Terça-feira, 15 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. FRADES SANTOS.

 

Durante algum tempo, em tempos que já lá se foram, por volta da meia-noite, almas penadas de frades devotos apa­reciam, entre as árvores do Campo do Tabolado, junto às fontes, a lerem seus breviários, sob a luz de velas que se prendiam aos capuzes, na cabeça de cada um.

 

– Vinham envoltos em seus hábitos de burel e tinham – assim contava Rodrigo, a dramatizar – as mãos e as faces esbranquiçadas! Círculos escuros em volta dos olhos e da boca! Estavam presos, uns aos outros, por correntes que se arrastavam pelo chão! E entoavam… o cântico dos mortos!!!

 

Tomou um gole de Porto, fez uma pausa teatral e, em seguida – Essas terras pertenciam ao senhor Paulo de Maga­lhães, organista da Igreja Matriz. Pois o pobre homem, e to­dos de sua casa, viviam apavorados com o que viam. Aliás, já acreditavam até no que não viam e, piamente, davam fé ao que os outros contavam. E quem conta um conto, aponta dois – ao que Afonso motejou – Mas tu, Rodriguito, sempre nos apontas mais de quatro!

 

O primo riu – O que se deu é que os empregados já não saíam mais à noite. Alguns até chegaram a adoecer de febres e… – o narrador fez um sorriso maroto – de disenterias. Viviam a correr lá pra casinha... – motivo pelo qual riram­-se todos. Rodrigo tomou mais um Porto e prosseguiu – A mulher de Magalhães disse ter visto a alma de um frade a lhe pôr a língua para fora e pegou umas tremuras de maleita. Só ficou boa à custa de penitências e vultosas dádivas de dinheiro que ela ofereceu ao convento, o qual ficava logo ali, coladinho às propriedades do marido, em terras que se es­tendiam até um ponto do caminho para Vilar de Nantes. Fez isso a conselho dos próprios frades dessa irmandade. Estes, aliás, ao contrário das aparições, estavam muito bem vivos e com bastante saúde.

 

A garrafa do Porto estava cada vez mais ébria de va­zio, quando o primo, bem sóbrio, pareceu concluir – En­fim, eram tantos os problemas com essas almas penadas, que o tal organista preferiu partir para sempre de Chaves, com toda a família. – Fez outra pausa e, a julgar que fosse esse o final da lenda, os mais reagiram. O narrador prosse­guiu – Calma, calma, ainda não acabou. O facto é que, toda vez que perguntavam a esses monges sobre as almas pena­das, eles se diziam muito preocupados. No século anterior, uma peste havia dizimado quase toda a congregação que ali praticava. Seriam então de alguns desses frades, com a sua triste e pestilenta memória, as almas que agora estavam ali a assombrar?

 

Já então a pequena Arminda esbugalhava os olhos, en­quanto o contador de histórias seguia o curso da narrativa, assaz interessante – O próximo a se tornar proprietário das terras do organista chamava-se Francisco Durão. E aquele, meus primos, fazia jus ao nome! Saía sozinho pela noite, madrugada afora, devidamente provido de armas e pronto a enfrentar, fosse quem fosse: os vivos, os não vivos, os mor­tos e os não mortos. Pois não é que as almas, desde então,  nunca mais apareceram? O valente Durão ficava a gritar “Ó seus fradecos penados, que raio de almas cagadas são es­sas, que têm medo de levar espada ao cu?

 

Mamã, de imediato, externou-se ofendida nos ouvidos. Rodrigo pediu desculpas e tentou corrigir o chulo palavrea­do – Cá me perdoem, meus caros, na verdade era assim que ele gritava: “quem é que têm medo de levar ferro ao bucho?” – mas apesar do conserto feito, o efeito desconcertava. Al­guns risinhos nervosos tentaram disfarçar o que as faces rubras revelavam. Então, o primo apressou-se em finalizar – O facto é que, mesmo sem a companhia de outros valentes como ele, para enfrentar essas almas tão santas, mas pena­das, Francisco Durão continuou, por muito tempo ainda, a cultivar a quinta com as próprias mãos.

 

A essa altura, já todos perguntavam – e as almas? – ao que Rodrigo sorriu – Ora, pois, o que se deu a conhecer, algum tempo depois, é que esses frades (e estou a falar dos vivos, é claro), colhiam frutos para seu uso diário nas terras vizinhas às suas, ou seja, às do convento e vendiam os exce­dentes. Não satisfeitos com as cercas de sua monástica pro­priedade, usavam a Murada do Campo da Roda, para se es­tenderem até onde mais pudessem. Um visitador da Ordem acabou com o abuso em 1689, pois os religiosos estavam a se utilizar de uma propriedade fora do convento, o que era contra as regras da Ordem.

 

Concluiu, enfim, o narrador – Na esperança de que essas terras fronteiriças voltassem a ser devolutas, os frades pin­tavam o rosto de branco com uma mistura de farinha e clara de ovo, cercavam os olhos e a boca de carvão e faziam a encenação das almas. – Os próprios frades?! – Eles mesmos! Acompanhavam-nos, decerto, alguns serviçais do convento, que se prestavam de bom grado a esse teatro de Grand Guig­nol. O certo é que, depois das incursões noturnas do novo proprietário, as almas dos santos frades nunca mais vieram assustar ninguém. Certamente tinham medo das cacetadas e golpes de espada do ousado dono da quinta, cujo nome era... como se diz? Um pleonasmo!

 

Florinda e as filhas riam, a não poder mais. Logo, porém, Mamã pôs-se a repreender os excessos anticlericais desse parente tão contestador – Meu bom Rodrigo, és mesmo um pândego, mas não fiques a desrespeitar a nossa religião. Cui­da da tua alma, é que é, pois todos nós, um dia… – e o gaiato retrucou, com uma falsa seriedade – Não se preocupe, Tia Flor, quando ouvirem passar ao Raio X umas correntes e, ao chegarem à janela, virem uma aparição toda de branco e com uma vela à cabeça… podem rezar pelo pobrezinho do primo Rodrigo, uma pobre alma que se perdeu… – e, a rir com gosto – perdeu-se, sim, mas logo se foi achar de novo, na Madalena, muito vivo e a bebericar, com os amigos, da­quela água que mata o bicho!

 

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Terça-feira, 25 de Julho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PRIMAVERA.

 

A florida estação veio com bons auspícios, pois a Pneumónica já lá se fora por aí, quiçá para o mundo do Não Mais. Adiava-se, assim, para o incerto porvir de cada sobrevivente, a chegada da indesejável visitante.

 

Em Chaves, na cauda do rasto dessa virulenta devastação, sem poupar ricos ou pobres, miúdos ou anciães, pairava, por toda parte, a saudade das pobres criaturas que agora estavam a dormir no Campo Santo. Foi, portanto, uma vila sem ânimo e sem vida, aquela que os Bernardes reencontraram, ao voltar para a quinta do Raio X. Os rapazes retomaram suas idas ao Liceu e as meninas voltaram a ter suas aulas de piano e outras instruções.

 

Ainda que parecessem lágrimas de jacaré, como dizia Mamã, piedosas e muitas foram as secreções lacrimais que as raparigas derramaram pela pobre Mademoiselle Margot des Saints. A lecionista de Etiqueta não pudera brandir sua palmatória no ar e espantar a “maladie”, nem tampouco gritar, com sua voz de gralha, um enérgico “laissez-moi, Maudite, parce que c´est très inélégant partir avec toi!” As meninas também renegaram, com veemência, o disse-me-disse de algumas pessoas, segundo as quais, após Mademoiselle ser enterrada, descobriu-se que a veneranda professora (em verdade, em verdade vos digo: muita gente alegou não ser isso, de modo algum, um mero dichote de humor negro) nascera em uma aldeia perto de Nazaré e recebera ao batismo um nome bem lusitano: Margarida dos Santos.

