Terça-feira, 17 de Outubro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. ALCOVITEIRO.

 

Uma tarde, perto da feira do Ver-o-Peso, João apeou do bonde e, ao se desviar dos burros, encontrou um parente distante, o primo Eulálio. A convite deste, foram até à beira do rio apreciar as vigilengas, que pareciam naufragar nas águas verde-musgo do rio Pará, na verdade um braço do Amazonas. As embarcações iam ou vinham, carregadas de balaios de cipó com frutas tropicais, as quais, como o estranho e arroxeado açaí, tinham nomes e sabores difíceis de explicar aos patrícios e forasteiros, tais como uxi, umari, pupunha, araçá...

 

Reis ouviu então do parente que, por mais idade, às vezes lhe dava conselhos de pai, a fatal pergunta – E então, Joãozinho, quando te vais decidir a casar? Por certo que ainda estás bem moço, mas não fica bem continuares assim, sempre às voltas com essas mulheres de certa rua da Campina ou dos becos que vão dar ao Largo das Mercês. Ô rapaz, cuida bem que, qualquer dia, ainda vais te ver com os cupins da tísica a te roer os pulmões! Ou bem pior: com a sífilis a transtornar a tua cabeça e... o resto, se me percebes.

 

Acontece que Bernardes, como trabalhasse demais durante a semana, suas noites de sextas e sábados eram consumidas em pândegas, na alegre companhia de outros rapazes da mesma idade, aos quais não faltavam o bom vinho e a cerveja fresca, de fabricação local. Tudo isso era compartilhado com as belas caboclas que faziam a vida fácil (pelo menos a deles, dos fregueses) em casas de porta e janela ou em sobrados decadentes, que ficavam nas ruas próximas ao cais ou às cercanias do comércio.

 

Era um homem discreto, de boa educação, mas pouco afeito aos modos elegantes da elite económica local, embora esta fosse, em sua maior parte, constituída pelos novos-ricos da borracha, a nata (ou malta) da qual ele fazia parte. Começava, porém, a se ressentir de uma vida social, onde pudesse conhecer as boas raparigas da terra. Decidiu então que já era tempo de frequentar os bailes da sociedade, os saraus familiares, assistir às revistas musicais como “O Seringueiro”, no Theatro Politeama e, de modo especial, às apresentações de óperas e operetas no palco do monumental Theatro da Paz.

 

Disso tudo, muito se encarregou Eulálio, com dedicado empenho. Pouco a pouco, introduziu o primo nas residências das melhores famílias da região, constituídas dos inevitáveis bacharéis, juízes, políticos, funcionários públicos e, especialmente, daqueles comerciantes que viviam à custa dos seringais, nas mais diversas formas.

 

Passou a ser recebido, também, por donos de terras do interior da província, que viviam em cidades nomeadas como as coirmãs lusitanas (Alenquer, Bragança, Breves, Chaves, Faro, Óbidos, Santarém, Viseu e mais que tais) e mantinham na capital suas mansões, a fim de nelas se instalarem, sempre que necessário. Nessas também refestelavam-se, no mor das vezes, os filhos varões a gozar a vida de estudantes no Colégio do Carmo, no Pré-Jurídico do Liceu ou na Faculdade de Direito ao Largo da Trindade, uma das primeiras criadas no país.

 

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Segunda-feira, 9 de Outubro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. BELÉM DO PARÁ.

 

Muitas cidades brasileiras foram feitas à imagem e semelhança de Lisboa, do Porto e de outras urbes de Portugal. Uma das mais aportuguesadas era Belém do Pará, situada perto da foz do caudaloso rio Amazonas e porto de entrada para a região amazónica. As ruas da Cidade Velha, onde ficam as igrejas da Sé e de Santo Alexandre, o Forte do Castelo (edificado onde e quando, em 1616, a cidade foi fundada), o Arcebispado e o Convento do Carmo, a formar o complexo histórico Feliz Lusitânia (antigo epíteto da cidade), foram abertas há muito tempo antes que Dom Pedro, Primeiro no Brasil e Quarto em Portugal, tentasse conciliar suas traquinadas mulherengas, na Corte do Rio de Janeiro, com as graves decisões políticas do país.

 

A forte presença de imigrados, uns dos Açores e da Madeira, outros beirões e trasmontanos, fazia aumentar ainda mais a expressiva influência lusa nos modos de falar e nos hábitos do dia a dia. Influenciavam até mesmo na culinária, em que o caldo verde e o cozido com legumes conviviam com a paca ao tucupi (ou pato, depois, mas sempre nesse caldo amarelo, extraído da mandioca); a maniçoba (com carnes típicas de feijoada, antigamente, também, com produtos da caça local, mas cozinhadas em uma pasta feita de folhas de maniva, após estas serem cozidas durante cinco dia para perderem a venenosa e mortal toxicidade); o tacacá (tipo de sopa com a goma de tapioca, tucupi, camarão e jambu, uma espécie de agrião do Pará, que deixa nos lábios uma sensação deliciosa); o sumo bem denso e cremoso do açaí, com farinha de mandioca; e outras iguarias primitivas, da culinária indígena.

 

As casas antigas exibiam suas paredes revestidas com azulejos da antiga Mãe Colonial e, apesar de suas ruas estarem situadas em terrenos planos, os sobrados com janelões pareciam recordar, e muito, os sítios da Alfama ou da Ribeira. Podia-se mesmo dizer que as casas da outrora Santa Maria de Belém do Grão Pará, ainda que marcadas por algum exotismo local, eram com certeza, como nos diz uma antiga canção, uma casa portuguesa. Nas residências mais abastadas, certamente ficavam bem, além do São José de azulejo, da sardinha e do bacalhau (às vezes trocado pelo seu primo de água doce, o pirarucu), o pão e vinho sobre a mesa (embora este último também desse lugar, no mor das vezes, ao sumo de cupuaçu, bacuri, taperebá ou outras frutas regionais).

 

Nos prósperos tempos da extração e comércio da borracha na Amazónia, que em nada melhorou a vida dos seringueiros, mas fez enriquecer os donos de seringais, atravessadores, transportadores e comerciantes de Manaus e Belém, a capital do Pará era uma das mais importantes e mais populosas do país. Conta-se, mesmo, que os novos-ricos da terra mandavam lavar, em Paris ou Lisboa, os seus fatos de puro linho.

 

Àqueles fins do século XIX, graças à riqueza que o áureo ciclo da borracha viera trazer à região, eram os tempos de embelezamento e reformas urbanas em Belém. Erguiam-se belos palacetes, tais como o Pinho, o Bolonha e até vistosos palácios, como os que serviram por muitos anos para a sede do Governo da Província e a da Municipalidade. Construíam-se prédios de ferro em Art Nouveau, como os mercados de carne e de peixe, no sítio portuário do Ver-o-Peso. Com seges e vitórias ainda a passear pelas ruas, os coletivos puxados a cavalo logo passariam a dar lugar aos bondes, como passaram a ser chamados, no Brasil, os elétricos ingleses (trainways).

 

ancoradouro.PNG

Ancoradouro do Ver-o-Peso, Belém do Pará (BR). Postal público. Autor desconhecido.

 

Essas obras grandiosas eram comandadas pelo célebre Senador Antônio Lemos, tais como a abertura de largas avenidas e praças ajardinadas. Estas fariam Euclydes da Cunha, o escritor de “Os Sertões”, declarar em 1904: “(...) Nunca esquecerei a surpresa que me causou aquela cidade. Nunca São Paulo e o Rio terão as suas avenidas monumentais, largas de 40 metros e sombreadas de filas sucessivas de árvores enormes. Não se imagina no resto do Brasil o que é a cidade de Belém, com seus edifícios desmesurados, as suas praças incomparáveis e com a sua gente de hábitos europeus, cavalheira e generosa. Foi a maior surpresa de toda a viagem”. (Quanto aos hábitos europeus, leia-se: os de portugueses, franceses e, com menor influência, ingleses).

