12 anos

Terça-feira, 21 de Março de 2017

Chaves D' Aurora

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  1. RETRATO.

 

Com admirável beleza, Aurita estava no esplendor de seus quinze anos, cada vez menos menina, u’a mulher a se pôr. Ao vê-la à janela da Quinta ou com os seus, a caminho da igreja, as pessoas exclamavam – Ai que belo rosto, o dessa rapariguinha! Há de ser assim, o da Senhora de Fátima!

 

Até um requisitado fotógrafo de Chaves atreveu-se a pedir a João Reis que lhe concedesse a honra de retratar a menina, vestida com o alvo manto de Nossa Senhora e tendo às mãos o Santo Rosário. Recebeu do patriarca um sonoro e perentório – NÃO!!!

 

A uma tarde qualquer, quando estava a se dirigir a um café no Largo das Freiras, Reis viu exposta, na montra de uma loja de artigos religiosos, à Rua Santo António, uma pintura a representar a Virgem e os três pastorinhos. A face da Santa, porém e os seus loiros cabelos, não lhe deixaram qualquer dúvida. Indignado e furioso, adentrou o estabelecimento, mas logo se arrefeceu ao ver que o dono era um velho amigo. Este contou ao brasileiro que, tal quadro, fizera-o seu filho mais jovem, a se valer apenas de sua pura e excelente memória visual. Em momento algum, porém, gostava ao pintor autodidata sequer pensar em ofender a honra da menina, os brios de João Reis Bernardes e a dignidade de uma tão conceituada família.

 

Reis propôs então a compra imediata de tal peça de arte. Muito constrangido, o comerciante explicou que o precioso quadro já não estava disponível. Outro freguês já o comprara, na véspera e por muito bom preço, deixando-lhe vultosa quantia à guisa de sinal e ficando de passar por lá, ao cabo da semana, para trazer o restante. – E cá me podes dizer, meu caro, quem é esse freguês? – Ora, pois, é aquele ciganinho, o filho mais novo do Camacho. – o que deixou o rosto do patriarca encarnado, purpúreo, arroxeado – Pois então, pra já é que me hás de vender essa pintura! Pago-te o dobro do preço! – Mas ó Reis, sabes tão bem quanto eu como são as regras do negócio, as leis do comércio. Não posso faltar com a palavra dada a um freguês. Ainda mais que...

 

De logo, porém, o Brasileiro o contradisse – Nem mais nem meio mais! Ora, pois, meu amigo, diz a ele que... pronto, aí está! Diz-lhe que ameacei de levar o teu filho à Justiça, por retratar uma menina sem a aprovação dos pais. Não, não precisas ficar assim! Não te vou fazer mal nenhum, muito menos ao teu menino. Basta dizer ao gajo que eu, João Reis Bernardes, foi quem t’obrigou a desfazer o trato com ele e pronto! Aos raios que o parta! Sabe-se lá pra quê esse patife quer ter em casa o rosto da minha filha?! – e mal ouviu os argumentos do colega de comércio – Mas ó Bernardes, tua menina tem mesmo a face da Santa. Isto cá é para se pôr a um oratório! – Que o seja! Mas não quero ver o retrato da minha filha por algures nem alhures, ora pois e pronto! Estamos conversados!

 

Assim, com a virginal face de Aurora a lhe servir de modelo, a imagem da Senhora de Fátima, devidamente benzida por um cura da Madalena, foi entronizada em um lugar de honra na sala de estar da Quinta Grão Pará.

 

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Terça-feira, 7 de Março de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. CONTROVÉRSIAS.

 

O rapaz logo discorreu sobre dois factos óbvios (pelo menos para ele): a tão sobejamente conhecida imaginação dos miúdos, em geral e os delírios de Lúcia, em particular. Esta lhe parecia sofrer de algum mal que lhe afetasse a mente, como parece ter ocorrido com Joana D’Arc e outros santos, embora fosse um tipo de enfermidade (a esquizofrenia) que ele, àquela altura, não sabia nomear.

 

Inquiriu – Ora me dizei, querida tia, porque, nesses relatos tão pueris, a mãe de Jesus havia de aparecer daquele jeito, com um manto que, pela descrição dos miúdos, mais parece o das imagens das igrejas, essas que todo mundo vê nas estampas e nos altares? Porque não estaria com os trajos da Palestina, dos tempos em que ela por lá viveu e que podemos ver nas gravuras de algumas edições do Novo Testamento? Porque a Santa veio cá nos aparecer tão jovem e formosa, se ela foi uma mulher do povo e morreu já madura, após muito padecer com as maldades que fizeram ao grande Profeta, seu filho?!

 

Para o rapaz, Cristo tinha sido apenas um sábio e admirável profeta, dentre os tantos que, àquela altura, habitavam a Palestina. Algo, porém, deixou-o ainda mais exaltado – E os pedidos da Santa? Com tantos pobrezitos à volta, neste nosso tão sofrido Portugal, a Mãe de Misericórdia pede que o dinheiro doado pelos devotos seja convertido em ANDORES?! E é tão vaidosa assim, ao ponto de pedir que se erga uma capela EM SUA homenagem?!

 

A se horrorizar com tais vitupérios, Florinda tentou contestá-lo, mas o jovem disparava – E já que citamos o sofrimento de Jesus, porque a aparição insiste tanto em falar de pecado, penitência, inferno e purgatório, pra toda essa pobre gentinha que já vive, em seu dia a dia, a comer o pão que o Diabo amassou? Ao que então vos pergunto: quem, quem, QUEM é o Diabo?

 

Ele mesmo respondia – O Diabo, ou melhor, os diabos, se calhar são os capitalistas, os poderosos do mundo do Capital, que estão a amassar esse pão em seus palácios, para depois jogarem os farelos aos pobres, como se fosse aos cães. E ainda ficam a se divertir em vê-los devorar esse miolo amassado, com os poucos dentes que ainda restam aos pobres coitados.

 

Enquanto Reis e Afonso escutavam o rapaz com alguma atenção, as duas meninas mais velhas mostravam-se assarapantadas, por tudo aquilo que ouviam da boca de Rodrigo e, o tempo todo, ficavam a dar alguns toques discretos em Mamã; a cutucá-la, como se diz ao Brasil. Florinda arguiu

 

– E do milagre do Sol, que me dizes tu? – e o rapaz riu, gostosamente – Milagre, tia? Mas que milagre?! Desde que a Santa Madre Igreja quase mandou o senhor Galileu para a fogueira, sabemos que a Terra gira arredor do Sol – e prosseguiu – Ora, pois, aí está! O Astro-Rei jamais poderia, lá no firmamento, dar voltas e ziguezagues, sem que nos sobreviesse, cá no planeta, um verdadeiro apocalipse de maremotos e tremores de terra. Se estiveram a ocorrer, mesmo, todas aquelas coisas que a multidão, exaltada, jura ter visto, levada sabe lá por quantas histerias coletivas, como é que, no resto da Terra, esse mesmo Sol ficou lá no seu sítio, quietinho, a banhar de luz as praias de Angola, os laranjais da Califórnia, os arrozais do Japão?

 

 – Mas se tudo isso foi visto pela multidão! – interveio Reis, ao que Rodrigo – Todos, não, meu tio, nem todos! Na verdade dos factos, apesar do que se diz nos jornais e nos púlpitos, esse fenómeno não parece ter sido visto por todos os que lá estavam. – e, excitado pela bomba que ele, com o seu terrorismo verbal, estava prestes a explodir na Quinta, para já sacou, de seu bornal de pano (seu mundo ambulante, com livros, revistas, anotações e mais que tais) um recorte de jornal que a todos mostrou, com ares de triunfo – Aqui, ó pá, vejam! Vejam! Há testemunhos de pessoas como o escritor António Sérgio, que afirmam não terem visto nada, ai que nada mesmo, disso tudo aí, de que tanto falam os beatos! ”Nada de estranho aconteceu com o Sol”, disse o ilustre senhor.

