Terça-feira, 28 de Novembro de 2017

Chaves D'Aurora

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83.PRETENDIDO.

 

Eis que, então, a uma festa familiar, Nonô conheceu um dos melhores pretendentes ao altar em Chaves, o jovem António Sidónio Cordeiro Filho, rebento de uma das mais proeminentes famílias flavienses, pois seu pai, apesar de rústica postura e aparência de um pobre aldeão, era dono de uma instituição de ensino local. Era um atraente rapagão que, embora um pouco flácido, tinha um belo porte. Seu rosto era emoldurado por belas suíças, ornado por bem aparadas sobrancelhas, apurado com densos e bem cuidados bigodes e uma cativante mosca, abaixo dos lábios, queixo liso, sem pera.

 

Seu pai e dona Joaquina, sua mãe, eram compadres e amigos da tia Francisquinha que, nessa noite, abria os salões de sua casa à Rua da Pedisqueira, para festejar os 21 anos de seu filho morgado e, portanto, primo de Nonô. Tão logo a viu, o Cordeirinho retesou a sua flecha de lã, em seu arco de conquista, na direção da rapariga. Tão logo viu o rapaz, também o miocárdio de Aldenora acelerou-se com uma forte, aguda e repentina paixoneta.

 

Aurora, ao perceber os arroubos da irmã, sorriu – Ai-jesus, pobre Nonô! Estás a ser flechada pelo anjinho do Amor! – ao que esta contestou, indicando seu alvo com o olhar – Mas não está a parecer-te, também, que alguém mais já está envenenado pelo curare de Cupido?

 

Sidónio, a participar de um desses grupos só de homens que, até há algumas décadas, sempre ficavam à parte, em ocasiões festivas, também ficara, com indisfarçável frequência, a mover seus olhos pelas trilhas do enlevo até aos de Aldenora. A rapariga decidiu, então, aproveitar-se de algum instante oportuno para acercar-se dele. Tal hora chegou, por sorte, quando ela viu Afonso juntar-se ao grupo, atraído que este fora por alguns motejos que, na ocasião, os circunstantes trocavam entre si.

 

Falava-se, no momento, que a Câmara deveria proibir o tráfego das carroças que carregavam estrume pelas ruas da cidade. Eis que, na véspera, certo jovem flaviense, (na verdade, um dos circunstantes, indicado com explícita malícia pelos outros moços, por meio de olhares marotos e de viés) havia-se perfumado todo para ir à casa de sua noiva, com a qual já tinha alguma intimidade, ainda que, certamente, apenas verbal.

 

Ao chegar lá o moço, todo pimpão, a rapariga murmurou, de chofre – Que cheiro! – e ele – Gostas? – A noiva respondeu, cheirando-lhe o pescoço – Do cheiro de cima, sim, mas o de baixo... Por onde andaste? O que fizeste, para estar assim, desse jeito? – E, diante do olhar surpreso do rapaz – Porque estás, afinal, a feder tanto?! – o que deixara o dito cujo bastante constrangido, encarnado como um pimento, até compreender que ela – Mas o que deu em ti? Estou a me referir aos teus sapatos, ora pois! Não vês que hão de estar assim, tão borradinhos, sujinhos de bosta de vaca?!

 

Os circunstantes riram com bastante gosto, inclusive o protagonista, a tentar negar, de todo modo, que o facto ocorrera com ele próprio.

 

 

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Terça-feira, 21 de Novembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. PRETENSÃO.

 

Sobre os tratos e contratos entre homens e mulheres, era bem diverso o pensar de Aldenora. A terceira dos filhos de Flor e João Reis tinha cabelos castanhos, sedosos, coxas e pernas bem torneadas e seu rosto, tal como o de Aurora, também lembrava as melhores expressões pictóricas da Virgem. Era não só muito formosa, quanto a mais inteligente das irmãs. Em contraste, era possuidora de um temperamento difícil no trato com as criadas e com os mais, inclusive os próprios familiares. Suas rusgas só não eram mais frequentes com os outros, porque ela mesma procurava controlar-se, graças às boas maneiras que havia adquirido e à sólida educação que os pais lhe proveram.

 

Tais predicados, igualmente, Aurora e os irmãos também já o tinham, desde a infância. Uma postura de nobreza e refinamento que, no exagerado dito popular, costumava dizer-se – São coisas que vêm do berço – assim, as meninas de Reis eram dignas de elogios pelas matronas de fina classe, as que integravam a restrita sociedade local, ainda que os Bernardes pouco a frequentassem.

 

O caráter forte, por vezes autoritário de Nonô (sua alcunha de infância), contradizia, no entanto, com outro aspeto de sua personalidade. Era romântica. Talvez isso adviesse de ter lido muitos folhetins, publicados em magazines que a Mamã mandava buscar ao Porto, da mesma forma que as coleções de contos e novelas direcionadas a raparigas de boa família.

 

 Também contribuíam para tal romantismo as obras de alguns autores, portugueses ou não, mas de melhor qualidade literária. Eram livros retirados com ardileza da biblioteca de Papá e lidos às esconsas. Depois Nonô os repassava para Aurita, ensejando a que esta desfrutasse, igualmente, da boa leitura de excelentes textos que se fizeram proibir pelos curas e, consequentemente, pelos pais de família. Dessas obras proscritas, as que mais interessavam às raparigas eram as que falavam de amores complicados, como “Ana Karennina”, de Tolstoi ou a “Madame Bovary”, de Flaubert.

 

 

 

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Terça-feira, 14 de Novembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. O ÁLVARES.

 

Quando o Álvares foi, pela primeira vez, à Quinta Grão Pará, a menina Aurora escolheu o trajo mais feio que, dentre os seus, assim lhe parecia. Pediu a Zefa de Pitões que lhe (des)ornasse os cabelos com horrendos carrapitos e, a si mesma, maquilhou com tanta brancura, quase a gastar por inteiro o pó d’arroz “Rainha da Hungria”. Estava mesmo a se parecer com uma régia dama; não, porém, a nobre magiar da caixinha de talco, mas sim a falecida Inês de Castro, aquela que em morta foi Rainha.

 

Tais cuidados (ou descuidos) não fizeram com que o Álvares caísse em desistência. A beleza de Aurora era um luzir de pirilampos que, sempre, a escuros e obscuros momentos, haveria de brilhar. Entre goles de chá da Índia e as bolachas com o néctar secreto da Mamã, o viúvo de poses comportadas, mas com olhos lascivos, não tirava suas pupilas da menina pretendida. Naquele comenos, já a considerava sua, no papel e com água benta, destinada a cuidar de si e de seus haveres, inclusive os da carne, para o quê, nas melhor das intenções (das quais o Inferno está sempre cheio), Papá colaborava – Como sabes, Aurita, pois sobre isso já falamos, gostava que dissesses, ao senhor Álvares, se queres que ele assuma contigo os sagrados compromissos do matrimónio.

 

Por alguns segundos, Aurora fez suas meninas vestidas de azul olharem para baixo e fecharem as cortinas de suas janelas. Papá, Mamã e o pretendente puseram-se em penosa expetativa. Finalmente, as meninas desceram até aos lábios e os entreabriram como cortinas, levemente – O senhor Álvares é um homem muito bom, até me agradava sua afeição como marido. Mas espero que não me queira mal, nem ele tenha isso, assim, por uma... uma desagradável desfeita. Ainda não me quero casar – o que fez João Reis fechar a cara, a estremunhar seu visível aborrecimento. Florinda falou à filha, baixinho – Que estás a querer, minha miúda? – e, à moda brasileira – Ficares no caritó?