 

Somavam-se a isso as belas alamedas do Bosque Municipal, um enorme quadrado onde até hoje se concentra, com espécimes da flora e da fauna, uma síntese da floresta amazónica; e o Museu Paraense, recém-fundado no então bairro da Rocinha, onde pesquisadores de várias procedências dedicavam-se aos estudos da natureza e do homem na Amazónia, sob a direção do cientista suíço Augusto Emílio Goeldi.

 

No Theatro da Paz, cujo interior é similar, em luxo e arte decorativa, a muitos espaços cénicos da Europa, apresentavam-se companhias inteiras de ópera, francesas e italianas, que seguiam depois para o teatro de igual porte e beleza em Manaus, o outro grande centro comercial da borracha. Tais elencos vinham em paquetes ingleses e alemães a cruzar o Atlântico, em linha direta ao Norte do país, até ao movimentado porto de importações e exportações da Baía de Guajará, sem ao menos passarem pelos de Salvador ou Rio de Janeiro, a então Capital Federal.

 

 

  1. MENINA FLOR.

 

Foi antes de começar uma soirée no monumental teatro, inaugurado há alguns anos no Largo da Pólvora, que João Reis, recém-enriquecido com o comércio da Hevea Brasiliensis, ao dar um breve passar d’olhos pelo interior daquele verdadeiro templo cénico, avistou, no camarote onde se alojava a família de Jacob Benzecri, um dos mais respeitáveis capitalistas da província e com o qual João mantinha transações comerciais, uma linda e elegante rapariga.

 

A menina estava a conversar com a Estherzinha, outra bela jovem, filha de Jacob. Reis perguntou ao Raimundo Peixoto, o Dico, um amigo caboclo que ora o acompanhava, quem era aquela moça que tanto lhe chamara a atenção. Dico falou que seu nome era Florinda de Morais Dias, à qual muitos rapazes chamavam de Flor Linda e era filha de Joaquim Lourenço Dias, um compatriota de Reis, natural de Aveiro, de mãe alemã e pai português. Este era dono da Loja da Lua, armazém de tecidos à Rua XV de Novembro, mas…

 

– Mas, mas… mas o quê, ó raios, ora me diz de uma vez!

 

O amigo aconselhou – Pisa de mansinho no terreiro, que o galo velho alemão cisca bravo no quintal! É um cão de guarda com as filhas! A mãe delas já se foi na epidemia de varíola e o Lourenção tem que se fazer em dois. As filhas só vão às festas com o pai do lado. E tome a bengala! – Bengala?! Mas o que é que essa bengala tem a ver com as meninas? – Raimundo riu e continuou – É que o velho ameaça ou chega mesmo a dar umas bengaladas em qualquer rapaz que venha falar com as filhas… Quanto ao que mais importa, o Lourenção está muito bem de vida; e a educação primorosa que a pequena recebeu, também se deve aos bens deixados por sua mãe e por seu avô materno.

 

Ainda que, para João, essas questões patrimoniais não fossem, àquela altura, o mais importante, soube então que o avô da “Linda Flor” tinha sido proprietário de uma fazenda enorme, que ia desde os fundos da Basílica de Nazaré até à Estrada de São Jerônimo (uma enormidade de terras), mas os Estêvão de Morais quase ficaram sem nada, porque o único filho homem, tio dessa atraente donzela, deu cabo à metade da fortuna do pai, solapando-a com mulheres e jogos.

 

As perspetivas não eram muito animadoras, mas João Reis, embora não fosse dado aos jogos de azar nas casas da Rua da Trindade, onde a roleta corria solta, gostava de arriscar no carteado da vida. Quando olhou novamente para o alto, percebeu que fora visto por Jacob e o cumprimentou. Acenou também à Esther e à bela filha do bravo bicho brabo. A jovenzinha, após um breve aceno, olhou para ele e, pondo o leque de patchouli a lhe tapar a boca, cochichou algo com a amiga. Ambas riram, sem tirar os olhos do rapaz, o que o deixou constrangido.

 

Estava decerto curioso em saber do que andavam a falar e do que lhe havia de ruim, se os bigodes, as suíças, o nariz… Ou talvez algo bom, mas o Dico, ao seu lado, deixou-o ainda menos à vontade – É a tua aparência, João Reis, como te cuidas mal! – e a troçar – Acho que devias ler o “Compêndio de Civilidade” do bispo Dom Macedo Costa.

 

 

teatro da Paz.PNG

 

Theatro da Paz, Belém do Pará, 1878. Postal público antigo. Autor desconhecido.

 

 

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Terça-feira, 26 de Setembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. HOMEM DE BEM.

 

Há vários dias, Papá rondava os passos de Aurora, como a querer dizer alguma coisa. Uma noite, afinal, quando ela estava a sós com ele e Florinda, João Reis tomou fôlego e, após algumas baforadas de seu finito e já degustado havano, lançou à filha um olhar afetuoso – Bem sei, minha boa Au­rita, que não temos costumes iguais aos dos ciganos, mesmo desses aí em frente que, de tão portugueses já se fizeram, nem parecem mais ser dessa raça – e acentuou dessa raça. Mesmo sem distinguir a alusão sobre raça e não etnia, com o Reis a desconsiderar o que é uma nação cigana, Florinda lançou ao marido um olhar respeitoso, mas de insinuante reprovação pelo tom preconceituoso, que, a ela, nunca sabia bem.

 

Entrementes, a rapariga ficou a pensar – Pronto, cá está de novo o Papá, a me falar do Hernando! Mas o que será que o incomoda, dessa vez, se já nem sei mais daquele gajo, a andar por aí, de lés a lés, pelo mundo? Se eu mesma já cá o tenho, ao peito, como página virada de um velho álbum de recordações?! – e Reis prosseguiu – Espero que estejas a me compreender. Quero falar, na verdade, de uma prática de meu tempo, já pouco usada hoje em dia, mas que muitas famílias ainda gostam de concertar. Afinal, se sou teu pai, e se te eduquei o melhor possível, seria injusto se eu não pudesse, ao menos, aconselhar-te sobre um homem de bem para teu marido.

 

Aurora alcançou, afinal, aonde o pai queria chegar. Em­palideceu. Ainda que sempre a demonstrar uma notória bon­dade, ainda que a ira lhe houvesse, mesmo, como um feio pecado capital, um tantinho de ódio lhe acolheu o coração. Ainda mais quando veio a fatídica pergunta – Conheces o Álvares, aquele distinto senhor que é dono do armazém “O Tesouro Trasmontano”? – Papá tragou mais um pouco do havano e continuou – É um homem ainda em pleno vigor e de muitos bons costumes – ao que Mamã ajuntou – Sua mulher, pobrezinha, que Deus a tenha, já lá se foi para o Céu, nas garras do corvo da Pneumónica.

 

Calada estava, a rapariga e emudecida ficou, horrorizada com aquela ideia dos pais. O senhor Álvares era um homem bom, bem ajeitado e não de todo feio, apesar de gorducho e sem pescoço. Além do mais, tinha lá sua dinheirama nos cofres e nos bancos do Porto, mas... deveria estar mesmo a querer uma rapariga que lhe pusesse a mesa, lavasse as roupas íntimas, cuidasse de seus fatos e suspensórios… Não conseguia ela antever como, após as bênçãos de Deus, po­deria chegar ao sobrado da Rua do Sol, onde morava o pre­tendente e levar como dote um buquê de carinho e algumas migalhas de amor.

 

Não fora por amar e ser amado, conforme a própria Mamã contava, que João Reis se casara com a sua Menina Flor?

 

 

https://www.chiadoeditora.com/livraria/chaves-daurora

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Terça-feira, 12 de Setembro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. CARITÓ.

 

Quando Aurora fez 20 anos, a ausência de um rapaz de boas intenções em sua vida começou a preocupar os pais, além de chamar a atenção dos parentes, aderentes e meros conhecidos. – Te cuida, Aurita, olha que vais acabar ficando pra tia – ou, como dizia Mamã, à moda de sua terra natal – Vais acabar no caritó – o que em Tupi, língua dos índios brasileiros, vem a ser “uma gaiola para os pássaros”, mas na linguagem popular significa “ficar solteirona”.