 

A instruir como devem se comportar as raparigas em sociedade, mas sem a tirania das mãos à palmatória, lá estava agora o Monsieur Pierrot Béjart (um sueco de origem francesa, que Afonso e os colegas, a essa altura, ficavam a se perguntar se ele não seria também algum Pedrinho de Beja, do Alentejo). Seus modos refinados demais, delicados demais, amaneirados demais durante as instruções, faziam troçar os rapazes e gracejar as criadas. Até a boa Mamã escondia, com discrição, um riso de rajada entre as varetas do seu leque de Sevilha. Fora das aulas, porém, ele mantinha uma postura bem mais próxima daquilo que as pessoas convencionam ser masculina.

 

Mais insólito ainda foi quando ele apresentou aos Bernardes sua Ingrid, a estranha e corpulenta esposa nórdica, mãe de seus três filhos, cuja postura forte e firme demais e uma voz bem mais grossa que as de muitos cavalheiros de Chaves, causavam sempre certa estranheza, mas a ninguém e por nada alcançava, senão comentar (com respingos de xenofobia e preconceito) – Esses escandinavos... Tem que ser! – e alguns apenas ficavam a sugerir que, naquele estranho par de Adão e Eva, parecia haver alguma costela, serpente ou maçã trocada pelo Criador, a um momento em que Ele estivesse entediado, distraído ou com uma simples vontade de brincar com os efeitos da Criação.

 

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Terça-feira, 11 de Julho de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. BOLO-REI.

 

A fatal novidade foi bola de canhão sobre a fortaleza dos Bernardes. Nessa noite, quando foram comer o tradicional bolo-rei com a fava oculta, em que o parente que comer a fatia premiada fica obrigado a oferecer o bolo do próximo ano, coube a Florinda ser sorteada para “pagar as favas”. Começou a chorar, todavia – Que tens, Menina Flor? – Oh, Mamã, porque estás a chorar? – mas ela nada respondeu. Chorava com medo de, no próximo ano, já não estar mais viva para cuidar dos filhos e do marido. Ou, pior ainda, apenas ela sobreviver e estar a cuidar, sozinha, das campas de todos eles.

 

João Reis concertou com Manuel que este voltasse para Chaves, a cavalo e por lá ficasse, junto à esposa e aos filhos. Um moço corajoso da aldeia, que o Reis considerava menos um audaz e mais um temerário, já se oferecera a conduzir o landó com o Papá e a família, de volta à vila, quando se fizesse necessário.

 

Trancaram-se todos na quinta, inclusive Bobadela, a mulher e os miúdos. Valiam-se das limonadas de Florinda, ou dos três cálices de Porto que o patriarca distribuía, diariamente, até mesmo à Mindinha e aos miúdos de Crispina, pois diziam e, a alguns, até gostava comprovar, ser tal vinho uma panaceia para todas as imunidades. No mais, as pre e providências do Papá garantiriam, por um bom tempo, os complementos necessários à autossubsistência da quinta e, quando alguém batia ao portão – Ó de casa, pelo amor de Deus – respondia-se – O que quereis, faz favor? – mas atendiam ao suplicante a certa distância, deixando no jardim o que lhes fora pedido.

 

Felizmente, os ares perfumados daquela aldeia não agradaram ao grego barqueiro do Hades e, em Sant’Aninha de Monforte, apenas alguns aldeães adoeceram e uns dois ou três mais é que tiveram de enfrentar Cérbero, o cão que guarda o mitológico Inferno.

 

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Terça-feira, 4 de Julho de 2017

Chaves D' Aurora

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  1. FESTA DOS MOÇOS.

 

A “Festa dos Moços” é uma tradição folclórica de Sant’Aninha de Monforte e de outras aldeias da região. Trata-se, possivelmente, de uma herança de ritos ancestrais que tiveram suas origens nos rituais pagãos de inverno, quando os romanos ou, talvez, outros povos d’antanho, celebravam um novo ciclo da produção agrícola. Em consonância com isso, a Festa significava também um rito de passagem dos moços para a idade adulta.

 

Durante dois dias, os jovens solteiros se tornam os senhores da vida na aldeia. A festa começa ainda bem cedo, com o gaiteiro e sua gaita-de-foles a acordar os aldeães. Surgem

 

então os “caretos”, criaturas estranhas, de trajos bizarros, a exibirem caras diabólicas e a fazerem barulho com chocalhos, pendentes de fitas coloridas. Dançam, pulam, rodopiam

 

e fazem grande algazarra. Quase tudo lhes é permitido e, sem poderem ser identificados, por causa das máscaras, cometem de tudo o que lhes der na veneta. Invadem as casas sem qualquer cerimónia e se põem a roubar vinhos, pães, chouriços, morcelas, presuntos e o que mais encontrarem de aproveitável para o seu festejo juvenil.

 

Foi a uma dessas intrusões domésticas, que alguns moços festeiros viram-se diante do tal acontecimento, trágico e inesperado.

 

 

  1. MOÇOS E FACTOS.

 

Há algum tempo que toda a gente se perguntava – Mas ó pá, em que chão há de ser que a Rosa Manteigueira e o filho dela andam a gastar os tamancos? Ai, que ninguém mais os viu arrastar os seus socos por aí, nem se despedir de ninguém. Será que ela foi ao Brasil, para se encontrar com o marido, que nunca mais deu as novas por cá e, se calhar, o maroto já deve estar às voltas, por lá, com outro cobertor quentinho ao pé da orelha?

 

A velha Rosa morava em um fim de rua, já ao termo da aldeia, no extremo oposto ao da quinta de João Reis. Era mais uma dessas viúvas de marido vivo, como se dizia em Monforte. O filho era um moço mirrado, de ar doentio, mas que sempre estava a ir e vir de Chaves, a vender as manteigas e queijos que a mãe fazia.

 

Sempre na radiante alegria que lhes é própria, os moços da Festa resolveram invadir a casa da manteigueira, com o propósito de verem se esta, ao se ausentar com o filho, sabe-se lá para onde, não teria deixado alguns queijos, vinhos e conservas. Ao entrarem, todavia, depararam-se com um quadro de peste medieval. Um rapaz que, à primeira vista, os festeiros pensaram tratar-se de um africano, por enegrecido que lhe fora o rosto, jazia morto ao lado do catre de Rosa. A esta, igualmente, os deuses não favoreceram melhores condições.

 

A fatídica Pneumónica chegara, enfim, a Sant’Aninha de Monforte. Desnorteados pelo pavor, os jovens puseram-se, de imediato, a fazer uma outra festa, a do Fogo. Reduziram a cinzas tudo o que, lá, cheirava a morte.

 

Naquele janeiro de 1919, a Festa dos Moços envelheceu ali mesmo.

 

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Terça-feira, 27 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. RAMOS.

 

Nessa noite, não foram logo dormir. Bobadela, o caseiro, havia sugerido que todos fossem assistir a um auto que se levava ao Largo da Igreja, antiga tradição nos festejos de Natal, em algumas aldeias de Monforte – “Os Ramos”.

 

Todos acharam muito interessante a encenação desse auto, um costume passado de geração a geração, ainda que os Bernardes ficassem pouco tempo a presenciá-lo. É que os espetadores assistiam a tudo em pé e João Reis logo percebeu que aquele teatro de Natal ia durar por toda a madrugada.

