O vendedor da banha da cobra
Juventino de sua graça, levava uma vida flauteada!
De borgeço nada tinha, pelo contrário! Era senhor de uma lábia descomunal. Engrampava o mais pintado!
Cirandava de feira em feira, por esse país afora no seu Citröen Big Fifteen, impingindo a banha da cobra. À quarta não perdia a de Chaves!
Bem parecido, o Juventino possuía um invejável porte atlético. Trajava quase sempre de negro. Casaco lustrado, camisa de colareta, colarinho postiço engomado, calça de risca ao fundo e polaina branca. Calçava bota fina e na cabeça um chapéu de feltro às três pancadas, comprado no mestre Alves da rua Direita.
Lesto no gesto e franco na rima, era dotado de um olhar fuzilante, quase mítico, que inebriava qualquer mortal que se dispusesse a fitá-lo. Cultivava um bigode à Salvador Dali e uma barbicha rala, que lhe emprestavam o ar misterioso que convinha ao ofício.
Pernoitava onde calhasse e ninguém sabia de onde vinha ou onde pendurava o pote! Conhecia Seca e Meca, onde comer à tripa forra, onde a pita punha fora, onde se encontravam as fêveras mais tenras e de melhor tempero e as melhores arganas do bacalhau da Noruega. Enfim, conhecia os mais recônditos lugares que lhe faziam a vida bela!
Contudo, a cidade das águas de Flávio era a sua verdadeira paixão.
Na princesa do Tâmega aparcava o Big Fifteen onde o povo se juntasse. Escancarava a mala de cartão sobre o tejadilho do carro. Emplouricava-se numa banca de três pés e dava início à sua saga. Assim rezava:
− Ó meu pobo, chigou o Juventino, trago aqui romédio, p’rá menina e p’ró menino!
Chegaide-vos ó p’ráqui e topai cura p’ró mal, tanto faz seja de gente, como de qualquer animal!
Reco, reca, cabra ou burra, cabalo baquinha ou touro, cristão de Nosso Senhor ou mesmo até se for mouro!
Tenho dentro desta mala, feito do unto da cobra, um romédio milagroso, que bos cura até a sogra!
E se não acreditaides, povo da minha afeição, chegaide-bos p’rá minha beira, que bos dou a explicação!
P’rás impiges, p’ró mau olhado, ou para um pé todo cagado! P’rás doenças do miolo, ou mesmo p’rá ranheira, esta pomada marela cura até a caganeira!
P’ró saramplo e p’rás bexigas, mesmo até p’rá escarlatina, a desta lata bormelha, é p’rás regras da menina!
Tem a espinhela caída e não sabe o que fazer? Pegue lá, lebe lá esta, que melhor não pode haber!
Comeu, ficou enfartado, é achacado à lombriga, tome então esta latinha, para esfregar a barriga!
Doem-l’as cruzes, o peito, tem pisaduras, berrugas, lebe esta pomadinha, que lhe ebita as sanguessugas!
Tem tremuras e arrepios, peida que nem um boubelo, esfrague então a suas nalgas com este frasco marelo!
Torcicolos, urticária, febre dos fenos, malária, dor de corno ou artrose, saro até a esquelerose!
E mesmo até que à distância, os seus olhos beijam mal, esfrague a menina do olho com o unto deste animal!
Tem insónias, dói-lhe a brilha, caga fininho albezes, tome este romédio santo, que lhe engrossará as fezes!
Tem dor de dentes, ou nerbos, sonha e não queria sonhar, masture este pó com áuga e beba antes de deitar!
Sofre de entorses, terçolhos, nascem-lhe crabos na mão, o romédio é milagreiro, p’ra calquer aflição!
Tome lá pau-de-cabinda, desta caixa cor da prata, masture num copo de tinto, e furará uma lata!
Mija às pinguinhas, nos socos, tem convulsões ao dormir, esfrague no peito a pomada e escusa de se afligir!
A sua filha emprenhou… ó que sorte do catancho, esfrague-lha a bouba com esta, terá logo um desmancho!
Os romédios milagreiros que estou aqui a bender, não custam quinze nem binte, olhe nem dez, benha ber!
Lebe dois, pague só um, estou aqui é p’rá desgraça, e quem quiser levar cinco, ofereço dois e de graça!
Pegue lá meu caro amigo, e outro p’rá’quele senhor, binde pobo, binde todos, pois sois bós o meu pinhor!