 

Ora pois, engaiolada era a vida de muitas senhoras fla­vienses que, em rodas de chá, a degustar os pastéis de ba­calhau e as bolachas de nata, repetiam, a suspirar, as frases recolhidas de algum desconhecido – “Ai-jesus, que o casa­mento vem a ser mesmo uma prisão! No início, um doce cár­cere; alguns anos depois, uma clausura à qual ele e ela, no dia após dia, acabam por se habituar; já nos anos finais, é um porão sombrio e húmido, masmorra onde só as mágoas e queixumes servem de lenha para aquecer o frio”.

 

A tudo isso, porém, Mamã contestava – Pois eu e o meu Reis, embora não tanto como El-Rei Dom Manuel I, esta­mos sempre venturosos.

 

Diante de tais falatórios, Aurora se constrangia e tenta­va dar atenção aos possíveis pretendentes. Em belos papéis coloridos, circundados por figuras de flores ou anjinhos a tocar flauta, trocava cartas com aquele que estivesse na vez de um pretenso namorado. Não eram cartas portuguesas tão belas, como as de Soror Mariana Alcoforado, mas, nas suas, punha-se a transcrever, com sua perfeita caligrafia, versos de João Ruiz Castelo Branco:

 

“Senhor, me partem tão tristes

os olhos por vós, meu bem

que nunca tão tristes vistes

outros nenhuns por ninguém”

 

Nem essas líricas palavras poderiam, no entanto, expres­sar o que de facto lhe ia n’alma. Carências, latências, vazio. Acabava por ocorrer, afinal, que qualquer Hans sem Gretel que se perdesse em seu bosque, a bruxa loura deitava ao cal­deirão em poucos dias. Ainda por cima, pedia de volta suas cartas com florezinhas, anjinhos, versinhos e o mais.

 

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Terça-feira, 29 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. POPÓ.

 

Afonso só largava os estudos, a essa altura, para namori­car em casa da jovem amada, a menina Maria Ritinha, filha de um dos melhores clientes de João Reis. Papá, no entanto, nem precisava dizer ao rapaz que, às nove, já deveria estar de volta à Quinta. O jovem cumpria isso em geral bem mais cedo, por lhe desgostar a chateza repetida de ficar a conver­sar com a rapariga enquanto, a uma pequena distância, a avó da menina fazia tricô. Essas agulhas e fios serviam apenas, na verdade, de mero pretexto para a vigilância familiar e isso, militarmente, aquela senhora exercia do alto de sua tor­re de menagem, uma velha cadeira de balanço.

 

E havia Popó, o cão.

 

O animal postava-se debaixo do sofá onde os pombinhos, a uma distância quilométrica, mal podiam arrulhar e esticar as penas, a fim de ao menos se tocarem nas pontinhas das asas. Penares do pobre Afonso! Já de si retraído, ao tentar se aproximar um pouco mais da Ritinha, ouvia o rosnar e até os latidos ameaçadores do maldito cão. Ainda mais que o ra­bugento Popó não parecia gostar nem um pouco de Afonso, malgrado as tentativas de este se fazer amigo do animal. Tal amizade, evidentemente, bem viria a calhar para os momen­tos em que a guardiã fosse beber ou verter água, mas a velha sempre retornava com um sádico sorriso de tranquilidade, confiante na guarda de seu cão.

 

Até que, certa noite, o Popozinho, algum tempo já decor­rido no exercício de suas funções de segunda sentinela do namoro de Afonso e Ritinha, achou por bem (ou melhor, por mal) morder levemente a perna do rapaz, quando este, como um casto vampiro, tentava dar um singelo beijo na jugular da rapariga.

 

Foi a gota d’água para que, de uma vez por todas, o rapaz desse por terminado o entediante namoro. Não soubesse ele que, em muitas outras casas da vila flaviense, havia moços e raparigas a vivenciarem a mesma situação diante de mães, tias ou avós. Só que alguns tinham mais sorte, pois muitas dessas vigilantes cochilavam e até roncavam com frequência.

 

Além de que, em geral, não havia Popós!

 

 

  1. VOLTA AO LAR.

 

Até quando levarás contigo as chaves do teu segredo? – a rapariga perguntou a si mesma e lançou um olhar à Torre, como se pudesse deixar lá dentro e para sempre os seus mis­térios, não gozosos mas dolorosos e pudesse fazer, daquele amontoado de pedras, uma sólida e muda confidente dos seus infortúnios.

 

Da amurada, olhou para baixo e, mais uma vez, o punhal do pior dos pecados, a cujos pecadores a Igreja nega os san­tos sacramentos, trespassou-lhe a mente. Lembrou-se então da bela, nobre e virtuosa Dueña Conxeta de Albuez.

 

O esposo de Dueña Conxeta, ensandecido pelos ciúmes, mandara encarcerá-la em uma torre de menagem, junto com os filhos que ele dizia não terem saído de seus fecundos e viris instrumentos.

 

Deu-se então que, a uma triste e fria manhã igual a esta, a pobre mulher aproveitou-se de uma falha dos guardas, su­biu até ao cimo da guarita e, de mãos dadas com os infantes, atirou-se ao abismo. Não sabia a desgraçada que, no dia se­guinte, estava a chegar de Braga o seu confessor espiritual, com o fito de protestar pela inocência da infeliz devota.

 

“Que esta água vá curar-te os males d’ alma” – Ainda a lembrar as palavras do doutor Guimarães, Aurora tomou o caminho de volta a casa, pela Rua do Bispo Idácio e, de­pois, pela Santo António. Ao passar perto de uma venda de louçarias finas, viu Hernando a palear com o caixeiro dessa loja e quis logo ter ao cigano, para lhe dizer das boas novas. Apesar de que estas, ora pois, até que de novas se poderiam chamar, porém boas... estavam longe de ser.

 

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Conteve-se. Esgueirou-se furtiva, para não ser vista mais adiante pelos empregados de Papá, que estavam a abrir o armazém da Rua das Couraças. Desceu pela Rua do Rio, seguiu pela Alameda Trajano, resolveu margear o Tâmega e cortar caminho pelas Poldras, como algumas vezes fizera com a Zefa em miúda, quando iam buscar Mamã à casa de tia Hortênsia, na Raposeira.

 

Já do outro lado, perto da Azenha dos Agapito, passou por um sítio beirão do rio, onde as lavadeiras já estavam a começar o seu labor de ensaboar, esfregar, bater, lavar, tor­cer e estender roupas brancas nos areais.

 

Por entre elas, uma miúda com o vestidinho roto e um bibe remendado, um pinguinho de gente com um chapéu de palha na cabeça, carregava um regador quase do seu tama­nho, enquanto as da lavagem cantavam:

 

“O cantar não alivia

penas no meu coração

eu tenho cantado muito

e as penas se me não vão”.

 

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Lavadeiras no Tâmega.

 

Aurora não queria voltar à quinta, onde seu futuro, ago­ra, era um xis a cruzar raios de incógnitas sobre o coração. Havia um nó na garganta, um enovelamento em seu cor­po, um emaranhado de fios em sua vida, dos quais ela não conseguia o vislumbre de quando e como desatar. Tomou o Caminho das Poldras até à Rua da Solidão, essa via sombria que, como o senhor Durão da Lenda dos Frades Santos, faz muito jus ao nome, uma estradinha deserta entre muros ex­tensos, onde apenas os musgos e uma ou outra casa esprei­tam os passantes. Ao se encontrar na Rua do Caneiro, perto da Quinta, hesitou em seguir adiante. Logo porém se fez coragem e chegou à Avenida D. João I.

