade nos fins de tarde de domingo, para ver se tudo está no sítio para o nosso regresso à cidade. Neste último, domingo, embora com muita chuva, não resisti a dar uma voltinha apressada pelo Arrabalde e lançar uns olhares sobre a Rua de Stº António, pois com’assim vai mantendo ainda metade de um largo interessante, depois da outra metade ser coberta com toneladas de betão para encarcerar uma descoberta quase divina. Mas fico no aguardo de tudo estar limpo para depois poder medir o grau do atentado.

 

Tudo isto vem porque com o tempo parece perder-se o gosto das coisas simples, as mais gostosas por sina. O despertar para o sentimento não foi da chuva nem do cinzentão do dia, mesmo não gostando da chuva, porque é chata e molha. Sou mais pelos nevoeiros e as geadas, que do verão, já apenas tenho saudades de quando era puto, porque geralmente significava férias grandes, muito canal,muito açude e até alguma praia. A idade fez com que goste mais daquilo que é moderado, primaveras e outonos, mas sem chuva. Ia eu dizendo que o desperta do sentimento não foi a chuva, mas o “marco” do correio, interessante, mas bem longe daqueles de ferro fundido em pontos estratégico da cidade (ainda existem e espero que por lá continuem para memória futura) onde metia-mos as nossas cartas, sim, porque eu ainda sou do tempo em que as escrevia, até aquelas, as ridículas de amor, com o desespero e ânsia da resposta que com sorte, vinha uma semana depois, sem sms’s, mail’s, skype's ou whatsApp (este descobri-o ontem). Ai como as coisas eram tão intensas, sem pressas, tão-tão!

1600-(44430)

Para terminar e em jeito de carta: Olha, por aqui continua a chover, mas o frio ainda não chegou. Quem chegaram, foram as primeiras barracas dos Santos que para não destoar mudaram outra vez de poiso.. Desta vez, nem a proximidade da Escola Industrial, nem a utilidade do espaço travaram o assentamento de arraiais, vá-se lá saber porque ou porque sabemos todos muito bem. Sem protestos de quem sempre tanto protesta com a proximidade dos divertimentos a incomodar quem estuda, mas nem há como estar alinhado na situação para os protestos se diluírem em concordância. Depois de, eu,  elogiar nos últimos anos a escolha de local para poiso dos divertimentos, este ano só me resta lamentar, mas hoje ficamos por aqui, que estes Santos prometem.

 

 

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Domingo, 29 de Maio de 2011

Cartas Transversais

 

Caro amigo,

 

Li e reli todas as cartas que te enviei nestes últimos quatro meses e após refletir um pouco, cheguei á conclusão que vou parar de te escrever por uns tempos.

 

Primeiro, porque preciso de afinar pontaria dos meus escritos e deixar de falar tanto em mim, no que fiz, faço ou deixo de fazer. Já tenho malta a dizer no gozo, que vivo “de amor e uma cabana”. Pois. O amor vai e vem, vai e vem, vai e vem. A cabana só é boa quando não chove e precisa de telhado novo. Perguntem á minha irmã.

 

A minha abstinência da escrita vai depender muito dos leitores das minhas cartas. Bem sei que o pessoal lê, diz que gosta e está solidário, mas agradeço mais á Seixas e ao Silva que souberam corrigir e criticar. Preciso muito deles. Preciso agora é de saber dos que não gostam.

 

Vão ser eles os responsáveis pelos 30km de estrada que tenho de percorrer todas as semanas para enviar estas cartas transversais. A minha cabana não tem internet.

 

Claro que ficaria feliz se recebesse um ofício do município flaviense a informar do encerramento definitivo da porta de lata da muralha das Portas do Anjo, da barrela dada na Rua Verde, ou da doação do quadro original de Nadir Afonso á Escola Profissional de Chaves.

 

Enfim, preciso que me “passem a mão no pêlo”. Preciso das vossas cartas.

 

A proximidade do período eleitoral é também um bom motivo para suspender a escrita. Como não estarei aí para votar em branco, vou deixar umas quantas cartas semanais em branco como sinal de protesto.

 

Incito a que os flavienses  e portugueses em geral votem em branco. Abster-se de votar é um disparate, mas votar em branco... Imaginem uma grande votação em branco e o seu significado para os políticos eleitos.

 

Quer dizer que os gajos não valem nem a tinta necessária para fazer a cruz no boletim de voto. Quer dizer que o eleitor não se esqueceu da despromoção do Hospital de Chaves, nem do fantasma das portagens que paira nas auto-estradas transmontanas.

 

Significa ainda, que os eleitores deixaram de acreditar em cabeleiras capazes de cuidar da vereação municipal e da assembléia nacional ao mesmo tempo.

 

Mostra que os eleitores sabem da utilidade das abelhas para fazer mel e que a cera fabricada até agora nunca deveria ter saído das salas do tribunal.

 

O voto em branco indica que só Deus é misericordioso. Os homens são fracos e sujeitos a muitas tentações e que a misericórdia deveria ser ou divina, ou mais democrática...

 

O voto em branco aponta ao orgulho perdido de um povo que mendiga empréstimos á CEE com as fotos do Mourinho e os feitos remotos das descobertas...

 

Votar sem cruz é mandar á merda ingenheiros ganzados e incompetentes, funcionários partidários de segunda escolha e ex-jornalistas que sonham com o poder.

 

Nunca pensei em escrever isto, mas a verdade é que sinto a falta dos velhos lideres. Do seu carisma. Da sua capacidade de nos fazer acreditar na possibilidade de cada um dos dez milhões de lusos pagar 400 euros de dívida e ficar com coragem de bater palmas e gritar palavras de apoio.