 

Após um embaraçoso silêncio, Álvares lhe veio em socorro – Ora deixe estar, a menina deve saber o que diz. Além do mais, hoje em dia, não é bom casar uma filha, se dela não forem suas vontades, não é mesmo? Isso era coisa d’antanho. – Pegou seu chapéu, o sobretudo e o guarda-chuva, agradeceu pelo chá, as bolachas e as broas, renovou o boa-tarde a todos e lá se foi, pela Estrada do Raio X, murcho como aquelas ginjas curtidas em aguardente, de uma famosa portinha ao Rossio, em Lisboa.

 

Alguns anos depois, casou-se com uma galega de boas banhas no corpo, boas carnes na cama e bons temperos na cozinha. Isso tudo o fez se esfalfar demais e se estofar nos excessos, tanto os amorosos quanto os culinários, o que, possivelmente, foi a causa de vir a falecer de apoplexia fulminante, tal-qualmente (assim comentava-se) ocorrera com o marido de Adelaide. A morte do Álvares, inclusive, foi em situação (e posição) inusitada, pois o médico, chamado às pressas, encontrou-o no leito conjugal em tal descompostura, que isso tornou-se motivo de comentários jocosos às rodas masculinas e, em alguns ambientes restritos, às femininas.

 

 

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Terça-feira, 7 de Novembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. CINEMATÓGRAPHO.

 

A Florinda, dentre os “films” que mais lhe encantaram, foram as cenas dramáticas de “O Contrabandista do Álcool” ou “Alma Mater”, as peripécias cómicas da “Noite de Núpcias de um médico” ou as “Aventuras do professor” e mais os flashes da vida real, como os animais no Jardim Zoológico. Já no início da sessão, um comboio, que parecia vir na direção dos espetadores, fizera a todos abismar. Alguns até recuaram de medo, sobretudo os miúdos, a causar frouxos de riso na plateia.

 

Como iria fazer, posteriormente, de acordo com o já narrado, em relação aos frequentadores habituais de teatro, João Reis, àquela altura, ficou a reclamar daquilo que, ao seu modo de ver, fazia necessária alguma repressão. Tratava-se de certa parcela do público, cujo comportamento deixava muito a desejar. Outro cronista já estivera mesmo a comentar, em um dos jornais flavienses: “Um forasteiro que vá ao Cinematógrapho, poderá julgar que está ao sertão d’ África e não numa terra civilizada. A troco dos poucos vinténs com que pagam os bilhetes, os espectadores julgam-se no direito de praticar toda espécie de desmandos, desde a piada grosseira e soez, até ao batuque dos pés, a revelar uma tendência asinina muito a lamentar. Se o piano deixa de soar, um segundo que seja, logo uma gritaria se levanta - ‘Sanfonia! Sanfonia!’- Cafreal de estupidez e ignorância! Se às vezes a fita escurece um pouco, porque na cena se apagou uma luz, ou porque um comboio vai passando n´um túnel, surgem logo os protestos – “Mais claro! Mais claro!” – incompreensão de verdadeiros selvagens. As mais pueris cenas de amor são sempre sublinhadas com dichotes de uma crueza que revolta. A Polícia e as autoridades estão lá, mas assistem impassíveis a esse espectáculo vergonhoso. Bastaria que dois ou três daqueles selvagens terminassem a noitada no metro quadrado da esquadra policial”.

 

A última sugestão estava bem ao gosto de Papá que, já nos alvores do século XX, fazia questão de lembrar também que, embora fosse considerado chique em sociedade o ato de fumar – Ora pois, pois, pelo bom Deus! Há que dizer aos parvos que não é elegante e, sem dúvida, muito desagradável fumar em sala fechada!

 

À saída, a mencionar a divisão dos filmes de acordo com os rolos guardados em latas apropriadas, um reclamo anunciava o programa da semana seguinte: “1º. “O vinho” (natural); 2º.“Astúcias de montanhês”; 3º, 4º. e 5º; “Vinganças da Bailadeira”; 6º; “Cruel dilema” (drama); e, 7º. “A máquina”, (cómica). Em breve novas e magníficas películas, ainda não vistas pela plateia de Chaves, inclusive a projecção de um film que é a maior sensação da actualidade”. (Tal filme era “ O Nascimento de uma Nação”, de D. W. Griffith).

 

Após a sessão do Cinematógrapho, foram todos saborear alguns gelados na Confeitaria Trajano, que ficava na Rua Direita, próximo ao Arrabalde. Eis então que lá na Trajano, sentados à mesa com os miúdos, Papá segurou as mãos da esposa entre as suas e disse – Ah, minha menina, minha linda Menina Flor! Sei que tens muitas saudades da tua terra, mas verás que tu e eu, cá na minha, ainda seremos muito felizes!

 

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 Largo do Arrabalde. Chaves antiga(PT). Postal Foto Alves

 

 

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Terça-feira, 24 de Outubro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. CORAÇÕES FISGADOS.

 

Foi a um mui respeitável e erudito ambiente familiar, um sarau no ricamente mobilado salão de um sobrado colonial, na Cidade Velha, pertencente a um fazendeiro alentejano da Ilha de Marajó, onde uma gorda matrona, a soi disante florentina, engrolava árias de Verdi; uma condessa cabocla declamava poemas de Castro Alves; e, com mais vigor ainda, um impetuoso bacharelando atropelava alguns versos de Baudelaire, em Francês, que João Reis tornou a ver aquela por quem, de amores, já morrera à primeira vista.

 

Teriam sido, talvez, aqueles belos olhos azuis que, conforme nos diz outra antiga canção, póstera àqueles tempos, se verdes, seriam cruéis como punhais e embora não fossem olhos castanhos, leais, nem tão negros de queixumes, eram dois pedacinhos do céu nos quais os dele, ao pousarem de repente, sentiam-se voar como andorinhas sobre um mar de ondas, azuladas por igual?

 

Agora, entre uma valsa e outra, João Reis, com bem mais trato no corpo e melhor aparência no trajar, elegante com o seu chapéu londrino, seu fato completo de linho “H J” e camisas bem engomadas, com botões de madrepérola aos punhos, também ele começou a matar de amor a sua donzela pretendida.

 

No primeiro cavaquear de ambos, a falaram sobre assuntos triviais, como o calor dos trópicos ou as famosas chuvas vespertinas de Belém, a lançarem bátegas ao solo, sempre à hora certa, o flaviense fisgou, enfim, o coração de Flor, aquela que seria sua companheira por todas as fortunas e infortúnios, em todos os anos do resto da existência.

 

Vice-versa.

 

Nessa noite, o pai de Florinda não levara a famosa bengala.

 

 

  1. NAMOROS DE ANTANHO.

 

Deram-se ao namoro típico daqueles tempos, não tão diverso do que seria, então, em sua Chaves natal. O máximo que um rapaz podia aproximar-se, de modo mais contíguo, ao corpo de sua virginal amada, era quando ambos ajoelhavam-se, lado a lado, nos devidos momentos da missa dominical, ou, em outubro, no Círio de Nazaré, ao se alinharem para acompanhar a procissão junto ao Carro dos Milagres ou à Barca dos Marujos.

 

Por essa altura, à noite, na praça do Arraial da Santa, iam assistir a comédias musicadas e burlescas no Theatro Chalet, sempre a lhes acompanhar alguém da confiança paterna para a eterna vigilância. Melhor ocasião, ainda, era quando podiam valsar nos bailes do Clube Atheneu, do Clube Universal ou do Sport Clube ou, mais especialmente, nos saraus dançantes que eram oferecidos pelos donos do Palacete Pinho a seletos convidados, no amplo salão desse prédio azulejado e bem português, ainda hoje existente à Cidade Velha.

