12 anos

Terça-feira, 25 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. GRANDE GUERRA.

 

O mundo todo acompanhava, estarrecido, a guerra que as elites carniceiras da Europa fizeram eclodir, dos anos 14 a 18 do século XX, em talhos onde se expunham cadáveres esquartejados e os soldados, nas trincheiras, grande parte dos quais advindos como voluntários, viam-se diante de ini­migos que, em igual condição à deles, também estavam à mercê da chuva, do frio, dos lamaçais e, com mais cons­tância, dos piolhos, ratos e carraças. Acabavam quase todos vitimados pelas balas ou gases venenosos, por enfermidades como o tifo e a febre quintã ou, pior ainda, pelas septicemias oriundas de ferimentos mal cuidados, ante a falta de cer­tos procedimentos sanitários e de medicamentos ainda não existentes, como antibióticos, vacinas e outros mais.

 

O maior legado que os marechais dessa guerra deixaram à Europa, após ficarem brincando, insanos e entediados, com os jogos de matar soldadinhos, não de chumbo, mas de carne e osso, foi mergulhar o continente em uma trípli­ce aliança, a dos três efes: fome, fraqueza, falência. A indi­gência aumentara, na maior parte dos países, com a falta de recursos médicos e de géneros alimentícios que pudessem servir de trincheiras ou fortalezas inacessíveis a outros em­bates, bem diversos e mais genocidas e que, tal como aquela guerra, seriam travados contra as forças de Tânatos, o deus da Morte.

 

Nessa batalha, que logo estaria a se anunciar, por toda parte, como guerra não declarada, até mesmo os arquidu­ques Ferdinandos d’Áustria-Hungria estariam à mercê de serem abatidos, não por estudantes bósnios de nome Gavrilo Princip, mas por batalhões de germes mortíferos, criados pela Natureza, nos seus imprevisíveis desígnios de ora mãe, ora madrasta.

 

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Terça-feira, 4 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. SONHO DE VERÃO.

 

Eis então que Aurora, à altura em que se ouvia tocar o passo dobrado “Querido Portugal”, com um arranjo da Banda e, como sempre, de excelente harmonia, olhou casualmente para um grupo de rapazes que riam de algo, de alguém ou de alguns e percebeu, dentre eles, o jovem morador da casa em frente à sua, na Estrada do Raio X. Sentiu-se mergulhar em agitados pesadelos como se, naquela noite de sonhos de verão, algum Puck brincalhão do senhor Shakespeare, foragido de Stratford-on-Avon, no tempo e no espaço, viesse exortá-la para o Amor.

 

Como que a um sexto sentido, Hernando lhe devolveu o olhar. Trazia aos lábios um sorriso zombeteiro, com uma aura de luz em volta de si, que parecia fazê-lo se elevar aos céus, o que muito perturbou a sensitiva pastorinha de Chaves, que não conseguia desviar os olhos de tão bela quão profana aparição. De repente, porém, a entrecortar esse cruzamento de olhares, passou a correr entre eles uma pequena malta de putos esfarrapados, em feroz perseguição a uma pobre velha, senhora de manifesta perturbação mental. Enquanto alguns senhores repreendiam os rapazolas, alguns outros atiçavam os trocistas a continuarem com esses gestos de tamanha impiedade.

 

Ao cessar a balbúrdia, logo todos se dispersaram, com a mesma rapidez da curiosidade saciada. A malta, porém, afastara do campo de visão de Aurora o jovem Hernando e seus camaradinhas. No lugar onde há pouco estiveram, não havia mais nenhum belo rapaz de lenço ao pescoço, olhos de lince e riso debochado.

 

Entrementes, João Reis falava aos seus, em tom baixo, mas indignado, que o único problema daquele Jardim era a falta de policiamento. Nos dias em que as bandas tocavam, o jardim era livre para todos. Não se podia, portanto, conforme explicava o Papá, impedir a entrada de qualquer zé-dos-anzóis que, por uma condição social menos favorecida, estivesse com um fato surrado, sem gravata e tamancos nos pés. Com isso, no entanto, permitia-se também a entrada de mendigos, com o seu esmoler importuno; bêbados, a liberarem gestos obscenos e palavras de baixo calão; maltas de miúdos a correrem por aquele passeio público, andrajosos e quase nus, como se acabassem de sair das páginas de uma obra de Charles Dickens.

 

Para um quadro completo de Pieter Bruegel, havia também os doidos. Chaves, como qualquer outra vila ou cidade, também tinha os seus próprios loucos, a perambularem maltrapilhos pelas ruas: a Don´Ana, o Bisca Velha, o Furriel, a Rosa Tirana, o João da Manta, o Mata-a-velha (esse, além de louco e mendigo, era ladrão)... A garotada miúda e alguns rapazotes os perseguiam e arreliavam, sem que a Polícia nada fizesse para impedir. Sobre o facto ocorrido naquela noite de julho, alguém escreveria uma nota no próximo número do jornal “O Flaviense”: “Essa prática selvagem, inconveniente e desumana de irritar os coitados, transforma em furiosos e tresloucados a esses doidos que, não fora a falta de respeito do rapazio, não passariam de pobres malucos inofensivos”.

 

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Terça-feira, 28 de Março de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. MOSCAS E MOSQUITOS.

 

Apesar de morar tão próximo de Hernando, Aurora passou muito tempo sem vê-lo. Como acontece quando se espanta uma incómoda mosca, mas o inseto persiste em voejar em torno do incomodado, assim estava a menina a tentar nunca mais pensar nele. Esse mosquito maroto, no entanto e por diversas vezes, vinha que lhe vinha pousar à lembrança ou, até mesmo, materializar-se em carne, osso e sedução. Tal ocorreu a um entardecer, em que ela estava a passear com os familiares, por entre as alamedas do Jardim Público.

 

 Era véspera do feriado em que se iam comemorar cinco anos da vitória dos republicanos, contra a incursão monárquica em Chaves. O florido parque, construído entre as margens do Tâmega e a Avenida Dom João I, na Madalena, relativamente próximo à Quinta Grão Pará, ainda hoje é um belo e bucólico recanto. Naquele tempo, aos fins de semana, Reis tinha o costume de levar a família a passear, para usufruir, nos dias soalheiros, do excelente passeio pela fresca das brisas que as árvores proporcionavam.

 

Nessa noite de 7 de Julho de 1917, o Jardim Público apresentava-se ornamentado com uma profusa iluminação elétrica, para fazer jus a um festival de grandes atrações: concerto de canto coral com alunos da Liga Flaviense; queimação de vistosos fogos-de-artifício, pelos mais hábeis pirotécnicos da localidade; um grupo de “gentis damas da sociedade de Chaves” a vender sortes, no recinto de um bazar organizado às proximidades do coreto e cujas rendas, incluindo o aluguel de cadeiras, seriam revertidas em favor da subscrição nacional pelas vítimas da guerra e suas famílias órfãs. Haveria também a distribuição do bodo (roupas e alimentos) aos pobres.