 

Que S. Bom Senso me perdoe, mas tenho saudades do Sá Carneiro, Soares, Cunhal e Freitas e das suas guerras pelo poder a qualquer preço. Elas mostravam raça, vontade indómita, querer desesperado que nos embalava e seduzia.

 

Sei que há por aí políticos com estas características. Como seres inteligentes não se querem misturar com a ralé que nos comanda. Perde Portugal, perde Chaves.

 

Tu, meu bom amigo, não percas este abraço do tamanho do oceano do amigo que te estima

 

Zé Moreira

 

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Domingo, 22 de Maio de 2011

Cartas Transversais

 

 

Desgosto de emigrante

 

 

Caro amigo,


Demorei a entender, mas sou um emigrante.

 

Dois anos e meio fora da terrinha, da comidinha da mamã, do bar habitual e dos amigos habituados é o pontapé de saída para ser emigrante e eu nem tinha dado conta.

 

Agora sei o que custa suportar viver sem o pouco que aí desfrutava. Consigo vislumbrar as privações que passaram aqueles emigrantes do início da década de 60. Eu sou um desses. A diferença é que não tive sucesso...

 

Repara. Tenho um carro com mais de 10 anos. Algumas das suas peças estão presas com arames. Moro numa barraca de barro e taipa nos arredores de uma grande cidade, Fortaleza, durmo de rede no alpendre.

 

Como os nativos, vivo de calções e chinelas de meter no dedo, como muito feijão com arroz, milho na grelha e cozido, gosto de cachaça de cana, cerveja gelada e água de coco nas ressacas, vejo as telenovelas antes e depois do jornal da Globo e jogo na megacena aos sábados.

 

Como todos os emigrantes, a minha vida social não é muito intensa e a que mantenho, serve também de fonte renda. Aos sábados, vou apanhar caranguejos e pescar á rede com uns quantos matutos para o mangue de Paracuru. É o meu dia de praia e de provimento de peixe fresco.

 

Aos domingos é dia de feira em Paraipaba e como sempre, faço frete de transporte com vizinhos. Aproveito e vou á net enviar estas cartas e falar com a família. Também trago algumas compras para a casa.

 

Futebol e cabaré ficam para a parte de tarde. Se joga o Corinthians ainda olho a TV. Se não, quero é arrastar o pé com forró.

 

Os requintes da minha adaptação são tais que até na música já tenho ídolos. Na sertaneja, Paula Fernandes. Tens de ouvir. O mesmíssimo Roberto Carlos escolheu essa menina para cantar com ele. E a escolha de rei...

 

Durante a semana cuido do meu sítio. São três hectares de terra com árvores de fruta como coqueiros, bananeiras, limoeiros, graviolas, mangueiras, goiabeiras e cajueiros.


Depois de um ano como agricultor, também já tenho abacaxi, mamão, melancia, tomate, macaxeira, maxixe, milho e feijão. Agora mesmo estou a colher feijão que vai dar para comer o ano inteiro.

 

Deu-me para criar umas quantas galinhas que felizmente começaram a botar uns ovitos e quando chegar o mês de Julho vou comprar dois porquinhos para cebar até ao Natal.


É assim mesmo. Sou um emigrante. Um pouco atípico, mas emigrante. A mim, o desenvolvimento ou a falta dele, expulsou-me da cidade.

 

Sei o que tu e o resto dos amigos estais a pensar. Se não podia dedicar-me á “ingricola” aí nas terras do Alto Tâmega ou Barroso. Poder podia, mas não era a mesma coisa.


Aí falta o arrebato do clima que de manhã nos molha os ossos com chuva e á tarde nos resseca a pele com sol. Aí falta chão, falta tamanho nas estrelas, luz na lua e gingado nas gajas.


Tem coisas que são iguais. Uma fé inabalável no divino que me leva a contar pelo menos quatro casas de culto por cada povoado. Um gosto perverso pela política que me desespera a cada noticia de corrupção descoberta. Uma idolatração do futebol e da música que me leva ao desespero.

 

Saí do país dos três “éfes”, fado futebol e Fátima. Pensando bem, a diferença entre o nordeste brasileiro e Portugal é bem pequena.

 

Sem mais considerações, recebe aquele abraço do tamanho do oceano


O amigo que te estima,

 

Zé Moreira

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publicado por Fer.Ribeiro às 15:59
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Domingo, 15 de Maio de 2011

Cartas Transversais

 

 

 

Primeiro de Maio é quando um homem quiser

 

Caro amigo

 

Num comentário geral ás minhas cartas a melhor das amigas observou a transversalidade dos meus textos. Ela tem razão. A preguiça em escrever, o vício jornalístico em frases curtas e o prazer de deixar o leitor atar as pontas da prosa, são responsáveis por esta característica.

 

De hoje em diante amigo blogueiro, agradeço que mudes o nome dos meus escritos para “Cartas Transversais”, Sei que não te importas com isso.

 

Hoje, que pretendo falar do homem que mais admiro e que sempre foi a minha referência de vida pela sua verticalidade, vou ter problemas com este meu modo de escrever as coisas. Mas pronto, vamos lá.

 

Viva o 1º de Maio, viva o dia do trabalhador, viva o meu avô. É sempre nele que eu penso quando chega este dia. Há grande homem!

 

Morreu a caminho dos noventa e quatro anos. Era um empreiteiro á moda antiga. Desses que pega numa marreta e manda abaixo a parede mal construída para levantar de novo. Fez isso algumas vezes.

 

Nos passeios e viagens que fazíamos juntos gostava de ouvir as suas histórias. Nasceu no Jardim da Batalha no Porto e viveu os primeiros anos em Moreira da Maia. Começou a trabalhar quando aprendeu a andar e tinha orgulho em dizer que “com 18 anos já era pedreiro de 1ª”. Enumerava com vaidade as muitas obras de cantaria onde trabalhou. Lembro que um edifício vizinho á sede do Comércio do Porto foi um deles.

