Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017

...

1600-chavesdaurora

 

  1. “LAUS AMORIS”.

 

Seguiram-se outros breves encontros, com os pombinhos a se aproveitarem das oportunidades da sorte, uma vez que, naquele tempo, os namoros só eram bem vistos quando encarados com uma seriedade pré-nupcial.

 

O moço das belas suíças estava sempre elegante, em seu fato de linho, a portar consigo um vistoso Swiss Tissot, preso a uma corrente de ouro, a qual se estendia de um dos bolsos do colete até à algibeira. À cabeça, tinha habitualmente um charmoso chapéu comprado ao Porto. Ele que, até então, tal como os demais rapazes da Vila, restringia sua religiosidade às missas dominicais e a ofícios em datas festivas, mostrava-se agora um fervoroso devoto, a marcar sua presença em novenas, rezas, ladainhas e que tais, em tudo, enfim, a que a sua amada estivesse presente.

 

Nonô, por sua vez, entregue a esses atos piedosos com real sinceridade e constância, entrara para a congregação das Filhas de Maria na Igreja Matriz, onde cantava ao coro. Acabou por ganhar aquilo que, após os números de mágica, vinha sendo negado à mana Aurita: a confiança de Papá. Vivia saindo de casa, agora, com uma frequência nunca antes permitida, aldemenos que fosse de casa para a igreja e da igreja para casa, e sempre junto de sua fiel escudeira Sancha Maria Pança de Tourém. Por ordens de Mamã, a criada acompanhava a beatífica menina às reuniões vespertinas na igreja, para esta se dedicar às orações e obras de caridade (agora, na caridosa companhia de um recém-beato). Graças a doces afagos verbais e à promessa de um manhuço de réis, Maria sempre deixava que a menina, à saída da igreja, demorasse um pouquinho mais para usufruir de alguns momentos de boa conversa com Sidónio.

 

Os namoradinhos passaram a trocar bilhetes, em que falavam do mais puro amor, como nestes versos que um dia o rapaz, em sua melhor caligrafia (a possível) e de acordo com a ortografia da época, dedicou à sua amada:

 

“A vida é cheia de trevas e de frio.

Só se bebe fel, só se pisam ´spinhos.

Cahem de cima os vendavaes a fio

 Estão cheios d’ abysmos os caminhos

E por todo esse mundo só achamos

Miseráveis e nus os pobrezinhos.

 

 

Por isso se na vida deparamos

Com um amor singello, casto e puro

Paremos, porque o céo já alcançámos.

O amor é o alto e inabalável muro

Contra o qual não prevalece o pecado,

Nem inveja ruim, nem jogo impuro.

 

Seja, por isso, o amor sempre louvado!”

 

Assinou apenas “António”. Tratava-se, todavia, do poema “Laus Amoris”, copiado a um jornal de Chaves e seu verdadeiro autor era um outro António, o Granjo. À altura da escrita desses versos, o poeta era, então, um jovem estudante flaviense em Coimbra, mas já prosseguia em sua obstinada atuação política a favor dos ideais republicanos.

 

A um dos raros bailes em que o Papá concedia que as filhas prestassem o brilho de seu comparecimento, os da Sociedade Recreativa Flaviense, Nonô estava a dançar com Sidónio, ao som da valsa de Armando de Pinho Dias “Os teus sorrisos”, quando o rapaz mirou-a bem nos olhos e disse – Amo-te. Quero que sejas minha companheira para todo o sempre, sob as bênçãos de Deus e dos homens – e Aldenora apertou a mão do rapaz que, a bailar consigo, já a mantinha entrelaçada à de sua jovem parceira – Também te amo, mas sabes que uma rapariga que tem família não é senhora de si. Hás de falar com o Papá – Falarei sim, com ele, com tua Mamã, com Chaves inteira, com Portugal inteiro. Ao mundo inteiro, enfim, gostava de dizer, em alto e bom som: amo-te! Amo-te! Amo-te!

 

fim-de-post

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:01
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 5 de Dezembro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PRETENSORA.

 

Aldenora valeu-se do pretexto de ir até ao irmão, a perguntar de que riam tanto e nem ao menos se deu conta de sua tamanha ousadia. Estava a sair do grupo de raparigas e a se fazer intrusa no restrito e tradicional espaço masculino. Tal ato, certamente, poderia causar maledicências às suas costas ou, até mesmo, redundar-lhe em um baixo conceito social. O estratagema deu certo, no entanto. Afonso apresentou a irmã a António Sidónio e os pombinhos logo se viram a sós. Após um pequeno iceberg de titânico silêncio, os barcos de cada um singraram as águas aquecidas pelo mútuo encanto e, de imediato, puseram-se os jovens a palestrar, com as bocas e as palavras soltas, a deixarem fluir o que, antes, a timidez dos olhos apenas esboçara.

 

Enquanto alguns miúdos, como inoportunas osgas ou lagartixas, passavam aos corre-corres por entre o jovem e a bela rapariga, antes que seus papás respetivos lhes aplicassem uns generosos cascudos para se aquietarem, Nonô punha-se a trocar com Sidónio algumas ideias de interesse mútuo. Os breves instantes (assim diria o rapaz a Afonso, mais tarde) foram suficientes para lhe revelar que a menina era dotada de um admirável lustre intelectual. Esse era um dote incomensurável, mais raro do que a simples beleza, pois, ao contrário desta, não era fácil encontrar amiúde, entre as arcas de enxoval das jovens flavienses, um mínimo de erudição.

 

Ao contrário de Aurora, com sua paixão e sensibilidade à flor da pele ou, conforme já mencionamos, a sentir pela cabeça e a pensar com o coração; diversa de Aurélia, que não queria crescer nunca, feito um Peter Pan de saias; e posto que Arminda ainda estivesse a se pôr, para que dela já se pudesse analisar o jeito de ser; Aldenora era de uma personalidade forte e determinada, especialmente nos modos de controlar suas ações e emoções e de conciliar pejos com desejos. Quando percebeu que já estava a conversar mais tempo do que devia com o jovem Sidónio, pediu licença e voltou ao sítio das meninas. Não tivesse o rapaz um mau juízo dela, menos ainda se ele a comparasse a essas estrangeiras do novo século, a que tanto o Papá costumava aludir, após a ceia.

 

Era sobre isso, a uma outra roda formada por respeitáveis cidadãos de Chaves, que João Reis estava a comentar, naquele exato momento, com base no que estivera a folhear em um jornal do Porto. Exaltava-se – O que estão a querer, por certo, essas raparigas libertinas a fumarem, beberem e de tudo falarem às escâncaras, como os homens? Alcançar que elas venham a ser iguais a nós, ou, o que seria uma tontice bem pior... superiores?! – ao que outro convidado concordava – Uma imoralidade!!! – e outro mais suspirava – É, desses modos e feitios, para onde vai este mundo?! – uma vez que se fazia questão, ora pois, de se preservarem na Vila as boas tradições e os bons costumes.

 

Eram, certamente, posições avessas aos ares de liberação desses anos 20, quando se iniciavam tantos avanços femininos que, por algumas mulheres carismáticas, em suas reflexões sobre a vida e o modus vivendis, seriam defendidos em várias partes da Terra. Com o seu livre pensar e agir liberto, algumas se tornariam famosas nessa década, como Dorothy Parker, Anaïs Nin, Zelda Fitzgerald, as brasileiras Pagu e Chiquinha Gonzaga, a mexicana Frida Kahlo e, entre as portuguesas, a alentejana Florbela Espanca. Decerto que, a seguirem os passos de tais pioneiras, tais ventos libertários estariam ainda muito longe de arejar por aquelas paragens trasmontanas.

 

Ao resto da noite, não deixaram Aldenora e Sidónio de se entrecruzarem as pupilas e, com elas, exibirem um brilho especial de encantamento. Recíproco, pois. Quando, à hora de se fazer um brinde ao aniversariante, os dois ficaram lado a lado, por alguns instantes, com suas mãos a se roçarem levemente, ele murmurou – A que missa vais, aos domingos? – Sem lhe ver a face, ela sussurrou – À do meio-dia, na Santa Maria Maior.

