Quarta-feira, 15 de Março de 2017

Crónicas Estrambólicas

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O Melhor Do Mundo (Interior) São As Crianças

 

Já disse por aqui que a desertificação do interior não me perturba. Provavelmente havia gente a mais nas aldeias durante os anos sessenta, o que a terra dava não chegava para tanta gente, tinham mesmo que sair muitos. No entanto, parece-me que a este ritmo iremos ficar exageradamente desertificados nas próximas décadas. Leio as postas do Fernando e percebo o que o preocupa a falta de crianças nas aldeias, uma preocupação de quase todos nós. Não parecem haver muitas soluções à vista para este problema, tirando o criar-se mais empregos para jovens ou o estimular do nascimento de mais bebés, como faz a câmara de Boticas com incentivos em dinheiro. Contudo, a promoção do nascimento de bebés não surtirá efeito sem a criação de empregos, sem ganha-pão a malta continuará a sair. Apesar disso, o esforço posto na criação de empregos e bebés não parece estar a resultar. Sendo assim, se os bebés continuam a nascer cada vez menos e os empregos não aparecem, eu sugiro uma solução que mata dois coelhinhos com a mesma cajadada: vamos importar bebés. No meu concelho, Boticas, nascem pouco mais de 30 bebés por ano, o que brevemente porá em risco alguns empregos. É fácil de ver que sem alunos será insustentável manter o agrupamento de escolas do ensino básico. O fechar da escola, num concelho tão pobre como Boticas, levará a que imediatamente feche a única livraria/papelaria do concelho, 2 ou 3 cafés vão atrás, mais alguma mercearia, etc. Mas se aos 3 ou 4 lares de idosos que existem se acrescentasse um lar para acolher crianças abandonadas (sírias ou portuguesas, não interessa), esse poderia ser um remédio para a falta de bebés e ajudaria a criar empregos. Bastaria acolher 30 crianças por ano para dobrar o número de crianças no concelho, até umas 10 bastariam para fazer bastante diferença. Porque não pensar nisto? Parece-me uma ideia que facilmente se podia pôr em prática e que poderia ajudar um bocadinho a travar a desertificação do interior. Quem diz em Boticas, diz em Chaves, Montalegre, etc. Fica mais barato ao estado construir lares para crianças no interior e as crianças também beneficiariam, teriam uma alimentação melhor (boas batatas, boa vitela, boas couves e bom presunto) e os nossos ares puros da montanha, bem melhores do que aqueles lá para as bandas do Parque Eduardo VII.

 

[Estava a ver que ia acabar a crónica sem mandar nenhuma caralhada, sem dizer nenhuma estupidez ou meter-me com os lesvoetas. Ah, isto é um PS mas eu não uso PS’s, e não é por antipatias políticas, tem a ver com o nojo que me mete essa coisa de usar erudições finas para mostrar cultura, foda-se! Eu não estudei latim por isso não tenho nada que andar por aí a pôr PS’s e outros que tais. A César o que é de César (perdão!). Ninguém me apanha a fazer as figuras daqueles parolos que passam 50 anos nas américas e que conseguem vir de lá sem saber dizer um “What’s your name?”!, mas estão sempre com um “Yes” e um “Camone” na boca só para disfarçar! Levais com um itálico e um parêntesis reto que bem vos chega. E não andais para aí a ler este PS e a comentar para o lado em tom de voz enjoada “Ah, afinal isto é um PS, que chatice, que coisa chata, ele podia ter posto um PS logo no início, assim não se percebe nada, mas pronto, isto é o blogue de chaves e este rapazote é de Boticas, que se há de fazer...”. Fica-vos mal tanta burrice!]

 

Luís de Boticas

 

 

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Quinta-feira, 23 de Fevereiro de 2017

Crónicas Estrambólicas

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A Estadia da Rainha em Chaves

 

O deslumbramento com que a maior parte das pessoas fala duma estadia num hotel é uma coisa que me deixa parvo. Ao ouvir as longas conversas sobre os muitos e variados detalhes das hotelarias, nunca percebo a excitação com a coisa de passar umas noites fora do ninho, fico sempre a pensar “Será que esta malta ainda dorme em casa nuns colchões de palha com uns liteiros por cima?!”. É que a mim ninguém me tira o meu quartinho com os meus livrinhos e as minhas coisinhas, só por muita necessidade durmo num quarto onde já dormiram milhares de pessoas e, segundo estudos recentes, cujos lençóis nem sequer são mudados entre hóspedes (se é gente chique que vai lavadinha para a cama, nem se dá conta…). A excitação da malta é tanta que às vezes chego a pensar que a própria Isabel II de Inglaterra se põe a magicar em coisas, lá para os lados do palácio de Buckingham onde tem um criado para lhe pôr pasta dentífrica na escova e outro para lhe limpar o cu, e imagino-a nos seus pensamentos “Ah, que farta estou de andar de palácio em palácio, já não posso ver palácios à minha frente, o que eu gostava mesmo era de passar uma semaninha num hotel chique, até podia ser o Aqua Flaviae, em Chaves na rotunda ao pé das termas. Depois disso é que ia ser conversar com as minhas amigas rainhas sobre os colchões, os pequenos-almoços e os SPA’s, ia ser óptimo para variar desta chiqueza bafienta!”. Um dos temas das típicas conversas sobre a chiqueza dos hotéis é o pequeno-almoço. Mas isso só me faz desconfiar que a malta come em casa uma malga de leite rançoso com pão de 3 dias, tal é o deslumbre com a fruta e o fiambre hoteleiro. Eu, pela minha parte, fico sempre desiludido com os cereais ensopados em iogurte ou com as insípidas tostas. Nunca nos hotéis chiques me serviram pequenos-almoços de eleição, como um carolo de folar com uma malga de café, uns rojões em cima dum bom pão centeio ou mesmo um mata-bicho a sério, um bom bagaço com umas nozes. Fico sempre desiludido. Outra coisa que me impressiona na gente chique, frequentadora dos hotéis mais exclusivos, é o pouco apetite que eles parecem ter por refeições fora dos hotéis. Ouço sempre o mesmo “O pequeno-almoço era tão bom que nem precisávamos de almoçar!”. Desconfio que nem almoçam nem sequer jantam fora do hotel, pois pelo que vejo por aí, há gente a fazer tantas sandes e a enfiar para o bolso, que certamente passam o dia a digeri-las. O que a gente desta seita também gosta é do mini-bar ao lado da cama. Julgo que gostam do frigorífico anão pelo aparato, porque quem não tem 5 euros para gastar numa diária não me parece que se metam a desbundar água a 2 euros, especialmente sem espectadores para impressionar. Também dispenso bem essa coisa do mini-bar, preferia ser surpreendido com algum livro interessante ou talvez mesmo um penico, que seria mais útil. Se calhar o mini-bar é mas é útil para guardar as sandes do pequeno-almoço até ao jantar, e talvez mais algumas coisas. Não me admirava nada que algumas pessoas levassem para casa alguns quilos de queijo e fiambre que vão acumulando no mini-bar.  Juntando o queijo e o fiambre a mais duas ou três toalhas, um robe, uns litros de gel de banho e de champô, se calhar uma estadia num hotel de luxo acaba por ser mais interessante do que uma ida ao Continente para compras, que deve ser a explicação para tanta excitação.