 

Ainda jovem, colocou a minha avó na garupa da moto e rumou a Trás-os-Montes. Parou em Chaves meio por engano que o destino primeiro, seria Vila Real.

 

Analfabeto, tirou a carta de condução depois dos 40. No entanto, lia como poucos um projeto de construção e sabia, pelo traço, quem era o engenheiro autor da obra.

 

Homem duro, de pouco mostrar os dentes ou gastar palavras, soube, no entanto, granjear bons amigos, bons clientes e bons trabalhadores ao longo dos anos.

 

 Recordo do respeito e admiração com que o meu avô falava do Silva espanhol, pintor, pai do Délio e do Ilídio, também pintores que nasceram e cresceram na “casa”. A mesma reverência vi e ouvi sobre o “Teixeira Bigodes”, o Macedo da carpintaria e o Teixeira de Sousa, canalizador.

 

No ano de 1972 inicia a construção do seu sonho, uma sede própria com depósito de materiais, oficina de carpintaria, escritório, cantina e dormitório para pessoal.

 

Em 74, com a revolução dos cravos, chegou o boato de que iriam ocupar as instalações da sua empresa. Pegou numa caçadeira e passou umas noites de guarda ao relento. Não era necessário. Homens de esquerda e lúcidos reconheciam as condições de trabalho e laser dos operários como exemplares. Admirados com as condições oferecidas, queriam chamar a RTP para testemunhar. Ele não quis. A caçadeira ainda ficou uns tempos montada no armário.

 

Por essa altura o transporte dos trabalhadores passou a ser feito em autocarro e não no “sumopau “das camionetas de carga. Um luxo para a época. Tudo por exigência do meu avô.

A própria região aonde veio a construir a sede da empresa, Alto da Cocanha, seria anos mais tarde indicada para a construção da zona industrial de Chaves. Um visionário.

 

Convidado a assistir á cerimónia da minha formatura, agarrou as mãos do Professor Adriano Moreira e agradeceu em meu nome. A mim, nunca me parabenizou a licenciatura, mas disse-me um dia: - “Rapaz, se eu tivesse um canudo não teria escutado com o chapéu nas mãos tanto disparate sobre construção civil”.

 

Com o alvará de construção nº 134 e os mais de 75 anos de atividade o meu avô fez da sua empresa uma das mais antigas e respeitadas do país. Muitos dos construtores da região trabalharam um dia para o José Moreira. Parte da cidade de Chaves, pública e privada, foi construída pela sua firma.

 

Ele não gostava de construir em Chaves. Dizia que “santos da casa não fazem milagres”. Achava que a sua empresa era descriminada e perseguida pelo poder local por motivos fúteis.

 

Eu dizia-lhe que não, que o pessoal da terra não tinha inveja, que a gente da cidade sabia reconhecer na sua empresa uma verdadeira escola de formação, uma fonte de emprego importante para a região.

 

O meu avô nunca acreditou nisso e, contudo, nunca deixou de participar ou colaborar em Projetos sociais, desportivos ou filantrópicos da comunidade.

 

Com mais de 75 anos de trabalho, o meu avô não morreu rico. Não deixou os filhos ricos e tão pouco os netos e bisnetos.

 

 José Moreira era um trabalhador que acreditava apenas na força dos seus braços. Nunca bajulou, comprou ou corrompeu ninguém. A empresa morreu com ele.

 

Viva o 1º de Maio! Viva o dia do trabalhador! Viva o meu avô!

 

Sem outro assunto de momento que não seja o desejo de que passes um bom feriado e uma melhor semana na companhia dos teus, recebe aquele abraço do tamanho do oceano deste amigo que te estima,

 

Zé Moreira

 

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Domingo, 8 de Maio de 2011

Cartas do Zé

 

 

 

“Em que pensas porco? – Na bolota!”

 

Com este ditado popular, costumava iniciar as minhas aulas de marketing e vendas. De um modo jocoso, um pouco brejeiro e linear, procurava explicar aos formandos que o homem de marketing tem de pensar nas necessidades e desejos do consumidor, na bolota. Focado sempre na bolota. Como o porco esfomeado...

 

Corriam os anos 90 e acreditava, tal como hoje que faltava marketing á minha cidade. Os responsáveis por Chaves não entendem, nem procuram entender o mercado e os seus caprichos. Quero dizer, os cidadãos e os seus desejos.

 

Sei que foi fundamental os gastos em infra-estruturas como saneamento básico e água canalizada e que há povoados que nem isso têm. E agora? Para onde estão voltadas as atenções dos “manda-chuva”?

 

Vagueiam atrás de projectos de obras subsidiadas pela comunidade europeia, mas que pouco têm a ver com a realidade da nossa região. Lembro a “zona industrial”, agora aumentada, mas que não passa de um amontoado de barracões e lotes com escritos de “vende-se” ou “aluga-se”.

 

Que me dizem da Polis, que descaracterizou irremediavelmente o Largo das Freiras. Ou o importante complexo termal com águas únicas no mundo, mas que obedece abre e fecha as portas á temporada, como se de caça e pesca se tratasse.

 

Vejamos. Chaves tem monumentos para dar e vender, gastronomia rica e original, boa localização geográfica, vias de acesso, recursos naturais invejáveis e recursos humanos... invejosos.

 

Sim. O calcanhar de Aquiles da nossa região são os recursos humanos. Sobretudo de quem manda. Estes, não querem saber das necessidades dos cidadãos. Procuram apenas responder aos desejos dos eleitores.

 

Falar do potencial turístico da região já cheira mal. Temos pessoal especializado para atender o turista, auto-estradas para trazê-lo, hotéis e restaurantes para o deitar e alimentar. E que fazem os gajos do chicote?