 

 

matriz.PNG

Igreja de Santa Maria Maior. Postal público. Autor desconhecido.

 

fim-de-post

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 16:10
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 31 de Outubro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. CASÓRIO.

 

Não foi lá muito fácil cair nas boas graças do velho Joaquim Lourenço. A questão maior é que, tão logo os coscuvilheiros da cidade não aguentaram mais os seus comichões linguais, foram logo dar ciência ao Lourenção de que o senhor Bernardes já semeara um fruto em terras brasileiras. A criança, que se chamava Zerlindo, fora gerada com uma mulata graciosa, moça prendada e instruída, filha de uma senhora que prestava serviços ao flaviense como arrumadeira. João não o quisera reconhecer de papel firmado, mas contribuía com algumas pecúnias para uma boa instrução e educação do petiz.

 

Aos olhos da inseparável bengala do aveirense, em plena concordância com seu dono, não agradava nem um pouco aquele namoro, que só poderia ir de mal a pior, por causa da vida pregressa do jovem comerciante de Chaves. Nas reflexões do futuro sogro, a vida de mocetão que o flaviense ainda levava também lhe parecia um tanto quanto desregrada, ainda que tudo aquilo não passasse de meras patuscadas entre os rapazes da época, com as chamadas mulheres da vida.

 

Foi preciso que João Reis lhe jurasse, com as mãos na bengala e diante da bela imitação da Santa Ceia de Da Vinci, em destaque na sala de jantar dos Morais Dias – Ao me casar com a menina Flor, deixarei de pronto qualquer atitude que me possa tornar ou parecer um libertino! – e foram também necessárias muitas idas e vindas do Eulálio, nas funções de casamenteiro, em visitas anunciadas com cerimónia à casa do Lourenção, até que este, afinal, mandasse abrir para os noivos as portas de madeira ricamente trabalhadas da Igreja de Santo Alexandre.

 

A um belo entardecer em Belém, com brisas que vinham da baía e ajoelhados diante de outra obra-prima, o altar-mor do referido templo, Florinda e João uniram para sempre suas mãos, seus corpos, suas almas.

 

Seus anseios.

 

  1. FEIRA DOS SANTOS.

 

Era em todo esse amor romântico de Flor e João Reis, que Aurora, agora, punha-se a pensar, enquanto o pai falava sobre o Álvares e a necessidade viril de este senhor ter uma companheira oficial, para lhe preencher as carências da viuvez. Reportando-se à migração do casal para Trás-os-Montes, ao tempo em que ela, Afonso e Aldenora ainda eram pirralhos, Aurita lembrou certas palavras que o Papá dissera a Mamã e esta sempre costumava contar às filhas. Foi certa vez quando, um pouco depois de chegarem a Chaves, Papá levou sua Flor com os outros brasileirinhos até à Feira dos Santos, junto ao Forte de São Neutel, onde iriam conhecer uma grande novidade: o Cinematógrapho.

 

Na Feira dos Santos, o carrossel de cavalinhos era a alegria dos miúdos, juntamente com os ursos, a mulher gorda com barba, os fantoches e outras diversões anunciadas pelos berrantes cornetins. Vendia-se de tudo nas barracas, onde muitos idílios começavam e eram os pontos de encontro dos namorados. Também o eram para os muitos transeuntes que, por ali, apenas vadiavam. Por entre cidadãos de Chaves e os que vinham das aldeias, desfilavam cegos, coxos, aleijados, chaguentos, a maior parte vinda de outros concelhos, todos em sua condição de inoportunos e importunos mendicantes. Nos sítios periféricos da feira, proliferavam, aos termos de um cronista da época, “as tendas de pano verde, batotas por toda parte, com as roletas pataqueiras de diferentes feitios a girar sem parança, todas mais ou menos ajustadas para a ladroagem dos jogos de azar”.

 

A maior atração da feira era o Cinematógrapho ao ar livre, em um vasto recinto do Grupo Desportivo Flaviense, convenientemente preparado para tal. Já em um jornal da própria Vila de Chaves, o anúncio da empresa dizia: “Hoje, às 20 horas, os mais interessantes e atraentes films. Aos intervalos de cada parte, irão apresentar-se o distinto concertista e de bandurra espanhola Señor Don Manuel Lopez e a troupe de Os Característicos, com a actriz Evangelina Correia e o actor Manuel Correia, em apreciáveis números de cançonetas, monólogos, cenas cómicas, pequenas comédias, operetas e trechos de revistas, do repertório dos dois artistas.”

 

fim-de-post

 

 

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:56
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 5 de Setembro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. PRETENDENTES.

 

Por quatro anos, Aurora não quis namoricar ninguém, por linda que fosse e, sempre, na Missa ou à saída da igreja, os rapazolas estivessem a lhe dirigir tímidos olhares. De logo se retraíam, no entanto, ao perceberem que a válvula mitral da rapariga parecia ou já estava a pertencer a alguém. Um desses admiradores, maldoso, chegou a comentar com os amigos que, de tão secreto, tal felizardo deveria ser algum primo Basílio ou qualquer outra figura proibida da literatura universal.

 

Às raras ocasiões em que as meninas Bernardes expunham seus vestidos novos, a um baile na casa de algum conhecido, parente ou aderente, Aldenora levantava-se muitas vezes da cadeira para valsar no salão. Era apenas uma ou outra vez, porém, que um tipo mais corajoso vinha convidar a menina Aurora, para consigo bailar. Talvez porque o ar de ausente e os eternos silêncios da rapariga parecessem que ela não estava a gostar da festa, ou, simplesmente, preferisse ficar apenas a observar tudo e todos à sua volta.

 

Seu ar de severidade ora atraía, ora afastava os príncipes, ao mesmo tempo que deixava todos com uma sensação de sapos que, por ela, jamais seriam beijados. Não sabiam, porém, tudo aquilo, na verdade, era só um biombo facial, como essas máscaras do carnaval de Veneza, caras postiças, que só revelam aquilo que não se esconde nas verdadeiras faces.

 

À jovem Aurita, na verdade, não lhe fugia o sabor das danças. Portanto, quando lhe davam oportunidade, contradançava com muita graça e alegria.  Em tais ocasiões especiais, fossem nunos, joaquins ou xavieres, acendiam-se fagulhas de esperança aos rapazes, mas estas logo se esvaneciam. Quando eles começavam a ensaiar juras de amor à rapariga, esta, que não era dada a mentir, mas bem lhe comprazia fantasiar, costumava dizer, entre sorrisos contraditórios, que já era noiva de Jesus e, no próximo inverno, iria fazer-se noviça em algum convento das Carmelitas Descalças.

 

fim-de-post

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 02:26
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 22 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. AMPULHETAS.

 

A descida de areia, na ampulheta dos Bernardes, podia ser vista a se refletir em cada um dos membros da família.

 

Aldenora apegava-se aos livros de contos açucarados (e alguns mais realistas, mas só quando os podia ter à mão, em segredo). Aurélia já estava a vivenciar os seus “dias de his­tórias”, como toda mulher. Mindinha, esta se afastava cada vez mais das bonecas. Quanto à menina Aurita, agora sem contar nem mesmo com os explicadores em domicílio, para diminuir o tédio que a vida reclusa de Papá impunha às fi­lhas, entregava-se cada vez mais a cuidar do jardim e dos seus amores-perfeitos.

 

Acastanhados.

 

Ao contrário de seu irmão, o caladão e ajuizado Afonso, sempre dedicado aos estudos, ao púbere Alfredo apetecia bem mais aproveitar todos os momentos dessa fase única da vida, a adolescência. O que o puto mais apreciava era se entregar aos sagrados princípios do Hedonismo, que não co­nhecia dos livros, mas da prática. Tinha vários amigos, entre as maltinhas de Chaves, principalmente o Zeca Sarmento, o Vitinho Mendes e o Lucas Bó. A todos esses, o que mais agradava era nadar no Tâmega. Nos bons e quentes dias de verão, Alfredinho chegava a casa com os cabelos ainda mo­lhados e Afonso perguntava – Onde nadaste? – e ele, muito orgulhoso de si, respondia – Na Pedra da Bicuda!