 

Deu volta ao muro da casa, entrou pelos fundos do pomar, atravessou-o de novo entre as macieiras, laranjeiras e pesse­gueiros e se atirou chorando aos braços de Zefa, que se pôs também a inundar, com tâmegas d’olhos, o piso da cozinha.

 

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Terça-feira, 15 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. FRADES SANTOS.

 

Durante algum tempo, em tempos que já lá se foram, por volta da meia-noite, almas penadas de frades devotos apa­reciam, entre as árvores do Campo do Tabolado, junto às fontes, a lerem seus breviários, sob a luz de velas que se prendiam aos capuzes, na cabeça de cada um.

 

– Vinham envoltos em seus hábitos de burel e tinham – assim contava Rodrigo, a dramatizar – as mãos e as faces esbranquiçadas! Círculos escuros em volta dos olhos e da boca! Estavam presos, uns aos outros, por correntes que se arrastavam pelo chão! E entoavam… o cântico dos mortos!!!

 

Tomou um gole de Porto, fez uma pausa teatral e, em seguida – Essas terras pertenciam ao senhor Paulo de Maga­lhães, organista da Igreja Matriz. Pois o pobre homem, e to­dos de sua casa, viviam apavorados com o que viam. Aliás, já acreditavam até no que não viam e, piamente, davam fé ao que os outros contavam. E quem conta um conto, aponta dois – ao que Afonso motejou – Mas tu, Rodriguito, sempre nos apontas mais de quatro!

 

O primo riu – O que se deu é que os empregados já não saíam mais à noite. Alguns até chegaram a adoecer de febres e… – o narrador fez um sorriso maroto – de disenterias. Viviam a correr lá pra casinha... – motivo pelo qual riram­-se todos. Rodrigo tomou mais um Porto e prosseguiu – A mulher de Magalhães disse ter visto a alma de um frade a lhe pôr a língua para fora e pegou umas tremuras de maleita. Só ficou boa à custa de penitências e vultosas dádivas de dinheiro que ela ofereceu ao convento, o qual ficava logo ali, coladinho às propriedades do marido, em terras que se es­tendiam até um ponto do caminho para Vilar de Nantes. Fez isso a conselho dos próprios frades dessa irmandade. Estes, aliás, ao contrário das aparições, estavam muito bem vivos e com bastante saúde.

 

A garrafa do Porto estava cada vez mais ébria de va­zio, quando o primo, bem sóbrio, pareceu concluir – En­fim, eram tantos os problemas com essas almas penadas, que o tal organista preferiu partir para sempre de Chaves, com toda a família. – Fez outra pausa e, a julgar que fosse esse o final da lenda, os mais reagiram. O narrador prosse­guiu – Calma, calma, ainda não acabou. O facto é que, toda vez que perguntavam a esses monges sobre as almas pena­das, eles se diziam muito preocupados. No século anterior, uma peste havia dizimado quase toda a congregação que ali praticava. Seriam então de alguns desses frades, com a sua triste e pestilenta memória, as almas que agora estavam ali a assombrar?

 

Já então a pequena Arminda esbugalhava os olhos, en­quanto o contador de histórias seguia o curso da narrativa, assaz interessante – O próximo a se tornar proprietário das terras do organista chamava-se Francisco Durão. E aquele, meus primos, fazia jus ao nome! Saía sozinho pela noite, madrugada afora, devidamente provido de armas e pronto a enfrentar, fosse quem fosse: os vivos, os não vivos, os mor­tos e os não mortos. Pois não é que as almas, desde então,  nunca mais apareceram? O valente Durão ficava a gritar “Ó seus fradecos penados, que raio de almas cagadas são es­sas, que têm medo de levar espada ao cu?

 

Mamã, de imediato, externou-se ofendida nos ouvidos. Rodrigo pediu desculpas e tentou corrigir o chulo palavrea­do – Cá me perdoem, meus caros, na verdade era assim que ele gritava: “quem é que têm medo de levar ferro ao bucho?” – mas apesar do conserto feito, o efeito desconcertava. Al­guns risinhos nervosos tentaram disfarçar o que as faces rubras revelavam. Então, o primo apressou-se em finalizar – O facto é que, mesmo sem a companhia de outros valentes como ele, para enfrentar essas almas tão santas, mas pena­das, Francisco Durão continuou, por muito tempo ainda, a cultivar a quinta com as próprias mãos.

 

A essa altura, já todos perguntavam – e as almas? – ao que Rodrigo sorriu – Ora, pois, o que se deu a conhecer, algum tempo depois, é que esses frades (e estou a falar dos vivos, é claro), colhiam frutos para seu uso diário nas terras vizinhas às suas, ou seja, às do convento e vendiam os exce­dentes. Não satisfeitos com as cercas de sua monástica pro­priedade, usavam a Murada do Campo da Roda, para se es­tenderem até onde mais pudessem. Um visitador da Ordem acabou com o abuso em 1689, pois os religiosos estavam a se utilizar de uma propriedade fora do convento, o que era contra as regras da Ordem.

 

Concluiu, enfim, o narrador – Na esperança de que essas terras fronteiriças voltassem a ser devolutas, os frades pin­tavam o rosto de branco com uma mistura de farinha e clara de ovo, cercavam os olhos e a boca de carvão e faziam a encenação das almas. – Os próprios frades?! – Eles mesmos! Acompanhavam-nos, decerto, alguns serviçais do convento, que se prestavam de bom grado a esse teatro de Grand Guig­nol. O certo é que, depois das incursões noturnas do novo proprietário, as almas dos santos frades nunca mais vieram assustar ninguém. Certamente tinham medo das cacetadas e golpes de espada do ousado dono da quinta, cujo nome era... como se diz? Um pleonasmo!

 

Florinda e as filhas riam, a não poder mais. Logo, porém, Mamã pôs-se a repreender os excessos anticlericais desse parente tão contestador – Meu bom Rodrigo, és mesmo um pândego, mas não fiques a desrespeitar a nossa religião. Cui­da da tua alma, é que é, pois todos nós, um dia… – e o gaiato retrucou, com uma falsa seriedade – Não se preocupe, Tia Flor, quando ouvirem passar ao Raio X umas correntes e, ao chegarem à janela, virem uma aparição toda de branco e com uma vela à cabeça… podem rezar pelo pobrezinho do primo Rodrigo, uma pobre alma que se perdeu… – e, a rir com gosto – perdeu-se, sim, mas logo se foi achar de novo, na Madalena, muito vivo e a bebericar, com os amigos, da­quela água que mata o bicho!

 

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Terça-feira, 25 de Julho de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. PRIMAVERA.

 

A florida estação veio com bons auspícios, pois a Pneumónica já lá se fora por aí, quiçá para o mundo do Não Mais. Adiava-se, assim, para o incerto porvir de cada sobrevivente, a chegada da indesejável visitante.

 

Em Chaves, na cauda do rasto dessa virulenta devastação, sem poupar ricos ou pobres, miúdos ou anciães, pairava, por toda parte, a saudade das pobres criaturas que agora estavam a dormir no Campo Santo. Foi, portanto, uma vila sem ânimo e sem vida, aquela que os Bernardes reencontraram, ao voltar para a quinta do Raio X. Os rapazes retomaram suas idas ao Liceu e as meninas voltaram a ter suas aulas de piano e outras instruções.

 

Ainda que parecessem lágrimas de jacaré, como dizia Mamã, piedosas e muitas foram as secreções lacrimais que as raparigas derramaram pela pobre Mademoiselle Margot des Saints. A lecionista de Etiqueta não pudera brandir sua palmatória no ar e espantar a “maladie”, nem tampouco gritar, com sua voz de gralha, um enérgico “laissez-moi, Maudite, parce que c´est très inélégant partir avec toi!” As meninas também renegaram, com veemência, o disse-me-disse de algumas pessoas, segundo as quais, após Mademoiselle ser enterrada, descobriu-se que a veneranda professora (em verdade, em verdade vos digo: muita gente alegou não ser isso, de modo algum, um mero dichote de humor negro) nascera em uma aldeia perto de Nazaré e recebera ao batismo um nome bem lusitano: Margarida dos Santos.