 

Pelejam entre si pelo melhor certame gastronómico, pela construção do museu para homenagear o mesmíssimo pintor (Nadir Afonso) e outras que tais disputas caseiras entre municípios vizinhos.

 

Os projectos conjuntos de desenvolvimento regional só aparecem com fundos comunitários no horizonte. Por si só, são incapazes de se juntar para fazer anúncio na TV para os benefícios das águas termais da região, a originalidade da festa das bruxas de Montalegre, a beleza da olaria local, o circuito dos eventos gastronómicos, concursos de pesca, corridas automobilísticas, exposições de artes plásticas, certames de inventores e ... E pouco mais.

 

Sugiro aos senhores mandões, uma visita a Allariz. Povoado com pouco mais de três mil habitantes, cinco museus e 52 festas por ano... ou quase.

Os galegos desse povoado próximo de Orense são especialistas em inventar festejos. A mais conhecida, a Festa do Boi, acontece por estes dias, mas a festa da empada, da primavera, do cogumelo também são muito visitadas.  

 

Escrevi certame de inventores. Sabias amigo que eu “inventei” esse evento?

 

Foi numa aula de marketing na escola profissional de Chaves em que tinha como convidado o Júlio das Malhadeiras, o inventor mais velho de Portugal. Informado da ideia, o director da escola condicionou a aprovação da actividade, ao financiamento extra-escolar.

 

Foram os empresários da região que, por amizade e respeito ao Sr. Júlio dos Santos Pereira, juntaram o dinheiro necessário para a realização da primeira Flávia Criativa.

 

Estive na organização de todos os eventos até ao V.

 

Aí, não concordei com a doação de uma serigrafia do mestre Nadir Afonso. Queria a pintura original, como sempre aconteceu com outros pintores em todas as edições anteriores. Pedi seis mil euros pelo meu trabalho de assessoria na organização que iria doar para a compra da pintura original do artista.

 

Também se deram ao luxo de alterar a data de realização do certame bianual. De Fevereiro, data de aniversário do velho inventor, passou para quando “for possível”.

 

Até hoje, nem a Escola Profissional de Chaves, ou a Câmara Municipal de Chaves me responderam ou pagaram a importância pedida.

 

O convite para a 6ª edição do Flávia Criativa - Salão de Inventores Júlio dos Santos Pereira nunca chegou á minha caixa de correio.

 

Estes são os recursos humanos da nossa cidade. Não fazem, não sabem fazer e tem raiva de quem faz algo que não dá votos.

 

Sem outro assunto e muito grato por me blogares estas letras, recebe aquele abraço do tamanho do oceano,

 

O amigo que te estima

 

Zé Moreira

 

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Quarta-feira, 4 de Maio de 2011

Cartas do Zé

As Cartas do Zé costumam ser publicadas aqui no blog aos Domingos, no entanto neste último Domingo não houve carta e tudo, porque ela chegou atrasada, mas chegou. Assim, é hoje publicada. No próximo Domingo cá teremos nova carta do Zé.

 

 

 

 

Caro amigo

 

Que me dizes do casamento do príncipe camone? Aquilo foi uma boda e tanto! Gostei de ver. Gosto da ideia de que em breve, uma bela princesa plebeia, vai correr o mundo defendendo todas essas ”causas perdidas” que as princesas e primeiras damas abraçam.

 

A falecida princesa Diana foi um bom exemplo. Fim da fome, das minas terrestres, da SIDA... Em tudo se empenhou com graça, elegância e grande dinamismo.

 

Puro marketing, dizem os cépticos. Claro que é marketing. Eu sei. Mas quantas senhoras não terão copiado os seus gestos altruístas para além claro, do seu penteado, roupas e jóias? Quantas damas não terão trocado o conforto do sofá pelo trabalho voluntário em hospitais, asilos, ou ONG’s?

 

Também em Portugal temos alguns exemplos do empenho de primeiras damas. Lembro o trabalho das esposas de Mário Soares e Cavaco Silva na Cruz Vermelha Portuguesa...

 

Tá bom! Tratava-se, na sua maioria de emprestar a sua presença em festas e leilões para recolha de fundos, mas o impacto dos seus gestos tem repercussão bastante positiva no país. As palavras esperança, solidariedade, altruísmo parecem de novo ganhar sentido.

 

E em Chaves? O que fazem as primeiras damas? Há damas ou a malta da política só joga xadrez? Confesso que não sei, não vi, não conheço, mas quero comentar.

 

Acredito que no dia de todos os santos, uma ou outra tenha pegado na caixa de moedas da Cruz Vermelha e não esqueço a beleza que um dia tiveram os jardins da nossa cidade. Mas é só. Acho pouco. Nem sequer é de considerar isso como trabalho voluntário. As caixas de moedas são distribuídas pela própria organização e a engenheira técnica cumpria horário de trabalho.

 

Mas então que fazem as primeiras damas de Chaves para ocupar os seus tempos livres? Porque é que os jornalistas da terra não divulgam o seu trabalho em obras de beneficência. Penso que a agenda social dessas mulheres deveria ser do conhecimento público e assim poder influenciar positivamente a sociedade flaviense.

 

Estou certo que a foto de uma primeira-dama fazendo trabalho voluntário no hospital de Chaves, ou no asilo de Nantes, aumentaria o número de trabalhadores voluntários nessas instituições. Acredito que a notícia de uma primeira-dama, ensinando a separar o lixo num bairro da periferia, aumenta de modo definitivo os índices de higiene do próprio bairro e da mesmíssima reciclagem na nossa cidade.

 

Porque estamos num país e numa cidade em crise, porque o trabalho de todos é necessário para ultrapassar estes tempos difíceis e porque é preciso provar que “atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher”, quero pedir aos jornalistas flavienses que divulguem as ocupações da nossa primeira-dama.