E por aí fora!..
A verdade é que vendia quanto levava e quanto mais tivesse!..
O sucesso era tanto e as reclamações tão poucas, que um dia, nos Santos, em plena feira do gado, fez o negócio da sua vida. Assim se conta:
A feira do gado nos Santos, como todos devereis saber, tinha lugar no terreiro do Tabolado e fazia-se a 31 do mês de outubro de cada ano. Portanto, todo o agricultor ou negociante que aportasse à cidade das bandas da margem esquerda do Tâmega, nomeadamente das aldeias do Brunheiro, tinha, inevitavelmente, de atravessar o Tâmega pela ponte de Trajano. Muitos, indo manso o rio, venciam-no pelas poldras que sempre ficava mais perto. Mas só gente, pois os animais não se atreviam a tal façanha. Fora isso, eram largas as centenas que atravessavam a ponte romana todos os santos dias para se fazerem à baixa da cidade.
Certa ocasião, pese embora o Juventino não ser dado a grandes literaturas, pegou, por mero acaso, num velho alfarrábio de história que topou no quarto de numa pensão rasca em Braga. No cartapácio leu que na ápoca medieval, quem quisesse atravessar o Cávado pela velhinha ponte de Prado, ainda que fosse peregrino dos Caminhos de Santiago, teria que pagar uma certa quantia de portagem.
Esta ficou-lhe na ideia!
Assim, numa bela manhã de um 31 de outubro, na dita feira do gado, montou o estaminé ali pela foz do Ribelas, junto a um dos poços das águas cálidas, como habitualmente. Puxou da sua lábia de artista e ainda a manhã não tinha acabado e já o produto estava esgotado. Era a maré propícia ao negócio que há muito sonhava, mas que nunca tinha tido ocasião de realizar. O dia era azado, uma vez que os feirantes tinham os bolsos bem forrados de notas de cem mil réis.
À sua volta, ainda se encontravam alguns matarruanos negociantes, escravos genuínos do vil metal. Verdadeiros mãos-de-vaca, estavam a pedi-las!
Entre o escasso povo, encontrava-se o Terebentino de S. Cibrão, conhecido pela nomeada de caga notas. Homem feito de grossa casca, cismava-se o melhor negociante do Planalto. Gabava-se mesmo de nunca ter sido enganado por ninguém. E cheirando-lhe ao pilim estava lá, qual abutre à roda da carniça.
O Juventino tirou-lhe as medidas e, adivinhando-lhe o bolso untado, lançou a isca:
− Binde cá amigos meus, bou-bos agora oferecer, um negócio sem igual, não debeis de o perder!
Não é casa nem é bouça, o que bos quero bender, é simplesmente um negócio que vos fará enriquecer!
Bós bem me conheceis, não estou aqui p’ra inganar, ficará home rico, quem isto quiser comprar!
Quem bier da Madalena, terá que atravessar o rio, de berão fá-lo a báu, de inberno não que está frio!
E se cada um que quiser, a ponte atravessar, tiber à sua antrada uma maquia a pagar?
O dono que for da ponte, home rico há de ficar, e verá a sua conta, dia a dia a aumentar!
E nem que seja um vintém que tenha de se pagar, em apenas cinco anos, é dinheiro até fartar!
Tráz-bos atão o Juventino, um negócio do catano, pois olhai bou-bos bender aquela ponte de Trajano!
Custa apenas trinta notas, e é só p’ra quem quiser, se não fico eu com ela, e é p’ró que der e vier!
Para atiçar o negócio, um seu compincha, de vaquinha, apressou-se a mandar:
− Dou-le vinte e cinco notas pela ponte de Trajano!
− Não bendo amigo meu, tem de dar trinta notinhas, isto aqui não são esmolas, que bocê dá às alminhas!
− Trinta notas não le dou, quer binte e sete por ela?
− Amigo, eu não la bendo, por esse preço é não, quem dá binte sete dá trinta, é negócio de ocasião!
O lapardana do caga notas, já tinha feito as necessárias contas de cabeça! O negócio parecia-lhe imperdível. Estava ceguinho como um pincho com o grilo na pescoceira!
− Olha ser dono da ponte de Trajano e poder cobrar por quem a usasse… Fosca-se, é um negócio da China, e nunca tinha pensado nisto. – cogitava Terebentino.