 

A instruir como devem se comportar as raparigas em sociedade, mas sem a tirania das mãos à palmatória, lá estava agora o Monsieur Pierrot Béjart (um sueco de origem francesa, que Afonso e os colegas, a essa altura, ficavam a se perguntar se ele não seria também algum Pedrinho de Beja, do Alentejo). Seus modos refinados demais, delicados demais, amaneirados demais durante as instruções, faziam troçar os rapazes e gracejar as criadas. Até a boa Mamã escondia, com discrição, um riso de rajada entre as varetas do seu leque de Sevilha. Fora das aulas, porém, ele mantinha uma postura bem mais próxima daquilo que as pessoas convencionam ser masculina.

 

Mais insólito ainda foi quando ele apresentou aos Bernardes sua Ingrid, a estranha e corpulenta esposa nórdica, mãe de seus três filhos, cuja postura forte e firme demais e uma voz bem mais grossa que as de muitos cavalheiros de Chaves, causavam sempre certa estranheza, mas a ninguém e por nada alcançava, senão comentar (com respingos de xenofobia e preconceito) – Esses escandinavos... Tem que ser! – e alguns apenas ficavam a sugerir que, naquele estranho par de Adão e Eva, parecia haver alguma costela, serpente ou maçã trocada pelo Criador, a um momento em que Ele estivesse entediado, distraído ou com uma simples vontade de brincar com os efeitos da Criação.

 

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Terça-feira, 11 de Julho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. BOLO-REI.

 

A fatal novidade foi bola de canhão sobre a fortaleza dos Bernardes. Nessa noite, quando foram comer o tradicional bolo-rei com a fava oculta, em que o parente que comer a fatia premiada fica obrigado a oferecer o bolo do próximo ano, coube a Florinda ser sorteada para “pagar as favas”. Começou a chorar, todavia – Que tens, Menina Flor? – Oh, Mamã, porque estás a chorar? – mas ela nada respondeu. Chorava com medo de, no próximo ano, já não estar mais viva para cuidar dos filhos e do marido. Ou, pior ainda, apenas ela sobreviver e estar a cuidar, sozinha, das campas de todos eles.

 

João Reis concertou com Manuel que este voltasse para Chaves, a cavalo e por lá ficasse, junto à esposa e aos filhos. Um moço corajoso da aldeia, que o Reis considerava menos um audaz e mais um temerário, já se oferecera a conduzir o landó com o Papá e a família, de volta à vila, quando se fizesse necessário.

 

Trancaram-se todos na quinta, inclusive Bobadela, a mulher e os miúdos. Valiam-se das limonadas de Florinda, ou dos três cálices de Porto que o patriarca distribuía, diariamente, até mesmo à Mindinha e aos miúdos de Crispina, pois diziam e, a alguns, até gostava comprovar, ser tal vinho uma panaceia para todas as imunidades. No mais, as pre e providências do Papá garantiriam, por um bom tempo, os complementos necessários à autossubsistência da quinta e, quando alguém batia ao portão – Ó de casa, pelo amor de Deus – respondia-se – O que quereis, faz favor? – mas atendiam ao suplicante a certa distância, deixando no jardim o que lhes fora pedido.

 

Felizmente, os ares perfumados daquela aldeia não agradaram ao grego barqueiro do Hades e, em Sant’Aninha de Monforte, apenas alguns aldeães adoeceram e uns dois ou três mais é que tiveram de enfrentar Cérbero, o cão que guarda o mitológico Inferno.

 

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Terça-feira, 4 de Julho de 2017

Chaves D' Aurora

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  1. FESTA DOS MOÇOS.

 

A “Festa dos Moços” é uma tradição folclórica de Sant’Aninha de Monforte e de outras aldeias da região. Trata-se, possivelmente, de uma herança de ritos ancestrais que tiveram suas origens nos rituais pagãos de inverno, quando os romanos ou, talvez, outros povos d’antanho, celebravam um novo ciclo da produção agrícola. Em consonância com isso, a Festa significava também um rito de passagem dos moços para a idade adulta.

 

Durante dois dias, os jovens solteiros se tornam os senhores da vida na aldeia. A festa começa ainda bem cedo, com o gaiteiro e sua gaita-de-foles a acordar os aldeães. Surgem

 

então os “caretos”, criaturas estranhas, de trajos bizarros, a exibirem caras diabólicas e a fazerem barulho com chocalhos, pendentes de fitas coloridas. Dançam, pulam, rodopiam

 

e fazem grande algazarra. Quase tudo lhes é permitido e, sem poderem ser identificados, por causa das máscaras, cometem de tudo o que lhes der na veneta. Invadem as casas sem qualquer cerimónia e se põem a roubar vinhos, pães, chouriços, morcelas, presuntos e o que mais encontrarem de aproveitável para o seu festejo juvenil.

 

Foi a uma dessas intrusões domésticas, que alguns moços festeiros viram-se diante do tal acontecimento, trágico e inesperado.

 

 

  1. MOÇOS E FACTOS.

 

Há algum tempo que toda a gente se perguntava – Mas ó pá, em que chão há de ser que a Rosa Manteigueira e o filho dela andam a gastar os tamancos? Ai, que ninguém mais os viu arrastar os seus socos por aí, nem se despedir de ninguém. Será que ela foi ao Brasil, para se encontrar com o marido, que nunca mais deu as novas por cá e, se calhar, o maroto já deve estar às voltas, por lá, com outro cobertor quentinho ao pé da orelha?

 

A velha Rosa morava em um fim de rua, já ao termo da aldeia, no extremo oposto ao da quinta de João Reis. Era mais uma dessas viúvas de marido vivo, como se dizia em Monforte. O filho era um moço mirrado, de ar doentio, mas que sempre estava a ir e vir de Chaves, a vender as manteigas e queijos que a mãe fazia.

 

Sempre na radiante alegria que lhes é própria, os moços da Festa resolveram invadir a casa da manteigueira, com o propósito de verem se esta, ao se ausentar com o filho, sabe-se lá para onde, não teria deixado alguns queijos, vinhos e conservas. Ao entrarem, todavia, depararam-se com um quadro de peste medieval. Um rapaz que, à primeira vista, os festeiros pensaram tratar-se de um africano, por enegrecido que lhe fora o rosto, jazia morto ao lado do catre de Rosa. A esta, igualmente, os deuses não favoreceram melhores condições.

 

A fatídica Pneumónica chegara, enfim, a Sant’Aninha de Monforte. Desnorteados pelo pavor, os jovens puseram-se, de imediato, a fazer uma outra festa, a do Fogo. Reduziram a cinzas tudo o que, lá, cheirava a morte.

 

Naquele janeiro de 1919, a Festa dos Moços envelheceu ali mesmo.

 

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Terça-feira, 27 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. RAMOS.

 

Nessa noite, não foram logo dormir. Bobadela, o caseiro, havia sugerido que todos fossem assistir a um auto que se levava ao Largo da Igreja, antiga tradição nos festejos de Natal, em algumas aldeias de Monforte – “Os Ramos”.

 

Todos acharam muito interessante a encenação desse auto, um costume passado de geração a geração, ainda que os Bernardes ficassem pouco tempo a presenciá-lo. É que os espetadores assistiam a tudo em pé e João Reis logo percebeu que aquele teatro de Natal ia durar por toda a madrugada.

 

A encenação desses Autos abrangia toda a vida de Cristo, como foi muito bem descrita por Heitor Moraes da Silva, em “Autos do Natal em casas de Monforte”. Como João Reis supunha, começava depois da Missa do Galo e durava a madrugada inteira. Aos aldeães, em todos os dezembros, gostava muito assistirem, com devoção, a mais uma repre-sentação dos Ramos, como se as máximas e conselhos do texto fossem a palavra de Deus. Alguns até já sabiam de cor várias passagens.