 

Algumas vezes, aos sábados à tarde, havia a rara oportunidade de Reis sentar-se à mesma mesa que Flor, em companhia de Esther e de seu noivo Isaac, na terrasse à la Paris do Café da Paz, no salão da “Rotisserie Suíço” ou no Café Central. Nesses cafés, chiques e muito concorridos, croissants e chá inglês (da Índia) alternavam-se com casquinhas de caranguejo ou café com tapioca, bem ao gosto local, além de gelados, refresco de guaraná, sucos de frutas regionais para as meninas e uma boa cerveja paraense para os cavalheiros. O que mais se fazia, então, era comentar com os outros a vida de todos e falar de tudo sobre a vida dos outros. Especialmente no que se referisse ao grand monde local.

 

Às vezes, entre os namorados, a proximidade maior se dava em um passeio de barco a velejar pela baía de Guajará, aos domingos. Toda a família ia reunida, desde o patriarca Lourenção e sua inseparável bengala, até às inúmeras crias da casa e alguns escravos recém-libertos, que ainda habitavam a casa do aveirense. As vigilengas seguiam até às praias fluviais da Vila de Pinheiro (hoje, Icoaraci) ou, mais além, da Ilha do Mosqueiro. A fim de sair da embarcação e alcançar a terra firme, as saias compridas das mulheres erguiam-se alguns centímetros, para que se molhassem apenas os pés.

 

Esses pezinhos desnudos, ás vezes, esbarravam sem querer nos dos rapazes, ao pisarem com muita sensualidade a areia húmida. Tais relâmpagos de contacto epidérmico eram suficientes para fazer corar as donzelas e os homens culparem-se de maus pensamentos. Pior ainda, causavam um grande constrangimento a esses varões que as acompanhavam. Pelo tipo de ceroulas brancas de algodão, usadas na época, temiam os rapazes que se fizesse notar (muitas vezes de modo bem explícito, ainda que involuntariamente) o repentino e incontrolável aumento do que eles deviam guardar bem quieto na braguilha, e agora se transformava em uma inconveniente protuberância.

 

Ainda mais que tudo isso estava a se passar, como sempre, sob a vigilância discreta das mamãs, titias e vovós, cujos olhos policiais nunca os tiravam das meninas e, de soslaio, dos rapazes. Às raparigas competia, por seu turno, ficarem sempre à vista dessas guardiãs. Tais comportamentos, todavia, não eram estranhos aos portugueses. Na terrinha, era tudo similar.

 

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Terça-feira, 17 de Outubro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. ALCOVITEIRO.

 

Uma tarde, perto da feira do Ver-o-Peso, João apeou do bonde e, ao se desviar dos burros, encontrou um parente distante, o primo Eulálio. A convite deste, foram até à beira do rio apreciar as vigilengas, que pareciam naufragar nas águas verde-musgo do rio Pará, na verdade um braço do Amazonas. As embarcações iam ou vinham, carregadas de balaios de cipó com frutas tropicais, as quais, como o estranho e arroxeado açaí, tinham nomes e sabores difíceis de explicar aos patrícios e forasteiros, tais como uxi, umari, pupunha, araçá...

 

Reis ouviu então do parente que, por mais idade, às vezes lhe dava conselhos de pai, a fatal pergunta – E então, Joãozinho, quando te vais decidir a casar? Por certo que ainda estás bem moço, mas não fica bem continuares assim, sempre às voltas com essas mulheres de certa rua da Campina ou dos becos que vão dar ao Largo das Mercês. Ô rapaz, cuida bem que, qualquer dia, ainda vais te ver com os cupins da tísica a te roer os pulmões! Ou bem pior: com a sífilis a transtornar a tua cabeça e... o resto, se me percebes.

 

Acontece que Bernardes, como trabalhasse demais durante a semana, suas noites de sextas e sábados eram consumidas em pândegas, na alegre companhia de outros rapazes da mesma idade, aos quais não faltavam o bom vinho e a cerveja fresca, de fabricação local. Tudo isso era compartilhado com as belas caboclas que faziam a vida fácil (pelo menos a deles, dos fregueses) em casas de porta e janela ou em sobrados decadentes, que ficavam nas ruas próximas ao cais ou às cercanias do comércio.

 

Era um homem discreto, de boa educação, mas pouco afeito aos modos elegantes da elite económica local, embora esta fosse, em sua maior parte, constituída pelos novos-ricos da borracha, a nata (ou malta) da qual ele fazia parte. Começava, porém, a se ressentir de uma vida social, onde pudesse conhecer as boas raparigas da terra. Decidiu então que já era tempo de frequentar os bailes da sociedade, os saraus familiares, assistir às revistas musicais como “O Seringueiro”, no Theatro Politeama e, de modo especial, às apresentações de óperas e operetas no palco do monumental Theatro da Paz.

 

Disso tudo, muito se encarregou Eulálio, com dedicado empenho. Pouco a pouco, introduziu o primo nas residências das melhores famílias da região, constituídas dos inevitáveis bacharéis, juízes, políticos, funcionários públicos e, especialmente, daqueles comerciantes que viviam à custa dos seringais, nas mais diversas formas.

 

Passou a ser recebido, também, por donos de terras do interior da província, que viviam em cidades nomeadas como as coirmãs lusitanas (Alenquer, Bragança, Breves, Chaves, Faro, Óbidos, Santarém, Viseu e mais que tais) e mantinham na capital suas mansões, a fim de nelas se instalarem, sempre que necessário. Nessas também refestelavam-se, no mor das vezes, os filhos varões a gozar a vida de estudantes no Colégio do Carmo, no Pré-Jurídico do Liceu ou na Faculdade de Direito ao Largo da Trindade, uma das primeiras criadas no país.

 

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Segunda-feira, 9 de Outubro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. BELÉM DO PARÁ.

 

Muitas cidades brasileiras foram feitas à imagem e semelhança de Lisboa, do Porto e de outras urbes de Portugal. Uma das mais aportuguesadas era Belém do Pará, situada perto da foz do caudaloso rio Amazonas e porto de entrada para a região amazónica. As ruas da Cidade Velha, onde ficam as igrejas da Sé e de Santo Alexandre, o Forte do Castelo (edificado onde e quando, em 1616, a cidade foi fundada), o Arcebispado e o Convento do Carmo, a formar o complexo histórico Feliz Lusitânia (antigo epíteto da cidade), foram abertas há muito tempo antes que Dom Pedro, Primeiro no Brasil e Quarto em Portugal, tentasse conciliar suas traquinadas mulherengas, na Corte do Rio de Janeiro, com as graves decisões políticas do país.

 

A forte presença de imigrados, uns dos Açores e da Madeira, outros beirões e trasmontanos, fazia aumentar ainda mais a expressiva influência lusa nos modos de falar e nos hábitos do dia a dia. Influenciavam até mesmo na culinária, em que o caldo verde e o cozido com legumes conviviam com a paca ao tucupi (ou pato, depois, mas sempre nesse caldo amarelo, extraído da mandioca); a maniçoba (com carnes típicas de feijoada, antigamente, também, com produtos da caça local, mas cozinhadas em uma pasta feita de folhas de maniva, após estas serem cozidas durante cinco dia para perderem a venenosa e mortal toxicidade); o tacacá (tipo de sopa com a goma de tapioca, tucupi, camarão e jambu, uma espécie de agrião do Pará, que deixa nos lábios uma sensação deliciosa); o sumo bem denso e cremoso do açaí, com farinha de mandioca; e outras iguarias primitivas, da culinária indígena.