 

ca (494).JPG

 Poldras - Rio Tâmega - Chaves

 

Àquele tempo, os rapazes recebiam suas primeiras lições aquáticas com um colega que já soubesse nadar bem e o aprendizado se fazia em várias etapas, de acordo com a profundidade dos vários sítios do rio. Com Alfredo, não foi diverso (e não o fora também, com Afonso, ao seu tempo). Suas primeiras braçadas e pernas foram rio acima, a um sí­tio mais raso, na Galinheira. Já menos afoito e mais afeito às águas, seus amigos experientes o levaram para a Ola, junto à Ponte Romana.

 

galinheira-blog.jpg

 

Os primeiros exercícios de verdade foram no Cachão, junto às Poldras, um belo caminho de pedras, até hoje exis­tente, que era a única alternativa da Ponte Romana, àquela época, para a travessia do Tâmega pelos peões.

 

Lá no Cachão, a malta de putos mergulhava alegremen­te. Quando Alfredo já estava a nadar melhor, o Vitinho e o Lucas Bó o levaram até ao Poço do Leite, junto à presa do Moinho dos Agapito, onde todos já podiam fazer, sem medo e com arte, a travessia do rio.

 

agapitos.JPG

Tâmega, próximo ao Moinho dos Agapito. Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

Os rapazes partiam das margens do Tâmega aos mago­tes, entre chistes, desafios e exibições próprias da idade. Já nadavam de costas, faziam prolongados mergulhos e se ar­remessavam às águas em saltos de anjo, de peixe, de nava­lha. No entanto, aquele que afirmasse, categoricamente, já dar suas braçadas na Pedra da Bicuda, uma parte do rio mais abaixo e mais funda, esse era digno de admiração entre os mais. É que isso significava que o puto já podia considerar­-se um exímio nadador.

 

fim-de-post

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 8 de Agosto de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. FOLAR DA FESTA.

João Reis levou toda a família aos festejos, com fitas ver­des e encarnadas nos chapéus dos putos e no seu próprio, assim que tal nos xailes de Flor, das meninas e das criadas. Todos estavam a empunhar bandeirinhas pátrias. Os miúdos logo pediram que o Papá lhes pagasse uma bebida fresca, mais precisamente a “Gazoza Transmontana” que, segundo os reclamos em um jornal (no qual era ela apresentada assim mesmo, com essa grafia de dois zês) era “de facto a melhor”.

 

Mercê de uma pequena distração, Aurora acabou por se perder dos seus. Talvez a célebre e folhetinesca Mão do Destino já estivesse a traçar suas linhas em prol do ciga­no, pois logo uma luva de couro, cor de morcela, tocou no ombro direito da rapariga. Esta, ao se virar, tremeu dos pés à cabeça. Diante dela, mais guapo do que nunca, Hernan­do entreabria os lábios com os dentes ainda não manchados pelo vício do fumo, a lhe oferecer um sorriso que combinava muito bem com o seu maroto olhar. O de sempre.

 

O sorriso de Aurita não tardou a se esboçar, em agradável permuta. Ainda mais que o moço tomou-lhe um lenço que ornava os ombros e, a um zás trás, transformou-o em uma bela flor. Quando ela teve de volta o seu pequeno xaile, ad­mirou-se em ver o flóreo botão se abrir e lhe revelar uma fatia de folar bem flaviense. A menina, então, achou-se até ousada para iniciar alguns momentos de cavaqueio – Como sabeis fazer isso, senhor Camacho? – e ele sorriu de novo, desta vez com malícia – Sei fazer muito mais – mas logo res­pondeu à pergunta de Aurora – Ora, brasilita, é fácil, muito fácil. É apenas um passe de mágica que aprendi por aí, pelo mundo.

 

Foram os dois então para os lados da Torre e, sentados em uma das amuradas em volta, Hernando se pôs a expli­car como tudo era feito. Daí passaram a falar sobre vários assuntos triviais, mas que os faziam tão alegres como par­dais ao milho. Chegaram depois aos relatos das poucas, mas bem vividas aventuras do jovem cigano, algumas com certo exagero por parte do narrador, durante suas viagens por es­panhas, franças e itálias.

 

Dessas vivências de andarilho, que lhe serviam para não esquecer as nómadas origens, havia certas passagens, as mais picantes e mulherengas, que ele certamente omitia. Ou então, como sói acontecer aos contumazes contadores de lérias, como ele, Hernando sempre dizia, a fim de preser­var sua identidade, que tais e mais teriam ocorrido a algum moço da aldeia xis ou ípsilon.

 

Envoltos nesse início de namorico, mal perceberam quando o pai de Aurora chegou, segurou-a firme pelo bra­ço, cumprimentou secamente o rapaz com um – Boa tarde, senhor Camacho, esteja a passar bem; com licença – e mui de pronto afastou-se com a filha, a ralhar entre os dentes – Vamos, menina, andemos de volta a casa, onde lá é que me­lhor estás, pois “quem à boa árvore se abriga, boa sombra o cobre”. E lá também é que te vou explicar porque o povo diz “O lume ao pé da estopa, vem o diabo e assopra.”

 

Logo se juntaram ao resto da família e, com os protestos de Aldenora e a chorosa revolta dos menores, tomaram o caminho de volta à Quinta. O que mais pesava aos miúdos era deixarem de provar, conforme o Papá tinha prometido, as castanhas assadas, os gelados, as tortas de Viana ou os especiais pastéis de Chaves, que se ofereciam em uma con­feitaria recém-inaugurada ao Largo das Freiras.

 

  1. ANOS 20.

 

Então se passaram alguns anos, marcados apenas pelas notícias dos jornais locais ou dos que vinham de Lisboa ou do Porto, sempre lidas por Papá em voz alta ao pequeno-al­moço. Entre as novidades, os costumes dos anos 20, “inde­centes, obscenos, pornográficos”, como a eles se referiam os comentários de João Reis – Ai, Menina Flor, essas coisas que estamos a conhecer... esses países que se perderam nas teias da depravação, tudo isso me deixa preocupado.

 

Sussurrava à esposa – A Lisboa, já andam por lá algumas dessas raparigas do tipo maria-vai-com-as-outras, a se exi­birem com esses vestidos que lhe sobem às pernas, quase a mostrar os joelhos... percebes o decoro, Menina Flor? Pior ainda é o corte de cabelos, mais curto que o dos rapazes, esse tal de “à la garçonne”. Só espero que essa vergonheira toda não nos chegue por cá! – ao que Mamã concordava – Pois estou a pressentir que isso há de ser, como nos alertou a Virgem de Fátima... o fim do mundo!

 

É que aos olhos de muitos flavienses, Paris tornara-se um imenso bordel, onde artistas, intelectuais e outros cidadãos marginais, nativos ou imigrados, exibiam em público sua libertinagem explícita, desde o Louvre aos cabarés de Pigalle, desde Montmartre aos cafés de Sain-Germain-des- Prés. Ao Porto e Lisboa, no entanto, já lá se podiam ver passar pelas ruas algumas raras pessoas de grande ousadia, veementemente execradas por todos aqueles que se abriga­vam sob o manto da grande mãe eclesial, católica, apostólica e romana. As melindrosas, os charletons e os cabelos “à la garçonne” eram ecos de um universo distante, nessa peque­na vila trasmontana, onde as jovens solteiras e as senhoras de bem (pois que, de mal, só as marafonas...) cobriam-se da cabeça aos pés. Certamente que haveriam de existir, toda­via, algumas raparigas que ficassem a suspirar por Lisboa, à moda de “As Três Irmãs”, de Checov, finas e sensíveis mo­ças da Rússia campesina que sonhavam, algum dia, partir para Moscovo.