 

A apresentação dos Ramos compunha-se, não só de um, mas de 17 pequenos autos, com cerca de 100 personagens ao todo e um natural revezamento de atores. Estes, malgrado o seu total amadorismo, desempenhavam seus papéis com muita seriedade e fé religiosa. Suas vestes eram feitas por eles mesmos ou alugadas na cidade e os aldeães começavam os preparativos vários meses antes. Após o duro trabalho na eira e no lar, dedicavam suas noites de outono a copiar os diversos papéis, escrevendo, com sua pouca formação escolar, ao modo como se falava na aldeia. Os que não sabiam ler (e eram quase todos) aprendiam de ouvido, pela repetição dos letrados. Os ensaios limitavam-se a cada um dizer sua parte decorada, ajudado pelo “apontador”. O resto era o que viesse de inspiração à hora, de acordo com o maior ou menor desembaraço de cada um.

 

O primeiro auto era o “Auto da Criação”, em que o Anjo assim dizia, em determinado momento – “A Santíssima Trindade / ave eterna incriada / determinou fazer tudo/ e tudo fazer do nada.” – E sobre o fruto proibido: “Porque se nela tocardes / pra vós será coisa dura / Adão irá desterrado / E Eva pra sepultura”. Mais adiante, Adão falava para Eva – “Olha-me para estas barbas / que mas deu a Providência / elas por si só requerem / respeito e obediência”. (…) “Depois de seres mulher / ninguém o pode duvidar / que com tuas astúcias / a qualquera podes enganar.” Expulsos do Paraíso, os dois se queixavam da aspereza da terra – “Pois ainda trabalhando-a / fica ela de tal casta / cria ervas como mãe / e silvas como madrasta”.

 

Seguia-se o “O sacrifício de Abel e Caim”, em que este último, desesperado, já em seus momentos de agonia, ouve o Demónio antecipar o que é o Inferno que o espera – “(…) É uma casa / de portas encantadas / para entrar estão abertas / e pra sair estão fechadas. / Reparai bem, pecador / isto é bem mais do que assim / se quereis salvar-vos / não vos finteis em mim.”

 

No terceiro, o “Auto dos Desposórios de Nossa Senhora”, Maria diz ao Anjo – “Se é vontade do Altíssimo / o que voz me mandais / estou pronta a obedecer / ao que me detremenaes.”

 

No “Auto da Anunciação”, percebe-se um latim estropiado ao longo dos anos: “Ave-maria / graça plena / Domenestéco / benedita tu és / entre mulierevos”...

 

No “Auto da Visitação”, José e Maria procuram um abrigo e todos lhe negam – “Marchai-vos braigeiros / não estou para treta / se quereis pousada / ide à estalaige da preta.” E a preta despacha-os, sem papas na língua – ”Se vosa trazer dinheiro / mim dar a vosa o que comer / que mim não ter nada pra dar / ser tudo para vender.” Lá pelas tantas, um pastor oferece vinho a uma camponesa – “Queres uma pinga de vinho / que levo nesta cabaça?” – e ela – “Ora o vinho é coisa santa / hei-de meter muita graça” – ao que, o pastor – “Toma lá, mas tem cuidado / que senão não atinais / que os homens embebedam-se / e as mulheres inda mais”.

 

Nessa mesma noite, havia também o “Auto das Charoleiras”, em que as donzelas entram no palco portando charolas, espécie de andor com imagens religiosas e as “Pastoradas”, que era a parte cómica. Em outros tempos, quando os autos de Ramos eram apresentados dentro da igreja, as Pastoradas representavam a ”parte de fora”, evidentemente profana. Um dos quadros mais divertidos era o dos pastores galegos, a falar e a cantar em sua língua. Toda a comicidade das Pastoradas, porém, apesar de alguns ditos picantes de ingénua malícia, obedecia a uma linha equilibrada de recato primitivo e comedimento aldeão.

 

À altura da passagem do ano, com a Festa dos Moços, os Bernardes viram-se diante de um facto inesperado, que iria perturbar, por algum tempo, a vida do clã e de toda a aldeia.

 

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Terça-feira, 20 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. NATAL EM MONFORTE.

 

Nevava lá fora, em Sant’Aninha de Monforte. Para quem olhasse do alto da torre da igreja, as pessoas a caminho da Missa do Galo, entre as quais, todas as do clã dos Bernardes, pareciam manchas negras a se moverem sobre a neve. Chegara o dia em que se comemora o aniversário mais festejado, na maior parte do mundo: o nascimento do Menino Deus. Papá dissera que lá em baixo, em Chaves, seria esse um dos mais tristes dezembros, pois até o Pai Natal estava com medo de descer pela chaminé e se deparar com a Pneumónica. Alguns riram e Papá ralhou, dizendo que não tivera a menor intenção de fazer graça, ainda mais a se valer, como remoque, dos tão dolorosos factos que estavam a vivenciar.

 

Já que o grande presépio franciscano da família havia ficado na quinta do Raio X, Florinda e as filhas improvisaram, ao pé do pinheirinho, um arranjo de figuras meio toscas, de papier-maché, uma arte feita com cola e jornais molhados, que Mamã aprendera com as freiras do Colégio Santo António, em Belém do Pará. No conjunto de tão singela arquitetura, compensava-se a falta do original com o lago representado por um caco de espelho entre pedrinhas, o poço de madeirinhas feito por Afonso, com um dedal a servir de balde, e o jardim com musgos verdes e flores de papel encarnado. Nos pequenos caminhos, feitos de serragem tingida com água e papel acastanhado, punham-se alguns pequenos biscuits que, desbeiçados, ou com algumas partes a reajustar, haviam sido encontrados por cá e acolá, nos quinteiros de Sant’Aninha e arredores.

 

À ceia da consoada, Papá e Mamã ergueram-se, junto com os mais, inclusive os caseiros, os filhos destes e as criadas (sentados também à mesa, como era costume, em tais ocasiões) e se uniram em oração por todos os que ali se achavam. Rezaram também por sua Aurélia, pelos demais parentes e amigos que estavam enfermos em Chaves (com certo alguém incluído, de modo silente, nas preces de Aurora) e pelos que, como a querida tia Hortênsia, não foram nem de leve atingidos pelos dardos da cruel Pneumónica (e suplicavam que, por certo, jamais viessem a sê-lo). Amém! Por fim, todos pediram misericórdia e descanso eterno aos mortos. Concluiu Florinda, em voz alta – E Deus nos livre das más horas e do mau tempo!

 

Solene, o patriarca partiu o pão com as mãos e deu uma generosa côdea a cada um dos comensais que, entre goles de jeropiga (ou leve sangria, para os não adultos), entremeavam as migalhas às iscas de bacalhau e aos ovos com vagens de ervilhas. Depois, foi a vez do mesmo bacalhau vir à mesa assado na brasa, com montanhas de batatas, repolhos, grelos, couves-galegas, muito azeite e o que de mais e melhor houvesse na dispensa. A seguir, vieram as sobremesas. Arroz doce, sonhos, aletria, filhoses de abóbora e fatias paridas. Ainda iriam todos, mais tarde, atirar-se às avelãs, nozes e amêndoas, bem como às castanhas e pinhões. Os dois últimos eram acondicionados em assadores que pendiam das cremalheiras, a se abrasarem ao lume vivo, onde ardiam toros de carvalho.

 

Ao final da consoada, era a hora de pedir as bênçãos, como rezava a tradição. Aurita, como fosse a mais velha, chegou até ao pai e falou, com uma solenidade que não era comum nos outros dias – Deite-me sua bênção, meu pai! – Deus te abençoe, minha filha! – e, para a boa Florinda – Deite-me sua bênção, minha mãe! – Deus te abençoe, filha querida! – seguindo-se um por um dos filhos, a fazer o mesmo, em ordem decrescente de idade, até à mais nova, a pequena Arminda.

 

Antes de deixarem a mesa, fizeram-se de novo as orações, dando graças a Deus por mais esse Natal.

 

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Terça-feira, 6 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. PROMANAS & PRASNICOS.