 

As casas antigas exibiam suas paredes revestidas com azulejos da antiga Mãe Colonial e, apesar de suas ruas estarem situadas em terrenos planos, os sobrados com janelões pareciam recordar, e muito, os sítios da Alfama ou da Ribeira. Podia-se mesmo dizer que as casas da outrora Santa Maria de Belém do Grão Pará, ainda que marcadas por algum exotismo local, eram com certeza, como nos diz uma antiga canção, uma casa portuguesa. Nas residências mais abastadas, certamente ficavam bem, além do São José de azulejo, da sardinha e do bacalhau (às vezes trocado pelo seu primo de água doce, o pirarucu), o pão e vinho sobre a mesa (embora este último também desse lugar, no mor das vezes, ao sumo de cupuaçu, bacuri, taperebá ou outras frutas regionais).

 

Nos prósperos tempos da extração e comércio da borracha na Amazónia, que em nada melhorou a vida dos seringueiros, mas fez enriquecer os donos de seringais, atravessadores, transportadores e comerciantes de Manaus e Belém, a capital do Pará era uma das mais importantes e mais populosas do país. Conta-se, mesmo, que os novos-ricos da terra mandavam lavar, em Paris ou Lisboa, os seus fatos de puro linho.

 

Àqueles fins do século XIX, graças à riqueza que o áureo ciclo da borracha viera trazer à região, eram os tempos de embelezamento e reformas urbanas em Belém. Erguiam-se belos palacetes, tais como o Pinho, o Bolonha e até vistosos palácios, como os que serviram por muitos anos para a sede do Governo da Província e a da Municipalidade. Construíam-se prédios de ferro em Art Nouveau, como os mercados de carne e de peixe, no sítio portuário do Ver-o-Peso. Com seges e vitórias ainda a passear pelas ruas, os coletivos puxados a cavalo logo passariam a dar lugar aos bondes, como passaram a ser chamados, no Brasil, os elétricos ingleses (trainways).

 

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Ancoradouro do Ver-o-Peso, Belém do Pará (BR). Postal público. Autor desconhecido.

 

Essas obras grandiosas eram comandadas pelo célebre Senador Antônio Lemos, tais como a abertura de largas avenidas e praças ajardinadas. Estas fariam Euclydes da Cunha, o escritor de “Os Sertões”, declarar em 1904: “(...) Nunca esquecerei a surpresa que me causou aquela cidade. Nunca São Paulo e o Rio terão as suas avenidas monumentais, largas de 40 metros e sombreadas de filas sucessivas de árvores enormes. Não se imagina no resto do Brasil o que é a cidade de Belém, com seus edifícios desmesurados, as suas praças incomparáveis e com a sua gente de hábitos europeus, cavalheira e generosa. Foi a maior surpresa de toda a viagem”. (Quanto aos hábitos europeus, leia-se: os de portugueses, franceses e, com menor influência, ingleses).

 

Somavam-se a isso as belas alamedas do Bosque Municipal, um enorme quadrado onde até hoje se concentra, com espécimes da flora e da fauna, uma síntese da floresta amazónica; e o Museu Paraense, recém-fundado no então bairro da Rocinha, onde pesquisadores de várias procedências dedicavam-se aos estudos da natureza e do homem na Amazónia, sob a direção do cientista suíço Augusto Emílio Goeldi.

 

No Theatro da Paz, cujo interior é similar, em luxo e arte decorativa, a muitos espaços cénicos da Europa, apresentavam-se companhias inteiras de ópera, francesas e italianas, que seguiam depois para o teatro de igual porte e beleza em Manaus, o outro grande centro comercial da borracha. Tais elencos vinham em paquetes ingleses e alemães a cruzar o Atlântico, em linha direta ao Norte do país, até ao movimentado porto de importações e exportações da Baía de Guajará, sem ao menos passarem pelos de Salvador ou Rio de Janeiro, a então Capital Federal.

 

 

  1. MENINA FLOR.

 

Foi antes de começar uma soirée no monumental teatro, inaugurado há alguns anos no Largo da Pólvora, que João Reis, recém-enriquecido com o comércio da Hevea Brasiliensis, ao dar um breve passar d’olhos pelo interior daquele verdadeiro templo cénico, avistou, no camarote onde se alojava a família de Jacob Benzecri, um dos mais respeitáveis capitalistas da província e com o qual João mantinha transações comerciais, uma linda e elegante rapariga.

 

A menina estava a conversar com a Estherzinha, outra bela jovem, filha de Jacob. Reis perguntou ao Raimundo Peixoto, o Dico, um amigo caboclo que ora o acompanhava, quem era aquela moça que tanto lhe chamara a atenção. Dico falou que seu nome era Florinda de Morais Dias, à qual muitos rapazes chamavam de Flor Linda e era filha de Joaquim Lourenço Dias, um compatriota de Reis, natural de Aveiro, de mãe alemã e pai português. Este era dono da Loja da Lua, armazém de tecidos à Rua XV de Novembro, mas…

 

– Mas, mas… mas o quê, ó raios, ora me diz de uma vez!

 

O amigo aconselhou – Pisa de mansinho no terreiro, que o galo velho alemão cisca bravo no quintal! É um cão de guarda com as filhas! A mãe delas já se foi na epidemia de varíola e o Lourenção tem que se fazer em dois. As filhas só vão às festas com o pai do lado. E tome a bengala! – Bengala?! Mas o que é que essa bengala tem a ver com as meninas? – Raimundo riu e continuou – É que o velho ameaça ou chega mesmo a dar umas bengaladas em qualquer rapaz que venha falar com as filhas… Quanto ao que mais importa, o Lourenção está muito bem de vida; e a educação primorosa que a pequena recebeu, também se deve aos bens deixados por sua mãe e por seu avô materno.

 

Ainda que, para João, essas questões patrimoniais não fossem, àquela altura, o mais importante, soube então que o avô da “Linda Flor” tinha sido proprietário de uma fazenda enorme, que ia desde os fundos da Basílica de Nazaré até à Estrada de São Jerônimo (uma enormidade de terras), mas os Estêvão de Morais quase ficaram sem nada, porque o único filho homem, tio dessa atraente donzela, deu cabo à metade da fortuna do pai, solapando-a com mulheres e jogos.

 

As perspetivas não eram muito animadoras, mas João Reis, embora não fosse dado aos jogos de azar nas casas da Rua da Trindade, onde a roleta corria solta, gostava de arriscar no carteado da vida. Quando olhou novamente para o alto, percebeu que fora visto por Jacob e o cumprimentou. Acenou também à Esther e à bela filha do bravo bicho brabo. A jovenzinha, após um breve aceno, olhou para ele e, pondo o leque de patchouli a lhe tapar a boca, cochichou algo com a amiga. Ambas riram, sem tirar os olhos do rapaz, o que o deixou constrangido.

 

Estava decerto curioso em saber do que andavam a falar e do que lhe havia de ruim, se os bigodes, as suíças, o nariz… Ou talvez algo bom, mas o Dico, ao seu lado, deixou-o ainda menos à vontade – É a tua aparência, João Reis, como te cuidas mal! – e a troçar – Acho que devias ler o “Compêndio de Civilidade” do bispo Dom Macedo Costa.

 

 

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Theatro da Paz, Belém do Pará, 1878. Postal público antigo. Autor desconhecido.

 

 

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Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. HOMEM DE BEM.

 

Há vários dias, Papá rondava os passos de Aurora, como a querer dizer alguma coisa. Uma noite, afinal, quando ela estava a sós com ele e Florinda, João Reis tomou fôlego e, após algumas baforadas de seu finito e já degustado havano, lançou à filha um olhar afetuoso – Bem sei, minha boa Au­rita, que não temos costumes iguais aos dos ciganos, mesmo desses aí em frente que, de tão portugueses já se fizeram, nem parecem mais ser dessa raça – e acentuou dessa raça. Mesmo sem distinguir a alusão sobre raça e não etnia, com o Reis a desconsiderar o que é uma nação cigana, Florinda lançou ao marido um olhar respeitoso, mas de insinuante reprovação pelo tom preconceituoso, que, a ela, nunca sabia bem.