 

Luís de Boticas

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:50
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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2017

Crónicas Estrambólicas - Champanhe e Rojões

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Champanhe e Rojões

 


Já ouviu dizer que os rojões do soventre só acompanham bem um bom champanhe? Não? Eu também não mas apetece-me pensar que sim, que seria um hábito que ajudaria a dar estatuto a uma iguaria que é incrivelmente boa.

 

Porque não começar com a tradição?

 

Vêm-me estas ideias à cabeça porque estamos na altura das feiras dos fumeiros. Sempre achei que essas feiras deveriam tentar atrair clientela da alta classe, endinheirada. Uma feira dirigida só para o povo, que aparece na feira de boina e a tocar concertina, parece-me uma feira com pouca ambição. Claro que o povo é essencial para se fazerem as feiras, mas nos dias que correm, com as modas da gastronomia gourmet, dos wine bars e dos tapas bars, frequentados pelas classes média e alta das grandes cidades, é uma asneira não tentar atrair esse tipo de clientes com muito poder de compra e influência nas modas. Uma apresentação mais cuidada, com boa música (uma boa orquestra ou um bom grupo de música tradicional), uma zona VIP, ou outras coisas no género, iriam aumentar o interesse pelas feiras dos fumeiros e por outro tipo de freguesia. Também me parece que os anúncios publicitários deveriam ser mais variados, até porque a imagem do aldeão e do porco está sempre a ser repetida e é redutora.

 

Sugiro exemplos de anúncios publicitários que julgo poderem vir a ajudar bastante o afamar dos fumeiros da nossa região.

 

1- [A ser filmado no Palace de Vidago, por exemplo] Entra o chefe Rui Paula (o do Masterchef) a alombar com um cesto enorme de rachas de carvalho para a lareira. Depois vê-se o chefe a mexer os rojões que rojem dentro dum pote ao lume duma lareira imponente. À mesa, um cliente, um senhor muito bem vestido, com classe (Pode ser o Maestro Vitorino de Almeida, por exemplo) recebe os rojões, dá uma trinca, apanha um copo e diz “Estes fabulosos rojões do soventre, de Barroso, só mesmo com um esplêndido Moët et Chandon!”.

 

2 - [Tentar usar o truque simples e eficaz da Ferrero Rocher] Aparece uma senhora muito chique, dentro dum rolls royce, a dizer ao condutor "Ambrósio, apetecia-me tomar algo... Salgado!". O condutor responde "Tomei a liberdade de pensar nisso, senhora" e carrega num botão que faz abrir uma prateleira, no banco traseiro do rolls, onde aparece uma alheira grelhada, ainda a fumegar, em cima duma fatia de pão centeio (Vocês não sabiam que os rolls já têm grelhas que cozinham alheiras ao toque dum botão?). A senhora exclama “Que maravilhosa alheira de Boticas! Obrigado, Ambrósio!”, ao que o Ambrósio replica “Senhora, uma sopinha de feijão no pote para assentar? Também se arranja!" e pisca o olho malandro aos espectadores.

 

3 - [Filmado em NY] Um personagem ao estilo dos grandes chefes de negócios da bolsa de NY (na onda do chefe mau do filme Wall Street), com um daqueles fatos de 10 mil euros, aspira fortemente 4 ou 5 linhas de coca sobre uma mesa, beija uma loiraça em topless e dá um berro ao criado "Traz-me o meu antepasto e uma garrafa de Château Lafite de 59!". Aparece o criado com a garrafa e uma pratada de salpicão, presunto e pão centeio. O chefão dá umas trincas e diz qualquer coisa do estilo "I love the antipasto from Barroso, the best around the world! Greed is good, get’s you the best grease!".


Já se sabe que os lesvoetas ao verem isto mandavam-se por aí acima como flechas. Com um bocado de jeito e paciência ainda transformamos os rojões no caviar do Séc. XXI.

 

Luís de Boticas

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publicado por Fer.Ribeiro às 13:00
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Quarta-feira, 20 de Julho de 2016

Crónicas Estrambólicas - Portugal, o maioral!

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Portugal, o maioral!