 

A promana é um banquete onde se providenciam flores, frutas e a iguaria preferida do morto cigano. Dispõe-se à mesa um lugar com o prato, copo, talheres, comida e bebida para o falecido e tudo isso que lhe foi reservado permanece, evidentemente, intocado. Acende-se uma vela diante do retrato do ente querido e, ao lado deste, deixa-se uma garrafa de vinho fechada. O mais do ágape é servido a todos os circunstantes. Finda a cerimónia, toda essa parte dedicada ao morto é jogada fora.

 

Papá prosseguiu – Pois é, ela vem a ser mãe do gajo... aquele tipo... tu bem sabes a quem estou a me referir. Ele também já foi contaminado pela maldita… – palavra que fez Aurora tremer, da cabeça aos pés – É, dizem que o rapazito anda muito mal, lá na Santa Casa de Misericórdia, pois a maldita que lhe levou a avó também o soube pegar de jeito. É um moço forte, mas já está quase a deitar fora os pulmões. Sabe-se lá se escapa. A pobre mãe se desespera… A essa altura, deve estar a fazer aquela tal de prasnico, para o filho não morrer.

 

Consiste a prasnico em oferendas ao santo de cada dia do calendário votivo. Lamentava-se Mariazita, certamente, de ficarem esses ritos incompletos, pois deveriam ser parte de um ritual coletivo, mas que, durante a Pneumónica, tornava-se impossível de realizar. Consolava-se a rezar, em seu milenar idioma – Dat amarô cai san andô tchêri. Súnto si tirô anáv. Av aménde ando tirô rhaio. Ai te avêl pô tirô katê pe luma sar ando tchêri … (Pai-nosso que estais no Céu…) ou – Suntô Mariônê, pérdô san andô svêtô ô Del tu sai. Uusí san angla sá e juvliá uusôi ô fruktô kai arakádilas tutar Jesus. Suntô Marionê Del leski dei… (Ave-maria, cheia de Graça, o Senhor é convosco…).

 

Aurita não pôde sufocar o gemido inoportuno que lhe escapou da garganta. – Quem está lá? – perguntou o pai, encaminhando-se até à porta que dava para os dormitórios. Passou ao corredor e abriu um por um dos quartos. Estavam todos a dormir. Ou quase. Aurora, que dividia com as irmãs um cómodo único, fingiu estar nos braços de Morfeu. Em verdade, em verdade vos digo, ela estava mesmo era a morder os lençóis entre os dentes, para não ressoar pelas calmarias da aldeia o seu angustiado pranto. Abraçava o travesseiro, a pensar dolorosamente em seu amado que, na cidade, estava a lutar contra os germes mortais. Pensava, também, muito dorida, no sofrimento daquela pobre mãe cigana.

 

A rapariga não pudera mais escutar a conversa dos pais e, por isso, deixou de saber o quanto eles ainda se preocupavam com ela – Pobre filha, já estive até a lhe dar alguns conselhos. Zefa me disse que ela nunca mais veio a ter nem um segundinho de cavaqueira com aquele rapaz, mas... ai, meu rico, sabes que um coração de mãe não se engana, acho que ela ainda está a pensar no cigano, todos os dias, todas as noites.

 

João Reis ponderou – Se apenas esse mero ato de pensar não privá-la da saúde do corpo e da mente... Mas eu temo é por qualquer outro mal que isso lhe possa causar. O ratinho que está de facto a me roer a cachola é que Aurita... ora, pois, tu bem sabes, Menina Flor, como são as raparigas de hoje em dia. – Como então que não estou cá a saber, meu marido?! Ora pois que elas vivem com o bestunto na lua! – e o patriarca – Daí que estou a achar, e bem achado, que a nossa menina ainda está de coração voltado para os truques de mágica do Camachito. Tens que ser doravante, para com a nossa filha, igual como os crocodilos d’ África: um olho a fingir que dorme e o outro a vigiar em volta. Porque estás a suspirar? – É que sempre me lembro da minha mãe, que já lá se foi: “filhos criados, trabalhos dobrados”. – Mas nossa Aurita ainda não se pôs de todo, ainda está a se criar... – Ora, pois, meu rico maridinho, por isso mesmo. Ainda vamos ter muito trabalho com a nossa menina!

 

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Terça-feira, 30 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. XAILE SUDÁRIO.

 

O que mais preocupava Florinda era ter o seu rico maridinho, a cada quinzena, de descer a Chaves por uns dois ou três dias, uma vez que o patriarca não podia abandonar os seus compromissos financeiros e comerciais ao deus-dará. Afligia-se, a Mamã – Que não m’o leves para sempre, meu Deus! – e só acalmava-se, de facto, quando o senhor João Reis retornava, no velho landó da família. Além dos géneros alimentícios e das coisas e loisas que Florinda e as crianças haviam por bem encomendar e as quais, com a pandemia, tornavam-se cada vez mais difíceis de serem encontradas, Papá trazia sempre as mais quentes notícias de Chaves e do resto do mundo.

 

Foi a um desses retornos de João Reis, que todos se comoveram com as tristes novas sobre a tia Henriqueta e mais algumas pessoas conhecidas, a exemplo de dois irmãos de Rodrigo, sobre os quais a nefasta Pneumónica estendera o seu negro xaile à guisa de sudário. Outro coberto por esse xaile foi Luís Miguel, o belo afilhado de Adelaide, que os poucos a terem visto a açoriana enterrar o rapaz, tinham que conter risinhos internos e nervosos, pois, mesmo com a sinceridade da sua imensa dor, a Dama da Carochinha parecia estar a representar um drama no Teatro Flaviense.

 

Algum tempo depois, a própria viúva contou a Florinda que, já a caminho da aldeia para onde seguiam, Miguel começou a passar mal e ela, mesmo sem nenhuma experiência de conduzir a charrete, teve que trocar de lugar com o moço e tocar os animais na descida para Chaves, uma vez que ninguém, por dinheiro que fosse, queria levá-los de volta à Vila apeçonhada. No dia seguinte, quando já avistavam de novo a Torre de Menagem, o belo rapaz morria-lhe nos braços.

 

Logo João Reis bendizia os vivos – Ainda bem que, por vontade de Deus, a doença não chegou até ao couro de nosso Manuelito, nem ao de nenhum dos seus, não é, ó pá? – e o cocheiro apenas ria, mostrando os dentes estragados – Quanto à nossa Lilinha, esta parece mesmo que se há de salvar, aos cuidados de Deus e da Comadre Hortênsia – pois facto era que, para alegria de todos, Aurélia já estava fora de perigo. Não mais iria entregar- se às cutiladas da Ceifeira, a Indesejada, malquista por todos os que vivem ou sobrevivem, mesmo os enfermos de corpo ou de alma. Sempre muito louçã e imune à peste, também não haveria de ser desta vez que a tia Hortênsia iria deixar, para cultivo dos outros mortais, o seu cantinho de chão dos penitentes.

 

Eram ótimas notícias, mas Aurita queria saber mais, se havia algo a dizer sobre certo alguém, o que a deixava ansiosa e recolhida em si mesma. Mais tarde, quando todos pareciam se deixar ninar pelos sons de silêncio da noite serrana, Aurora escutou Papá dizer à Mamã que, em sã consciência cristã, lamentava-se de uma infeliz omissão – Ora pois, Menina Flor, estás a ver que... ora pois, sei que isso até nem seria recomendável fazer, a esta altura, mas muito me condói não ter podido ir ao enterro da mãe de dona Mariazita Camacho, a senhora cigana que mora em frente. Ainda estou a ouvir a pobre senhora gritar – Ai que se me morre, também, o Hernandito! Já cá me dói, com essa peste maldita, não se poder cantar os taliertôs para invocar os ancestrais! E ai que me dói, mais ainda, não ter feito a promana para a mamacita!

 

 

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Terça-feira, 23 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. DIAS DE PAZ.