 

 

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Jardim Público de Chaves. Coreto. (PT). Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

Máxime seria o Hino Nacional cantado pelos praças da Cavalaria 6 e da Infantaria 19, juntamente com a admirável Banda dessa Infantaria, a qual, como já o fazia habitualmente, iria tocar lindas peças musicais: “O Barbeiro de Sevilha”, Ouverture, de Rossini; “Madame Butterfly”, de Puccini; “Segredo do Rajá”, de P. Ribeiro; “Regresso a Chaves”, de O. Douvens; “Tanauser”, opereta, seleção, de Wagner; “Cantares da Aldeia”, de B. da Costa e outros melódicos manjares, dentre os quais algumas mazurcas e zarzuelas.

 

Comentava-se elogiosamente que, com a nova iluminação do Jardim, os integrantes da Banda podiam agora ler melhor as partituras, sem a deficiente luz elétrica anterior, pois, às vezes, aquela chegava a interferir no desempenho das mãos ou da boca dos músicos. Até então, muitas vezes, tornava-se bem difícil aos olhos destes conseguir, com exatidão, descobrir o que se estava a enxergar nos pentagramas. Já não bastassem os pequenos insetos, que teimavam em pousar sobre as partituras e se confundirem com as notas da composição! Disso tudo, resultavam desafinações eventuais, nada agradáveis e eufónicas aos ouvidos do público, menos ainda aos componentes da Banda. Para os músicos, realmente, isso era constrangedor.

 

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Terça-feira, 14 de Março de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. DEFESA DA FÉ.

 

Florinda a tudo escutou, com o sangue a lhe subir à fronte, em uma crescente indignação. Quando Aurita interpelou o primo, timidamente – Mas os pastorinhos viram Nosso Senhor no Calvário, viram Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora do Carmo e Nossa Senhora de...– o rapaz riu e exclamou – Pois me dizei, afinal: quantas mães tem o Filho de Deus? Pai, a gente pode ter vários, mas mãe, de facto, só nos há de ter uma, não achais todos vós?

 

Foi então que uma ardorosa defensora da Fé, a deixar assombrado o próprio marido, ergueu-se da cadeira e disse ao sobrinho, em tom normal, porém firme – Senhor Rodrigo, isso não são coisas que se digam na casa de pessoas que têm suas crenças e devoções! Aqueles devotos que lá estavam e que eram, de facto, gente de fé, por certo que seus olhos VIRAM tudo aquilo, porque tais coisas, rapaz, estão acima de nós, pobres seres humanos. Aquelas coisas, ainda que fossem só para aquela gente ver, eram milagres. Milagres da Virgem Santíssima!

 

A seguir, ameaçou-o – Se é para vires até cá com essas ideias de jerico e ficares a blasfemar e zombar de nossa religião, melhor será que penses bem antes de ultrapassar aquela porta! – chamou, até si, as meninas da casa – Aurita, Nonô, Lilinha, Mindinha, venham comigo! – recolheu-se com as filhas ao quarto do casal e todas ajoelharam-se diante do oratório, a rezar à Virgem de Fátima, em voz tão alta quanto pudessem ser ouvidas na sala de estar, pela reconversão do primo à fé católica e pelo perdão “aos pecados de todos nós.”

 

Discreta e educadamente, Rodrigo logo se dispôs à retirada de campo, antes que essa mini batalha doméstica viesse a crescer e se espalhar pelo mundo, como tantas guerras por Religião que se travaram ao longo da História. João Reis, todavia, apesar de devoto por tradição, instou ao sobrinho que ficasse e, com bastante e vivaz interesse, continuou a provocar as argumentações do jovem iconoclasta.

 

Como chegassem até ao quarto algumas risadas dos rapazes e até de João Reis (isto, por si só, um facto inusitado), já entretidos então com outros assuntos, mais amenos, Mamã e as quatro filhas puseram-se a cantar, em alto e bom som, de modo a que os da sala lhes percebessem a indignação, algumas preces musicadas em louvor à Santa Senhora, tais como essa que, até hoje, ainda é conhecida – “A treze de maio, na Cova da Iria / no céu aparece a Virgem Maria / Ave, Ave, Ave Maria...”

 

 

Alguns dias depois, sob o pretexto de devolver um livro à estante de João Reis, o primo Rodrigo tocou a sineta da entrada e pediu a Zefa que transmitisse à senhora sua tia e aos mais as suas maiores recomendações. Já se dispunha a partir, quando se viu chamado pela própria Florinda, como se, há tão pouco tempo, nada de inconveniente houvesse acontecido. – Ora me entres cá, Rodriguito, vem nos dar de novo o prazer de uma boa palestra! Só não me fales de certas coisas, bem sabes! – e, desse dia em diante, por muitos outros mais, entre broas, bolinhos e bolachas, lá estava o rapaz, de novo, a encantar a todos da casa, com os seus ditos espirituosos e as histórias engraçadas, embora algumas, por vezes, terrificantes.

 

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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. SENHORA DA IRIA.

 

As primeiras notícias da aparição da Virgem, aos 13 de maio do ano de 1917, na aldeia de Fátima, freguesia de Aljustrel, Concelho de Ourém, pelos pastorinhos Lúcia (10 anos) e seus primos Francisco (9) e Jacinta (7), foram trazidas aos Bernardes, de pronto e bem frescas, pela sempre linguareira Zefa de Pitões. Soube-se então que os miúdos, quando apascentavam um pequeno rebanho no lugar chamado Cova da Iria, detiveram-se para rezar o rosário e disseram ter visto, sobre uma pequena azinheira, “uma senhora mais brilhante que o Sol, com uma voz dulcíssima, aparentando não mais do que uns 18 anos de idade”.

 

Seu vestido, conforme consta de um folheto da época, publicado pelo Visconde de Montelo, “ (...) era de uma alvura puríssima de neve, assim como o manto orlado de ouro que lhe cobria a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto (...) apresentava-se sereno e grave, como que toldado de uma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz de ouro, um lindo rosário, cujas contas brancas de arminho pareciam pérolas. De todo o seu vulto, circundado de um esplendor mais brilhante que o sol, irradiavam feixes de luz, especialmente do rosto, de uma formosura impossível de descrever, incomparavelmente superior a qualquer beleza humana”.

 

Com a Lúcia, assim dialogara a bela senhora – “Não tenhais medo. Não vos faço mal.” – “De onde é Vossemecê?” – “Sou do Céu” – e, a uma indagação sobre pessoas recém-falecidas – “A Maria das Neves já está no Céu e a Amélia estará no Purgatório até ao fim do mundo” – após o que disse aos pastorinhos que deveriam aprender a ler e, sempre aos dias 13 de cada um dos próximos cinco meses, retornar àquele mesmo local. Ali ela estaria a lhes falar, de novo, sobre muitos e importantes factos do mundo.

 

Como em todas as suas aparições posteriores, a Santa exortou os pastorinhos a “rezar sempre o terço, todos os dias, pelas almas dos pecadores, a paz no mundo e o fim da guerra”. Enfatizou a punição ou reparação dos pecadores, diante das “dores profundas que estes causavam a Ela e a Seu Filho, com suas ofensas, blasfémias e pecados”. A seguir, comunicou-lhes um segredo que não deveriam contar a ninguém. Seria o primeiro dos três famosos segredos, somente revelados, em três etapas, após 1941 (ou, para os céticos, apenas desmitificados, pelo menos no que tangia aos seus alardes apocalípticos e à exagerada importância).