 

Sugiro um conjunto de entrevistas com a primeira-dama, a esposa de um deputado, de um presidente de clube de futebol, da região de turismo, das águas, instituições escolares, prisionais, militares, policiais, enfim, um conjunto de entrevistas com a cara-metade do pessoal que “leva o cabresto” da cidade. Se a primeira-dama for macho, também serve. É bom saber o que o moina faz pelo próximo.

Quem sabe se pelo meio dessa gente não haverá algum exemplo inspirador a seguir e assim ajudar a amenizar o sofrimento dos mais necessitados.

 

Sim, porque isto de ir de braço dado ao café, missa dominical e inauguração de obra pública ou exposição de artes é pouco. Muito pouco.

 

Da minha parte fica a promessa de que o dia do meu regresso a Chaves será também o dia de recrutamento para trabalho voluntário numa instituição da minha cidade ou região.

 

Sem outro assunto de momento recebe aquele abraço solidário e do tamanho do oceano.

 

O amigo que te estima,

 

Zé Moreira

 

 

 

 

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Domingo, 17 de Abril de 2011

Cartas do Zé

 

 

 

Caro amigo,

 

Encalhei na revolução. Sempre me acontece isto. Começa abril e aí estou eu a perder noites em horas, matutando no que foram aqueles anos pós 74.

 

Depois de ler as duas últimas cartas sobre o tema, sabes que a revolução me desiludiu. Podíamos e devíamos fazer mais e melhor democracia.

 

Foram anos loucos. Tudo parecia ser possível em liberdade. Primeiro chegou a Coca-Cola e os filmes porno. Depois, a telenovela e a TV a cores. Jornais e revistas multiplicavam-se pelas bancas veiculando idéias e ideais até então proibidos pelo regime fascista.

 

Atrasada como de costume, a liberdade chegava a um Portugal atrasado e poucos eram os que sabiam o que fazer com ela. Todos, sem exceção a queriam viver. E todos a vivemos. Os, mais ingénuos, acreditamos que os valores da liberdade, democracia e pluralismo seriam o melhor caminho para alcançar a “paz, pão, saúde, educação”...

 

Sigamos a música de Sérgio Godinho: Da paz, vejam o rasto de sangue da descolonização em Angola, Moçambique, Guiné, Timor...  O dinheiro para o pão é emprestado. A saúde traz o português doente e a educação, já comprometeu  o futuro dos nossos netos.

 

Primeiro foram as tais passagens de ano administrativas de 1974/75 e o “facilitismo” nos anos letivos seguintes.

 

Depois acabaram com as “escolas industriais”. Essa facada na educação sangrou até ao início da década de 90 com a criação das escolas profissionais.

 

Por fim, despromoveram o professor dois furos abaixo de cão um de polícia e um de sargento do exército. Assim, sem pensar duas vezes. A figura institucional do professor foi a mais maltratada da revolução dos cravos e foi pena.

 

Então, o portuga que sempre se deslumbrou com tudo o que vinha da estranja, entra na CEE, descobre a palavra competitividade e, com a globalização tem conhecimento de outros sistemas de educação. Os papás e mamãs, querem agora ”mais e melhor” educação para os seus brotos.

 

As reuniões escolares das minhas filhas e os anos de formador na escola profissional deram-me as tendências dos pais modernos: - eles fazem os trabalhos de casa dos meninos, cuidam da boa arte do copianço dos pirralhos e brigam com o prof por mais três décimas na avaliação dos meninos. No entanto, desistiram há muito de velar pelas mais elementares regras de convivência e respeito dos seus rebentos para com os mais velhos.

 

Não é “mais e melhor” educação. Trata-se apenas de competição desenfreada que os progenitores incutem nos putos. Desde pequenino torcem o pepino aos chavalos para que sejam os melhores dançarinos da festa da “pré-primária”, cantem em inglês no final da primária e terminem o secundário com notas de entrada em medicina.

Com a desculpa de querer o melhor para os filhos, vamos projetando neles os nossos sonhos, aspirações e anseios. Passam a ser os nossos instrumentos de competição.

 

Com isto, as psicoses ganham condições ideais de germinar e desenvolver em todos aqueles que por um motivo ou por outro, não conseguem manter o ritmo de competição. Sentem-se falhados, derrotados e excluídos.

 

Dentro das paredes da escola as crianças alinham pelo diapasão dos papás e vão fazendo a sua competição. Quem tem as melhores sapatilhas, quem é a mais bonita ou o mais popular... Princípios básicos como a gentileza, cavalheirismo, respeito pelo próximo, não cabem numa competição. Competir, rima com excluir.

 

As conseqüências podem ser assustadoras.

 

No passado dia 7, um jovem com dois revólveres, entrou numa escola pública no Rio de Janeiro, disparou mais de meia centena de munições matando 12 crianças e ferindo outras tantas. O Brasil entrou em choque.

 

“Os americanos e os ingleses são divididos por uma língua comum” disse um dia George Bernard Shaw. Penso que podemos dizer o mesmo entre brasileiros e portugueses. Por isso não me custa nada acreditar que em Portugal, um doido frustrado e psicótico escolha dar uns tiros numa escola, cinema ou centro comercial.

 

Todos se vão perguntar como foi possível acontecer essa barbaridade. Depois vamos culpar o excesso de armas nas mãos dos civis, o excesso de violência na TV e até, o excesso de informação na internet.

 

A culpa é nossa meus caros. Fizemos um mau trabalho na educação dos nossos filhos.

 

Pouco me importa que saibam fazer um orçamento com sete anos de idade como fazem os miúdos nas escolas de Singapura. Não ligo a mínima se um adolescente americano sabe desmontar e montar um computador.