 

A encenação desses Autos abrangia toda a vida de Cristo, como foi muito bem descrita por Heitor Moraes da Silva, em “Autos do Natal em casas de Monforte”. Como João Reis supunha, começava depois da Missa do Galo e durava a madrugada inteira. Aos aldeães, em todos os dezembros, gostava muito assistirem, com devoção, a mais uma repre-sentação dos Ramos, como se as máximas e conselhos do texto fossem a palavra de Deus. Alguns até já sabiam de cor várias passagens.

 

A apresentação dos Ramos compunha-se, não só de um, mas de 17 pequenos autos, com cerca de 100 personagens ao todo e um natural revezamento de atores. Estes, malgrado o seu total amadorismo, desempenhavam seus papéis com muita seriedade e fé religiosa. Suas vestes eram feitas por eles mesmos ou alugadas na cidade e os aldeães começavam os preparativos vários meses antes. Após o duro trabalho na eira e no lar, dedicavam suas noites de outono a copiar os diversos papéis, escrevendo, com sua pouca formação escolar, ao modo como se falava na aldeia. Os que não sabiam ler (e eram quase todos) aprendiam de ouvido, pela repetição dos letrados. Os ensaios limitavam-se a cada um dizer sua parte decorada, ajudado pelo “apontador”. O resto era o que viesse de inspiração à hora, de acordo com o maior ou menor desembaraço de cada um.

 

O primeiro auto era o “Auto da Criação”, em que o Anjo assim dizia, em determinado momento – “A Santíssima Trindade / ave eterna incriada / determinou fazer tudo/ e tudo fazer do nada.” – E sobre o fruto proibido: “Porque se nela tocardes / pra vós será coisa dura / Adão irá desterrado / E Eva pra sepultura”. Mais adiante, Adão falava para Eva – “Olha-me para estas barbas / que mas deu a Providência / elas por si só requerem / respeito e obediência”. (…) “Depois de seres mulher / ninguém o pode duvidar / que com tuas astúcias / a qualquera podes enganar.” Expulsos do Paraíso, os dois se queixavam da aspereza da terra – “Pois ainda trabalhando-a / fica ela de tal casta / cria ervas como mãe / e silvas como madrasta”.

 

Seguia-se o “O sacrifício de Abel e Caim”, em que este último, desesperado, já em seus momentos de agonia, ouve o Demónio antecipar o que é o Inferno que o espera – “(…) É uma casa / de portas encantadas / para entrar estão abertas / e pra sair estão fechadas. / Reparai bem, pecador / isto é bem mais do que assim / se quereis salvar-vos / não vos finteis em mim.”

 

No terceiro, o “Auto dos Desposórios de Nossa Senhora”, Maria diz ao Anjo – “Se é vontade do Altíssimo / o que voz me mandais / estou pronta a obedecer / ao que me detremenaes.”

 

No “Auto da Anunciação”, percebe-se um latim estropiado ao longo dos anos: “Ave-maria / graça plena / Domenestéco / benedita tu és / entre mulierevos”...

 

No “Auto da Visitação”, José e Maria procuram um abrigo e todos lhe negam – “Marchai-vos braigeiros / não estou para treta / se quereis pousada / ide à estalaige da preta.” E a preta despacha-os, sem papas na língua – ”Se vosa trazer dinheiro / mim dar a vosa o que comer / que mim não ter nada pra dar / ser tudo para vender.” Lá pelas tantas, um pastor oferece vinho a uma camponesa – “Queres uma pinga de vinho / que levo nesta cabaça?” – e ela – “Ora o vinho é coisa santa / hei-de meter muita graça” – ao que, o pastor – “Toma lá, mas tem cuidado / que senão não atinais / que os homens embebedam-se / e as mulheres inda mais”.

 

Nessa mesma noite, havia também o “Auto das Charoleiras”, em que as donzelas entram no palco portando charolas, espécie de andor com imagens religiosas e as “Pastoradas”, que era a parte cómica. Em outros tempos, quando os autos de Ramos eram apresentados dentro da igreja, as Pastoradas representavam a ”parte de fora”, evidentemente profana. Um dos quadros mais divertidos era o dos pastores galegos, a falar e a cantar em sua língua. Toda a comicidade das Pastoradas, porém, apesar de alguns ditos picantes de ingénua malícia, obedecia a uma linha equilibrada de recato primitivo e comedimento aldeão.

 

À altura da passagem do ano, com a Festa dos Moços, os Bernardes viram-se diante de um facto inesperado, que iria perturbar, por algum tempo, a vida do clã e de toda a aldeia.

 

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Terça-feira, 20 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. NATAL EM MONFORTE.

 

Nevava lá fora, em Sant’Aninha de Monforte. Para quem olhasse do alto da torre da igreja, as pessoas a caminho da Missa do Galo, entre as quais, todas as do clã dos Bernardes, pareciam manchas negras a se moverem sobre a neve. Chegara o dia em que se comemora o aniversário mais festejado, na maior parte do mundo: o nascimento do Menino Deus. Papá dissera que lá em baixo, em Chaves, seria esse um dos mais tristes dezembros, pois até o Pai Natal estava com medo de descer pela chaminé e se deparar com a Pneumónica. Alguns riram e Papá ralhou, dizendo que não tivera a menor intenção de fazer graça, ainda mais a se valer, como remoque, dos tão dolorosos factos que estavam a vivenciar.

 

Já que o grande presépio franciscano da família havia ficado na quinta do Raio X, Florinda e as filhas improvisaram, ao pé do pinheirinho, um arranjo de figuras meio toscas, de papier-maché, uma arte feita com cola e jornais molhados, que Mamã aprendera com as freiras do Colégio Santo António, em Belém do Pará. No conjunto de tão singela arquitetura, compensava-se a falta do original com o lago representado por um caco de espelho entre pedrinhas, o poço de madeirinhas feito por Afonso, com um dedal a servir de balde, e o jardim com musgos verdes e flores de papel encarnado. Nos pequenos caminhos, feitos de serragem tingida com água e papel acastanhado, punham-se alguns pequenos biscuits que, desbeiçados, ou com algumas partes a reajustar, haviam sido encontrados por cá e acolá, nos quinteiros de Sant’Aninha e arredores.

 

À ceia da consoada, Papá e Mamã ergueram-se, junto com os mais, inclusive os caseiros, os filhos destes e as criadas (sentados também à mesa, como era costume, em tais ocasiões) e se uniram em oração por todos os que ali se achavam. Rezaram também por sua Aurélia, pelos demais parentes e amigos que estavam enfermos em Chaves (com certo alguém incluído, de modo silente, nas preces de Aurora) e pelos que, como a querida tia Hortênsia, não foram nem de leve atingidos pelos dardos da cruel Pneumónica (e suplicavam que, por certo, jamais viessem a sê-lo). Amém! Por fim, todos pediram misericórdia e descanso eterno aos mortos. Concluiu Florinda, em voz alta – E Deus nos livre das más horas e do mau tempo!

 

Solene, o patriarca partiu o pão com as mãos e deu uma generosa côdea a cada um dos comensais que, entre goles de jeropiga (ou leve sangria, para os não adultos), entremeavam as migalhas às iscas de bacalhau e aos ovos com vagens de ervilhas. Depois, foi a vez do mesmo bacalhau vir à mesa assado na brasa, com montanhas de batatas, repolhos, grelos, couves-galegas, muito azeite e o que de mais e melhor houvesse na dispensa. A seguir, vieram as sobremesas. Arroz doce, sonhos, aletria, filhoses de abóbora e fatias paridas. Ainda iriam todos, mais tarde, atirar-se às avelãs, nozes e amêndoas, bem como às castanhas e pinhões. Os dois últimos eram acondicionados em assadores que pendiam das cremalheiras, a se abrasarem ao lume vivo, onde ardiam toros de carvalho.