 

Rodrigo pegou, então, uma página inteira de jornal – Vejam, vejam mais! Há depoimentos até de um militante católico, um beato insuspeitíssimo como o senhor Domingos Pinto Coelho, que ó, vejam, ele mesmo declarou na imprensa que a nada assistiu de assombroso ou sobrenatural naquele santo dia. – e continuou – O que me parece estranho nisso tudo... e cá vos digo, uma enorme pulga me cai atrás da orelha e fica a perguntar, bem cismadinha – afinou então a voz, como se fosse a do inseto – Ai, Rodriguito, se calhar... não te parece que os padres de algumas aldeias estão a meter seus veneráveis dedos nessa história da Cova da Iria?

 

Concluiu, com a voz normal – É que tudo isso... não percebeis, meus caros tios, que tudo isso veio a calhar hoje em dia, justamente quando os proletários estão a ganhar o governo da Rússia e os republicanos continuam odiados pelo Clero, que os têm como perseguidores, mormente agora que até o nosso Primeiro-Ministro, senhor Afonso Costa, segue avante em sua campanha anticlerical?!

 

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Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. PRIMO RODRIGO.

 

Além de Adelaide, eram também muito apreciadas, por todos da casa, as visitas do primo Rodrigo, apesar de suas ideias próprias, seu modo diferente de ver a vida, o mundo e as relações sociais. O rapaz, de tez pálida e compleição franzina, com seus óculos de lentes redondas, cabelos um pouco alongados, barba meio rala, mas comprida, com mosca e pera à la Cavaignac, parecia um intelectual do século XIX, não fosse ele nada propenso ao “mal du siècle” dos românticos. Muito ao contrário, era um jovem sempre risonho, de boa parola, a irradiar para todos um quê e um quanto de grande simpatia.

 

Vivia com o pai viúvo a quem, com o seu trabalho em uma tipografia local, ajudava a criar os cinco irmãos menores. Para os Bernardes, seus notórios “defeitos” eram dois: a fama de papa-jantares, sempre a chegar, sem aviso prévio, à hora das refeições alheias, e suas ideias políticas e filosóficas, avaliadas por Reis e Florinda com todos os es e os ex: esquisitas, estrambóticas, esdrúxulas, extravagantes, excêntricas, extemporâneas.

 

Rodrigo dizia-se ateu. Vivia a ler artigos de pensadores como Karl Marx, Friedrich Engels, Rosa Luxemburgo e outros socialistas, ainda que, recentemente, andasse mais propenso a defender os princípios do Anarquismo. Ironizava bastante o texto das Sagradas Escrituras “comerás o pão com o suor do teu rosto”. Dizia que esta máxima a nem todos se aplicava, pois enquanto alguns muitos suavam no trabalho, para o lucro de alguns poucos, em troca de um mísero salário para suas necessidades e as de suas famílias, outros alguns poucos só estavam mesmo a transpirar em festas, banquetes e orgias. Uma transpiração prazerosa, é claro, mas somente possível graças à sofrida exsudação dos alguns muitos.

 

Gostava de desancar a Igreja e a Inquisição e de contar histórias de padres e freiras, com um palavreado cuidadoso, para não corromper os castos ouvidos dos circunstantes, sobretudo os de seus primos miúdos. O que se ouvia em suas narrativas, entretanto, às vezes era tão indecoroso que, perto delas, o crime do Padre Amaro parecia uma história da carochinha.

 

Flor e o marido estavam sempre a polemizar com o sobrinho. Tinham no entanto, para com o rapaz, aquele olhar benevolente de quem considera – Ora, pois, estamos a ver que isso são tolices de um jovem que lê demais, como se deu com o Senhor Dom Quixote – ou a tolerante compreensão

 

– É como papeira ou tosse de coqueluche: dá e passa. – De qualquer forma, esses modos de pensar do rapaz traziam a todos da Quinta um visível desconforto, quando não um forte constrangimento, toda vez que Rodrigo achasse por bem manifestá-los de modo bem radical.

 

Chegavam mesmo a causar desagradáveis incidentes, como a uma tarde de novembro de 1917 quando, conversa vai, conversa vem, o sobrinho reportou-se às notícias que eram a maior atração da época. Ao comentar as aparições em Fátima, Rodrigo logo se pôs a dizer que não entendia patavina, de como essa gentinha toda acreditava naquele disparate, se estava bem claro e notório que todas aquelas visões não ultrapassavam os parcos conhecimentos e vivências daqueles pobres pastorinhos analfabetos, naquele sítio pequeno e afastado do mundo, a aldeia em que viviam.

 

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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. GRANDE MILAGRE.

 

Era um dia chuvoso e nublado, quando ocorreu, então, conforme a narração de alguns espetadores, o milagre prometido: “O Sol apareceu por entre as nuvens, como um grande disco prateado de brilhante fulgor e logo começou a girar, de modo rápido e vertiginoso. Parou por algum tempo e recomeçou a girar velozmente sobre si mesmo, como se fosse uma imensa bola incandescente, de bordos avermelhados, a espalhar pelo céu chamas de fogo em um inacreditável redemoinho, refletindo-se a luz dessas chamas nas árvores, nos objetos e nas faces de todos os que assistiam. Nesse fenómeno, que durou cerca de 10 minutos, o Sol girou loucamente e a multidão de fiéis, apavorada, pedia aos Céus o perdão e a misericórdia pelos seus pecados”.

 

Segundo a notícia que se espalhou por toda parte, o evento teria sido visto, com grande espanto, por toda a multidão presente ao local.

 

 

Aos primeiros rumores provindos de Fátima, a Igreja Católica, do ponto de vista institucional (bispos, cardeais e o Papa) comportou-se com muita cautela a analisar os factos, tal como sempre ocorre quando se noticiam essas histórias de aparições e milagres, pelo mundo afora. Antes de se divulgarem pelos jornais, entretanto, as novas já corriam de aldeia em aldeia, com a devoção a se espalhar entre os párocos e os fiéis, até chegar aos mais longínquos rincões de Portugal. Por aqui, por ali, por acolá, alguns aldeães já começavam a mencionar as curas de pequenos males, graças às orações e súplicas à Senhora de Fátima. Em brevíssimo tempo, a novidade viria a se propagar em todo o mundo católico, até mesmo nos países onde predominavam outras religiões.

 

Ao ver, portanto, a nova devoção cair no gosto popular, a Igreja passou a assimilar tal prática e a incentivar os cultos, do modo que fosse mais favorável à manutenção da fé católica, apostólica, romana. Em 1931, o Episcopado Português faria a solene consagração do país a Nossa Senhora do Rosário de Fátima.

 

Como tantos outros carolas flavienses, tão logo se confirmaram as notícias dessa aparição, os Bernardes se reuniram em torno de seu patriarca e se dirigiram à Igreja Matriz, para dedilhar os rosários e unirem suas vozes ao coro das beatas – Creio em Deus Pai... Ave-maria, cheia de graça!... Pai-nosso que estais no Céu... Salve-rainha, Mãe de Misericórdia... –  e se uniram também aos mais da parentela, em um consensual revezamento de anfitriões, para rezarem juntos o rosário da Virgem.