 

Para mim, Portugal é o melhor país do mundo, nem que seja por sentimental reasons (como diriam os panascas dos meus amigos da cidade, que passam a vida no caralho das lounges a comer tapas, sushis e essas merdas, mas que nem imaginam o que é um rojão do soventre. Se calhar é por isso mesmo que são uns palermas deslumbrados com a merda do sushi e do caralho que os foda...). Tirando as razões sentimentais, é muito fácil de ver que Portugal não é o melhor mas é dos melhores países do mundo. Basta ir consultar as tabelas daquilo que verdadeiramente interessa. Na esperança média de vida, estamos em 21º, à frente da Alemanha ou dos EUA. Há 200 países no mundo. A esperança de vida diz muito da qualidade de vida das pessoas. Na lista do Social Progress, estamos em 18º, à frente da Espanha ou da França. Na mortalidade infantil estamos entre os 10 melhores. Podia ir buscar mais um ou dois índices, dos que importam, mas não vale a pena, sei que estamos sempre, mais ou menos coisa, entre os 20 melhores dos 200, ou seja, de 0 a 10 temos 10. Pensando nestas merdas, não achais que é uma seca do caralho ter que estar sempre a aturar os discípulos do Eça, sempre a botar abaixo, a dizer mal de tudo, que eles estavam bem era em Paris ou em Londres? Ainda por cima só nos comparam com 2 ou 3 países de top e em coisas específicas, o que é absurdo, porque assim não havia países que dormissem descansados. Coitados dos austríacos se andassem por aí deprimidos por não terem nenhuma universidade nas 100 melhores ou por nunca terem ganho um campeonato mundial de hóquei em patins. Também não estamos numa altura tipo camoniana em que se podia mandar calar os gregos e os troianos ou Trajano e Alexandre (O Camões esticava-se p´ra caralho, é como estes tarados que acham que somos os maiores do mundo porque houve uma das 500 revistas espanholas disse que temos uma praia que é a melhor do mundo, baseada em comentários de sabe-se lá bem quem...). Tirando os exageros para um lado e para o outro, o que eu sei é que esta merda é muito fixe, tenho perfeita consciência que nunca vamos ter uma NASA e em vez disso teremos algumas aberturas de telejornal onde se conta que se descobriu que uma das 5000 mulheres da limpeza da NASA é tuga, talvez até consigamos meter lá um engenheiro, mas a verdade é que eu estou-me a cagar para essa merda. O que eu sei é que as naves e os satélites não me ajudam em nada a afumar a chouriçada, e em chouriçada, nem que eles se fodam todos, todos os anos somos campeões do mundo por larga margem. A mim, para me mudar para as finesses das Noruegas ou das Finlândias ou de NY ou de Londres, tinham que me pagar e não era pouco, ide-vos lá foder vós e a burrice! Aliás, um gajo vai a NY e nas montras é só merdas do estilo "European Food", "European Hair Style", etc. Concluindo: parolos e complexados há-os em todo o mundo, mas comedores de bom fumeiro só aqui em Barroso. Emigrai todos lá para as NY's que mais sobra, fodei-vos!

 

Luís de Boticas

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:43
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Quarta-feira, 15 de Junho de 2016

Crónicas Estrambólicas - Ciderado

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Ciderado

 

Ainda aquela coisa que o Cid disse sobre os transmontanos, que diz que são uns feios e desdentados que vão em excursões ao pavilhão atlântico e que nunca viram o mar... É um bocado estranha, não bate certo! Gajos que vão a Lisboa ao pavilhão atlântico e que nunca viram o mar?! Como é?! É como ele vir a Chaves e dizer que não viu um pinheiro! Também não percebo a grande importância que tem ver o mar... Se eu fosse numa excursão ao pavilhão atlântico e o condutor me perguntasse “Vamos dar um voltinha e passar na praia para ver o mar?”, eu era gajo para lhe dizer “Não vale a pena, é melhor virar para trás, já estou cheio disto, já tenho saudades dos montes e das chouriças e não estou para aturar mais lesvoetas, já me chega!”.

 

1600-furadouro (204)

 

É que o mar não tem nada que ver, ao fim duns segundos um gajo já viu tudo, é sempre a mesma coisa, pode-se estar horas a olhar para aquilo que o tal mar não passa de muita água azul e umas ondas, mais nada, um gajo não aprende nada a olhar para o mar, posso-vos garantir, já lá fui ver essa coisa! Aprende-se tanto como a olhar para a barragem dos Pisões, que é quase um mar! Aquilo serve para dar uns mergulhos e pescar umas trutas, agora para ver, para aprender?! Imagino que em Lisboa, lá na universidade do Relvas, um gajo inscreve-se em Geografia e durante a matrícula perguntam "Já viu o Mar?", se um gajo responde "Sim", tem logo equivalência a 6 ou 7 cadeiras. Será isso?! Se um gajo até tiver molhado os pés no mar, são gajos para dar a carta de capitão de navio, sei lá, aquela malta não regula bem! Tenho pena é que a capital não seja Madrid, era gajo para não me chatear tanto a aturar estes cromos, convencidos que já viram o mar... Vá lá foda-se!

 

Luís de Boticas

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publicado por Fer.Ribeiro às 19:13
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Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2016

Crónicas Estrambólicas - Desordenamento do Território

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Desordenamento do Território

 

Acho interessantes alguns dos factos que revelam o desordenamento do território português. Nalgumas coisas, o desenvolvimento dum país pode ver-se por coisas simples do dia-a-dia. Se chegamos a um país e vemos carros a cair de podres e trânsito caótico, percebemos logo que o país não funciona. Há outras coisas que não estão à vista, como as diferenças enormes que há entre as autarquias portuguesas.

 

Se formos ver como é que a população está distribuída pelas autarquias, ficamos a saber que Lisboa é o concelho com mais população, cerca de 550.000 pessoas, e que o Corvo é o concelho com menos gente, com apenas 430 pessoas, ou seja, tem cerca de mil vezes menos pessoas do que Lisboa, ou algumas centenas de vezes menos do que em certas freguesias, como a freguesia de Algueirão-Mem Martins com 62.557 habitantes. Mas não é só o Corvo que é pequeno, há vários concelhos com apenas mil, duas mil ou três mil pessoas. Há 37 concelhos com menos de 5.000 pessoas e 114 concelhos com menos de 10.000 habitantes. Aliás, o concelho de Lisboa tem tantos habitantes como os 100 concelhos menos populosos do país.

 

Não percebo porque é que em concelhos pequenos temos que ter estruturas pesadas, com presidentes de câmara e vários vereadores, mais os telefonistas e os motoristas e o resto da malta toda atrás, para tomar conta de mil pessoas! Parece-me escandaloso e é um indicador de que os desperdícios começam logo no nível mais baixo da estrutura, é um mau exemplo e mostra que quem está mais acima não está a fazer bom trabalho.