 

Apesar de tudo, foram dias felizes para todos, sem uns e outros ao menos se queixarem do tempo, ora fresco, ora mais frio do que se havia de gostar, nem dos ventos que pareciam cortar a face. Os miúdos aproveitavam as poucas horas em que o benfazejo Sol vinha dizer bons-dias e se espalhavam pelos quatro cantos da quinta. Por ali, por acolá, encantavam-se com as árvores, os galhos baixos em que se deixavam ficar, as hortaliças cobertas com toldos negros por causa do frio, os leitõezinhos em seu curral, as vaquinhas leiteiras e seus novilhos no estábulo, os cavalos de carroça a comerem suas rações de feno, todo um universo em sua mais plena quietude.

 

Nesses poucos e preciosos momentos ensolarados, punham-se a brincar, com os filhos do caseiro, o Jogo das Escondidelas. Para sortear quem deveria procurar os demais, valiam-se de versinhos, a um modo ritmado e monossilábico, tocando uma sílaba ao peito de cada um dos brincantes, até finalizar no que seria, então, o escolhido – “Sete e sete são catorze / com mais sete, vinte e um / tenho sete namorados / mas não caso com nenhum!” – e estes – “Menino Jesus / passou por aqui / escolheu-te / a ti! “– ou ainda – “Mariazinha / fez xixi na panelinha / foi dizer à sua vizinha / que era caldo de galinha!” – e outros – “Pim, pom, pum, / cada bala mata um, / dá de comer á galinha / e ao peru / Quem te salva és tu. “ – mais, ainda – “Fui à caixa das bolachas / comi uma, comi duas, / comi muitas, até dez / olha o burro que tu és. “ – ou estes, mais – “O José foi à horta / encontrou uma cabra morta / O José pôs o pé / A cabrinha fez mé, mé.”

 

O que a todos mais atraía, ao termo sul do quinteiro, era um pequeno canastro de uma pedra só, a moldar uma casita com telhado, que mais parecia a escultura de um templo de dois andares, portas e janelas, mas cujas dimensões não iam muito além de um metro e meio. As extremidades da cumeeira eram encimadas por uma cruz e um relógio de sol. Comuns em toda a região, canastros monolíticos como esse vinham de muitos séculos que já lá se foram e era considerado um verdadeiro milagre ainda estarem assim, tão escapadiços das erosões do Tempo.

 

Aurora e Afonso espantavam o tédio a cuidar de uma estufa na qual, outrora, Mamã estivera a tratar de orquídeas que trouxera da Amazónia e, agora, servia para proteger as flores e hortaliças, para as quais fosse hostil o duro inverno. Aldenora havia trazido livros às mancheias, de sorte que, muitas vezes, a viajar pelos países do sonho e da ficção, só voltava para o mundo real à hora das necessidades básicas de todo ser vivente, como o sono, as refeições e os cuidados da higiene.

 

À tardinha, as meninas se pegavam a bordar e tricotar, ao lado de Florinda e a cavaquear sobre os sítios e gentes que lá ficaram, entre a veiga e o Brunheiro. Após a ceia, aquecidos ao pé da lareira, ficavam todos a ouvir as histórias e lendas da região, sobre mouras encantadas, homens que se transformam em lobos, bruxas que voam e outras narrativas fantásticas, contadas por Zefa de Pitões ou Crispina Bobadela, a mulher do caseiro.

 

Ainda estava bem longe a primavera.

 

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Terça-feira, 16 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. SANT’ANINHA DE MONFORTE.

 

Chovia bastante, quando chegaram a Sant’Aninha de Monforte. Com suas ruas estreitas e íngremes, as casas de pedra com varandas de madeiras coloridas, todas as vias conduziam ao Largo da Igreja, ponto de convergência de todos os aldeães, ao centro do qual havia um templo muito simples e antigo, feito de grandes blocos de granito calcário. Nessa pracinha, situava-se também um pequeno mercado, misto de talho e venda de queijos & enchidos, além de uma tendinha para os mantimentos em geral.

 

Por trás da igreja, aglomeravam-se fregueses a uma ta­verna, oculta à visão dos forasteiros, mas sob os olhos se­micerrados e cúmplices do senhor Cura. Ora, pois, que este atacava os ébrios aldeães no sermão, mas ia com frequência a essa tasca, acompanhado da mãe de seus cinco “afilha­dos”, ante os olhos, também semicerrados e cúmplices, dos fiéis borrachos que, certamente, jamais iriam dar queixa ao Bispo. Menos ainda ao Papa. Sem batina, disfarçado, com um chapéu braguês a lhe cair sobre a testa e a se fingir de surdo e mudo, sua “comadre” servia-lhe de intérprete – Que queres, meu bom senhor? Ai, jesus, o pobre mudinho está a dizer que quer uma bagaceira das boas e uns nacos de pre­sunto – e lá comparecia o aldeão “incógnito” ao balcão do taverneiro, ávido de molhar a garganta com uma aguardente das boas.

 

Acomodados na quinta, logo Zefa, ao feitio dos lares da região, que, habitualmente, assim o faziam para que o Dianho não passasse pelas portas e gritasse, visando algum morador, ainda viçoso ou moribundo – Ó de casa, junta as pernas e os socos, que eu vim te buscar – pintou todas as janelas de cruzes encarnadas e “sinos-saimão” pretos. Sua esperança era de que, ao seu modo e jeito, conseguisse en­ganar os diabinhos da Gripe. Escorava-se na fé de que todo cristão, com o Signo de Salomão em volta, jamais correria perigo. Enquanto isso, os mais com seus rosários de credos, ave-marias, padres-nossos e salve-rainhas, rezavam ao bom Deus e à Virgem Santíssima para que a terrível dama, alcu­nhada de Espanhola, com seus funestos leques, olés e sala­maleques, não lhes levasse a Lilinha para bater matracas, ao invés de castanholas. Rogavam também que, por aquelas serras e cercanias, se por acaso a maldita viesse cortar ca­minho pela aldeia, não lhe agradasse o cheiro das rosas e bogaris dos jardins e andasse para longe de Sant’Aninha, sem lhes bater à porta.

 

Essa outra quinta dos Bernardes, aonde eles iam algu­mas vezes para aproveitar o ameno verão da serra, ficava um pouco antes do casario da aldeia. Era quase toda de pedra, muito rústica, poucos cómodos, mas sua fachada frontal, com balcões de madeira cheios de desenhos geometrica­mente esculpidos, até que havia de ter lá os seus encantos. Também era mui encantador o jardim, sempre bem cuidado e onde, a essa altura, só floriam amores-perfeitos, como nos canteiros da Grão Pará. Na estação primaveril, todavia, era um ror de cravos, rosas e quantas flores mais se pusessem a abrir. Aos fundos, estendia-se um quinteiro com alguns bovinos, caprinos e ovinos, além das aves e cães domésticos. Lá estavam também a indispensável horta e, ainda mais atraente de se ver, o pomar com as pereiras, macieiras, cerejeiras, figueiras e o que mais houvesse de frutíferas árvores.

 

As condições de conforto, porém, não eram as mesmas do Raio X. Não havia luz elétrica na aldeia e a iluminação noturna provinha dos lampiões de zinco e dos candeeiros a petróleo. Embora aquecido pelo braseiro, o interior era muito frio, mesmo na primavera. A latrina era um bloco monolítico, onde se fizera um buraco, a dar direto para a fossa. As abluções eram feitas em bacias de louça, dispostas em artefactos de ferro, com um cabide ao lado para pendurar as toalhas e, em baixo, um cântaro, de material esmaltado, o mesmo de que eram feitos os recipientes usados para os asseios gerais e a higiene íntima. A água para tais necessidades era aquecida ao lume do fogão ou da lareira. Para os banhos completos, poucas vezes tomados nas estações frias, ou seja, na maior parte do ano, Papá mandara fazer uma tubulação especial, que levava para o chuveiro a água proveniente de uma espécie de reservatório de pedra, junto ao braseiro, o que deixava o líquido devidamente amornado.

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:53
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