 

A imaginação dos campesinos portugueses, então quase todos analfabetos, misturada à dos párocos das aldeias em seus púlpitos dominicais, fez crescer por toda parte o volume de orações e penitências, ante o temor de um Apocalipse próximo a chegar. De menos a mais e de pouco a muito, já isso bastara para deixar, aflitas e apavoradas, as mulheres da Quinta Grão Pará.

 

No entremeio, ao que mais Aurita pensava, o tempo todo, era no Inferno. Punha-se a recordar aquele retábulo aterrador de sua infância, exposto à sacristia na Igreja da Misericórdia, diante do qual fora torturada, junto com os irmãos, por um cura de olhos terríveis e mãos ameaçadoras. Essa purgação infernal, aliás, era um pretexto a mais para que Aldenora se aproveitasse dos ditos para os aludidos a Hernando. Aprazia-lhe descrever à pobre Aurora como o pecaminoso rapaz estaria entre os primeiros a arder no fogo de Satanás. Por motivos que, a si própria, dizia serem apenas piedosos, Aurita corria a rezar pela alma do cigano.

 

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Terça-feira, 31 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. FRADE MAROTO.

 

Logo no pequeno vestíbulo de entrada da residência de Adelaide, entre dois cachepôs de prata com plantas ornamentais, a ladear um cabideiro de metal e mármore, onde as visitas depositavam os chapéus-de-chuva nos dias de aguaceiro, morava um sorridente frade de apenas meio metro de altura. Com acentuada tonsura e poucos cabelos em volta da cabeça, sua batina fora confecionada com um pano rústico, bem franciscano. Tinha um olhar maroto, mas trazia sempre as mãos juntas, em prece. Algumas beatas que por ali passavam, por miopia ou catarata, pensavam que fosse um santo e se benziam. Outras até oravam contritas, em silêncio.

 

Quando via tais devoções, Adelaide escondia o riso a quantas pudesse. Recusava, porém, com veemência, a oferta de qualquer uma dessas piedosas senhoras que, ao ver a batina tão rota e puída do santo, viesse lhe oferecer um novo hábito – Tirar a roupa do frade… Tinha lá sua graça! Ai que se me revira a vista de tanto rir! – dizia a Luís Miguel.

 

Só eles dois e mais alguns sabiam, realmente, que esses frades de madeira ou cerâmica, obras de artesãos vendidas em várias aldeias de Portugal e de dimensões variadas, conforme o gosto do freguês, escondem algo por baixo da batina que faria chocar as beatas, míopes ou não: uma inconveniente terceira perna, a descer até aos joelhos do castíssimo santo.

 

Mais ainda haveriam de se arrepiar as devotas, com sua moral abalada e a se tornarem confusas e confundidas se, a um simples dispositivo, vissem o fradinho erguer para o alto, de entre as fendas sem botões da batina, a parte disforme do sagrado tripé.

 

 

  1. ATRIZ DRAMÁTICA.

 

Era sempre muito requisitada como atriz, especialmente nos papéis cómicos, para as peças que os amadores locais encenavam no Cineteatro Flávia. Nestas, muitas vezes e sempre, ela tanto fazia rir a plateia, como enlouquecia o apontador das falas. Daí resultar que, toda vez que pedia e até mesmo suplicava para interpretar cenas dramáticas, os companheiros de Teatro entreolhavam-se e diziam a si mesmos – Não!!! – porque, invariavelmente, Adelaide também fazia rir o público nos momentos de maior dramaticidade.

 

Em uma das apresentações de “As desgraças de uma condessa”, ao contorcer-se no palco entre esgares de dor e os estertores da morte, ficou bastante indignada. Da plateia aos camarotes, alguns estúpidos e mal educados espetadores (na verdade, a maioria) e alguns dos atores em cena (quase todos) que, segundo ela, eram todos uns tontos, contorciam-se a rir, não se sabe (não o sabia ela) a que propósito!

 

Certa vez, Adelaide convidou João Reis e Flor a irem vê-la atuar no Cineteatro Flávia. Reis agradeceu, mas disse que não gostava de ir ao teatro, mormente porque, como bem lhe informavam os jornais, o público habitual chegava a abusos e desmandos que irritavam qualquer pessoa séria e bem-educada. Ocorria na Vila uma exata reprodução do que dizia Almeida Garrett, em “Frei Luís de Sousa”: “Representavam tudo no velho theatro e quem mais representava, às vezes, era a platéia. Graçolas para os actores, respostas dos visados, um à-vontade inexcedível!... Nos camarotes, as damas constrangiam-se para não rirem e os pais de família, empavezados, achavam de mau espírito os sarcasmos plebeus dos graciosos. Interagiam com a cena.”

 

Adelaide lhe fez ver que, agora, com os praças da Guarda Republicana a atuarem no teatro de Chaves (na plateia, por certo, não no palco), já se estava a notar uma acentuada melhora no comportamento do público. Tentou convencê-lo disso, em vão. Reis se disse informado de ainda haver alguns gaiatos a fazerem de tudo para chamar atenção e, nesse intento, porem-se a dizer inconveniências e praticar grosserias, antes, durante e após as cenas. Acrescentou que, conforme também já estivera a ler nos jornais, realmente péssimo era certo hábito, então vigente – Ora, pois, mas não estais a ver que os donos levam seus cães ao teatro, com essa cainçada toda a deitar pulgas na plateia e nos camarotes?! Acontece que os cães são muito críticos e exigentes e não gostam da música nem do teatro que se está a fazer por cá. Ofendidos em sua erudição canina, latem durante as apresentações.

 

Embora proferido com seriedade por Papá, esse chiste não deixou de fazer rir a Florinda e Adelaide. O brasileiro viu-se envolvido, então, ainda que involuntariamente, em um raro momento de agradável descontração familiar.

 

 

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Terça-feira, 24 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. ADELAIDE.

 

Das visitas que Florinda mais apreciava e das mais divertidas, também, ainda que ao dono da casa fossem as de menor agrado, por certo que estavam as de Tia Adelaide. Era uma açoriana bonitona, cheia de carnes e algumas gordurinhas bem distribuídas, mas sem excesso, a beirar os cinquenta. Viera ter um dia a Chaves com o marido flaviense, aparentado de Reis, do qual enviuvara (devido a alguns excessos conjugais, assim dizia-se, à boca pequena, por cá, por lá e acolá).

 

Estava a conviver agora sob o mesmo teto com Luís Miguel, um musculoso rapagão de quase dois metros de altura, mas de pouca idade e que a todos dizia ser um dileto afilhado. Ao que ela acrescentava, à sua amiga Flor – Não bem assim, como os miúdos que se levam à pia batismal, porém… outros batismos, percebes? – e sorria de modo malicioso, pelo que muitos andavam a comentar que, além de cocheiro, o jovem Miguelão lhe servia em tudo o mais que fosse necessário. Um verdadeiro pau para toda colher (com trocadilho, se quiserem).

 

Era ele, portanto, que a conduzia na Carochinha. Esta era uma pequena caleche com assentos e espaldares acolchoados, coberta por um toldo bordeado por franjas e borlas, conversível, podendo pois abrir ou fechar nos dias de sol. As laterais eram cor de barro escuro, com florezinhas brancas, similares aos utensílios de cozinha da cerâmica de Alcobaça. O visual dessa caleche, apesar de alguns na vila considerarem bastante original, fazia troçar a maioria dos passantes e alguns até se perguntavam, a mangar em voz alta – Mas ora, ô pá, a quem se vai cozinhar lá dentro? – e outros mais queriam saber, em tons de caçoada, onde se estava a levar o show de fantochadas que a Carochinha parecia anunciar, como se fora uma carroça de circo ambulante, ainda mais pelas borlas e guizos ruidosos, no veículo e nos cavalos.