− Vinte e oito dou-los ou! − Mandou sem hesitar!
O da vaquinha atacou com vinte e nove.
O caga notas fechou com as trinta notas do combinado.
Que viesse pelos papéis na próxima feira, que estaria tudo conforme!
Assim foi, passou-lhe as trinta notas de cem mil réis para a mão.
Permita-se um breve parêntesis: uma junta de bois galegos, taludos, custavam, à época, menos de uma nota de cem!
O Juventino, com o pilim no bornal, arrumou a trouxa e pôs-se a milhas.
O Terebentino foi festejar com os amigos para o bar Aviz.
Os descendentes do mão-de-vaca ainda hoje sonham em cobrar uma portagem a quem passe pela “sua” ponte de Trajano.
Sim, porque o caga notas, logo que deu pelo logro, correu, até ao fim dos seus anos, todas as feiras do país à procura do salafrário. Nunca do Juventino avezou a mais precária informação!
Finou-se com o desgosto!
Bem feito, digo eu, pois só um lapouço é que cria poder comprar a milenar menina dos olhos da augusta Aquae Flaviae!
E o leitor pensará:
− Bem mou finto!
E eu, que escrevinhei esta estória, respeito!
Olhai que sempre há cada borgeço neste mundo!
Ainda ontem deixava por aqui algumas imagens agradáveis ao olhar de qualquer flaviense e não flaviense, mas temos de ser realistas, a grande maioria do casario do centro histórico mete dó, principalmente os pisos superiores desse casario, pois ao nível do rés-do-chão, graças ao comércio e alguns incentivos, lá se vai mantendo mais ou menos atraente.
Há dias a Câmara Municipal apresentou um Masterplan do centro histórico com a delimitação da área de reabilitação urbana, bem como o Programa Estratégico de Reabilitação Urbana do Centro Histórico de Chaves. Embora seja um passo para que algo aconteça em termos de reabilitação urbana, a montanha acabaria por parir um rato, uma simples gota no oceano, pois os incentivos que há associados a essa reabilitação só abrangem quem tiver contabilidade organizada. Ora acontece que a grande maioria do casario habitacional do centro histórico é propriedade de particulares, sem escrita organizada e daí, ficam de fora deste programa.
No entanto se a reabilitação urbana é mais que necessária, para se levar a sério tem de contemplar o casario habitacional, pois é nesse que é urgente intervir, mas não só, a reabilitação de pouco adiantará se não houver um plano de revitalização do centro histórico. É que nesta coisa dos conceitos anda muita confusão e reabilitar não é o mesmo que revitalizar, daí que até tenham aparecido alguns casos isolados de reabilitação urbana, mas só e apenas isso, que depois de pronto, o imóveis reabilitados continuam sem gente dentro.
Mas isto são temas para páginas de discussão e não pode nem deve ser tratado aqui com a leviandade de três ou quatro parágrafos de escrita, mas sempre podemos deixar aqui a nossa preocupação.
Chaminé e clarabóia na Rua Dr. Júlio Martins
Casario da Praça do Município
Rua Dr.Júlio Martins com novo visual
O lema deste blog tem sido desde o seu aparecimento aliar a fotografia às palavras nas suas duas vertentes, ou seja, ás vezes são imagens que ilustram palavras outras vezes são palavras que ilustram imagens.
Tenho-me queixado ultimamente que não tenho tido tempo para grandes reportagens fotográficas e vou-me valendo do meu arquivo fotográfico e de algumas imagens que já tinha preparadas para publicação. Como o tempo ainda não abunda, foi recorrendo a este método e hoje me deparei com as quatro imagens que vos deixo, todas da aldeia de Ventuzelos, mas poderiam ser de outra aldeia qualquer, pois repetem-se por este nosso concelho fora. Não sei como é que cada um de vós olha para as imagens ou que que nelas vê. Comigo, temos um diálogo, uma aproximação que começa logo no momento de as captar, elas dizem-me coisas, têm rosto, retêm memórias, momentos, contam histórias, transmitem sensações, e geralmente são as imagens que me dão o mote da escrita, que ora é de saudade, de raiva, de carinho ou de reflexão. As de hoje, deixam-me baralhado entre memórias, raiva e reflexão nestes tempos complicados que estamos a viver, e que também eles são confusos e que não sei bem comos os definir, mas são sem qualquer dúvida os mais complicados do pós 25 de abril. Mas a minha confusão ou indefinição de catalogação destes tempos, não passa pelo aspeto económico e financeiro da crise com que nos bombardeiam todos os dias e que, embora tenham a sua influência, é outra a crise que me afeta e faz refletir, é a que dá pelo nome de crise social, esta também vivida em duas vertentes, uma que nos é imposta e outra que é vivida no próprio seio da sociedade, mas o que mais me preocupa, é que ninguém faz nada para contrariar esta crise, antes pelo contrário, vai-se avivando a fogueira com mais achas para queimar.