 

Ao final da consoada, era a hora de pedir as bênçãos, como rezava a tradição. Aurita, como fosse a mais velha, chegou até ao pai e falou, com uma solenidade que não era comum nos outros dias – Deite-me sua bênção, meu pai! – Deus te abençoe, minha filha! – e, para a boa Florinda – Deite-me sua bênção, minha mãe! – Deus te abençoe, filha querida! – seguindo-se um por um dos filhos, a fazer o mesmo, em ordem decrescente de idade, até à mais nova, a pequena Arminda.

 

Antes de deixarem a mesa, fizeram-se de novo as orações, dando graças a Deus por mais esse Natal.

 

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Terça-feira, 6 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. PROMANAS & PRASNICOS.

 

A promana é um banquete onde se providenciam flores, frutas e a iguaria preferida do morto cigano. Dispõe-se à mesa um lugar com o prato, copo, talheres, comida e bebida para o falecido e tudo isso que lhe foi reservado permanece, evidentemente, intocado. Acende-se uma vela diante do retrato do ente querido e, ao lado deste, deixa-se uma garrafa de vinho fechada. O mais do ágape é servido a todos os circunstantes. Finda a cerimónia, toda essa parte dedicada ao morto é jogada fora.

 

Papá prosseguiu – Pois é, ela vem a ser mãe do gajo... aquele tipo... tu bem sabes a quem estou a me referir. Ele também já foi contaminado pela maldita… – palavra que fez Aurora tremer, da cabeça aos pés – É, dizem que o rapazito anda muito mal, lá na Santa Casa de Misericórdia, pois a maldita que lhe levou a avó também o soube pegar de jeito. É um moço forte, mas já está quase a deitar fora os pulmões. Sabe-se lá se escapa. A pobre mãe se desespera… A essa altura, deve estar a fazer aquela tal de prasnico, para o filho não morrer.

 

Consiste a prasnico em oferendas ao santo de cada dia do calendário votivo. Lamentava-se Mariazita, certamente, de ficarem esses ritos incompletos, pois deveriam ser parte de um ritual coletivo, mas que, durante a Pneumónica, tornava-se impossível de realizar. Consolava-se a rezar, em seu milenar idioma – Dat amarô cai san andô tchêri. Súnto si tirô anáv. Av aménde ando tirô rhaio. Ai te avêl pô tirô katê pe luma sar ando tchêri … (Pai-nosso que estais no Céu…) ou – Suntô Mariônê, pérdô san andô svêtô ô Del tu sai. Uusí san angla sá e juvliá uusôi ô fruktô kai arakádilas tutar Jesus. Suntô Marionê Del leski dei… (Ave-maria, cheia de Graça, o Senhor é convosco…).

 

Aurita não pôde sufocar o gemido inoportuno que lhe escapou da garganta. – Quem está lá? – perguntou o pai, encaminhando-se até à porta que dava para os dormitórios. Passou ao corredor e abriu um por um dos quartos. Estavam todos a dormir. Ou quase. Aurora, que dividia com as irmãs um cómodo único, fingiu estar nos braços de Morfeu. Em verdade, em verdade vos digo, ela estava mesmo era a morder os lençóis entre os dentes, para não ressoar pelas calmarias da aldeia o seu angustiado pranto. Abraçava o travesseiro, a pensar dolorosamente em seu amado que, na cidade, estava a lutar contra os germes mortais. Pensava, também, muito dorida, no sofrimento daquela pobre mãe cigana.

 

A rapariga não pudera mais escutar a conversa dos pais e, por isso, deixou de saber o quanto eles ainda se preocupavam com ela – Pobre filha, já estive até a lhe dar alguns conselhos. Zefa me disse que ela nunca mais veio a ter nem um segundinho de cavaqueira com aquele rapaz, mas... ai, meu rico, sabes que um coração de mãe não se engana, acho que ela ainda está a pensar no cigano, todos os dias, todas as noites.

 

João Reis ponderou – Se apenas esse mero ato de pensar não privá-la da saúde do corpo e da mente... Mas eu temo é por qualquer outro mal que isso lhe possa causar. O ratinho que está de facto a me roer a cachola é que Aurita... ora, pois, tu bem sabes, Menina Flor, como são as raparigas de hoje em dia. – Como então que não estou cá a saber, meu marido?! Ora pois que elas vivem com o bestunto na lua! – e o patriarca – Daí que estou a achar, e bem achado, que a nossa menina ainda está de coração voltado para os truques de mágica do Camachito. Tens que ser doravante, para com a nossa filha, igual como os crocodilos d’ África: um olho a fingir que dorme e o outro a vigiar em volta. Porque estás a suspirar? – É que sempre me lembro da minha mãe, que já lá se foi: “filhos criados, trabalhos dobrados”. – Mas nossa Aurita ainda não se pôs de todo, ainda está a se criar... – Ora, pois, meu rico maridinho, por isso mesmo. Ainda vamos ter muito trabalho com a nossa menina!

 

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Terça-feira, 30 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. XAILE SUDÁRIO.

 

O que mais preocupava Florinda era ter o seu rico maridinho, a cada quinzena, de descer a Chaves por uns dois ou três dias, uma vez que o patriarca não podia abandonar os seus compromissos financeiros e comerciais ao deus-dará. Afligia-se, a Mamã – Que não m’o leves para sempre, meu Deus! – e só acalmava-se, de facto, quando o senhor João Reis retornava, no velho landó da família. Além dos géneros alimentícios e das coisas e loisas que Florinda e as crianças haviam por bem encomendar e as quais, com a pandemia, tornavam-se cada vez mais difíceis de serem encontradas, Papá trazia sempre as mais quentes notícias de Chaves e do resto do mundo.

 

Foi a um desses retornos de João Reis, que todos se comoveram com as tristes novas sobre a tia Henriqueta e mais algumas pessoas conhecidas, a exemplo de dois irmãos de Rodrigo, sobre os quais a nefasta Pneumónica estendera o seu negro xaile à guisa de sudário. Outro coberto por esse xaile foi Luís Miguel, o belo afilhado de Adelaide, que os poucos a terem visto a açoriana enterrar o rapaz, tinham que conter risinhos internos e nervosos, pois, mesmo com a sinceridade da sua imensa dor, a Dama da Carochinha parecia estar a representar um drama no Teatro Flaviense.

 

Algum tempo depois, a própria viúva contou a Florinda que, já a caminho da aldeia para onde seguiam, Miguel começou a passar mal e ela, mesmo sem nenhuma experiência de conduzir a charrete, teve que trocar de lugar com o moço e tocar os animais na descida para Chaves, uma vez que ninguém, por dinheiro que fosse, queria levá-los de volta à Vila apeçonhada. No dia seguinte, quando já avistavam de novo a Torre de Menagem, o belo rapaz morria-lhe nos braços.

 

Logo João Reis bendizia os vivos – Ainda bem que, por vontade de Deus, a doença não chegou até ao couro de nosso Manuelito, nem ao de nenhum dos seus, não é, ó pá? – e o cocheiro apenas ria, mostrando os dentes estragados – Quanto à nossa Lilinha, esta parece mesmo que se há de salvar, aos cuidados de Deus e da Comadre Hortênsia – pois facto era que, para alegria de todos, Aurélia já estava fora de perigo. Não mais iria entregar- se às cutiladas da Ceifeira, a Indesejada, malquista por todos os que vivem ou sobrevivem, mesmo os enfermos de corpo ou de alma. Sempre muito louçã e imune à peste, também não haveria de ser desta vez que a tia Hortênsia iria deixar, para cultivo dos outros mortais, o seu cantinho de chão dos penitentes.