 

De Moscovo, aliás, quem sempre trazia notícias era o pri­mo Rodrigo, malgrado algumas carrancas de Papá quando o via penetrar na sala de estar da Quinta, agora a medo de que ele, com suas ideias estapafúrdias, acabasse por corromper as cabecinhas de seus miúdos e nelas introduzisse os novos costumes dos anos 20. O rapaz abraçara de corpo e alma as ideias bolchevistas da Revolução Russa de 17 e era conheci­do por suas polémicas nos cafés do Largo das Freiras. Vivia agora a falar de um futuro em que os operários seriam donos das fábricas e dos seus instrumentos de trabalho, não have­ria mais patrões e empregados, todos seriam iguais de facto e com todos os seus direitos perante a Lei.

 

Rodrigo era denunciado várias vezes ao senhor Chefe de Polícia, pelos seus inadequados comportamentos políticos e sociais. Como ele fosse, no entanto, muito querido na cidade e o poder ainda estivesse com os republicanos, anticlericais, bem como o rapaz limitasse as suas ações apenas a palavras e, o melhor atenuante, qualquer deslize seu pudesse atribuir­-se a excessos com a ginja ou com o bom vinho, acabavam por não lhe dar qualquer seriedade.

 

Já esquecidas do incidente sobre as aparições de Nossa Senhora em Fátima, Aldenora e Florinda atiçavam o facho discursista do jovem e, de ambas as partes, as contendas ver­bais se animavam. Ele, a louvar os princípios coletivistas e as igualdades sociais. Elas, a defenderem a Santa Madre Igreja das “ideologias esdrúxulas” e ateias do rapaz. A se valerem da pronta acolhida nas mentes simples como a de Flor, os capitalistas se uniam aos curas das aldeias, para espalhar os boatos de que doutrinas como essas, que do­minavam a cabeça do jovem primo, foram implantadas por “comunistas perversos, que matam os padres, fazem mal às freiras e comem criancinhas”.

 

Às meninas Aurita e Aldenora, no entanto, encantava o facto de, algum dia, as mulheres no mundo inteiro poderem ser mais livres, independentes, trabalhar fora de casa como os homens e, até mesmo – ai que esperança, ainda, àquela altura! – eleger os governantes da pátria. Quando atiçado, porém, em suas posições anticlericais, o rapaz, que também gostava de cometer alguns versos e escrever contos, a partir das lendas colhidas na região, saía-se sempre com algumas histórias de padres e freiras. Não tão picantes, por certo, quanto as que Adelaide fazia Florinda corar de pejo, mas igualmente interessantes, como a Lenda das Almas dos Fra­des Santos.

 

fim-de-post

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:20
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 13 de Junho de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ARMISTÍCIO.

 

Ao frio novembro de 1918, uma nova alegria veio a todos aquecer. Embora com alguns dias de atraso, chegou a Sant’Aninha de Monforte uma auspiciosa notícia: a Guerra acabou! Os alemães reconheceram-se derrotados e assinaram o armistício no dia 11 daquele mês, pondo termo, assim, à chamada Grande Guerra.

 

Alfredo, que andava lá pela pracinha, correu a dar a notíciaaos seus. Logo Aldenora, estripando alguns xailes, improvisou fitas verdes e encarnadas. Foram todos ao centro da aldeia, com as cores da bandeira pátria, a gritarem vivas e loas ao querido Portugal. Todos os aldeães estavam a correr alegremente ao Largo da Igreja, a levar farnéis de pães, queijos e vinho, muito vinho. Acendiam-se fogueiras para assar castanhas. O rancho de danças e cantorias da aldeia já estava a se formar, com suas roupas típicas de domingo e os músicos a preparar suas gaitas, harmónios, guitarras e violas braguesas, para a gentinha dançar.

 

Festejava-se o fim da grande asneira político-económica das grandes potências da época, na qual, só na Batalha de La Lys, em abril desse mesmo ano, foi-se quase a metade dos cerca de 9.000 soldados portugueses que, em África e na França, perderam suas vidas, nas mais indignas condições. A própria Sant’Aninha enviara à morte, na África, dois de seus mais robustos rapazes.

 

A verdade da História é que vários países e milhares de vidas se envolveram, durante quatro anos, em uma lastimável carnificina, sem justificativa alguma que a validasse, realmente. Seus mais dolorosos registos eram as cartas em que os soldados contavam, aos seus entes queridos, os horrores e a tortura mental que era viver ou morrer em uma trincheira. Mais morrer do que viver, a julgar pelas estatísticas dos milhares de civis e militares que perderam a vida em vão, por uma guerra vã, como em tantas outras contendas vãs e inúteis que soem ser, afinal, todas as guerras.

 

Em suma: tudo vão.

 

A Alemanha, diante da Tríplice Entente, rendera-se afinal à França, à Inglaterra e aos Estados Unidos (a Rússia, após a Revolução Bolchevique de 1917, já havia saído de cena do trágico teatro bélico) e também, certamente, a outros aliados de menor participação, mas de grande mérito e valor. Antes do conflito, Portugal já estivera a lutar contra os alemães, em uma guerra não declarada, na defesa de suas colónias. Acabara por aderir, formalmente, a essa luta. O povo português sentia-se, agora, também um vencedor.

 

Enfim, terminara. Era tempo de festejar a paz e glorificar, tanto os valorosos mortos, quanto os heroicos sobreviventes. De ambos os tipos de bravos, havia soldados de Chaves e de várias aldeias trasmontanas, a serem glorificados no panteão dos heróis. Não fossem por seus dois eméritos rapazes, as agruras bélicas nunca teriam chegado inteiramente a Sant’Aninha de Monforte, uma aldeia esquecida por trás dos montes, mas todos agora celebravam o fim daquela insensata peleja mundial que, ingenuamente, declarava-se “uma guerra para acabar com todas as guerras”.

 

Não apenas falhou em ser a última de todas, como veio a se tornar o tubo de ensaio para outra, mais global e tão ou mais terrível e genocida, a segunda grande guerra do século XX. Esta seria fruto dos delírios de um anticristo, de estranhos bigodinhos à la Charlot (Charles Chaplin, até então, era a mais proeminente estrela de cinema, em Hollywood). Essa besta-fera germânica já estava a entronizar, na derrotada e combalida Alemanha pós “Grande Guerra”, suas garras de Leviatã. Com o seu famoso livro “Mein Kampf” (1924) e o carisma de excelente orador, iria influenciar e obter o apoio crescente da maioria de cidadãos da Alemanha, cegos, surdos e emudecidos pelo fascismo, putrefaciente mancha moral e desumana, que começava a se estender sobre uma considerável fração do mapa da Europa.

 

Seu fanatismo exacerbado iria aprofundar as bases da ideologia Nazi. Eivada de intolerância e fobias, como a eugenia, o racismo, a supremacia ariana e o antissemitismo, culminaria com a perseguição e condução em massa a campos de concentração, onde iriam consumar-se a tortura e morte de cerca de onze milhões de pessoas, no chamado Holocausto, dentre judeus (as vítimas mais numerosas), ciganos, comunistas, Testemunhas de Jeová, homossexuais e deficientes físicos e mentais. Além desses massacres, iriam fazer-se experiências científicas dolorosas e fatais com seres vivos, que tinham prisioneiros como cobaias humanas.

 

fim-de-post

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:43
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 2 de Maio de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. GRIPE ESPANHOLA.

 

Milhões de europeus e, logo então, povos do mundo in­teiro, falidos, esfomeados, enfraquecidos, sem carvão ou eletricidade para aquecer os cómodos das habitações, torna­ram-se cobaias para a grande experiência dos deuses, eter­namente insatisfeitos com a Humanidade que os criou.