Para a população mais jovem que nasceu no pós 25 de abril e apenas assistiu a um período de crescimento e desenvolvimento , não só o nosso, o de Portugal, mas no seu todo, principalmente no crescimento e desenvolvimento tecnológico que nos entrou pelas casas adentro, mas também no social, naquilo que diz respeito às classes socias, em que a classe média se alargou e ganhou força nos países democráticos ocidentais, em que o consumo se tornou quase num modo de vida, em que sempre viveu em liberdade e em democracia. Esta população mais jovem por falta de comparação não se aperceberá muito bem da crise atual e até onde ela nos poderá levar, e repito, que além de económica e financeira, esta crise se está a tornar bem mais séria no campo social e, parece-me, que a procissão só agora está timidamente a sair para o adro.
Os das gerações mais velhas, que viveram o antes 25 de abril, tem memórias do passado, assistiram a todas as transformações que os mais jovens assistiram, mas tem memórias do passado, sem televisão, sem computadores, sem telemóveis, sem democracia, sem liberdades, sem consumos, sem classe média, sem estudos…enfim, para quem não conheceu esses tempos, recomendo vivamente que leiam aquele que conheceu o povo português e Portugal melhor que ninguém, recomendo que leiam Miguel Torga, principalmente os seus breves desabafos ou sofreres que deixou escrito nos seus diários ou até no seu Reino Maravilhoso. Aos que viveram ainda o antes 25 de abril, recomendo igual leitura e apenas lhes peço para verificarem se as palavras de Torga ainda se mantêm atualizadas. Ficam aqui alguns extratos do seus diários para reflexão, apenas alguns escritos (uma insignificância na sua obra). Escritos que curiosamente passaram para papel nesta cidade de Chaves.
“Chaves, 17 de Setembro de 1961 - É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disso. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.
Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.”
“Chaves, 6 de Setembro de 1989 - O que é preciso fazer e dizer para desatar o nó de certas almas! Almas obscuras, como todas as almas, mas ciosas da escuridão em que vivem. Aflitas em cada hora da vida, anseia pela libertação sem verdadeiramente a desejar. Estão como viciadas no desespero. E ouvem com indisfarçável desconfiança quem procura ajudá-las, a mostrar-lhes a luz. Anos e anos de recalcamento criaram nelas uma segunda natureza, tímida, fechada, esquiva. E é no fundo do poço que se sentem seguras. Ao menos aí, nada as acusa. O consciente culpa-se; o subconsciente desculpa-se.”
“Chaves, 10 de Setembro de 1969 - Estes políticos, grandes ou pequenos, ao nível de capital ou de vila, são curiosos! Actores singulares, que em vez de servir se servem, é a própria megalomania que representam no palco da vida, a recitar em voz alta as palavras que adivinham no pensamento dos espectadores que hipnotizam. Naturezas ávidas de palmas vivas – e de morras, se não puder ser doutra maneira -, no fundo, as ideias, o bem público, a pátria e o mais em que se louvam para atingir e conservar o poder, não lhes interessam. É o espectáculo da sua positiva ou negativa, hipertrofia pessoal que os seduz. A multidão cá em baixo, rasteira, embasbacada, fremente de entusiasmo, ou de indignação, e eles a pairar no meio dela, grotescos e sorridentes, a gesticular como gigantones.”
“Chaves, 11 de Abril de 1968 - Que povo este! Fazem-lhe tudo, tiram-lhe tudo, negam-lhe tudo, e continua a ajoelhar-se quando passa a procissão.”
Miguel Torga, in “Diários”
Quer acreditem ou não, foram mesmo as imagens que vos deixo hoje, e que se repetem por esse nosso concelho fora, que me levaram a trazer aqui as palavras de hoje. São casas velhas, antigas, que nós já julgávamos fechadas para todo o sempre, mas que teimam em estar lá e que nos trazem à lembrança tempos passados que queríamos esquecidos, mas que, ao que parece, há quem os queira apenas adormecidos para os fazer despertar.