 

Eram ótimas notícias, mas Aurita queria saber mais, se havia algo a dizer sobre certo alguém, o que a deixava ansiosa e recolhida em si mesma. Mais tarde, quando todos pareciam se deixar ninar pelos sons de silêncio da noite serrana, Aurora escutou Papá dizer à Mamã que, em sã consciência cristã, lamentava-se de uma infeliz omissão – Ora pois, Menina Flor, estás a ver que... ora pois, sei que isso até nem seria recomendável fazer, a esta altura, mas muito me condói não ter podido ir ao enterro da mãe de dona Mariazita Camacho, a senhora cigana que mora em frente. Ainda estou a ouvir a pobre senhora gritar – Ai que se me morre, também, o Hernandito! Já cá me dói, com essa peste maldita, não se poder cantar os taliertôs para invocar os ancestrais! E ai que me dói, mais ainda, não ter feito a promana para a mamacita!

 

 

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Terça-feira, 23 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DIAS DE PAZ.

 

Apesar de tudo, foram dias felizes para todos, sem uns e outros ao menos se queixarem do tempo, ora fresco, ora mais frio do que se havia de gostar, nem dos ventos que pareciam cortar a face. Os miúdos aproveitavam as poucas horas em que o benfazejo Sol vinha dizer bons-dias e se espalhavam pelos quatro cantos da quinta. Por ali, por acolá, encantavam-se com as árvores, os galhos baixos em que se deixavam ficar, as hortaliças cobertas com toldos negros por causa do frio, os leitõezinhos em seu curral, as vaquinhas leiteiras e seus novilhos no estábulo, os cavalos de carroça a comerem suas rações de feno, todo um universo em sua mais plena quietude.

 

Nesses poucos e preciosos momentos ensolarados, punham-se a brincar, com os filhos do caseiro, o Jogo das Escondidelas. Para sortear quem deveria procurar os demais, valiam-se de versinhos, a um modo ritmado e monossilábico, tocando uma sílaba ao peito de cada um dos brincantes, até finalizar no que seria, então, o escolhido – “Sete e sete são catorze / com mais sete, vinte e um / tenho sete namorados / mas não caso com nenhum!” – e estes – “Menino Jesus / passou por aqui / escolheu-te / a ti! “– ou ainda – “Mariazinha / fez xixi na panelinha / foi dizer à sua vizinha / que era caldo de galinha!” – e outros – “Pim, pom, pum, / cada bala mata um, / dá de comer á galinha / e ao peru / Quem te salva és tu. “ – mais, ainda – “Fui à caixa das bolachas / comi uma, comi duas, / comi muitas, até dez / olha o burro que tu és. “ – ou estes, mais – “O José foi à horta / encontrou uma cabra morta / O José pôs o pé / A cabrinha fez mé, mé.”

 

O que a todos mais atraía, ao termo sul do quinteiro, era um pequeno canastro de uma pedra só, a moldar uma casita com telhado, que mais parecia a escultura de um templo de dois andares, portas e janelas, mas cujas dimensões não iam muito além de um metro e meio. As extremidades da cumeeira eram encimadas por uma cruz e um relógio de sol. Comuns em toda a região, canastros monolíticos como esse vinham de muitos séculos que já lá se foram e era considerado um verdadeiro milagre ainda estarem assim, tão escapadiços das erosões do Tempo.

 

Aurora e Afonso espantavam o tédio a cuidar de uma estufa na qual, outrora, Mamã estivera a tratar de orquídeas que trouxera da Amazónia e, agora, servia para proteger as flores e hortaliças, para as quais fosse hostil o duro inverno. Aldenora havia trazido livros às mancheias, de sorte que, muitas vezes, a viajar pelos países do sonho e da ficção, só voltava para o mundo real à hora das necessidades básicas de todo ser vivente, como o sono, as refeições e os cuidados da higiene.

 

À tardinha, as meninas se pegavam a bordar e tricotar, ao lado de Florinda e a cavaquear sobre os sítios e gentes que lá ficaram, entre a veiga e o Brunheiro. Após a ceia, aquecidos ao pé da lareira, ficavam todos a ouvir as histórias e lendas da região, sobre mouras encantadas, homens que se transformam em lobos, bruxas que voam e outras narrativas fantásticas, contadas por Zefa de Pitões ou Crispina Bobadela, a mulher do caseiro.

 

Ainda estava bem longe a primavera.

 

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Terça-feira, 16 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. SANT’ANINHA DE MONFORTE.

 

Chovia bastante, quando chegaram a Sant’Aninha de Monforte. Com suas ruas estreitas e íngremes, as casas de pedra com varandas de madeiras coloridas, todas as vias conduziam ao Largo da Igreja, ponto de convergência de todos os aldeães, ao centro do qual havia um templo muito simples e antigo, feito de grandes blocos de granito calcário. Nessa pracinha, situava-se também um pequeno mercado, misto de talho e venda de queijos & enchidos, além de uma tendinha para os mantimentos em geral.

 

Por trás da igreja, aglomeravam-se fregueses a uma ta­verna, oculta à visão dos forasteiros, mas sob os olhos se­micerrados e cúmplices do senhor Cura. Ora, pois, que este atacava os ébrios aldeães no sermão, mas ia com frequência a essa tasca, acompanhado da mãe de seus cinco “afilha­dos”, ante os olhos, também semicerrados e cúmplices, dos fiéis borrachos que, certamente, jamais iriam dar queixa ao Bispo. Menos ainda ao Papa. Sem batina, disfarçado, com um chapéu braguês a lhe cair sobre a testa e a se fingir de surdo e mudo, sua “comadre” servia-lhe de intérprete – Que queres, meu bom senhor? Ai, jesus, o pobre mudinho está a dizer que quer uma bagaceira das boas e uns nacos de pre­sunto – e lá comparecia o aldeão “incógnito” ao balcão do taverneiro, ávido de molhar a garganta com uma aguardente das boas.

 

Acomodados na quinta, logo Zefa, ao feitio dos lares da região, que, habitualmente, assim o faziam para que o Dianho não passasse pelas portas e gritasse, visando algum morador, ainda viçoso ou moribundo – Ó de casa, junta as pernas e os socos, que eu vim te buscar – pintou todas as janelas de cruzes encarnadas e “sinos-saimão” pretos. Sua esperança era de que, ao seu modo e jeito, conseguisse en­ganar os diabinhos da Gripe. Escorava-se na fé de que todo cristão, com o Signo de Salomão em volta, jamais correria perigo. Enquanto isso, os mais com seus rosários de credos, ave-marias, padres-nossos e salve-rainhas, rezavam ao bom Deus e à Virgem Santíssima para que a terrível dama, alcu­nhada de Espanhola, com seus funestos leques, olés e sala­maleques, não lhes levasse a Lilinha para bater matracas, ao invés de castanholas. Rogavam também que, por aquelas serras e cercanias, se por acaso a maldita viesse cortar ca­minho pela aldeia, não lhe agradasse o cheiro das rosas e bogaris dos jardins e andasse para longe de Sant’Aninha, sem lhes bater à porta.