 

O exotismo, espalhafato e excentricidade não se restringiam à caleche. Toda ela, Dedé era uma grande atração, mormente nas maneiras de ser e de vestir, com trajos vistosos e coloridos, a usar capachinhos louros, castanhos ou pretos, de acordo com o trajo da ocasião. Isso tudo a uma altura em que as pessoas da região, mais ainda as mulheres e, sobretudo, as viúvas (Menos eu! – dizia a rir) vestiam roupas escuras, pesadas, funerais. De negro bem fechado, trajavam-se até as enviuvadas de homens vivos, os que iam para Além-mar e nunca mais davam notícia. As donzelas também se vestiam com poucos tons coloridos, sendo de uso geral o preto e branco, no máximo um cinza, um azul ou um verde, da mais escura tonalidade.

 

Dedé, como os íntimos a chamavam, ria-se por tudo e por nada, com o seu gargalhar escarolado. Nunca teve filhos. Era uma das poucas tristezas suas, o que às vezes tentava superar com o bom humor caraterístico – Como sabem, sou maninha. Igual a certas vacas – e soltava um riso debochado.

 

Morava à Rua do Bispo Idácio, uma via bastante antiga, onde algumas construções originais datam do século XVII e várias residências foram assentadas sobre a antiga muralha medieval. Habitava um prédio de dois andares, em cujos fundos havia uma escada que descia até a Rua Santo António. Era por tal acesso que, logo depois que enviuvara, um ou outro moço estava a subir às ocultas, para (assim dizia a viúva), não mais do que apenas jogar cartas com a anfitriã. Tais jogos, na verdade, poderiam se estender pela noite afora, sem vencedor nem vencido, mas com ambos os parceiros extenuados, após tanto embaralharem as cartas...

 

Sobre tais rapazes, dizia Adelaide, à meia voz – De facto, jogam-se as cartas lá em casa. Antes ou depois dos outros jogos... os de dama e valete, percebes? – e soltava mais uma de suas escandalosas risadas, seguidas de outras confidências – Agora, por esses degraus, só me sobe o Miguelão. Após, é claro, guardar-me a Carochinha na parte de baixo – ao que Mamã sorria constrangida, a oscilar entre a excitação dessas cavaqueiras indiscretas e o pudor de sua condição de esposa e mãe recatada.

 

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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. DIVERSÕES FORÂNEAS.

 

Apesar de Afonso ter um pouco mais de liberdade, não era de seu feitio ausentar-se muito de casa. Tinha apenas alguns amigos fiéis, aos quais lhe aprazia levar à Quinta – A rir das adivinhas da tua irmã – como diziam a sorrir. Estavam sempre a estudar, em equipa, as sebentas do Liceu, ou a assistir filmes novos no Cinematógrapho, ou, ainda, a ouvir os concertos da Banda de Infantaria 19, no Jardim Público.

 

Essa Banda costumava se apresentar no coreto do Jardim todos os domingos, a partir das 19 horas e sempre com um repertório diferente, que ensaiava durante toda a semana. O público gostava muito de suas execuções musicais, nas quais ofereciam peças como “Un jour de fête”, “Ouverture”, de Scweinsberg; “Un ballo in maschera”, de Verdi; “La Divina Comedia – Il Inferno”, de S.Fiorenzo; “Las Bribonas”, zarzuela de R. Callega; “Danse des Bachantes”, de Gounod; “Peer Gynt – Suite 1”, de Grieg; e mais algumas marchas e valsas. Falava-se tão bem da maestria desse conjunto, que a Banda dos Bombeiros Voluntários de Chaves, igualmente boa, jamais conseguia superá-la.

 

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Como já entrevimos, Florinda também saía pouco de casa e isso apenas eventualmente, em caso de obrigações sociais ou motivos de extrema necessidade. Uma dessas raras ocasiões era a de entregar seus dentes aos cuidados do doutor António Júlio Gomes, um dos poucos dentistas da vila e que costumava anunciar no jornal suas hábeis “extracções dentárias sem dor, obturações a cimento, ouro e platina, dentes e dentaduras artificiais com ou sem placa de ouro ou volcanite”.

 

Uma vez ou outra por mês, Mamã ia a um chá de senhoras ou a jantares de mera cortesia, à casa de pessoas de interesse comercial para o marido, como também, certamente, a visitas de retribuição aos parentes e amigos que tivessem ido à Quinta.

 

Apetecia-lhe mais essa última parte dos compromissos sociais. Em seu lar doce lar, esmerava-se na arte de bem servir e de bem receber. Apesar de não ser nativa da região, integrava o espírito de hospitalidade da qual nos fala o poeta Alexandre de Matos: “As terras de Trás-los-Montes / Inda que a vida vá torta / Todos encontram poisada! / Passante que bate à porta / E brade rijo: – ó da casa! – / Ouve de dentro: – lá vai… / Sente gente pôr-se a pé / Saltar do catre num ai / Ir acender a candeia / Ao fogo vivo da brasa / Alçar a barra da tranca / Abrir a porta com fé / E convidar, em voz cheia / Estremunhada, mas franca: / Faz favor… entre quem é…”

 

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Terça-feira, 3 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. ROTINA DO CLÃ.

 

 Após um dia de trabalho no armazém da Rua Santo António e algumas esticadas eventuais para fiscalizar as outras lojas, Reis subia ao landó, ouvia em resposta o boa-noite quase incompreensível do cocheiro e, mal se refestelava no acolchoado assento do carro, já estava a pensar e até sentir o cheiro do bom jantar que – Ai, Menina Flor, como este caldo verde soube-me bem, ora pois, cozinhas como os deuses! – o que logo a Mamã contestava, embora envaidecida – Ai Jesus, meu maridinho, não fales assim, pois que só há um Deus e ele não vive às panelas!

 

Papá sorria, algo que não lhe era usual. Talvez fosse um desses que riem para dentro, um riso tão contido como ele próprio – Ah, minha menina, tu me fazes rir! Cuida que não estou a chamar Deus de paneleiro. Mas ai, que digo eu?! Queria dizer... de cozinheiro! Não, não, perdoai-me, ó bom Deus, são apenas modos de falar, mas é que estes ovos com favas e ervilhas, como eles me sabem bem! Nem nas melhores casas de repasto em Lisboa!

 

A seguir, deixava-se ir à salinha particular e se punha a saborear um cafezinho bem quente, fumar seu havano, bebericar o Porto em sua privativa taça de cristal da Boémia e passar uma vista d’olhos pelas secções dos jornais de Chaves, de Lisboa e do Porto. Estes últimos eram trazidos, diariamente, nos antigos comboios a vapor que contornavam as serras, até alcançarem Vidago. Daí, pela camioneta em que viajavam também os passageiros, os periódicos chegavam, enfim, a Chaves. Na vila, as notícias impressas eram lidas, então, com sabor de pão dormido.

 

Florinda era, sem dúvida, uma cozinheira às mancheias, embora apenas orientasse as criadas e raramente pusesse mãos às panelas. Seria uma espécie de chef de cuisine, ao seu tempo. Após o jantar, cuidava que a mesa de refeições fosse logo arrumada, que se pusesse de novo sobre ela a belíssima toalha da Madeira e, sobre esta, flores ainda viçosas no jarro de vidro de Murano. Somente depois ia sentar-se a uma cadeira de balanço, na sala de estar, conjugada à de refeições, para ler os jornais do Concelho.