“Cá ando a inventariar, numa ternura estrangulada, o Portugal remoto e arcaico que nos resta…” escreveu Torga numa da vezes que andou por estas bandas. Eu, um pouco ao jeito de Torga, também gosto de andar por aí a inventariar, mas mais naquilo que nos é próximo, que é nosso, cá da terra, a inventariar sítios onde passei e vivi em criança, lugares onde cresci, recantos que descobri ao longo da juventude, aldeias, montes, planaltos, rios e riachos que fui descobrindo já em adulto. Alguns desses lugares, se não fosse pelo inventário regular, já nem os reconheceria como nossos, mas com o tempo fui-me habituando às alterações, algumas fruto de muitos disparates, crimes até, que se cometeram contra o nosso património natural pela ganância de dinheiro fácil, mas felizmente, como diz o povo “Não há mal que sempre dure, nem bem que se não acabe” e já sabemos que o povo tem sempre razão.
Pois o nosso Rio Tâmega enquadra-se bem em tudo que atrás foi dito e, depois de quase todo esventrado para lhe sacar a areia que depressa se transformava em betão e dinheiro, a razão do povo lá se cumpriu e um dia o mal acabou, e com o tempo, embora nunca se recuperasse o rio entre as suas margens, ganhavam-se lagos, ganharam-se novas espécies na sua fauna, sobretudo aves. Transformaram-se os esventramentos (agora cheios de água) e as suas margens numa reserva ecológica protegida, mandaram-se fazer estudos e projetos para o local, montaram-se observatórios para ver e estudar as aves. Fizeram-se caminhadas de observações… e quando tudo parecia estar bem encaminhado, lá veio a razão do povo outra vez com o “Não há mal que sempre dure, nem bem que se não acabe” , mas desta vez foi o bem que se acabou, ou virou a selvagem: por esquecimento, por incúria, por falta de fiscalização, por falta de respeito, e fico-me por aqui.
Basta percorrer as margens destes lagos para se saber daquilo que estou para aqui a dizer, mas eu deixo-vos algumas imagens junto a dois dos observatórios, que ao que parece, até já viraram a “residências” sabe-se lá de que, mas pelo menos já têm moveis dentro e até cortinados nas portas, mesmo que por jardim tenham lixo e mais lixo, que se vai amontoando por este ano não ter havido cheia com força para levar tudo por água abaixo.
E que não digam por aí que este caso é desconhecido das autoridades, pois já por várias vezes aqui passou, bem como pela imprensa e outros sítios na net, mas parece que tudo que é património, que é de todos, é um caso (politicamente falando) perdido, sem interesse, para deixar andar, pois entre outras razões, pode ser que se resolva por ele próprio, e neste caso particular, é só esperar por uma cheia do Tâmega daquelas valentes, que o lixo desaparece todo (ou muda de sítio). Mas temos pena, pelo menos eu tenho pena de ver lugares que poderiam ser tão agradáveis, tão bem aproveitados, tão bem explorados como uma riqueza natural a morrer por abandono e puro desleixo, onde, não há culpados.
Por mim, de vez em quando lá vou inventariando e registando em imagens para memória futura, entretanto, do meio da lixeira e com a respiração contida, ainda podemos disfarçar tudo isto com imagens mais agradáveis, pelo menos aparentemente, mas lá diz o povo “as aparências iludem” e nunca é demais dizer que o povo tem sempre razão.
1º de Maio, Dia do Trabalhador em Chaves, em Portugal e em todo o mundo democrático, pelo menos, mas como Chaves não é muito dada a manifestações, aproveita-se o feriado para desfrutar como cada um lhe da na gana.
Cá eu, por obrigações familiares aproveitei uma ida à cidade e andei a calcorrear os caminho do “Lombudo” devidamente equipado. Faltou o cão, faltam os militares atrás das “sopeiras”, faltam os barcos no Tâmega e muita coisa que repousa nas memórias do passado. Hoje é mais espanhóis e um ou outro turista nacional a percorrer as ruas da cidade. Poderíamos ter mais turistas se as políticas atuais não fossem de pobreza (em todo o seu sentido), e também a cidade poderia apostar mais nestes dias, mas enfim, a pobreza (também de ideias) é generalizada e os residentes do largo dos pasmados lá se vão entretendo a ver magotes de espanhóis a passar. Recordações de Chaves levam-nas em imagem. Eventos, festas, feiras e feirinhas, só as de sucesso e depois para que oferecer Chaves aos que nos visitam… os nossos sonhos vão muito mais além, só nos falta mesmo é encontrar o sonho certo.