 

Claro que há pessoas que acham que os concelhos pequenos devem ser mantidos, porque é uma maneira de empregar pessoas e tentar manter gente no interior. Eu também acho que o interior deve ser ajudado, mas não é desta maneira. Este tipo de concelhos pequenos gasta cerca de 2000 euros per capita por ano, alguns gastam mesmo 4000. Há concelhos com 5000 habitantes a gastar 10 ou 15 milhões por ano, que é dinheiro que tem que se ir buscar à população através dos impostos (só metade da população é que trabalha e desconta para o IRS, por isso serão mais de 2000 euros por pessoa...). Se me perguntassem a mim, se preferia pagar 3000 euros de impostos por ano para ter uma câmara a tratar de 2000 habitantes ou se preferia pagar apenas 500 e ser governado pelo presidente da câmara ao lado que tem outras 4000 almas para dirigir, eu preferia ficar com o dinheiro no bolso para comprar mais umas vacas ou ir de férias para Cuba (na vez do presidente da câmara e dos amigos!). Parece-me que pelo menos uns 100 concelhos podiam desaparecer facilmente do mapa autárquico.

 

Pouparíamos uns mil milhões por ano e ainda tínhamos a vantagem de ter esses presidentes todos, mais os vereadores, fora do sistema burocrático (normalmente são gente dinâmica e empreendedora que estão ali desaproveitados) a formar empresas e a fazer crescer a economia. Porque nós bem sabemos que eles antes de irem para as câmaras eram pessoas empreendedoras, cheias de dinheiro, que até se sacrificam a ir ganhar menos só para nos ir ajudar. Eles iam à vida deles de empreendedores e nós com o dinheiro que sobrava íamos para Cuba passar férias à grande. Parece-me um bom negócio. Além de que não custava nada mudar esta divisão em concelhos do nosso país que foi feita já no longínquo ano de 1836...

 

Luís de Boticas

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 01:21
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Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2016

Crónicas estrambólicas - O meio porco escondido

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O Meio Porco Escondido

 

A gastronomia é um dos temas que mais interessam às pessoas. Toda a gente gosta de visitar, conhecer e discutir restaurantes, fala-se das estrelas da Michelin, há vários programas de culinária na TV, cozinha-se de maneira elaborada em casa, conversa-se sobre ervas aromáticas exóticas, sobre reduções e confitados, há restaurantes de todo mundo nas cidades grandes, desde os italianos aos de sushi, há variadas taperias (uma palavra que não existe em Espanha, onde as tapas se costuma servir em bodegas...), nas pastelarias bebe-se chá com scones ou muffins (não acredito que seja por snobismo, são hábitos...), e há filas enormes nas grandes cadeias internacionais, como no McDonalds ou no KFC.

 

O que me parece irónico é que no meio desta forte cultura de experimentação, da avidez de provar e saber de tudo, alguns dos melhores pratos da culinária portuguesa continuam completamente desconhecidos de grande parte dos portugueses, incluindo aquela malta com a mania que sabe tudo, que já correu os melhores restaurantes, incluindo os estrelados Michelin. Julgo que os meus fiéis leitores do Porto e de Lisboa, gente finíssima e viajada, muito abocada dos bons bocados, estão já a pensar “lá está este parolo, é um gajo que às vezes até escreve umas coisas, mas hoje está a exagerar. Deve ter alguma dor de cotovelo por ter que andar a pastar na tasca da esquina sabendo que nós nos divertimos nos michelins”. A verdade é que os comeres de que falo nem sequer são servidos em restaurantes. Os lesvoetas continuam a sorrir e pensam “Este pascácio acha que por viver em Boticas e poder comer, diariamente, ovos caseiros das pitas do capoeiro privativo ou alguma orelha mal lavada de porco caseiro, já se acha um expert em culinária! Valha-lhe Deus!”. Não se trata nada disso, o que queria dizer é que acho que os rojões do soventre (por exemplo) são um dos melhores petiscos que comi na vida, mas que quase ninguém conhece. Uma busca no Google por “rojões do soventre” dá apenas uns 200 resultados, quase todos vindos de blogues de gente saudosa da vida da aldeia. Procure-se “cozido à portuguesa”e aparecem mais de 300 mil resultados. Os rojões do soventre, por vezes, comem-se sobre o nome de torresmos em restaurantes brasileiros, já que são populares no Brasil, mas a receita não é a mesma... Cá, nem nas taperias! Há algumas raras tascas que os servem, claro. Continuando com os rojões, outro prato excelente é o que se serve tradicionalmente no almoço da matança do reco, os rojões da costela, completamente diferentes dos rojões do soventre ou das tripas. Onde é que se come isso?! Em lado nenhum! Imagino que os leitores de Lisboa pensam “Nessas feiritas do fumeiro de Boticas e Montalegre, devem servir essas coisas, basta ir lá para ver se este parolo tem razão, pode até ser que os rojões sejam interessantes barrados com foie gras ou trufas, pode mesmo ser que até sejam crocantes!...”, mas estão enganados, não se vê disto nas feiras, nem nos restaurantes típicos e especializados em coisas típicas, só mesmo em matanças privadas. Os rojões da costela nunca são muitos e os lavradores nem se dão ao trabalho de os levar para as feiras. Outro prato que acho do melhor, estrondoso (eu sei que os adjectivos politicamente correctos seriam fantástico ou maravilhoso, mas eu ainda sou daqueles que não come comida porque está crocante e recordo-vos que isto é uma crónica estrambólica), são os ossos da suã, especialmente os caseiros, que mais uma vez vos asseguro que não são servidos nas feiras nem em restaurantes que servem material caseiro. Há um ou outro restaurante que serve os ossos, mas o sabor é diferente, embora na falta dos verdadeiros sejam bons. Há um restaurante em Coimbra que vive de servir os ossos e é bastante popular, não percebo é porque não há mais, poderia ser um prato popular. Podia continuar a falar doutros petiscos deliciosos e pouco conhecidos mas fico-me por aqui. O texto já vai longo e nunca se pode contar tudo senão os lesvoetas pensam que já sabem tanto como os parolos.

 

Luís do Boticas

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 03:28
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Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2016

Crónicas estrambólicas - Internet in Interior

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Internet in Interior

 

A internet é uma maravilha para espalhar informação, que se torna ainda mais importante no interior, onde os habitantes dalgumas aldeias têm que se deslocar mais de 30 km para ir comprar um jornal ou um livro.