 

O que mais lhe apetecia era ler “O Flaviense”, (autointitulado “semanário independente republicano”). Em suas poucas páginas, entremeavam-se editoriais políticos e artigos de crítica social com os reclamos e as notas sobre a elite de Chaves. Veiculavam-se, também, algumas notícias sobre eventos culturais ou meramente recreativos, a cujos tais o senhor seu marido jamais pensava em levar a esposa, nem as rapariguinhas suas filhas, todas ávidas de uma boa distração.

 

Ocasionalmente, à Florinda atraíam algumas curiosidades como a lista de operações cirúrgicas do Dr. Henrique Botelho. Estes procedimentos eram “sempre feitos com anestesia clorofórmica”, das quais se publicavam os motivos e os nomes completos dos pacientes (exceto no caso de moléstias de caráter mais íntimo, quando se davam só as iniciais): “Margarida de Jesus, 20 anos, de Vila Pouca de Aguiar, tiroidectomia, por motivo de antigo e volumoso bócio, sendo que a doente estava com um estado de decadência orgânica tão pronunciado, que já se lhe dava aspecto senil, mas voltou a ficar louçã, com o viço próprio de sua idade; Cristóvão Pereira, 18 anos, de São Cristóvão da Sabrosa, trepanação craniana; A.A.C.V., 48 anos, de Vila Real, hemorroidas internas e externas; A.M.R.S., também de Vila Real, 47 anos, fístula ano-retal extra-esfincteriana antiga; José A. Rodrigues, 31 anos, de Vilela, Provesende, laparotomia supra umbilical mediano, seguida de otomentoplexia, por motivo de cirrose alcoólica atrófica do fígado; Pedro de Barros, 23 anos…”

 

Assim prosseguiam, aos números seguintes do jornal, outras listas de pessoas recentemente operadas pelas mãos do ilustre cirurgião.

 

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Terça-feira, 27 de Dezembro de 2016

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. NOVOS TEMPOS.

 

Alguns anos depois, bafejado pelos novos ares de mudança da República e ainda a funcionar em um prédio ao Largo do Anjo, o Liceu de Chaves tornara-se um estabelecimento de ensino misto. Algumas raparigas já lá estavam a estudar, ao lado dos rapazes, entre os quais Afonso e Alfredinho, os filhos de João Reis. Entretanto, naqueles primeiros anos do século XX e naquelas paragens, perdidas por trás das montanhas, o patriarca mostrava-se totalmente avesso a qualquer mudança de hábitos pessoais e de costumes da sociedade tradicional. No concernente às meninas, umas já adolescentes como Aurita e Aldenora, outras a se pôr, como Aurélia e Arminda, Reis considerava que a sua excelente situação financeira poderia proporcionar as condições necessárias para que elas desfrutassem, àquela altura, do que de melhor houvesse para as jovens flavienses de boa origem familiar.

 

Na falta de um colégio religioso local que João Reis, face ao exigido por seus cuidados paternos, considerasse estar ao topo do Everest, a educação das raparigas era feita por lecionistas em domicílio. Tais explicadores levavam até à Quinta o que havia de melhor na prosa original de Alexandre Dumas, na boa sintaxe da língua camoniana e nas sonatas de um belo e afinado piano. Além das aulas básicas para o aprimoramento da língua pátria, exigia-se a leitura constante de bons autores portugueses (ou seja, aqueles cuja obra fizesse jus ao Imprimatur da Igreja, por não constarem do Índex de proibições do Vaticano). Tudo isso era um grande privilégio das meninas Bernardes, àquela época, pois segundo o Censo de 1911, em Portugal, cerca de 95% das mulheres com mais de 10 anos de idade eram analfabetas.

 

As lições especiais de etiqueta social, moral e cívica eram transmitidas pela mais rigorosa dos lecionistas, a sisuda (e ossuda) Mademoiselle Margot des Saints, que vinha ministrar às meninas as belas regras de postura e elegância, junto com as normas da Religião e do bom comportamento moral em sociedade. Corpo feito um espigão de milho e afinadíssima voz de gralha, tinha sempre as mãos plenas de vigor para o uso da palmatória.

 

Mademoiselle parecia estar sempre a se deliciar, de um modo especial e pervertido, com esse medieval instrumento de tortura, quando se punha a aplicar dolorosas palmadas às pupilas, com uma indesejável frequência para as vítimas, embora aquilo tudo fosse mais de efeito moral do que físico. Parecia mesmo arfar de prazer em ver aquelas mãozinhas se tornarem púrpura viva, apenas por uma simples colher de prata que fosse erguida sem a devida elegância, ou uma taça para água trocada pela de vinho. Divertia-se mais ainda com as lágrimas revoltadas da pequena Arminda, a mais nova e atarantada do clã familiar.

 

Certa vez, ainda que não o revelasse par finesse, Des Saints ficou muito ressentida com o senhor João Reis, por este não permitir que Aldenora mostrasse os seus dons de declamadora nata, a um sarau no Liceu. O programa, além dos brilhantes poetas e contumazes declamadores, tinha uma parte musical primorosa: “Danae”, de Breuskine; “Célèbre Minuette”, de Boccherini; “Pétite Fleur”, de Telam; “Rêverie”, de Botekini e mais “As Ceifeiras” e o “Fado-serenata”, estes últimos de autoria do senhor doutor Alfredo de Morais, cantados por um grupo de alunos e alunas do colégio.

 

Esforçara-se para explicar em vão que, além do pequeno concerto musical, seria ainda mais divertido para os miúdos assistirem a uma parte dramática, em que se levariam as comédias “Uma anedota” e “À procura d’um emprego”. Os Bernardes, todavia, não compareceram. No pódio literário, onde deveria brilhar a menina Aldenora, os aplausos foram para “a precoce miúda Beactriz Monteiro, que recitou – em Francês! – uma poesia de sua própria lavra, ‘Le courveau et le renard’ “.

 

João Reis também levou alguma tristeza a dona Clementina Bó de Sá, insigne pianista e mestra do teclado. A digna senhora convidou Aurora, que estava a se relacionar muito bem com as partituras, a participar do concerto anual que dona Bó fazia levar ao Cineteatro Flaviense, para mostrar os dotes musicais de suas discípulas. Mais uma vez, o patriarca não deu a sua devida permissão.

 

Ainda resíduo do século XIX, mas um procedimento fundamental para a época, essa educação fazia da loura Aurora e da morena Aldenora, além da singular beleza de ambas, com os seus corpos delgados e belos portes, os mais invejáveis exemplos de raparigas bem instruídas, educadas para a arte de bem casar. Guardadas, no entanto, por milhões de olhos severos de Papá, que pareciam multiplicar-se por toda parte nos recantos da Quinta; escondidas e interditadas por ele da vida social flaviense; tudo isso e mais alguns migalhos dificultavam saber, de facto, quem, onde e quando elas iriam encontrar, em Trás-os-Montes, os noivos tão sonhados, se até os aniversários de qualquer um da família eram festejados somente entre as pessoas da casa, com um e outro raro convidado.

 

 

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Terça-feira, 20 de Dezembro de 2016

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. VENCIDOS.

 

 Durante todo aquele 8 de julho de 1912, ouviram-se tiros e gritos ao longe. Mais forte ainda era o troar de canhões ao Forte de São Neutel. As escaramuças continuaram, até que se ouvissem apenas alguns tiros esparsos, mas cada vez mais próximos da Estrada do Raio X. Apeados, a cavalo ou em carroças, viam-se passar pela estrada, aos magotes, os aguerridos monárquicos em fuga. Certamente influenciados pelos curas de suas freguesias, eram em geral aldeães muito jovens, alguns deles pouco mais do que um puto, bastante feridos ou já agonizantes, com as mãos a tentarem segurar suas vísceras expostas.