 

No dia 13 de julho de 1917, a Senhora teria mostrado a Lúcia, sua única interlocutora, uma visão horrível do Inferno, “para onde vão as almas dos pobres pecadores”. De Sagres a Melgaço, multidões de devotos correram às igrejas para rezar, impregnados pelo intenso pavor do fogo infernal. Ante uma pergunta de Lúcia – “Que é que Vossemecê quer que se faça com o dinheiro que o povo deixa na Cova da Iria?” – a Virgem teria respondido – “Façam dois andores. Um, leva-o tu com a Jacinta e mais duas meninas, vestidas de branco; o outro, que o leve, Francisco com mais três

meninos. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário; e o que sobrar é para a ajuda de uma capela, que vós m’a heis de mandar erguer.” A seguir, elevara-se aos céus e desaparecera.

 

Na manhã de 13 de agosto desse ano, soube-se que os miúdos foram sequestrados pelo administrador do Concelho de Ourém, o qual supunha que os segredos de Nossa Senhora se referiam a um acontecimento político que acabaria com a República, recém-instalada em Portugal. Como os pastorinhos nada revelassem, mesmo aprisionados e vítimas de uma forte pressão por parte do administrador, acabaram devolvidos às suas famílias. A aparição, nesse dia, teria sido em um sítio diverso do habitual.

 

Ao mês seguinte, setembro, com mais de 15 mil pessoas no local, a Virgem Maria mandara que continuassem a rezar o terço e prometera, para sua última aparição, em outubro, um milagre que faria “todos acreditarem no que os miúdos lhes estavam a contar”. Quanto aos sacrifícios que os três pastorinhos passaram a fazer, Ela teria dito – “Deus está contente, mas não quer que durmais com a corda” (um grosso cordão de penitência, cheio de nós incómodos e que as crianças usavam cingido aos rins). “Trazei-a só durante o dia.”

 

A 13 de outubro desse mesmo ano de 1917, a multidão que, em sua maior parte, acorrera já na véspera à Cova da Iria, perfazia umas 50 a 70 mil pessoas, quase todas a rezarem com seus terços de devoção, seus nonos de fé e os seus inteiros de ingénua credulidade. Consta que então, mais uma vez, a Virgem apareceu em sua áurea de luz e pediu que fizessem ali “uma capela em minha honra”. Disse que era “a Senhora do Rosário” e que “não ofendessem mais a Deus Nosso Senhor, que por certo já anda muito ofendido com os pecados da humanidade”.

 

Contaram os miúdos que “ela abriu suas mãos de alabastro e fez com que estas se refletissem no Sol, ao que após elevou-se e desapareceu no firmamento”. Em seguida, os pastorinhos teriam visto, ao lado do Sol e de Nossa Senhora, o Menino Jesus com São José que “traçavam, com as mãos, gestos em forma de cruz, a modo de estarem assim a abençoar o mundo”. Lúcia vira depois Nosso Senhor a caminho do Calvário, “também a estender gestos de bênçãos ao mundo”. A mais daí, aparecera Nossa Senhora das Dores. Por fim, uma terceira visão: Nossa Senhora do Carmo, com o Menino Jesus ao colo.

 

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Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. DAMA DA CAROCHINHA.

 

Mamã afeiçoara-se a Adelaide, desde a primeira vez em que se conheceram. Às vezes ousava dizer ao marido sobre tão improvável amiga – Pois a mim, agrada-me a sinceridade dela e a sua... a sua… (a palavra não lhe vinha: espontaneidade). Nem todos conseguem, como ela, tapar a boca ao mundo. Pelo menos quando as línguas ferinas estão diante de si. – Adelaide, no entanto, era portadora de uma fina educação, que recebera em um colégio de freiras de Coimbra. Desses tempos e desse claustro, quando estava a sós com Florinda, narrava cada história escabrosa que fazia Flor suplicar – Para, Dedé, para! Isso cá já me é demais! – e no entanto, quando necessário, a viúva sabia portar-se com muita dignidade e compostura. Sabia exprimir-se em mais de três idiomas e era portadora de certa erudição, adquirida em muitas leituras, ou em viagens aos grandes centros culturais da Europa de então. Tudo isso a tornava uma exceção entre as senhoras flavienses. As da chamada elite esquivavam-se de convidá-la para suas receções formais, porém vinham sempre lhe bater à porta, a fim de pedir óbolos destinados aos bazares beneficentes, ou que ela própria coordenasse a arrecadação dessas rendas e, até mesmo, animasse o giro das tômbolas, para o sorteio das prendas.

 

Livremente católica, como ela própria se dizia, a alegre viúva conjugava suas ideias com as do senhor Allan Kardec e muito lhe apetecia falar de reencarnação. Dizia que, em outra vida, tinha sido uma cigana espanhola de vida libertina, “Cármen, la Habanera”, assassinada por um jovem soldado enciumado que, no entanto, dizia amá-la demais. Aliás, quando começava a falar sobre os ciganos, havia que dar um jeito de fazê-la parar, antes que se estendesse pela tarde afora. Aurora, porém, ficava embevecida, atenta aos mínimos detalhes narrados pela excêntrica senhora, especialmente quando esta discorresse sobre os vastos conhecimentos que realmente detinha acerca dos hábitos e tradições gitanas.

 

Algumas vezes, porém, os cavaqueios tornavam-se chocantes para as meninas, se estas se achassem presentes à sala de visitas. Era quando a açoriana discorria sobre as coisas do mundo, expressão que ela própria utilizava para falar de certos comportamentos que elas, as mulheres da Quinta, nunca poderiam supor que existissem, como algumas histórias entre rapazes ou entre moças, em Paris e Berlim. Adelaide, porém, sabia como não se deixar exceder, sobretudo quanto a frases e contos chulos ou explícitos e, quando pressentia estar quase a ultrapassar as marcas, cessava o dito e olhava para Mamã – Mas ó Flor, de que é mesmo que estávamos a falar? – e passava à digressão de amenidades.

 

Apesar de tais incidentes, o que mais agradava a Flor era que as meninas também pudessem compartilhar de alguns momentos alegres e divertidos com essa mulher, de grande espírito, inteligência e senso de humor. A João Reis, porém, não gostava a presença da açoriana em sua casa. Era a velha falta de tolerância para com os outros, sobretudo os diferentes de nós ou de nossa tribo. Chegou a dar ordens expressas para que nenhuma de suas filhas entrasse na sala, quando aquela senhora lá estivesse. Apesar de toda a consideração de Mamã ao patriarca, até mesmo certo temor pela sua conhecida severidade, graças à qual ele se fazia respeitar, essas ordens, todavia, jamais foram cumpridas.

 

Ainda que, ao se recolherem aos quartos, as raparigas rissem muito, a caçoar de alguns caracteres da visitante, todas elas queriam muito bem a Dedé e se alegravam bastante, quando viam (ou melhor, ouviam) a Carochinha chegar aos portões da Quinta. À caçulinha, porém, como Arminda era tratada, aos modos do Brasil, não agradavam as excentricidades no vestuário da parenta. Desde miúda, apreciava os elegantes vestidos que eram mostrados nas revistas de moda de Paris e que o Papá fazia chegar de Lisboa, para sua Menina Flor. Mamã então, após escolher os modelos preferidos para si e as filhas, mandava cosê-los pelas melhores costureiras de Chaves. Quanto ao vestuário mais simples, a própria Mamã o confecionava em sua máquina Singer, o precioso mimo que, em substituição à velha Pfaff, o marido lhe presenteara no último Dia de Reis.