 

Computadores , máquinas de filmar e outras tecnologias são ferramentas de formação para que mais nenhum velho, deficiente ou grávida tenham de viajar em pé nos transportes públicos, para que antes de debochar do aspecto, cor, credo e preferências de terceiros possamos ver as nossas próprias ventas e saber que não há perfeição nem milagres e que as gajas das revistas não são assim tão boas, bonitas e magras, é apenas photoshop.

 

Acredito que a educação deve ser encarada como o vinho e a escola como um grande sobreiro. Precisam de tempo, muito tempo. Sem pressas, como sempre fizeram os nossos ancestrais.

 

Com educação, mando aquele abraço do tamanho do oceano do amigo que te estima

 

Zé Moreira

 

 

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Domingo, 10 de Abril de 2011

Cartas do Zé

 

 

 

Caro amigo,

 

Aqui, no Brasil acabou o Carnaval. Não foram apenas três dias de festa. A folia durou mais de um mês entre ensaios das escolas de samba, passeatas de “trens eléctricos” e desfiles. Eles fazem o pré carnaval, o pós carnaval, o carnaval fora de época...

 

Sem saber porque, esta época carnavalesca levou-me trinta e sete anos atrás e só me deu para escrever sobre a revolução de abril. Não sei. O modo como os partidos políticos definem o seu programa de comemorações faz lembrar o profissionalismo das escolas de samba e seus desfiles. Cada qual com seus passos de dança, sua música e suas palavras de ordem, “locais históricos” para os comícios.

 

Os disfarces do carnaval brasileiro são mais ricos e diversificados. Nós aí, é o pôr ou não cravo na lapela, usar ou não a gravata vermelha... Uma chatice.

 

É a primeira vez que escrevo e reflito sobre a última revolução em Portugal e a tentação é começar pelo princípio:- Responder á pergunta que o jornalista da voz rouca imortalizou: ”onde estavas no 25/04/74?

 

Lembro que os dois, estávamos no mesmo local: Pela manhã entramos no Liceu Fernão Magalhães. Não recordo se houve aulas mas sei que a meio da manhã, a reitoria mandou a canalha toda para casa e que ninguém ficou para trás no recreio e campos de basquete.

 

Nas ruas, as pessoas pareciam sombras. Um silêncio, um estranho silêncio cobriu Chaves durante todo o dia de 25 de Abril de 1974. As notícias, as primeiras, chegavam a preto e branco e falavam de revolução, liberdade, fascismo e democracia. Tinha 13 anos e foi a primeira vez que ouvi essas palavras.

 

Nos dias e semanas seguintes ía ouvi-las e repeti-las até á exaustão.

 

Hoje, estou convencido que nessa época, os dedos das minhas mãos chegariam para contar os flavienses que realmente conheciam o significado dessas palavras. Contudo, seis dias após a revolução dos cravos, as ruas da cidade, cheias como um ovo, eram inflamadas por democratas de primeira viagem. Era o primeiro 1º de maio pós revolução.

 

Obscuros e insípidos professores, escriturários, desenhadores, viravam oradores e lideres políticos. Ainda hoje acredito que muitos desses líderes deviam agradecer á sua voz. Eram sempre vozes fortes. Quem mais alto e grave falasse, mais hipótese tinha de ser ouvido na bagunça.

 

 Essa constatação, não evitou que alegremente levantasse a mão e votasse o saneamento da quase totalidade do corpo docente nas RGAs (reunião geral de alunos) do velho liceu. O motivo era sempre o mesmo ” o/a prof era fascista”.

 

Oradores de voz e discurso inflamado iam desfilando. Lembro de todos eles. Alunos mais velhos, carregavam a mesma cultura política dois mais novos. A diferença era que falavam mais alto.

 

Escavacar umas cadeiras armários de madeira nobre que estavam arrumados no ginásio era um sinal de aprovação ou repúdio pelo discurso de algum orador e nunca um acto de vandalismo adolescente. Alguns anos depois, conheci alguns “maduros” que estiveram na ocupação da embaixada de Espanha. A destruição de obras de arte “foi um acto libertador”, disseram.

 

Nesse ano, houve “passagem administrativa” para toda a gente. Do ensino obrigatório á universidade. Era a “desbunda”, a grande farra... Ainda hoje este país sofre com essa leviandade do estado português. Quantos médicos e engenheiros mal formados. Quantos arquitectos, médicos, farmacêuticos, tiveram de se formar no Brasil.

 

Geração do desenrasca essa de Abril, mais tarde, apelidou a seguinte, de geração rasca quando, na verdade, a colocou á rasca. Desenrascados e sem vergonha na cara.

 

 Entre um “charro” e um copo de vinho pretenderam alfabetizar o povo. Aí, toca de rumar á província, ao Portugal profundo, á procura de gente para ensinar a ler e escrever. Comer umas gajas, fazer umas ocupações e apropriações de propriedades e bens privados, e claro, beber uns canecos e dar umas passas era quase tudo a mesma coisa.

 

Ainda está por fazer o balanço dessas campanhas de alfabetização. Ainda estão por punir os abusos das ocupações em nome do povo e da classe operária.

 

À festa, vieram juntar-se os “retornados” e militares das ex- colónias em África. Fruto de uma “descolonização possível”, também conhecida por “descolonização exemplar”, traziam medo e raiva no olhar.

 

Falo dos militares sem patente e sem armas, não dos capitães que fizeram a revolução porque queriam aumento de ordenado. Falo dos civis que sem entender porque se viram desalojados das suas casas, metidos num barco ou avião com a roupa do corpo e despejados nos aeroportos e portos nacionais.

 

Sei que alguns deram a volta por cima. Aproveitaram a confusão geral e carregaram diamantes, ouro e liamba que depois trocaram “à peseta”.  Outros, ainda andam ás voltas. A maioria desenrascou-se.

 

Apesar das palavras me saírem um pouco cáusticas com abril de 74, o “deve e haver” da revolução foi positiva. A liberdade embriaga, mas não tem preço. Ela levou-nos á democracia, modelo de convivência política mais justo até ao momento. Por isso temos de desculpar os excessos.