 

Eis que se deteve, à frente da casa dos Camacho, uma dessas viaturas com baleados e estripados. Um dos rapazes, o que apresentava melhores condições de sanidade física e mental, correu até à porta de entrada e gritou – Ó de casa, pelo amor de Deus! – mas obteve, em resposta, um silêncio de medo, parecendo que ninguém habitava por ali. O monárquico insistiu – Abra, pelo amor de Jesus Cristo Nosso Senhor!

 

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 Fotograma do filme "Chaves, incursões monárquicas" 1912

 

Abriu-se. Quando o dono da casa apareceu, o fugitivo perguntou, de arma em punho – De que lado são os senhores, monárquicos ou republicanos? – o velho não sabia o que responder, por não conseguir diferençar, àquela altura, de que lado estavam os intrusos. Hernando, porém, então rapazinho, valeu-se do oportunismo e da sagacidade que sempre haveriam de marcar o seu caráter – Nem uma coisa nem outra, somos ciganos.

 

Muito a contragosto, seu pai, Germano Camacho acabou por mandar os fugitivos se acoitarem ao pátio, para que bebessem água e vinho, comessem alguns nacos de pão e, dentro do possível, os sãos cuidassem dos feridos, até que chegasse o momento propício de todos se evadirem em segurança.

 

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  1. VENCEDORES.

 

Algumas horas depois, as criadas da Grão Pará já haviam descido para dormir, quando bateram de leve à entrada do porão – Abram, abram se faz favor! – e a Zefa temerosa, mas expedita – Ó de lá, quem é? Cá não está ninguém, só eu e Deus. Os patrões estão a andar pelo Brasil – mas a voz insistia – Abre, tiazinha, abre se faz favor! – e a Zefa, hesitante – Ai, Maria! E se calhar é o meu sobrinho Felício, que está para chegar a Chaves? – Não faz isso, Zefa, olha que tu nos pões a perder, a nós e a todos os lá de cima!

 

Zefa pegou uma vela e, afinal, abriu a porta bem de leve. A mão de um homem empurrou-a forte para dentro – Obrigado, tia! – e após olhar bem para as duas – O que são cá as minhas tias, monárquicas ou republicanas? – ao que Maria, movida por pura ingenuidade, imitou sem saber o jovem Camacho – Nem isso nem aquilo, somos barrosãs.

 

Era um rapaz de uns dezanove anos, que estava a servir no quartel de Chaves e apresentava alguns ferimentos leves, além de se mostrar visivelmente abatido, cansado, faminto e sedento. – Expulsamos os filhotes de El-Rei e fomos atrás dos canalhas, mas um deles quase me acertou de jeito! – as duas o ajudaram com alguns curativos, água, vinho, pão, presunto e umas enxergas para descansar. Não sabiam elas que, a um migalho depois, iriam fazer o mesmo a outro jovem, um pouco mais novo do que o primeiro, dessa vez monárquico.

 

O segundo rapazola estava em idênticas condições físicas, mas com o moral bem mais abatido. Havia pulado o muro e entrara pela porta dos fundos, a qual Zefa, por distração, deixara aberta. Ao ver chegar o inimigo, o republicano ergueu-se a um pulo rápido e tentou sacar da arma. Estava sem munição. O outro, desarmado, atirou-se contra ele e começaram a lutar.

 

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  Fotograma do filme "Chaves, incursões monárquicas" 1912

 

Zefa e Maria ficaram apavoradas, temerosas de ver o patrão e o Manuel descerem e atirar nos dois, se bem que os fatigados vigilantes da Quinta Grão Pará já estavam a cochilar na sala, há muito tempo, malgrado o desconforto de seus postos de sentinela. Maria de Tourém tomou coragem, atirou-lhes uma botija com água fresca e se interpôs entre os moços – Parem! Parem com isso e vão lavar os seus cueiros cagados, seus fedelhos! Parem, que a guerra é lá fora!

 

Talvez os jovens só precisassem dessa voz enérgica e, ao mesmo tempo maternal, como pretexto para cessar a contenda. Dentro de alguns minutos, já lá estavam a beber o vinho da mesma garrafa e a contarem histórias e anedotas das gentes de suas respetivas aldeias. Pela manhã, Zefa os surpreendeu a dormir juntinhos, aconchegados sob os lençóis, devido ao ar fresco dessas madrugadas amenas de verão. A essa altura, uniam-se contra um inimigo comum, o cansaço.

 

Após o rápido pequeno-almoço que lhes fora obsequiado, aquele que já se pressentia vencedor disse ao vencido – Vem, levo-te ao Hospital Militar, no Forte de São Francisco. Tens que ver essa perna, que bonita não está! – ao que o outro rapazola, quase a chorar – Não, não, preciso voltar à minha aldeia. Se me levas a Chaves, acho que me vão passar aos fuzis ou me fazer malhar com os ossos na cadeia! – mas o vencedor tirou-lhe as fitas e os símbolos da monarquia – Não fuzilamos prisioneiros. Mas pronto, agora já não és mais monárquico. Nem republicano. És apenas um rapaz como eu – e os dois saíram pelo Caneiro afora, rumo ao centro histórico de Chaves, o que estava mais são a apoiar o mais ferido, como se fossem velhos e queridos camaradas.

 

filme "Chaves, incursões monárquicas" 1912 - Sem som

 

 

 

 

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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2016

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. VIGÍLIA DA PAZ.

 

Inicialmente, o forte sentimento religioso e de respeito ao Clero, sob o qual fora criado e educado, levara João Reis a tender à Monarquia. Via muitos aspetos novos e essenciais nos propósitos republicanos, mas temia que se repetisse em sua pátria o que constatara no Brasil, há alguns anos, antes de tornar a atravessar o Atlântico. Considerava que a República brasileira, proclamada em 1889, assemelhava-se a um golpe das elites militares, cada vez mais dissociadas das camadas do povo que as apoiara. Decidiu, portanto, definir-se pela neutralidade. Em digressões com os amigos e parentes, quando aqueles de opiniões contrárias quase chegavam aos embates físicos ou verbais entre si, calado estava, calado ficava, calado se afastava. Algum tempo depois, porém, mesmo com sua vida reservada (e preservada), João Reis acabou por aderir de vez aos ideais republicanos.

 

Com a batalha prevista entre os republicanos de Chaves e os monárquicos de Verín, Papá mandara fechar as casas comerciais e se recolhera à quinta. Deu expressas ordens a que trancassem fortemente as portas e portões, não acendessem as luzes e ninguém chegasse às janelas. Armado de uma velha pistola e em companhia de Manuel de Fiães, o cocheiro, que portava uma caçadeira bem simples, dessas de abater perdizes, postou-se junto às janelas que davam à rua, em constante atenção às entradas da quinta e a qualquer movimento lá fora.

 

Manuel era um rapagão entroncado e sempre emudecido, que cuidava da horta, do pomar, da cavalariça e do que mais se fizesse mister na Quinta Grão Pará. Um tipo bem másculo e até bonito, mas bastante maltratado pela infância pobre e pelos muitos suores que, desde miúdo, já lhe salpicava no rosto o intenso labor. Por considerar que, na Quinta, estava em melhores dias do que antes, era de uma fidelidade absoluta a João Reis, que ele julgava ser um justo e generoso patrão.

 

Florinda, as criadas e os filhos estavam concentrados no quarto do casal e rezavam o terço, diante do oratório de jacarandá. Os miúdos choramingavam assustados, por não entenderem nada de guerras, muito menos de uma querela como essa e ficaram muito felizes quando, à madrugada, o quase total silêncio fez todos se recolherem ao leito, exceto as duas heroicas sentinelas em vigília.