 

 

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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

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  1. DIVERSÕES DOMÉSTICAS.

 

Depois da ceia, Arminda e Aurélia entretinham-se com os brinquedos, na infância prolongada daqueles tempos, após cumprirem os deveres letivos para o dia seguinte, enquanto, em companhia de Mamã, as irmãs mais velhas bordavam, liam ou conversavam um pouco na sala de estar. Logo após o chá das nove, recolhiam-se todos aos quartos.

 

Sob os sete cadeados patriarcais, assim seguia a vida para as quatro meninas da Quinta Grão Pará. Acerca disso, o próprio Papá dizia – Filhas mulheres, há que se velar como filhotes ao ninho – e todos compreendiam que, se duas pupilas estavam a se mover no rosto dele como rastreadores luminosos, havia outras, múltiplas, invisíveis, a se entronizarem em cada uma das meninas e a acompanhá-las por toda parte.

 

Esses focos de vigília estendiam-se até mesmo aos meninos Afonso e Alfredo, ainda que lhes fosse dada uma relativa liberdade, porque, como dizia João Reis – Os filhos homens sabem o que devem cuidar, não precisam guardar o que trazem entre as pernas, apenas ter siso e juízo, para que suas preciosas chaves sejam usadas de bom jeito e não façam mal à fechadura de ninguém.

 

Gostava às meninas que Afonso trouxesse os amigos putos a casa, pois eram ocasiões em que, entre merendas, jogos de salão e os olhares vigilantes de Mamã e dos próprios manos, podiam se dar a digressões adequadas entre rapazolas e mocinhas de boa família. O que mais agradava a todos eram as adivinhações que Aurita aprendera com as criadas, muitas vezes bem picantes, embora a menina continuasse a demonstrar certa ingenuidade (de facto, a malícia nunca lhe houvera de ser uma caraterística na vida).

 

Dentre as várias adivinhas, em geral inocentes, ou seja, apropriadas ao ambiente familiar, Aurora propunha também algumas que faziam corar os jovens, além de deixar os irmãos menores sem ver o boi. Os miúdos, no entanto, embora não pudessem alcançar os duplos sentidos e, portanto, ficassem sem saber nem metade da jocosa missa, riam por afinidade. A Nonô, tampouco ela risse por dentro, tais adivinhações causavam pudicos embaraços. Ao Afonso e demais rapazes, produziam risos meio gaguejantes, que alguns tentavam esconder com as mãos à boca ou à cara total. Eram do tipo – “Qual é a coisa, qual é ela, que roça na minha perna, quando sobe ou quando desce e, quanto mais no meu pelo roça, mais pra cima ela me cresce?” – ou então – “Tenho um brinco, c’o brinco, brinco, já do brinco me aborrece, quanto mais c’o brinco, brinco, mais o meu brinco me cresce”.

 

Sobrevinha então um silêncio constrangedor, até que ela dissesse – mas é meia, ora pois, meia comprida de mulher! – e todos se aliviassem, a uma risada geral. Aldenora, porém, logo estaria a correr até Mamã, que de nada se apercebera em seus afazeres domésticos e se punha a aborrecê-la com suas quezílias junto à irmã. A rapariga estava sempre ansiosa por relatar à Mamã as indecências que a mana tinha aprendido com as criadas no borralho.

 

Depois que os colegas saíam, Afonso vinha muito sério até à irmã, a fim de repreendê-la. Apesar de sua condição de filho homem, naqueles tempos de plena supremacia masculina, talvez porque um ano mais novo do que a irmã, o rapazola não conseguia ter com Aurita a mesma autoridade do pai. Dizia apenas – Peço-te, minha irmã, não faças mais isso! Nunca mais estejas a dizer tais adivinhas, que eu não sei quem t’as ensinou e tu, ao que parece, nem alcanças de facto o que aprendeste!

 

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Terça-feira, 29 de Novembro de 2016

Chaves D'Aurora

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  1. VEIGA.

 

Na época dos Bernardes, a vida em Chaves era muito influenciada pelas condições ambientais, a localização entre montanhas íngremes, frias, escabrosas, ainda que envolvidas por uma vegetação verdejante, mas castigada pela neve, com o seu manto branco de “noiva transmontana”. Conforme nos diz António Lourenço Fontes, em sua “Etnografia Transmontana”, não era como hoje, “uma terra por onde transitam viajantes destinados ou de passagem, mas sim um final de linha onde se vivia isolado, sem influências externas que fossem contrárias aos modos daquela gente viver, após séculos a sós, esquecida do mundo”.

 

Os sítios da veiga, à margem esquerda do Tâmega e à direita da Madalena, um pouco depois do Jardim Público e do ribeiro do Caneiro, ainda que muito perto do entorno histórico e comercial da vila, eram então muito desertos, rurais, com apenas algumas casas e quintas esparsas nos caminhos que iam dar logo ali, na Galiza. Os moradores em geral viviam entregues à horticultura, às atividades pecuárias ou ao específico comércio de aluguel e venda de equinos.

 

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Até alguns anos antes das primeiras décadas do século XX, viviam os flavienses sem luz, sem estradas, sem telefone, além de um índice bem acentuado de analfabetismo entre as camadas mais pobres, as quais constituíam, ao cabo das contas, a maior parte da população. Dormia-se bem cedo, pois o frio ali era mais intenso que alhures, ainda mais pelos ventos que, às vezes, pareciam não se entender quanto ao rumo e, assim, provinham de toda parte. O silêncio era quebrado apenas por eventuais latidos de cães vadios, o trotar de cavalos ao longe, ou, ainda, pelos incómodos ruídos da pequena fauna local, com os seus raros insetos noctívagos.

 

Ainda conforme Fontes, os habitantes da região viviam “amorrinhados pelos longos dias invernais”, chuvosos ou enevoados. Tal modus vivendis levava muitos nativos a “um temperamento amolecido, indeciso, propenso à melancolia, à reação lenta, à reserva natural de um caráter introvertido e desconfiado, tendendo à concentração no interior de si mesmo, no seu lar, na sua aldeia, no seu país”.

 

Todas essas influências devem ter sido absorvidas por João Reis Bernardes, a se refletirem no estilo de vida que impunha a si mesmo e aos seus.

 

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Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

Chaves D'Aurora

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  1. RECONQUISTA.

 

Os mouros foram expulsos de Chaves no século XII, durante os anos da Reconquista, por um grupo de combatentes, menos interessados na fé cristã do que nas pilhagens aos bens dos derrotados, comandados pelos irmãos Garcia Lopes. Segundo uma polémica histórica, esses manos teriam expulsado, não exatamente os mouros, mas outros povos invasores, quiçá os Leoneses, mas o facto é que, fosse aos de Leão ou aos mouros, os valentes lusitanos reconquistaram para Portugal, sem qualquer auxílio régio, essa parte norte do território ibérico. Conta-se que, sob o arco da igreja Matriz, há uma lápide tumular, com inscrições que glorificam e perpetuam a memória desses aventureiros:

 

“Os dous irmãos com as quinas

Sem rei tomaram a Chaves

Donde em campo de ouro finas

Lhes foi dado por suas signas

Em seu escudo cinco chaves.”