 

Depois da guerra e da fome, mais um cavaleiro do Ómega se pôs a cavalgar, do Báltico ao Mediterrâneo, a espalhar uma peste que chamavam erroneamente de “espanhola”, mas era mais apropriado nomear de Pneumónica. O germe terrível, de grande poder patogénico, como um general de grandes táticas e espertíssimas estratégias, multiplicou-se pelos infelizes hospedeiros e disseminou sua influenza por todo o continente, como lavas de um vulcão a cuspir febre, tosse e catarro. A se aproveitar dos fracassos e impotências de grande parte da comunidade europeia, recém-saída do sanguinolento fratricídio, pôs-se a acabar o serviço que as contendas bélicas começaram e entregou à Grande Ceifeira mais alguns milhões de vidas. Sedenta de cadáveres, não se contentou em gerar uma simples onda epidémica. O mal acabou por se espraiar, como a mais destrutiva pandemia da História, pelos mares – já agora bastante navegados – da América, África, Ásia e Oceânia.

 

Não se conhece, com exatidão, a origem dessa pande­mia (1918-1919). Na verdade, os primeiros casos notificados ocorreram em abril de 1918, entre as tropas francesas, britâ­nicas e americanas estacionadas em portos de embarque da França. Em maio chegou à Espanha. Foi designada de “gripe espanhola”, porque as primeiras notícias mundiais, sobre os acometidos por esse tipo de peste, vieram do país ibérico, o qual não participara da Guerra, mas estava a contabili­zar um número alarmante de civis que adoeciam e morriam com os sintomas da Pneumónica.

 

As dores de cabeça, a febre e a falta de ar eram muito gra­ves e, em poucos dias, o doente morria incapaz de respirar, com os pulmões cheios de líquido, como assim descreveu um médico norte-americano: A doença começa como o tipo comum de gripe, mas os doentes desenvolvem rapidamente o tipo mais viscoso de pneumonia jamais visto. Duas horas após darem entrada no hospital, têm manchas castanho­-avermelhadas nas maçãs do rosto e, algumas horas mais tarde, pode-se perceber a cianose a se estender por toda a face, a partir das orelhas, até que se torna difícil distinguir o homem negro do branco. A morte chega em poucas horas e acontece simplesmente como uma falta de ar, até que mor­rem sufocados. (…) Ver esses pobres diabos sendo abatidos como moscas, deixa qualquer um exasperado”.

 

Causada por uma virulência incomum e frequentemente mortal de uma estirpe do vírus Influenza A, subtipo H1N1, tornou enfermos cerca de um bilhão de pessoas, metade da população do mundo na época. Cerca de vinte a quarenta milhões não resistiram, tornando-se uma das mais impres­sionantes estatísticas de óbito da História. Tão somente na Índia, em apenas alguns meses, ao último trimestre do ano de 1918, foram mais de doze milhões de mortes.

 

Tinha-se medo de sair às ruas. Estabelecimentos como bancos, casas comerciais, repartições públicas, teatros, ba­res, cinematógrafos e tantos outros fechavam as portas, por falta de clientes e de funcionários. As pessoas do povo fica­vam a recomendar pitadas de tabaco e queima de alfazema ou incenso, para evitar a contaminação e desinfetar o ar. Até o sal de quinino, remédio usado no tratamento da maleita, passou a ter uso generalizado, mesmo sem qualquer com­provação científica de sua eficácia contra o vírus letal.

 

Nenhuma das calamidades recentes chegara aos pés da moléstia reinante e, quanto mais avançava a pandemia, insta­lava-se um pânico geral, pois, como disse à época, no Brasil, o historiador Pedro Nava: “Aterrava a velocidade do contá­gio e o número de pessoas que estavam sendo acometidas”. (...) “O terrível não era o número de casualidades, mas não haver quem fabricasse caixões, quem os levasse ao cemité­rio, quem abrisse covas e enterrasse os mortos. O espantoso já não era a quantidade de doentes, mas o facto de estarem quase todos doentes, a impossibilidade de ajudar, tratar, transportar comida, vender gêneros, aviar receitas, exer­cer, em suma, os misteres indispensáveis à vida coletiva”.

 

As pessoas imunes eram vistas como se fossem um mi­lagre divino. Ao mesmo tempo, a todos os dominados pela fé inabalável na Virgem Maria (e que eram, então, a maio­ria em Portugal), mas desprovidos de certos conhecimentos científicos, já existentes àquela altura, parecia que vinham a se cumprir as profecias de Fátima e, portanto, já estar a chegar o Apocalipse...

 

 

fim-de-post

 

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:35
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 25 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. GRANDE GUERRA.

 

O mundo todo acompanhava, estarrecido, a guerra que as elites carniceiras da Europa fizeram eclodir, dos anos 14 a 18 do século XX, em talhos onde se expunham cadáveres esquartejados e os soldados, nas trincheiras, grande parte dos quais advindos como voluntários, viam-se diante de ini­migos que, em igual condição à deles, também estavam à mercê da chuva, do frio, dos lamaçais e, com mais cons­tância, dos piolhos, ratos e carraças. Acabavam quase todos vitimados pelas balas ou gases venenosos, por enfermidades como o tifo e a febre quintã ou, pior ainda, pelas septicemias oriundas de ferimentos mal cuidados, ante a falta de cer­tos procedimentos sanitários e de medicamentos ainda não existentes, como antibióticos, vacinas e outros mais.

 

O maior legado que os marechais dessa guerra deixaram à Europa, após ficarem brincando, insanos e entediados, com os jogos de matar soldadinhos, não de chumbo, mas de carne e osso, foi mergulhar o continente em uma trípli­ce aliança, a dos três efes: fome, fraqueza, falência. A indi­gência aumentara, na maior parte dos países, com a falta de recursos médicos e de géneros alimentícios que pudessem servir de trincheiras ou fortalezas inacessíveis a outros em­bates, bem diversos e mais genocidas e que, tal como aquela guerra, seriam travados contra as forças de Tânatos, o deus da Morte.

 

Nessa batalha, que logo estaria a se anunciar, por toda parte, como guerra não declarada, até mesmo os arquidu­ques Ferdinandos d’Áustria-Hungria estariam à mercê de serem abatidos, não por estudantes bósnios de nome Gavrilo Princip, mas por batalhões de germes mortíferos, criados pela Natureza, nos seus imprevisíveis desígnios de ora mãe, ora madrasta.

 

fim-de-post

 

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 23:30
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 4 de Abril de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

 

  1. SONHO DE VERÃO.

 

Eis então que Aurora, à altura em que se ouvia tocar o passo dobrado “Querido Portugal”, com um arranjo da Banda e, como sempre, de excelente harmonia, olhou casualmente para um grupo de rapazes que riam de algo, de alguém ou de alguns e percebeu, dentre eles, o jovem morador da casa em frente à sua, na Estrada do Raio X. Sentiu-se mergulhar em agitados pesadelos como se, naquela noite de sonhos de verão, algum Puck brincalhão do senhor Shakespeare, foragido de Stratford-on-Avon, no tempo e no espaço, viesse exortá-la para o Amor.

 

Como que a um sexto sentido, Hernando lhe devolveu o olhar. Trazia aos lábios um sorriso zombeteiro, com uma aura de luz em volta de si, que parecia fazê-lo se elevar aos céus, o que muito perturbou a sensitiva pastorinha de Chaves, que não conseguia desviar os olhos de tão bela quão profana aparição. De repente, porém, a entrecortar esse cruzamento de olhares, passou a correr entre eles uma pequena malta de putos esfarrapados, em feroz perseguição a uma pobre velha, senhora de manifesta perturbação mental. Enquanto alguns senhores repreendiam os rapazolas, alguns outros atiçavam os trocistas a continuarem com esses gestos de tamanha impiedade.

 

Ao cessar a balbúrdia, logo todos se dispersaram, com a mesma rapidez da curiosidade saciada. A malta, porém, afastara do campo de visão de Aurora o jovem Hernando e seus camaradinhas. No lugar onde há pouco estiveram, não havia mais nenhum belo rapaz de lenço ao pescoço, olhos de lince e riso debochado.