 

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Terça-feira, 6 de Dezembro de 2016

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. GUERRAS DA REPÚBLICA.

 

Grandes contendas políticas marcaram os primeiros anos de Bernardes, ao retornar à sua Chaves natal. Eram lutas locais entre aqueles que tentavam manter a permanência das instituições republicanas em Portugal e os que defendiam o restauro da Coroa portuguesa, inclusive com as conhecidas “incursões monárquicas”. Os realistas viam na queda da monarquia as garras de maçónicos e carbonários, inimigos do Trono e da Religião e os relacionavam ao assassinato de Dom Carlos e de seu filho mais velho, o príncipe herdeiro Dom Luís Filipe, no Terreiro do Paço de Lisboa, em 1908, bem como à revolta que provocou a deposição de Dom Manuel II e a consequente criação da República, aos 5 de outubro de 1910.

 

Após uma fracassada incursão a Bragança, em 1911, em julho do ano seguinte os conspiradores monarquistas se aquartelaram na vila galega de Verín, perto da fronteira com a Galiza, à espera do momento propício de descerem a Trás-os-Montes e, a partir dessa retomada, tentarem reimplantar a Coroa em Portugal. Após entrarem por Sendim e por Vila Verde da Raia, realizaram sua intentona, afinal, a partir de Sanjurge, em direção a um lugar de nome Telhado, onde o Primeiro-cabo Exposto avistou as tropas e correu a avisar os republicanos de Chaves.

 

No dia 8 de julho de 1912, ao Forte de São Neutel, na vila e aos arredores, houve duros combates entre as forças realistas de Paiva Couceiro e as do governo republicano local, chefiadas pelos tenentes-coronéis Ribeiro de Carvalho e Custódio de Oliveira, com o apoio de devotados civis.

 

Além deste e do Cabo Exposto, muitos cidadãos flavienses apoiaram e participaram ativamente dessa luta. Foram saudados, posteriormente, como “Os Heróis de Chaves”. Um deles, como registava um jornal contemporâneo, foi “Justina Maria da Silva, chamada de Maria do Rasgão ou Maria dos Rapazes, de certa rua de mau nome e maus costumes, que foi depois condecorada por sua ativa ajuda aos combatentes republicanos”. Outro participante ativo a favor da República foi o jovem Dr. António Granjo, organizador das milícias civis e que viria a tornar-se, alguns anos depois, primeiro-ministro da República em Portugal.

 

Os republicanos de Aquae Flaviae saíram-se vitoriosos, afinal, contra essa desastrada intentona monárquica. Foram, porém, duros combates, como nos reporta a carta de um flaviense, ipsis litteris:

 

“Chaves, 8 de julho de 1912.

 

António,

 

Os conspiradores entraram hontem, dando-se um pequeno combate em Villa-Verde, via Santa Marta, ficando ferido, mas sem gravidade um capitão do estado-maior Mário Magalhães. Hoje houve grande combate entre Chaves e Forte de São Neutel.

 

As 9 horas correu noticia de que os conspiradores estavam perto de Chaves. Efectivamente era verdade. Em face disto prepararam todas as forças que puderam (que era apenas cento e tantos soldados, porque o grosso das forças tinham partido para Montalegre) e foram ao encontro deles. A esta pequena força juntaram-se alguns policias, guardas fiscais, cavallaria e paisanos. A artilharia e metralhadoras também tinham partido para Montalegre. Pouco depois das nove horas começou o fogo, que durou até às 2 horas da tarde, hora a que chegou a artilharia de Montalegre. Por parte dos conspiradores fizeram muitos tiros de peça sobre a villa, que eu vi cahir algumas por cima da minha casa. Tres tiros de peça bateram na casa de José Mesquita, cortando-lhe completamente 2 tranqueiras das janelas, 2 tiros de peça atravessaram o edifício do liceu de lado a lado. E vários outros tiros que danificaram bastante alguns prédios.

 

Os conspiradores chegaram ao pé do cemitério. Por ultimo retiraram, deixando vários mortos e feridos, uma peça e munições. Das forças republicanas apenas morreram um cabo, filho do coronel Sousa Dias e um soldado, e ficaram feridos o capitão Tito Barreiros, o tenente Macedo, o filho do general Carvalhal e um alferes de cavalaria, este gravemente. Nesta hora consta que os conspiradores já vão para Villela Seca, batendo em retirada.

 

Teu mano muito amigo

 

Abílio

 

PS. No hospital militar já estão uns sete conspiradores mortos. No hospital civil estão 2 conspiradores gravemente feridos sendo um filho do visconde da Ponte da Barca e o outro Firmino Cunha do Porto. Nós bem, assim como toda a nossa família. Hoje passámos um dia com muito receio, mas agora já estamos tranquilos.

 

Já cá estão muitas forças.

 

 Teu

 

Abílio”

 

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Terça-feira, 15 de Novembro de 2016

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. VILA.

 

Onde, como alguém definiu, “o manso rio corre por entre a veiga fecunda”, no planalto cercado por colinas altas e outras de menor altitude, as quais integram as serras do Brunheiro, a leste e, a oeste, o início do Planalto Barrosão, a então Vila de Chaves, elevada à categoria de cidade só em 1929, surgiu e se desenvolveu em um sítio que já era povoado por antepassados desde a Pré-História. Graças às suas ótimas condições ambientais, ora como local de breves domínios, ora como terra de longas permanências, com os invasores a se alternarem entre si, foi o habitat de sucessivas gerações de povos da mais antiga ascendência, entre os quais os romanos e os mouros, que deixaram importantes contribuições antropológicas à formação da cultura nacional.

 

Conforme registos históricos, a fundação da vila foi em 78 d.C., ao tempo dos romanos, em homenagem ao imperador Flávio Vespasiano, com a denominação de Aquae Flaviae. Tornou-se uma das mais conhecidas e prósperas cidades coloniais na Península Ibérica e tal deveu-se, desde aquele tempo, à existência das Caldas de Chaves, junto às nascentes termais de águas sulfúricas, bastante procuradas pelos cidadãos de Roma e outros forâneos. Foi também um local de passagem, sendo o Tâmega atravessado por uma grande via que ligava as duas cidades ostentadoras dos títulos de “augustas”: a Bracara (hoje Braga) e a Asturica (Astorga, na Espanha). Desse caminho, por onde passavam os legionários, ainda hoje há vestígios de pétreas amuradas na região. Um dos mais belos monumentos que restam é a ponte romana sobre o Tâmega, o mais preservado contra as intempéries e as intervenções humanas. É interessante observar que o traçado do centro histórico de Chaves é similar ao de um acampamento romano dos tempos imperiais.

 

Devido à situação estratégica, a gloriosa Chaves, que resistiu heroicamente ao avanço das forças napoleónicas no século XIX, foi palco de variados combates ao correr das centúrias, entre forças locais e invasoras, conforme remanescem dois registos bélicos, os fortes de São Francisco e São Neutel. Foram construídos no século XVII, ao tempo da Restauração, quando se mandaram erguer as bases de defesa da cidade contra as frequentes incursões espanholas. Muitos séculos antes, vários povos de procedência europeia, erroneamente chamados de Bárbaros, após expulsarem e tomarem, gradualmente, o lugar dos romanos, ocuparam as terras flavienses por um longo período de tempo e acabaram por aderir ao Cristianismo, no século III d.C.. Foram alijados desse domínio pelos mouros, provenientes do Norte da África, que invadiram a região, venceram o último monarca visigodo, no início do século VIII e, como sabemos, por três longos séculos, dominaram uma grande parte da Península Ibérica.