 

 (Não consta porém, como denunciado no livro “A Igreja de Santa Maria Maior de Chaves”, de Francisco Gonçalves Carneiro, a comprovação histórica e material desse epitáfio).

 

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Posteriormente, Dom Dinis, de alcunha “o Lavrador”, construiu um castelo (hoje inexistente) e levantou nova estrutura de muralhas. Desses paredões, alguns ainda remanescem em grande parte da cidade, principalmente em torno da Torre de Menagem.

 

Chaves foi destruída e reconstruída várias vezes, ao longo dos tempos. Sobraram poucos vestígios da povoação original, até que, sobre o que restara de suas muralhas, fez-se a reconstrução de outra vila, na segunda metade do século XIV, após a retomada da região pelo Mestre de Avis, no cerco do qual nos fala Fernão Lopes, em sua “Crónica de El Rei D. João”, capítulo 69: “(…) Ainda em local da antiga Vila de Santo Estêvão (…) acampou o Mestre de Avis com as suas aguerridas hostes, em dezembro de 1385, em cuja região se detiveram bastantes dias (e ali mesmo comemoraram a ceia do Natal), em aprestos bélicos para a ingente e temerosa investida da formidável cidadela de Chaves, que tomara voz por Castela”.

 

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Terça-feira, 13 de Setembro de 2016

Chaves D'Aurora

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12. FESTA CIGANA

 

Aconteceu, certa noite, de Aurora preferir ficar na Quinta, em companhia das criadas, enquanto o restante da família fora pernoitar em casa de um parente em Vila Real, cuja filha estava a festejar o batismo de seu morgado.

 

Uma alegre e contagiante música veio do casarão em frente, atravessou a rua e, como um chamado melodioso de sereia virago, não pediu licença para penetrar aos ouvidos da rapariga nem das serviçais.

 

Havia folguedo entre os ciganos.

 

Zefa e Maria se haviam muito excitadas para ver, bem de perto, os pasos dobles de alguns sevilhanos, que estavam a bailar no pátio dos Camacho. Sem poderem adentrar a festa alheia, limitavam-se com a menina a observar, de uma das janelas do casarão, o vaivém dos convidados. Estes aportavam pela entrada lateral da moradia, larga passagem para cavalos, carros puxados a bois ou algumas carroças que serviam de moradia aos parentes nómadas.

 

Eis que a ideia marota partiu de Zefa, cuja excitação feminina era proporcional à sua “risada pronta, mioleira tonta”. Maria, mais cautelosa, ficara a princípio relutante, até que sua curiosidade, enfim, venceu o medo. As duas resolveram pedir a dona Mariazita, mãe de Hernando, a quem já conheciam pela mera vizinhança, que lh’as deixasse ficar bem quietas em algum sítio discreto do terreiro, assistir às danças e ao mais.

 

A se considerar, desde pronto, a uivar para a Lua, como loba solitária em seu covil, Aurora choramingou – Mas ora, pois, suas cabeças de sanguessuga! Não estais a ver que me deixais sozinha?! – As duas então concordaram em levá-la, desde que – Ai minha Virgem Concebida sem Pecado Original! Não me vás contar nadica de nadinha à nossa boa patroa! – disse uma; e a outra – E ai Jesus, Maria, José! Menos ainda, que tal não chegue aos ouvidos do senhor teu pai!

 

 

O imenso pátio onde se guardavam os cavalos e carroções, agora estava livre para os folguedos. Era nesse espaçoso átrio que, de acordo com os costumes ancestrais, oferecia-se àquela noite uma festa de agrado ao futuro sogro de Rosinda, a irmã de Hernando, prestes a se casar daí a alguns meses. Era uma xukar tão bela como Esmeralda, a protegida de Quasímodo, na Notre-Dame de Paris de Victor Hugo. Em respeito a uma secular tradição, mal acabara de chegar ao mundo e a rapariga fora prometida a um ciganito andaluz, aparentado dos Camacho e o qual, por uma buena dicha da noiva, viera a se tornar, quando já posto, um moço bem forte, simpático e loução.

 

festa cigana.jpgFoto retirada de http://www.umbandaesoterica.com.br/

 

Como soa um dito popular, “em festa de ciganos, chapéus ao ar e toca a bailar”! Daí que, ao centro de uma roda, diante de alguns tocadores de guitarra, violinos, acordeões, pandeiretas e até um címbalo, homens e mulheres, de várias idades, punham-se a dançar, ruidosa e animadamente. Entrementes, todos bebiam muito vinho, acompanhando os sarmali (trouxas quadradas de repolho, recheadas com pedaços de carne macia de vitela e lombo de porco, temperados com diversos condimentos). Outros degustavam a carne de borrego com hortelã, preparada com o coentro e caril, marinada em vinho branco e servida junto com as guibanitsas, deliciosa espécie de pães de queijo de origem eslava.

 

Pleno de sensualidade, Hernando era quem mais se destacava no bem comer, no muito beber e no dançar demais. Em certo momento, a um gesto seu, os circunstantes afastaram-se do centro para dar passagem a uma dama, que trazia castanholas e a bata de cola de uma autêntica sevilhana. Com ela, pôs-se o rapaz a dançar alguns passos do Flamenco, que aprendera em suas andanças por granadas, córdobas e outras andaluzias, enquanto os espetadores acompanhavam o dueto como basbaques, a bater palmas com admirados olés ou a estalar, ruidosamente, os próprios dedos.

 

Aurora não conseguia tirar, de cima desse atraente balaor, seus fascinados olhos juvenis. A um dos pasos mais mirabolantes, ganhador de muitos aplausos da roda, Hernando tirou o lenço encarnado do pescoço, transformou-o por um triz em uma rosa e todos ficaram à espera de que ele o oferecesse, entre mil salamaleques, à sua parceira andaluza. Desta, porém, as mãos ficaram soltas ao vento e a segurar só os espinhos. Foi à bela e quase infantil intrusa que Hernando atirou sua mágica flor, embora a rapariguinha estivesse quase oculta, por trás de um desses santuários pétreos ao ar livre que se veem na região. O nicho de pedra abrigava um oratório de carvalho e, entre enormes círios coloridos, Sara Kali, padroeira dos ciganos, acompanhava os folguedos com os olhos circunspectos de uma santa que, aos alvores do Cristianismo, foi torturada e martirizada pelos pagãos.

 

sara kali.jpgImagem de Sara Kali,, padroeira dos ciganos

Imagem retirada do blog http://identidademandacaru.blogspot.pt/

 

Maravilhada, punha-se Aurita em mil caraminholas. Tentava adivinhar, não só como o rapaz fizera aquilo tudo assim, de tão prontinho, como também, a outro passe de mágica, ele pudera descobrir, em seu discreto posto entre as árvores, aquela gajina que, sem ser convidada, julgava-se mais escondida do que coruja em torre de igreja. Não sabia ela, ora, pois, que “cigano é batizado num regueiro, para que tenha olho vivo e pé ligeiro”? Ao gesto galante de Hernando, de tão pálida ela virou Branca de Neve, que um pedacinho de maçã não lhe deixou sair da garganta algo mais do que um tímido sussurro

– Obrigada!

 

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Nota: As ilustrações do presente post são da responsabilidade do Blog Chaves e não constam no romace.