 

Entrementes, João Reis falava aos seus, em tom baixo, mas indignado, que o único problema daquele Jardim era a falta de policiamento. Nos dias em que as bandas tocavam, o jardim era livre para todos. Não se podia, portanto, conforme explicava o Papá, impedir a entrada de qualquer zé-dos-anzóis que, por uma condição social menos favorecida, estivesse com um fato surrado, sem gravata e tamancos nos pés. Com isso, no entanto, permitia-se também a entrada de mendigos, com o seu esmoler importuno; bêbados, a liberarem gestos obscenos e palavras de baixo calão; maltas de miúdos a correrem por aquele passeio público, andrajosos e quase nus, como se acabassem de sair das páginas de uma obra de Charles Dickens.

 

Para um quadro completo de Pieter Bruegel, havia também os doidos. Chaves, como qualquer outra vila ou cidade, também tinha os seus próprios loucos, a perambularem maltrapilhos pelas ruas: a Don´Ana, o Bisca Velha, o Furriel, a Rosa Tirana, o João da Manta, o Mata-a-velha (esse, além de louco e mendigo, era ladrão)... A garotada miúda e alguns rapazotes os perseguiam e arreliavam, sem que a Polícia nada fizesse para impedir. Sobre o facto ocorrido naquela noite de julho, alguém escreveria uma nota no próximo número do jornal “O Flaviense”: “Essa prática selvagem, inconveniente e desumana de irritar os coitados, transforma em furiosos e tresloucados a esses doidos que, não fora a falta de respeito do rapazio, não passariam de pobres malucos inofensivos”.

 

fim-de-post

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 01:27
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 28 de Março de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. MOSCAS E MOSQUITOS.

 

Apesar de morar tão próximo de Hernando, Aurora passou muito tempo sem vê-lo. Como acontece quando se espanta uma incómoda mosca, mas o inseto persiste em voejar em torno do incomodado, assim estava a menina a tentar nunca mais pensar nele. Esse mosquito maroto, no entanto e por diversas vezes, vinha que lhe vinha pousar à lembrança ou, até mesmo, materializar-se em carne, osso e sedução. Tal ocorreu a um entardecer, em que ela estava a passear com os familiares, por entre as alamedas do Jardim Público.

 

 Era véspera do feriado em que se iam comemorar cinco anos da vitória dos republicanos, contra a incursão monárquica em Chaves. O florido parque, construído entre as margens do Tâmega e a Avenida Dom João I, na Madalena, relativamente próximo à Quinta Grão Pará, ainda hoje é um belo e bucólico recanto. Naquele tempo, aos fins de semana, Reis tinha o costume de levar a família a passear, para usufruir, nos dias soalheiros, do excelente passeio pela fresca das brisas que as árvores proporcionavam.

 

Nessa noite de 7 de Julho de 1917, o Jardim Público apresentava-se ornamentado com uma profusa iluminação elétrica, para fazer jus a um festival de grandes atrações: concerto de canto coral com alunos da Liga Flaviense; queimação de vistosos fogos-de-artifício, pelos mais hábeis pirotécnicos da localidade; um grupo de “gentis damas da sociedade de Chaves” a vender sortes, no recinto de um bazar organizado às proximidades do coreto e cujas rendas, incluindo o aluguel de cadeiras, seriam revertidas em favor da subscrição nacional pelas vítimas da guerra e suas famílias órfãs. Haveria também a distribuição do bodo (roupas e alimentos) aos pobres.

 

 

coreto.JPG

Jardim Público de Chaves. Coreto. (PT). Foto de Raimundo Alberto (2010).

 

Máxime seria o Hino Nacional cantado pelos praças da Cavalaria 6 e da Infantaria 19, juntamente com a admirável Banda dessa Infantaria, a qual, como já o fazia habitualmente, iria tocar lindas peças musicais: “O Barbeiro de Sevilha”, Ouverture, de Rossini; “Madame Butterfly”, de Puccini; “Segredo do Rajá”, de P. Ribeiro; “Regresso a Chaves”, de O. Douvens; “Tanauser”, opereta, seleção, de Wagner; “Cantares da Aldeia”, de B. da Costa e outros melódicos manjares, dentre os quais algumas mazurcas e zarzuelas.

 

Comentava-se elogiosamente que, com a nova iluminação do Jardim, os integrantes da Banda podiam agora ler melhor as partituras, sem a deficiente luz elétrica anterior, pois, às vezes, aquela chegava a interferir no desempenho das mãos ou da boca dos músicos. Até então, muitas vezes, tornava-se bem difícil aos olhos destes conseguir, com exatidão, descobrir o que se estava a enxergar nos pentagramas. Já não bastassem os pequenos insetos, que teimavam em pousar sobre as partituras e se confundirem com as notas da composição! Disso tudo, resultavam desafinações eventuais, nada agradáveis e eufónicas aos ouvidos do público, menos ainda aos componentes da Banda. Para os músicos, realmente, isso era constrangedor.

 

fim-de-post

 

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:07
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 14 de Março de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DEFESA DA FÉ.

 

Florinda a tudo escutou, com o sangue a lhe subir à fronte, em uma crescente indignação. Quando Aurita interpelou o primo, timidamente – Mas os pastorinhos viram Nosso Senhor no Calvário, viram Nossa Senhora das Dores, Nossa Senhora do Carmo e Nossa Senhora de...– o rapaz riu e exclamou – Pois me dizei, afinal: quantas mães tem o Filho de Deus? Pai, a gente pode ter vários, mas mãe, de facto, só nos há de ter uma, não achais todos vós?

 

Foi então que uma ardorosa defensora da Fé, a deixar assombrado o próprio marido, ergueu-se da cadeira e disse ao sobrinho, em tom normal, porém firme – Senhor Rodrigo, isso não são coisas que se digam na casa de pessoas que têm suas crenças e devoções! Aqueles devotos que lá estavam e que eram, de facto, gente de fé, por certo que seus olhos VIRAM tudo aquilo, porque tais coisas, rapaz, estão acima de nós, pobres seres humanos. Aquelas coisas, ainda que fossem só para aquela gente ver, eram milagres. Milagres da Virgem Santíssima!

 

A seguir, ameaçou-o – Se é para vires até cá com essas ideias de jerico e ficares a blasfemar e zombar de nossa religião, melhor será que penses bem antes de ultrapassar aquela porta! – chamou, até si, as meninas da casa – Aurita, Nonô, Lilinha, Mindinha, venham comigo! – recolheu-se com as filhas ao quarto do casal e todas ajoelharam-se diante do oratório, a rezar à Virgem de Fátima, em voz tão alta quanto pudessem ser ouvidas na sala de estar, pela reconversão do primo à fé católica e pelo perdão “aos pecados de todos nós.”

 

Discreta e educadamente, Rodrigo logo se dispôs à retirada de campo, antes que essa mini batalha doméstica viesse a crescer e se espalhar pelo mundo, como tantas guerras por Religião que se travaram ao longo da História. João Reis, todavia, apesar de devoto por tradição, instou ao sobrinho que ficasse e, com bastante e vivaz interesse, continuou a provocar as argumentações do jovem iconoclasta.

 

Como chegassem até ao quarto algumas risadas dos rapazes e até de João Reis (isto, por si só, um facto inusitado), já entretidos então com outros assuntos, mais amenos, Mamã e as quatro filhas puseram-se a cantar, em alto e bom som, de modo a que os da sala lhes percebessem a indignação, algumas preces musicadas em louvor à Santa Senhora, tais como essa que, até hoje, ainda é conhecida – “A treze de maio, na Cova da Iria / no céu aparece a Virgem Maria / Ave, Ave, Ave Maria...”

 

 

Alguns dias depois, sob o pretexto de devolver um livro à estante de João Reis, o primo Rodrigo tocou a sineta da entrada e pediu a Zefa que transmitisse à senhora sua tia e aos mais as suas maiores recomendações. Já se dispunha a partir, quando se viu chamado pela própria Florinda, como se, há tão pouco tempo, nada de inconveniente houvesse acontecido. – Ora me entres cá, Rodriguito, vem nos dar de novo o prazer de uma boa palestra! Só não me fales de certas coisas, bem sabes! – e, desse dia em diante, por muitos outros mais, entre broas, bolinhos e bolachas, lá estava o rapaz, de novo, a encantar a todos da casa, com os seus ditos espirituosos e as histórias engraçadas, embora algumas, por vezes, terrificantes.