 

Entrementes, a rapariga ficou a pensar – Pronto, cá está de novo o Papá, a me falar do Hernando! Mas o que será que o incomoda, dessa vez, se já nem sei mais daquele gajo, a andar por aí, de lés a lés, pelo mundo? Se eu mesma já cá o tenho, ao peito, como página virada de um velho álbum de recordações?! – e Reis prosseguiu – Espero que estejas a me compreender. Quero falar, na verdade, de uma prática de meu tempo, já pouco usada hoje em dia, mas que muitas famílias ainda gostam de concertar. Afinal, se sou teu pai, e se te eduquei o melhor possível, seria injusto se eu não pudesse, ao menos, aconselhar-te sobre um homem de bem para teu marido.

 

Aurora alcançou, afinal, aonde o pai queria chegar. Em­palideceu. Ainda que sempre a demonstrar uma notória bon­dade, ainda que a ira lhe houvesse, mesmo, como um feio pecado capital, um tantinho de ódio lhe acolheu o coração. Ainda mais quando veio a fatídica pergunta – Conheces o Álvares, aquele distinto senhor que é dono do armazém “O Tesouro Trasmontano”? – Papá tragou mais um pouco do havano e continuou – É um homem ainda em pleno vigor e de muitos bons costumes – ao que Mamã ajuntou – Sua mulher, pobrezinha, que Deus a tenha, já lá se foi para o Céu, nas garras do corvo da Pneumónica.

 

Calada estava, a rapariga e emudecida ficou, horrorizada com aquela ideia dos pais. O senhor Álvares era um homem bom, bem ajeitado e não de todo feio, apesar de gorducho e sem pescoço. Além do mais, tinha lá sua dinheirama nos cofres e nos bancos do Porto, mas... deveria estar mesmo a querer uma rapariga que lhe pusesse a mesa, lavasse as roupas íntimas, cuidasse de seus fatos e suspensórios… Não conseguia ela antever como, após as bênçãos de Deus, po­deria chegar ao sobrado da Rua do Sol, onde morava o pre­tendente e levar como dote um buquê de carinho e algumas migalhas de amor.

 

Não fora por amar e ser amado, conforme a própria Mamã contava, que João Reis se casara com a sua Menina Flor?

 

 

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Terça-feira, 12 de Setembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. CARITÓ.

 

Quando Aurora fez 20 anos, a ausência de um rapaz de boas intenções em sua vida começou a preocupar os pais, além de chamar a atenção dos parentes, aderentes e meros conhecidos. – Te cuida, Aurita, olha que vais acabar ficando pra tia – ou, como dizia Mamã, à moda de sua terra natal – Vais acabar no caritó – o que em Tupi, língua dos índios brasileiros, vem a ser “uma gaiola para os pássaros”, mas na linguagem popular significa “ficar solteirona”.

 

Ora pois, engaiolada era a vida de muitas senhoras fla­vienses que, em rodas de chá, a degustar os pastéis de ba­calhau e as bolachas de nata, repetiam, a suspirar, as frases recolhidas de algum desconhecido – “Ai-jesus, que o casa­mento vem a ser mesmo uma prisão! No início, um doce cár­cere; alguns anos depois, uma clausura à qual ele e ela, no dia após dia, acabam por se habituar; já nos anos finais, é um porão sombrio e húmido, masmorra onde só as mágoas e queixumes servem de lenha para aquecer o frio”.

 

A tudo isso, porém, Mamã contestava – Pois eu e o meu Reis, embora não tanto como El-Rei Dom Manuel I, esta­mos sempre venturosos.

 

Diante de tais falatórios, Aurora se constrangia e tenta­va dar atenção aos possíveis pretendentes. Em belos papéis coloridos, circundados por figuras de flores ou anjinhos a tocar flauta, trocava cartas com aquele que estivesse na vez de um pretenso namorado. Não eram cartas portuguesas tão belas, como as de Soror Mariana Alcoforado, mas, nas suas, punha-se a transcrever, com sua perfeita caligrafia, versos de João Ruiz Castelo Branco:

 

“Senhor, me partem tão tristes

os olhos por vós, meu bem

que nunca tão tristes vistes

outros nenhuns por ninguém”

 

Nem essas líricas palavras poderiam, no entanto, expres­sar o que de facto lhe ia n’alma. Carências, latências, vazio. Acabava por ocorrer, afinal, que qualquer Hans sem Gretel que se perdesse em seu bosque, a bruxa loura deitava ao cal­deirão em poucos dias. Ainda por cima, pedia de volta suas cartas com florezinhas, anjinhos, versinhos e o mais.

 

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Terça-feira, 29 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. POPÓ.

 

Afonso só largava os estudos, a essa altura, para namori­car em casa da jovem amada, a menina Maria Ritinha, filha de um dos melhores clientes de João Reis. Papá, no entanto, nem precisava dizer ao rapaz que, às nove, já deveria estar de volta à Quinta. O jovem cumpria isso em geral bem mais cedo, por lhe desgostar a chateza repetida de ficar a conver­sar com a rapariga enquanto, a uma pequena distância, a avó da menina fazia tricô. Essas agulhas e fios serviam apenas, na verdade, de mero pretexto para a vigilância familiar e isso, militarmente, aquela senhora exercia do alto de sua tor­re de menagem, uma velha cadeira de balanço.

 

E havia Popó, o cão.

 

O animal postava-se debaixo do sofá onde os pombinhos, a uma distância quilométrica, mal podiam arrulhar e esticar as penas, a fim de ao menos se tocarem nas pontinhas das asas. Penares do pobre Afonso! Já de si retraído, ao tentar se aproximar um pouco mais da Ritinha, ouvia o rosnar e até os latidos ameaçadores do maldito cão. Ainda mais que o ra­bugento Popó não parecia gostar nem um pouco de Afonso, malgrado as tentativas de este se fazer amigo do animal. Tal amizade, evidentemente, bem viria a calhar para os momen­tos em que a guardiã fosse beber ou verter água, mas a velha sempre retornava com um sádico sorriso de tranquilidade, confiante na guarda de seu cão.

 

Até que, certa noite, o Popozinho, algum tempo já decor­rido no exercício de suas funções de segunda sentinela do namoro de Afonso e Ritinha, achou por bem (ou melhor, por mal) morder levemente a perna do rapaz, quando este, como um casto vampiro, tentava dar um singelo beijo na jugular da rapariga.

 

Foi a gota d’água para que, de uma vez por todas, o rapaz desse por terminado o entediante namoro. Não soubesse ele que, em muitas outras casas da vila flaviense, havia moços e raparigas a vivenciarem a mesma situação diante de mães, tias ou avós. Só que alguns tinham mais sorte, pois muitas dessas vigilantes cochilavam e até roncavam com frequência.

 

Além de que, em geral, não havia Popós!

 

 

  1. VOLTA AO LAR.

 

Até quando levarás contigo as chaves do teu segredo? – a rapariga perguntou a si mesma e lançou um olhar à Torre, como se pudesse deixar lá dentro e para sempre os seus mis­térios, não gozosos mas dolorosos e pudesse fazer, daquele amontoado de pedras, uma sólida e muda confidente dos seus infortúnios.

 

Da amurada, olhou para baixo e, mais uma vez, o punhal do pior dos pecados, a cujos pecadores a Igreja nega os san­tos sacramentos, trespassou-lhe a mente. Lembrou-se então da bela, nobre e virtuosa Dueña Conxeta de Albuez.