 

 

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Terça-feira, 6 de Setembro de 2016

Chaves D'Aurora

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10. HERNANDO.

 

 A primeira vez em que soubera de Hernando foi em julho de 1916. Papá estava a ler “O Flaviense” e comentou com Florinda que umas devotas senhoras, todas elas da elite social de Chaves, estavam a angariar prendas para um bazar da Liga de Instrução e Beneficência, cujo produto reverteria ao fundo de pensões para as famílias dos mobilizados na Grande Guerra.

 

O que de facto chamara a atenção de Reis é que, dentre os nomes constantes da imensa lista de doadores e respetivas doações, constava um tal de Hernando Camacho. Como não houvesse outros Camacho na Vila, ainda mais com esse prenome, só poderia ser mesmo ele, o filho mais novo da família de ciganos que morava em frente à Quinta, ao outro lado da rua.

 

Mamã perguntou, curiosa – E o que ele deu, de prenda? – Ora, pois, umas quinquilharias: “um frasco de perfume; uma caixa de pó d’arroz; dois harmónios para crianças; doze bandoletes; dois alfinetes fantasia “fixa-gravatas” e seis passadores para cabelo”. – Que belo gesto! Como pode um moço, tão criança ainda, acho que vai pelos dezoito a dezanove, não é, já estar assim, tão prestimoso e a colaborar com um bazar de caridade?! Deve ser um jovem de muito belo caráter!

 

Papá olhou para o jornal com desprezo, como se este representasse o cigano – Qual o quê, minha rica Menina! – ele a chamava assim, de Menina, na intimidade – Esse aí é uma bisca! Não vale a água que bebe! Essa generosidade toda... então não sabes? Há de ter alguns parentes e outros gajos de sua laia a lutar nessa guerra, que está a desgraçar nossos rapazes em terras d’ África, em defesa de nossas colónias contra os turcos e alemães. Ou então, o que é mais provável, está a se bandear para a filha de alguma dessas senhoras da Liga. Aquilo, nessa pouca idade, já é um marialva. Cachopa bonita em que ponha o sentido, pronto! Tanto faz saltar como correr, tem que ser dele. – Mas ele ainda é uma criança! – Que já faz criança! Eu é que não queria que me caísse de genro um valdevinos como aquele!

 

Aurita o viu pela primeira vez à janela da própria Quinta e logo se deixou ficar por ele em um louvar a Deus. Ainda que ele fosse baixinho e vivesse a tentar, com reforços nos saltos dos sapatos, sempre bem engraxados, uma estatura ao menos meã, não deixava o homenzinho de ser muito garboso. Contava com tantos e tais encantos que, apesar dos seus tenros anos, mas de esperta e bem vivida juventude, atraía as mulheres como abelhas ao pólen. Rosto bem desenhado, vaidoso, vestia-se muito bem. Negros e encaracolados cabelos, olhos insinuantes, um corpo bem formado de macho (mormente a noção de virilidade, para a jovem rapariga, ainda mais no que tangesse ao sexo, fosse apenas instintiva), tudo isso estava embalado em fatos de puro linho e, ao pescoço, lenços de seda de Macau.

 

O rapaz, até então, nem parecia perceber a existência de Aurora, uma gajina que mal deixara de ser miúda, mas já era bem fornida de rendas e prendas da Natureza. Chegaram até a se cruzar algumas vezes na rua, quando os Bernardes iam à Missa, mas era apenas ao pai da menina que ele erguia o chapéu, como a dizer bom-dia, o que significava uma extensão do cumprimento a todos os mais da comitiva. Só muito tempo mais tarde, Aurora saberia, pelo próprio gitano, que, desde o primeiro instante em que a viu, ela já ficara emoldurada para sempre entre os olhos de lince do rapaz.

 

1600-(46191)

 

Hernando Camacho era o filho mais novo de um clã de ciganos fixos e abastados, descendentes daqueles que vieram morar em Chaves, há mais de um século, quando resolveram abandonar a vida nómada e se tornaram cidadãos lusitanos. Moravam em frente à Quinta, em um casarão cuja frontaria constava de uma porta em baixo e dois janelões acima. Haviam construído, aos fundos do prédio, várias casitas que funcionavam, então, como um tipo de habitação coletiva, alugadas pelo pai, Germano Camacho, a outros ciganos mais pobres.

 

O patriarca progredia no comércio com uma loja à Rua do Sabugueiro, na Madalena. Situada ao lado esquerdo do Tâmega, próxima ao Raio X, esta parte da urbe era então um grande centro de atividade comercial, a rivalizar com o núcleo histórico da cidade. A Casa Camacho atendia às camadas mais populares de Trás-os-Montes, especialmente os habitantes das aldeias da região, a vender artigos agrícolas, pecuários e outros similares do meio rural, incluindo selas e estribos para os equinos. Germano jamais abandonara, todavia, sua atividade preferida, a criação e venda de cavalos, ramo de seu comércio original. Tal como os seus antepassados já o faziam, há várias gerações, ele continuava a se dedicar a esse mister com a ajuda de Hernando, sempre com ótimos resultados.

 

Ainda que tratados com urbanidade pelos cidadãos de Chaves, os Camacho sabiam que, às suas costas, permanecia o discreto, mas ancestral preconceito, esse mal lastimável que iguala todos de um grupo social nos mexidos de um só caldeirão. Em outros tempos, na maior parte dos países europeus, como também ocorria com os judeus, a intolerância levara muitos ciganos às galés, degredos, masmorras, castigos, pogroms, fogueiras, interdições de residência, em tantos e tristes eventos milenares. Tal viria a se repetir, algumas décadas depois, na Guerra Civil Espanhola e nos campos de concentração nazistas, quando, juntamente com outras minorias, milhares de gitanos foram dizimados.

 

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Terça-feira, 12 de Julho de 2016

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

Em 18 de maio passado demos aqui conta (http://chaves.blogs.sapo.pt/lancamento-do-livro-chaves-daurora-de-1388956) do lançamento em Chaves do Romance “Chaves D’Aurora” do autor brasileiro Raimundo Alberto.

 

Em “Chaves D’Aurora”, Raimundo Alberto convida o leitor a se transportar até aos anos 1912-1926, para acompanhar as peripécias de uma saga familiar, inspirada em factos reais, ocorridos em Chaves, Trás-os-Montes (Portugal) e na Amazónia brasileira.

 

Os originais do romance foram totalmente escritos em Chaves, Trás-os-Montes, onde Raimundo passou mais de dois meses recolhendo dados, conversando com os moradores e pesquisando, entre outros temas, os ciganos e suas tradições, as aparições em Fátima, a Segunda Guerra Mundial, as lutas dos republicanos flavienses contra os monarquistas, vindos de Verín, a Pneumónica,  além de lendas e mitos regionais. Tudo isso forma um contexto histórico e social que envolve a família Bernardes (nome fictício) e que tem como fio condutor a história de amor entre uma jovem recatada (da família Bernardes), de boas posses e um cigano também rico, mas volúvel, que se torna proibida, face os preconceitos e as tradições de ambos os clãs, o que poderá conduzir a um desenlace não fatal, mas, de algum modo, trágico. No entanto, convicta dos sentimentos de seu amado, a jovem perseguirá, até à exaustão, a esperança de um final feliz.