 

Parece-me também que a internet poderia ser muito útil para travar a desertificação do interior, não apenas por informar as pessoas mas por poder ser usada para criar empregos.

 

Creio que os Call Centers e os Contact Centers, localizados nas grandes cidades, poderiam ser facilmente deslocados para as regiões do interior, que é uma coisa que já está a ser feita nalgumas cidades como a Guarda, Beja, e outras, mas não em Chaves. São negócios que têm a vantagem de serem fáceis de montar e de baixo investimento. Basta uma sala, algumas dezenas de secretárias, um computador por secretária, e não muito mais. Um Call Center situado em Chaves teria a vantagem de poder servir empresas de Portugal e também de Espanha, derivado à localização fronteiriça e ao facto dos flavienses falarem castelhano ou de se poder contratar espanhóis sem dificuldades.


Outro tipo de negócios que poderiam ser montados em Chaves são a venda de roupas e acessórios online. Parece-me que as empresas do tipo La Redoute (esta empresa tem o seu armazém em Leiria, que distribui a roupa trazida em camiões desde França) poderiam ser facilmente instaladas em Chaves, até porque as encomendas são entregues através dos correios, não sendo muito importante a localização do ponto de distribuição. Talvez haja até vantagens na distribuição poder ser feita a partir de Chaves, ao lado de Espanha e da fronteira.

 

De certeza que haverá outro tipo de negócios que envolvem a internet e que poderiam funcionar no interior, sem a necessidade da conveniência da proximidade de portos de mar ou de grandes cidades. Parece-me que faltam apenas pessoas com iniciativa e vontade de fazer coisas, porque o investimento nalgumas destas empresas não é dos mais elevados.

 

Luís de Boticas

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:30
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Quarta-feira, 4 de Novembro de 2015

Crónicas estrambólicas - A semana da salsicha e do encher chouriços

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A semana da salsicha e do encher chouriços

 

  1. A Salsicha

Aquele estudo da OMS, a dizer que o consumo de carne e de carne processada provoca cancro, anda-me aqui atravessado. Ou os gajos mostram o estudo ou eu borrifo-me. Para já, para os gajos terem alguma estatística, têm que estudar pelo menos umas 20 mil pessoas durante uns 20 anos (há cerca de 26 pessoas em cada 1000 que sofrem de cancro, por isso nem sei se 20 mil seria pouco). Claro que podem comparar essas 20 mil pessoas com outras tantas que sejam vegetarianas. Só que as pessoas que comem carne também comem fiambre, chouriço, vaca e porco, cabrito e salsichas, se calhar são capazes de comer queijo, uns iogurtes, ou sei lá, cometer alguma estravagância e provar peixe! Como é que os gajos podem ter a lata de vir dizer que as salsichas e os enlatados provocam cancro?! Será que a culpa não é das mousses de chocolate ou da fanta de laranja? Será que puseram 20 mil pessoas a comer salsichas com batatas e ovos durante 20 anos?! E se afinal a coisa era dos ovos? Repetem nos próximos 20 anos? Quero que a malta desses estudos se lixe. Venha lá a linguiça e a alheira, que a tosta-mista não me faz mossa.

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  1. A encher chouriços

Se não fossemos um país de bananas, de doutores e engenheiros cheios de frescura, de formalidades que obrigam a pintelhos com permanente bem feita e bem encaracolada, na sexta, antes da tomada de posse do novo governo, teríamos tido um presidente sem merdas, prático, a tomar outras atitudes. Em vez de dar posse ao governo diria antes uma coisa simples: rapazes, já que não vos entendeis, vou voltar com a palavra atrás e não vou perder tempo a dar posse ao Coelho, não vale a pena estarmos com mais 2 meses de teatro se já se sabe onde isto vai acabar, não vamos estar com merdas e a enconar. Ó Costa, desencanta aí um governo e acaba-se com isto.

 

O mesmo se poderia aconselhar ao Passos, que poderia dizer algo do estilo: rapazes, se é para ir para ali 15 dias a fazer que faço e a estragar a vida aos outros, mais vale voltar já para a Tecnoforma.

 

Quem é que mandou o Cavaco e o Passos teimarem em que as eleições fossem em Outubro em vez de Setembro, de maneira a que agora não há volta a dar nem há orçamento para a Merkel? Quem é que os mandaram ser burros? Que seca isto de aturar esta cambada!

 

Luís de Botícas

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 02:08
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Terça-feira, 29 de Setembro de 2015

Crónicas estrambólicas - Latinos pisces

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Latinos pisces

 

Há uns dias, em férias e longe de Chaves, fui a um Ecomarché comprar peixe. Reparei que as tabuletas que identificam os peixes com os nomes e os preços tinham também os nomes científicos dos peixes, em latim, a indicar as espécies. Não percebi qual a utilidade do latim, imagino que seja para evitar confusões entre potas e polvos (para além de haver mais de 10 tipos diferentes de potas e haver mais polvos do que o Octupus vulgaris...) ou entre palocos e bacalhaus (há vários bacalhaus para além do nosso do Atlântico, o Gadus morhua), não sei. Achei piada quando percebi que as rigorosas definições científicas são uma merda para certos efeitos, como a culinária. No início pensei que poderia ser algum empregado a meter água ao escrever os nomes, mas depois vi que não, que os nomes populares dos peixes são, por vezes, mais sofisticados do que os eruditos nomes em latim. O carapau e o chicharro tinham o mesmo nome Trachurus trachurus, mas soube depois (ao ler depois em casa) que o carapau é um chicharro pequeno. Há outros casos assim, o safio e o congro têm o mesmo nome científico Conger conger porque o safio é um congro jovem. A verdade é que agora imagino alguém a pedir no talho Ovis aries e o talhante responder-lhe "Ó homem, mas você quer cordeiro, borrego, ou carneiro velho?!". As coisas que um parolo aprende nos armazéns onde as massas ignaras fazem compras e rezam loas ao deus do consumo.