 

O esposo de Dueña Conxeta, ensandecido pelos ciúmes, mandara encarcerá-la em uma torre de menagem, junto com os filhos que ele dizia não terem saído de seus fecundos e viris instrumentos.

 

Deu-se então que, a uma triste e fria manhã igual a esta, a pobre mulher aproveitou-se de uma falha dos guardas, su­biu até ao cimo da guarita e, de mãos dadas com os infantes, atirou-se ao abismo. Não sabia a desgraçada que, no dia se­guinte, estava a chegar de Braga o seu confessor espiritual, com o fito de protestar pela inocência da infeliz devota.

 

“Que esta água vá curar-te os males d’ alma” – Ainda a lembrar as palavras do doutor Guimarães, Aurora tomou o caminho de volta a casa, pela Rua do Bispo Idácio e, de­pois, pela Santo António. Ao passar perto de uma venda de louçarias finas, viu Hernando a palear com o caixeiro dessa loja e quis logo ter ao cigano, para lhe dizer das boas novas. Apesar de que estas, ora pois, até que de novas se poderiam chamar, porém boas... estavam longe de ser.

 

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Conteve-se. Esgueirou-se furtiva, para não ser vista mais adiante pelos empregados de Papá, que estavam a abrir o armazém da Rua das Couraças. Desceu pela Rua do Rio, seguiu pela Alameda Trajano, resolveu margear o Tâmega e cortar caminho pelas Poldras, como algumas vezes fizera com a Zefa em miúda, quando iam buscar Mamã à casa de tia Hortênsia, na Raposeira.

 

Já do outro lado, perto da Azenha dos Agapito, passou por um sítio beirão do rio, onde as lavadeiras já estavam a começar o seu labor de ensaboar, esfregar, bater, lavar, tor­cer e estender roupas brancas nos areais.

 

Por entre elas, uma miúda com o vestidinho roto e um bibe remendado, um pinguinho de gente com um chapéu de palha na cabeça, carregava um regador quase do seu tama­nho, enquanto as da lavagem cantavam:

 

“O cantar não alivia

penas no meu coração

eu tenho cantado muito

e as penas se me não vão”.

 

ca videira (2).jpg

Lavadeiras no Tâmega.

 

Aurora não queria voltar à quinta, onde seu futuro, ago­ra, era um xis a cruzar raios de incógnitas sobre o coração. Havia um nó na garganta, um enovelamento em seu cor­po, um emaranhado de fios em sua vida, dos quais ela não conseguia o vislumbre de quando e como desatar. Tomou o Caminho das Poldras até à Rua da Solidão, essa via sombria que, como o senhor Durão da Lenda dos Frades Santos, faz muito jus ao nome, uma estradinha deserta entre muros ex­tensos, onde apenas os musgos e uma ou outra casa esprei­tam os passantes. Ao se encontrar na Rua do Caneiro, perto da Quinta, hesitou em seguir adiante. Logo porém se fez coragem e chegou à Avenida D. João I.

 

Deu volta ao muro da casa, entrou pelos fundos do pomar, atravessou-o de novo entre as macieiras, laranjeiras e pesse­gueiros e se atirou chorando aos braços de Zefa, que se pôs também a inundar, com tâmegas d’olhos, o piso da cozinha.

 

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Terça-feira, 15 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. FRADES SANTOS.

 

Durante algum tempo, em tempos que já lá se foram, por volta da meia-noite, almas penadas de frades devotos apa­reciam, entre as árvores do Campo do Tabolado, junto às fontes, a lerem seus breviários, sob a luz de velas que se prendiam aos capuzes, na cabeça de cada um.

 

– Vinham envoltos em seus hábitos de burel e tinham – assim contava Rodrigo, a dramatizar – as mãos e as faces esbranquiçadas! Círculos escuros em volta dos olhos e da boca! Estavam presos, uns aos outros, por correntes que se arrastavam pelo chão! E entoavam… o cântico dos mortos!!!

 

Tomou um gole de Porto, fez uma pausa teatral e, em seguida – Essas terras pertenciam ao senhor Paulo de Maga­lhães, organista da Igreja Matriz. Pois o pobre homem, e to­dos de sua casa, viviam apavorados com o que viam. Aliás, já acreditavam até no que não viam e, piamente, davam fé ao que os outros contavam. E quem conta um conto, aponta dois – ao que Afonso motejou – Mas tu, Rodriguito, sempre nos apontas mais de quatro!

 

O primo riu – O que se deu é que os empregados já não saíam mais à noite. Alguns até chegaram a adoecer de febres e… – o narrador fez um sorriso maroto – de disenterias. Viviam a correr lá pra casinha... – motivo pelo qual riram­-se todos. Rodrigo tomou mais um Porto e prosseguiu – A mulher de Magalhães disse ter visto a alma de um frade a lhe pôr a língua para fora e pegou umas tremuras de maleita. Só ficou boa à custa de penitências e vultosas dádivas de dinheiro que ela ofereceu ao convento, o qual ficava logo ali, coladinho às propriedades do marido, em terras que se es­tendiam até um ponto do caminho para Vilar de Nantes. Fez isso a conselho dos próprios frades dessa irmandade. Estes, aliás, ao contrário das aparições, estavam muito bem vivos e com bastante saúde.

 

A garrafa do Porto estava cada vez mais ébria de va­zio, quando o primo, bem sóbrio, pareceu concluir – En­fim, eram tantos os problemas com essas almas penadas, que o tal organista preferiu partir para sempre de Chaves, com toda a família. – Fez outra pausa e, a julgar que fosse esse o final da lenda, os mais reagiram. O narrador prosse­guiu – Calma, calma, ainda não acabou. O facto é que, toda vez que perguntavam a esses monges sobre as almas pena­das, eles se diziam muito preocupados. No século anterior, uma peste havia dizimado quase toda a congregação que ali praticava. Seriam então de alguns desses frades, com a sua triste e pestilenta memória, as almas que agora estavam ali a assombrar?

 

Já então a pequena Arminda esbugalhava os olhos, en­quanto o contador de histórias seguia o curso da narrativa, assaz interessante – O próximo a se tornar proprietário das terras do organista chamava-se Francisco Durão. E aquele, meus primos, fazia jus ao nome! Saía sozinho pela noite, madrugada afora, devidamente provido de armas e pronto a enfrentar, fosse quem fosse: os vivos, os não vivos, os mor­tos e os não mortos. Pois não é que as almas, desde então,  nunca mais apareceram? O valente Durão ficava a gritar “Ó seus fradecos penados, que raio de almas cagadas são es­sas, que têm medo de levar espada ao cu?

 

Mamã, de imediato, externou-se ofendida nos ouvidos. Rodrigo pediu desculpas e tentou corrigir o chulo palavrea­do – Cá me perdoem, meus caros, na verdade era assim que ele gritava: “quem é que têm medo de levar ferro ao bucho?” – mas apesar do conserto feito, o efeito desconcertava. Al­guns risinhos nervosos tentaram disfarçar o que as faces rubras revelavam. Então, o primo apressou-se em finalizar – O facto é que, mesmo sem a companhia de outros valentes como ele, para enfrentar essas almas tão santas, mas pena­das, Francisco Durão continuou, por muito tempo ainda, a cultivar a quinta com as próprias mãos.

 

A essa altura, já todos perguntavam – e as almas? – ao que Rodrigo sorriu – Ora, pois, o que se deu a conhecer, algum tempo depois, é que esses frades (e estou a falar dos vivos, é claro), colhiam frutos para seu uso diário nas terras vizinhas às suas, ou seja, às do convento e vendiam os exce­dentes. Não satisfeitos com as cercas de sua monástica pro­priedade, usavam a Murada do Campo da Roda, para se es­tenderem até onde mais pudessem. Um visitador da Ordem acabou com o abuso em 1689, pois os religiosos estavam a se utilizar de uma propriedade fora do convento, o que era contra as regras da Ordem.