 

Porque conhecemos o autor aquando da sua estadia em Chaves e um pouco da história deste romance e o seu envolvimento com a nossa cidade, desde logo manifestamos interesse em que um dia pudesse ser publicado aqui no blog. Esse interesse aumentou depois de lermos “Chaves D’Aurora” e daí pedirmos ao autor a devida autorização para que essas publicações fossem possíveis e,  graças à gentiliza de Raimundo Alberto,  vão sê-lo a partir de hoje, dadas em forma de “episódios”, não a totalidade do romance que se desenvolve ao longo das suas 670 páginas, mas os “episódios” em que a cidade, então vila de Chaves, marca presença, sem prejudicar a história de amor do romance.

 

Embora o romance tenha algumas ilustrações, tentaremos também da nossa parte acrescentar algumas imagens inseridas no contexto de cada episódio.

 

Vamos então ao romance, que a partir de hoje estará aqui todas as terças-feiras com um “episódio”. Hoje, por ser o primeiro, será um pouco mais longo, pois antes do I Capítulo queremos deixar a apresentação do romance pelo próprio autor:

 

APRESENTAÇÃO:

 

Toda comunidade, neste grão de pólen no jardim do Universo, sempre guardará algumas histórias para serem contadas, à espera de pesquisadores para colhê-las e, no momento oportuno, narrar aos interessados. Melhor ainda se o fizerem com a necessária graça na forma de transmiti-las, como os menestréis da Idade Média, ou os atores-contadores da época atual.

 

Desde a Pré-história e, portanto, milénios antes da linguagem escrita, ao redor do lume, as tribos ou clãs já transmitiam às futuras gerações, de forma oral ou por meio de inscrições nas rochas e cavernas, os feitos e os factos de sua gente. Tais narradores ainda se encontram hoje, porventura, entre os indígenas à volta da fogueira, os beduínos em descanso nas caravanas, os ciganos em acampamentos eventuais e outros habitantes de regiões onde, por raridade, ainda inexistam o Rádio, a Internet e a Televisão.

 

 Conquanto nascido muito além do Brunheiro e do Barrosão, move-me a parcela de ADN dos meus ancestrais, para convidar o leitor a penetrar no universo flaviense das primeiras décadas do século XX e acompanhar as peripécias de uma saga familiar, a dos Bernardes (sobrenome fictício), inspirada em factos reais, ocorridos em uma Chaves bem diversa da que hoje nos encanta, no Portugal contemporâneo.

 

Busquei, o mais que pude, adequar o romance ao seu contexto histórico e, em alguns aspetos, a episódios de Micro História, ao relacionar o quotidiano das personagens com o tempo e o mundo de então. Descortina-se, pois, um pequeno mas importante painel sociocultural de Chaves e de Portugal, nos anos de 1912 a 1926, com a inclusão de poemas, jogos, lendas e costumes da cultura de Trás-os-Montes.

 

Tentei, nos diálogos, a maior aproximação possível da linguagem popular lusitana e, na parte narrativa, evitei, o mais que pude, valer-me de vocábulos com uso restrito ao Brasil ou a Portugal, ou que portassem, apesar da homografia, significados diferentes em cada um dos países.

 

Ressalvadas as variantes de alguns termos e expressões idiomáticas, algo possível de ocorrer, tanto em aldeias portuguesas versus Lisboa, quanto nos sertões brasileiros versus Brasília, a maior parte das palavras usadas nesta obra constitui um património comum da “Última Flor do Lácio”. (Cf. Olavo Bilac, poeta brasileiro, 1865-1918, em seu soneto “Língua Portuguesa”). Isso me leva a defender uma real confraternização linguística, entre todos os usuários do idioma de Camões, a partir do célebre axioma “nossa língua, nossa pátria”.

 

Raimundo Alberto

Chaves, Portugal, 30 de maio de 2010

 

 

1 - AURORA

 

Em que subtis cornucópias os deuses escondem as chaves da aurora, enquanto brincam, perversos, com o desespero dos pobres mortais que, ao intenso frio da madrugada, anseiam pelo amanhecer? Ao longe, nos becos, ruelas e casarões da Ribeira; nos rabelos, esses barcos ancestrais a transportar os tonéis de vinho do Porto; nas múltiplas caves da Vila Nova de Gaia, às margens do Douro; enfim, todos os seres humanos, adormecidos ou já despertos, estavam à espera do Sol. Este, porém, tardava em pintar, a um céu ainda escuro, os multicoloridos traços do alvorecer. Tanto para a boa gente portuense, quanto a todos os que partiam para Além-Mar, o Astro-Rei demorava-se em trazer um dia a mais (ou a menos) daquele ano de 1926.

 

No cais de embarque em Leixões, a neblina reduzia um sítio do convés do Hildebrandt a uma única visão: um vulto humano a se trajar de negro, colado à amurada do navio. Era nisso a que a jovem Aurora agora se resumia, viúva solitária de um homem ainda vivo, a única dentre os passageiros a enfrentar, naquela parte da embarcação ao ar livre e a essa altura da madrugada, a áspera friagem do final de outono.

 

Livre é o ar, ainda mais quando se move em forma de vento. Aurora, porém, por um migalho de tempo, qual fosse a aurora a se enclausurar entre as nuvens, sentia-se presa a essas tantas, mas invisíveis correntes, de cujos cadeados os deuses se divertem a esconder as chaves.

 

Vira entrar senhores de sobretudo, da mais fina casimira inglesa e senhoras com casacos de gola de arminho. Uma delas estava a levar, com uma das mãos, um baú oval forrado de veludo e, com a outra, um menino que, por baixo do casaco, trajava a clássica veste de marinheiro francês, muito em voga naqueles tempos. Longe destes, porém, mal vestidos aos olhos de qualquer ser humano e, especialmente, do senhor Frio, aquele que, na Rússia, afugentou os exércitos de Napoleão e, muito tempo depois, venceria os de Hitler, alguns emigrantes da Beira Alta ou de Trás-os-Montes estavam a carregar os seus poucos pertences, rumo às partes mais baixas do paquete alemão.

 

Uma senhora com o seu trajo de domingo (teria apenas uns dois mais, para o resto da semana) empurrava os seus miúdos para dentro do navio. Outra se valia de alguns cascudos e puxões de orelhas, para acordar e mover um rapazinho que, insone e mal nutrido, estava a dormir em pé, como os sonâmbulos. A maior parte dos migrantes, porém, era constituída de homens desacompanhados, a levarem consigo o temor de não mais voltar e deixar, em cada aldeia, os órfãos de pais vivos e as viúvas sem atestado de óbito, com os ventres a suspirarem de saudade e os braços carentes de aconchego.

 

Rumo à terra prometida no Brasil, esses embarcados da terceira classe iriam perfazer as estatísticas de quase 800.000 emigrantes, nas primeiras décadas do século XX. Alguns sonhavam encontrar a tão esperada “árvore das patacas” e, de torna-viagem, chegarem ricos e beneméritos aos seus torrões natais, ainda que, de modo pejorativo, fossem chamados brasileiros. Desses retornados à boa terrinha, uns seriam respeitados, pelos que nela ficaram, ao se mostrarem guarnecidos de boas e fidalgas maneiras; outros seriam motivos de troças e mofas do povoléu quando, diante de tudo e de todos, a um comportamento típico de novos-ricos, ficassem a exibir sua opulência.