 

Essa outra quinta dos Bernardes, aonde eles iam algu­mas vezes para aproveitar o ameno verão da serra, ficava um pouco antes do casario da aldeia. Era quase toda de pedra, muito rústica, poucos cómodos, mas sua fachada frontal, com balcões de madeira cheios de desenhos geometrica­mente esculpidos, até que havia de ter lá os seus encantos. Também era mui encantador o jardim, sempre bem cuidado e onde, a essa altura, só floriam amores-perfeitos, como nos canteiros da Grão Pará. Na estação primaveril, todavia, era um ror de cravos, rosas e quantas flores mais se pusessem a abrir. Aos fundos, estendia-se um quinteiro com alguns bovinos, caprinos e ovinos, além das aves e cães domésticos. Lá estavam também a indispensável horta e, ainda mais atraente de se ver, o pomar com as pereiras, macieiras, cerejeiras, figueiras e o que mais houvesse de frutíferas árvores.

 

As condições de conforto, porém, não eram as mesmas do Raio X. Não havia luz elétrica na aldeia e a iluminação noturna provinha dos lampiões de zinco e dos candeeiros a petróleo. Embora aquecido pelo braseiro, o interior era muito frio, mesmo na primavera. A latrina era um bloco monolítico, onde se fizera um buraco, a dar direto para a fossa. As abluções eram feitas em bacias de louça, dispostas em artefactos de ferro, com um cabide ao lado para pendurar as toalhas e, em baixo, um cântaro, de material esmaltado, o mesmo de que eram feitos os recipientes usados para os asseios gerais e a higiene íntima. A água para tais necessidades era aquecida ao lume do fogão ou da lareira. Para os banhos completos, poucas vezes tomados nas estações frias, ou seja, na maior parte do ano, Papá mandara fazer uma tubulação especial, que levava para o chuveiro a água proveniente de uma espécie de reservatório de pedra, junto ao braseiro, o que deixava o líquido devidamente amornado.

 

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Terça-feira, 9 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. GRIPE PORTUGUESA.

 

Em Portugal, também verificou-se uma taxa elevadís­sima de mortalidade, com duas ondas epidémicas, sendo a mais letal entre os meses de agosto de 1918 e fevereiro de 1919. Atingia, sobretudo, as pessoas entre os 20 e os 40 anos, tendo causado cerca de 120.000 mortos no território continental. Sem saberem ao certo que medidas terapêuticas tomar, para evitar o contágio ou curar os doentes, os médi­cos aconselhavam apenas que se evitassem aglomerações. O pior é que o terrível mal fazia também adoecer (e falecer), por todo o território português, numerosos esculápios e pro­fissionais de enfermagem.

 

Em quase toda a região de Trás-os-Montes, as milícias do germe causaram muitas mortes. As vilas e aldeias da re­gião, mesmo isoladas, não podiam evitar que transitassem por elas os vetores humanos vindos da Espanha e de outras regiões da Europa. Uma Vila de Chaves diferente, portanto, era a que tentava, agora, sobreviver. Estima-se que a vila tenha sido vitimada em cerca de 40% da população.

 

Aos primeiros rumores da influenza global, alguns abas­tados como João Reis providenciaram todos os mantimen­tos necessários, para que se refugiassem por um bom tempo com suas famílias em aldeias serranas, plenos da esperança de que, nessa forma de quarentena, o mal por ali não os al­cançasse. A maldita, no entanto, em sua lotaria, já escolhera a menina Aurélia, deixando a todos na mais profunda cons­ternação. Logo tiveram que a isolar, mas felizmente foram acudidos pela bondosa comadre Hortênsia, que já levara por esses tempos ao Campo Santo o marido e uma das filhas. Porque olhasse “mais ao Céu do que a este chão de penitên­cia”, como aquela boa senhora se referia a “este mundo vão”, não tinha medo algum de cair nas garras da funesta dama da Grande Foice.

 

João Reis, confiante de que a boa comadre cuidaria bem da Lilinha, certificou-se de que todos os outros da casa estivessem perfeitamente sãos e pediu a Manuel de Fiães que preparasse bem os cavalos e o velho landó. De pronto já estava a levar Florinda e os outros filhos até à quinta de Sant’Aninha de Monforte, na Serra de Maios. No caminho, cruzaram com Adelaide, que também se evadia da vila, jun­to com o seu belo e fiel “afilhado”. Naqueles dias, porém, nem mesmo o gajo mais estúpido se punha a rir, à passagem da Carochinha. Até o mais simples sorriso de escárnio ou de alegria se ausentara dos lábios flavienses.

 

Ao subir à serra, Florinda esteve, em boa parte do trajeto, a pedir aos filhos que tapassem os olhos. Em vão. Ninguém conseguia deixar de os dirigir, horrorizados, para os tantos mortos que eram levados em rústicos caixões, os miúdos em caixotes, todos de confeção ordinária, ou até mesmo em simples macas improvisadas, feitas com lençóis e cobertores remendados. Os mesmos panos em que os moribundos ha­viam acabado de se entregar ao sono derradeiro.

 

 

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Terça-feira, 18 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. DESENCANTOS.

 

Novas esperanças teve Aurora de rever seu Hernando, ao dia seguinte, quando prosseguiram as homenagens aos heróis da resistência republicana de 1912.

 

Como um raro milagre, Papá consentiu dessa vez que, sob a proteção de tia Margarida, os filhos e as criadas fos­sem ao quartel da Infantaria, que ora se franqueava ao públi­co. Assistiam-se por lá aos exercícios e jogos militares, cuja programação constava de “ginástica sueca, assalto a sabre, luta greco-romana, assalto de baioneta, corridas de obstá­culos e de resistência, saltos à vara e altura, esgrima, saltos a cavalo e concurso hípico” e tinha, como contendedores entre si, os recrutas da Cavalaria 6. Como era de hábito, du­rante a execução dos exercícios, tocava a Banda da Infanta­ria 19. A todos, o que mais deslumbrou foi o desfile dos dois regimentos militares, a entoarem, de modo forte e viril, a marcha “Legenda Dourada”, hino da guarnição de Chaves.

 

A um dado momento, Aldenora inquiriu a irmã – O que tanto os teus olhinhos procuram assim, tão ansiosos, se é que m’o podes contar? – Aurora não respondeu e a outra continuou, ferina, mordaz – Se é um certo mau elemento que vive perto de nós, cá por Chaves, ele acaba de passar por ali com uma rapariga, a lhe encher os ouvidos de risos e perdigotos. E me parece que, de tudo isso, dava-se ela por muito apreciar a corte do finório, pois parecia uma rosa a se entregar ao chupa-flor!

 

Logo a tristeza chegou de tal sorte ao coração de Aurora, que, à noite desse mesmo dia, apesar de mais um dos raros consentimentos de Reis a que as filhas saíssem de casa, não quis acompanhar tia Margarida ao Teatro Flaviense. Nesse teatro, uma comissão de senhoras, na patriótica incumbên­cia de angariar fundos para a Liga de Instrução e Benefi­cência, destinados à assistência das famílias dos soldados mobilizados para a Grande Guerra, ia realizar “um brilhante espectáculo dramático”, com peças que, conforme dizia “O Flaviense”, eram da melhor qualidade.

 

De acordo com o jornal, tudo estava preparado “de molde a poder esperar-se uma noite de encanto, festa verdadeira­mente feminina, com todas as graças e delicadezas que só a mulher sabe dar às obras em que a sua alma vibra superior­mente. São todas elas feitas de mimo e brandura, tecidas n’um enlevo de finura e subtileza. Depois, sendo interpre­tadas por senhoras de reputada inteligência e ilustração e por cavalheiros que muito têm brilhado no palco flaviense, essas obras, de um grande valor literário, hão de ter a so­mar, à graça própria, a segura interpretação que lhes vai ser dada.