 

Concluiu, enfim, o narrador – Na esperança de que essas terras fronteiriças voltassem a ser devolutas, os frades pin­tavam o rosto de branco com uma mistura de farinha e clara de ovo, cercavam os olhos e a boca de carvão e faziam a encenação das almas. – Os próprios frades?! – Eles mesmos! Acompanhavam-nos, decerto, alguns serviçais do convento, que se prestavam de bom grado a esse teatro de Grand Guig­nol. O certo é que, depois das incursões noturnas do novo proprietário, as almas dos santos frades nunca mais vieram assustar ninguém. Certamente tinham medo das cacetadas e golpes de espada do ousado dono da quinta, cujo nome era... como se diz? Um pleonasmo!

 

Florinda e as filhas riam, a não poder mais. Logo, porém, Mamã pôs-se a repreender os excessos anticlericais desse parente tão contestador – Meu bom Rodrigo, és mesmo um pândego, mas não fiques a desrespeitar a nossa religião. Cui­da da tua alma, é que é, pois todos nós, um dia… – e o gaiato retrucou, com uma falsa seriedade – Não se preocupe, Tia Flor, quando ouvirem passar ao Raio X umas correntes e, ao chegarem à janela, virem uma aparição toda de branco e com uma vela à cabeça… podem rezar pelo pobrezinho do primo Rodrigo, uma pobre alma que se perdeu… – e, a rir com gosto – perdeu-se, sim, mas logo se foi achar de novo, na Madalena, muito vivo e a bebericar, com os amigos, da­quela água que mata o bicho!

 

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Terça-feira, 25 de Julho de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. PRIMAVERA.

 

A florida estação veio com bons auspícios, pois a Pneumónica já lá se fora por aí, quiçá para o mundo do Não Mais. Adiava-se, assim, para o incerto porvir de cada sobrevivente, a chegada da indesejável visitante.

 

Em Chaves, na cauda do rasto dessa virulenta devastação, sem poupar ricos ou pobres, miúdos ou anciães, pairava, por toda parte, a saudade das pobres criaturas que agora estavam a dormir no Campo Santo. Foi, portanto, uma vila sem ânimo e sem vida, aquela que os Bernardes reencontraram, ao voltar para a quinta do Raio X. Os rapazes retomaram suas idas ao Liceu e as meninas voltaram a ter suas aulas de piano e outras instruções.

 

Ainda que parecessem lágrimas de jacaré, como dizia Mamã, piedosas e muitas foram as secreções lacrimais que as raparigas derramaram pela pobre Mademoiselle Margot des Saints. A lecionista de Etiqueta não pudera brandir sua palmatória no ar e espantar a “maladie”, nem tampouco gritar, com sua voz de gralha, um enérgico “laissez-moi, Maudite, parce que c´est très inélégant partir avec toi!” As meninas também renegaram, com veemência, o disse-me-disse de algumas pessoas, segundo as quais, após Mademoiselle ser enterrada, descobriu-se que a veneranda professora (em verdade, em verdade vos digo: muita gente alegou não ser isso, de modo algum, um mero dichote de humor negro) nascera em uma aldeia perto de Nazaré e recebera ao batismo um nome bem lusitano: Margarida dos Santos.

 

A instruir como devem se comportar as raparigas em sociedade, mas sem a tirania das mãos à palmatória, lá estava agora o Monsieur Pierrot Béjart (um sueco de origem francesa, que Afonso e os colegas, a essa altura, ficavam a se perguntar se ele não seria também algum Pedrinho de Beja, do Alentejo). Seus modos refinados demais, delicados demais, amaneirados demais durante as instruções, faziam troçar os rapazes e gracejar as criadas. Até a boa Mamã escondia, com discrição, um riso de rajada entre as varetas do seu leque de Sevilha. Fora das aulas, porém, ele mantinha uma postura bem mais próxima daquilo que as pessoas convencionam ser masculina.

 

Mais insólito ainda foi quando ele apresentou aos Bernardes sua Ingrid, a estranha e corpulenta esposa nórdica, mãe de seus três filhos, cuja postura forte e firme demais e uma voz bem mais grossa que as de muitos cavalheiros de Chaves, causavam sempre certa estranheza, mas a ninguém e por nada alcançava, senão comentar (com respingos de xenofobia e preconceito) – Esses escandinavos... Tem que ser! – e alguns apenas ficavam a sugerir que, naquele estranho par de Adão e Eva, parecia haver alguma costela, serpente ou maçã trocada pelo Criador, a um momento em que Ele estivesse entediado, distraído ou com uma simples vontade de brincar com os efeitos da Criação.

 

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Terça-feira, 11 de Julho de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. BOLO-REI.

 

A fatal novidade foi bola de canhão sobre a fortaleza dos Bernardes. Nessa noite, quando foram comer o tradicional bolo-rei com a fava oculta, em que o parente que comer a fatia premiada fica obrigado a oferecer o bolo do próximo ano, coube a Florinda ser sorteada para “pagar as favas”. Começou a chorar, todavia – Que tens, Menina Flor? – Oh, Mamã, porque estás a chorar? – mas ela nada respondeu. Chorava com medo de, no próximo ano, já não estar mais viva para cuidar dos filhos e do marido. Ou, pior ainda, apenas ela sobreviver e estar a cuidar, sozinha, das campas de todos eles.

 

João Reis concertou com Manuel que este voltasse para Chaves, a cavalo e por lá ficasse, junto à esposa e aos filhos. Um moço corajoso da aldeia, que o Reis considerava menos um audaz e mais um temerário, já se oferecera a conduzir o landó com o Papá e a família, de volta à vila, quando se fizesse necessário.

 

Trancaram-se todos na quinta, inclusive Bobadela, a mulher e os miúdos. Valiam-se das limonadas de Florinda, ou dos três cálices de Porto que o patriarca distribuía, diariamente, até mesmo à Mindinha e aos miúdos de Crispina, pois diziam e, a alguns, até gostava comprovar, ser tal vinho uma panaceia para todas as imunidades. No mais, as pre e providências do Papá garantiriam, por um bom tempo, os complementos necessários à autossubsistência da quinta e, quando alguém batia ao portão – Ó de casa, pelo amor de Deus – respondia-se – O que quereis, faz favor? – mas atendiam ao suplicante a certa distância, deixando no jardim o que lhes fora pedido.

 

Felizmente, os ares perfumados daquela aldeia não agradaram ao grego barqueiro do Hades e, em Sant’Aninha de Monforte, apenas alguns aldeães adoeceram e uns dois ou três mais é que tiveram de enfrentar Cérbero, o cão que guarda o mitológico Inferno.

 

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Terça-feira, 4 de Julho de 2017

Chaves D' Aurora

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  1. FESTA DOS MOÇOS.

 

A “Festa dos Moços” é uma tradição folclórica de Sant’Aninha de Monforte e de outras aldeias da região. Trata-se, possivelmente, de uma herança de ritos ancestrais que tiveram suas origens nos rituais pagãos de inverno, quando os romanos ou, talvez, outros povos d’antanho, celebravam um novo ciclo da produção agrícola. Em consonância com isso, a Festa significava também um rito de passagem dos moços para a idade adulta.