 

É como no Carnaval, ninguém leva a mal.

 

Volto ao assunto. Até lá, recebe aquele abraço do tamanho do oceano do amigo que te estima,

 

Zé Moreira

 

 

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Domingo, 3 de Abril de 2011

Cartas do Zé

 

 

 

Tentei frases, tentei texto

Nada. O que sai é palavra dura

Merda para os portugas de merda

De tanto olhar para o umbigo

Já nascem com curvatura

Que tenho? Perguntas bem amigo.

Em abril fico assim,

Desolado, chapado, marcado

Uma no cravo, o resto na ferradura

Em vez de rosas espinhos,

os jumentos sempre aguentam.

 

Não é por falta de fé.

Eu sempre acredito que é desta

Que a democracia desembesta.

Qual quê! Político português não aprende

Resguarda-se na armadura da democracia

Recusa-se a entender que candidatura quer dizer candura

E o candidato tem de ser casto. Esse é o significado

Quem não o entende devia ser marcado

Para que o marmanjo não engane o desavisado

Que é grave o desarranjo

Com os medíocres a votar e voltar

 

Se esta carta nem verso é

Não devem culpar cá o Zé

O sonho de abril foi grande

Devia ter prolongamento

Sei lá, fazer marcha á ré,

Fazer nova revolução,

sem militares sem pão

ou políticos reformados

sem aumentos pró’s deputados

ou jogo de cadeiras entre amados

Sem cravos, sem flores, com dores.

 

Razão tinha o comuna

Soviético ou chinoca tanto faz

Ao rico e burguês dava urna

ao  povo, calado, pão e paz.

Claro que não acredito nisto

Tão pouco em revolução sem sangue

 Maio de 68 libertou a mente

E morreu gente

Os hippys americanos,

Acabaram como os moicanos...

Mesmo assim, sinto falta

 

Sinto que falta uma revolução

Em abril a gente mente

Mas em abril a gente sente.

 

 

e como sempre faço

ao tratar-se de um "mano"

recebe aquele abraço

do tamanho do oceano.

 

zé Moreira

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:19
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Domingo, 27 de Março de 2011

Cartas do Zé

 

 

Caro amigo,


Cultura e desenvolvimento parecem bons assuntos para este último domingo de março.


Shakira, pop star colombiana, atuou na cidade brasileira de S. Paulo no passado fim de semana. Antes do espetáculo, encontrou-se em Brasília com a presidente Dilma para falar de crianças pobres e temas sociais em geral.


Na mesma ocasião, um chileno com 1,30m andava de TV em TV preenchendo os programas de entretenimento brasileiros com uma habilidade sui generis. Este pequeno (e feio) sul americano imita na perfeição a voz da cantora Shakira.


O shakiro, de quem já esqueci o nome, reproduz fielmente as músicas mais conhecidas daquela que abriu oficialmente o último campeonato do mundo de futebol na África do Sul.  Na televisão, os apresentadores convidavam telespectadores a fechar os olhos para melhor se inteirarem das semelhanças vocais. Juro que pareciam iguais.


Sem saber como, dei comigo a pensar nos desfiles de moda promovidos pelo actual presidente da câmara de Chaves, João Batista e do impacto que eles tiveram a nível nacional. Foi-se-me então o pensamento para as “bienais” de artes plásticas diligentemente organizadas e apoiadas por “los mismos”, ou o deslumbramento da mídia local, causado pelos cursos de atores com passagem por Hollywood.


Entretanto, pelo Boletim Municipal, sei que o TEF (Teatro Experimental Flaviense), mantém os mesmos apoios de miséria e que a sua independência financeira continua a ser negada. Ainda ninguém se lembrou da utilidade e necessidade das técnicas de representação teatral na formação dos nossos jovens alunos. São urgentes as parcerias com escolas profissionais da região para o desenvolvimento do teatro e do ensino em Chaves.


Desenvolvimento. Eu escrevi desenvolvimento? Como deixar passar em claro os mais de 20 anos de atividade da ADRAT (Associação de Desenvolvimento da Região do Alto Tâmega) conhecem?


A sua atividade e dinamismo são notórias. Os projetos aprovados em Bruxelas falam por si mesmos.  Da agricultura biológica ao turismo passando pela formação profissional, a nossa região mudou graças ao empenho e trabalho de um punhado de técnicos que trabalham dia e noite em prol do desenvolvimento lá prós lados do Alto da Cocanha.


O reconhecimento deste trabalho está no modo sempre pacífico com que o orçamento desta associação de desenvolvimento local é aprovado, e depois pago, pelas câmaras municipais da região.


Pudera. Todos os projetos são adequados á nossa realidade. Quase todos os formandos saídos dos cursos por si promovidos estão empregados. Os transmontanos do Alto Tâmega já não emigram para saber de sustento. É uma felicidade.


Vejam os empregos gerados com o artesanato do barro preto de Nantes, ou a presença dos cogumelos de estufa em todas as prateleiras dos supermercados flavienses. Que dizer do êxito retumbante da agricultura biológica produzida na nossa região e que hoje é conhecida e apreciada em todo o país. Igual resultado foi conseguido no turismo, o rural principalmente, que, fruto de uma divulgação sem precedente elevou as taxas de ocupação de camas a níveis nunca sonhados pelos proprietários. As povoações rurais fervilham de atividade.


O trabalho feito na preservação ambiental é único. Os nossos rios, matas, coutos de caça e "terras do povo", ficaram mais defendidos pelas populações depois do material de divulgação elaborado pelos técnicos de desenvolvimento.


E pensar que tudo isto o devemos a um homem. A um agente de desenvolvimento local. Um visionário cuja inteligência, capacidade de entendimento das necessidades da região e arcabouço político e intelectual transformou o Alto Tâmega nos últimos 20 anos.