 

fim-de-post

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. SENHORA DA IRIA.

 

As primeiras notícias da aparição da Virgem, aos 13 de maio do ano de 1917, na aldeia de Fátima, freguesia de Aljustrel, Concelho de Ourém, pelos pastorinhos Lúcia (10 anos) e seus primos Francisco (9) e Jacinta (7), foram trazidas aos Bernardes, de pronto e bem frescas, pela sempre linguareira Zefa de Pitões. Soube-se então que os miúdos, quando apascentavam um pequeno rebanho no lugar chamado Cova da Iria, detiveram-se para rezar o rosário e disseram ter visto, sobre uma pequena azinheira, “uma senhora mais brilhante que o Sol, com uma voz dulcíssima, aparentando não mais do que uns 18 anos de idade”.

 

Seu vestido, conforme consta de um folheto da época, publicado pelo Visconde de Montelo, “ (...) era de uma alvura puríssima de neve, assim como o manto orlado de ouro que lhe cobria a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto (...) apresentava-se sereno e grave, como que toldado de uma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz de ouro, um lindo rosário, cujas contas brancas de arminho pareciam pérolas. De todo o seu vulto, circundado de um esplendor mais brilhante que o sol, irradiavam feixes de luz, especialmente do rosto, de uma formosura impossível de descrever, incomparavelmente superior a qualquer beleza humana”.

 

Com a Lúcia, assim dialogara a bela senhora – “Não tenhais medo. Não vos faço mal.” – “De onde é Vossemecê?” – “Sou do Céu” – e, a uma indagação sobre pessoas recém-falecidas – “A Maria das Neves já está no Céu e a Amélia estará no Purgatório até ao fim do mundo” – após o que disse aos pastorinhos que deveriam aprender a ler e, sempre aos dias 13 de cada um dos próximos cinco meses, retornar àquele mesmo local. Ali ela estaria a lhes falar, de novo, sobre muitos e importantes factos do mundo.

 

Como em todas as suas aparições posteriores, a Santa exortou os pastorinhos a “rezar sempre o terço, todos os dias, pelas almas dos pecadores, a paz no mundo e o fim da guerra”. Enfatizou a punição ou reparação dos pecadores, diante das “dores profundas que estes causavam a Ela e a Seu Filho, com suas ofensas, blasfémias e pecados”. A seguir, comunicou-lhes um segredo que não deveriam contar a ninguém. Seria o primeiro dos três famosos segredos, somente revelados, em três etapas, após 1941 (ou, para os céticos, apenas desmitificados, pelo menos no que tangia aos seus alardes apocalípticos e à exagerada importância).

 

No dia 13 de julho de 1917, a Senhora teria mostrado a Lúcia, sua única interlocutora, uma visão horrível do Inferno, “para onde vão as almas dos pobres pecadores”. De Sagres a Melgaço, multidões de devotos correram às igrejas para rezar, impregnados pelo intenso pavor do fogo infernal. Ante uma pergunta de Lúcia – “Que é que Vossemecê quer que se faça com o dinheiro que o povo deixa na Cova da Iria?” – a Virgem teria respondido – “Façam dois andores. Um, leva-o tu com a Jacinta e mais duas meninas, vestidas de branco; o outro, que o leve, Francisco com mais três

meninos. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário; e o que sobrar é para a ajuda de uma capela, que vós m’a heis de mandar erguer.” A seguir, elevara-se aos céus e desaparecera.

 

Na manhã de 13 de agosto desse ano, soube-se que os miúdos foram sequestrados pelo administrador do Concelho de Ourém, o qual supunha que os segredos de Nossa Senhora se referiam a um acontecimento político que acabaria com a República, recém-instalada em Portugal. Como os pastorinhos nada revelassem, mesmo aprisionados e vítimas de uma forte pressão por parte do administrador, acabaram devolvidos às suas famílias. A aparição, nesse dia, teria sido em um sítio diverso do habitual.

 

Ao mês seguinte, setembro, com mais de 15 mil pessoas no local, a Virgem Maria mandara que continuassem a rezar o terço e prometera, para sua última aparição, em outubro, um milagre que faria “todos acreditarem no que os miúdos lhes estavam a contar”. Quanto aos sacrifícios que os três pastorinhos passaram a fazer, Ela teria dito – “Deus está contente, mas não quer que durmais com a corda” (um grosso cordão de penitência, cheio de nós incómodos e que as crianças usavam cingido aos rins). “Trazei-a só durante o dia.”

 

A 13 de outubro desse mesmo ano de 1917, a multidão que, em sua maior parte, acorrera já na véspera à Cova da Iria, perfazia umas 50 a 70 mil pessoas, quase todas a rezarem com seus terços de devoção, seus nonos de fé e os seus inteiros de ingénua credulidade. Consta que então, mais uma vez, a Virgem apareceu em sua áurea de luz e pediu que fizessem ali “uma capela em minha honra”. Disse que era “a Senhora do Rosário” e que “não ofendessem mais a Deus Nosso Senhor, que por certo já anda muito ofendido com os pecados da humanidade”.

 

Contaram os miúdos que “ela abriu suas mãos de alabastro e fez com que estas se refletissem no Sol, ao que após elevou-se e desapareceu no firmamento”. Em seguida, os pastorinhos teriam visto, ao lado do Sol e de Nossa Senhora, o Menino Jesus com São José que “traçavam, com as mãos, gestos em forma de cruz, a modo de estarem assim a abençoar o mundo”. Lúcia vira depois Nosso Senhor a caminho do Calvário, “também a estender gestos de bênçãos ao mundo”. A mais daí, aparecera Nossa Senhora das Dores. Por fim, uma terceira visão: Nossa Senhora do Carmo, com o Menino Jesus ao colo.

 

fim-de-post

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 7 de Fevereiro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DAMA DA CAROCHINHA.

 

Mamã afeiçoara-se a Adelaide, desde a primeira vez em que se conheceram. Às vezes ousava dizer ao marido sobre tão improvável amiga – Pois a mim, agrada-me a sinceridade dela e a sua... a sua… (a palavra não lhe vinha: espontaneidade). Nem todos conseguem, como ela, tapar a boca ao mundo. Pelo menos quando as línguas ferinas estão diante de si. – Adelaide, no entanto, era portadora de uma fina educação, que recebera em um colégio de freiras de Coimbra. Desses tempos e desse claustro, quando estava a sós com Florinda, narrava cada história escabrosa que fazia Flor suplicar – Para, Dedé, para! Isso cá já me é demais! – e no entanto, quando necessário, a viúva sabia portar-se com muita dignidade e compostura. Sabia exprimir-se em mais de três idiomas e era portadora de certa erudição, adquirida em muitas leituras, ou em viagens aos grandes centros culturais da Europa de então. Tudo isso a tornava uma exceção entre as senhoras flavienses. As da chamada elite esquivavam-se de convidá-la para suas receções formais, porém vinham sempre lhe bater à porta, a fim de pedir óbolos destinados aos bazares beneficentes, ou que ela própria coordenasse a arrecadação dessas rendas e, até mesmo, animasse o giro das tômbolas, para o sorteio das prendas.

 

Livremente católica, como ela própria se dizia, a alegre viúva conjugava suas ideias com as do senhor Allan Kardec e muito lhe apetecia falar de reencarnação. Dizia que, em outra vida, tinha sido uma cigana espanhola de vida libertina, “Cármen, la Habanera”, assassinada por um jovem soldado enciumado que, no entanto, dizia amá-la demais. Aliás, quando começava a falar sobre os ciganos, havia que dar um jeito de fazê-la parar, antes que se estendesse pela tarde afora. Aurora, porém, ficava embevecida, atenta aos mínimos detalhes narrados pela excêntrica senhora, especialmente quando esta discorresse sobre os vastos conhecimentos que realmente detinha acerca dos hábitos e tradições gitanas.