 

À manhã do outro dia, a se valer de seu precoce desen­volvimento intelectual, admirável para uma menina de ape­nas 14 anos, Aldenora fez uma verdadeira reportagem do evento, a fim de, mais ainda, espicaçar a irmã – Ai, Aurita, nem calculas o que perdeste, sua parva! Os camarotes es­tavam ocupados pela melhor sociedade de Chaves. Todo o teatro mostrava, ai Jesus, um lindíssimo aspeto! Precisavas ouvir a sinfonia da orquestra, quando começou o espetácu­lo! E quando subiu o pano?! Nem parecia mais o palco velho, feio. Nem aquele! Estava uma riqueza de luxo, de requinte, de beleza! Os atores da comédia “Os Quatro Cantinhos” tra­balharam tão bem, com tanta naturalidade!

 

Prosseguiu, empolgada – Depois o senhor Adriano Coim­bra recitou um poema tão sentido, em que parecia colocar, em cada palavra, as vibrações de sua alma. Gostei muito, também, da comédia “A Missão da Mulher”, uma profun­da lição de moral, que se passa com uma família durante essa terrível guerra que está, por aí, a fazer morrer os nossos pobres rapazes e – concluiu – no final, representaram uma peça de Júlio Dantas, “Rosas de todo o ano”. Que primorosa, minha irmã! Como disse a tia Margarida, foi uma noite de puro e total enlevo.

 

Adveio, então, a fraternal fisgada – Ora, pois, mas que patetice a minha! Não é que já estava a me esquecer de con­tar?! O filho mais novo dessa família que mora aí em fren­te… ele também estava lá, com uma dessas raparigas que andam por aí, assim... como dizer? Tão desgarradas, que até parecem não ter pai nem mãe. Quer dizer, até me faz crer que aquela mulher seja mesmo uma dessas, mas é deveras rica, porque estava muito bem vestida e cheia de joias, da cabeça aos pés.

 

Por fim, a última alfinetada – Aliás, ela é muito mais bo­nita do que muitas rapariguinhas por aí, que ainda não sa­bem nem se arranjar bem diante do espelho. Sabes tu que há rapazes que só gostam de mulheres como ela, mais livres, mais velhas, mais experientes? Esses aí, certamente, jamais vão se interessar por uma menina honrada e de boa família, mesmo que sejam certas tontinhas por aí...

 

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Terça-feira, 11 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. LUZIA CARRAPATO.

 

Após o fim do concerto da Banda de Infantaria 19, com uma apoteose ovacionada pelo público, estava a menina Aurora a deixar o Jardim com a família, quando viu, pela segunda vez, a velha demente, que fora recém-apupada pelo magote de putos. Desgrenhada, suja, continuava perdida em seus solilóquios e a gritar sem parança. Era, de hábito, inofensiva. Enfurecia-se bastante, porém, quando a malta vinha molestá-la, provocando-a com palavras e gestos indecentes. A pobre mulher retribuía, então, com gestos e palavras ainda mais agressivos.

 

Como Aurita viesse mais atrás dos Bernardes, ao lado de tia Margarida, esta contou-lhe a história da louca senhora.

 

 

Luzia Carrapato, outrora de Avelar e Guimarães, tradicional família minhota, apaixonou-se perdidamente por um judeu polaco, paixão logo correspondida. O pai da moça, de arraigada fé cristã, negou aos jovens qualquer possibilidade de um enlace matrimonial. Transportou-a para uma quinta longínqua de sua propriedade, onde a rapariga ficou reclusa.

 

O jovem semita foi-lhe ao encontro e com ela fugiu para Viana do Castelo, de onde seguiriam até à Galiza e, depois, para a Polónia. O senhor Matias de Avelar e Guimarães, todavia, contratou os serviços de um bandoleiro, para seguir no encalço dos amantes, matar o rapaz e trazer a fugitiva de volta à casa paterna.

 

A menina Luzia estava grávida. Ao lhe nascer o filho, o avô minhoto pagou a um nómada cigano uma tarefa imediata: desaparecer com a criança pelo mundo afora e nunca mais passar por aquelas bandas do Minho. Deu-lhe ainda um manhuço de réis a mais, para atender ao sustento do petiz. Esse era um costume bem antigo, desde a Idade Média, sobretudo entre os nobres e abastados.

 

Afirma-se que provém, dessa forma de alienação de crianças bastardas, uma parte do ancestral preconceito contra os ciganos. Alimentou-se, por toda parte, a lenda de que estes roubavam miúdos, cujos pais nunca mais os tornariam a ver. A propagação dessa lenda foi aumentando, cada vez mais, mormente quando se viam nos acampamentos gitanos, sem que lhes soubessem a procedência, crianças de olhos azuis e de tez bem mais clara do que a pele dos demais integrantes do clã.

 

O que resultou dessas bárbaras ações do pai de Luzia é que a menina enlouqueceu. Em seu desvario, saiu pelo mundo afora a falar de sua dorida história, enquanto ninava panos enrolados como se fosse o filho perdido, para o qual ficava a cantarolar sem harmonia nem pausa. Uma algaravia a que ninguém alcançava compreender.

 

 

Essa história deixou a menina Aurora tão impressionada que, nessa noite, perdeu o sono até ao alvorecer. Sentia a modos que o estômago se lhe revirava e dava um nó. Não parava de pensar nos padecimentos da pobre mulher, a sofrer unicamente pelo facto de se entregar aos ditames do amor, até suas últimas consequências. Quando, enfim, conseguiu dormir, viu-se a correr suja e com as melenas desgrenhadas pelas ruas de Chaves, com um bebé de verdade nos braços. Era perseguida por pessoas muito más, que acabavam por encurralar a si e à criança, em um beco escuro e sem saída, onde, ao fundo, havia um homem encapuzado, sinistro e aterrador. Ao se revelar sua face, com olhos encarnados e riso sardónico, ele não era o Papá, mas parecia o Papá, tinha a cara de Papá... e isso fez, de tal sonho, um pesadelo ainda maior.

 

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Terça-feira, 21 de Março de 2017

Chaves D' Aurora

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  1. RETRATO.

 

Com admirável beleza, Aurita estava no esplendor de seus quinze anos, cada vez menos menina, u’a mulher a se pôr. Ao vê-la à janela da Quinta ou com os seus, a caminho da igreja, as pessoas exclamavam – Ai que belo rosto, o dessa rapariguinha! Há de ser assim, o da Senhora de Fátima!

 

Até um requisitado fotógrafo de Chaves atreveu-se a pedir a João Reis que lhe concedesse a honra de retratar a menina, vestida com o alvo manto de Nossa Senhora e tendo às mãos o Santo Rosário. Recebeu do patriarca um sonoro e perentório – NÃO!!!

 

A uma tarde qualquer, quando estava a se dirigir a um café no Largo das Freiras, Reis viu exposta, na montra de uma loja de artigos religiosos, à Rua Santo António, uma pintura a representar a Virgem e os três pastorinhos. A face da Santa, porém e os seus loiros cabelos, não lhe deixaram qualquer dúvida. Indignado e furioso, adentrou o estabelecimento, mas logo se arrefeceu ao ver que o dono era um velho amigo. Este contou ao brasileiro que, tal quadro, fizera-o seu filho mais jovem, a se valer apenas de sua pura e excelente memória visual. Em momento algum, porém, gostava ao pintor autodidata sequer pensar em ofender a honra da menina, os brios de João Reis Bernardes e a dignidade de uma tão conceituada família.