Há mais de duas décadas, frequentei com ele o curso de formação de agentes de desenvolvimento local e testemunhei o aperfeiçoamento das capacidades de oratória e liderança que o caracterizam. Posso garantir. Ao contrário do que por aí dizem, as suas raízes familiares e cor política, em nada pesaram na escolha deste ser superior para a condução da agência de desenvolvimento da região do Alto Tâmega. Perdeu-se um estudante de arquitetura, mas ganhamos um animal do desenvolvimento.


Também posso garantir que, se fecharem os olhos por momentos, será fácil ver o desenvolvimento da nossa região para os próximos anos e o futuro risonho que a espera. É fácil. Vamos, mantenham os olhos fechados.


Para ti amigo blogueiro, o desejo de que mantenhas os olhos bem abertos e aquele abraço do tamanho do oceano, deste que te estima,


Zé Moreira

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:49
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Domingo, 20 de Março de 2011

Cartas do Zé

 

 

 

Caro amigo

 

Vou falar de mulheres. Para mim, o tema é uma estreia e de abordagem custosa.


Lembrei começar pela falta de reconhecimento que o mulherio sofre no município de Chaves. Recordo apenas o nome da Rua Maria Rita na toponímia flaviense, mas admito que haja mais.


Desconhecendo em absoluto quem foi essa Maria Rita que dá nome ao jardim infantil vizinho (uma santa, talvez), seria fácil desancar nas machistas gestões autárquicas das últimas quatro décadas.


A ausência de mulherame no topo das listas partidárias que concorrem á câmara de Chaves é gritante.


Depois, lembrei que os comunistas do burgo há muito que apostam em duas mulheres. As professoras Marília e Grilo. Vi o trabalho desta última em breve passagem pela assembleia municipal.


Teoricamente, do lado oposto do espectro político, posso garantir que essa pequena grande mulher é uma trabalhadora nata, amante de Chaves como nenhuma outra e que já lhe devemos uma ou duas medalhas da cidade como reconhecimento.  Agora está na freguesia de Santa Maria Maior e o seu trabalho é, como sempre, dedicado, desinteressado e intenso.


A nível nacional, sei que uma tal Paula ganhou lugar de deputada na Assembleia da República. Só não sei é o que anda a fazer na capital esta socialista flaviense eleita por Vila Real. Acho mesmo que ninguém sabe. Um dia prestará contas.


Como vêem, tenho dificuldade em escrever sobre mulheres. Apenas me ocorre agradecer á minha mãe e irmãs, filhas, cunhada e ex, o ensino dos segredos da culinária e de todas as lides de casa.


Elas são umas guerreiras. Fazem ideia do trabalho que dá limpar e varrer uma casa? Cozinhar e limpar a cozinha? Passar a ferro? E depois disto tudo, ir trabalhar? Porra!


Os anos ensinaram-me que as coisas aparentemente banais e simples são as mais gostosas. Esses mesmos anos foram testemunha da ascensão profissional, social e política da mulher. Revistas e programas de TV vocacionados para elas, ajudaram a divulgar e consolidar as conquistas femininas.


Hoje, já não faz sentido falar em descriminação sexual no ocidente. Sei que as africanas, asiáticas e sul americanas ainda têm um longo caminho de reivindicações. E a mulher europeia? Que caminho vai escolher agora?


Pergunto, porque ando confuso. Os modelos de família estão em mudança. Os papeis sociais, económicos e políticos do homem e da mulher alteraram-se de modo irremediável.


Faltam modelos, fórmulas de convivência entre os sexos. A família precisa de ser reinventada e sair fortalecida do sismo iniciado há quase dois séculos com a revolução industrial.


A mulher, agora é a caçadora que põe em casa a comida na mesa. É a militar que carrega as armas. A gestora que produz e distribui riqueza. A presidente que decide o futuro de um país, cidade ou empresa.


Alterado o status quo dentro da família homem e mulher não souberam responder aos novos papeis. A desagregação foi inevitável. Os divórcios a consequência.


Com educação machista que todos recebemos, é difícil aceitar que a tua mulher tenha melhor ordenado do que o teu. É insuportável ter de abandonar uma carreira profissional em nome da família. Agora, que “ando devagar porque já não tenho pressa”, dou conta dos erros, culpas e responsabilidades masculinas nesta matéria.


No entanto, hoje acredito que esta “guerra dos sexos” tenha solução. A saída é que não haja vencidos. Apenas vencedores. Os que amam, os que acima de tudo, acreditam que o amor que uniu é mais forte do que todos os preconceitos induzidos pelos processos culturais, sociais e educacionais.


Assim, lembro o sabor de uns pastéis de Chaves morninhos, acompanhados da leitura do Expresso, bom sexo e boa prosa entre cada caderno. Conseguem imaginar coisa melhor com uma mulher? Eu não. Mesmo assim, procurei feito um caçador idiota colecionador de momentos de plástico idiotas atravessando anos, oceanos e gajas.


Ainda hoje, quando o fim de semana é em Chaves, vou atrás dos pastéis, do Expresso e da mulher inteligente e disposta. Nunca mais reuni os três. Talvez porque quem faltava era eu.


Vês amigo! É-me difícil falar de mulheres. Aprendi apenas a amá-las e mesmo isso, demorou o seu tempo. O tempo de uma vida. Por isso partilho contigo e com o resto dos blogueiros esta coisa estranha e maravilhosa que é amar a mulher e de propor a solução para a família do século XXI: o amor.


A dica não é minha. Qualquer religião que se preze, fala nesta coisa do amor. Apenas é preciso acreditar. Acreditem no amor e no abraço do tamanho do oceano deste escriba que muito vos estima,

 

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:30
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