 

Algumas vezes, porém, os cavaqueios tornavam-se chocantes para as meninas, se estas se achassem presentes à sala de visitas. Era quando a açoriana discorria sobre as coisas do mundo, expressão que ela própria utilizava para falar de certos comportamentos que elas, as mulheres da Quinta, nunca poderiam supor que existissem, como algumas histórias entre rapazes ou entre moças, em Paris e Berlim. Adelaide, porém, sabia como não se deixar exceder, sobretudo quanto a frases e contos chulos ou explícitos e, quando pressentia estar quase a ultrapassar as marcas, cessava o dito e olhava para Mamã – Mas ó Flor, de que é mesmo que estávamos a falar? – e passava à digressão de amenidades.

 

Apesar de tais incidentes, o que mais agradava a Flor era que as meninas também pudessem compartilhar de alguns momentos alegres e divertidos com essa mulher, de grande espírito, inteligência e senso de humor. A João Reis, porém, não gostava a presença da açoriana em sua casa. Era a velha falta de tolerância para com os outros, sobretudo os diferentes de nós ou de nossa tribo. Chegou a dar ordens expressas para que nenhuma de suas filhas entrasse na sala, quando aquela senhora lá estivesse. Apesar de toda a consideração de Mamã ao patriarca, até mesmo certo temor pela sua conhecida severidade, graças à qual ele se fazia respeitar, essas ordens, todavia, jamais foram cumpridas.

 

Ainda que, ao se recolherem aos quartos, as raparigas rissem muito, a caçoar de alguns caracteres da visitante, todas elas queriam muito bem a Dedé e se alegravam bastante, quando viam (ou melhor, ouviam) a Carochinha chegar aos portões da Quinta. À caçulinha, porém, como Arminda era tratada, aos modos do Brasil, não agradavam as excentricidades no vestuário da parenta. Desde miúda, apreciava os elegantes vestidos que eram mostrados nas revistas de moda de Paris e que o Papá fazia chegar de Lisboa, para sua Menina Flor. Mamã então, após escolher os modelos preferidos para si e as filhas, mandava cosê-los pelas melhores costureiras de Chaves. Quanto ao vestuário mais simples, a própria Mamã o confecionava em sua máquina Singer, o precioso mimo que, em substituição à velha Pfaff, o marido lhe presenteara no último Dia de Reis.

 

 

fim-de-post

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:30
link do post | comentar | favorito
|  O que é?
Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. DIVERSÕES DOMÉSTICAS.

 

Depois da ceia, Arminda e Aurélia entretinham-se com os brinquedos, na infância prolongada daqueles tempos, após cumprirem os deveres letivos para o dia seguinte, enquanto, em companhia de Mamã, as irmãs mais velhas bordavam, liam ou conversavam um pouco na sala de estar. Logo após o chá das nove, recolhiam-se todos aos quartos.

 

Sob os sete cadeados patriarcais, assim seguia a vida para as quatro meninas da Quinta Grão Pará. Acerca disso, o próprio Papá dizia – Filhas mulheres, há que se velar como filhotes ao ninho – e todos compreendiam que, se duas pupilas estavam a se mover no rosto dele como rastreadores luminosos, havia outras, múltiplas, invisíveis, a se entronizarem em cada uma das meninas e a acompanhá-las por toda parte.

 

Esses focos de vigília estendiam-se até mesmo aos meninos Afonso e Alfredo, ainda que lhes fosse dada uma relativa liberdade, porque, como dizia João Reis – Os filhos homens sabem o que devem cuidar, não precisam guardar o que trazem entre as pernas, apenas ter siso e juízo, para que suas preciosas chaves sejam usadas de bom jeito e não façam mal à fechadura de ninguém.

 

Gostava às meninas que Afonso trouxesse os amigos putos a casa, pois eram ocasiões em que, entre merendas, jogos de salão e os olhares vigilantes de Mamã e dos próprios manos, podiam se dar a digressões adequadas entre rapazolas e mocinhas de boa família. O que mais agradava a todos eram as adivinhações que Aurita aprendera com as criadas, muitas vezes bem picantes, embora a menina continuasse a demonstrar certa ingenuidade (de facto, a malícia nunca lhe houvera de ser uma caraterística na vida).

 

Dentre as várias adivinhas, em geral inocentes, ou seja, apropriadas ao ambiente familiar, Aurora propunha também algumas que faziam corar os jovens, além de deixar os irmãos menores sem ver o boi. Os miúdos, no entanto, embora não pudessem alcançar os duplos sentidos e, portanto, ficassem sem saber nem metade da jocosa missa, riam por afinidade. A Nonô, tampouco ela risse por dentro, tais adivinhações causavam pudicos embaraços. Ao Afonso e demais rapazes, produziam risos meio gaguejantes, que alguns tentavam esconder com as mãos à boca ou à cara total. Eram do tipo – “Qual é a coisa, qual é ela, que roça na minha perna, quando sobe ou quando desce e, quanto mais no meu pelo roça, mais pra cima ela me cresce?” – ou então – “Tenho um brinco, c’o brinco, brinco, já do brinco me aborrece, quanto mais c’o brinco, brinco, mais o meu brinco me cresce”.

 

Sobrevinha então um silêncio constrangedor, até que ela dissesse – mas é meia, ora pois, meia comprida de mulher! – e todos se aliviassem, a uma risada geral. Aldenora, porém, logo estaria a correr até Mamã, que de nada se apercebera em seus afazeres domésticos e se punha a aborrecê-la com suas quezílias junto à irmã. A rapariga estava sempre ansiosa por relatar à Mamã as indecências que a mana tinha aprendido com as criadas no borralho.

 

Depois que os colegas saíam, Afonso vinha muito sério até à irmã, a fim de repreendê-la. Apesar de sua condição de filho homem, naqueles tempos de plena supremacia masculina, talvez porque um ano mais novo do que a irmã, o rapazola não conseguia ter com Aurita a mesma autoridade do pai. Dizia apenas – Peço-te, minha irmã, não faças mais isso! Nunca mais estejas a dizer tais adivinhas, que eu não sei quem t’as ensinou e tu, ao que parece, nem alcanças de facto o que aprendeste!

 

fim-de-post

 

 

 

 

´
publicado por Fer.Ribeiro às 00:29
link do post | comentar | favorito
|  O que é?

.Fotos Fer.Ribeiro - Flickr

frproart's most interesting photos on Flickriver

.meu mail: blogchavesolhares@gmail.com

.Janeiro 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9

19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


.pesquisar

 
ouvir-radioClique no rádio para sintonizar

 

 

El Tiempo en Chaves

.Facebook

Fernando Ribeiro

Cria o teu cartão de visita Instagram

.subscrever feeds

.favorito

. Blog Chaves faz hoje 13 a...

. Solar da família Montalvã...

.posts recentes

. ...

. Chaves D'Aurora

. Chaves D'Aurora

. Chaves D'Aurora

. Chaves D'Aurora

. Chaves D'Aurora

. Chaves D'Aurora

. Chaves D'Aurora

. Chaves D'Aurora

. Chaves D'Aurora

. Chaves D'Aurora

. Chaves D'Aurora

. Chaves D'Aurora

. Chaves D'Aurora

. Chaves D'Aurora

blogs SAPO

.Blog Chaves no Facebook

.Veja aqui o:

capa-livro-p-blog blog-logo

.Olhares de sempre

.links

.tags

. todas as tags

.arquivos

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

. Dezembro 2014

. Novembro 2014

. Outubro 2014

. Setembro 2014

. Agosto 2014

. Julho 2014

. Junho 2014

. Maio 2014

. Abril 2014

. Março 2014

. Fevereiro 2014

. Janeiro 2014

. Dezembro 2013

. Novembro 2013

. Outubro 2013

. Setembro 2013

. Agosto 2013

. Julho 2013

. Junho 2013

. Maio 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Fevereiro 2013

. Janeiro 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Outubro 2012

. Setembro 2012

. Agosto 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Janeiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Outubro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

Add to Technorati Favorites