 

Reis propôs então a compra imediata de tal peça de arte. Muito constrangido, o comerciante explicou que o precioso quadro já não estava disponível. Outro freguês já o comprara, na véspera e por muito bom preço, deixando-lhe vultosa quantia à guisa de sinal e ficando de passar por lá, ao cabo da semana, para trazer o restante. – E cá me podes dizer, meu caro, quem é esse freguês? – Ora, pois, é aquele ciganinho, o filho mais novo do Camacho. – o que deixou o rosto do patriarca encarnado, purpúreo, arroxeado – Pois então, pra já é que me hás de vender essa pintura! Pago-te o dobro do preço! – Mas ó Reis, sabes tão bem quanto eu como são as regras do negócio, as leis do comércio. Não posso faltar com a palavra dada a um freguês. Ainda mais que...

 

De logo, porém, o Brasileiro o contradisse – Nem mais nem meio mais! Ora, pois, meu amigo, diz a ele que... pronto, aí está! Diz-lhe que ameacei de levar o teu filho à Justiça, por retratar uma menina sem a aprovação dos pais. Não, não precisas ficar assim! Não te vou fazer mal nenhum, muito menos ao teu menino. Basta dizer ao gajo que eu, João Reis Bernardes, foi quem t’obrigou a desfazer o trato com ele e pronto! Aos raios que o parta! Sabe-se lá pra quê esse patife quer ter em casa o rosto da minha filha?! – e mal ouviu os argumentos do colega de comércio – Mas ó Bernardes, tua menina tem mesmo a face da Santa. Isto cá é para se pôr a um oratório! – Que o seja! Mas não quero ver o retrato da minha filha por algures nem alhures, ora pois e pronto! Estamos conversados!

 

Assim, com a virginal face de Aurora a lhe servir de modelo, a imagem da Senhora de Fátima, devidamente benzida por um cura da Madalena, foi entronizada em um lugar de honra na sala de estar da Quinta Grão Pará.

 

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Terça-feira, 7 de Março de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. CONTROVÉRSIAS.

 

O rapaz logo discorreu sobre dois factos óbvios (pelo menos para ele): a tão sobejamente conhecida imaginação dos miúdos, em geral e os delírios de Lúcia, em particular. Esta lhe parecia sofrer de algum mal que lhe afetasse a mente, como parece ter ocorrido com Joana D’Arc e outros santos, embora fosse um tipo de enfermidade (a esquizofrenia) que ele, àquela altura, não sabia nomear.

 

Inquiriu – Ora me dizei, querida tia, porque, nesses relatos tão pueris, a mãe de Jesus havia de aparecer daquele jeito, com um manto que, pela descrição dos miúdos, mais parece o das imagens das igrejas, essas que todo mundo vê nas estampas e nos altares? Porque não estaria com os trajos da Palestina, dos tempos em que ela por lá viveu e que podemos ver nas gravuras de algumas edições do Novo Testamento? Porque a Santa veio cá nos aparecer tão jovem e formosa, se ela foi uma mulher do povo e morreu já madura, após muito padecer com as maldades que fizeram ao grande Profeta, seu filho?!

 

Para o rapaz, Cristo tinha sido apenas um sábio e admirável profeta, dentre os tantos que, àquela altura, habitavam a Palestina. Algo, porém, deixou-o ainda mais exaltado – E os pedidos da Santa? Com tantos pobrezitos à volta, neste nosso tão sofrido Portugal, a Mãe de Misericórdia pede que o dinheiro doado pelos devotos seja convertido em ANDORES?! E é tão vaidosa assim, ao ponto de pedir que se erga uma capela EM SUA homenagem?!

 

A se horrorizar com tais vitupérios, Florinda tentou contestá-lo, mas o jovem disparava – E já que citamos o sofrimento de Jesus, porque a aparição insiste tanto em falar de pecado, penitência, inferno e purgatório, pra toda essa pobre gentinha que já vive, em seu dia a dia, a comer o pão que o Diabo amassou? Ao que então vos pergunto: quem, quem, QUEM é o Diabo?

 

Ele mesmo respondia – O Diabo, ou melhor, os diabos, se calhar são os capitalistas, os poderosos do mundo do Capital, que estão a amassar esse pão em seus palácios, para depois jogarem os farelos aos pobres, como se fosse aos cães. E ainda ficam a se divertir em vê-los devorar esse miolo amassado, com os poucos dentes que ainda restam aos pobres coitados.

 

Enquanto Reis e Afonso escutavam o rapaz com alguma atenção, as duas meninas mais velhas mostravam-se assarapantadas, por tudo aquilo que ouviam da boca de Rodrigo e, o tempo todo, ficavam a dar alguns toques discretos em Mamã; a cutucá-la, como se diz ao Brasil. Florinda arguiu

 

– E do milagre do Sol, que me dizes tu? – e o rapaz riu, gostosamente – Milagre, tia? Mas que milagre?! Desde que a Santa Madre Igreja quase mandou o senhor Galileu para a fogueira, sabemos que a Terra gira arredor do Sol – e prosseguiu – Ora, pois, aí está! O Astro-Rei jamais poderia, lá no firmamento, dar voltas e ziguezagues, sem que nos sobreviesse, cá no planeta, um verdadeiro apocalipse de maremotos e tremores de terra. Se estiveram a ocorrer, mesmo, todas aquelas coisas que a multidão, exaltada, jura ter visto, levada sabe lá por quantas histerias coletivas, como é que, no resto da Terra, esse mesmo Sol ficou lá no seu sítio, quietinho, a banhar de luz as praias de Angola, os laranjais da Califórnia, os arrozais do Japão?

 

 – Mas se tudo isso foi visto pela multidão! – interveio Reis, ao que Rodrigo – Todos, não, meu tio, nem todos! Na verdade dos factos, apesar do que se diz nos jornais e nos púlpitos, esse fenómeno não parece ter sido visto por todos os que lá estavam. – e, excitado pela bomba que ele, com o seu terrorismo verbal, estava prestes a explodir na Quinta, para já sacou, de seu bornal de pano (seu mundo ambulante, com livros, revistas, anotações e mais que tais) um recorte de jornal que a todos mostrou, com ares de triunfo – Aqui, ó pá, vejam! Vejam! Há testemunhos de pessoas como o escritor António Sérgio, que afirmam não terem visto nada, ai que nada mesmo, disso tudo aí, de que tanto falam os beatos! ”Nada de estranho aconteceu com o Sol”, disse o ilustre senhor.

 

Rodrigo pegou, então, uma página inteira de jornal – Vejam, vejam mais! Há depoimentos até de um militante católico, um beato insuspeitíssimo como o senhor Domingos Pinto Coelho, que ó, vejam, ele mesmo declarou na imprensa que a nada assistiu de assombroso ou sobrenatural naquele santo dia. – e continuou – O que me parece estranho nisso tudo... e cá vos digo, uma enorme pulga me cai atrás da orelha e fica a perguntar, bem cismadinha – afinou então a voz, como se fosse a do inseto – Ai, Rodriguito, se calhar... não te parece que os padres de algumas aldeias estão a meter seus veneráveis dedos nessa história da Cova da Iria?

 

Concluiu, com a voz normal – É que tudo isso... não percebeis, meus caros tios, que tudo isso veio a calhar hoje em dia, justamente quando os proletários estão a ganhar o governo da Rússia e os republicanos continuam odiados pelo Clero, que os têm como perseguidores, mormente agora que até o nosso Primeiro-Ministro, senhor Afonso Costa, segue avante em sua campanha anticlerical?!

 

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