 

Luís de Boticas

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:57
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Sexta-feira, 7 de Agosto de 2015

Crónicas estrambólicas - O Telefone do Fernando

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O Telefone do Fernando

 

Há uns dias telefonei ao Fernando Ribeiro, dono deste blogue, para lhe fazer uma pergunta. Atendeu e disse-me “Estás com sorte! Não costumo atender números privados mas desta vez até atendi!”. Eu nunca tenho o meu número como privado, calhou estar assim por ter andado a mexer no telemóvel. Não percebi bem a cena do Fernando com os telefones. Afinal atende ou não atende números privados? Será que se acha capaz de adivinhar que há números privados que são de confiança?! É estranho! Nunca entendi o problema das pessoas em atenderem números privados.

 

Até há uns 15 anos atrás todos os telefones fixos tocavam sem nos dizerem quem estava a ligar. Se antigamente se atendia na boa, pois não havia outro remédio senão levantar o auscultador e perguntar “Está lá? Quem fala?”, qual é o problema de agora atender um número privado? Porque se pode? Isto dos telefones nos alertarem para o chato que nos vai dar uma seca é uma vantagem, mas se há chato com um número privado, é assim tão difícil um gajo desmarcar-se, quando está a usar um aparelho que “pode ficar” sem bateria ou sem rede?! Se é uma conversa em pessoa, os chatos podem agarrar-nos por um braço, mas ao telefone é fácil dizer qualquer coisa do estilo:

 

"1. Olha que estou a ficar sem bateria (se o gajo se estica mais 1 minuto, um gajo fica mesmo).

2. Olha que estou a ficar sem rede (e fica mesmo)

3. Olha que estou praticamente sem bateria e estou a ir para um sítio sem rede (para os gajos muito chatos).

4. Olha que estou a acabar de confitar um cabrito e ainda tenho que reduzir um molho, para além de estar a ficar sem bateria e a cozinha estar a passar por uma zona sem rede (Esta aplica-se a gajas muito chatas e burrinhas mas boas como o milho, um gajo está interessado mas não é em conversa).”

 

Essa mania de não atender números privados parece-me mais uma tara de alguém que quer mostrar que é tão bom que nem se pode dar ao trabalho de dizer que está a ficar sem bateria. Por outro lado, há outras pessoas que nunca dão o número de telefone a alguém, pelo menos é o que dizem. Só dão o número a determinadas pessoas e essas estão proibidas de o divulgar. Mais uma vez, parece-me tara. Antigamente toda a gente tinha o nome e número escarrapachado na lista telefónica, que é para isso que elas existem, para as pessoas irem procurar o número de alguém a quem querem falar.

 

Isto de ter número semi-secreto é coisa de crianças a brincar ao presidente da Casa Branca ou ao FBI. Também querem ter um número secreto que só os agentes especiais (os amigos, nem todos...) é que podem saber o tal número, o mesmo número que a seguir vão ter que dar a alguém que lhes vai a casa reparar o cano da sanita.

 

Com gente desta no mundo, isto dos telefonemas é uma confusão. Os gajos que não dão o número a ninguém, suponho que telefonem às outras pessoas com o número privado. Se ligam para o Fernando, este não atende gajos com manias porque tem as manias dele. Se ligam para o Fernando porque ele é amigo e tem o número, têm que andar a tirar a privacidade senão ele não atende. Se ligam para um parolo que atende a todos mas não querem que o parolo saiba o número, têm que mudar para privado. Por último, imagino que haja aquela classe de pessoas que tenham o seu número privado e que só atendem números privados porque sabem que os amigos com classe só têm números privados. Será?! Que confusão!

 

Luís de Boticas

 

 

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Terça-feira, 28 de Julho de 2015

Crónicas estrambólicas - Aluado

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Aluado

Foi há 46 anos que os gajos foram à Lua. Pus-me a pensar nos malucos que se dão a esses trabalhos, nos putos e adultos que sonham em ser astronautas ou em outras merdas que a mim não me passam pela cabeça, como piloto de aviões. Nunca na vida quis ser piloto de aviões porque aquilo é uma seca. Um gajo tem que descolar, ser muito picuinhas e cuidadoso ao levantar, depois liga-se o piloto automático e apanha-se secas de horas infinitas a olhar para as nuvens, a seguir volta-se a ser muito picuinhas, seguindo instruções muito rigorosas, e aterra-se a máquina. Qual é a piada dessa merda? Muito mais interessante é conduzir, porque num carro um gajo aprecia a paisagem, pode fumar, ouvir rádio, falar ao telefone ou com os passageiros, ultrapassar, fazer uns despiques, derrapar numas curvas, passar num vermelho se não vem ninguém, galar as gajas nas paragens de trânsito, estacionar em dupla fila, etc. Ser taxista é muito mais interessante do que piloto. Astronauta é que é do pior que há, é mesmo de malucos, de gajos completamente tarados. Como é que alguém se submete a 3 ou 4 anos de treino super-rigoroso para ir tentar (nem todos chegam ao ponto de participar em missões) pôr um pé na Lua durante 2 horas? A mim não me convenciam a ir. Imaginando que por circunstâncias muito especiais não havia mais ninguém e que eles me vinham implorar para eu ir, dizendo que eu que é que tinha as características certas, gajo de tomates e que ia dominar a nave na perfeição, que eu é que tinha mesmo que ir, que não havia outro como eu, e pronto, eu lá lhes fazia o jeito e ia contrariado, acho que o filme seria mais ou menos o seguinte. Durante os 3 ou 4 anos de treino iria apanhar altas secas com os totós colegas e não conseguiria andar certinho, teria que beber umas cervejas à escapula e aparecer ressacado nas manhãs de treinos e aprendizagem. Mas como eu era o tal especial, os gajos teriam que me aturar essas merdas. Em chegado o dia, lá me metiam no foguetão onde eu iria apanhar alta seca de duas semanas, ou mais, numa viagem em que um gajo está fechado num cubículo, pior do que uma prisão, a aturar os mesmos totós, noite e dia, a ter que ser muito picuinhas a conduzir a nave, a não poder ir ao café, a não poder dormir numa cama, a comer sandes (ou pastas ou lá o que é), a cagar e a mijar para a fralda (ou lá o que é), a perder os episódios da novela, sujeito a que aquela merda explodisse, etc.