Seja como for, fica um registo fresquinho de Chaves com uma imagem do Arrabalde e de um magote de espanhóis há coisa de uma hora atrás. Mais fresquinha que esta é quase impossível.
Um bom resto de 1º de Maio que amanhã é dia de trabalho para quem tem a felicidade de ainda ter trabalho.
Pérolas e diamantes (35): contemplações e algumas deduções
Foi num fim de semana que finalmente descobri a destrui… desculpem, a transformação do Jardim das Freiras numa praça rasa com um tanque ao fundo. Afinal o seu destino, ou melhor, a sua função, é converter-se num terreiro militar, numa montra de propaganda das nossas forças militares.
Em vez de passearmos em redor dos canteiros de flores, vimo-nos, eu e a Luzia, a deambular entre provectas viaturas do exército português, metralhadoras e pistolas com aspeto de serem já do tempo da primeira guerra mundial. Também contemplámos G3 do período da guerra colonial. Ai que saudades!
Observámos ainda pais babados a fotografar os seus filhotes alindados com capacetes militares ao volante de carros de assalto blindados. Foi enternecedor observar crianças a brincarem às guerras, os militares a fazerem de animadores culturais e os pais a servirem de repórteres fotográficos, como se estivessem no Afeganistão dos Pequeninos. Uma lágrima rebelde esteve mesmo para me correr pela face abaixo, mas eu, para não dar parte de fraco, consegui aguentá-la. Porra, um homem não chora.
Mas não era disto que hoje vos queria falar, mas sim de mais uma apresentação (acho que já vamos na sétima ou oitava) de António Cabeleira como candidato à Câmara de Chaves. Desta vez veio a terreiro afirmar que é o “candidato da verdade”. Mas era escusado, porque no senhor candidato isso é uma redundância. Todos o sabemos.
Desta vez veio comunicar que o seu lema é “Todos por Chaves”. O que quer dizer que também me inclui a mim na sua ideia, no seu lema e na sua vontade. Desde já lho agradeço. Mas tenho de lhe pedir desculpas, pois não consigo acompanhá-lo nem na vontade, nem na verdade, nem no lema. Não consigo, não é porque não queira. É mesmo por manifesta incapacidade para o seguir em tão difícil desiderato. Neste caso, desculpe-me senhor candidato, serão “Todos por Chaves”, menos um. No entanto, desejo-lhe as maiores felicidades.
Igualmente afirmou que pretende “unir a família social-democrata”. Então ela está desunida? Má notícia nos transmite. Mas acho que exagera. Nós não acreditamos. Que eu saiba ela está mais unida do que nunca. E, como todos sabemos, o povo unido jamais será vencido.
Promete ainda “fazer o melhor possível pelos flavienses”. Disso ninguém duvida. Os doze anos de gestão autárquica do PSD são disso a melhor prova: o centro da cidade é hoje um espaço privilegiado de comércio e turismo, a população residente aumentou significativamente, o nosso tecido industrial amplificou-se como nunca. E até já temos uma fábrica de pastéis de nata no imenso complexo construído em Outeiro Seco. E, como se isto fosse pouco, o Hospital de Chaves aumentou as suas valências, o Tribunal ganhou um estatuto de dignidade que a todos enche de orgulho e o Ensino Superior vai ser substancialmente ampliado, pois a UTAD está a pensar seriamente em transferir os seus melhores cursos para Chaves.
Além disso, o senhor candidato é um estratega experimentado, sagaz e audacioso. Ora vamos lá às evidências. António Cabeleira, passa de segundo na lista da Câmara a primeiro. João Batista, atual presidente, passa a candidato a presidente da Assembleia Municipal e António Vicente, o atual presidente da AM, passa para 14º na lista da candidatura do PSD. Basta este pormenor para nos apercebermos que quem mexe assim nas listas, é um jogador de xadrez espantoso.
Do resto das suas promessas nem é bom falar, pois elas são tão boas, tão atuais e inéditas, que encheríamos páginas e páginas de jornais e mesmo assim, estamos em crer, não conseguiríamos dar-vos nem sequer uma pálida imagem da sua pertinência e profundidade.