 

Todos os povos que passaram por Chaves deixaram sua herança. Por contingências históricas, porém, a predominância maior foi a dos que se tornaram leais à Igreja Católica Apostólica Romana.

 

 

ROMANA-ANTIGA.JPG

Vista parcial da Vila. Chaves antiga (PT). Início do século XX. Postal Foto Alves.

 

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Terça-feira, 25 de Outubro de 2016

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. QUINTA GRÃO PARÁ.

 

Ainda hoje remanescente, a casa principal da Quinta é um prédio de dois pisos, com paredes de granito calcário aparente, similares às de muitas casas de pedra da região, na qual, ao meio da frontaria superior, rodeada por quatro janelões, uma porta se abre para uma pequena varanda com proteção de ferro, em belo trabalho de Art Nouveau. Fica bem rente à encruzilhada da Avenida Dom João I com a Estrada do Raio X, em posição oposta à da Quinta Caneiro.

 

À parte da frente, no andar de baixo, erroneamente chamado de porão, há uma porta que era usada como entrada de serviço, entre as janelas que correspondiam aos quartos usados pelas serviçais da casa. No andar de cima, ao lado esquerdo, sobressaem outros janelões, os que então correspondiam aos quartos, à sala íntima de Papá e à sala dupla de estar e refeições. No telhado, vemos ainda hoje uma chaminé aos fundos, por onde sai a fumaça do lume. Na lateral direita, uma escada com corrimões de ferro conduz até à entrada social da casa, na parte superior, cuja porta se abre, antes, para uma varanda murada com ripas de madeira em forma de xadrez. Desse outro lado, além da sala de visitas, ficava mais um quarto e, aos fundos, a cozinha, onde uma escada interna dava acesso ao porão. Na parte externa posterior da habitação, desce do primeiro piso uma escada que, então, conduzia ao pomar. Em baixo, além da porta central, havia uma portinha de acesso à arrecadação de utensílios diversos. Outra portinhola servia de entrada para o abrigo da Patusca, uma cadela que, como guardiã da Quinta, de tão mansa, velha e dorminhoca, era de pouca ou nenhuma serventia. Eram duas as casas de banho, uma em cima e outra em baixo. Além de uma pequena adega, os outros cómodos inferiores da casa serviam de dispensa e lavandaria. Esta era de uso apenas das serviçais e para lavagem de algumas peças íntimas da família.

 

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 Fotografia e croquis do possível local da Quinta Grão Pará, na Rua do Raio X, nº135, CF.

Croquis em poder do autor (Raimundo Alberto) – Fotos comparativas

 

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Entre os flavienses de maiores posses, era usual entregar a maior parte da rouparia a lavadeiras que moravam nas aldeias próximas, onde não estaria a se ver exposta, na contiguidade dos vizinhos, uma parte da intimidade familiar.

 

No caso dos Bernardes, era a gorda Manuela. Pelo menos duas vezes na semana, com seu vestido negro de viúva, a saia até quase os pés, meias cinzentas, uma bata de azul desbotado, o xaile encarnado e um lenço à cabeça, lá vinha ela a descer à vila e a subir de volta com os seus socos, por quilómetros, desde São Lourenço. Estava sempre a se queixar da vida e de não saber porquê, apesar de toda a labuta, ainda continuar uma leitoa. Os demais sorriam, discreta ou jocosamente, sabedores do gosto de Manuela pelo folar, um pão trasmontano, feito de trigo cozido com ovos, azeite, fermento, sal grosso, porções de carne gorda de porco, presunto, linguiças e chouriças, consumido em qualquer parte do ano, mas com maior frequência na Páscoa. Ao folar de cada dia, ela ainda adicionava uma estranha mistura de vinho e mel e, é claro, tudo o mais que lhe oferecessem para merendar.

 

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Terça-feira, 18 de Outubro de 2016

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. BRASILEIRO.

 

João Reis Bernardes, um dos mais prósperos comerciantes de Trás-os-Montes, começara sua fortuna ao norte do Brasil, graças ao comércio da borracha. Extraída do látex da seringueira, esta era considerada, desde a segunda metade do século XIX, o ouro vegetal da Amazónia. Isso, pelo menos, até ao declínio de sua extração quando, de forma criminosa e clandestina, as sementes da árvore matriz foram levadas pelos ingleses e holandeses para suas colónias na Ásia, onde iriam auferir maiores lucros e mais barata exploração da mão de obra nativa.

 

Fosse por saudades cá da terrinha ou porquê, graças ao seu tino para negócios, já previsse o colapso financeiro que se abateria sobre aquela região e a deixaria em retardo económico, até aos anos 60 do século que mal começava, o facto é que, já bem provido de bens pecuniários, o trasmontano retornou à Chaves natal com os três primeiros filhos e a esposa. Apesar de paraense, esta já era meio lusitana, pois seu pai, José Lourenço Dias, nascera em Aveiro e também emigrara para a Amazónia.

 

Em Trás-os-Montes, Reis investiu tudo o que ganhara no Brasil em bens imóveis e casas comerciais. Além da Quinta Grão Pará, na Estrada do Raio X, onde a família morava, era dono de mais duas, uma na freguesia de Santo Estêvão e outra na aldeia de Sant’Aninha de Monforte. Esta última estava localizada a um sítio montanhoso e de acesso difícil, perto do que restou do histórico Castelo de Monforte.

 

castelo-monforte.JPGCastelo de Monforte. Trás-os-Montes, Portugal. Foto De Raimundo Alberto (2010).

 

Bernardes ainda possuía, entregue aos alugueres, uma casa na Lapa e outra em Santo Amaro, além dos estabelecimentos onde tocava o comércio, todos na vila de Chaves. O principal deles era o armazém onde se vendia de tudo ou quase, conforme anúncio que mandara colocar a um jornal:

 

“Armazém de João Reis Bernardes, na Rua das Couraças – ‘Miudezas por junto e a retalho. Tabacos. Bijutarias. Cutelarias. Artigos religiosos e funerários. Artigos para florista. Sortido completo em papelaria e objectos d’escritório. Bolachas. Tintas. Vinhos finos. Farinhas. Quinquilharias. Artigos de tudo que há de melhor e mais chique em perfumarias, louças finas, porcelanas, vidros e cristais. Licores, champanhas, conservas. Artigos de cozinha. Camas de ferro e colchoarias. Lavatórios de ferro. Fogões de ferro para lenha e carvão. Escarradeiras, bidés, bacias para banhos e para pés, bacias de rosto e cama’.”

 

Na Madalena, à Rua de São José, João Reis mantinha uma casa de compra e venda de cereais, “a preços reduzidos, mas a pronto”. Eram géneros como centeio, trigo serôdio, milho, chícharos, feijão branco, feijão rajado, batatas, mas também outros artigos como vinho de mesa, almude, sal, açúcar, azeite e o que mais de afim se houvesse. Além dessas casas comerciais, era também sócio, com o irmão Arlindo, em uma loja de tecidos que ficava à Rua do Calau.

 

Na Rua Direita, esquina com a Travessa do Loureiro, ficava seu escritório de importação e exportação, enviando ao Pará diversos produtos portugueses. As maiores remessas eram feitas desde alguns meses antes de dezembro, uma vez que, no ciclo de Natal, Ano Novo e Reis, ao jeito do Brasil, mas sempre fiéis às origens lusitanas, era costume dos paraenses saborearem castanhas, figos, nozes, amêndoas, avelãs e outros artigos, similares aos consumidos nas consoadas de Portugal.

 

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