Lua - Quarto Crescente

Acho que chegaria à Lua num estado de nervos do caralho, porque se eu detesto fazer viagens longas de camioneta, esta, que seria muito pior, acabaria comigo. Finalmente, chegávamos à Lua, mas como eu tinha sido o escolhido para ser o primeiro gajo a pôr as patas na Lua, abria a porta, descia as escadas, mas não sei se me iria lembrar da frase que os gajos me teriam ditado, uma coisa para ficar bonita, do estilo "That's one small step for a man, one giant leap for mankind (um pequeno passo para mim, um passo gigante para a Humanidade)". De certeza que eu iria aproveitar esse momento para me vingar das secas todas. A Humanidade toda à espera que eu dissesse alguma paneleirice mas o que eu iria dizer seria algo do estilo "Foda-se, chegamos, caralho, tanta merda para isto, pá, não há cá nada, é tudo cinzento, podemos ir já embora. Nem gajas, nem restaurantes para um gajo matar a fome, nem sequer um McDonaldezeco, aqui não há nada que preste, vamos mas é bazar, puta que pariu esta merda!". Os gajos da NASA passavam-se e o Buzz Aldrin vinha-me dizer para acalmar "Ó pá, tem calma, vamos só pôr a bandeira e apanhar umas pedras, tem calma que já vamos!" e eu a responder-lhe "Tá bem, vamos lá acabar com essas merdas mas pára com esses saltinhos paneleiros que já me estás a irritar, caralho, vamos lá despachar isto!". Lá acabávamos com as tretas, metíamo-nos na nave e voltávamos, enquanto eu desesperava com mais uma semana a pão e água, a ter que gramar sandes já mais que ressequidas. Mas de certeza que eu não iria aterrar a nave no Pacífico, nem pensar, no cu é que eu aterrava no Pacífico, no caralho é que aterrava lá! Como eu é que era o maioral, o que eu faria era aterrar a nave na barragem dos Pisões para ir poder comer, logo a correr, um bom cozido à barrosão, ali no Sol e Chuva. Não, estas paneleirices de astronautagens não são para mim, não vejo o interesse da coisa. É como aqueles malucos que só para se poderem gabar que chegaram ao Pólo Norte, sujeitam-se a ficar sem dedos e a gramar condições do piorio. Se lhes perguntarem se para chegarem ao Pólo Norte se sujeitavam a serem enrabados ao chegar lá, de certeza que eles aceitavam, porque tanto lhes faz ficar sem dedos como serrem enrabados, o que eles querem é gabarolice, são uns peneirentos. Se eu quisesse também ia lá ao PN, tenho bom cabedal e nem sou friorento, ainda no Natal estive na fogueira de Natal ao ar livre, só de camisa e de mangas arregaçadas. Só que não me apetece, não vejo qual é o interesse, nem de helicóptero lá punha os pés. Que se foda.

 

Luís de Boticas

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 04:50
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Quarta-feira, 3 de Junho de 2015

Crónicas estrambólicas - DJ Wild

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DJ Wild

 

O Filipe Coutinho, conhecido como DJ Wild, é um rapaz que trabalha como DJ na noite flaviense. Começou há muitos anos na discoteca Triunfo, depois passou pelo Ámiça, Platz, etc. Agora também vai a vários países da Europa passar música em discotecas. É do Couto de Dornelas (Boticas) e foi viver para Chaves há cerca de 20 anos. Além de passar música, gosta de compor e fazer música em casa. Acho que é uma pessoa com valor e que se deve louvar. A viver em Chaves e a trabalhar em discotecas do interior, também lança a sua música no mercado. Ultimamente, tem feito bandas sonoras para filmes portugueses. Há uns tempos ganhou o prémio de Melhor Banda Sonora num festival em Roma (notícia aqui)) com a música do filme Pecado Fatal. Com essa banda sonora, foi também um dos nomeados para Melhor Canção Original para os Prémios Sophia da Academia Portuguesa de Cinema, mas perdeu para o Clandestinos do Amor da Ana Moura. A RTP2 transmitiu a atribuição dos “Prémios Sophia 2015″, a partir do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém. Goste-se ou não da música, acho que é de gabar este rapaz do Couto, flaviense adoptado, que apesar de ser um autodidacta e viver numa cidade do interior, nunca desistiu das suas paixões e sonhos, e anda por aí a ganhar prémios de prestígio e a rivalizar com gente como a Ana Moura. Se eu fosse presidente da câmara, juro que lhe mandava a casa 3 ou 4 presuntos mais umas garrafas de bons vinhos. Porque de prémios e medalhas, o rapaz não parece estar muito necessitado, mais vale deixa-las para pessoal mais desconhecido e mais necessitado delas.

 

 

 

Luís de Boticas

 

 

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Terça-feira, 24 de Março de 2015

Crónicas estrambólicas - A flora de Chaves

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A flora de Chaves

 

Andei a folhear uma publicação antiga, a Ilustração Transmontana (Archivo Pittoresco, Literario e Scientifico das Terras Transmontanas). No volume de 1909, há alguns artigos sobre Chaves. Num artigo sobre a flora (escrito no português de antes do grande acordo ortográfico de 1911, aquele que mudou os PH’s para F’s) conta-se que a flora da zona nunca foi estudada, excepto uma vez, há uns cem anos atrás. Em 1797, dois allemães illustres, o conde de Hoffmansegg e o professor Link, vieram a Portugal estudar a flora, mas a zona transmontana ficou em claro por o professor ter sido chamado a apresentar-se na universidade de Rostock. O conde voltou sozinho em 1800 e visitou Chaves, depois duma passagem por Montalegre.

 

As conclusões, que o conde publicou no livro Viagem em Portugal, são descritas nesse artigo:

 

“O termo de Chaves, com vinte e oito leguas quadradas de extensão, comprehende cento e oitenta e seis aldeias, sete mil e setenta e oito fogos, e trinta e tres mil e oitenta almas—o que dá mil duzentos e sete habitantes por legua quadrada, população bastante consideravel. A villa contém seiscentas e oitenta casas, e tres mil seiscentas e cincoenta almas.”