 

Seria bem triste a percentagem, ainda que reduzida, dos que acabariam por se atirar à vadiagem ou a negócios escusos no exílio e, assim, engrossar as maltas desordeiras das grandes cidades no Brasil. Com deplorável assiduidade, estariam sempre a encontrar albergue nas prisões de Além¬-mar e também voltariam ao chão natal, mas “sem eira nem beira, nem ramo de figueira”, na infame condição de deportados.

 

O maior contingente, no entanto, seria formado por aqueles que, após um duro labor, bastante admirado pelos nativos da ex-colónia, acabariam por se dar bem ao Novo Mundo, a pleno e bom contento no comércio, sobretudo ao ramo das pequenas vendas e padarias. Estariam a ver os filhos integrados à nova pátria e a concluírem seus estudos, com alguns chegando até a ingressar em universidades, dedicados aos mais diversos ramos de negócios e atividades profissionais.

 

Eram outros, todavia, os motivos por que a jovem passageira do Hildebrandt achara-se forçada a emigrar para a Amazónia, a mítica região das densas matas e legendárias feras. Não lhe assustava o desconhecido. Seu porto final era Belém do Pará, cidade que progredira nos áureos tempos da extração da borracha. A rapariga haveria de encontrar por lá alguns parentes, além de uma enorme colónia de patrícios solidários a se ajudarem mutuamente, graças à criação de associações beneficentes.

 

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Quarta-feira, 18 de Maio de 2016

Lançamento do livro "Chaves D'Aurora, de Raimundo Alberto

cartaz_chaves d'aurora_19 maio_jpg.jpg

 

Há livros e livros, mas quando são de autores nossos preferidos, de autores flavienses ou de autores que embora não flavienses retratam a nossa história e o nosso ser, então aí os livros têm um sabor diferente, é o caso de “Chaves D’Aurora”, que nos leva até à vila de Chaves dos inícios do século passado, de autoria do brasileiro Raimundo Alberto Guedes Fernandes, de ascendência materna aveiro-flaviense, que quis beber in-loco as estórias e história de Chaves e que foi passando a palavras do seu romance, escrito em Chaves. Romance que tem de fundo uma estória real da sua família flaviense, uma casa que ainda existe e todos os acontecimentos históricos e sociais de Chaves, de Portugal e da Europa dos inícios do século XX. Da minha parte um obrigado por este romance e pelo contributo para a história de Chaves

 Fer.Ribeiro

 

 

convite_chaves d'aurora_19 maio_jpg.jpg

 

“CHAVES D’AURORA”

 

O primeiro romance do ator, diretor e produtor teatral Raimundo Alberto

 

Em “Chaves D’Aurora”, Raimundo Alberto convida o leitor a se transportar até aos anos 1912-1926, para acompanhar as peripécias de uma saga familiar, inspirada em factos reais, ocorridos em Trás-os-Montes (Portugal) e na Amazónia brasileira.

 

O autor, de ascendência materna aveiro-flaviense, nasceu em Belém do Pará, em 1944, e mora no Rio de Janeiro desde 1966. Os originais do romance foram totalmente escritos  em Chaves, Trás-os-Montes, onde Raimundo passou mais de dois meses recolhendo dados, conversando com os moradores e pesquisando, entre outros temas, os ciganos e suas tradições, as aparições em Fátima, a Segunda Guerra Mundial, as lutas dos republicanos flavienses contra os monarquistas, vindos de Verín, a Pneumónica,  além de lendas e mitos regionais. Tudo isso forma um contexto histórico e social que envolve a família Bernardes (nome fictício).

 

A apresentação do livro será no próximo dia 19 de maio, quinta-feira, às 18 horas, na Biblioteca Municipal de Chaves..

 

Capa e contracapa de Chaves d'aurora 001.jpg

 

 

Sobre o livro

 

Mesclando os fictícios Bernardes de um clã verdadeiro, com personagens imaginárias,  ou extraídas de lendas urbanas, essas vidas se entrelaçam com eventos históricos, tais como as incursões monárquicas a Chaves, as aparições em Fátima, a Primeira Guerra Mundial, a Pneumónica (Gripe Espanhola) e outros registros pitorescos, colhidos em jornais da época, além de mitos, crendices, jogos e costumes transmontanos. Em Belém do Pará, abordam-se as reformas urbanas, no apogeu do comércio da borracha, as óperas no Teatro da Paz e o Círio de Nazaré (a protagonista real  nasceu em um domingo de Círio).

           

“Chaves D’Aurora” conta a história de amor entre uma jovem recatada, de boas posses e um cigano também rico, mas volúvel, que se torna proibida, face os preconceitos e as tradições de ambos os clãs, o que poderá conduzir a um desenlace não fatal, mas, de algum modo, trágico. No entanto, convicta dos sentimentos de seu amado, a jovem perseguirá, até à exaustão, a esperança de um final feliz.

 

O romance também apresenta uma curiosidade textual: o autor pesquisou nos dicionários, quase que inteiramente, palavra por palavra do texto,  de modo a perseguir uma escrita na qual a maior parte delas sejam comuns aos dois falares, o brasileiro e o lusitano. Restaram apenas alguns termos de expressões locais do nosso idioma, diferenças que se notam entre regiões de qualquer um dos países lusófonos.

 

AA IMG_8472.JPG

 

Sobre o autor

 

Raimundo Alberto é ator, poeta e dramaturgo, com vários espetáculos encenados e premiados. Sua mais recente atuação foi em “O Mercador de Veneza”, de William Shakespeare, no Rio, entre 2013 e 2015.

 

Dentre as suas mais de 30 peças, várias levadas ao palco na forma de montagens ou leituras dramatizadas, estão “O Campeonato dos Pombos”, prémio e edição do Serviço Nacional de Teatro, em 1974; “A Última Pastorinha”, prémio MINC-Brasil 2001; “Águas de Oxalá” (Seleção Brasil em Cena – CCBB, 2008); e “Próximo Ato, Suspense”, publicada em antologia do ICCG / FUNARTE / Editora Teatral, Rio, 2009.

Em 2014, foi o homenageado do ano no V Seminário de Dramaturgia Amazônida, promovido pelo Centro de Artes e Ciências da Universidade Federal do Pará.

 

Bacharel em Literaturas Brasileira e Portuguesa (UFRJ, 1978). Como compositor musical (letrista), participou do CD “Bonde Folia”, da Orquestra Popular Céu na Terra, Prêmio TIM de Música 2008. Atual presidente do Instituto Cultural Chiquinha Gonzaga, foi diretor da SBAT  - Sociedade Brasileira de Autores Teatrais e da ALTAAC – Associação Livre de Trabalhadores em Artes Cênicas. Poeta, fez parte da Antologia Poesia do Grão-Pará, organizada por Olga Savary, Rio,2001.

 

 

LANÇAMENTO DO ROMANCE “CHAVES D’AURORA” , de Raimundo Alberto

 

Edição da obra: Chiado Editora.

 

Data: 19 de maio de 2016, quinta-feira, 18h

Local: Biblioteca Municipal de Chaves

 

Assessoria de Imprensa (Brasil): Mônica Cotta –monicacotta@globo.com

 

 

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