Sobre o combate político, AC limitou-se a criticar o PS por ter levantado “suspeitas sem qualquer sentido” em relação à dívida da Câmara, que para o PSD é de 40 milhões e para o PS é de 50 milhões. A nós, seja qual for a cifra parece-nos uma cratera do tamanho das que a chuva provocou em Marvão. A verdade é que o PS de Paula Barros não veio ainda a público apresentar os seus números. Ao que nos disseram, o “aparelho” partidário anda entretido a compor as listas autárquicas. Pelos vistos não consegue fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Chegou-nos aos ouvidos que foi constituído em Chaves o “Movimento Autárquico Independente”, mas deve ser boato, pois se nem o PSD nem o PS dizem nada é porque não existe. Nós até vimos um cartaz na sua sede. Mas pode tratar-se apenas de uma alucinação. João Neves não era capaz de fazer uma desfeita dessas aos partidos do sistema.
João Madureira
LARGO DA MADALENA
Secou na praça o fontenário romântico
o silêncio da água fechou a tarde
num aroma de musgo e limo verde.
Apenas se ouve o pânico
de um corvo rouco
poisado na boca aberta
de um santo barroco
do frontão da igreja
escura e deserta.
E o corvo grasna assim seja.
O resto é o ruído da sombra dos muros nus à roda
tece-lhes o tempo o perfil no chão o puro atrito
do eco agudo de um grito
devolvido à nossa boca muda
pelo gosto salgado do granito.
Fernão de Magalhães Gonçalves, Andamento, Coimbra : 1984.
A um passo de Chaves, o casco antigo da Abobeleira vai resistindo como pode à entrada da modernidade.
Os restos mortais e túmulo de Dom Afonso regressam a Chaves após nos terem sido roubados há 71 anos atrás.
Todos os flavienses conhecem a estátua que está em frente ao edifício da Câmara Municipal de Dom Afonso, I Duque de Bragança e 8º Conde de Barcelos. Temos cá a estátua, mas não tínhamos os seus restos mortais e túmulo, mas vamos à história.
Reza a história que certo dia, D. João I, pai de D.Afonso, volta-se para D. Nuno Álvares Pereira, propondo que a sua filha D.Brites, casasse com seu filho D. Duarte, então, com oito anos apenas. Contrapõe D. Nuno que a sua filha era mais razoável casar com o seu filho mais velho, D. Afonso, então com 29 anos, com a condição de que este fosse perfilhado. Consentiu El Rey, tendo assinado a carta de perfilhação em 20-10-1401.
Por seu lado D. Nuno doou a sua filha todas as terras a Norte do rio Douro. O casamento efetuou-se em Lisboa em 8-11-1401, tendo assistido El-Rei e o condestável.
Terminados os festejos do casamento, o jovem casal escolheu para a sua residência a velha vila de Chaves, onde nasceram os seus três filhos: D. Isabel, D.Afonso e D. Fernando.
D. Brites acabaria por falecer em 1412 e D. Afonso retirou-se para Barcelos, depois de já ter começado a construção dos seus Paços em Chaves em 1410 ficando concluídos em 1446.
D. João I, receando uma invasão castelhana em 1419, já depois do tratado de paz com Castela, encarregou seu filho, o Conde D. Afonso, de ir para Bragança, a fim de impedir os invasores e defender o Reino.
Em 1442 é fundada a Casa de Bragança, cujo primeiro representante era D. Afonso, filho legitimado do Rei D. João I, 8.º Conde de Barcelos e, a partir deste momento, 1.º Duque de Bragança.
S. Teria sido por esta época, após 1442, que D. Afonso quis educar e disciplinar o povo, fundando a Confraria da Nobre Cavalaria de Santiago, em Bragança e Confraria da Nobre Cavalaria de S. João Baptista, em Chaves. Viveu D. Afonso as suas últimas décadas na vila de Chaves. A sua vida teve termo, em dia desconhecido do mês de Dezembro de 1461. Certamente que todas as igrejas do velho burgo, doridamente, tocaram a finados pelo desaparecimento daquele flaviense adotivo e protetor da Vila.