 

Queixamo-nos, agora, da desertificação... Se calhar o alemão tinha razão, há gente que chegue.

 

“Dois quintos da comarca são cobertos de castanheiros e algumas outras arvores; um quinto está inculto e dois quintos são agriculturados. Cultiva-se muito centeio, colhe-se milho maez, trigo e batatas, mas pouco vinho e quasi nenhuma seda. As outras producções consistem em linho, de que se recolhe annulamente seis mil arrobas (a arroba tem vinte e oito libras); em lã quatro mil arrobas por anno; e em cera duzentas arrobas.”

 

Já na altura a agricultura não era afamada.

 

Seria engraçado recriar algumas coisas desse tempo, como a cultura da seda e do linho.

 

“Emprega-se uma charrua especial, cuja relha é curva e abre sulcos pouco profundos e afastados uns dos outros deseseis pollegadas; como o sulco da relha não tem mais de quatro pollegadas de largura, fica entre cada sulco um espaço inculto de dez a nove pollegadas. Este methodo, usado em muitas províncias em Portugal, é sem duvida uma das causas principaes do pouco rendimento das terras. Não se estrumam os campos, porque se imagina que é inutil. Lavra-se quatro vezes e estorroa-se ou grada-se outras tantas, as grades são semelhantes às nossas mas os seus dentes são feitos de pau. O desterroador não está em uso, porque se julga demasiadamente trabalhoso o leval’o todos os dias para o campo e tornal’o a trazer.”

 

Estamos sempre atrasados tecnologicamente, até nessa altura as charruas não lavravam fundo e as grades ainda tinham dentes de pau, não de ferro, como os alemães! Adiante.

 

“Ainda que o lavrador portuguez não goste do trabalho, entrega-se no entanto a uma operação fatigante que repete duas vezes por anno, a de sachar a terra em volta do milho e doutros cereaes.”

 

A ideia que já nessa altura os alemães tinham de nós...

 

O artigo da revista transmontana é assinado por Gonçalo Sampaio, da Academia Polytechnica do Porto.

 

Luís de Boticas

 

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Terça-feira, 23 de Setembro de 2014

Crónicas Estrambólicas

Suponho que hoje ainda vamos ter por aqui mais uns “Estratos” da Rita, mas enquanto eles não chegam e como por aqui, ultimamente, o que é ocasional virou a moda, inauguramos hoje mais uma crónica de um autor que há muito vem colaborando com o blog, precisamente em “Crónicas Ocasionais” mas às quais decidimos dar nome numa rubrica própria, que acontecerá ocasionalmente. A crónica passará a ser intitulada por “Cronicas Estrambólicas” e a autoria é do Luís de Boticas. Fica então a primeira, desta nova série:

 

 

As Intermitências Do Pimba

 

Em 2040, Portugal era o país mais intelectual do mundo. A aplicação de políticas de excelência com uma aposta muito forte na educação e o regresso em massa dos cérebros que tinham emigrado, transformou Portugal num país extremamente refinado. A população era composta por 95% de licenciados (80% deles tinham também um doutoramento) em universidades locais, que estavam classificadas como as melhores do mundo, ultrapassando as americanas e inglesas. A população vivia um estilo de vida intelectual com dedicação fanática. Os livros esgotavam rapidamente, os jornais de qualidade nunca eram suficientes e os espectáculos de artes eram muito procurados. As televisões abriam de manhã com concertos de ópera ou jazz e as tardes eram preenchidas por debates profundos sobre artes ou ciências, sempre com grande sucesso de audiências e muita competição entre os canais (aos Domingos à tarde, quando a SIC passava uma ópera do Mozart, a TVI não se ficava atrás e passava outra do Vivaldi). Apesar disso, os resquícios da cultura pimba dos anos 10’s preenchiam completamente a programação da RTP 2, que tinha a pior audiência de todos os canais. Nesse canal (altamente subsidiado pelo estado) podiam ver-se coisas como concursos de música pimba, noticiários de 2 horas com bastante coscuvilhice, 7 novelas diárias, etc. Este era o canal dos pimbalectuais, gente que adorava o pimba, mas que estranhamente se apresentava como os antigos intelectuais, com óculos redondinhos e aparências cuidadosamente descuidadas. A classe intelectual, para contrastar, vestia-se como as donas de casa do antigamente. O estado subsidiava fortemente a cultura desta minoria pimbalectual. Enquanto os espectáculos de ópera e jazz esgotavam rapidamente, os concertos de música pimba sobreviviam apenas porque eram subsidiados. O teatro de revista também vivia à custa do estado, ao contrário dos teatros que passavam peças de Shakespeare ou Becket, tão concorridos que as pessoas passavam noites nas filas para as bilheteiras enquanto se entretinham a ler coisas como o Guerra e Paz ou o Quixote. O futebol também perdera toda a popularidade e os estádios tinham sido vendidos a companhias que os enchiam com multidões fanáticas que assistiam aos espectáculos do campeonato nacional de dança contemporânea, onde actuavam dançarinos idolatrados, pagos em milhões, que faziam vender três jornais diários dedicados exclusivamente à dança contemporânea e ao ballet, com mais um ou outro artigo sobre valsas. Os pimbalectuais detestavam toda esta cultura popular intelectual que era fortemente publicitada por todos os meios de comunicação social. Durante o verão, acontecia o descalabro, todas as vilas e aldeias tinham festas e festivais de jazz e clássica onde os intelectuais dançavam elegantemente e com entusiasmo. Do outro lado, os pimbalectuais zurziam e desdenhavam (em crónicas na revista Maria e em debates no canal 2) de todo este mainstream das multidões intelectuais, com um desprezo especial pelos dançarinos pagos em milhões. No meio desta confusão intelectopimbactual, havia um pequeno grupo completamente desorientado: os hipsters. Estes já não sabiam o que fazer e apareciam nos bares da moda com tangas de pele de leopardo, lanças na mão, etc. Não sabendo já onde se posicionar, pelo sim e pelo assim-assado, passavam exclusivamente música obscura chinesa nos seus bares fora de moda.

Luís de Boticas

 

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