 

Durante dois dias, os jovens solteiros se tornam os senhores da vida na aldeia. A festa começa ainda bem cedo, com o gaiteiro e sua gaita-de-foles a acordar os aldeães. Surgem

 

então os “caretos”, criaturas estranhas, de trajos bizarros, a exibirem caras diabólicas e a fazerem barulho com chocalhos, pendentes de fitas coloridas. Dançam, pulam, rodopiam

 

e fazem grande algazarra. Quase tudo lhes é permitido e, sem poderem ser identificados, por causa das máscaras, cometem de tudo o que lhes der na veneta. Invadem as casas sem qualquer cerimónia e se põem a roubar vinhos, pães, chouriços, morcelas, presuntos e o que mais encontrarem de aproveitável para o seu festejo juvenil.

 

Foi a uma dessas intrusões domésticas, que alguns moços festeiros viram-se diante do tal acontecimento, trágico e inesperado.

 

 

  1. MOÇOS E FACTOS.

 

Há algum tempo que toda a gente se perguntava – Mas ó pá, em que chão há de ser que a Rosa Manteigueira e o filho dela andam a gastar os tamancos? Ai, que ninguém mais os viu arrastar os seus socos por aí, nem se despedir de ninguém. Será que ela foi ao Brasil, para se encontrar com o marido, que nunca mais deu as novas por cá e, se calhar, o maroto já deve estar às voltas, por lá, com outro cobertor quentinho ao pé da orelha?

 

A velha Rosa morava em um fim de rua, já ao termo da aldeia, no extremo oposto ao da quinta de João Reis. Era mais uma dessas viúvas de marido vivo, como se dizia em Monforte. O filho era um moço mirrado, de ar doentio, mas que sempre estava a ir e vir de Chaves, a vender as manteigas e queijos que a mãe fazia.

 

Sempre na radiante alegria que lhes é própria, os moços da Festa resolveram invadir a casa da manteigueira, com o propósito de verem se esta, ao se ausentar com o filho, sabe-se lá para onde, não teria deixado alguns queijos, vinhos e conservas. Ao entrarem, todavia, depararam-se com um quadro de peste medieval. Um rapaz que, à primeira vista, os festeiros pensaram tratar-se de um africano, por enegrecido que lhe fora o rosto, jazia morto ao lado do catre de Rosa. A esta, igualmente, os deuses não favoreceram melhores condições.

 

A fatídica Pneumónica chegara, enfim, a Sant’Aninha de Monforte. Desnorteados pelo pavor, os jovens puseram-se, de imediato, a fazer uma outra festa, a do Fogo. Reduziram a cinzas tudo o que, lá, cheirava a morte.

 

Naquele janeiro de 1919, a Festa dos Moços envelheceu ali mesmo.

 

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Terça-feira, 27 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. RAMOS.

 

Nessa noite, não foram logo dormir. Bobadela, o caseiro, havia sugerido que todos fossem assistir a um auto que se levava ao Largo da Igreja, antiga tradição nos festejos de Natal, em algumas aldeias de Monforte – “Os Ramos”.

 

Todos acharam muito interessante a encenação desse auto, um costume passado de geração a geração, ainda que os Bernardes ficassem pouco tempo a presenciá-lo. É que os espetadores assistiam a tudo em pé e João Reis logo percebeu que aquele teatro de Natal ia durar por toda a madrugada.

 

A encenação desses Autos abrangia toda a vida de Cristo, como foi muito bem descrita por Heitor Moraes da Silva, em “Autos do Natal em casas de Monforte”. Como João Reis supunha, começava depois da Missa do Galo e durava a madrugada inteira. Aos aldeães, em todos os dezembros, gostava muito assistirem, com devoção, a mais uma repre-sentação dos Ramos, como se as máximas e conselhos do texto fossem a palavra de Deus. Alguns até já sabiam de cor várias passagens.

 

A apresentação dos Ramos compunha-se, não só de um, mas de 17 pequenos autos, com cerca de 100 personagens ao todo e um natural revezamento de atores. Estes, malgrado o seu total amadorismo, desempenhavam seus papéis com muita seriedade e fé religiosa. Suas vestes eram feitas por eles mesmos ou alugadas na cidade e os aldeães começavam os preparativos vários meses antes. Após o duro trabalho na eira e no lar, dedicavam suas noites de outono a copiar os diversos papéis, escrevendo, com sua pouca formação escolar, ao modo como se falava na aldeia. Os que não sabiam ler (e eram quase todos) aprendiam de ouvido, pela repetição dos letrados. Os ensaios limitavam-se a cada um dizer sua parte decorada, ajudado pelo “apontador”. O resto era o que viesse de inspiração à hora, de acordo com o maior ou menor desembaraço de cada um.

 

O primeiro auto era o “Auto da Criação”, em que o Anjo assim dizia, em determinado momento – “A Santíssima Trindade / ave eterna incriada / determinou fazer tudo/ e tudo fazer do nada.” – E sobre o fruto proibido: “Porque se nela tocardes / pra vós será coisa dura / Adão irá desterrado / E Eva pra sepultura”. Mais adiante, Adão falava para Eva – “Olha-me para estas barbas / que mas deu a Providência / elas por si só requerem / respeito e obediência”. (…) “Depois de seres mulher / ninguém o pode duvidar / que com tuas astúcias / a qualquera podes enganar.” Expulsos do Paraíso, os dois se queixavam da aspereza da terra – “Pois ainda trabalhando-a / fica ela de tal casta / cria ervas como mãe / e silvas como madrasta”.

 

Seguia-se o “O sacrifício de Abel e Caim”, em que este último, desesperado, já em seus momentos de agonia, ouve o Demónio antecipar o que é o Inferno que o espera – “(…) É uma casa / de portas encantadas / para entrar estão abertas / e pra sair estão fechadas. / Reparai bem, pecador / isto é bem mais do que assim / se quereis salvar-vos / não vos finteis em mim.”

 

No terceiro, o “Auto dos Desposórios de Nossa Senhora”, Maria diz ao Anjo – “Se é vontade do Altíssimo / o que voz me mandais / estou pronta a obedecer / ao que me detremenaes.”

 

No “Auto da Anunciação”, percebe-se um latim estropiado ao longo dos anos: “Ave-maria / graça plena / Domenestéco / benedita tu és / entre mulierevos”...

 

No “Auto da Visitação”, José e Maria procuram um abrigo e todos lhe negam – “Marchai-vos braigeiros / não estou para treta / se quereis pousada / ide à estalaige da preta.” E a preta despacha-os, sem papas na língua – ”Se vosa trazer dinheiro / mim dar a vosa o que comer / que mim não ter nada pra dar / ser tudo para vender.” Lá pelas tantas, um pastor oferece vinho a uma camponesa – “Queres uma pinga de vinho / que levo nesta cabaça?” – e ela – “Ora o vinho é coisa santa / hei-de meter muita graça” – ao que, o pastor – “Toma lá, mas tem cuidado / que senão não atinais / que os homens embebedam-se / e as mulheres inda mais”.

 

Nessa mesma noite, havia também o “Auto das Charoleiras”, em que as donzelas entram no palco portando charolas, espécie de andor com imagens religiosas e as “Pastoradas”, que era a parte cómica. Em outros tempos, quando os autos de Ramos eram apresentados dentro da igreja, as Pastoradas representavam a ”parte de fora”, evidentemente profana. Um dos quadros mais divertidos era o dos pastores galegos, a falar e a cantar em sua língua. Toda a comicidade das Pastoradas, porém, apesar de alguns ditos picantes de ingénua malícia, obedecia a uma linha equilibrada de recato primitivo e comedimento aldeão.

 

À altura da passagem do ano, com a Festa dos Moços, os Bernardes viram-se diante de um facto inesperado, que iria perturbar, por algum tempo, a vida do clã e de toda a aldeia.

 

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