“Viveo noventa e hum annos, foi fepultado em fepultura raza na Capella maior da Igreja Matriz da dita Villa, e dalli foi transladado para o noffo Convento da Veiga, fendo ainda de Clauftraes, e colocado em nobre maufoleo na Capella maior da Igreja á parte do Evangelho; e quando viemos para o fítio, onde hoje eftamos, trouxemos os feus offos com o mefmo maufoleo para o Convento novo (de N.ª S.ª do Rosário ou S. Francisco).
Santiago, Dr. Francisco de – Chr sa Santa Prov. Nª Sª da Soledade
Porém, os restos mortais de D. Afonso não ficaram por aqui. Passados que foram quase cinco séculos, no dia 26-9-1942, com um modesto acompanhamento eclesiástico, saiu de Chaves a veneranda relíquia histórica, sem outra homenagem que não fosse uma simples formatura em alas, realizada por soldados do Regimento de Cavalaria n.º 6, às ordens do Capitão Manuel da Assunção Figueiredo, e uma marcha de continência, em que os clarins sentidamente evocaram a memória dos cavaleiros da Idade Média. Desde então repousa o velho túmulo no Panteão dos Primeiros Duques de Bragança, na Igreja de Santo Agostinho, em Vila Viçosa.
à esquerda os Paços do Duque de Bragança, ao fundo (em frente à Câmara) a sua estátua
Engraçado que ainda ontem falava por aqui dos roubos que Chaves tem sido vítima, pois este, o dos restos mortais e do túmulo de D.Afonso, foi um dos grandes roubos, pela calada, pelo que se deduz num pequeno artigo de jornal publicado na imprensa local da época:
Mas eis que o tempo acaba por fazer justiça e vamos ter os restos mortais e o túmulo de D.Afonso de volta ao Forte de S.Francisco, prevendo-se que a transladação se faça durante o mês de junho para tudo estar a postos para no dia 8 de julho, por altura das festas da cidade, onde com cerimónia religiosa com a presença do Bispo de Vila Real se celebrará o regresso de D. Afonso ao local de onde nunca deveria ter saído. Ironia do destino, o Duque regressa a Chaves no dia em que Chaves celebra uma vitória da República sobre a Monarquia.
Igreja do Forte de S.Francisco para onde regressará o túmulo do Duque
A história deste regresso conta-se em meia dúzia de palavras.
Como sabem o Forte de S.Francisco Hotel mudou de mãos há uns tempo atrás. O novo proprietário, homem de negócios, conhecendo a história do túmulo do Duque viu logo com bons olhos de mais-valias o regresso do túmulo ao Forte de S.Francisco. É também sabido que em Chaves existe uma célula importante de adeptos da monarquia (antigos descendentes de títulos monárquicos, sendo os mais conhecidos os da família Pizarro). Ora acontece que um desses descendentes da monarquia é amigo íntimo e há até quem diga ser o braço direito do Vice-Presidente da Câmara de Chaves. Ora segundo apurei este íntimo do autarca desde que desempenha funções na autarquia convenceu o Vice-Presidente a encetar negociações para a transladação do túmulo do Duque para Chaves. Tarefa que, ao que soube, não foi fácil, mas com influências muito importantes subsidiadas pelo atual proprietário do Forte de S.Francisco Hotel e a mãozinha (consta) da Opus Dei, a Casa de Bragança em Vila Viçosa cedeu devolver os restos mortais e respetivo túmulo a Chaves, ficando em seu lugar uma réplica do túmulo verdadeiro em Vila Viçosa. É caso para dizer que a justiça tarda mas não falha.
Seja como for eu congratulo-me com a vida do nosso Duque e faço questão de no dia 8 de julho estar presente nas cerimónias.
Para saber mais sobre a história do I Duque de Bragança, siga este link: I Duque de Bragança
Ainda hoje vamos ter por aqui "Quem conta um ponto..." de João Madureira
Como se costuma dizer - o tempo não está de feição - nem lá fora (com o frio e o inverno) nem cá dentro (com o ponteiro do relógio a girar mais depressa que o desejado) , mas há sempre tempo para uma imagem ou duas da nossa terrinha.
Duas imagens dos dias de inverno em Chaves, sempre com frio e uma vez que o tempo da névoa já lá vai, agora, às vezes há sol, outras vezes chuva, mas a neve também já nos visitou. É inverno.
Ficam duas imagens da Praça do Duque de Bragança e também, mais uma vez, a prova de que para a fotografia basta um telemóvel.
Até amanhã!


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